terça-feira, 25 de abril de 2017

FRANCISCO E A HUMILDADE


De um modo preciso e brilhante, Tomás de Celano narra como Francisco de Assis propunha a humildade: “A humildade é a guarda e beleza de todas as virtudes. Não sendo ela colocada como fundamento da estrutura espiritual, quando esta parece crescer, avança para a ruína. A humildade, para nada faltar ao homem ornado com tantas graças, o cumulara com mais copiosa fecundidade. Na verdade, segundo a sua própria reputação, ela nada era, a não ser um pecador, quando na realidade era a beleza e esplendor de toda espécie de santidade. Na humildade, ele se esforçou por edificar a si mesmo, para que à base estivesse o fundamento que aprendera de Cristo (...)  Nele  prevaleceu somente uma cobiça: tornar-se melhor, de modo que, não contente com as primeiras virtudes, acrescentava-lhes novas.

Era humilde no modo de ser, mais humilde no sentimento, humílimo na própria reputação. Não se percebia que o príncipe de Deus era um prelado, a não ser por esta claríssima pedra preciosa, porque estava presente como o mínimo entre os menores. (...) Estava longe de sua boca toda altivez, longe de seus gestos toda pompa, longe de seus atos toda soberba.

Aprendera por revelação o sentido de muitas coisas; discutindo-as diante de todos, antepunha às suas opiniões, as opiniões dos outros. Acreditava que o parecer dos companheiros era mais seguro e que o modo de ver alheio era melhor do que o próprio. Dizia que não deixara tudo pelo Senhor aquele que retinha as bolsas do próprio modo de pensar” ( 2Cel 140 ).

A humildade e a paciência são as rainhas das virtudes. Como a raiz da palavra de onde surgiu, a humidade é escondida e fecunda como o húmus. É o alicerce de reconstrução das ruínas. É o terreno fértil onde são semeadas novas virtudes. É modo de ser, sentimento que que se entrega, identidade que se revela se forçar. É minoridade. É renúncia de ostentação. É fazer valer a verdade do outro. É não ser narcisista na atuação, na pregação, na ação de guiar um grupo ou estar à frente de uma determinada tarefa. A humildade se esconde, e deixa que falem as obras.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

terça-feira, 18 de abril de 2017

SÃO FRANCISCO E A SIMPLICIDADE


Diz Tomás de Celano: “O santo, com o mais desvelado empenho, pretendia trazer em si e amava nos outros a santa simplicidade, filha da graça, irmã da sabedoria, mãe da justiça (...) Esta é aquela simplicidade que se gloria no temor de Deus, que não sabe fazer ou dizer o mal. Esta é a que, examinando a si mesma, não condena ninguém com seu julgamento e que, entregando ao melhor o devido exercício do poder, não busca nenhum poder (...) Esta é a que, em todas as leis divinas, deixando aos que hão de perecer os circunlóquios prolixos, o ornato e preciosismos de estilo, ostentações e curiosidades, busca não a casca, mas a medula, não o invólucro, mas o núcleo, não muitas coisas, mas o muito, o sumo e estável bem. O santíssimo pai buscava-a nos irmãos letrados e leigos, não acreditando que ela fosse contrária, mas verdadeiramente irmã da sabedoria, conquanto fosse para os pobres de ciência mais fácil de ter e mais pronta para praticar” (2Cel 189).

O simples entra na familiaridade de tudo, parece ter a consanguinidade de todas as relações. Francisco coloca a simplicidade como filha, irmã e mãe. Aquela que não precisa ficar só vendo o mal e condenando a tudo e a todos. A simplicidade, assim como a humildade renuncia o status do poder, por isso é irmã da minoridade. O simples é imediato, profundo, vai na essência. Não precisa de verborreia. Em vez de dizer que gosta do “precioso fruto da esposa do cantor do dia”, diz simplesmente que come ovo. O simples não entra na vaidade muito presente no mundo acadêmico, mas renuncia também o status de quem sabe para revelar a sabedoria que vem dos que não complicam a vida.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

segunda-feira, 3 de abril de 2017

FRANCISCO DE ASSIS E OS MOVIMENTOS FRANCISCANOS

São Francisco de Assis tem uma história expressiva entre os acontecimentos de dois mil anos de franciscanismo. Muitos livros escritos sobre ele não esgotam a sua trajetória de vida e sua vitalidade que atravessa oito séculos. Ele fundou três Ordens, uma delas com a inspiração de Clara de Assis, e seus seguidores e seguidoras tornaram-se numerosos no Ocidente e no Oriente. A sua original proposta de retorno à pureza original do Evangelho e os rumos que estas Ordens tomaram não foi algo tranquilo.

Este livro procura analisar as características e perspectivas da experiência religiosa de Francisco de Assis e como os seus primeiros companheiros absorveram esta experiência. Sua Ordem e sua figura única e necessária foram a inspiração para muitos movimentos que daí nasceram. A questão é saber se conseguiram ser fiéis ao que registram seus Escritos e Fontes. Há um Francisco real e um Francisco construído no imaginário de muitos, e nos diversos “usos” que  fazem dele.

O Espírito de Assis transborda o mundo. Um Papa escolhe o seu nome. Ele é o nome da Pobreza, da Paz e do Planeta. Francisco de Assis é uma identidade espiritual e religiosa e gerou uma forte Fraternidade com este rosto: “A quem lhes perguntar de que profissão, de que regra, de que Ordem vós sois, respondei assim: Somos da primeira e principal regra da religião cristã, ou seja, do Evangelho, que é fonte e princípio de todas as regras”.

Querem saber mais? Leiam esta obra magnífica de Giovanni Miccoli, FRANCISCO, o santo de Assis na origem dos movimentos franciscanos, Martins Fontes/Selo Martins, São Paulo, 2013.

FREI VITÓRIO MAZZUCO