sexta-feira, 15 de junho de 2018

REFLEXÕES SOBRE A DIMENSÃO POLÍTICA DO FRANCISCANISMO – 17


A gratuidade veio do abandono total à providência divina


O franciscanismo alimenta a sua vida a partir do Evangelho. Quando deixou de alimentar-se a partir o Evangelho conheceu momentos sombrios na história e deu mais peso a instituição do que a inspiração original. A instituição conhece alguns escândalos, a intuição conhece o discernimento. Os frades primitivos fizeram um discernimento espiritual e um caminho espiritual, e a partir daí o compromisso social. Realimentaram a sua escolha e a sua fé no encontro com as pessoas no caminho da realidade da Úmbria e a partir daí ganharam o mundo com força de missão. Mantiveram uma comunhão com a eclesiologia do seu tempo, mas aprofundaram sua fé a partir da comunhão íntima com a Boa Nova. E reencantaram a Boa Nova no espaço eclesial de então. Eram coerentes com a Palavra que tomaram nas mãos, preencheram o coração, transformaram em prática.

Celebraram a fé nas estradas, nos êremos e nas praças. Não era apenas a fé das cabeças pensantes da escolástica e dos debates teológicos da época, mas a fé que estava no coração: sentir em profundidade a presença de Deus. Levaram a certeza de todos serem Irmãos e Irmãs de um modo novo de viver e conviver como homens e mulheres novos. Não entraram muito na luta pelo poder, na sedução hierárquica e no espólio das Cruzadas. Viveram um cristianismo que deu mais espaço para a mística, para a gratuidade e para a ternura. Nas estradas da Itália e daí para o mundo traçaram um modo de viver o amor e a justiça mostrando ser este o melhor caminho para o seguimento de Jesus. A conversão foi o ponto de partida de todo este caminho espiritual e socialmente fraterno. Uma conversão que comportava uma ruptura com a vida elevada até então e empreender uma nova meta. Uma conversão que levasse Jesus Cristo junto com as decisões da vida, e procurar tirar qualquer empecilho que embaraçasse a relação com Deus. Renunciaram tudo o que prendia na mente e nos cofres.

Conheceram bem a realidade porque estavam nela como peregrinos e atentos observadores. Inseridos dentro de um processo histórico do século XIII tornaram-se realistas e eficazes em suas ações. Não estavam no dever de praticar a esmola, mas sim de ver e estar dentro da necessidade de alguém. Não trabalharam em função do outro porque isso trazia momentos de forte energia ou era uma solução para a ociosidade, mas sim trabalharam porque havia necessidades urgentes a serem atendidas. Fizeram tudo de um modo gratuito e extremamente desapegado. A gratuidade veio do abandono total à providência divina.

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FREI VITÓRIO MAZZUCO

quarta-feira, 30 de maio de 2018

REFLEXÕES SOBRE A DIMENSÃO POLÍTICA DO FRANCISCANISMO – 16


A encarnação não é uma simples devoção ao presépio


Viram este Deus no dinamismo da criação, viram este Deus nos que estavam pisoteados e expulsos para fora das muralhas da cidade, viram este Deus chegando naqueles que mostraram que o Reino de Deus era viver em obediência, sem nada de próprio e na pureza de coração. Estes penitentes não tinham nada de acúmulo para si; renunciaram a ordem elitista de seu tempo para viverem a Ordem dos Menores. Por serem itinerantes conseguiram ver Deus fora dos espaços do templo e perceberam os sinais de Deus nas pessoas, na natureza, nas cidades, onde estava a palpável história do dia a dia medieval. O fato é que a experiência de Deus os envolveu não só a partir da dimensão mística, mas também no afeto, no coração, na situação dos pobres, no mundo dos movimentos penitenciais, na eclesiologia de então, com um espírito de comunhão com tudo e com todos. Saíram do poder de reis e rainhas e abraçaram o Reino. O Evangelho os fez éticos e encarnados na vida de modo total. Abraçar Jesus Cristo é historizá-lo. Sem dúvida fizeram muita Adoração ao Santíssimo, mas passearam pelas vilas, praças, campos e cidades mostrando que a natureza divina se uniu a natureza humana para transformar.

