quinta-feira, 16 de agosto de 2018

CLARA DE ASSIS E SEUS PASSOS RUMO A UMA GRANDE OPÇÃO


A decisão espiritual é sempre uma iluminação

Clara de Assis vai com sua família para a celebração de Domingo de Ramos em 28 de março de 1212, na catedral de Assis. A Legenda de Santa Clara diz: “Quando chegou o domingo, a jovem entrou na igreja com os outros, brilhando em festa no grupo das senhoras. Aconteceu um oportuno presságio: os outros se apressam a ir pegar os ramos, mas Clara ficou parada em seu lugar por recato, e o pontífice desceu os degraus, aproximou-se dela e colocou-lhe a palma nas mãos” (LSC 7,4-5). O pontífice em questão é o Bispo Guido. Sua atitude é interpretada como se “Neste gesto está sem dúvida a bênção do pastor da diocese, o selo eclesial para uma opção que só o Amor dá coragem para realizar, através daquela liberdade profunda que é dom do Espírito” (Cremaschi, 43).

O fato é, que logo depois deste domingo, Clara espera numa determinada noite todos da casa adormecerem, sai por uma porta secundária de sua casa. Atravessa as ruas silenciosas e escuras de Assis e vai encontrar-se com Francisco e seus frades na Porciúncula. É como que uma fuga. Clara está fugindo de quê? De nada, apenas faz a seu modo, o corajoso passo de ir unir-se a um grupo de penitentes que não vivem em mosteiros e estão fora dos padrões de grupos religiosos da época. Francisco tem apenas uma aprovação oral do Papa Inocêncio III, mas ainda não tem uma regra canônica que aprove o seu modo de vida. Evangelho não precisa de legislação pois vem da lei maior do amor. Clara vai discreta, sem fazer barulho, pois o rumor maior é mudar de lugar: do palácio dos Ofredducci para a choupana dos Menores. Uma decisão também supõe uma ruptura com a condição social. Antes desta noite ela livrou-se aos poucos dons bens garantidos por sua herança. Não queria patrimônio, queria matrimônio com o Bem Amado, o Senhor do seu coração. Conta a Irmã Cristiana no processo de Canonização: “Na venda da herança, os parentes de madona Clara ofereceram um preço mais alto do que os outros. Mas ela opôs-se a que fossem os parentes a comprar, para que os pobres não fossem prejudicados. E todo o dinheiro que recebeu da herança, distribuiu-o aos pobres” (PC 13,11). Na ação de Clara podemos ver a coragem de não se prender a vínculos familiares, mesmo no preço da herança, pois não quer dependência, mas a transparência livre de deixar tudo para seguir o Esposo Pobre.

Na idade média, uma jovem nobre casava mais ou menos com 14 anos. Clara de Assis tem 18 anos quando vai à Porciúncula oficializar seu noivado com o Esposo Espelho. Foram pacientes quatro anos de maduro discernimento. Os frades a acolhem com tochas acesas na noite. A decisão espiritual é sempre uma iluminação. Há uma nova luz chegando entre eles. Clara foi vestida com seu traje mais bonito. Recebida por Francisco de Assis, ele a reveste com a rude veste de uma camponesa e corta seus cabelos. Mudar de veste significa investir-se de uma outra forma de vida. Agora, ela é uma penitente convertida. O corte dos cabelos significa a ruptura definitiva com outros legames. Clara agora pertence à Fraternidade. Ela é uma Irmã entre os Irmãos. Ela é uma leiga que recebeu a inspiração do Espírito. Escuta seus irmãos, também leigos, qual melhor rumo a tomar no caminho comum do Evangelho. Uma noite intensa de oração esquenta e clareia a decisão. É um ritual de vida nova. Não se entra numa Fraternidade sem certos ritos.

Há no ar o perigo do novo: como uma mulher poderia viver numa comunidade de homens penitentes? Há no ar, uma novidade tão radical que pode ser entendida sob a preocupação da psicose da heresia que inundava o ar de então. Clara pertence à Fraternidade para sempre, é uma decisão de todos. Mas Clara não pode ficar ali, é uma decisão comum para preservar a beleza fontal dos Carismas. É melhor preservar naquele momento para continuar um bonito depois. Francisco e dois companheiros a levam ao Mosteiro das Beneditinas de São Paulo, em Bastia. Uma decisão oportuna pois amaina a fúria da família de Clara e outras incompreensões. Morar com as beneditinas é uma escolha provisória. O amor pelo Esposo vai abrindo caminhos. A família vai ao mosteiro e a encontram despojada, vestida com vestes da simplicidade. Há agressividade e ternura em convencer Clara a voltar para a casa. Mas ela mostra a tonsura e agarra-se ao altar. Ela agora o pertence unicamente à sua escolha de amor. Do mosteiro das beneditinas, Clara vai morar na igreja de Santo Ângelo de Panzo, um convento de reclusas, leigas eremitas medievais que ali vivem na oração e na ação da caridade aos pobres do lugar. Seria talvez um beguinato, isto é, uma comunidade de mulheres, que sem pertencer a uma ordem religiosa, vivem de um modo consagrado. Assim, Clara conhece várias dimensões do movimento feminino de seu tempo, e uma destas dimensões é abraçar uma espiritualidade na nupcialidade mística.

