sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Paz, unidade e fé


A alma humana é naturalmente religiosa. Mesmo que algumas pessoas procurem suprir isto refugiando-se num ateísmo professo, a fé no transcendente refugia-se no inconsciente. É uma questão de identidade humana. Ser ou não ser significa desvendar mistérios. Isto é que une a raça humana. A busca do Espírito pode trazer uma força unificadora e fazer com que a humanidade possa viver uma unidade coerente. Se dialogassem na única força que os une, judeus, cristãos, muçulmanos e hindus não dariam um exemplo ao mundo de que a Paz vem da grandeza da fé que está no coração? Que as religiões aprendam, uma com a outra, onde buscar a fonte da harmonia.

FELIZ NATAL!

quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Solidarizar-se é relacionar-se


Paz não é romantismo, nem fruto de momentos de auto-ajuda, relax, terapias e preces. “Ah! Estou tão em paz comigo mesmo!” Claro que se o eu está bem o comum vai melhor. A verdadeira paz é solidária. Não olha só para si, mas é includente. Religião que resolve apenas o problema do eu desaparece na história. A verdadeira religião anuncia um amor que sai dos limites do eu, não exclui ninguém e abraça a salvação da história. Ninguém acredita num amor que é indiferente ao sofrimento da humanidade. Relacionar-se é ser humano cristão perfeito.

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Paz e igualdade


Paz é um valor universal. Que todos os credos busquem a paz, o não perder o que é bom e ganhar o que for melhor para todos. Assim honramos um único Deus, geramos prosperidade para todos os povos, segurança para todas as formas de governo. Hoje brigamos muito por estruturas, por ideologias partidárias, por limites territoriais, por recursos naturais e tecnológicos e diferenças culturais e raciais. Mas uma mística que leve a uma harmonia essencial de todas as formas de religião e governo pode nos dar uma luz. Mais mística e menos conflito. Mais prece universal e menos tensão. Mais profundidade e menos mediocridade. A paz nivela a todos num valor maior.

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Solidariedade contagiosa


Renasce em toda a parte a solidariedade, este valor que nos lança para fora de nós mesmos. Quem sai de si e busca soluções mergulha nas dificuldades dos outros e diminui a própria dificuldade. O solidário percebe a vida do outro e da outra, uma vida precária, insalubre, sem expectativa, sem graça, sem possibilidades, sem inclusão. O solidário muda sua consciência, sua percepção, aguça a sua sensibilidade e o conceito de dignidade, amplia o senso de pertença comunitária e se mobiliza. Faz das necessidades do outro e da outra a sua causa, encontra o sentido da cooperação, do amor, da coletividade, da comunhão, de partilhar tempo, competência e coração.

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Paz, solidariedade e justiça


Lutar pela Paz é ir contra todo poder e força usados para destruir a vida. A humanidade cresceu em recursos técnicos e científicos, mas distribuiu mal tudo o que conquistou. Doenças que seriam curáveis continuam matando, a fome aumenta, o progresso é para poucos, ainda há bombas, massacres, preconceitos e atentados. Nos comunicamos com o mundo por satélite e ignoramos a vida do próximo mais próximo. Existir não depende apenas de recursos materiais, porém da fraternidade, paz, solidariedade e justiça. Recordemos Martin Luther King: “Temos de aprender a viver juntos como irmãos ou pereceremos juntos como loucos”.

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

A FraternidadeEcumênica


No ano 2000 tivemos a primeira Campanha da Fraternidade Ecumênica com o tema “Dignidade Humana e Paz”; agora, as igrejas, os movimentos, pastorais se unem, convocam todas as denominações cristãs e todas as pessoas de boa vontade a se unirem na prática da Solidariedade e na concretização da Paz. O objetivo é o mesmo da eterna motivação evangélica: o encontro fraterno de todos os cristãos, o conhecimento da situação de vida do nosso povo e restabelecer a ordem onde se espalha a miséria, a violência e a exclusão. Fraternidade e partilha. Sinais vivos de amor e reconciliação para fazer valer a Paz do Senhor.

quinta-feira, 29 de novembro de 2007

A dimensão solidária do projeto franciscano -
Final

Com Francisco aprendemos que ser solidário é a identificação com a Pobreza e com o pobre; que ser solidário é ser irmão e irmã de todos, ver o mundo no coração da experiência de alguém que está experimentando uma grande carência. Isto é que transforma as práticas e o modo de estar no mundo, tornando “o amargo em doçura de corpo e alma” (Test 3).
Francisco não está preso aos projetos do mundo. Ele se recusa a ter um pensamento utilitarista, isto é, ter o melhor uso dos recursos para o melhor funcionamento dos sistemas; um processo que continua industrializando e mercantilizando mentes e corações (cf. o filme “Quanto vale ou é por quilo?” de Sérgio Bianchi). Ele é um pobre, um livre, um diferente, um irmão que mostra que a verdadeira solidariedade é apontar para a desumanidade; é notar a negatividade e as injustiças presentes nos processos sociais e lutar contra isso; questionar as promessas que o sistema faz e não cumpre; deixar as pessoas falarem; educar para a originalidade; cuidar da singularidade da pessoa para que ela seja cada vez mais ela mesma e não apenas vítima; pregar é viver a sensibilidade, a fineza, a cordialidade; ser um instrumento da paz, e paz é garantir a quem precisa o melhor!
Com Francisco, temos a inspiração para transformar, viver e praticar a solidariedade como Serviço!

Este artigo foi publicado na Revista do Sefras de 2006

quarta-feira, 28 de novembro de 2007

A dimensão solidária do projeto franciscano -
5ª parte


Com o Projeto Franciscano aprendemos que solidariedade é energia de amor e generosidade, que é a busca incansável do bem, do dom de si à fraternidade humana; uma atitude permanente de renúncia e serviço; de gerar recursos para viver e trabalhar em benefício de todos.

Com o Projeto Franciscano aprendemos que Pobreza não é contrária ao sonho de ter nem a angústia de não ter, mas é gerar recursos, trabalhar e dividir com todos. Aprendemos que Obediência é atitude constante de escutar o Amor e dizer “De boa vontade o farei, Senhor!” e, a partir daí, ter paixão na vontade e nos projetos. Aprendemos que a Pureza de Coração é a epífania de um Amor solidário e universal.


Amanhã, a sexta parte deste artigo.

terça-feira, 27 de novembro de 2007

A dimensão solidária do projeto franciscano -
4ª parte


Francisco ensinou a solidariedade através do Cântico das Criaturas, isto é, a destinação universal de todos os bens, a fraternidade universal e o universalismo fraterno. O Altíssimo Onipotente, o Bom Senhor, o Sumo Bem, é o Deus de nosso coração que nos convoca a um Amor Universal, inaugura a fraternidade de todos os seres, de todas as criaturas, de todas as pessoas. Todo ser criado nos remete à Fecundidade Social do Amor. A verdadeira fraternidade humana se ampara na comunhão de valores e de bens fundamentais para a vida: a terra, a água, o ar, o fogo, a luz, o verde das plantas, a habitação, o mundo limpo e bonito, partilhado e cuidado para oferecer a todos as melhores condições de viver. Ao dividir tudo isso, conquistamos a verdade, a justiça, o amor, a solidariedade, a liberdade, a mais plena comunhão de bens e de dons.

