quarta-feira, 10 de janeiro de 2018

INSPIRAÇÕES FRANCISCANAS PARA 2018 – 2


Revendo o Documento do Capítulo Geral da Ordem dos Frades Menores de 2015, parágrafo 11, encontro ali: “No passado, quando se formava uma tempestade no mar, os marinheiros normalmente jogavam na água o peso supérfluo, como nos atesta também o livro de Jonas (Jn 1,5). Nós também somos convidados a retornar à pobreza e a nos livrarmos do supérfluo. Em nosso tempo, também nós devemos jogar fora as nossas falsas seguranças e vencer a onda do medo e da angústia através da nossa fé em Deus”. No final de ano e início de ano é um bom tempo de fazermos um rito de passagem limpando gavetas e armários, reduzindo cabides e coisas. Há certos acúmulos que não servem mais. O Papa Francisco nos diz que certas tradições não nos servem mais. Ajuntamos coisas das necessidades que não pertencem mais aos nossos desejos. Desapego é sempre um bom jeito de recomeçar. Mas não só de coisas, mas de certas convicções que estão no amontoado do sótão de nossa consciência.

Ainda acumulamos preconceitos contra as culturas, credos, etnias, condição social e nível de formação.  Há ainda amargura nas relações. Intolerância gera um ódio nocivo a saúde do corpo e alma. Há muita raiva e pouco humor. O outro e a outra não são inimigos. Sua opção religiosa ou afetiva não são um perigo. A vida particular de uma pessoa não interessa para ninguém; isto está entre a consciência pessoal dela e de Deus. O que interessa é a obra que ela faz e a obra que ela está legando para a humanidade. Hoje temos dificuldades se o nosso vizinho é espírita, se é umbandista, evangélico ou esotérico. Quem sou eu para dizer que meu catolicismo é mais coerente do que a fé que ele professa? Agredir a religião do outro significa que há um enfraquecimento na minha fé. O Espírito de Assis dialoga com culturas e religiões. Francisco dialoga com o sultão numa troca de experiência de fé. Para Francisco de Assis não precisa haver guerra entre cristianismo e islamismo quando é possível dialogar no que as pessoas possuem de mais bonito: a fé! Em 2018 devíamos exercitar mais a tolerância.

Na Regra Bulada 6,8, Francisco de Assis fala do cuidado de mãe: “Se a mãe ama e nutre o seu filho carnal, quando mais diligentemente deve cada um amar e nutrir seu irmão espiritual?” E ainda citando o Documento do Capítulo Geral de 2015, no parágrafo 15:  “Falando de mãe, Francisco tem diante dos olhos o ideal de mãe natural, mas também nos convida a darmos um passo adiante para viver uma maternidade espiritual, Ser misericordioso significa ter o coração de mãe, que quer dar tudo o que é bom ao seu filho (...) O Papa Francisco recorda que os cristãos são chamados a viver a alegria do Evangelho e convida à reflexão sobre o fato de que “quando em uma família se perde a capacidade de sonhar, as crianças não crescem e o amor não cresce, a vida enfraquece e apaga-se” ( Papa Francisco, Discurso em Manila, 16/05/2015 ).Mais uma vez,  devemos  cultivar os nossos sonhos para uma vida mais plena”.

Outro dia uma pessoa muito querida me dizia, o meu cachorrinho é muito feliz porque é muito amado. E realmente, ao conviver com o cãozinho, ele era uma inteira energia que fazia vibrar uma intensa felicidade. E as pessoas? Por que nas famílias há muitas brigas e nas fraternidades de vida religiosa e vida franciscana há tensões por coisas banais? Por que somos mais pais e mães dos pets e não dos consanguíneos? Por que em nossas fraternidades o Ser irmão e irmã é tão estranho que nos sentimos num hotel e não numa vida de convivência fraterna?  Que em 2018 isto seja também motivo de mudança.

Textos inspiracionais das nossas Fontes, extraídos da Crônica de Tomás de Eccleston: 

“Porque o justo deve julgar sua vida pelo exemplo dos melhores, uma vez que os exemplos quase sempre compungem mais do que as palavras da razão; para que tenhais algo de próprio com que possais confortar vossos caríssimos filhos” (Ec 2).