CONTINUA

FREI VITORIO MAZZUCO

sexta-feira, 10 de agosto de 2018

SANTA CLARA DE ASSIS: ALGUNS DADOS DE SEU CAMINHO


Clara e Francisco, os dois se encontram num mesmo caminho de Amor


Clara de Assis deu uma resposta pessoal ao Senhor de um modo muito livre. Teve a ajuda primeira de sua mãe, Hortolana, que a iniciou nos caminhos da oração e das obras. O processo de Canonização, a partir dos testemunhos de Pedro de Damião, diz que ela “cultivava a vida espiritual” (PC 19,2); e João Ventura depões dizendo que Clara “jejuava e permanecia em oração e praticava outras obras piedosas, como ele próprio pôde observar. E todos estavam persuadidos de que era o Espírito Santo que a inspirava” (PC 20,5). A Irmã Pacífica confirma: "Por todos era conhecida como pessoa de grande honestidade, de vida exemplar e se ocupava muito em obras de caridade” (PC 1,1).

Clara de Assis fez os caminhos costumeiros de exercícios de conversão, isto é, oração, jejum, obras de misericórdia, retidão moral e o deixar-se conduzir pelo Espírito do Senhor. Isso faz de Clara de Assis uma pessoa que é percebida pelas suas virtudes. A Irmã Benvinda de Perúsia afirma “que a consideravam virgem de corpo e alma e que, mesmo antes de entrar na religião, era tida em muita estima por todos os que a conheciam” (PC 2,2). Ver em Clara a bondade, honra, humildade e virgindade não são apenas dados morais e físico, mas sim as marcas de uma força interior de uma mulher que desposa Jesus Cristo, no máximo de sua Pobreza. Viver a Pobreza é um ato de extrema confiança, entrega e abandono ao tudo do Amor e a não precisar de nada por causa deste Amor.


Clara de Assis pertence ao seu Senhor de um modo total e, por isso, faz de si um dom para todos. Sua fama em Assis está no fato de ser uma mulher exemplar para todos. “A fama pública na cidade considera-a por isso uma jovem irrepreensível e digna de estima. O eco destas considerações terá chegado, sem dúvida, até à interessada, sem porém influenciar o seu modo de ser, continuando sempre benigna e humilde para com todos. O seu caráter pessoal, que a fazia centrar em Deus a própria vida, dá-lhe forças para Lhe consagrar a sua vontade e deixa-a, ao mesmo tempo, interiormente aberta para descobrir onde e como realizar em si o desígnio do Pai”. (Cremaschi, "Chiara Giovanna, Clara de Assis, Um silêncio que grita", Editorial Franciscana, Braga, p.37).

Em Assis a notícia corrente é a impactante conversão de Francisco, filho de Pedro Bernardone, que rompe com tudo e inicia um original caminho de vivência radical do Evangelho. Clara de Assis se une ao momento social, eclesial e espiritual de Assis. Não há como sentir que Francisco instaura um novo sentido de fraternidade, pobreza extrema e vivência junto aos marginalizados de então. O jovem Rufino, primo de Clara, já está com Francisco pelas ruas e estradas de Assis anunciando a paz. Os dois pregam na catedral de Assis. Ao ouvir Francisco, Clara está em plena sintonia de coração e palavra. Clara e Francisco já não estão mais presos ao mundo das convenções sociais. Francisco ainda é visto com desconfiança pelos habitantes de Assis que o considera uma pessoa fora do juízo. Mas o que questionar em Clara?

A silenciosa e discreta moça nem aos seus parentes revela seus planos de seguir o Esposo. Mas vai até Francisco contar seus segredos. Acompanhada de sua amiga e governanta Bona Gelfuccio, vai encontrar-se com ele. Francisco a recebe acompanhado de um de seus irmãos, Filipe Longo. A conversa gira em torno da contagiante alegria espiritual do seguimento apaixonado do Senhor, de pertencer ao caminho da Pobreza total, de trocar as experiências do mesmo desejo que fazem vibrar a interioridade.

Irmã Beatriz diz no processo: “Conhecendo São Francisco a fama da sua santidade, encontrou-se com ela várias vezes para lhe falar do Evangelho” (PC 12,2). Quem procurou quem? Não sabemos com certeza. Almas profundas de humanidade, amor e divindade se acham naturalmente. Um encontrou o outro. Francisco encontrou São Damião e reconstruiu o lugar da inspiração; mas lá não deixou os seus irmãos. Porém, após reconstruir São Damião ali deixou Clara. Ele sabia que Clara daria o brilho definitivo ao lugar. Clara é tão segura que se inspira numa experiência concreta. Diz a obra acima citada: “Enfim, a jovem faz-se discípula deste jovem convertido, para viver o santo Evangelho numa forma de vida semelhante à sua. O que a palavra e o testemunho de Francisco fazem penetrar no seu íntimo está em admirável sintonia com quando o Espírito lhe sugeria interiormente” (Cremaschi, p. 39).

