sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

FRANCISCO DE ASSIS E O SENTIMENTO ESTÉTICO CHEIO DE VIRTUDES

Uma das obras mais lidas no mundo franciscano é a biografia São Francisco de Assis, de Maria Sticco, Vozes, Petrópolis, 2001. É uma obra escrita por alguém que amou profundamente São Francisco de Assis. A autora nasceu em Perugia, aos 23 de Novembro de 1891 e faleceu em Assis no dia 18 de março de 1981, aos 90 anos. Uma mulher de literatura e espiritualidade e que muito contribuiu para a espiritualidade franciscana. Tornou-se uma leiga intelectual consagrada. Uniu estudo, silêncio, oração, pesquisa e mística. Ela não escreveu sobre ele, ela deixou-se moldar pelo ideal franciscano. Viveu no mundo como uma mulher das letras e mestra do espírito e vida franciscana. Agostinho Gemelli, OFM, no prefácio da obra sintetizou bem o que o livro traduz:

Baseado diretamente nas Fontes Franciscanas, chega, através da meditação, à compreensão da humanidade e sobrenaturalidade de Francisco de Assis, numa fusão do elemento humano e divino. A obra quer apresentá-lo através dos fatos, de um modo muito vivo e muito próximo, para que o leitor tenha em sua frente a imagem e a identidade de Francisco. É mostrar através de Francisco uma consciência e um modo de ser cristão. É uma narração religiosa e artística ao mesmo tempo. É um livro sereno, escrito com amor, por um coração franciscano.

Diz Maria Sticco: “O amor de Deus o leva a encontrar alegria em tudo, mas especialmente na dor perfeita, e eis a conclusão de que a vida é boa e tanto melhor quanto mais dolorosa; faz-lhe abraçar a morte como irmã, e eis que, se outros poetas haviam entendido que o amor é morte, São Francisco afirma que a morte é amor, compreendendo-o Dante e compreendendo-o todos aqueles que na vida não encontram amor e que, à palavra do santo, o esperam firmemente na agonia”. Se alguém quiser entender os princípios cavalheirescos que inspiraram o caminho de Francisco de Assis, leia esta obra!

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

FRANCISCO DE ASSIS, UM SONHO CULTURAL E ESPIRITUAL DA HUMANIDADE

Vou ao prefácio da obra que quero comentar para tirar as ideias principais desta crônica. Não existe santo a respeito do qual se tenha escrito tanto como de São Francisco de Assis. As publicações dedicadas a ele ultrapassam o quadro da literatura devocional.  Ele é uma fonte inesgotável de informação e emoção. Francisco é dessas figuras das quais a humanidade sempre sentirá orgulho. Suas qualidades forçam a simpatia; seus defeitos, se os tem, são atraentes; sua santidade nada tem de afetado ou ameaçador; seus dons naturais suscitam total admiração; e seus ensinamentos exalam o frescor, poesia e serenidade, que mesmo espíritos embotados podem encontrar neles razões para amar a vida e para crer na bondade divina. A todos cativa por sua nobreza, seu desinteresse e sua bondade.

Este homem cavalheiroso avança sempre nobremente para os elevados objetivos que se propôs. Ignora pensamentos medíocres, as mentiras piedosas, pensamentos mesquinhos. Se respeita todas as elites, se obedece de boa vontade não apenas aos superiores, mas também aos iguais e aos inferiores. Não é por nenhum servilismo lisonjeiro, próprio de aduladores e de escravos. Realmente ele nasceu príncipe. E que razões teria ele para lisonjear, se não procura de forma alguma vantagens temporais? Deixa as honras para os outros, esquiva-se das polêmicas, não se preocupa com o amanhã. Quando tem dinheiro, o dá a quem lhe pede; quando não tem, vai aos mendigos para dar-lhes suas vestes. Todos os irmãos desfrutam da sua afeição. Em primeiro lugar os leprosos. Em seguida, os salteadores dos caminhos e os demais pecadores, pelos quais transborda de indulgência e ternura. Pois não julga a ninguém. Inclina-se obsequioso ao menor dos semelhantes, trata a todos com respeito, fala a todos com gentileza e cortesia.

