quarta-feira, 30 de novembro de 2016

FRANCISCO DE ASSIS, TERNURA E VIGOR

Recomendo sempre a obra São Francisco de Assis, Ternura e Vigor, de Leonardo Boff, Vozes, Petrópolis, 2003. Francisco atravessa séculos com sua vida inspirando vidas. Leonardo Boff, com sua alma franciscana, capta o melhor do Pobre de Assis e o aproxima de nós na Ternura e no Vigor.

Este é um livro que transmite um conhecimento especial: a espiritualidade e a afetividade, a profecia e o compromisso e qualificar que a vida e o humano não se separam! Mundo, convivilidade, amor, sensibilidade, cuidado, compaixão, humanidade, desejo, irmandade, estar junto com os pobres, integração, experiência do Sagrado, encarnação, masculino e feminino, eros e ágape, democracia cósmica, o universo interior reconciliado com o cosmo exterior, virtude, ascese, fraternidade, libertação que gera o belo e bom, o justo e o livre, a fé, uma Igreja  próxima e popular, seriedade evangélica e leveza de encanto, no dizer sejam bem-vindas todas as coisas, a irmã morte e as negatividades, a vida se qualifica por uma resposta clara ao Amor.

Tudo isto jorra nesta obra como uma cristalina fonte. Um encontro com a verdade feita na história, no coração paterno e materno de Francisco e no jeito irmão e mestre, simples e luminoso, poético e terapêutico, teológico, terno e vigoroso de Leonardo Boff.

FREI VITORIO MAZZUCO

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Francisco de Assis pelo biógrafo Paul Sabatier


Paul Sabatier começou a redigir  esta obra Vida de São Francisco de Assis, USF-IFAN, Bragança Paulista, 2006, em  1890 e trabalhou intensamente até 1893 na mesma. A obra foi lançada em Paris em 1984, e a primeira edição esgotou-se em pouco tempo e teve pedido de mais quatorze traduções. Alcançou um estrondoso sucesso em todas as nações da Europa. Tolstói o leu e fez traduzir para a língua russa.

Uma biografia histórica que se tornou um fenômeno literário. Em 1931 tinha quarenta e três edições em todas as línguas europeias. Obra plena de mística cristã, italiana e medieval. Por razões ideológicas de reação contra o autor que era um protestante calvinista e pastor, o livro foi parar no Index dos livros proibidos.

É a obra que dá um impulso para os estudos históricos críticos sobre Francisco de Assis; Paul Sabatier é o pai dos estudos críticos das Fontes Franciscanas. A Universidade São Francisco de Bragança Paulista a partir de seu Instituto Franciscano de Antropologia propiciou a primeira tradução em língua portuguesa.  Editora Vozes  está preparando uma nova edição desta mesma obra. Foram muitos anos sonhados na paciência da espera e na vontade de ter mais um subsídio fundamental para a compreensão do fenômeno humano e cristão chamado Francisco de Assis.

Não é apenas uma obra a mais sobre esse personagem santo e reformador, a respeito do qual já se escreveram obras  suficientes para formar uma biblioteca. Este livro, porém, é uma obra diferenciada, estimula nossa vontade de ler e vontade de ser. É muito bom ler Francisco; o mundo precisa de sua vida real e legendária para fortalecer sua criatividade, sua esperança, seus sonhos e sua fé. Francisco é um santo empenhado em recriar a vida. Para o povo, Francisco é um prolongamento do seu modo de ser, um ser natural e sobrenatural ao mesmo tempo. É muito bom ler Sabatier, autor de um pensamento diverso. Quem pensa diferente também recria um diálogo com o mundo, com a fé, com os valores cristãos, com a ética, com a história; e nos ensina a sermos mais  autênticos.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

FRANCISCO DE ASSIS, O SANTO RELUTANTE

Uma das obras modernas impactantes e que inspirou outras obras e artigos, como por exemplo a Conspiração Franciscana,  temos esta: Francisco de Assis, O Santo Relutante,  de Donald Spoto, Objetiva, Rio de Janeiro,2003.  O autor é doutor em Teologia pela Universidade Fordham, professor de Estudos da Religião, Literatura Bíblica , e grande escritor, com mais de 20 obras. Ele interessou-se por Francisco de Assis após ter pesquisado, entre biografias e artigos, as 1.575 obras escritas sobre São Francisco de Assis. Segundo ele, nenhum santo foi objeto de tanta atenção da parte de historiadores e biógrafos. Ele procura olhar Francisco além dos preconceitos modernos, e vê-lo como um italiano medieval com um entendimento muito específico da realidade. Tira o mito da ideia romântica sobre a era dos castelos e dos cavaleiros errantes, das damas medievais e da honra cavalheiresca.  A vida e o exemplo de Francisco possuem uma integridade que desafia nossos preconceitos sobre o que constitui uma vida de virtude, sem falar de uma forma respeitável de encarar a religião.