Clara tem uma opção própria, mas se apoia numa experiência concreta já iniciada por Francisco.  O Amado é o Amor amado por ambos. Os dois se encontram num mesmo caminho de Amor.

CONTINUA ATÉ O FINAL DE AGOSTO

FELIZ FESTA DE SANTA CLARA DE ASSIS!

FREI VITORIO MAZZUCO

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

SANTA CLARA DE ASSIS, ALGUNS ASPECTOS DE SUA VIDA


 Ama os pobres porque viu a mãe cuidar dos pobres sem fazer muita ostentação.


A história de Clara começa no dia 20 de janeiro de 1193 em berço de família nobre. Na sua família existem sete homens que fizeram os votos cavaleirescos e isto já dá uma base para a importância e poder da sua família na fina nobreza e aristocracia de Assis. Ela conheceu os costumes da nobre linhagem, a vida dentro de um palácio, a opulência de uma parte dos moradores muito ricos da cidade que viviam os que tinham e podiam gastar. A casa onde viveu tinha muitos servos e servas e a circulação de condes e personagens da corte. O que inicia o clã é Offreduccio que morre quando Clara é ainda muito criança. Monaldo, irmão mais velho de Offreduccio, assume o cuidado do grupo de família que ali habitava. No palácio moram todos, inclusive Simeão, pai de Rufino, que mais tarde segue Francisco de Assis. Entre este grupo de pessoas ligadas a Offreduccio está Favarone, marido de Hortolana e pai de Clara. Há indícios de que o nome Hortolana vem em homenagem a esta mulher que vai gerar uma horta de belas flores e plantas.

Favarone vem de favorecido. Era uma parte da nobreza que sabia usar bem os favores, privilégios e a força do mercado. Favarone não parava muito em casa, pois era um cavaleiro errante e voltado para o comércio de armas. Esta sua ausência faz crescer a força de Hortolana, mulher muito humana, de personalidade forte, de fé profunda, uma autêntica dona de casa. Viajou também em peregrinações que formavam o costume de metas a serem alcançadas na Idade Média. Hortolana espera seu primeiro filho. Pede muito diante do Crucifixo que venha com saúde e que a ajude no parto. A tradição diz que ela ouviu uma voz inspiradora de que teria uma filha que iria iluminar o mundo todo. A filha que nasce recebe o nome de Clara, que em latim medieval significa ilustre e luminosa.

Clara nasce cercada de muito afeto e é cuidada com muito amor por sua mãe. O pai sempre foi ausente da vida de Clara, mas dedicou seu carinho nos breves momentos que esteve em casa. É a mãe que ensina a fé e as preces, que dá toda a educação. Da mãe herdou firmeza de vontade e doçura. Conviveu com muitas mulheres no palácio num clima de boa relação. Clara era linda e tinha uma energia de feminilidade muito grande. Criativa e alegre, criou como menina um método próprio de ajuntar pedrinhas para contar as orações. Ama os pobres porque viu a mãe cuidar dos pobres sem fazer muita ostentação. Em Assis há um contraste entre o fausto da nobreza e os muitos mendigos que imploravam comida e roupa pelas ruas. Clara tira o que sobra da abundância de sua mesa e leva para os que precisam. Fazia com descrição e escondimento, privilegia os órfãos por quem tinha atenção especial em função de ter nascido numa boa família. Tem caráter voluntarioso e decidido. Conhecia o latim porque pôde estudar como uma jovem aristocrática. Sua inteligência é intuitiva. Seu caráter é firme, sincero e sem abatimento diante de dificuldades. Vê sempre o lado bom de tudo.

Assis teve um conflito social entre nobres e burgueses que chegou de fato a uma guerra. Por razões de segurança, o tio Monaldo leva a família para Perúsia, e lá, Clara vive alguns anos com Catarina sua irmã mais nova. Por ser maior e a cidade mais influente da região, Perúsia é o lugar onde Clara conhece as relações humanas, o diálogo, o acolhimento e o moldar-se como uma dama nobre. Aos dezessete anos volta para Assis e vê nascer Beatriz, sua irmã caçula. Pouco sabemos de Clara neste período, pois ela não se mostra muito, mesmo sendo uma jovem muito cobiçada. Quase não aparece na janela. Sua vida é ir da casa para a igreja e da igreja voltar para seus aposentos. Desde muito cedo quer pertencer apenas ao Senhor. Vive de um modo discreto com a guarda dos costumes domésticos. Não se empolga com os projetos matrimonias da família a seu respeito. Diz a testemunha, Rainério de Bernardo no Processo de Canonização: “Como era bela de feições, cedo lhe procuraram marido. Muitos de seus familiares fizeram pressão para que consentisse no casamento, mas ela jamais acedeu. A própria testemunha confessa que muitas vezes a quis influenciar neste sentido. Mas ela não lhe deu ouvidos, antes pelo contrário, exortava-o a deixar o mundo” (PC 18,2).

A falta de herdeiros masculinos na família faz aumentar a pressão, e segundo o costume de então, os pais decidem o futuro dos filhos fazendo boas alianças. Porém, Clara sabe muito bem o quer para a sua vida. A voz intuitiva e misteriosa que falou com sua mãe antes do parto, agora fala através do brilho próprio de Clara de Assis.