Quer saber mais? Leia a bela biografia: Vida de São Francisco de Assis, de Omer Englebert, EST Edições, Porto Alegre, 2004.  Obra indispensável! Uma primorosa tradução de Frei Adelino G. Pilonetto.

FREI VITORIO MAZZUCO

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

FRANCISCO DE ASSIS: O LEIGO E O RELIGIOSO

Indico o livro Francisco de Assis, de Jacques Le Goff, Record, Rio de Janeiro, 2007. O autor, consagrado historiador e medievalista, foi presidente da célebre Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais, na França. Como todo bom estudioso e pesquisador do período medieval, Jacques Le Goff, não deixa de interessar-se por São Francisco de Assis. Ele mostra Francisco como personagem histórico, leigo e religioso, que sacudiu a religião, a civilização e a sociedade de então. Nas cidades em pleno desenvolvimento, nas estradas, nos solitários retiros em cavernas e florestas, com a nova prática da pobreza, da humildade e da palavra. Indo por um caminho, às vezes diferente da eclesiologia da época, mas sem cair na heresia. Francisco desempenhou um papel decisivo no impulso de novas ordens mendicantes, difundindo um apostolado voltado para a nova sociedade cristã, e enriqueceu a espiritualidade com uma dimensão ecológica que fez dele o criador de um sentimento medieval da natureza expresso na religião, na literatura e na arte.

Jacques Le Goff, nesta obra, destaca Francisco como modelo de um novo tipo de santidade centrado sobre Cristo, a ponto de se identificar com ele como o primeiro homem a receber os estigmas. Foi um dos personagens mais importantes de seu tempo e, até hoje, da história medieval. Um santo sempre moderno. Ecologista na sua fascinação pela natureza, anticonsumista na radical opção pela simplicidade, defensor da liberdade de espírito, da alegria, da vida comunitária, do feminino, uma história total que sempre abalou as estruturas do poder. Em Francisco de Assis, a vida e as virtudes são o essencial. Em vida e depois da morte, este santo, seduziu e contribuiu muito para impor um modelo de santidade em que a imitação cristológica tem grande parte e em que predominam a humildade, a pobreza e a simplicidade.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

FELIZ ANO NOVO MARIANO!


Os 300 anos do encontro da imagem da Mãe Divina de Aparecida nos dá a tônica para este ano de 2017 aqui no Brasil. Ainda estamos na alegria do ciclo do Natal onde celebramos a Palavra Encarnada. Não podemos esquecer que a Palavra que se fez Carne precisou de Maria, a inteira receptividade.

Pela Palavra, a Mãe Divina é fé, fidelidade e fusão de vontades. Deus quis ter Mãe, ela disse sim à vontade sagrada. Que ela nos ensine a não ter nenhuma resistência interior para deixar que uma vontade superior tome conta de nós. Ela não tem nenhuma autoafirmação egoísta, sabe que o Senhor fez maravilhas em seu ser. Que ela nos inspire a anulação de nosso soberbo eu, para sermos protagonistas de um Deus que age em nós.

Maria é simples, pobre, humilde, pura, pacífica, silenciosa. Uma contraposição aos apelos do mundo de hoje tão publicitariamente barulhento em vender uma imagem do humano autossuficiente, orgulhoso, arrogante, sensual, violento, desassossegado e ansioso, que fala demais em Jesus, mas não o faz nascer. Maria se faz um nada na presença de Deus para deixar que Deus seja Tudo com sua presença. Ela não obstruiu a presença da Palavra, não bloqueou uma ação concreta do Amor. Ela é Imaculada, isto é, livre de toda mancha de egoísmo que pudesse obscurecer a Luz de Deus no seu ser.

Repleta de Amor, Maria pode receber e oferecer a Palavra no mundo e para o mundo. Entrega seu ventre para que, na mais completa hospitalidade e humildade, a palavra fosse gerada ali. Aprendamos com ela a germinar interioridade! Maria preparou seu coração para que um Deus, infinitamente despojado, habitasse um ser humano despojado. FELIZ ANO NOVO sob a proteção da Mãe Divina!