Donald Spoto realça a humanidade de Francisco de Assis e diz que ele não era um teórico da vida espiritual, jamais falava de Deus a não ser em termos de experiência, porque era testemunha de um Deus vivo e atuante. Ele deu ao mundo uma vida de simplicidade radical, desvinculada de quaisquer posses e, portanto, livre para seguir os acenos da graça e o caminho que leva a Deus, a qualquer momento e em qualquer lugar em que Deus o chamasse. Fé é uma atitude diante da realidade, e a conversão é obra constante de toda uma vida. Uma vida comovente e penitente. Por ter uma clara concepção da vida, de si mesmo e dos outros, Francisco podia compreender melhor quem era Deus.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

UMA POÉTICA VIDA DE SÃO FRANCISCO

Para o conhecimento de Francisco de Assis vale a pena ler São Francisco de Assis, de Johannes Joergensen, Editora Vozes, Petrópolis, 1982. Quem era o autor?  Joergensen,  escritor, biólogo, poeta lírico e autor de muitos ensaios, nasceu em 06 de novembro de 1866, em Svendborg, na Dinamarca e morreu no dia 29 de maio de 1956. Era protestante luterano e aderiu ao panteísmo romântico e ao darwinismo positivista, ao naturalismo e ao simbolismo impressionista.  Em 1898, aos 32 anos, passou para o catolicismo. Em 1913 era professor de Estética em Louvaine e professor no Instituto Católico de Paris. Morou em Assis por 35 anos. Buscava a verdade, a serenidade e a paz.  Ele se autodefiniu como Peregrino de Assis.

Escreveu a sua vida de São Francisco com muito sentimento e poesia, sempre harmonizando com a poética a sua busca pela verdade. Escreveu na sua língua natal e publicou pela primeira vez em Copenahage em 1907. Foi traduzida imediatamente em várias línguas, com centenas de edições e reimpressões. Identificou-se com Francisco como poeta e como convertido. No início de sua biografia coloca uma apresentação das Fontes, dando destaque a Tomás de Celano. Sua obra é original e destaca a poesia religiosa de Francisco de Assis.

No capítulo VIII descreve a presença de Jacoba de Settesoli no momento da morte de Francisco: “A primeira pessoa admitida junto ao cadáver de Francisco foi Jacoba. Toda chorosa, ela lançou-se de novo sobre o corpo de seu mestre, e cem vezes beijou as chagas das mãos e dos pés do extinto. Depois, juntamente com os frades, velou, durante a noite, ao lado do ataúde do falecido mestre, e , quando raiou a aurora do domingo seguinte, a discípula de Francisco sentiu que a sua resolução estava estabelecida: agora ela não mais partiria de Assis, e passaria o resto de sua vida nos lugares onde Francisco peregrinara e fizera as suas obras. Como o convento de São Damião, a casa de Jacoba em Assis, bem depressa houve de se tornar um lugar de reunião para os discípulos fiéis, e numerosas foram as esmolas que das mãos dela passaram para as mãos de Frei Leão, Frei Egídio e Frei Rufino”.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

FRANCISCO DE ASSIS, CAMINHOS DE INTERIORIDADE

Indico uma obra muito boa: "Caminhos de interioridade com São Francisco de Assis", de Michel Hubault, Editorial Franciscana, Braga, 2008. Michel Hubault é um religioso franciscano da Ordem dos Frades Menores, pregador, escritor, conferencista, publicou muitas obras sobre São Francisco. Na introdução da obra, ele faz uma pergunta: Que pode a espiritualidade franciscana oferecer ao nosso tempo? E compara os séculos XII e XIII aos tempos de hoje. O alvoroço constante e as mudanças aceleradas na sociedade. Em meio a tudo o rigor e as intuições de São Francisco em sua época e que servem de inspiração para a nossa época. O seu singular carisma, com efeito, foi o de ter conseguido conciliar as aspirações dos homens e mulheres do seu tempo com a Boa Nova do Evangelho.