A mística primitiva franciscana abraça a encarnação porque a encarnação é a identificação de Deus com a existência humana e isto construiu uma história. A encarnação não é uma simples devoção ao presépio, mas é visualizar e fazer uma imersão na paisagem humana redimida por Deus que enviou o Messias Peregrino a suscitar sonhos e esperanças e foi curando as dores do mundo. Como este Deus entrou na vida das vilas e foi curar o cego, o coxo, o paralítico, o leproso, os endemoniados, pecadores e esteve sempre ao lado dos pobres. Não abraçou títulos e nem aparências. Fez sua prática no serviço, no perdão, no cuidado pela vida, na imensa sensibilidade para com os mais fracos, teve mulheres entre seus discípulos e apóstolos, deu atenção para crianças, pescadores, pastores e agricultores, de cuja vida aprendeu e recontou em parábolas. Foi uma pregação que arrastou multidões mas incomodou os poderes do tempo. A tal ponto que o Senado de então o condenou por isto. Olhem os textos do julgamento de Jesus, são os maiores e mais detalhados textos do Evangelho. Toda condenação de quem faz o bem é muito explorada. Sua morte foi uma morte política. Pois os poderosos da época não suportaram a sua prática de libertação. Os frades primitivos refizeram este caminho, porque o Evangelho ou tem o mesmo efeito da atuação de Jesus ou não vai servir para mudar o mundo.

FREI VITORIO MAZZUCO

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sexta-feira, 25 de maio de 2018

REFLEXÕES SOBRE A DIMENSÃO POLÍTICA DO FRANCISCANISMO – 15


Os penitentes de Assis viveram a fé teologal a partir da realidade pessoal


Se podemos viver um compromisso de fé, ela naturalmente se torna também um compromisso político no verdadeiro sentido da palavra: acreditar no bem comum. Uma vida de fraternidade bem organizada é politizada, pois não conta apenas uma ação individual, mas coletiva. Projeto pessoal e projeto comunitário não se separam. O grupo primitivo de Francisco de Assis deixa seus projetos pessoais familiares e classistas e abraçam um modo de vida comum, que não é ingênuo ou idealista, mas é a força do Evangelho vivido.

A Fraternidade primitiva de Francisco contou apenas com o que o Senhor revelou; e foram conduzidos aos flagelados de então. Eles desatam a Palavra de Deus dos púlpitos e a levam para as praças. São pessoas simples que refazem a presença dos profetas veterotestamentários; são pregadores ambulantes resgatando a prática jesuânica; vivem com a força dos grupos como a tradição apostólica dos Atos. Não há contradição entre prática e pregação como havia na eclesiologia de seu tempo. Todos têm vez no novo modo de viver fraterno. As mulheres são integradas na mesma força pela segura presença de Clara de Assis. Têm poucas dificuldades com a instituição eclesial, porque vivem a paixão por Jesus, pelo Evangelho e pelo povo. Aqueles mendicantes reacendem sonhos humanitários e esperançosos de amanhã para as pessoas. Neles, a fé no Cristo pobre no pobre criou uma identidade.

Eles possuem uma identidade cristã que não vem definida pela hierarquia, mas sim para onde conduz o Espírito do Senhor e o seu modo de operar. Não têm planejamento pastoral, mas têm missão. O Evangelho, mais do que força exegética que gerou inúmeros comentários teologais, é para eles uma referência de vida. Quando perguntavam quem eram, respondiam ser penitentes de Assis.