FREI VITÓRIO MAZZUCO

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

SÃO FRANCISCO E O PASTOR EVANGÉLICO

Pessoas de fé encontram-se e se atraem no fascinante caminho da busca espiritual. Este livro narra a experiência de Chase Falson, um pastor evangélico que se vê às voltas com uma crise espiritual. Aos poucos vai perdendo a fé em Deus, na Palavra de Deus e na sua Igreja. Atormentado por dúvidas existenciais, ele fica ainda mais abalado com a morte repentina de uma criança da sua congregação e começa a pôr em xeque todas as certezas que antes eram os alicerces de sua vida. Depois de ter um colapso em pleno culto, acaba sendo afastado de seu ministério.

Em crise consigo mesmo por não ter se mantido firme em sua crença, Chase decide passar um tempo na Itália com seu tio Kenny, um frade franciscano. Lá ele é apresentado aos ensinamentos de São Francisco de Assis, que viveu há mais de 800 anos e cuja maneira simples de amar Jesus mudou a história do mundo e renovou a Igreja Católica em meio aos desafios da Idade Média. Na tentativa de recuperar sua fé e preencher o vazio da alma, Chase concorda em partir em peregrinação pelos lugares sagrados em Deus se revelou ao venerado santo italiano. Ao longo desta busca, ele conhece diversas pessoas que vivenciaram incríveis experiências de fé. As histórias emocionantes que elas lhe contam iluminam seu caminho para reconquistar a graça, a humildade e a alegria de viver.

Este livro de Ian Morgan Cron - Em busca de Francisco – Como a história do santo de Assis ajudou um pastor a redescobrir sua fé, Sextante, Rio de Janeiro, 2014 - é uma história de perda e descoberta, um romance esperançoso e comovente, com implicações profundas para aqueles que anseiam por um relacionamento mais intenso com Deus e com o mundo à sua volta.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

FRANCISCO DE ASSIS, TERNURA E VIGOR

Recomendo sempre a obra São Francisco de Assis, Ternura e Vigor, de Leonardo Boff, Vozes, Petrópolis, 2003. Francisco atravessa séculos com sua vida inspirando vidas. Leonardo Boff, com sua alma franciscana, capta o melhor do Pobre de Assis e o aproxima de nós na Ternura e no Vigor.

Este é um livro que transmite um conhecimento especial: a espiritualidade e a afetividade, a profecia e o compromisso e qualificar que a vida e o humano não se separam! Mundo, convivilidade, amor, sensibilidade, cuidado, compaixão, humanidade, desejo, irmandade, estar junto com os pobres, integração, experiência do Sagrado, encarnação, masculino e feminino, eros e ágape, democracia cósmica, o universo interior reconciliado com o cosmo exterior, virtude, ascese, fraternidade, libertação que gera o belo e bom, o justo e o livre, a fé, uma Igreja  próxima e popular, seriedade evangélica e leveza de encanto, no dizer sejam bem-vindas todas as coisas, a irmã morte e as negatividades, a vida se qualifica por uma resposta clara ao Amor.

Tudo isto jorra nesta obra como uma cristalina fonte. Um encontro com a verdade feita na história, no coração paterno e materno de Francisco e no jeito irmão e mestre, simples e luminoso, poético e terapêutico, teológico, terno e vigoroso de Leonardo Boff.

FREI VITORIO MAZZUCO

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Francisco de Assis pelo biógrafo Paul Sabatier


Paul Sabatier começou a redigir  esta obra Vida de São Francisco de Assis, USF-IFAN, Bragança Paulista, 2006, em  1890 e trabalhou intensamente até 1893 na mesma. A obra foi lançada em Paris em 1984, e a primeira edição esgotou-se em pouco tempo e teve pedido de mais quatorze traduções. Alcançou um estrondoso sucesso em todas as nações da Europa. Tolstói o leu e fez traduzir para a língua russa.

Uma biografia histórica que se tornou um fenômeno literário. Em 1931 tinha quarenta e três edições em todas as línguas europeias. Obra plena de mística cristã, italiana e medieval. Por razões ideológicas de reação contra o autor que era um protestante calvinista e pastor, o livro foi parar no Index dos livros proibidos.