Amanhã, a quinta parte deste artigo.

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

A dimensão solidária do projeto franciscano -
3ª parte


Porque decidiram viver nas ruas e pelos caminhos de Assis, pelas estradas da Úmbria e do mundo, da portaria do mosteiro de São Damião à todas as portas abertas das necessidades sociais, perceberam os malvistos e malcuidados, os banidos e os que são vítimas de preconceitos de castas e credos. É assim mesmo! Quem decidiu seguir as sendas de Jesus Cristo, consegue ver melhor o faminto, o preso, o nu, o sedento, o pequeno, o sofrido e o paralítico. Não tem como não filtrar tudo pelos olhos do Evangelho e suas práticas.

Na sua origem, o Projeto Franciscano, teologicamente, é centrado na Encarnação, na Paixão e na Eucaristia. A Encarnação é um Deus que vem morar junto, é humano, é raça, é presença, é um atencioso pleno de cuidado. A Paixão mostra que a Cruz não é fim; é fonte! Fonte da capacidade do Amor se entregar até às últimas conseqüências. A Cruz fala em meio a enigmas, entregas e incompreensões, mas sempre fala e manda reconstruir! A Eucaristia lembra, cada dia e em todos os lugares, a partilha, o fortalecer a caminhada, o dar um pedaço, revelando nele a própria natureza, alimenta-se de um Deus que se faz humildade e comida para tocar o humano nas suas entranhas.


Amanhã, a quarta parte deste artigo.

Na imagem São Francisco e a Cruz

sexta-feira, 23 de novembro de 2007

A dimensão solidária do projeto franciscano -
2ª parte


Fazem a experiência de esmolar; e a esmola não era só o que se recebia como doação ou o que se oferecia prodigamente, mas era, sobretudo, estar no lugar onde estavam as necessidades dos doentes e leprosos, dos pobres e fracos, dos mendigos, dos irmãos e irmãs, da gente excluída e desprezada. Aqui começa a primeira prática solidária: o que eu tenho eu dou, porque é preciso viver não para si mesmo, mas em favor dos que necessitam; e viver era suprir, oferecer, estar junto, dividir, providenciar o necessário (cf. Rnb 9). Cresceram eles e todos que participavam deste modo de ser, pois quem vai ao encontro da necessidade alheia devolve à pessoa a sua beleza e dignidade.

Este texto continua na segunda-feira

quinta-feira, 22 de novembro de 2007

A dimensão solidária do projeto franciscano -
1ª parte


Quando Francisco de Assis, a partir de 1205/1206 concretizou a Fraternidade Franciscana, agrupou pessoas para viver com eles, radicalmente, os valores do Evangelho. O grupo primitivo de Francisco não passou despercebido porque teve um modo original de se expressar socialmente. Seus companheiros, e pouco depois, Clara de Assis e suas companheiras, vieram de várias categorias sociais; mas o seu propósito tão claro, criou uma única classe humana: a dos que fazem o Amor ser realmente Amado! Escolhem a itinerância e a Contemplação como um modo de vida e isso os ajuda a viver o desprendimento, a mobilidade, o privilégio de não ter privilégios, a liberdade, a igualdade, e uma caridade que garante uma prática do Evangelho e uma visão de mundo muito sensível.

Amanhã, a segunda parte deste artigo.

Imagem do pintor Robert Lentz

quarta-feira, 21 de novembro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem - Conclusão


No modelo de Francisco podemos ver a compreensão franciscana do Homem; não sem certa dificuldade, porque o homem moderno, frio, calculista, cético... tem dificuldades em medir-se com o ardor e paixão, emoção, pobreza, doçura e rudez de um modelo assim. Mas existe o confronto, pois como diz Agostinho Gemelli: “O homem de nosso tempo procura e encontra em Francisco algo de que tem sede”.
Para os que amam o seu lado natural e ecológico, ele é um homem primitivo. Para os que amam a reflexão, ele representa o fervor das palavras contra a aridez dos discursos. Para os de sensibilidade estética, ele é um jeito novo, um pão caseiro. Para a História e a Mística, ele é uma fonte inesgotável, um provocador espiritual e um sempre novo modo de conceber a vida.
Termino citando um teólogo franciscano que nos recorda que: “Diante de Francisco descobrimo-nos imperfeitos e velhos. Ele aparece como o novo e o futuro por todos buscado, embora tenha vivido há 800 anos. Mas este sentimento é sem amargura, pois sua mensagem encerra tanta doçura que o medíocre se sente convidado a ser bom, o bom a ser perfeito, e o perfeito a ser santo. Ninguém fica imune à sua convocação vigorosa e ao mesmo tempo terna”(30).

(30) L. Boff, São Francisco de Assis: Ternura e Vigor, Petrópolis, Vozes, 1981, 181.

Imagem: Crucifixo do Santuário de Arezzo.

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem - 26ª parte


Suas atitudes causavam grande impacto num tempo cheio de ódio, lutas e cobiça. Mesmo ali mandava a lei do mais poderoso e competitivo. Neste contexto ele apresenta uma proposta nova de relacionamento mais prático. A cortesia dos nobres estava presente nas canções e idéias, a de Francisco era imediata e desinteressada.

Francisco tinha sonhado repetir as empresas de Carlos Magno e Artur; depois da conversão não renega aqueles que foram os seus ideais de juventude e, com muita sensibilidade, soube colher os aspectos mais nobres da cavalaria para fixar-lhes uma nova ordem, em que o perdão substitui a vingança, o amor substitui o ódio, o espírito de dedicação o orgulho, a sede de paz e de justiça os saques e acúmulos, a humildade substitui a opressão do comando (29).

Em Francisco, a cortesia não é uma etiqueta, uma norma de civilidade social, mas é a expressão insubordinável e inevitável de seu sentimento interior: é o modo como o outro deve ser amado de um modo verdadeiro. É um relacionamento de respeito, retidão e sinceridade.

Na sequência, a conclusão deste artigo

Imagem "São Francisco prega em Assis", de J. Benlliure


(29) P. Anasagasti, La cortesia, prioridad del Pobrecillo, CF, 22 (1988) 36-42

quarta-feira, 14 de novembro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem - 25ª parte


Os trovadores iam de castelo em castelo cantando o amor-cortês. Os cavaleiros andavam na sua busca influenciados por este modo de viver. Francisco certamente ouviu demais falar desta virtude bastante presente nas gestas dos paladinos, nos romances do ciclo do Rei Artur, nos contos narrados por sua mãe. A cortesia entra na sua mística: “Mansidão, gentileza, paciência, afabilidade mais que humana, liberalidade que ultrapassa seus recursos, eram sinais de sua natureza privilegiada que anunciavam já uma efusão mais abundante ainda da graça divina neles”( LM, 11)

Este texto é uma espécie de “semântica da cortesia”, que vai preparando um quadro de objetiva disponibilidade para a santificação. Francisco era cortês por natureza; isto fazia com que estivesse sempre preocupado pelos direitos dos outros, repartindo tranqüilidade e alegria.

