sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Francisco de Assis – o amor que deixa marcas 3



Francisco estigmatizado é o corpo traspassado de um desejo profundo. É o corpo que se fez portador da vontade do Senhor assim como Maria: “Faça-se em mim segundo a tua Vontade!” Maria deu-nos o Menino, o Emanuel, o Deus Conosco. Francisco no Deus o Cristo Pobre, Humilde e Crucificado. Greccio e Alverne se encontram na mesma verdade! Este Corpo arde e fala! Este corpo concretizou encontros e rupturas. Deu todos os bens para abraçar a Pobreza. Deu todo o afeto para abraçar o leproso. Deu toda a sua pureza de coração para abraçar a fraternidade. Deu todo os seus ouvidos ao Crucificado de São Damião que pediu a reconstrução da casa. Deu um novo início ao Evangelho transformando- o em Forma de Vida.

No corpo estigmatizado de Francisco a impressão de sua vida inteira, estigmatizada pela Pobreza, Obediência e Pureza de Coração. No corpo de Francisco as marcas de sua marginalidade assumida, pois foi rejeitado por nobres e cidadãos de sua época.  No corpo de Francisco o Amor devorante de Deus e por Deus, um Amor capaz de assumir a fraternidade dos marginalizados da sociedade oficial. Como o Amado ele também abraçou os cegos, os camponeses, os paralíticos, os que não podiam ganhar nada para viver, as mulheres que não podiam nem falar e nem seguir fora da vigilância das autoridades. Ele assumiu em si os estigmas sociais de seu tempo. Não foi um bode expiatório, sim um reformador fraterno de um modo mais leve de viver o Evangelho.

No corpo estigmatizado de Francisco a responsabilidade de conduzir uma Fraternidade que nele acreditou e que não tinha onde reclinar a cabeça. Eram peregrinos e viandantes, vivia com os seus companheiros primitivos   a beleza de estar no mundo como um claustro transitório. Neste mundo encontraram a criação que restituíram ao Criador, pois viram nela a fonte da beleza, do louvor e da graça, podiam falar da Criação como uma consanguinidade familiar, um laço universal que autoriza a falar de todas as criaturas como irmãos e irmãs. Devolveram tudo para não ter posse e inveja de nenhum acúmulo. Viveram uma metamorfose ambulante.

No corpo estigmatizado de Francisco a consolação bela e prudente da serena irmã e companheira, Clara de Assis! Ela entendeu que a Cruz tinha que ser guardada e cuidada para sempre, e que Francisco era seu Espelho. Francisco foi ao mundo levar o Evangelho. Clara ficou no claustro para reviver o ventre de Maria. O Amor tem que ser concebido cada dia. Francisco teve que sofrer pela liberdade de Clara, mas os dois foram muito felizes na liberdade do Amor. A natureza do Amor foi reconstruída como o verdadeiro claustro. Em Clara, a vida do Mosteiro é matriz na qual cada dia a palavra de Deus vem ao mundo. Clara não é apenas uma seguidora de Francisco, ela beija o sangue dos estigmas que ele conquistou e bebe na mesma Fonte.  Diz Angela de Foligno: “Na plenitude de Deus, eu colho o mundo inteiro, além de tudo, dos mares e dos abismos, do oceano de cada coisa. E em tudo, não percebo outra coisa que não seja a potência divina, de modo inenarrável. Então, no ápice da admiração, a minha alma exclama: esta natureza de Amor é grávida de Deus!” (Angela de Foligno, Memoriale, VI, 1285-1298 ).

No corpo externo estigmatizado de Francisco o esponsal com o corpo interno, a sua vida interior, marcada pelo Amor ao Crucificado. É uma prova evidente: ele que tocou com o Amor toda a obra de Deus, foi tocado com muito Amor pelo próprio Deus. Não é dor corporal, mas sentidos da vida que passam pelo crivo da entrega mais radical por Amor. Francisco não somatizou a dor, mas sim deixou que o Amor marcasse seu corpo. Ele e o Amor tornaram-se Um!