CONTINUA

FREI VITORIO MAZZUCO

terça-feira, 7 de agosto de 2018

SÃO DAMIÃO, O ESPAÇO ONDE JORRAM AS VIRTUDES DE CLARA E DAS CLARISSAS

Em São Damião, vivência fraterna é concretude do amor 


Tomás de Celano, em sua Vida Primeira, cap. 8, faz um panegírico às Clarissas que habitam São Damião. Como primeiro secretário da Ordem em seus primeiros momentos, ele está bem próximo das origens e não faz ficção. Relata tudo o que recebeu oral e por escrito. Se está na Cúria está nas notícias, relatos e testemunhos, além de que muita coisa viu e acompanhou pessoalmente. A precisão da sua linguagem não depende somente de sua facilidade em escrever como um bom literato, mas como quem esteve lá. “Pois, antes de tudo, vigora entre elas a especial virtude da mútua e contínua caridade que de tal forma une as vontades delas” (1Cel 19,2). Em São Damião, a vivência fraterna é a concretude do amor. Atos, gestos, dedicação total a cada Irmã faz com que o Amor não seja apenas um detalhe de um elenco de virtudes, mas a alma de cada prática. Estar juntas é ser amada. Estão todas na mesma força do Amor “que morando juntas quarenta ou cinquenta no mesmo lugar, o mesmo querer e o mesmo não querer fizeram nelas de diversos um único espírito” (1Cel 19,2).

As Clarissas que vivem em São Damião possuem naturalmente a humildade, esta fecundidade escondida; a força interior que não somente aparece, mas transparece. A grandiosidade recolhida da vida das Clarissas revela uma identidade que não precisa de publicidade. Fala por si só. No silêncio de São Damião, a revelação de uma consistência interna que vai mostrando levemente o mistério. A humildade é seu barulho. Por isso diz Celano: “Em cada uma brilha a gema da humildade que de tal modo conserva os dons concedidos e os bens recebidos dos céus que merecem as demais virtudes” (1Cel 19,3).

As Clarissas que vivem em São Damião habitavam o natural do Amor, e no natural da  pureza onde beberam aquelas mulheres, nos leva à compreensão da virgindade. Quando o coração se aquieta na busca do Amado, o melhor da pureza nos é revelado. Abrir o coração para um Amor tão grande é não ter barreiras para o Sagrado. Simplicidade, silêncio e pobreza desciam sobre a pureza daquelas mulheres.

As Clarissas que vivem em São Damião nos ensinam que virgindade é transformar a energia do Amor para um outro Amado escolhido do coração: o Cristo Esposo. Mulheres autênticas, fizeram da vida naquele lugar o mais natural do Amor, realização e liberdade de espírito.  Ao abraçar a profundidade do Amor, iluminam o mundo, com Clara, na claridade da luz que ultrapassa as paredes do Mosteiro. Por isto Celano diz: “(...)o lírio da virgindade e da castidade de tal maneira asperge todas com admirável odor que, esquecidas dos pensamentos terrenos, elas desejam meditar unicamente os celestes, e de fragrância dele nasce tão grande amor para com o Esposo eterno nos corações delas que a integridade deste sagrado afeto exclui delas o costume da vida anterior (...) todas foram marcadas pelo título da altíssima pobreza a ponto de mal ou nunca consentirem em satisfazer a extrema necessidade do alimento e da veste” (1Cel 19,4-5).

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FREI VITORIO MAZZUCO

quinta-feira, 2 de agosto de 2018

SANTA CLARA E AS CLARISSAS EM SÃO DAMIÃO


Em 1228, Tomás de Celano escreve um testemunho de grande importância sobre a vida de Clara de Assis e as Clarissas no Mosteiro primitivo de São Damião. Não são meros detalhes. Elas são a guardiãs da inspiração e ficam ali no cuidado do manancial e são a própria fonte da dimensão contemplativa do mesmo Carisma. Se Celano escreve é porque ouviu e viu. Ele não é apenas um biógrafo e escritor de talento, mas um atento observador. Clara de Assis e suas primeiras Irmãs vão para o manancial do Carisma que é São Damião. Morar na Fonte é alimentar o caudaloso rio que se espalha pelo mundo há oito séculos levando a água viva da força franciscana e clariana. Francisco chega primeiro em São Damião, e como diz Celano: “Constrói uma casa para Deus e não tenta construí-la de novo, mas restaura a antiga, conserta a velha; não arranca o fundamento, mas edifica sobre aquele fundamento” (1Cel 18,1-2).

Celano diz que, seis anos após ter chegado aquele lugar, ele retorna para continuar a reconstrução de São Damião. Lugar pronto, lugar preparado para colocar a preciosidade que vem de Clara e suas companheiras: "Este é aquele feliz e santo lugar em que, decorrido já o espaço de quase seis anos da conversão do bem-aventurado Francisco, teve feliz início, por intermédio do mesmo homem bem-aventurado, a gloriosa Religião e excelentíssima Ordem das Damas Pobres e virgens santas; neste lugar viveu a Senhora Clara, oriunda da cidade de Assis, pedra preciosíssima e fortíssima, fundamento de outras pedras sobrepostas” (1Cel 18, 4-5).