Este artigo continua amanhã

terça-feira, 13 de novembro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem - 24ª parte


11. A cortesia como virtude: nobreza de atitudes
Falemos da cortesia... Quem viveu a realidade e a fantasia das legendas cavaleirescas conhece o reino da cortesia. É muito difícil dar uma definição exata da cortesia, pois é todo um vasto mundo de significados.
Diz o poeta: “uso di corte, quando ne lê corti anticamente lê virtudi e li belli costumi su’usavano” (Dante, Convívio, II, X, 8). Este é o ponto de partida para a compreensão: os costumes e usos da corte para se trabalhar a virtude. Isto compreende uma série de valores: lealdade, generosidade, prodigalidade, fineza no trato, atenção devota à pessoa do outro, gênio do gosto, comunidade dos que amam o belo.

Imagem em aquarela: Francisco na sua juventude, de Romeo Cianchetta

Amanhã, a continuação deste artigo

segunda-feira, 12 de novembro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem -23ª parte


É o hino de quem caminha, de quem é peregrino que passa e vê, extasia-se mas não toma posse. É o cavaleiro bêbado de símbolos e de mitos! É o trovador que sente a limitação de suas palavras, e, na impossibilidade de dizer, convoca todo o cosmos...
É o canto do servo que se reconhece quase um nada diante da Grandeza de seu Senhor, por isso torna-se submisso, humilde, consangüíneo de todo o ser criado...

Imagem de Nelson Porto

Amanhã, continua com o subtítulo "A cortesia como virtude: nobreza de atitudes"

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem - 22ª parte


10. Francisco e as criaturas

Todos conhecemos o Cântico do Sol de Francisco de Assis, um marco e símbolo da sua relação mística com o cosmos e a reabilitação da matéria. Neste Cântico celebra a fraternidade cósmica da criação, e novamente, com sua aguçada sensibilidade, nos lega mais uma jóia da poesia religiosa popular. Um momento poético de rara inspiração! É um canto que brota da felicidade, da felicidade de amar, de ver, de sofrer, da capacidade de perdoar. Neste Cântico, Francisco mostra-se de um modo muito autêntico, é muito disponível em desvelar o seu ser.
É a expressão direta e imediata de louvor ao Senhor através da mediação da realidade criatural. Nele aparece Francisco que se inebria de seu Senhor, deixa-se iluminar por ele, deixa-se cuidar. Canto de maravilha e encantamento!

Amanhã, a continuação deste subtítulo


quarta-feira, 7 de novembro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem - 21ª parte


Ilustremos isto com um texto de Facchinetti: “Os amigos ideais entre os companheiros de apostolado de Francisco, encontramos naqueles frades devotos que o seguiam, discípulos fiéis e admiradores do Mestre. Recolhiam-se com ele na solidão dos ermos e das florestas, compreendiam-se perfeitamente em espírito, imitivam generosamente seus exemplos, viviam a sua mesma vida de extrema pobreza, com ardor seráfico, com simplicidade profunda, em oração contínua e austera penitência, numa fraternidade recíproca, em perfeita alegria, o seu esforço incessante era imitar e chegar à perfeição segundo os vestígios do Pai Seráfico, e procurando reproduzir, neles mesmos, o mais fielmente possível, as virtudes do seu Grande Guia Espiritual” (28)
Não era apenas um seguir como estar fisicamente junto, mas era repetir em sua vida o modelo e a experiência de seu mestre e senhor. Imitar é método, é aceitar o convite de fazer e refazer junto e exercitar-se naquilo que o Mestre exige...

(28) V. Facchinetti, San Francesco d'Assisi e l 'amicizia cristiano, Quaracchi, 1923, 117.


Imagem mostra o Vitral da Igreja de São Francisco, em Guadalajara, México

Amanhã, a continuação deste artigo com o subtítulo "Francisco e as Criaturas"

terça-feira, 6 de novembro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem - 20ª parte


9. O ser discípulo
O discípulo é aquele que está no movimento de refazer o Mestre, é aquele que, diante do Mestre, está sempre disposto ao aprendizado. Copia não para multiplicar, mas para descobrir a originalidade única do Mestre:“Irmão, prometi fazer tudo o que fizeres, por conseguinte, convém que me conforme em tudo contigo” (Sp 57).
Todo o caminho de Francisco foi um engajamento em causas nobres. Reúne mais do que qualquer outra figura na história espiritual, porque soube expressar interioridade e humildade, uma indômita energia de querer seguir, uma heróica potência de ação, necessária para completar o humano e um desígnio que vai além do humano (27).
O engajamento numa grande causa é que chamamos de discipulado. No coração da experiência do Grande Outro fazer a própria experiência. É o colocar-se aos pés de um mestre e predispor-se a acolher aquilo que é digno de alimentar uma vida.
(27) A. Chiappelli, L’Anima eroica di Frati Francesco e l’Italia, RI (1927) 46.

Este artigo continua amanhã neste subtítulo.

segunda-feira, 5 de novembro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem - 19ª parte


Ser nobre é dar um sentido a tudo o que se faz. É não gastar e desgastar a vida por pouca coisa, é ter uma medida de grandeza. “A grandeza de uma época depende da quantidade de pessoas capazes de sacrifícios qualquer que seja o objeto destes sacrifícios... Dedicação é sua palavra de ordem! Dedicação é não apenas garantia de um soldo seguro. Com que coisa começa a grandeza? Com a empenhada entrega a uma causa... a grandeza é uma ligação entre um determinado espírito e uma determinada vontade” (26)

Ser nobre é ter uma ambição sadia. Não é uma vontade egoísta, porém é uma vontade que visa uma plenitude. Se quer ser, tem que ser o melhor! O entusiasmo aparece como uma força, como um sonho, um impulso. É um fenômeno sonhar, querer, buscar! Isto caracteriza a nobreza de Francisco: este impulso interno para algo que vale a pena viver, algo em que vale a pena investir. É tão convicto de seu sonho, de seu ideal, que não se sente ofendido quando um companheiro de prisão o considera louco. Mesmo nesta situação não perde a sua postura de nobre. Ser nobre é ser transparente, sereno, não agressivo, ser cada vez mais nítido e seguro naquilo que se quer.

(26) Esta é uma “afirmação de Jacob Burckhardt, defendendo a grandeza do Mundo Medieval como a nossa “real existência”. Texto citado por H. Fuhrmann, Guida ao Medioevo, 24.

Na imagem, a transparência e a nitidez da água ao focar um cardume.