“Os irmãos daquele tempo, tendo as primícias do Espírito, serviam ao Senhor não com constituições humanas, mas com livre afeto de sua devoção” ( Ec 27)

“Em todo tempo, os irmãos eram tão bem humorados e alegres entre si que apenas por olhar-se mutuamente se entregavam ao riso” (Ec 28).

“(...) Tu és menor pelo nome, sê menor pelos atos,
Suporta a fadiga, e a paciência rebaixe a mente soberba.
Na verdade, o coração censura a mente pequena,
A paciência purifica, quando algo é de lama;
Se alguém te corrige, este é quem te guarda;
Ele odeia não a ti, mas o mal que tu fazes. (...)
Será apenas uma sombra do menor
Aquele que busca o nome sem a realidade.” (Ec 37).

“Oh! Quão fortemente obrigados, oh quão docemente vencidos pelos benefícios divinos, oh quão honrados por imensa dignidade foram aqueles que nas dúvidas puderam ser dirigidos pelos conselhos, nos acontecimentos tristes ser confortados pelas consolações, nas coisas graves ser provocados pelos exemplos de tantas e tais pessoas que tinham as primícias do espírito! Oh graça inefável, oh prerrogativa incomparável, oh afeição suavíssima de doçura inexaurível, poder gozar a amizade de tão grandes homens, alegrar-se na presente peregrinação peço especial afeto de pessoas tão eminentes, recomendar-se pela graça de homens tão famosos “ (Ec 116 ).

“Disse ainda um frade pregador: “Três coisas são necessárias para a saúde temporal: o alimento, o sono e o bom humor”. Ordenou igualmente a um irmão melancólico que bebesse por penitência um cálice cheio de ótimo vinho; e como este tivesse bebido até ao fim, disse-lhe: “Irmão caríssimo, se tivesse frequentemente tal penitência, terias em todo caso uma consciência melhor” ( Ec 118).

Que façamos uma humorada crônica de nossa vida em 2018! Paz e Bem!

FREI VITORIO MAZZUCO

quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

ALGUMAS INSPIRAÇÕES FRANCISCANAS PARA 2018 – 1ª parte


A Regra Não Bulada 10,8 registra uma das mais belas palavras de Francisco de Assis: “Possuir o Espírito do Senhor e o seu santo modo de operar”. Um Capítulo dos Frades da Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil tinha o sugestivo lema: “Para onde nos conduz o Espírito?” Oportuna as palavras de Francisco de Assis para este novo ano, pois podemos iniciar com aquela sensação com que terminamos 2017: há uma desesperança no ar.  Buscamos sempre soluções econômicas, políticas, financeiras, jurídicas e terapêuticas. Em meio a tudo isto nos sentimos perdidos numa clareira em meio a uma floresta fechada. Vamos filtrar mais pelo Espírito. Buscar o discernimento espiritual. Há uma força que pode iluminar o sentido das decisões que temos que tomar. Há razões mais fortes que inspiram nossas escolhas. Não podemos perder o otimismo do caminho e com ele energizar nossos passos. A retrospectiva de 2017 nos assustou, mas algo tem que mudar em 2018.

Vamos nos abandonar mais fervorosamente ao Espírito do Senhor e ao seu santo modo de operar. Há um Pentecostes em cada sala de nossa vida e uma Porciúncula nos apontando que não estamos sós. Se não temos segurança na Constituição Brasileira tão remendada e desobedecida, possuímos a força do Evangelho. A Boa Nova é sempre a lucidez para as nossas escolhas. O Evangelho pede para dar a César o que é de César e a Deus o que é de Deus. Justiça não tem meio termo, é decisão. Estamos do lado da Palavra que é luz para os nossos passos e não do lado dos incontáveis posts de Facebook e Whattsapp que dão opinião sem raiz. Eu penso a partir de que valor maior? É minha opinião ou componho uma colcha de retalhos com retalhadas opiniões que não são fundamentadas em nada.

Francisco de Assis criou uma revolução a partir do Evangelho e rompeu com a revolução econômica da época. Hoje a revolução econômica decide globalmente o destino das pessoas. Eu quero ir por este caminho? Francisco de Assis espalhou verdades incontestáveis da Boa Nova em cartas, admoestações, preces e regras de vida. E o que eu coloco na revolução digital internética que permite colocar opiniões com velocidade avassaladora?  Estou tendo a lucidez críticas das palavras?  A maior crise que existe é a perda da identidade humana imersa em conceitos de revolução tecnológica e laboratórios que violentam a natureza. Como me posiciono diante das formas de pobreza que se estendem pelas calçadas da minha vizinhança? E o medo, a agressividade, a violência, vão diminuir com a Campanha da Fraternidade deste ano? Como acolher as quedas de fronteiras que colocaram o movimento migratório bem perto de nós, espalhando a diversidade étnica e cultural em nossas cidades e vilas?

