quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Francisco de Assis e a nobre atitude de não decidir sozinho



Relata a Legenda dos Três Companheiros: “No tempo em que houve a guerra entre Perúgia e Assis, Francisco foi capturado com muitos concidadãos seus e encarcerado em Perúgia, mas, porque era nobre de costumes, foi colocado como prisioneiro com os cavaleiros. Num dia em que seus companheiros de prisão estavam tristes, ele, que naturalmente era sorridente e jovial, não parecia entristecer-se, mas de certo modo parecia alegrar-se.” ( LTC 4,1-2 )

Ser nobre de costumes é ter sentimentos e atitudes nobres. Poderia ter ficado quieto sofrendo no seu canto sem se importar com ninguém, mas preferiu estar alegre e sereno em meio às tensões de uma prisão. Estar com um grupo humano não significa apenas amontoar-se entre os sofridos da hora; mas fazer valer a nobreza de costumes ao levantar a moral dos que estão ali com ele em situação adversa. Quando convive com a desfiguração e a decadência do ser humano, Francisco reconstrói. No leproso, no cárcere, e entre os banidos do bem-estar, Francisco faz um encontro direto com a pessoa. Valorizar a pessoa que ali está faz com que ela volte a acreditar que existe solidariedade e fraternidade. A sua alegria vem desta presença. É como se ele dissesse com aquele leve sorriso dos realizados: “Olha, meu irmão, olha minha irmã, mesmo que não possa ajudar, eu estou junto com você, caminho com você, estou ao seu lado”.

Das horas orantes e contemplativas do eremitério organizado e regrado em materna fraternidade; ao levar consigo um irmão  para as fronteiras da batalha em Damieta, no Egito, por ocasião de mais uma Cruzada, e dialogar com o Sultão; no momento de ir a Roma, com mais nove irmãos, falar com o Papa Inocêncio III; ao  consultar a clara Irmã Clara e Frei Silvestre em sérias decisões para a sua vida, Francisco não sabe ser e fazer sozinho. Há carismas pessoais que preferem fazer sozinhos. Há o Carisma de Francisco de Assis que está sempre em meio a todos, com a força fraterna que garante a nobreza do discernimento, a nobreza de costumes, a nobreza de atitudes que passa pela vontade de muitos.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Francisco de Assis, vivências e convivências


Francisco de Assis soube circundar-se de pessoas que tinham muita energia humana, dos amigos aos familiares era como se todos tivessem o mesmo sangue. Pedro Bernardone, seu pai, mercador assisense, amava muito a vida da cidade e as estradas que o levavam a França. Tinha a energia dos que sabem conquistar posses com muita justiça e direito. Não era apenas um duro e impenetrável negociante, frio e calculista, apenas centrado em seu patrimônio e lucros. Era um pai que sonhava ganhos para seu filho, títulos para o seu filho, queria que seu filho brilhasse e tivesse uma vida elevada conduzida por nobres ideias cavalheirescos. Jeanne de Bourlemont, sua mãe, era francesa conhecida em Assis como Dona Pica, porque nasceu na Picardia e viveu na região da Provença, era uma mulher extremamente bondosa, culta, delicada. Deu a Francisco uma educação fina, ensinou-lhe a língua francesa, canções de gestas, mas sobretudo compreendia como ninguém as aspirações do filho.

Francisco soube circundar-se de amigos, companheiros que viveram intensamente o seu tempo, sua juventude, seus anseios. Serenatas, momentos nas tabernas, a caça, os jogos, a alegria, a vivacidade, a violência presente da guerra chegando às portas da muralha. Seus amigos eram ricos e Francisco também era rico. Tinha influência dos mercadores que traziam prestígio, o uso de bens comerciais, a expansão da cultura, notícias, novas ideias, novos impulsos, vestes coloridas, aspirar a grandeza que vinha da nobreza de costumes. Francisco soube sonhar e seguir aspirações indomáveis do ethos cavaleiresco  que buscava a honra e conquistas; seguir Gualtiero di Brenne, combater e ter palácio, riqueza e armas, pertencer a Corte, a primeira expressão da cortesia, e depois as aproximações mais nobres.