Quando Francisco atinge a maioridade, a sociedade feudal está desmoronando e aparece o mercado. Do rural para a sociedade urbana. Há transformações dos modos de vida tradicionais. Riqueza muda de mãos: sai das mãos do senhor feudal e passa a ser dinheiro móvel, na compra e venda de bens. Tudo pode ser comprado: da mercadoria mais comum até um título de nobreza, uma esposa nobre e um benefício eclesiástico. Há lutas para se libertar da tutela dos nobres. Francisco de Assis participa desta luta. Os grupos começam a se organizar. Um ideal de fraternitas está no ar. Francisco abraça este ideal e o sublima, sabe que pode dar um sentido mais forte a toda transformação pessoal e social. Encontra-se com  o Cristo de São Damião e começa a ter consciência e prática de que a única revolução duradoura e proveitosa para a humanidade teria de se basear no Evangelho, pois só ele é capaz de inventar uma nova forma de viver. Francisco de Assis nunca deixará de apreciar o respeito pela liberdade e de mostrar simpatia pela audácia, pela novidade, pela fraternidade e pela mobilidade.

Francisco de Assis restaura a si mesmo, os valores, o modo de estar no mundo e inspira uma mudança na Igreja. A eclesiologia do século XIII é paradoxal: continua prisioneira de velhas estruturas feudais, está defasada, alheia à cultura emergente. Perde o contato com o povo, e os modelos de vida cristã que propõe não se adaptam às aspirações dos homens e mulheres deste tempo. Fervilham os movimentos penitenciais, grupos evangélicos e novas comunidades. Todos manifestam um sincero desejo de retorno ao Evangelho, relações mais fraternas, mais cordiais, menos hierárquicas. O século XIII foi o século do laicato. Não rompe com a Igreja, mas mostra um caminho de interioridade fundamentado na Boa Nova. Com isto permaneceu!

FREI VITÓRIO MAZZUCO

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Francisco de Assis na história medieval

Muitas pessoas desconhecessem a Idade Média; outras pensam conhecer e emitem opiniões sem fundamentos, outras manifestam um grande interesse. O fato é que a Idade Média influencia as épocas da história com uma vitalidade invejável. Indico para quem se interessa um bom livro, uma bela síntese histórica, para a compreensão do período medieval: O Cristianismo na Idade Média, de Danilo Mondoni, SJ, Edições Loyola, 2014. O autor diz que “sem a visão negativista do iluminismo - época das trevas – nem a exaltação unilateral do romantismo – a civilização cristã – esta obra tem por objetivo descrever e compreender os encadeamentos históricos que delinearam e caracterizaram a cristandade medieval, apresentando uma visão de conjunto de seu desenvolvimento, desde a fase inicial, caracterizada pela missão anglo-saxã e pela relação entre a Igreja e o reino dos francos, passando pelo ressurgimento da vida urbana no Ocidente e pela pretensão pontifícia de supremacia política e espiritual sobre a Europa, até as discrepâncias entre as exigências da Igreja e um mundo já em mudança, tentativas de reforma eclesial e formação de Igrejas nacionais, questionamento do princípio hierocrático pelo princípio da soberania do povo e pela teoria conciliar, secundados pelo humanismo e pela Renascença”.

Mas gostaria de citar o que diz a obra em referência a São Francisco de Assis, mostrando que a vida de Francisco significou uma reação religiosa contra os perigos e males da cultura urbana: a primazia do humano sobre o institucional, o desprezo das riquezas que coisificam o ser humano, o valor do simples e natural em face do artificialismo das necessidades de consumo, o despojamento de todo prestígio e toda hipocrisia para se voltar à verdade original, o amor à pobreza como fonte de liberdade interior, o amor a todo ser vivo e a paz entendida como amor positivo e universal a todos os irmãos e irmãs. Foi um louvor ao Senhor mediante suas criaturas – estas não são somente símbolos, mas realidades vivas, filhas de Deus. Francisco foi uma das pessoas mais abertas às alegrias da vida: cantou e exaltou todas as criaturas como transparência da glória e do amor de Deus.

Francisco de Assis é um dos santos mais amados, admirados, estudados e pesquisados. Escrevem-se muitas obras: livros, teses, ensaios, artigos, teatro, musicais, filmes e poemas sobre ele.  Muita gente pede indicações de livros sobre Francisco de Assis, por isso, farei uma série de indicações de obras referenciais sobre Francisco de Assis e seu movimento de amor evangélico que se transformou em três Ordens e todas as suas ramificações. Ele sempre será uma fonte de inspiração. E como dizia uma máxima acadêmica medieval: é preciso conhecer melhor, para amar mais.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Francisco de Assis, personalidade histórica

Francisco fascina pela convergência de duas características na aparência contraditórias, mas não exclusivas uma de outra: a firmeza na indicação do próprio ideal e a flexibilidade em torná-lo presente nas circunstâncias concretas sem jamais desnaturar-lhe os elementos constitutivos fundamentais. Estas, por sua vez, acrescentavam aos aspectos psicológicos de seu caráter um aspecto não acessório de persuasividade concreta: a vontade de participar da marginalização era sincera, real, vivida não no fechamento de um eremitério ou entre os muros de um mosteiro, mas entre o povo, nas ruas, no colóquio entre as pessoas. Estas são palavras da apresentação da obra São Francisco, de Raoul Manselli, Vozes-CFFB, Petrópolis, 1997. O autor, Raoul Manselli, é um especialista em história da Idade Média, professor na Universidade de Roma, escritor conceituado em matéria de Franciscanismo.