Estes penitentes viveram um caminho de fé teologal a partir da realidade pessoal. Deixaram tudo como os primeiros seguidores de Jesus, e foram viver uma presença divina inserida no projeto histórico de Deus.  Um Deus que está no comunitário grupal, social e cósmico. Não há lugar onde Ele não esteja. Abraçam presépio, altar e cruz como privilegiados da instalação e conquista do Reino de Deus. Estes penitentes mostraram o Deus da convivência e da coexistência trinitária, um Deus uno, vivo e Três Pessoas, totalmente apaixonado pela vida.

 O Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo, humilde e pobre no presépio, encarnado na situação humana e desumana. O Deus da Eucaristia, presença total, completa e alimentadora da história. O Deus Espírito de Amor que mostrou para eles afeto na dureza da vida, sonhos e mais sonhos para fazer valer a utopia do Evangelho.

FREI VITORIO MAZZUCO

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quarta-feira, 16 de maio de 2018

REFLEXÕES SOBRE A DIMENSÃO POLÍTICA DO FRANCISCANISMO – 14


Políticos são como espantalhos

Continuação do sermão de São Bernardino de Sena 

A TIRANIA – São Bernardino de Sena marca sarcasticamente alguns vícios que os eleitores devem reparar em certos candidatos, para não se deixar enganar com falsas promessas: “O primeiro é a tirania. Quem tem este vício apresenta-se sempre como um benfeitor, mas na realidade é um estripador e um tirano. Existem, infelizmente, os tira-anos, os tira-meses, os tira-semanas, os tira-dias, os tira-manhãs, os tira-tardes, os tira-noites e até os tira-horas. Sabe quem é o tira-ano? É aquele que tira uma vez por ano. O tira-meses é pior, porque tira todo mês. Pior ainda é o tira-semana, porque tira toda semana. E o tira-dias é ainda pior, porque furta tirando cada dia. E o tira-manhã é pior, porque toda manhã vai ao palácio do governo e sempre tira. Assim também o tira-noites. E o que diremos do tira-horas? Podemos dizer que ele sempre tira, furta e estripa qualquer um que esteja ao seu alcance. E tais políticos querem ser chamados governadores do povo? A eles bem convém um só nome: ladrões!”

A INCOMPETÊNCIA – Outro veneno que deve ser evitado na escolha dos homens públicos é a ignorância e a incompetência. São Bernardino para mostrar ao povo o quanto eles são desprezíveis, usa um exemplo que pode parecer indigno de um sermão sagrado: “Vocês devem ter reparado como age o camponês que quer defender o seu campo depois da semeadura. Para afugentar os pássaros ele pega um saco, e enche de palha, coloca em cima uma abóbora como cabeça, arma os braços com um pau e bota na mão do espantalho uma vara como se pudesse bater nos pássaros...Mas os pássaros não são bobos. No primeiro dia eles olham de longe. No segundo dia aproximam-se devagar e notam que o espantalho está sempre parado. Já no terceiro dia entram no campo e começam a comer a semente., mas ficam de olho... Se o vento move um pouco o espantalho eles fogem logo, para reaproximar-se lentamente, perdendo sempre mais o medo. Às vezes um deles, mais corajoso, se aproxima e fica esvoaçando ao redor do espantalho; observando que não tem vida, pousa em cima da vara; vendo que nada acontece, perde completamente qualquer medo, para em cima do espantalho e mija na cabeça dele”.

A esta altura imaginem as risadas sonoras dos ouvintes! E São Bernardino, dirigindo-se a essas nulidades que pretendem governar o povo, concluía: “Sabe o que lhes digo? Vocês são as excelências zeros. Podem ser temidas por um certo tempo, mas nunca serão respeitadas, aliás chegará o dia em que o povo zombará de vocês e mijará sobre suas cabeças”.

Bem, este Sermão é do século XIV, e vale a pergunta: até que ponto suas palavras são atuais entre nós? Julgue a sua consciência.