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Francisco de Assis – o amor que deixa marcas 2


CONFIRA: Francisco de Assis – o amor que deixa marcas 1

Estigmatização é renovação vinda de um caminho percorrido, não é algo imaginário, mas é real quando se percebe uma extraordinária transformação. Renovar-se é a força do humano que não se sente mais escravo de nada, é livre, diante da natureza e da lei, do selvagem ao civilizado, mas acrescenta algo à identidade humana. Francisco apresentou-se ao mundo com as marcas da fraternidade que vinha de uma vivência cristológica. Ele marcou a vida de um modo original. No Cântico das Criaturas ele integrou a terra e os astros, o masculino e o feminino, o selvagem e o civilizado. O seu corpo é o corpo da existência fraterna, por isso pode integrar o natural e o espiritual, o bárbaro e o comportado, o homem e a mulher. “ Se alguém está em Cristo, é nova criatura. Passaram-se as coisas antigas; eis que se fez uma realidade nova” (2Cor 5,17).

Voltando a Cícero, ele entendia o homem novo como aquele que assumiu um cargo público e deve ser o primeiro a mudar. Voltando a Francisco de Assis, ele é o mercador, filho de mercador, desprezado pela nobreza de então, mas assumiu o código de cavaleiro, não pela função em si, pois jamais fez a iniciação cavaleiresca, mas pelos valores que a sua vida exigia. Assim ele vence o desprezo e a incompreensão, ele vence a estigmatização social, mostrando que ele agora tem uma nova função, mesmo com todo sofrimento que isto implica. Ele não se identifica mais com as funções que o pai e a sociedade queriam para ele, mas sim com a nova função, levar ao mundo o jeito sempre Novo da Boa Nova, nascida no presépio e complementada na Cruz, caminho total de mudança radical. O Evangelho e o Reino anunciado e vivido por Jesus tornam-se a grande novidade: a inesperada Humanidade de um Deus e a inquietude humana em abraçar esta Humanidade Nova, que vai trazer a máxima liberdade, a fecunda liberdade, o espírito de coragem, o acesso definitivo à filiação divina.
No Testamento, Francisco diz: “Foi assim que o Senhor concedeu a mim” (Test 1), ele sabe que ele não foi um profissional da religião, mas um enamorado guardião de uma grande Inspiração. Os estigmas de Francisco são sinais concretos e não imaginação. O Cristo que o inspirou não foi estigmatizado, mas Crucificado! Os texto do Evangelho contam com mais detalhes a Paixão de Jesus do que o seu Nascimento.

A intensidade de uma vida deixa marcas e consequências. Não devemos nos prender à confusão entre narrativa e iconografia. Tem gente que está preocupada em provar se São Paulo caiu ou não do cavalo em Damasco. Toda a questão é ver o que mudou na vida de São Paulo. Nós também não precisamos buscar o corpo de Verônica Giuliani, Catherine Emmerich, e Padre Pio de Pietrelcina, para ver fenômenos excepcionais que aconteceram neles. Mas sim buscar indícios na vida de Francisco de Assis e de outros, quanto a uma grande transformação do humano em divino. Os estigmas de Francisco são descobertos e decifrados depois da sua morte, mas as marcas de Cristo já estavam com ele em vida. Marcas são reconfigurações em vida e que a morte deixa como uma herança.
Francisco de Assis recebeu a marca de um Serafim, é a polivalência de uma teofania. É a chama que se acende quando o Anjo e o Homem se encontram. É a figura divina inacessível ferida de Amor e dor que toca o Humano ferido de Amor e dor. É o encontro heroico com as marcas do Amor que glorificam uma entrega. Vida evangélica, vida mística, vida fraterna deixam marcas do interior para o exterior.

Francisco de Assis tem que ser visto na inteireza de sua vida e não no fato isolado de sua estigmatização. Porque os estigmas são convergência de um caminho de santidade, de fundador de uma Ordem, de um profeta de um novo mundo. Os estigmas recontam a vida de Francisco do início ao fim, mostram a inteireza de sua existência. Ele é o Humano Novo dentro de um mundo envelhecido de ontem e de hoje. Ele libertou o mundo de então da depressão coletiva, de voltar-se para o egoísmo, ambição e avareza, de fixar-se em propriedades, de privilégios de sangue e castas sociais, e fazer com que a fraternidade não fosse apenas um modo de monges viverem juntos, mas o jeito de conviver nas estradas do mundo. Ele fez Cristo voltar a andar nos caminhos mais costumeiros da vida, e este Cristo que um dia andou pelas estradas da Palestina amou tanto que foi crucificado. Sofrimento e perfeita alegria. Transformação e laços consanguíneos com o Amado. O corpo de Francisco foi marcado pela centralidade da sua busca: ser igual a Ele! Ele tatuou em sua carne a Palavra Encarnada e Inovadora.