O fascínio de Francisco de Assis estendeu-se sobre pensadores, filósofos e historiadores. Muitos o sentem em forma de impulso ao pesquisar e escrever sobre Francisco, não só contemplando o aspecto da santidade, mas particularmente o da personalidade humana em sua breve existência. Esta obra apresenta Francisco como personalidade histórica em toda a sua grandeza. Uma estreita ligação entre o homem Francisco e o se tempo, entre Francisco e seus irmãos em uma Igreja perpassada por profundas inquietações. Deixa emergir uma personalidade coerente e sobressair uma religiosidade nova que se nutre tanto dos sentimentos e da vida popular quanto da mais autêntica espiritualidade litúrgica.

O grande valor desta biografia reside no fato de o autor levar em conta não só as fontes biográficas do século XIII, mas também as pesquisas históricas desenvolvidas especialmente a partir do final do século passado. O próprio autor diz que, através de uma exposição crítica, mostra a relação entre um homem e a realidade religiosa, política e social que o circunda, para compreender e atingir o motivo central inspirador da sua vida e da sua ação que operam no interior daquela realidade para modificá-la e renová-la à luz de um modelo revivido numa imediatez global, o modelo oferecido por Jesus Cristo no Evangelho.

Frei Vitório Mazzuco

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Francisco de Assis e a irmã morte


Frei Vitório Mazzuco

Tema estranho quando olhamos a partir dos limites de nossa compreensão e aceitação. Mas é natural em se tratando de Francisco de Assis, que preparou o momento de sua passagem deste mundo para a eternidade. Reuniu os Irmãos, recebeu os doces e a presença de sua amiga Jocoba de Settesoli, compôs um hino às Criaturas para ser cantado naquela hora, arrumou um despojado leito na terra nua. Por amar intensamente a vida, não teve medo da morte. Morreu no outono de 1226 em meio às metamorfoses da estação, o amadurecimento das folhas, o cair para o chão, renascer em todos os galhos e florescer; esconder nos confinados canteiros do inverno e renascer na Eterna Primavera.

Francisco venceu-se e, no vencer-se, destruiu seus medos, sobretudo o medo da morte. Porque reconstruiu o Reino, se sentiu seguro nele para sempre. Abraçar a morte fez parte de seu ser livre. Sêneca, na carta a Lucilius, escrevia: “Quem faz assim pratica a liberdade do pensamento, pois quem aprendeu a morrer, desaprendeu ser escravo”. Francisco não se prendeu a nada, foi livre para o regresso ao Paraíso. Ao fazer de sua morte uma celebração tirou o trágico do instante. Viveu a vida moldando cada dia o eterno. Para ele, cada segundo da vida continha toda a vida em sua plenitude, por isso não sabia do último dia. Disse que todos devem recomeçar; fazer a sua parte.

Desejou o Espírito do Senhor e o seu santo modo de operar. Fez disso a expressão de sua vontade. Compilou uma anotação de todas as maravilhas que viu na vida. Cantou um cântico de luz na sombra da morte. Sabia que ia chegar ao céu e ser imediatamente reconhecido por todos os  sofridos leprosos  que chegaram antes, e pelo  Filho do Homem, que ia identificar e contemplar nele a mesma tatuagem da Paixão, as marcas  do Amor, fundidas num  grande e acolhedor abraço!

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Que história é esta de chamar a morte de irmã?


No Cântico das Criaturas existe o famoso verso de Francisco de Assis: ”Louvado sejas, meu Senhor, pela Irmã nossa, a morte corporal, da qual nenhum homem vivente pode escapar”; ou como relata Tomás de Celano: “Convidava também todas as criaturas ao louvor de Deus e, por meio das palavras que outrora compusera, ele próprio exortava ao amor de Deus. Exortava ao louvor até a própria morte, terrível e odiosa para todos, indo alegre ao encontro dela, convidava-a a sua hospitalidade; disse: “Bem-vinda, minha irmã morte!”(2Cel 217,7). Francisco preparou ritualmente sua morte, fez da sua morte uma celebração, um rito de passagem. Por estar plenamente na vida e na totalidade da existência integrou a morte não como  um absurdo, mas como parte natural do ciclo da vida.