Amanhã, a continuação deste artigo

quarta-feira, 31 de outubro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem - 18ª parte


Quando se fala de nobre, neste contexto, quer se revelar uma identidade não jurídica, mas existencial, um modo de ser daquele que tem postura nobre, daquele que é naturalmente nobre.
Não é um humano qualquer, um humano que se encontra com o banal. É algo muito mais forte, mais vigoroso. É aquele que possui um projeto de vida e o persegue com todas as suas forças. Quem tem um projeto de vida muito concreto sempre tem algo para transmitir, possui um atração muito especial, revela este humano nobre. Afirma Delort: “O nobre se distingue dos outros por um gênero de vida, por uma mentalidade toda particular, por saber morar, saber vestir, saber exprimir um sentimento, por acreditar em laços edificantes, por inspirar-se em heróis e ter um modelo de vida, por saber ocupar-se, pelo espírito de combate” (25).

(25) R. Delort, La Vita quotidiana nel medioevo, Roma-Bari, Laterza, 1989, 144.
Este artigo continua amanhã. Na imagem, Gandhi faz massageem em um "leproso". Um exemplo de nobreza.

terça-feira, 30 de outubro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem - 17ª parte


8. A nobreza de costumes
Na vivência medieval e, de um modo específico, no ideal cavaleiresco, destaca-se a nobreza. O que é ser nobre? Por que dizemos que ser nobre foi uma tônica e uma procura durante a juventude de Francisco?
A Legenda dos Três Companheiros mostra de um modo preciso a naturalidade nobre de Francisco: “As virtudes naturais foram os degraus de que a graça divina se serviu para o elevar a ideais mais nobres” (3Comp 3,3).
A alegre, mas não decadente juventude de Francisco, foi o prelúdio natural de um ideal maior, de propósito sobrenatural que vai emergindo com muita espontaneidade e dedicação. Uma liderança carismática, uma jovial fraternidade, um modo de amar apaixonado, uma nobreza de sentimentos, são marcas deste período de sua vida (24).
Falamos de nobreza de costumes. O que isto significa? É um termo que quer mostrar algo mais do que uma simples herança, um título, uma tradição familiar do assim chamado padrão de sangue azul.

(24) F. D’Anversa, L’allegra giovenezza di San Francesco, IF, 4 (1926) 273.
Imagem "A Juventude de Francisco", do livro "A Vida de S. Francisco", de Romeu Cianchetta

Amanhã, continuaremos neste subtítulo

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem - 16ª parte


7. A “Floresta dos símbolos”
O medieval está sempre empenhado em decifrar. Gosta do simbólico e nele vive imerso. O símbolo está presente na arquitetura eclesial, nas cerimônias, nas formalidades políticas, nas bandeiras e estandartes, nos emblemas, nas armas, nas legendas, em todas as alegorias.Este aspecto é sempre direcionado para o espiritual, nada pode destruí-lo porque se orienta para a luz. Faz parte deste núcleo humano e lhe abre tantas portas de compreensão. Esta é a diferença entre o medieval e o moderno. Nós, hoje, pela displicência quanto ao valor simbólico das coisas, esvaziamos e mecanizamos o sentido de tudo. Naquele tempo o símbolo conferia, mesmo às palavras, um fervor todo especial, contemplativo, desvelado (22).
Com esta visão do Homem vai vivendo a sua tensão, sobretudo as duas tensões fundamentais: fé e a realidade do mundo, a imanência e a transcendência. Francisco viveu isto em sua carne e espírito e inculcou esta tensão em seus frades, e de um modo quase exclusivo e transcendente. Esta era a sua “Weltanschauung”, a alegoria da realidade mundana, transitória e caduca, suspensa entre o nada e a nova realidade escatológica. Esta é a expressão simples e genuína da esperança franciscana (23).

(22) Sobre os símbolos medievais, cf. M. M. Davy, Introduzione al Medioevo, Milão, Jaca Book, 1981; G. de Champeaux-S. Sterckx, I Simboli del Medio Evo, Milão, Jaca Book, 1981
(23) S. Nicolosi, Medioevo Francescano, Roma, Borla, 1983, 229-230.

Imagem de São Jorge: simbolismo medieval

Este artigo continua amanhã


sexta-feira, 26 de outubro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem - 15ª parte


6. O “Santo Propósito
O espírito de aventura, um sonho movente, um impulso, um ainda não-ser mas querer-ser, querer dar o melhor de si, ia criando um vigor próprio:“O que pensais de mim? Ainda serei venerado pelo mundo inteiro!”(3Comp 2,4)“Sei que hei de me tornar um grande príncipe” (Idem, 2,5).“Dissestes a verdade, eu estava pensando em escolher uma esposa, a mais nobre, a mais rica e a mais bela que jamais vistes” (Idem, 2,7)Assim viveu Francisco, como os heróis dos romances cavaleirescos, imaginando, avançando a olhar apenas em frente, imerso em pensamentos profundos, confiando nos sonhos, abandonando-se à Providência, “andando sem ter pra onde, mas sabendo um porquê”(21)Quem parte para a conquista quer encontrar e provar alguma coisa: a si mesmo, seu valor, seu destino. Por isso consegue dialogar com o mais profundo, entrar numa espécie de transe, tentar decifrar o núcleo, o enigma escondido. Esta busca se transforma numa conquista superior. É a procura do Santo Graal. O Santo Propósito. A verdade transformadora de Francisco é o modo como ele acreditava apaixonadamente no seu projeto.

Imagem de Dante Gabriel Rossetti, "O Cálice Sagrado"

Este texto continua na segunda-feira

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem - 14ª parte


5. A Penitência: Um Caminho para eliminar os excessos

Para Francisco e seus primeiros companheiros a penitência é uma carta de identidade porque está integrada num projeto de vida: eliminar o próprio egoísmo para deixar transparecer o Senhor, como ele mesmo diz no Testamento de 1226: “Foi assim que o Senhor concedeu a mim, Frei Francisco, iniciar uma vida de penitência”.
Desta frase do Testamento podemos ver que penitência significa aquela reviravolta que leva o homem “de uma vida instintiva centrada sobre o seu próprio eu, para uma vida inteiramente sujeita e abandonada à vontade e senhoria de Deus”(19)
Para o frade primitivo ser penitente é sair do mundo secular e entrar mais no espaço do divino, individualmente ou dentro de um grupo:
“Diziam: ‘De onde sois?” Ou então: ‘A que Ordem pertenceis?’ E eles respondiam com simplicidade: “Somos penitentes e viemos da cidade de Assis’”(3Comp 37)
Com um modo original os frades primitivos se integravam na concepção penitente da época: engajar todo o seu próprio ser, canalizar o sentimento, exercitar a vontade.
O fazer penitência está no cerne do ideal de Francisco, no seu pensamento, na sua ação. Através da penitência molda a sua existência para entregá-la totalmente ao Senhor. (20)

(19) K. Esser, Origini e Inizi del Movimento e dell’Ordine Francescano, Milão, Jaca Book, 1975, 197
(20) R. Pazzelli, San Francesco e il Terz’Ordine. Il Movimento Penitenziale Pré-francescano e francescano, Pádua, Ed. Messagero, 1982.