Quem um dia deixou-se marcar pela Cruz trouxe a salvação para a humanidade. O Amor não tem sofrimento inútil. O Amor é uma fusão de vontades amantes. Diz Tomás de Celano: ”O filho respondeu diligentemente ao pai, sabendo que pelo Senhor lhe era dada a palavra da resposta: “Dize-me, por favor, ó pai, com quanta diligência teu corpo obedeceu às tuas ordens, enquanto pôde?” Ele disse: “Filho, dou meu testemunho de que ele foi obediente em tudo, em nada poupou a si mesmo, mas quase se precipitava a todas as ordens. Não fugiu de trabalho algum, não escapou de incômodo algum, bastava-lhe poder cumprir as ordens” (2Cel 211).

O corpo de Francisco de Assis não é mais dele, mas do Amor! Não é apenas um fragmento de macrocosmo, uma simples modalidade de viver nesta terra, não é um sangue anônimo. Ele é um corpo transfigurado pela vontade do Amor! É um corpo livre do mundo, da eclesiologia, das doenças e dos demônios, e de tudo o que o ameaça.  Agora não é mais corpo em forma de carne humana, mas sim totalidade de uma vida, é Corpo de Cristo! É um Corpo ritual e sagrado. Ele agora pode mostrar a dramatização de uma Encarnação: de Greccio ao Alverne este corpo mostra o que o Amor moldou em si. Em Greccio, Francisco encenou o Presépio, no Alverne Francisco sangrou a identificação com a Palavra Encarnada! É agora, não um Natal para crianças, mas uma Natividade para adultos. Quer Amar? Então toque o Verbo na sua manifestação mais natural e mais amorosa. Não é apenas ouvir a Palavra, mas ter a Palavra no sangue. A Palavra se fez Carne porque a Carne se fez Amor. É a Palavra expressiva num corpo expressivo. Agora o corpo tem uma importância eterna porque tem as marcas do Amor!

FREI VITÓRIO MAZZUCO


Francisco de Assis – o amor que deixa marcas 2


Estigmatização é renovação vinda de um caminho percorrido, não é algo imaginário, mas é real quando se percebe uma extraordinária transformação. Renovar-se é a força do humano que não se sente mais escravo de nada, é livre, diante da natureza e da lei, do selvagem ao civilizado, mas acrescenta algo à identidade humana. Francisco apresentou-se ao mundo com as marcas da fraternidade que vinha de uma vivência cristológica. Ele marcou a vida de um modo original. No Cântico das Criaturas ele integrou a terra e os astros, o masculino e o feminino, o selvagem e o civilizado. O seu corpo é o corpo da existência fraterna, por isso pode integrar o natural e o espiritual, o bárbaro e o comportado, o homem e a mulher. “ Se alguém está em Cristo, é nova criatura. Passaram-se as coisas antigas; eis que se fez uma realidade nova” (2Cor 5,17).

Voltando a Cícero, ele entendia o homem novo como aquele que assumiu um cargo público e deve ser o primeiro a mudar. Voltando a Francisco de Assis, ele é o mercador, filho de mercador, desprezado pela nobreza de então, mas assumiu o código de cavaleiro, não pela função em si, pois jamais fez a iniciação cavaleiresca, mas pelos valores que a sua vida exigia. Assim ele vence o desprezo e a incompreensão, ele vence a estigmatização social, mostrando que ele agora tem uma nova função, mesmo com todo sofrimento que isto implica. Ele não se identifica mais com as funções que o pai e a sociedade queriam para ele, mas sim com a nova função, levar ao mundo o jeito sempre Novo da Boa Nova, nascida no presépio e complementada na Cruz, caminho total de mudança radical. O Evangelho e o Reino anunciado e vivido por Jesus tornam-se a grande novidade: a inesperada Humanidade de um Deus e a inquietude humana em abraçar esta Humanidade Nova, que vai trazer a máxima liberdade, a fecunda liberdade, o espírito de coragem, o acesso definitivo à filiação divina.
No Testamento, Francisco diz: “Foi assim que o Senhor concedeu a mim” (Test 1), ele sabe que ele não foi um profissional da religião, mas um enamorado guardião de uma grande Inspiração. Os estigmas de Francisco são sinais concretos e não imaginação. O Cristo que o inspirou não foi estigmatizado, mas Crucificado! Os texto do Evangelho contam com mais detalhes a Paixão de Jesus do que o seu Nascimento.