Francisco de Assis é uma afirmação da vida por isso pode encarar a morte como um processo da curva biológica que traça a linha do nascer, crescer, envelhecer, morrer no momento oportuno ou prematuramente. Francisco preocupou-se com a vida e não com a doença e morte. Morre cantando a vida e sua essência. Ao celebrar a morte, ele a encarou de frente como  aquela que lhe estendia a mão para concretizar  o grande sonho humano: a imortalidade! Ele sabe que não está perdendo nada da vida porque encontrou e ganhou a vida plena que estava dentro de si mesmo. Fez do Amor seu projeto de vida, amar a Deus, amar a humanidade, a fraternidade, amar todos os seres. Esta confraternização universal do Amor não conhece a morte e o morrer. Tudo fez parte de sua vida, inclusive a finitude. Ele pode dizer como Santa Terezinha: “Eu não morro... entro na vida!”. Ele pode dizer como Gabriel Marcel: “Amar é dizer: tu não morrerás jamais!”.

Francisco de Assis sente, pensa, sente e age com a certeza de que a morte não é um fim, mas a grande oferenda, a entrega, a restituição de si mesmo para Deus. Conquistou a esperança dos justos, que é imortalizar-se e andar para sempre no florido e fecundo caminho do Paraíso. A força vital que emana de Francisco de Assis o fez dar boas vindas a Irmã Morte.

Frei Vitório Mazzuco

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Francisco de Assis e a minoridade


Neste mundo tão competitivo, como falar de Minoridade? Anda meio esquecido este tema, podemos até parodiar o samba do Raça Negra: “Que é que eu vou fazer com esta tal Minoridade...” Aliás, Minoridade não é apenas um termo, mas uma herança da forma de vida franciscana. Está nos escritos, na virtuosidade franciscana e na sigla da Ordem. Minoridade não está ligada a minoria, e não tem aqui a conotação de grupo étnico minoritário na sociedade.

Na verdade, Francisco nunca usou a expressão Minoridade, mas sim Menor, não no sentido daquele que ainda não atingiu a maioridade, mas sim como o mais humilde, o mais simples, o mais pequeno. Diz na Regra Não Bulada: “Do mesmo modo, nenhum dos irmãos tenha qualquer poder ou domínio, sobretudo entre si. Porquanto, como diz o Senhor no Evangelho, os príncipes das nações têm domínio sobre elas, e os que são maiores entre as gentes têm poder sobre elas. Entre os irmãos, porém, não há de ser assim; mas aquele que quiser ser o maior entre eles, seja deles o ministro e servo, e aquele que é o maior faça-se entre eles o menor” (RnB 5,9-12). Minoridade é uma conversão de mentalidade: estar em todas as relações como aquele que serve. Não se pode separar Minoridade e Serviço. É princípio da Boa Nova, prática de Jesus.

Tomás de Celano coloca a Minoridade como fundamento de todas as virtudes: “Foi ele, com efeito, quem fundou a Ordem dos Irmãos Menores e lhe conferiu esse nome nas circunstâncias que seguidamente se referem. Estavam para serem escritas na Regra as palavras “e sejam menores”, mas ao proferir estas palavras, naquela mesma hora, disse: “Quero que a nossa fraternidade se chame 'dos irmãos menores'”.

E eram realmente menores, porque se submetiam a todos, buscando sempre o último lugar e os ofícios a que estivesse ligada alguma humilhação, afim de merecerem, fundamentados em verdadeira humildade, erguer sobre ela o edifício espiritual de todas as virtudes” (1Cel 38).

Autoridade não é poder, mas é expressão do serviço fraterno. O modo de servir é na humildade e na simplicidade. O modo de servir é abaixar-se até a pessoa e lavar seus pés, como o Senhor fez: “Eu não vim para ser servido, mas para servir, diz o Senhor. Os que foram incumbidos acima dos outros, no ofício de prelado, tanto se gloriem desse ofício, quanto se gloriariam se fossem encarregados de lavar os pés aos irmãos” (Adm 4).

Minoridade é um modo forte de amar, é ajoelhar-se diante das criaturas como fez um Deus encarnado. É inverter o status, a hierarquia, o poder. A grandiosidade da pessoa não está nos seus títulos, mas na sua capacidade de servir. Minoridade é uma identidade crística. Servir como o Senhor serviu.

FREI VITÓRIO MAZZUCO