Imagem de Benlliure

Amanhã, a continuação deste artigo

quarta-feira, 24 de outubro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem - 13ª parte


4. O “Homo Viator”
Outra característica do medieval é aquela de sentir-se um viandante, um peregrino, sempre a caminho, sempre em viagem neste mundo, na sua vida, no seu espaço, no seu tempo. É o “Homo viator” que procura o seu destino de vida e de morte e vai andando, segundo suas escolhas, rumo à eternidade. Le Goff nos lembra que na paisagem medieval “paradoxalmente até o monge caminha, ele que, ligado por vocação à clausura, vai frequentemente pelas estradas. No século XIII, os frades da Ordem dos Mendicantes, com Francisco à frente, estavam sempre “in via”, na estrada, como nos seus conventos” (17)O medieval é um peregrino por excelência, por vocação, por essência, por risco. Os três lugares mais importantes de peregrinação eram: Jerusalém, Roma e Santiago de Compostela, sem contar os outros inúmeros santuários. Cada ser humano era um peregrino em potencial com toda a sua riqueza simbólica. A estrada torna-se lugar para medir a estabilidade, a moral, a salvação, o espírito errante, missionário, vagabundo. (18)

(17) Ibidem, 8
(18) G. B. Ladner, Homo Viator: Medieval Ideas on Alienation and Order, Speculum 63 (1967) 235.

Imagem do Santuário de Santiago de Compostela


Amanhã, a continuação deste artigo

terça-feira, 23 de outubro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem - 12ª parte


3. A luta entre o bem e o mal

O medieval não foi um personagem tranqüilo. Estava sempre em luta, numa luta que ia além das suas possibilidades; luta entre o Bem e o Mal, entre Deus e o Demônio. Por isso mesmo não se acomoda, está sempre em estado de batalha. É preciso limpar dentro de si e na vida aquilo que não é bom, é necessário chegar a uma retidão de vida. Não adianta lutar por uma ordem externa se o interior não tiver conquistado a própria harmonia. Com isto podemos entender por que nesta fase da história florescem os ascetas, monges e penitentes.
Ao eliminar os vícios se nasce para uma postura mais nobre, mais livre, mais digna e muito mais transparente. Esta realidade encontramos no testemunho dos textos franciscanos, num modo muito simples de mostrar como a comunidade primitiva franciscana, vencendo “este gênero de espíritos malignos”(RnB 3,1), ia firmando a sua vida num ideal muito grande. Superar tentações, pecados, demônios... pertence ao caminho da perfeição, é um processo de ir aparando arestas: “Todos os irmãos se ocupem ardorosamente em trabalhos honestos, pois está escrito: Entretém-te sempre nalgum bom trabalho, para que o demônio te encontre ocupado” (RnB 7,10) .

Imagem de Michelangelo, "Expulsão do Jardim do Éden"

Amanhã, a continuação deste artigo.

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

A Compressão Franciscana do Homem - 11ª parte



Estar dentro de uma estrutura religiosa, para o medieval, era moldar um comportamento. Entra-se numa organização para trabalhar um modo de ser. É definir bem o lugar do encontro. É não perder a própria identidade e não ter dificuldades com certos esquemas tais como: superior, súdito, servo, obediência etc. Entrava-se ali para fazer uma experiência e testar uma coerência de vida. A organização era respeitada como vontade de Deus e esta falava nos princípios herárquicos. O medievalista Lê Goff diz que “sob o plano social e político, o homem medieval obedecia superiores, clérigos, reis, senhores, chefes municipais. Sob o aspecto intelectual, mental, religioso, obedecia tudo o que o cristianismo histórico lhe impunha: Bíblia, os Padres da Igreja, os Mestres...”(16) A autoridade tinha um valor abstrato e superior. A grande virtude exigida tinha bases religiosas e chamava-se: obediência.
Francisco integrou-se neste espaço cultural e estrutural de regras, votos e fidelidade e até privações, para submeter-se e cumprir o que havia prometido.

(16) J. Le Goff, L’Uomo Medievale, 37.


Imagem do artista plástico Beto Coelho

sexta-feira, 19 de outubro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem - 10ª parte

2. A Religião como modelo

Nesta sociedade, dominada pela religião, o modelo que aparecia do humano vinha sempre definido a partir da religião, e, “em primeiro lugar, pela mais alta expressão da ciência religiosa: a teologia”. (13) O Homem era conhecido a partir da sua capacidade de crer e participar de uma estrutura de inspiração eclesial. Eram poucos os que negavam a Deus, embora não se possa ignorar as reações anticlericais, as contestações doutrinais existentes. Sabatier afirma: “Os conservadores de nosso tempo, que se voltam para o século XIII como a idade de ouro da fé imposta, cometem um estranho engano. Se é o século dos santos por excelência, é também aquele dos heréticos”(14)
Religião era uma palavra forte e significativa. Francisco mesmo a tomou como um lugar existencial. Podemos encontrá-la em inúmeras citações das Fontes Franciscanas, por exemplo: “Esta é a santa Ordem dos Frades Menores, a maravilhosa Religião de homens apostólicos, digna de ser imitada”.
(13) J. Lê Goff, L`Uomo Medievale, 3-4
(14) P. Sabatier, Vita, 32.

Imagem: Capela do Trânsito Basílica de Santa Maria dos Anjos Afresco D.-Bruschi

Na segunda-feira, a 11ª parte deste artigo

quarta-feira, 17 de outubro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem -9ª parte


Na diversidade da sociedade medieval, entre nobres, mendicantes, guerreiros, camponeses, monges, jograis, ricos e pobres, existe um modelo de Homem? A resposta é afirmativa. Poucas épocas da história tiveram, como este período, “a convicção da existência universal e eterna de um modelo humano” (11).

A busca deste modelo está presente na interrogação de Frei Masseo: “Por que a ti, por que a ti, por que a ti?”( I Fioretti, 10).

Neste mundo que se torna sempre mais o da exclusão, marcada pela legislação dos Concílios, decretos, do direito Canônico e pela prática, exclusão dos judeus, dos leprosos, dos hereges, dos homossexuais, onde a Escolástica exalta a natureza abstrata e ignora o universo concreto, Francisco proclama, sem o menor ranço de panteísmo, a presença divina em todas as criaturas. Entre o mundo monástico banhado em lágrimas e a massa dos despreocupados mergulhados em ilusória euforia, ele propõe o rosto alegre e sereno daquele que sabe o que é realmente uma serenidade existencial. “É o contemporâneo dos sorrisos góticos” (12).


(11) J. Le Goff, L’Uomo Medievale, Roma-Bari, Laterza, 1983, 3
(12) Id. Francisco de Assis entre as Inovações e a Morosidade do Mundo Feudal, Concilium 169 (1981) 14.