A intensidade de uma vida deixa marcas e consequências. Não devemos nos prender à confusão entre narrativa e iconografia. Tem gente que está preocupada em provar se São Paulo caiu ou não do cavalo em Damasco. Toda a questão é ver o que mudou na vida de São Paulo. Nós também não precisamos buscar o corpo de Verônica Giuliani, Catherine Emmerich, e Padre Pio de Pietrelcina, para ver fenômenos excepcionais que aconteceram neles. Mas sim buscar indícios na vida de Francisco de Assis e de outros, quanto a uma grande transformação do humano em divino. Os estigmas de Francisco são descobertos e decifrados depois da sua morte, mas as marcas de Cristo já estavam com ele em vida. Marcas são reconfigurações em vida e que a morte deixa como uma herança.
Francisco de Assis recebeu a marca de um Serafim, é a polivalência de uma teofania. É a chama que se acende quando o Anjo e o Homem se encontram. É a figura divina inacessível ferida de Amor e dor que toca o Humano ferido de Amor e dor. É o encontro heroico com as marcas do Amor que glorificam uma entrega. Vida evangélica, vida mística, vida fraterna deixam marcas do interior para o exterior.

Francisco de Assis tem que ser visto na inteireza de sua vida e não no fato isolado de sua estigmatização. Porque os estigmas são convergência de um caminho de santidade, de fundador de uma Ordem, de um profeta de um novo mundo. Os estigmas recontam a vida de Francisco do início ao fim, mostram a inteireza de sua existência. Ele é o Humano Novo dentro de um mundo envelhecido de ontem e de hoje. Ele libertou o mundo de então da depressão coletiva, de voltar-se para o egoísmo, ambição e avareza, de fixar-se em propriedades, de privilégios de sangue e castas sociais, e fazer com que a fraternidade não fosse apenas um modo de monges viverem juntos, mas o jeito de conviver nas estradas do mundo. Ele fez Cristo voltar a andar nos caminhos mais costumeiros da vida, e este Cristo que um dia andou pelas estradas da Palestina amou tanto que foi crucificado. Sofrimento e perfeita alegria. Transformação e laços consanguíneos com o Amado. O corpo de Francisco foi marcado pela centralidade da sua busca: ser igual a Ele! Ele tatuou em sua carne a Palavra Encarnada e Inovadora.

Quem um dia deixou-se marcar pela Cruz trouxe a salvação para a humanidade. O Amor não tem sofrimento inútil. O Amor é uma fusão de vontades amantes. Diz Tomás de Celano: ”O filho respondeu diligentemente ao pai, sabendo que pelo Senhor lhe era dada a palavra da resposta: “Dize-me, por favor, ó pai, com quanta diligência teu corpo obedeceu às tuas ordens, enquanto pôde?” Ele disse: “Filho, dou meu testemunho de que ele foi obediente em tudo, em nada poupou a si mesmo, mas quase se precipitava a todas as ordens. Não fugiu de trabalho algum, não escapou de incômodo algum, bastava-lhe poder cumprir as ordens” (2Cel 211).

O corpo de Francisco de Assis não é mais dele, mas do Amor! Não é apenas um fragmento de macrocosmo, uma simples modalidade de viver nesta terra, não é um sangue anônimo. Ele é um corpo transfigurado pela vontade do Amor! É um corpo livre do mundo, da eclesiologia, das doenças e dos demônios, e de tudo o que o ameaça.  Agora não é mais corpo em forma de carne humana, mas sim totalidade de uma vida, é Corpo de Cristo! É um Corpo ritual e sagrado. Ele agora pode mostrar a dramatização de uma Encarnação: de Greccio ao Alverne este corpo mostra o que o Amor moldou em si. Em Greccio, Francisco encenou o Presépio, no Alverne Francisco sangrou a identificação com a Palavra Encarnada! É agora, não um Natal para crianças, mas uma Natividade para adultos. Quer Amar? Então toque o Verbo na sua manifestação mais natural e mais amorosa. Não é apenas ouvir a Palavra, mas ter a Palavra no sangue. A Palavra se fez Carne porque a Carne se fez Amor. É a Palavra expressiva num corpo expressivo. Agora o corpo tem uma importância eterna porque tem as marcas do Amor!

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Francisco de Assis – o amor que deixa marcas - 1


“Homem novo, Francisco tornou-se famoso por novo e estupendo milagre: por singular privilégio, jamais concedido nos séculos anteriores, apareceu assinalado, ou ornado, com os sagrados estigmas, configurando o seu corpo mortal ao corpo do Crucificado. Tudo o que a humana língua possa dele falar sempre estará aquém do louvor de que é digno. Inútil procurar a razão, porque é maravilhoso, nem se trata de buscar um exemplo, pois é único. Todo o empenho do homem de Deus, quer em público, quer em particular, dirigia-se para a Cruz do Senhor. Desde o primeiro instante em que começara a servir sob o Crucificado, diversos mistérios da Cruz resplandeceram em torno dele” (3Cel 2,1).