O lugar e o espaço fundem-se com as qualidades. Feliz e santo lugar. Pura energia de fecundante amor contemplativo. São Damião agora transforma-se em mosteiro, lugar precioso de precioso tesouro. Antes, a rudeza das pedras colocadas do alicerce ao suporte do teto, agora pedras preciosas sobrepostas. A identidade de Clara de Assis molda vidas: “Na verdade, depois do início da Ordem dos Irmãos, depois que a dita Senhora se converteu a Deus pelas admoestações do santo homem, ela foi posta como proveito para muitas como exemplo para inúmeras” (1Cel 18, 6).


Francisco tem o modelo vivo de Jesus, Clara tem o modelo vivo de Francisco e de Jesus, é um entrelaçamento de vidas e valores: “Nobre pela estirpe, mais nobre pela graça. Virgem no corpo, castíssima no espírito, jovem na idade, mas madura no espírito, firme no propósito e ardentíssima no desejo do amor divino; dotada de sabedoria e de especial humildade: Clara de nome, mais clara pela vida, claríssima pelos costumes” (1Cel 18, 7). Há a força da conversão, a mudança total da existência que agora tem um foco preciso do sagrado, há a inspiração de Francisco e o jeito como Clara encarnou a graça, a nobreza do espírito, a maturidade espiritual, a firmeza dos propósitos, o desejo ardente, a sabedoria e a humildade, a força da virtuosidade na clareza do nome. Vida atrai vida! Uma vida se reconstrói absorvendo o melhor do humano e o melhor de Deus. São Damião é este lugar.

“Sobre ela ergueu-se a nobre estrutura de preciosíssimas pérolas, cujo louvor provém não dos homens, mas de Deus, visto que nem a limitada faculdade de pensar é capaz de meditá-la, nem a concisa linguagem é capaz de explicá-la” (1Cel 19, 1). Celano, com toda a sua capacidade de intelectual sente-se limitado para descrever o que acontece ali, então busca as vidas e o lugar, espaço da mais nítida compreensão.

CONTINUA

FREI VITORIO MAZZUCO

terça-feira, 3 de julho de 2018

A DIMENSÃO POLÍTICA DO FRANCISCANISMO – FINAL


Defender o que é justo não é ser inimigo 


Estou concluindo esta série de reflexões sobre a Dimensão Política do Franciscanismo. Ela tem um endereço certo: ajudar os grupos de vivência franciscana a pensar, com fundamentos de nossa espiritualidade e práxis, algumas saídas para algumas crises da nossa contemporaneidade. Eu não sei qual é a saída, mas acredito em alguns aspectos: a saída para algumas crises está na força espiritual. A agenda dos encontros teológicos-espirituais, os capítulos locais, os encontros de Fraternidade não podem deixar de enfrentar a crise sistêmica que estamos vivendo. A fé, sobretudo a partir da vertente cristã e franciscana, tem uma dimensão escatológica, isto é, um hoje preparando um futuro de esperança. Tem que ser “Assim na terra como no Céu”. Como prepara-se para um futuro sem entender onde está o hoje da pertença?

É o que quis propor nestas reflexões. Temos que compreender a realidade em que vivemos, situando-se no interior desta realidade com seu intrincado emaranhado de questões e situações. Temos que fazer valer o que pedimos através da Oração atribuída a São Francisco: “Onde houver ódio, que eu leve o Amor!”. Sem ódio, queremos a justa medida de todas as coisas. Temos que ver o que está acontecendo no presente para preparar o nosso futuro. Defender o que é justo não é ser inimigo.

Escrevi esta série de reflexões porque vi muito ódio em comentários infelizes de algumas pessoas da Família Franciscana e grupos afins contra o Sinfrajupe (Serviço Franciscano de Justiça e Paz e Ecologia) e sua carta social, vi ódio contra a carta da Jufra e sua postura diante da situação do país, vi ódio contra o Frei Éderson de Queiroz, vi ódio contra Leonardo Boff, vi ódio contra a CNBBB, vi ódio contra a carta dos Ministros Provinciais, vi ódio contra o Papa Francisco porque ele escreveu uma carta a Gustavo Gutierrez por ocasião de seus 90 anos. E onde vi este ódio? Muitas vezes em alguns encontros fraternos e formativos da Família Franciscana que se reunindo como frades, OFS e Jufra em suas reuniões ordinárias; mas sobretudo li este ódio em infelizes comentários no Facebook e no WhatsApp, e em e-mails que recebi. Sei que nem todos precisam pensar igual, mas a questão não é pensar diferente, o problema maior é não pensar.