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem - 8ª parte


A precisão e a distância cronológica não são necessárias quando se faz o confronto com um homem assim, “em quem é imersa, de modo excepcional, a natureza humana nos seus impulsos constitutivos, na densidade ontológica, nas formas existenciais inéditas, mas que, no encontro com a realidade, é constrita a re-explicar-se em tempo propício” (9)
Francisco atravessa o tempo sempre sugerindo, sempre sendo um pólo de atração. Como diz E. Balducci: “Desejaria conduzir os leitores a reconhecerem em Francisco aquele excesso de humanidade que, quando aparece, vem acolhida com admiração, entre as pretensões do homem histórico, e que hoje tem diante de si condições aptas para fornecer-lhe carne e sangue. Sendo assim, o fenômeno Francisco sai do âmbito especializado da hagiografia e entra naquele da antropologia, sai do espaço sagrado e entra no espaço leigo” (10)

(9) E. Balducci, Francesco d’Assisi, Florença, Ed. Cultura della Pace, 1989, 5.
(10) Ibidem

Amanhã, a nona parte deste artigo

quinta-feira, 11 de outubro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem – 7ª parte


Francisco, porque viveu bem o particular de sua época, torna-se universal, e “continua a provocar interesse e ocasiões celebrativas” (6) No concreto de sua história ele vive o Núcleo Absoluto, a essência do humano e do divino, por isso desperta uma atração, é amado e estudado, “se escrevem bibliotecas inteiras” (7), mas nele haverá sempre algo para se descobrir: “Francisco não necessita de biógrafos. Estes dispõem de sete séculos, e nenhum deles ainda soube penetrar plenamente o segredo da sua personalidade. Mas é verdade o contrário: Os biógrafos precisam de Francisco! Cada geração sente a necessidade de fornecer a “sua” versão do “seu” Francisco, de interrogar-se sobre o que ele tem a dizer-lhe” (8).

A oitava parte será publicada na segunda-feira, dia 15

(6) F. Cardini, Francesco D’Assisi, Milão, Mondadori, 1989, 24.
(7) Ibidem(8) Ibidem

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem – 6ª parte


Para compreender a inspiração franciscana é preciso ter bem claro o significado desta época. Ao viver intensamente seu momento histórico, Francisco o transformou de simples história em história espiritual. Como diz Hermógenes Harada: “Todas as épocas e períodos da humanidade possuem suas superfícies e seus subterrâneos profundos. Francisco, não ficou na superfície, mas foi à raiz, ao centro energético de tudo, e aí captou todas as suas forças. Existe um período hoje: permanecermos na superficialidade e não sermos capazes de captar as energias que brotam do subterrâneo da nossa atualidade”.

Amanhã, a sétima parte deste artigo

terça-feira, 9 de outubro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem – 5ª parte


Os filósofos humanistas na metade do século XV cunharam o termo latino: “Médio Evo”, composto do adjetivo “medius” que significa: meio, isto é, aquilo que está no meio; e do substantivo “eavum”, que quer dizer: longo espaço de tempo, idade, época. Do ponto de vista literário indica, portanto, uma época de meio. Esta “Idade do Meio” indica o período entre a antiguidade e o seu tempo, uma não-antiguidade em meio a duas épocas, com uma característica exclusiva: uma particular visão de mundo ancorada no transcendente, capaz de impregnar em profundidade cada extrato social (4).
A historiografia também situa a “media aetas” entre o período que vai da morte do Imperador Constantino (306-337) até o saque de Constantinopla pelos turcos (1453); ou da época do feudalismo até a Revolução Francesa (1789). Hoje, aceita-se mais seguramente o espaço histórico da Queda do Império do Ocidente (476) até a descoberta da América (1492), isto se pensarmos numa delimitação cronológica. (5)Porém, nós queremos entender aqui a Idade do Meio como uma idade nuclear, isto é, um período onde a humanidade viveu um MEIO, um ESSENCIAL, uma RAIZ, uma IDENTIDADE. E foi justamente Francisco quem melhor captou este núcleo da humanidade.

(4) H. Fuhrmann, Guida al Medioevo, Bari, Laterza, 1989, 2-3
(5) C. Ciranna, Riassunto di Storia Medievale, Roma, Ed. Ciranna, 1984, 3.

Amanhã, a sexta-parte deste artigo

segunda-feira, 8 de outubro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem – 4ª parte


Ter a clareza do que significa o medieval é não deixar-se contaminar pelas ideologias que desejam usar o termo para reforçar suas posições, muitas vezes de um modo superficial, sem fundamentação histórica. Diz o próprio Sabatier que “o medieval constitui um período orgânico na vida da humanidade: como todos os organismos poderosos começou com uma longa e misteriosa gestação, teve a sua juventude, a sua virilidade, a sua decrepitude. O fim do século XII e o início do século XIII assinalam o seu definitivo desenvolvimento orgânico. São anos com a própria poesia, sonhos, entusiasmos, generosidade, audácia. O amor era abundante em sua força; por toda parte os homens tinham um só desejo: dedicar-se a alguma grande e santa causa” (3)
A Idade Média é um momento cultural, social, religioso, mítico, arcaico, motivo de escândalo e de interesse. Revelou possuir um centro, um cerne muito próprio, e, talvez, exatamente por causa disto nos legou uma vida cultural e espiritual de rara profundidade.

(3) P. Sabatier, Vita di San Francesco d’Assisi, Milão, Mondadori, 1978, 34.

Amanhã, a quinta-parte deste artigo

sexta-feira, 5 de outubro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem - 3ª parte


1. Francisco e seu substrato medieval
A humanidade só pode crescer na unidade das diferenças; por isso a sua história está repleta de diversidades que dão um colorido próprio a cada geração, com sua originalidade, com sua invenção, com seus riscos.
Compreender o passado é iluminar o presente e motivar o futuro. Nisto tudo existe uma descontinuidade, “a meditação do passado não é um vão esteticismo. Analisar as interrogações e as respostas, buscar a novidade do próprio tempo não é estéril nem inútil. Não se trata de imitar o passado, mas traduzi-lo; o que supõe um certo tipo de relação entre o agora, antes e depois”(1)
Uma pessoa deve ser sempre compreendida dentro de seu contexto histórico. Tantas vezes afirmamos que Francisco é expressão cristalina do mundo medieval. O que está por detrás desta afirmação? O impulso que as pesquisas de Paul Sabatier deram ao estudo do franciscanismo? A sua convicção de que “Francisco foi, por excelência, o Santo da Idade Média”(2) Como situar Francisco dentro desta época? Como compreender o medieval?

(1) H.J. Stiker, Um créateur en son temps: François d'Assise, CHR 80 (1973) 416-430
(2) P. Sabatier, Vita di San Francesco d'Assisi, Milão, Mondadori, 1978, 34.

Na segunda-feira, a quarta parte deste artigo

quinta-feira, 4 de outubro de 2007

Feliz Festa de São Francisco!


Minhas Amigas
Meus Amigos,
PAZ E BEM!

Terminei a primeira parte da Visita à Província do Norte. Fiz o estado do Pará. Ainda faltam os estados do Amazonas e Roraima. Breve enviarei um relato detalhado do que estou vendo, percebendo e vivendo. Hoje, com muita alegria e totalmente envolvido pela grande devoção que o povo do Norte tem por São Francisco, quero desejar à todos BOA FESTA de Nosso Pai Seráfico! Que a PAZ de Francisco esteja no coração de todos e que ela se transforme no nosso maior BEM!