Quem centra sua vida numa determinada busca, numa focada paixão, num visível enamoramento, percebe claramente que o objeto deste Amor vai aparecendo nas nuances da vida. O que amamos nos surpreende em evidentes sinais, como uma reveladora novidade.  Francisco de Assis foi estigmatizado, e os estigmas são como as marcas do Crucificado que São Paulo dizia trazer consigo. Um humano renovado se molda sobre um caminho de grandes desafios e, porque não, de sofrimento. O Amor deixa marcas e amar tem a sua glória e cruz, tem a sua flor e dor. Toda renovação vai à fonte inicial da vida que é parida em dor. E podemos perguntar: o que tem de humanidade nova nisto, o que tem de novidade?

A novidade presente em sofrer por Amor é muito raro na literatura espiritual antiga. Vamos encontrar no antigo Império Romano a presença do termo novus ou novitas, no discurso de Cícero, orador romano, na sua peça de oratória chamada “Pro Murena”, onde ele defende que não devemos ignorar as marcas deixadas pelo sofrimento nos caminhos da consolação. Para Cícero, as marcas da dor são glórias da luta. Cícero escreve isto para Murena, senador romano, dizendo que “as virtudes de um senador são mais importantes que o seu nascimento”. As marcas deixadas pelo Amor não são sofrimento pelo sofrimento, mas reconhecimento.

Novo Homem, ou a novitas, pode ser entendido como o original. A sua Forma de Vida era viver o Evangelho segundo o Crucificado. Imprimiu na alma esta verdade, e da alma ficou impressa no corpo. Mas o que é o Humano Novo? São Paulo diz: “Em Cristo fomos fostes ensinados a remover o vosso modo de vida anterior – o homem velho que se corrompe ao sabor das coisas enganosas – e a renovar-vos pela transformação espiritual de vossa mente, e a revestir-vos do Homem Novo, criado segundo Deus, na justiça e santidade da verdade” (Ef 4,20-24). Ser uma nova criatura não é revestir-se de si mesmo, mas revestir-se de Cristo. Fazer a investidura do que se ama. Isto é um processo para toda vida. A estigmatização de Francisco aconteceu 20 anos após a conversão, mas foram 20 anos de seguimento e imitação apaixonada. Voltemos a São Paulo: “Vós vos desvestistes do homem velho com as suas práticas e vos revestistes do novo, que se renova para o conhecimento segunda a imagem do seu Criador. Aí não há mais grego ou judeu, circunciso ou incircunciso, bárbaro, cita, escravo ou livre, mas sim o Cristo que é tudo em todos” (Col 3,10-11). O Humano Novo não é apenas um indivíduo particular ou uma aventura psicológica de mudança efêmera, mas é um Humano Singular, Único, Original que assume uma nova postura de vida, como que uma nova aliança.

(Continua...)

FREI VITÓRIO MAZZUCO

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Francisco de Assis e este jeito de viver e pregar o Evangelho


São Francisco de Assis andou pelo mundo e enviou seus irmãos para o mundo para que vivessem, levassem e pregassem o Evangelho. A evangelização é simplesmente isto: ser, viver, levar a Boa Nova. Teve o seu modo próprio de evangelizar: a partir da fraternidade e da minoridade. A fraternidade é a família dos que estão na mesma consanguinidade espiritual, na mesma escolha, no mesmo projeto. Que projeto é este? Pegar a Palavra do Evangelho e colocar ali corpo, alma, mente, coração, sentimento, emoção, e mãos calejadas de obras. A minoridade é a renúncia do poder de quem tem saber, de quem tem poder, de quem tem muitas posses que ampliam o ter. É desapropriar-se de amarras para ser livre pelo caminho. Pregar o Evangelho não é para poderosos, mas para irmãos menores. Na fraternidade e na minoridade nada ter para tudo partilhar.