Há mudanças climáticas que desmoronam lugares enquanto governos constroem privilégios para o futuro de alguns. O mundo mudou muito, mas a pessoa não quer mudar e fica no “está bom assim mesmo”.  É preciso buscar o Espírito do Senhor para sair da estagnação.

Vamos buscar nos "Ditos do Beato Egídio" algumas iluminações para o que acima afirmamos:


“Os santos e as santas procuraram praticar as coisas em que acreditavam e que podiam realizar. As que não puderam praticar de fato, praticaram-nas pelo desejo. E assim o santo desejo cumpriu o que faltou a ação. Se alguém tiver uma fé íntegra, chegaria a ponto de ter certeza absoluta. Portanto, se realmente crês, deves agir bem”.

“Quanto mais alguém se alegra com o bem do próximo, tanto mais participará dele. Portanto, se quiseres participar do bem de todos, alegra-te com o bem de todos. Por isso, se o bem dos outros te agradar, faze-o teu; e se o mal dos outros também a ti não agradar, cuida-te dele”.

“Quem não quer honrar os outros não será honrado; quem não quer compreender não será compreendido; quem não quer se afadigar, não terá repouso”.

“Não somos fortes em suportar tribulações, porque não somos bons seguidores das consolações espirituais”.

“Disse-lhe um certo frade: “Que faremos, se nos sobrevierem grandes tribulações?” Respondeu Frei Egídio: “Se o Senhor fizesse chover pedras e rochedos do céu, estes não nos fariam mal, se fôssemos como deveríamos ser. Se o homem fosse como deveria ser, para ele o mal se converteria em bem”.

“O homem perde a perfeição por causa de sua negligência”.

Se todos os campos e vinhedos do mundo pertencessem a um só dono, e ele não os cultivasse e nem os deixasse cultivar, que fruto se colheria? Mas se outro possuísse poucos campos e vinhas e os cultivasse bem, deles tiraria fruto para si e para muitos”.

“Não é feliz o homem que, tendo boa vontade, deixa de coloca-la em ação por meio de boas obras. Porque Deus dá a sua graça exatamente para que seja seguida”.

“Bem-aventurado quem não se deixa abater por nada que venha deste mundo; mas se deixa edificar por tudo o que vê, ouve e sabe, e de tudo procura tirar algum proveito”. 

“Vejo muitos que trabalham para o corpo e pouco para a alma. Muitos trabalham para o corpo quebrando pedras, escavando montes ou outros trabalhos pesados. E pela alma, quem se afadiga com tanto esforço e ardor?”

“Não se pode possuir uma grande graça com tranquilidade, porque sempre surgem muitas lutas contrárias”.

“Quem quer saber bastante, incline a cabeça, trabalhe muito e se abaixe até o chão. E o Senhor lhe dará muita sabedoria”.

“Quem mais ama, mas deseja!”

“Dize poucas palavras, mas úteis e pensadas”.

“Não leves contigo nada que seja extravagante, porque o coração se perde com tais coisas”.

 “Foge dos boatos inúteis, porque com eles a vontade do homem muda facilmente”.

“O que é humildade? Restituir o que não te pertence”.

“O bom costume é o caminho para todo o bem”.

Frei Egídio era hortelão de um convento primitivo de frades. Construiu seu pensamento com a oração, de olho no Evangelho e na enxada. Deixou estas pérolas para inspirar nossa vida.

 Paz e Bem!