FREI VITORIO MAZZUCO

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sexta-feira, 11 de maio de 2018

Dia das Mães - “Sobre o materno modo de amar”


Se perguntasse pela capacidade de amar do ser humano encontraria muitas respostas, porém existe um único e incontestável modelo: amor de Mãe! Persistência, fé, entrega, disciplina, jeito prestativo, cuidado caseiro, lágrimas silenciosas, horizonte largo de inúmeras preocupações, de ver só qualidade no filho mesmo quando o filho, muitas vezes, é só estrada e distância.

Podemos até entrar nesta fome de comprar, visitar vitrines, escolher presentes para o Dia das Mães, mas nada é maior do que o presente que recebemos: ter uma mãe, ou como no meu caso, uma mãe já estabelecida na eternidade. Que presente é este? Ter sentimentos para sempre, saudades para sempre, certeza de pertencer a esta substância humana e divina que somos, porque uma raiz espiritual foi plantada em nós pela prece frequente de mãe. Sentir-se ovelha pequenina conduzida por divina pastora que jamais deixa de estar perto do rebanho.

Penso em mãe e penso naquele Amor de rotina e trabalho prazeroso, tolerância, carinho, habilidade em administrar conflitos, responsabilidade, atividade criativa em ajeitar gavetas, guardar roupas espalhadas, espanar poeira, ter tempo para a cozinha, trabalhar dentro e fora e ainda pintar as unhas maltratadas por detergentes e dizer baixinho: ainda sou a estética feminina unindo beleza a tanta coisa para arrumar.

Será que a espécie humana estaria ainda viva sem ela? Último ponto de encontro do clã, da família, daquele costume de ir à casa dela num domingo de tarde, para, num café com bolo, viver a única sociedade possível: aquela que se encontra ao redor de uma mesa para jogar conversa fora. Casa de mãe é uma praça de união simbiótica: viver separadamente juntos, mas correr na hora que há necessidade de alimento, alento e proteção. Alguém de nós esqueceu o cheiro da casa da mãe? Perfume da terra de nossa infância, de nossos brincantes quintais, de crise de choro e aquelas palmadas pedagogicamente corretas que mandaram andar direito. Na mãe nascemos plenamente cada dia.

A mãe nos ensinou que amor é ação, doação desinteressada, fez deste modo de dar-se não um sacrifício, mas uma virtude, uma expressão de potência, porque em cada detalhe do amoroso cuidado, entrega a sua inteireza. Neste modo encontramos a afirmação incondicional da vida. Do ventre materno saímos e na medida do mesmo amor nos encontramos neste segundo domingo de maio.  À minha mãe que já está no céu, peço a bênção! A todas as mães que necessariamente devem ser celebradas, o meu abraço e beijo!

Feliz Dia das Mães!

 Frei Vitório Mazzuco, OFM

terça-feira, 8 de maio de 2018

REFLEXÕES SOBRE A DIMENSÃO POLÍTICA DO FRANCISCANISMO - 13


Homens viciosos no poder são funestos e matam a República


Continuação do sermão de São Bernardino de Sena 

OS MAUS ADMINISTRADORES – O povo deve conhecer os maus administradores para negar seu voto aos indignos. Quando nos governantes existem vícios “a coisa vai mal. Imagine você como pode andar a justiça! Sem dívida neste caso a justiça está morta. Então precisaria fazer o seguinte, e dirigindo-se aos coveiros, exclama: Ó coveiros, quando vocês tomam conhecimento que um homem público tem estes vícios, podem corajosamente comunicar a todos: A justiça está morta”. E repete doze vezes que os homens viciosos no poder são funestos e matam a República.

OS AMBICIOSOS – O ambicioso para subir usa todos os meios e não podendo aproveitar dos poderosos, espolia o pobre. “O ambicioso é aquele que procura dar a culpa sempre a quem tem razão, a quem não tem poder para se defender porque é pobre. Os ambiciosos são homens iníquos que estrangulam a justiça. E as por que eles agem assim? Para se tornarem sempre mais poderoso em detrimento dos que nada podem contra eles”.