Para pregar o Evangelho é preciso sair pelo mundo, recolher-se em eremitérios, sair de novo, escrever cartas, ultrapassar fronteiras, contar apenas com a força da Palavra, sem precisar nem de bastão, nem  alforge. Levar a paz e comer do que é oferecido pelo caminho. Pregar o Evangelho não é fazer exigência, mas oferecer serviço. Pregar o Evangelho é estar em prece e no modelo vivo de tantos exemplos. É ser a Boa Nova de Jesus Cristo, anunciada com firmeza, segurança, abraçando o momento com seus desafios, sem se desconcertar em situações contrárias.

Para levar o Evangelho é preciso ter a postura de Jesus: anunciar uma mudança, aproximar o Reino das pessoas e as pessoas do Reino. É expulsar o que faz mal, integrar o que está excluído, curar o que está adoecido, preparar bem um pequeno grupo de multiplicadores de um poderoso anúncio com uma capacidade ilimitada de amar e mostrar que a Boa Nova é querer bem a todos sem distinção. Ter esta grande reverência pela pessoa humana, de modo especial os pequeninos, a quem a verdade é revelada de um modo tão evidente. Pregar o Evangelho é fazer a Palavra carne da própria carne, sangue do próprio sangue, pulsar do próprio coração.

Imagem do "Francesco", filme italiano com Mickey Rourke no papel de Francisco.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Francisco de Assis e a pureza de coração


Diz o relato de 1Cel 47,6: “Enfim compreenderam e souberam que a alma do santo pai brilhava com tão grande fulgor que, pela graça de sua especial pureza e do piedoso cuidado para com os filhos, mereceu obter do Senhor a bênção de tão grande dom”, ou em 1Cel 54,3: “A consciência, testemunha de toda inocência, não permitia que ele descansasse, guardando-se com todo cuidado, enquanto não curasse com ternura a ferida espiritual causada por ele”. Temos muitos relatos mostrando o jeito inocente de Francisco, a pureza de seu coração, o secreto tesouro de todos os caminhos. Por ser puro, atraía em seu segredo.

Como dizer que Francisco de Assis era puro de coração? Pelo seu amor apaixonado por Deus, pelas pessoas e às coisas da terra. Isto o guiou à máxima doação de si mesmo. É o seu olhar sensível e penetrante que vê o fundo profundo de todos os desejos como pura graça e esplendor natural; este seu ver amoroso da maravilhosa manifestação de Deus na existência.

A pureza de coração de Francisco está no seu retorno à simplicidade originária; ao estar no êxtase de louvor à vida. O puro de coração satisfaz seus desejos na fluência da força da vida, na escuta do Mistério, no espalhar Amor em tudo o que faz. Não vive no medroso cativeiro da sua vontade, mas vê a vontade do Senhor em tudo. Ele imitou o Senhor o Casto por excelência; louvava Maria em sua fontal virgindade; admirava José, o simples, puro e silencioso. Com eles entrou no caminho da perfeita correspondência de doação à vida: a Encarnação.

Francisco parecia louco e ingênuo, mas seu coração cheio de algo profundo não se esvaziou nas normas que queriam impor a ele. Não reprimiu o Amor, mas o transformou num projeto de vida. Mostrou que amar não é privar-se, mas sim doar-se na força do Deus que é Amor. Ele foi um equilibrado por saber usar a medida exata de suas forças! Que o Pobre de Assis nos liberte do nosso medo de amar, e cantemos a provocante canção de Beto Guedes: “O medo de amar é o medo de ser livre!”, escolhendo sempre a liberdade de Amar! Isto é castidade!

Imagem: de Piero Casentini

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Francisco de Assis e a nobre atitude de não decidir sozinho



Relata a Legenda dos Três Companheiros: “No tempo em que houve a guerra entre Perúgia e Assis, Francisco foi capturado com muitos concidadãos seus e encarcerado em Perúgia, mas, porque era nobre de costumes, foi colocado como prisioneiro com os cavaleiros. Num dia em que seus companheiros de prisão estavam tristes, ele, que naturalmente era sorridente e jovial, não parecia entristecer-se, mas de certo modo parecia alegrar-se.” ( LTC 4,1-2 )

Ser nobre de costumes é ter sentimentos e atitudes nobres. Poderia ter ficado quieto sofrendo no seu canto sem se importar com ninguém, mas preferiu estar alegre e sereno em meio às tensões de uma prisão. Estar com um grupo humano não significa apenas amontoar-se entre os sofridos da hora; mas fazer valer a nobreza de costumes ao levantar a moral dos que estão ali com ele em situação adversa. Quando convive com a desfiguração e a decadência do ser humano, Francisco reconstrói. No leproso, no cárcere, e entre os banidos do bem-estar, Francisco faz um encontro direto com a pessoa. Valorizar a pessoa que ali está faz com que ela volte a acreditar que existe solidariedade e fraternidade. A sua alegria vem desta presença. É como se ele dissesse com aquele leve sorriso dos realizados: “Olha, meu irmão, olha minha irmã, mesmo que não possa ajudar, eu estou junto com você, caminho com você, estou ao seu lado”.