Tudo isto vai moldar em Francisco de Assis uma personalidade única, um caráter determinado. Segurança e leveza, força e ternura. Trovador e penitente, que busca a única riqueza que pode fazer feliz o coração em meio a pobreza mais despojada, mais livre, mais solta, mais generosa. Quem viveu os mais belos relacionamentos pode perceber o pobre que chega e pede em nome de algo maior, em nome de Deus!

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Francisco de Assis e a regra da Fraternidade primitiva


Não fazia parte do projeto de vida inicial de Francisco de Assis fundar uma Ordem ou um grupo religioso como tantos que havia em seu tempo. Ele queria apenas viver o Evangelho, viver o Amor, viver a liberdade dos que sabem amar. Sua vida atraiu seguidores e seguidoras. Vieram Pedro de Cattani, Bernardo de Quintavalle, Leão de Viterbo, Angelo Tancredi, Rufino, Clara, Inês, Beatriz... e logo eram centenas. Vida vivida no Amor, atrai vidas! O Senhor foi presenteando seus passos com irmandade seguidora. Depois da Regra de 1209 ditada pela inspiração, Frei Cesário de Spira, em 1221 o ajuda a escrever a famosa Regra não Bulada. É uma regra mais de testemunho do modo evangélico vivente do que uma norma jurídica. Não tem a aprovação do Papa. Em 1223 surge a Regra definitiva, a Regra Bulada, que tem o dedo do Cardeal Hugolino, mais tarde Gregório IX , que o ajudou muito. Esta sim, foi aprovada!

Havia muita coragem, despojamento, dedicação, fé e entrega nesta gente seguidora. Não sentiam a dureza da Regra porque queriam a segurança suave e forte do Evangelho. Muita gente ajudou para que o rumo fosse encontrado e se organizasse a potência de Amor daquele grupo nascente. Entre improvisos e preceitos, a Fraternidade se corporificou. Das ruínas de São Damião, da singeleza da Porciúncula, do estábulo de Rivotorto, a comunidade ganha força e se expande. São silenciosos, mas pregam. A vivência radical da Pobreza é tão impactante que torna-se gritante. Do chão duro e frio, dos leitos feitos entre pedras e paus, das choupanas de ramos e folhas, das esteiras e das esmolas nasce uma ordem nos jeitos desordenados de então. Não tem nada porque deixaram tudo. Sem bens e dinheiro abraçam um único desejo: ser como Jesus Cristo, que não tinha nada de material, apenas a riqueza de amar e servir. Eles aprenderam com Francisco: é com Ele e por Ele que temos que ir! Pegaram a Palavra e o cumprimento da Palavra e foram! Atrás foram deixando a certeza de que é possível viver o Evangelho de modo Encarnado e um caminho para milhares de seguidores. Pela frente foram criando um futuro para a Fraternidade que apenas sabia que existia um texto, mas que aprendeu a ser Boa Nova! “Preguem o Evangelho, se precisar usem palavras!”

FREI VITÓRIO MAZZUCO

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Francesco di Bernardone, o Francisco de Assis


Quando viajamos pela Itália encontramos a imponência de muitas cidades e suas tradições etruscas, medievais, barrocas, modernas e todas muito adequadas dos tempos de então aos tempos atuais. Quando chegamos a Assis entramos numa cidade pequena, simples, harmoniosa, familiar, parecendo aquelas casinhas de nossos brinquedos infantis. Mas na sua pequenez, a força brota de seus muros, massa de pedra bruta, lava vulcânica!