Hoje, dia 3 de Outubro, o mundo todo se volta para Francisco, comemorando a partir das 18 horas o seu Transitus para a Eternidade, amanhã (hoje), dia 4 de outubro, é a Grande Festa do Santo Incomparável. Ele nos ensinou a sermos irmãos e irmãs de todo Ser Vivente. Somos a irmandade que tem na nossa sacralidade mais íntima a filiação divina. Com Jesus Cristo, Francisco nos devolve esta verdade. Temos um Pai-Mãe Comum. Não existe riqueza maior do que ser filho e filha de Deus!

Somos a irmandade que se inspira e pratica os mesmos valores que brotam da mesma Fonte: O Evangelho! Ali está o patamar mais alto de nossos valores! Somos a irmandade que há 800 anos tem a mesma Espiritualidade!

Somos a irmandade que gera relacionamentos de fraternidade, comunidade, amizade, convivência, cortesia e benignidade. Na qualidade de nossas relações existe uma revelação!

Somos a irmandade que ama e cuida todas as criaturas! Hoje e amanhã, das pedras aos animais, das plantas ao imenso mundo das águas, da terra ao universo, do nosso quintal até a mais distante estrela, do sol e à lua, do ar, do vento, do fogo, dos vermes ao macrocosmo...tudo é a mais bela exultação por causa daquele que os chamou de Irmãos e Irmãs!

Onde estivermos que esteja a mais bela Presença do perdão, da alegria, da harmonia e da Festa! UM FELIZ DIA DE SÃO FRANCISCO!!!

Com abraço fraterno,

Frei Vitório Mazzuco OFM

Imagem, "Cântico do Irmão Sol", de Frei Dito

Amanhã, a terceira parte do artigo A Compreensão Franciscana do Homem

quarta-feira, 3 de outubro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem - 2ª parte

Não é nosso propósito reescrever ou recontar neste momento a história de Francisco, isto as tantas biografias, ensaios e análises já fizeram até com muita precisão, mas queremos destacar alguns pontos de sua vida, compreender um pouco mais de sua vida e do seu modo franciscano de viver. Como dizia o astrônomo francês Laland: “Aquele que compilou Regras para milhares de pessoas é certamente um personagem importante. A função de uma Ordem, assim Pobre e austera, realizada por um jovem de 25 anos é algo de extraordinário... e revela um gênio elevado, uma virtude singular, uma fervida devoção, uma eloqüência envolvente, um zelo infatigável, uma constância fora de comum”.

De onde vem esta força? Certamente de uma vida vivida de maneira apaixonada: um jovem nobre de ideais nobres, que soube fazer nascer, nos limites de sua encantadora Assis, um projeto de vida universal. Este jovem chamado Francisco soube estar aos pés de seu Senhor, escutar uma Inspiração, seguir e imitar, com isso arrastou atrás de si um grupo todo que jamais deixou de se renovar.
Amanhã, a terceira parte deste artigo

terça-feira, 2 de outubro de 2007

A Compreensão Franciscana do Homem - 1ª parte


Queremos, neste artigo, refletir sobre o Homem: sua vida, história, projetos, ética, modelo, inspiração e sua postura neste milênio. O Homem no seu mistério, na sua busca, nos mais diversos horizontes de compreensão.

Vamos refletir partindo da compreensão franciscana do homem. Dizemos franciscana por nos espelharmos em Francisco de Assis, cuja vida é uma iluminação que nos pode dar o sentido maravilhoso da existência. Dizemos franciscana porque temos um modelo de grandeza.

Francisco é para nós uma imensa saudade de uma pátria distante do espírito, uma escolha essencial, uma reconquista dura e jovial de uma inocência perdida. Francisco é para nós a alegria de ser, uma loucura e escândalo, um pensamento ávido de realizações, uma palavra portadora de alegria, uma vontade criativa e criadora.

Não se pode compreender ou analisar a história de uma vida sem levar em conta o contexto, o "Sitz im leben", as paixões, vícios e virtudes e as incontáveis experiências do tempo a que esta história se refere.


Amanhã, a segunda parte deste artigo.

Imagem do pintor italiano Cimabue

quarta-feira, 26 de setembro de 2007

A Mística Franciscana e o Trabalho do Sefras - Final


Quem aprendeu a cuidar da ferida da lepra aprende também a tirar vermes da estrada e ver luz mais brilhante no sol, na lua, nas estrelas, na criação.

Ontem, Francisco criou a mística encarnada do Pobre, hoje o Sefras continua a mística do coletivo, do respeito à pessoa, da defesa e da promoção dos pobres!

O Sefras é o resgate da mística evangélica e do sentido político da fé cristã!

terça-feira, 25 de setembro de 2007

A Mística Franciscana e o trabalho do Sefras - 4ª parte


Francisco abraçou a causa dos pobres porque sabia que viver o Evangelho não é apenas professar uma doutrina, mas fazer valer um projeto de transformação: o serviço por amor, o voluntariado por amor, a capacidade de perdoar, a sensibilidade pelos fracos, a atmosfera de alegria e paz, a generosidade saindo pelos poros... Para Francisco, o Evangelho não era uma lei rigorosa, mas a vontade amorosa de um Deus que queria que o amor fosse amado.
A partir disto tudo, Francisco deu esmolas, pediu esmolas, curou feridas de leprosos, dividiu o prato de comida, fez de ruínas albergues de aconchego; evitou a agressividade, a ostentação, a sedução do poder de quem manda e de quem tem; plantou e colheu, trabalhou com as próprias mãos, aceitou simples, intelectuais e nobres que queriam ajudar e entrar na mesma Forma de Vida; recebeu o sagrado feminino de Clara que o ensinou a ser mãe; andou sempre com o companheirismo fiel de Leão que o ensinou a ser humilde e amigo.

Amanhã, a parte final deste artigo.

segunda-feira, 24 de setembro de 2007

A Mística Franciscana e o Trabalho do Sefras - 3ª parte


O começo de Francisco foi entre os leprosos da época: gente contaminada, excluída, desamada e fora de qualquer privilégio social. No meio deles, Francisco começou a moldar o rosto de uma nova humanidade que abraça, acolhe, mora junto e faz da obra concreta uma fé pessoal, comunitária, social e cósmica, perpassada pela graça de Deus e inserida na realidade histórica.
Francisco foi às práticas bem concretas para que na sua época e em todos os tempos fosse diminuída a iniqüidade, a injustiça, a dor, o sofrimento, a miséria. Para Francisco, tudo era coexistência no Amor; viver lá no meio das situações humanas e desumanas, viver lá onde são urgentes todas as experiências marcantes do cuidado que dá vida e criatividade à fé que um dia aprendemos. Tudo o que passa pelo afeto e pelo coração vira mística! Aí Francisco se transformou num ser livre para amar!
Desenho de Frei Pedro Pinheiro
Amanhã, a continuação deste artigo