Das horas orantes e contemplativas do eremitério organizado e regrado em materna fraternidade; ao levar consigo um irmão  para as fronteiras da batalha em Damieta, no Egito, por ocasião de mais uma Cruzada, e dialogar com o Sultão; no momento de ir a Roma, com mais nove irmãos, falar com o Papa Inocêncio III; ao  consultar a clara Irmã Clara e Frei Silvestre em sérias decisões para a sua vida, Francisco não sabe ser e fazer sozinho. Há carismas pessoais que preferem fazer sozinhos. Há o Carisma de Francisco de Assis que está sempre em meio a todos, com a força fraterna que garante a nobreza do discernimento, a nobreza de costumes, a nobreza de atitudes que passa pela vontade de muitos.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Francisco de Assis, vivências e convivências


Francisco de Assis soube circundar-se de pessoas que tinham muita energia humana, dos amigos aos familiares era como se todos tivessem o mesmo sangue. Pedro Bernardone, seu pai, mercador assisense, amava muito a vida da cidade e as estradas que o levavam a França. Tinha a energia dos que sabem conquistar posses com muita justiça e direito. Não era apenas um duro e impenetrável negociante, frio e calculista, apenas centrado em seu patrimônio e lucros. Era um pai que sonhava ganhos para seu filho, títulos para o seu filho, queria que seu filho brilhasse e tivesse uma vida elevada conduzida por nobres ideias cavalheirescos. Jeanne de Bourlemont, sua mãe, era francesa conhecida em Assis como Dona Pica, porque nasceu na Picardia e viveu na região da Provença, era uma mulher extremamente bondosa, culta, delicada. Deu a Francisco uma educação fina, ensinou-lhe a língua francesa, canções de gestas, mas sobretudo compreendia como ninguém as aspirações do filho.

Francisco soube circundar-se de amigos, companheiros que viveram intensamente o seu tempo, sua juventude, seus anseios. Serenatas, momentos nas tabernas, a caça, os jogos, a alegria, a vivacidade, a violência presente da guerra chegando às portas da muralha. Seus amigos eram ricos e Francisco também era rico. Tinha influência dos mercadores que traziam prestígio, o uso de bens comerciais, a expansão da cultura, notícias, novas ideias, novos impulsos, vestes coloridas, aspirar a grandeza que vinha da nobreza de costumes. Francisco soube sonhar e seguir aspirações indomáveis do ethos cavaleiresco  que buscava a honra e conquistas; seguir Gualtiero di Brenne, combater e ter palácio, riqueza e armas, pertencer a Corte, a primeira expressão da cortesia, e depois as aproximações mais nobres.

Tudo isto vai moldar em Francisco de Assis uma personalidade única, um caráter determinado. Segurança e leveza, força e ternura. Trovador e penitente, que busca a única riqueza que pode fazer feliz o coração em meio a pobreza mais despojada, mais livre, mais solta, mais generosa. Quem viveu os mais belos relacionamentos pode perceber o pobre que chega e pede em nome de algo maior, em nome de Deus!

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Francisco de Assis e a regra da Fraternidade primitiva


Não fazia parte do projeto de vida inicial de Francisco de Assis fundar uma Ordem ou um grupo religioso como tantos que havia em seu tempo. Ele queria apenas viver o Evangelho, viver o Amor, viver a liberdade dos que sabem amar. Sua vida atraiu seguidores e seguidoras. Vieram Pedro de Cattani, Bernardo de Quintavalle, Leão de Viterbo, Angelo Tancredi, Rufino, Clara, Inês, Beatriz... e logo eram centenas. Vida vivida no Amor, atrai vidas! O Senhor foi presenteando seus passos com irmandade seguidora. Depois da Regra de 1209 ditada pela inspiração, Frei Cesário de Spira, em 1221 o ajuda a escrever a famosa Regra não Bulada. É uma regra mais de testemunho do modo evangélico vivente do que uma norma jurídica. Não tem a aprovação do Papa. Em 1223 surge a Regra definitiva, a Regra Bulada, que tem o dedo do Cardeal Hugolino, mais tarde Gregório IX , que o ajudou muito. Esta sim, foi aprovada!