FREI VITÓRIO MAZZUCO

domingo, 24 de dezembro de 2017

COMO E COM OS TRÊS REIS MAGOS: VAMOS AO PRESÉPIO! - Final


Os Três Reis Magos reencontraram a origem divina. O presépio onde chegaram é a alma do mundo. A partir de então, a alma de Deus e de tudo são Um! Da Hierofania à Epifania. Gaspar, Melchior e Baltazar não estão com este nome no Evangelho, e a Boa Nova não diz que são três, mas diz que eles “chegaram do Oriente”, tinham perguntas: “Onde está o rei que acaba de nascer?” “Vimos uma estrela no Oriente e viemos adorá-lo” ( Mt 2, 1-12). Como a dizer para nós, como aquela canção do Gil: “Se oriente rapaz!”. Oriente o caminho pelo coração que você encontra. Tinham três presentes dado por cada um. Por isso podemos imaginar que são três. O que a gente oferece é que nos dá nome e diz quem somos. Nós não sabemos muito quem eles eram, mas as catacumbas de Priscilla e Calixto em Roma riscaram os traços deles na parede como um perfil na linha do tempo. Tertuliano e Orígenes os colocaram nas crônicas da história. O salmo 71, 10-11 narra de modo orante: “Os reis de Társis e das ilhas lhe enviem presentes, os reis de Sabá e Seba lhe paguem tributo. Todos os reis se prostrem diante dele, e o sirvam todas as nações!”. Reis são regência da vida do povo, mas como reger sem ter um Deus?

Quem são estes Magos?  O bispo gaulês, Cesário de Harles (470-542) pregou que eles eram três, e no século IV surgiram seus nomes. Porém isto não importa muito. Eles significam tanta coisa! Representam até os continentes Ásia, África e Europa. Eles foram três cabeças encontradas em Constantinopla e trazidas como relíquias pelas Cruzadas para Milão. Eles foram cultuados a partir daí como Santos Reis. Frederico Barbaroxa doou estas relíquias para Reinaldo van Dassel que as colocou num relicário precioso na catedral de Colônia, Alemanha, no dia 23 de Julho de 1164. Eles viraram personagens do livro, “Historia Trium Regum”, do carmelita Frei João Hidesheim. Eles inspiraram os artistas que retrataram o Nascimento na Biblia Pauperum. E estão na Legenda Aurea, que amplia o conhecimento de seus nomes: Apelio, Amerio e Damasco no Hebraico; Galgalat, Malgalat e Sarathin no Grego e Gaspar, Melchior e Baltazar no Latim. Para o mundo das Tradições é preciso dar nome para aqueles que a indicam caminhos. Dar nome é trazer para a existência. Dois brancos e um negro, um com 60 anos, outro com 40 anos e outro com 20 anos. Etnia, idade, realeza, honra e reverência.

Ontem e hoje nos Reisados, na Folia de Reis, na Religiosidade Popular eles representam este humano que busca um Deus, gente como nós. Tem até na tradição popular, São Baltazar, santo rei dos negros. Santos Reis das Congadas e Moçambiques, das danças, das festas e das rezas, dos remédios contra vertigens e contra os perigos do caminho, contra febres e feitiços, contra pregadores de sermões longos para não se perderem em muitas palavras. Santos Reis dos Sermões de Antônio Vieira que na sua pregação de 1662 diz que o Senhor não permitiu que eles se perdessem nas estradas, nem que mudassem de pátria, que voltassem para de onde vieram. Que os Santos Reis nos ajudem a chegar lá, sem a opressão do poder da soberania, mas no silêncio da adoração. Que eles não permitam que os pobres desta terra se percam ou que ninguém vá ao seu encontro. Reis vieram, reis voltaram. Que os Santos Reis nos livrem da tirania de Herodes que mudou para cá, transformou o Sinédrio em Congresso e Câmara, e está matando crianças e velhos, mantando nossos sonhos e esperanças, nos descuidados e desmandos da nossa perdida política nacional. Mas apesar de tudo não perdemos a força, resistência e fé! Com a Encarnação, este Menino vem mostrar para nós, que apesar de tudo, a humanidade tem jeito!

Feliz Natal! Com e como os Santos Reis, vamos ao Presépio pedir esperanças! Vamos encontrar o Menino Deus! Paz e Bem na gloria do céu e nos humanos de vontade estrelada e boa!

FREI VITORIO MAZZUCO

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

COMO E COM OS TRÊS REIS MAGOS: VAMOS AO PRESÉPIO! - 2


Deus vem morar na casa que ajeitou para todos e acendeu dentro dela o brilho da presença. Uma antiga escritura hindu diz: “Quem sabe e pode dizer quando passou a existir a criação? Foi a partir do momento que, numa explosão de luz, uma centelha da luz divina nos alcançou dentro de nossa moradia. A escuridão passou”.