É a obra que dá um impulso para os estudos históricos críticos sobre Francisco de Assis; Paul Sabatier é o pai dos estudos críticos das Fontes Franciscanas. A Universidade São Francisco de Bragança Paulista a partir de seu Instituto Franciscano de Antropologia propiciou a primeira tradução em língua portuguesa.  Editora Vozes  está preparando uma nova edição desta mesma obra. Foram muitos anos sonhados na paciência da espera e na vontade de ter mais um subsídio fundamental para a compreensão do fenômeno humano e cristão chamado Francisco de Assis.

Não é apenas uma obra a mais sobre esse personagem santo e reformador, a respeito do qual já se escreveram obras  suficientes para formar uma biblioteca. Este livro, porém, é uma obra diferenciada, estimula nossa vontade de ler e vontade de ser. É muito bom ler Francisco; o mundo precisa de sua vida real e legendária para fortalecer sua criatividade, sua esperança, seus sonhos e sua fé. Francisco é um santo empenhado em recriar a vida. Para o povo, Francisco é um prolongamento do seu modo de ser, um ser natural e sobrenatural ao mesmo tempo. É muito bom ler Sabatier, autor de um pensamento diverso. Quem pensa diferente também recria um diálogo com o mundo, com a fé, com os valores cristãos, com a ética, com a história; e nos ensina a sermos mais  autênticos.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

FRANCISCO DE ASSIS, O SANTO RELUTANTE

Uma das obras modernas impactantes e que inspirou outras obras e artigos, como por exemplo a Conspiração Franciscana,  temos esta: Francisco de Assis, O Santo Relutante,  de Donald Spoto, Objetiva, Rio de Janeiro,2003.  O autor é doutor em Teologia pela Universidade Fordham, professor de Estudos da Religião, Literatura Bíblica , e grande escritor, com mais de 20 obras. Ele interessou-se por Francisco de Assis após ter pesquisado, entre biografias e artigos, as 1.575 obras escritas sobre São Francisco de Assis. Segundo ele, nenhum santo foi objeto de tanta atenção da parte de historiadores e biógrafos. Ele procura olhar Francisco além dos preconceitos modernos, e vê-lo como um italiano medieval com um entendimento muito específico da realidade. Tira o mito da ideia romântica sobre a era dos castelos e dos cavaleiros errantes, das damas medievais e da honra cavalheiresca.  A vida e o exemplo de Francisco possuem uma integridade que desafia nossos preconceitos sobre o que constitui uma vida de virtude, sem falar de uma forma respeitável de encarar a religião.

Donald Spoto realça a humanidade de Francisco de Assis e diz que ele não era um teórico da vida espiritual, jamais falava de Deus a não ser em termos de experiência, porque era testemunha de um Deus vivo e atuante. Ele deu ao mundo uma vida de simplicidade radical, desvinculada de quaisquer posses e, portanto, livre para seguir os acenos da graça e o caminho que leva a Deus, a qualquer momento e em qualquer lugar em que Deus o chamasse. Fé é uma atitude diante da realidade, e a conversão é obra constante de toda uma vida. Uma vida comovente e penitente. Por ter uma clara concepção da vida, de si mesmo e dos outros, Francisco podia compreender melhor quem era Deus.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

UMA POÉTICA VIDA DE SÃO FRANCISCO

Para o conhecimento de Francisco de Assis vale a pena ler São Francisco de Assis, de Johannes Joergensen, Editora Vozes, Petrópolis, 1982. Quem era o autor?  Joergensen,  escritor, biólogo, poeta lírico e autor de muitos ensaios, nasceu em 06 de novembro de 1866, em Svendborg, na Dinamarca e morreu no dia 29 de maio de 1956. Era protestante luterano e aderiu ao panteísmo romântico e ao darwinismo positivista, ao naturalismo e ao simbolismo impressionista.  Em 1898, aos 32 anos, passou para o catolicismo. Em 1913 era professor de Estética em Louvaine e professor no Instituto Católico de Paris. Morou em Assis por 35 anos. Buscava a verdade, a serenidade e a paz.  Ele se autodefiniu como Peregrino de Assis.