Havia muita coragem, despojamento, dedicação, fé e entrega nesta gente seguidora. Não sentiam a dureza da Regra porque queriam a segurança suave e forte do Evangelho. Muita gente ajudou para que o rumo fosse encontrado e se organizasse a potência de Amor daquele grupo nascente. Entre improvisos e preceitos, a Fraternidade se corporificou. Das ruínas de São Damião, da singeleza da Porciúncula, do estábulo de Rivotorto, a comunidade ganha força e se expande. São silenciosos, mas pregam. A vivência radical da Pobreza é tão impactante que torna-se gritante. Do chão duro e frio, dos leitos feitos entre pedras e paus, das choupanas de ramos e folhas, das esteiras e das esmolas nasce uma ordem nos jeitos desordenados de então. Não tem nada porque deixaram tudo. Sem bens e dinheiro abraçam um único desejo: ser como Jesus Cristo, que não tinha nada de material, apenas a riqueza de amar e servir. Eles aprenderam com Francisco: é com Ele e por Ele que temos que ir! Pegaram a Palavra e o cumprimento da Palavra e foram! Atrás foram deixando a certeza de que é possível viver o Evangelho de modo Encarnado e um caminho para milhares de seguidores. Pela frente foram criando um futuro para a Fraternidade que apenas sabia que existia um texto, mas que aprendeu a ser Boa Nova! “Preguem o Evangelho, se precisar usem palavras!”

FREI VITÓRIO MAZZUCO

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Francesco di Bernardone, o Francisco de Assis


Quando viajamos pela Itália encontramos a imponência de muitas cidades e suas tradições etruscas, medievais, barrocas, modernas e todas muito adequadas dos tempos de então aos tempos atuais. Quando chegamos a Assis entramos numa cidade pequena, simples, harmoniosa, familiar, parecendo aquelas casinhas de nossos brinquedos infantis. Mas na sua pequenez, a força brota de seus muros, massa de pedra bruta, lava vulcânica!

Assis é talhada pedra sobre pedra, uma conjugação de formas protegendo mistérios. Em meio a paredes e muralhas, certas verdades nunca mais quiseram sair dali, protegem-se entre becos e ruas. Assis é muito simples, mas tem uma natural presença que se impõe. Colada na colina ensina a subir e olhar para um horizonte mais amplo. Cada caminho sai para algum lugar e no início e fim de cada um resplende a mesma beleza, a mesma descoberta, a mesma abertura para uma grande admiração. Há um espírito que ali habita e silenciosamente fala. Um ar puro, uma luz onipresente. Nas praças a vitalidade de uma humanidade que necessariamente tem que passar por entre as casas, fontes e um chão talhado para revelar a pureza de cada forma.



Assis não conhece o caos do mundo, e renasce depois de cada terremoto. Faz com que o olhar de peregrinos, turistas, e buscadores da verdade se perca em tantos detalhes de tamanha profundidade. O mistério precisa de um lugar para ser celebrado, e, em Assis ele encontrou o preciso espaço para transformar-se em rito. Andando em Assis, quem vem de longe ou de perto, sente que já esteve lá em algum momento, e faz uma imersão na saudade que se tem do Paraíso. É andar pelo infinito sem se perder. Foi exatamente neste lugar que nasceu Francisco, que nasceu Clara, e tantos outros que tiraram Assis dos contrafortes do Monte Subásio e a levaram para o mundo como cidade da Paz ou Espírito de Assis.

Assis tem energia física, uma arquitetura espiritual, a estética do belo e do bom. É um encontro da elevação da montanha com a profundidade da planície. Tem o som dos sinos que se expande em ondas sonoras que tocam e vibram no coração das pessoas, nos olivais, nos girassóis, nas catedrais, no casario, nos palácios, nos mosteiros, nas ruelas, nas lojas, nas tavernas, enfim nos caminhos que se entrecruzam dizendo para a humanidade toda: é daqui para o mundo! Assis existia antes de Francisco. Não foi ele que marcou Assis, mas Assis que o moldou. Por viver bem o seu lugar, aprendeu o universo das coisas e saiu extra-muros. Fez do seu espaço tão familiar de sua infância e juventude um território sagrado. Uma fusão de terra e céu. Um Santo que recriou uma unicidade com o lugar, e por isso é chamado para sempre de Francisco de Assis. Pai, Francisco, ensina-nos a dar nome e transformar os nossos cantinhos!

FREI VITÓRIO MAZZUCO