O ADULADOR -  O que fazer com este tipo de político? Ele nada vale. “Não lhe prestem atenção. Vocês tem o direito de saber toda a verdade, de ver e tocar com suas mãos” (Naquele tempo o povo tinha o direito de fiscalizar os homens públicos e os aduladores eram facilmente desmascarados).

OS AGIOTAS – Os que praticam este vil comércio nunca devem ser eleitos. "Eles  se assemelham aos gatos. O gato fica esperando perto de um buraco onde ele sabe que vai sair o rato. E ali fica à espreita o dia inteiro e, apenas o ratinho passa, ele o agarra e o devora. Assim é o avarento que quer ser eleito. Ele vai de casa em casa, mostrando-se amigo e arrancando votos”, mas depois de eleito, continua o seu o trabalho de sempre: roubar e devorar o povo.

Frei Vitório Mazzuco

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sexta-feira, 4 de maio de 2018

REFLEXÕES SOBRE A DIMENSÃO POLÍTICA DO FRANCISCANISMO – 12

São Bernardino pregando em Campo, Siena - Domenico Beccafumi (1484/1485–1551)

A administração pública exige amor à verdade e à misericórdia

Continuação do sermão de São Bernardino de Sena

AMAR A JUSTIÇA – O político deve amar a justiça e seguir a reta consciência. Nunca deve apoiar-se nas leis, que podem ser injustas e que precisam ser mudadas. “Muitos juram observar os estatutos do próprio cargo. Você jurou e o que jurou é danoso ao povo? Seu juramento não vale. “In malis promissis rescindi fidem”. Promessas mal feitas e má fé são causas de rescendências. Se você prometeu cumprir algo que a consciência julga injusto, rompa com o juramento e não faça coisas contrárias à sua consciência. E tenha confiança no Senhor”. O que se deve dizer de certas leis que só provocam injustiças e oprimem inocentes? “Há pessoas – continua Bernardino – que não precisam nem de leis nem de estatutos, porque levam escrita na mente a lei do Evangelho, a lei de Deus e só sabem praticar a justiça. Estes são os que realmente amam a justiça” e merecem ser eleitos. A administração pública, de fato exige amor à verdade e à misericórdia, porque no encontro das duas se gera a paz. O pregador franciscano sabe como é difícil atuar a justiça nos meios públicos, mas o bom administrador nunca deve desanimar diante da corrupção que se alastra. Seu esforço e sua perseverança serão recompensados e ele ouvirá as palavras evangélicas: “Venham benditos de meu Pai, recebam o Reino dos céus...porque vocês amaram a justiça, mesmo quando não puderam atuá-la como queriam e foram odiados pelo mundo e amados, porém, por mim...”

ATUAR COM JUSTIÇA SOCIAL – São Bernardino de Sena foi um grande reformador social, que colocou em relevo os princípios fundamentais da economia, já conhecidos pela Escolástica: as riquezas tem caráter instrumental e não final, social e não egoístico; consequentemente é necessário ter moderação e honestidade na aquisição e no uso dons bens. Neste ponto a responsabilidade dos governantes, dos juízes e dos políticos é muito grande.

Sob o impulso da pregação bernardiniana, muitas Repúblicas Italianas daquele tempo introduziram reformas políticas e sociais na sua legislação, inspirando-se nos princípios do Evangelho. A preocupação de São Bernardino era formar a consciência dos homens públicos e dos eleitores. Ele sempre falava bem claro a todos: “Eu sei muito bem que aquilo que você possui não é seu; foi Deus que deu tudo a todos para ir ao encontro das necessidades de toda humana criatura. Não é portanto da pessoa, mas para as necessidades de todos. Se você tem muito, não precisa, não distribui e morre, você vai direto à casa quente”