Hoje, mesmo dentro da 'franciscanada', muita gente apresenta o criminoso com ódio, mas não quer perguntar e nem quer pensar quem produziu o criminoso. Será que o criminoso é criminoso apenas por culpa individual? A imprensa criminaliza, e todos acreditamos na apresentação dos fatos que já vem pronta. A mídia não só corrompe, ela é a própria corrupção do Bem e da Paz. A violência da mídia nos despolitiza. Tenha medo do medo que ela instaura, mas não fique preso a este medo, porque ele paralisa. Não podemos deixar que a mídia nos faça voltar a um tempo de ódio e raiva no mundo.

A realidade do mundo está sendo refletida por movimentos que vêm debaixo, que vem das bases e que estão sufocados por fortes estruturas de consumo, mercado e produção. Cada vez que os movimentos que vêm debaixo têm uma conquista de uma migalha de solução, são destruídos por um golpe. Somos vítimas de golpes a cada três anos.

Todo ser humano nasce, sonha e luta para ter características iguais, privilégios iguais e uma mesma força ética; todos sonham o bom, o útil e o agradável. Por que isto não pode ser para todos, e o melhor está somente nas mãos de alguns? A história da humanidade não é uma história de igualdade, mas uma história de uma classe sobre a outra, e isto gerou um processo histórico que dita leis que vale somente para alguns; a lei da mais valia. Por que não queremos pensar sobre isto?

Qualquer vocabulário que venha da sociologia, da cidadania, da religião, da reflexão, tem que priorizar os seres humanos. Priorizar o ser humano para resgatar nele o melhor. Mas o que se está fazendo? Ajuda ou controle? A moda é vasculhar a vida do outro e da outra até o limite, mostrar todo o lado das fraquezas, até que a pessoa renuncie ao seu eu, até que se torne o eu dos outros.

Vamos ter a coragem de ouvir no plural! Precisamos ter a grandeza de ouvir no plural e não apenas no pensamento único. Vamos aprender a ter lucidez crítica, nem que isto tenha consequências. “Quem come o fruto do conhecimento e do espírito crítico sempre é expulso de algum paraíso”.

Ser franciscano e ser franciscana é ter a força fraterna; é ser aquele e aquela que tem em primeiro lugar as pessoas humanas em seus propósitos, e prioritariamente os descriminados. A força motriz na convivência fraterna franciscana é a fraternidade. Nosso lema não é o ódio, mas a justa medida das relações. Hoje, a visibilidade do ódio dos que conseguiram o seu lugar privilegiado é dizer: negros, índios, pobres, militantes dos direitos humanos, ambientalistas, fiquem lá no seu cantinho e não nos incomodem! Caso contrário, vamos fazer uma delação premiada! Vamos acusar vocês de alguma coisa, até porque a delação premiada é um conceito religioso que veio da Inquisição católica: se você acusar alguém será contrito e perdoado. E o pior, a delação premiada está dentro de nossas casas e de nossas Fraternidades!

Tenha coragem de mudar e de dizer que errou no seu modo de pensar, porque não leu e não se preparou para a verdade dos fatos. Muita gente não tem coragem de dizer que errou e por isso fica quieta; ou não tem a coragem de perceber que está errado e compactua com o erro dos outros para reforçar uma opinião que não tem.

Ontem, no século XIII, tínhamos São Francisco de Assis que foi dar um libertador abraço no leproso. Gosto demais da afirmação de Frei Rodrigo Peret, OFM, que a coisa mais linda deste abraço foi revelar quem estava mais doente: o que tinha a lepra ou o que tinha nojo do leproso? Francisco estava mais doente porque tinha nojo do leproso; porém, Francisco de Assis saiu da doença de ter nojo e mudou o mundo. Então, saia do nojo e do preconceito e medo que você tem e mude o mundo!

Hoje, no século XXI, temos o Francisco de Roma, que vem nos mostrar a humildade de reconhecer onde erramos e ensinar que temos que aprender com os nossos erros. Os dois Franciscos, mais do que nos ajudarem a lutar para melhorar o mundo, nos ensinam que temos que estar bem dentro e junto com o mundo e, a partir daí, transformar o mundo em Reino de Deus.

FREI VITORIO MAZZUCO

segunda-feira, 25 de junho de 2018

REFLEXÕES SOBRE A DIMENSÃO POLÍTICA DO FRANCISCANISMO – 19


Ninguém chega à Terra Prometida caminhando sozinho 


Há um compromisso entre santidade e política. Isto pode aparecer estranho e desconcertante à cabeça dos que querem blindar qualquer experiência de fé voltada para a política, e que pensam que são duas realidades que ordinariamente se creem separadas de fato e de direito. Está certo que são realidades que tem muitos significados e compreensões ambíguas; mas para o franciscanismo elas ganham um significado muito preciso. A santidade é uma realização extraordinária daquilo que se crê, daquilo que é o sonho e sobretudo do que é o amor. Política verdadeira é a prática para a uma transformação estrutural da sociedade baseada nos valores do Reino de Deus expressos no Evangelho. E isto não é exclusivo de uma elite protegida por movimentos, hierarquias e sagradas congregações. A santidade pertence a todos e a política com santidade leva a salvação a todas as camadas históricas sem nenhum preconceito ou ideologia.