sexta-feira, 21 de setembro de 2007

A mística Franciscana e o trabalho do Sefras - 2ª parte

Era uma pessoa de sucesso, mas não realizada. Para ser uma pessoa realizada não quis arriscar a sua vida por pouca coisa, mas optou pela causa das causas: Viver neste mundo no modo de Jesus Cristo! Ser igual a Ele e encarnar os valores do Evangelho para que a sua vida tivesse uma medida necessária. Ao abraçar a causa do Reino de Deus pregado por Jesus Cristo, Francisco encantou-se com a maior prioridade do Reino: os Pobres! Ser pobre não é estar dentro de uma categoria econômica excludente, que diz que você nada possui.Para Francisco, o ser pobre significa a coragem de repartir. O pouco que tenho eu dou! A identidade do pobre é a fraternidade, isto é, todos são meus irmãos e irmãs, todos são por demais importantes, todos são capazes, todos têm direito aos melhores frutos da terra. Assim Francisco aprendeu com o seu Mestre Jesus: ser pobre no meio dos pobres, cuidar incondicionalmente de toda humana criatura.

Na segunda, a terceira parte deste artigo.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

A Mística Franciscana e o trabalho do Sefras - 1ª parte


Mística é um encadeamento de paixão; uma experiência mais interna e mais intensa que nos leva às mais profundas motivações. Mística é transcender a realidade; é colocar enamoramento na vivência de uma causa, de um projeto, de uma vocação, de um ideal. É ser totalmente envolvido por um projeto!Quando falamos de Mística Franciscana, nos reportamos ao modo original como Francisco de Assis viveu: um rebelde com causa! Não satisfeito com a sociedade da época, não satisfeito com a qualidade de vida burguesa de sua família, não satisfeito com a ausência do Evangelho de certas experiências eclesiológicas, não conformado com a sua juventude ambiciosa, guerreira e seduzida pelo status de possuir títulos nobres, castelos e terras, resolveu mudar de lugar, mudar de mentalidade, mudar o rumo de sua vida.

O SEFRAS é a sigla do Serviço Franciscano de Solidariedade, que reúne as obras sociais da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil, presente em cinco estados (SP, ES, RJ, PR e SC). No total, são 31 projetos sociais, que atendem desde bebês e mães gestantes vivendo em situação de risco, passando por programas para crianças e adolescentes, adultos em trabalhos profissionalizantes ou vivendo em situação de rua, soropositivos, até projetos voltados à terceira idade.

A imagem é o logo do Sefras - Amanhã, a segunda parte deste texto.

terça-feira, 18 de setembro de 2007

Encontro com o Leproso - Final

As Fontes Franciscanas falam do beijo. Beijar é passar o sopro de vida, o hálito que alenta, o toque que refaz. Mas quem beijou quem? Deixar-se beijar é mais do que beijar. Francisco recebe o toque de quem tem um último sopro de vida e esperança, um último fio de confiança. A confiança perdida é o paraíso perdido.
“E o Senhor mesmo me conduziu entre eles e eu tive misericórdia com eles” (Testamento, 2). Não disse “eu tive dó deles”, “que judiação!”, “que pena!”, mas disse “eu tive misericórdia com eles”. Ter misericórdia com! Ir lá junto do sofrimento, misturar-se com a paixão dos que padecem a falta de cuidado. Quem vai lá, pouco a pouco, traz de volta ao Paraíso. Reconduz o humano ao seu melhor lugar. É preciso ir com o coração nas mãos e nas palavras. É muito diferente ser tocado por alguém que tem o coração nas mãos. Foi assim que o leproso beijou Francisco.
Imagem do artista plástico Frei Pedro Pinheiro da Silva

segunda-feira, 17 de setembro de 2007

Encontro com o Leproso - 4ª parte


Abraçar o que perdeu a chance de estar onde todos devem estar é que causa impacto. Conversão é deixar-se impactar-se. O leproso abala as estruturas todas de Francisco e afina seus sentidos para cuidar do humano. Aprendeu com a fala da Cruz que reconstruir significa colocar novamente a humanidade em pé.

Como um enfermeiro ousado, como um terapeuta engajado, como um assistente social comprometido, como um evangelizador inserido, ele vai lá consertar o indivíduo para consertar a humanidade toda, melhorar o leprosário para tornar o mundo todo mais sadio de amor, ternura, afeto. Usou um único remédio que conhecia: a fraternidade.


Amanhã, a parte final deste artigo.

sexta-feira, 14 de setembro de 2007

Encontro com o leproso - 3ª parte

Para encontrar-se com a necessidade do outro e da outra é preciso mudar de lugar. A conversão de Francisco é mudar de lugar! Ele dá um salto, sai da sua situação e mergulha na proposta do Evangelho: o Reino de Deus é a ética do cuidado!

Por isso vai para as ruínas, sai fora dos limites da cidade, aproxima-se dos excluídos, vai viver com eles. Quando a sociedade exclui a pessoa, ela apodrece o humano. A pior lepra que existe é ser colocado à margem de tudo. A pior doença que existe é tirar da pessoa a possibilidade de conviver.

Quadro exposto no Noviciado de Rodeio (SC)


A quarta parte deste artigo na segunda-feira, Dia em que se comemora a Impressão das Chagas de São Francisco.

quinta-feira, 13 de setembro de 2007

Encontro com o leproso – 2ª parte

O encontro de Francisco com o leproso, mais do que um momento, é uma atitude que vai envolvendo toda a vida. E isto tudo começa quando ele percebe-se infeliz e não satisfeito com o seu status: rico, empreendedor emergente, comerciante próspero, filho de Pedro Bernardone, líder da juventude em Assis, boêmio, generoso, folgazão, pródigo e vivaz. Tem tudo para dar certo e ser uma pessoa de sucesso, mas ele descobre que ser uma pessoa realizada é muito mais importante que ser uma pessoa de sucesso. O sucesso é efêmero, a realização é para sempre!

Imagem do artista plástico Frei Pedro Pinheiro

Amanhã, continuação deste tema

quarta-feira, 12 de setembro de 2007

Encontro com o Leproso - 1ª parte


A tradição das Fontes Franciscanas coloca como marco da conversão definitiva de Francisco de Assis o seu encontro com o leproso. Velho e conhecido tema! Novo e sempre desafiador e fascinante tema! Que encontro foi este? Foi apenas ver, conhecer, cumprimentar, abraçar, beijar? Mera curiosidade? Afinal de contas quem não quer dar uma olhadinha na tragédia alheia? O certo é que Francisco foi onde ninguém do seu tempo queria ir: misturar-se com a miséria, com a pobreza, com a contaminação, com a doença, com o fétido, com o horrível. Foi e permaneceu ali como verdadeira iniciação: encontrar-se verdadeiramente com alguém é aproximar-se da sua realidade por mais terrível que ela seja. Encontrar-se é fazer vibrar o coração, é perceber o que se passa na intimidade do outro e da outra.

Imagem do artista plástico italiano Piero Casentini


Amanhã, a continuação deste tema