quarta-feira, 2 de maio de 2018

REFLEXÕES SOBRE A DIMENSÃO POLÍTICA DO FRANCISCANISMO – 11


Como deve administrar a justiça quem recebe um cargo público


O texto que vamos abordar nos próximos posts fala do santo franciscano São Bernardino de Sena. Quem foi São Bernardino de Sena? Ele nasceu em Massa Marítima no ano de 1380. Muito cedo ficou órfão de pai e mãe e foi criado por duas tias. Estas tias foram muito importantes em sua vida porque souberam transmitir a Bernardino um cristianismo bem genuíno, sem nenhuma beatice e com lucidez crítica. Ele se tornou um jovem muito sadio, amante da liberdade, exigente e responsável. Frequentou com muito proveito a famosa Faculdade da República de Sena, uma das mais importantes de seu tempo. Aos 22 anos conhece a vida de São Francisco de Assis e fica fascinado pelo Poverello de Assis. Entrou de um modo livre e bem decidido para a Ordem dos Frades Menores. 

Viveu num Eremitério Franciscano e dali saiu para a pregação itinerante. Sonhava renovar a sociedade de então. Tinha uma boa cultura teológica, vasta e segura, um dom extraordinário de eloquência, que fez dele um grande evangelizador popular. Saiu pela Itália pregando a devoção ao Santíssimo Nome de Jesus, e junto com esta pregação sempre um alerta a uma sociedade que ele considerava muito pagã. Muito interessante a sua pregação dirigida ao povo e aos governantes sobre temas sociais e políticos. A sua vida de pregador itinerante iniciou em 1418 e por 26 anos ele percorreu a Itália até o dia de sua morte, em 20 de maio de 1444. Foi canonizado seis anos após a sua morte.

Vamos apresentar aqui um resumo de um sermão que ele dirigiu aos políticos e ao povo da República de Sena. Trata-se do Sermão nº XVII, onde ele mostra “como deve administrar a justiça quem recebe um cargo público”. Na República de Sena havia eleições livres e o povo tinha o direito de conhecer seus políticos, para julgar a sua idoneidade e eliminar os incapazes e os indignos. Um sermão do século XIV, mas muito necessário para os dias de hoje. Com a apresentação deste texto, quero responder também aos que dizem: “Vocês frades TL, são muito metidos na política!”. Não somos metidos em política, até porque em nosso país ela não existe com o seu verdadeiro sentido de ser um arranjo existencial para o bem comum. O que existe aqui em nosso país, não é política, mas um atentado moral. Porém somos metidos em criar uma consciência política, e para isto, peço a bênção de meu confrade São Bernardino de Sena, um frade metido em política. No início de cada parágrafos seguintes colocarei um tema a ser pensado a partir de suas palavras.

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FREI VITÓRIO MAZZUCO

quinta-feira, 26 de abril de 2018

REFLEXÕES SOBRE A DIMENSÃO POLÍTICA DO FRANCISCANISMO - 10


Francisco de Assis ama este Deus que nasceu num estábulo entre animais


Ao apaixonar-se pelo Cristo do Presépio, do Altar e da Cruz, Francisco de Assis muda radicalmente a sua vida por perceber e viver uma fé dentro de uma realidade de libertação histórica na qual o próprio Deus se fez pobre. A fé para ele não é um sistema de crenças, mas tem que ser repensada como uma força libertadora de transformação.

A fé também não é lugar para a resignação dos vencidos da história, nem refúgio de derrotados e nem diminuição dos que creem. Mas a fé libertadora e transformadora é refazer a experiência de um Deus Encarnado em meio ao povo. Francisco de Assis ama este Deus que nasceu num estábulo entre animais, que não morreu entre lençóis de cetim, mas numa cruz, não tendo compromisso com a morte, mas com o Amor que dá vida em plenitude. Morreu porque pregou o Evangelho da Libertação, morreu por causa de sua mensagem e de sua prática. Não é o Deus das mitologias e nem das sumas teológicas, nem dos pregadores e dos cultos solenes; mas um Deus que se fez profundamente humano para fazer do humano importante demais. 
                               