Assis é talhada pedra sobre pedra, uma conjugação de formas protegendo mistérios. Em meio a paredes e muralhas, certas verdades nunca mais quiseram sair dali, protegem-se entre becos e ruas. Assis é muito simples, mas tem uma natural presença que se impõe. Colada na colina ensina a subir e olhar para um horizonte mais amplo. Cada caminho sai para algum lugar e no início e fim de cada um resplende a mesma beleza, a mesma descoberta, a mesma abertura para uma grande admiração. Há um espírito que ali habita e silenciosamente fala. Um ar puro, uma luz onipresente. Nas praças a vitalidade de uma humanidade que necessariamente tem que passar por entre as casas, fontes e um chão talhado para revelar a pureza de cada forma.



Assis não conhece o caos do mundo, e renasce depois de cada terremoto. Faz com que o olhar de peregrinos, turistas, e buscadores da verdade se perca em tantos detalhes de tamanha profundidade. O mistério precisa de um lugar para ser celebrado, e, em Assis ele encontrou o preciso espaço para transformar-se em rito. Andando em Assis, quem vem de longe ou de perto, sente que já esteve lá em algum momento, e faz uma imersão na saudade que se tem do Paraíso. É andar pelo infinito sem se perder. Foi exatamente neste lugar que nasceu Francisco, que nasceu Clara, e tantos outros que tiraram Assis dos contrafortes do Monte Subásio e a levaram para o mundo como cidade da Paz ou Espírito de Assis.

Assis tem energia física, uma arquitetura espiritual, a estética do belo e do bom. É um encontro da elevação da montanha com a profundidade da planície. Tem o som dos sinos que se expande em ondas sonoras que tocam e vibram no coração das pessoas, nos olivais, nos girassóis, nas catedrais, no casario, nos palácios, nos mosteiros, nas ruelas, nas lojas, nas tavernas, enfim nos caminhos que se entrecruzam dizendo para a humanidade toda: é daqui para o mundo! Assis existia antes de Francisco. Não foi ele que marcou Assis, mas Assis que o moldou. Por viver bem o seu lugar, aprendeu o universo das coisas e saiu extra-muros. Fez do seu espaço tão familiar de sua infância e juventude um território sagrado. Uma fusão de terra e céu. Um Santo que recriou uma unicidade com o lugar, e por isso é chamado para sempre de Francisco de Assis. Pai, Francisco, ensina-nos a dar nome e transformar os nossos cantinhos!

FREI VITÓRIO MAZZUCO


sexta-feira, 12 de agosto de 2016

O Carisma Franciscano


Fala-se muito do Carisma Franciscano e é sempre bom voltar a compreensão do que isto significa. A palavra Carisma, do grego charis, tem uma multiplicidade de significados, mas podemos dizer que é escutar uma grande convocação, pois Carisma é uma grande inspiração originária que fundamenta um determinado modo de vida. Qual a escuta maior do Carisma Franciscano? A fala ressonante do Crucifixo de São Damião: “Francisco, vai! Restaura a minha casa! Não vês que ela está em ruínas?” (LTC 5). Há uma voz que fala e uma capacidade de escuta. Vox, vocare, vocação. Alguém chama e diz. A escuta obedece de coração e vontade boa. As mãos imediatamente põem-se a reconstruir. “De boa vontade o farei, Senhor” (LTC 5).

É preciso acolher com atração benevolente, isto é, com apaixonada vontade bem trabalhada, e fazer com alegria, entrega, encanto e generosidade. Um Carisma traz realização, nobreza ao modo de ser, brilho, vitalidade suave e forte ao mesmo tempo. Um Carisma Inspiracional dá sentido ao carisma pessoal e isto fascina. Não é um modo de ser e fazer qualquer, mas é ser e fazer a partir do pedido do Crucificado. Há autoridade em quem não sabe o que é morte, e por isto pode pedir a cada instante que se instaure vida em meio a ruínas. O Carisma Franciscano nasceu colocando pedra sobre pedra e construiu Fraternidade onde não havia mais convivência. O Espírito fala e uma vida faz. Para a Palavra de Deus é a certeza de que “a cada um é dada a manifestação do Espírito Comum em vista do Bem Comum” (1Cor 12,5). Para a teologia é graça como dom natural e virtude conquistada. É trabalhar para transformar. Para a vida vivida de maneira religiosa é encarnar o Evangelho não como texto, mas como encontro pessoal com Jesus Cristo, transformando esta verdade em Fraternidade e Missão, em proveito do Reino e do Povo de Deus. Lembro os três pontos dados pelo inesquecível Frei Prudente Neri, OFMCap, ao falar que Carisma é:

1. Deus e sua Gratuidade: Ele é a Fonte de todos os Carismas e os distribui a quem e quando e como lhe aprouver.

2. O Ser Humano e sua Sensibilidade: em poder aceitar, recusar, fugir ou aderir para fazer valer esta graça.

3. O Tempo e suas Vicissitudes: O Carisma rompe em diferentes épocas e lugares, obedecendo a desígnios que desconhecemos. Assume os desafios do tempo e transforma invernos em inesperadas primaveras.

O Carisma Franciscano tem este modo de compreensão. É Franciscano porque vem do Poverello que escutou e decifrou uma voz. Dia após dia, com alegria, pedra sobre pedra, construiu um modo de ser e fazer. Do século XIII aos tempos atuais trouxe este Carisma original e originante.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

terça-feira, 9 de agosto de 2016

A cruz na espiritualidade franciscana


Francisco e a Vocação



Não faltam preces, campanhas, fôlderes, testemunhos, tríduos, ocasiões celebrativas e modelos vivos quando o assunto é vocação. O que falta é vocação. Será que faltam vocações para os estados de vida ou as vocações se reinventam? Não podemos falar de crise vocacional quando aumenta a vocação laical. Há pouca procura para a vida religiosa e sacerdotal, mas muita procura para novas formas de vida e de aliança. Perguntei de modo fictício a São Francisco sobre Vocações, e ele respondeu assim de um modo não tanto fantasioso, mas real:

“Vocação, meu confrade, é a cada momento escutar e procurar entender o poder do Amor de Deus em minha vida e escutar a sua convocação. Ele fala pedindo que eu construa uma casa para guardar a inspiração; e daí sair para o mundo levando a inspiração. Vocação é construir e reconstruir em mim e no mundo um lugar sagrado, e então transformar a minha vida, as pessoas e o mundo. Vocação é escutar que o Senhor me quer vivendo contemplativamente, e agindo profeticamente. “Francisco, vai! Restaura a minha casa!” Escutei isso, abracei o Amor em forma de Cruz e calejei as mãos. Vocação é entender o desejo de Deus sobre mim. “Senhor, que queres que eu faça!” Entrar no mistério e na verdade da voz que me chama é uma intimidade muito especial. Vocação é entrar no coração de Deus e sair daí com a mente e as mãos  cheias de motivações e práticas. É encontrar o jeito de Deus agir através de mim, isto é Carisma.

Vocês não estão apaixonados pelo Carisma. Ordens, Congregações e Institutos não precisam de vocações, mas seus Carismas sim! E como precisam! Recuperem o Amor ao Carisma e à Vida Fraterna que as vocações vão surgir. Perguntem se a Vida Fraterna que vocês estão vivendo merece vocações. Eu penso que não. Vocês não tem crise de vocações, mas crise fraterna.  Eu amei a inspiração e os primeiros que vieram, Bernardo, Pedro, Silvestre, Clara. Nós amamos o Evangelho e nasceu o Carisma. Apaixonamos pelo Carisma e criamos uma bela convivência! E por causa desta paixão, depois vieram Tomás, Antônio, Inês, Beatriz, Luquésio, Buonadona...Tantos com tanto Amor!”

FREI VITÓRIO MAZZUCO