O franciscanismo primitivo chegou a esta verdade através de uma ascese pessoal de contemplação e ação. Sustentaram as estruturas da vida com os valores do Evangelho: mudar a si mesmo, mudar as pessoas, mudar o mundo. Sabiam que isto não estava na ideologia dos interessados, mas na própria vontade de Deus. Não tem como descobrir a vontade de Deus sem levar em conta o momento histórico. Sabiam que não podiam haver santidade que não ame os mais privados de dignidade humana. Dizia o nosso Santo (que oficialmente será canonizado) Dom Oscar Romero: “É preciso defender aquele mínimo que é o máximo de Deus, o maior dom de Deus: a vida “(Oscar Romero, Sermão em 15/11/1980). Santidade e política supõem conversão para um modo diferente de ver o mundo na realidade, e misericórdia frente a todo sofrimento do povo. É levar a sério com muita responsabilidade a pergunta feita em Gn 4,10: “O que fizeste ao teu irmão?”.

O franciscanismo nos ensina que mais do que amar uma pessoa, é preciso amar uma comunidade, amar um grupo; não escolher apenas o indivíduo, mas a coletividade. Não basta o gosto pessoal, mas a busca da eficácia estrutural. Amor e santidade política é lutar por uma nova civilização humana por uma nova criação. Sem compromisso com isto a santidade é inútil. A amor feito santidade e política deu o sangue pela vida do povo. Pergunte se o político em quem você votou e a quem você defende com unhas e dentes daria o seu sangue por você e pelo seu povo. O amor cristão nos deu mártires que viveram e morreram com a força de Deus. Dizia o nosso Santo futuramente canonizado, Dom Oscar Romero: “Eu creio, irmãos, que os santos foram pessoas muito ambiciosas. E isto eu ambiciono também para todos e para mim: que sejamos grandes, ambiciosamente grandes, para que sejamos imagens de Deus e não possamos contentar-nos de grandezas medíocres”.

O franciscanismo não usou as dores dos pobres para a promoção pessoal. Mas encarnou a pobreza para ser igual à pobreza de Nosso Senhor Jesus Cristo. Não gerou apenas indivíduos santos, mas uma fraternidade de pobres que são santos. É a prática do Reino e do Evangelho que cria os consagrados, ordenados e professos e não os rituais de ordenação, de profissão simples ou solene.  O franciscanismo ensina que o encontro com o Senhor vai do pessoal ao comum e o ponto de partida é o Evangelho da Libertação. É caminho à procura de Deus e da pessoa que sofre. Não é um culto à personalidade pessoal, mas levar um povo inteiro junto com a realização das obras. Ninguém chega à Terra Prometida caminhando sozinho.

CONTINUA...

FREI VITORIO MAZZUCO

segunda-feira, 18 de junho de 2018

REFLEXÕES SOBRE A DIMENSÃO POLÍTICA DO FRANCISCANISMO – 18


O Evangelho da Libertação é esperança e alegria para todos!


Viveram com esperança e alegria, mesmo diante da dura pobreza. Há algo novo que surge em meio ao sofrimento: ser livre! A liberdade de doar-se, a liberdade de viver junto, a liberdade de amar, tudo isto venceu as estruturas de morte. A liberdade trouxe a alegria, a alegria que brotou de uma certeza: qualquer sofrimento pode ser superado! Sofrer pela causa da vida traz alegria em meio a dor. A morte não é a última palavra e decisão de uma história. Francisco de Assis acolhe a Irmã Morte com serena alegria, porque sabe que lutou muito para que tantos tivessem a vida prolongada. A esperança e a alegria sempre foram a certeza da presença palpável da força de Deus que os conduzia. O Evangelho da Libertação é esperança e alegria para todos!

Por serem pobres entre os pobres conheceram a pobreza espiritual e a repulsa à pobreza criada pela injustiça. Desprenderam-se dons bens deste mundo para terem um testemunho de credibilidade. A força pessoal da escolha pela renúncia de bens e de privilégios deu força comunitária, uma fome de comunhão e participação. Não usaram a ascese exagerada de alguns penitentes que reprimiam o afeto, o princípio do prazer e da potencialização do eros. A partir da Fraternidade amaram-se como irmãos e irmãs. Assumir o outro e a outra na vida do dia a dia é sublimar o amor nos detalhes da convivência. Não eram de movimentos que funcionam apenas nos finais de semana. Hoje está cheio de movimentos que funcionam apenas uma vez por semana e não assumem o dia a dia. No dia a dia não reprimiram nada, apenas lutaram com forças negativas que oprimem por dentro e por fora. Curtiram a força do amor comum, um relacionamento novo que os levou cheios de amor para a sociedade e especialmente em direção aos pobres.