Escreveu a sua vida de São Francisco com muito sentimento e poesia, sempre harmonizando com a poética a sua busca pela verdade. Escreveu na sua língua natal e publicou pela primeira vez em Copenahage em 1907. Foi traduzida imediatamente em várias línguas, com centenas de edições e reimpressões. Identificou-se com Francisco como poeta e como convertido. No início de sua biografia coloca uma apresentação das Fontes, dando destaque a Tomás de Celano. Sua obra é original e destaca a poesia religiosa de Francisco de Assis.

No capítulo VIII descreve a presença de Jacoba de Settesoli no momento da morte de Francisco: “A primeira pessoa admitida junto ao cadáver de Francisco foi Jacoba. Toda chorosa, ela lançou-se de novo sobre o corpo de seu mestre, e cem vezes beijou as chagas das mãos e dos pés do extinto. Depois, juntamente com os frades, velou, durante a noite, ao lado do ataúde do falecido mestre, e , quando raiou a aurora do domingo seguinte, a discípula de Francisco sentiu que a sua resolução estava estabelecida: agora ela não mais partiria de Assis, e passaria o resto de sua vida nos lugares onde Francisco peregrinara e fizera as suas obras. Como o convento de São Damião, a casa de Jacoba em Assis, bem depressa houve de se tornar um lugar de reunião para os discípulos fiéis, e numerosas foram as esmolas que das mãos dela passaram para as mãos de Frei Leão, Frei Egídio e Frei Rufino”.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

FRANCISCO DE ASSIS, CAMINHOS DE INTERIORIDADE

Indico uma obra muito boa: "Caminhos de interioridade com São Francisco de Assis", de Michel Hubault, Editorial Franciscana, Braga, 2008. Michel Hubault é um religioso franciscano da Ordem dos Frades Menores, pregador, escritor, conferencista, publicou muitas obras sobre São Francisco. Na introdução da obra, ele faz uma pergunta: Que pode a espiritualidade franciscana oferecer ao nosso tempo? E compara os séculos XII e XIII aos tempos de hoje. O alvoroço constante e as mudanças aceleradas na sociedade. Em meio a tudo o rigor e as intuições de São Francisco em sua época e que servem de inspiração para a nossa época. O seu singular carisma, com efeito, foi o de ter conseguido conciliar as aspirações dos homens e mulheres do seu tempo com a Boa Nova do Evangelho.

Quando Francisco atinge a maioridade, a sociedade feudal está desmoronando e aparece o mercado. Do rural para a sociedade urbana. Há transformações dos modos de vida tradicionais. Riqueza muda de mãos: sai das mãos do senhor feudal e passa a ser dinheiro móvel, na compra e venda de bens. Tudo pode ser comprado: da mercadoria mais comum até um título de nobreza, uma esposa nobre e um benefício eclesiástico. Há lutas para se libertar da tutela dos nobres. Francisco de Assis participa desta luta. Os grupos começam a se organizar. Um ideal de fraternitas está no ar. Francisco abraça este ideal e o sublima, sabe que pode dar um sentido mais forte a toda transformação pessoal e social. Encontra-se com  o Cristo de São Damião e começa a ter consciência e prática de que a única revolução duradoura e proveitosa para a humanidade teria de se basear no Evangelho, pois só ele é capaz de inventar uma nova forma de viver. Francisco de Assis nunca deixará de apreciar o respeito pela liberdade e de mostrar simpatia pela audácia, pela novidade, pela fraternidade e pela mobilidade.

Francisco de Assis restaura a si mesmo, os valores, o modo de estar no mundo e inspira uma mudança na Igreja. A eclesiologia do século XIII é paradoxal: continua prisioneira de velhas estruturas feudais, está defasada, alheia à cultura emergente. Perde o contato com o povo, e os modelos de vida cristã que propõe não se adaptam às aspirações dos homens e mulheres deste tempo. Fervilham os movimentos penitenciais, grupos evangélicos e novas comunidades. Todos manifestam um sincero desejo de retorno ao Evangelho, relações mais fraternas, mais cordiais, menos hierárquicas. O século XIII foi o século do laicato. Não rompe com a Igreja, mas mostra um caminho de interioridade fundamentado na Boa Nova. Com isto permaneceu!

FREI VITÓRIO MAZZUCO