Um Deus unicamente Amor que nos ensina amor. Francisco bradava: “É preciso amar muito o Amor daquele que muito nos amou” (2Cel 196). Santa Tereza dizia: "Na tarde da vida, seremos julgados não pela ortodoxia, mas pelo Amor!”.

Francisco de Assis traz novo alento para o conceito de Deus. Este Deus entra na história humana no ventre de uma mulher, numa aldeia escondida, num lar humilde, uma história humana e divina contada a partir de um presépio. Recolocou o Evangelho no coração de seus frades e nas mãos do povo, rezou o credo num cântico em harmonia com as criaturas. Ama a Eucaristia como a bela graça da vida pulsando forte em ações comunitárias. Francisco gerou fraternidades de compaixão, fé e compromisso, desafiadas pelo Evangelho da Libertação.

E falando da dimensão política do franciscanismo, vamos lembrar o verdadeiro significado da palavra grega politikein, politikós. Para o mundo grego, o significado desta palavra é: arranjo existencial para o bem comum. Não estamos afeiçoados a este significado, porque na história passada e sobretudo atual de nosso país, nunca tivemos esta verdade como prática. Vou partir de um texto que, nos anos 1986 a 1987, quando morei na cidade de Guaratinguetá, foi distribuído na Paróquia Nossa Senhora da Glória, no Bairro do Pedregulho; nesta época a paróquia estava sob os cuidados dos franciscanos. Eram anos de elaboração da nova constituição e houve uma certa participação popular. Eram anos de processo eleitoral, como este ano que estamos vivendo.

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FREI VITORIO MAZZUCO

sexta-feira, 20 de abril de 2018

REFLEXÕES SOBRE A DIMENSÃO POLÍTICA DO FRANCISCANISMO - 9


Libertação é dar um passo 
concreto à necessidade do outro 


A violação dos direitos das minorias não é casual, é permanente. Além de serem zeros econômicos e não serem contemplados em planejamentos oficiais, sofrem a violação da dignidade através das ridentes formas de estereótipos. Recebi um post muito pertinente que diz assim: “No dia 19 de Abril, por favor não cantem a música da Xuxa, não pintem seus alunos e nem façam cocar de papel. Não reforcem os estereótipos! Convidem um indígena para falar ou leve as crianças em uma aldeia. Nos ajude a desconstruir estereótipos, nos deixem falar!” É verdade! Chega de representar! É preciso sair do egoísmo, do comodismo, da alienação e ir conhecer a realidade. Estereótipo é falta de cultura e ausência completa de postura crítica. Adianta criticar mendigo vagabundo se não conhece os motivos dos moradores de rua?

Francisco de Assis largou o conforto da privilegiada classe dos novos ricos de Assis e foi viver entre os mendigos da cidade. Ele não apenas os viu, ele se inseriu. Libertação é dar um passo concreto à necessidade do outro e não ficar em análises vazias. Já vi gente vociferar contra Bolsa Família, mas não sabe onde está o mapa da fome deste país. Libertação não é ideologia, mas é conhecer mais para denunciar melhor a opressão e urgir um processo de quebrar aquilo que prende irmãos e irmãs na miséria. Já vi muita gente criticando a sopa dos pobres sentado à mesa do McDonald's empanturrando-se de três hambúrgueres com chedar. Libertação não é metáfora, mas processo histórico para superar uma história. Francisco de Assis fez a libertação da acomodação para uma participação junto aos necessitados de seu tempo. Fraternidade para ele é sair do eu-sozinho para a solução de muitos entre muitos.

Francisco de Assis é santo porque lutou para produzir mais humanidade. É o santo do espaço no qual os simples se reúnem e a partir da Palavra ajuízam a vida. Partilha fraterna, ajuda mútua faz a Palavra ser prece e prática. Ele é um convertido que não levantou paredes de uma capela na solidão de seu projeto, mas pediu que muitos trouxessem tijolos como uma bênção. Não pediu dinheiro, pediu bênção em forma de tijolo, mãos calejadas e a força de muitos.

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FREI VITORIO MAZZUCO