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FREI VITÓRIO MAZZUCO

sexta-feira, 15 de junho de 2018

REFLEXÕES SOBRE A DIMENSÃO POLÍTICA DO FRANCISCANISMO – 17


A gratuidade veio do abandono total à providência divina


O franciscanismo alimenta a sua vida a partir do Evangelho. Quando deixou de alimentar-se a partir o Evangelho conheceu momentos sombrios na história e deu mais peso a instituição do que a inspiração original. A instituição conhece alguns escândalos, a intuição conhece o discernimento. Os frades primitivos fizeram um discernimento espiritual e um caminho espiritual, e a partir daí o compromisso social. Realimentaram a sua escolha e a sua fé no encontro com as pessoas no caminho da realidade da Úmbria e a partir daí ganharam o mundo com força de missão. Mantiveram uma comunhão com a eclesiologia do seu tempo, mas aprofundaram sua fé a partir da comunhão íntima com a Boa Nova. E reencantaram a Boa Nova no espaço eclesial de então. Eram coerentes com a Palavra que tomaram nas mãos, preencheram o coração, transformaram em prática.

Celebraram a fé nas estradas, nos êremos e nas praças. Não era apenas a fé das cabeças pensantes da escolástica e dos debates teológicos da época, mas a fé que estava no coração: sentir em profundidade a presença de Deus. Levaram a certeza de todos serem Irmãos e Irmãs de um modo novo de viver e conviver como homens e mulheres novos. Não entraram muito na luta pelo poder, na sedução hierárquica e no espólio das Cruzadas. Viveram um cristianismo que deu mais espaço para a mística, para a gratuidade e para a ternura. Nas estradas da Itália e daí para o mundo traçaram um modo de viver o amor e a justiça mostrando ser este o melhor caminho para o seguimento de Jesus. A conversão foi o ponto de partida de todo este caminho espiritual e socialmente fraterno. Uma conversão que comportava uma ruptura com a vida elevada até então e empreender uma nova meta. Uma conversão que levasse Jesus Cristo junto com as decisões da vida, e procurar tirar qualquer empecilho que embaraçasse a relação com Deus. Renunciaram tudo o que prendia na mente e nos cofres.

Conheceram bem a realidade porque estavam nela como peregrinos e atentos observadores. Inseridos dentro de um processo histórico do século XIII tornaram-se realistas e eficazes em suas ações. Não estavam no dever de praticar a esmola, mas sim de ver e estar dentro da necessidade de alguém. Não trabalharam em função do outro porque isso trazia momentos de forte energia ou era uma solução para a ociosidade, mas sim trabalharam porque havia necessidades urgentes a serem atendidas. Fizeram tudo de um modo gratuito e extremamente desapegado. A gratuidade veio do abandono total à providência divina.

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FREI VITÓRIO MAZZUCO

quarta-feira, 30 de maio de 2018

REFLEXÕES SOBRE A DIMENSÃO POLÍTICA DO FRANCISCANISMO – 16


A encarnação não é uma simples devoção ao presépio


Viram este Deus no dinamismo da criação, viram este Deus nos que estavam pisoteados e expulsos para fora das muralhas da cidade, viram este Deus chegando naqueles que mostraram que o Reino de Deus era viver em obediência, sem nada de próprio e na pureza de coração. Estes penitentes não tinham nada de acúmulo para si; renunciaram a ordem elitista de seu tempo para viverem a Ordem dos Menores. Por serem itinerantes conseguiram ver Deus fora dos espaços do templo e perceberam os sinais de Deus nas pessoas, na natureza, nas cidades, onde estava a palpável história do dia a dia medieval. O fato é que a experiência de Deus os envolveu não só a partir da dimensão mística, mas também no afeto, no coração, na situação dos pobres, no mundo dos movimentos penitenciais, na eclesiologia de então, com um espírito de comunhão com tudo e com todos. Saíram do poder de reis e rainhas e abraçaram o Reino. O Evangelho os fez éticos e encarnados na vida de modo total. Abraçar Jesus Cristo é historizá-lo. Sem dúvida fizeram muita Adoração ao Santíssimo, mas passearam pelas vilas, praças, campos e cidades mostrando que a natureza divina se uniu a natureza humana para transformar.

A mística primitiva franciscana abraça a encarnação porque a encarnação é a identificação de Deus com a existência humana e isto construiu uma história. A encarnação não é uma simples devoção ao presépio, mas é visualizar e fazer uma imersão na paisagem humana redimida por Deus que enviou o Messias Peregrino a suscitar sonhos e esperanças e foi curando as dores do mundo. Como este Deus entrou na vida das vilas e foi curar o cego, o coxo, o paralítico, o leproso, os endemoniados, pecadores e esteve sempre ao lado dos pobres. Não abraçou títulos e nem aparências. Fez sua prática no serviço, no perdão, no cuidado pela vida, na imensa sensibilidade para com os mais fracos, teve mulheres entre seus discípulos e apóstolos, deu atenção para crianças, pescadores, pastores e agricultores, de cuja vida aprendeu e recontou em parábolas. Foi uma pregação que arrastou multidões mas incomodou os poderes do tempo. A tal ponto que o Senado de então o condenou por isto. Olhem os textos do julgamento de Jesus, são os maiores e mais detalhados textos do Evangelho. Toda condenação de quem faz o bem é muito explorada. Sua morte foi uma morte política. Pois os poderosos da época não suportaram a sua prática de libertação. Os frades primitivos refizeram este caminho, porque o Evangelho ou tem o mesmo efeito da atuação de Jesus ou não vai servir para mudar o mundo.

FREI VITORIO MAZZUCO

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