Como os Três Reis Magos vamos procurar o lugar real onde Ele está, e fazer disso um pensamento eterno, uma constante recordação, uma luz diária que nos desperta para um Deus morando ali dentro de nós, em meio a nós e em nosso chão. Como esquecemos disso no dia a dia, o Natal vem nos lembrar cada ano. Os Magos foram embora, mas retornam. Ajeitamos o terreno para Deus. Colocamos neve onde não tem neve, colocamos árvore no deserto, e frutos multicores em galhos secos,  colocamos colorido de luzes onde tem que piscar certezas, colocamos verde, transformamos o deserto do Oriente e Ocidente em primavera e verão. O Natal é a festa de todas as estações. É o Solstício. Entre inverno e verão, entre outono e primavera a Luz tem sempre o que fazer.

Como os Três Reis Magos nós chegamos naquela paisagem e fazemos um encontro de reinos: mineral, vegetal, animal, sideral e espiritual. O Presépio é a Criação mostrando a Lei harmoniosa onde todas as coisas convivem bem. Quem não se sente bem olhando para uma Criança? São as leis do universo nos despertando para um evento do Espírito. Esta Criança vem desejar: santidade e humildade, saúde e paz para o mundo!

Os Três Reis Magos nos ensinam com muita sabedoria: se você pode olhar o céu, numa noite linda, ou numa noite chuvosa de verão, o que está ali vai ser uma senda do entendimento. Você vai compreender o significado místico de uma Estrela Brilhante que passa ser Estrela Guia. Não há sabedoria sem olhar para o alto. E lá foram eles levando presentes, indo para o leste, buscando norte e sul, quem sabe no oeste, mas  com a certeza de que em algum lugar Alguém vai  dar a sabedoria, amor e imortalidade. Não é isto que brilha em nossos sonhos? E eles chegaram onde estava uma Trindade Divina em forma de família, o jeito encarnado do Amor não ser sozinho. Se encontraram um Presente indicado pelo céu, não tem como não retribuir com ouro, incenso e mirra. Tem que devolver, tem que retribuir ao divino: sabedoria, vida e amor; tudo numa grande devoção.

Os Três Reis chegaram lá onde estava o real, o primeiro e definitivo presépio. Francisco de Assis, como o quarto sábio, chegou e refez a paisagem bem corporificada. Um dia Deus se encarnou na Palestina, em Belém de Judá. Um dia,  Francisco de Assis representou isto em Greccio da Umbria, com pessoas  vestidas de personagens da Palavra que se fez Carne. A Encarnação veio mostrar para nós que corpo humano é casa de Deus, templo sagrado, símbolo microscópico do universo inteiro. Deus achou lugar em nós. Temos que achar o lugar Dele em nós e em tudo.

O Natal é a festa da chegada ao lugar do Mistério, uma festa da consciência. Quando a consciência é espiritualizada, uma Estrela é revelada dentro de nós. Um caminho espiritual está traçado, uma terra como solo sagrado está demarcada. Podemos, então, olhar esta terra com um olhar espiritual. Os Magos chegaram lá porque seguiram uma estrela que apareceu mais brilhante que as outras. Os Magos nos ensinaram que olhar a estrela é mergulhar no infinito, é ser transportados a um glorioso estado de iluminação espiritual e ir percebendo pelo caminho a humanidade que precisa de visita, presença e cuidado. Chegaram ali e viram um Deus despojado e pobre. Sem lugar e sem teto, tendo um estábulo por tenda e uma manjedoura como berço. Mas ali estava um Deus que queria nascer assim no lugar onde muita gente vive: sem ter nada. A partir de então a humanidade começa encontrar a esperança, a beleza, a alegria, a felicidade, estas coisas de bem aventurança. Esta Criança recuperou em todos aquilo que ninguém pode tirar: sonho, força e beleza. Dignidade do projeto humano, agora abraçado pelo Divino.

Continua 

FREI VITORIO MAZZUCO

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

COMO E COM OS TRÊS REIS MAGOS: VAMOS AO PRESÉPIO!


Não dá para ser franciscano e não ir, de um modo especial nesta época do ano, ao Presépio; embora no espírito franciscano é preciso ser e ter o Presépio o ano inteiro e a cada momento. Nesta época do ano é inegável que o coração tem ritmo e pulsar diferente de maior sensibilidade, de alegrias e encontros, e também certos apertos, certos nós na garganta diante de tantos contrastes. O Natal fisga o coração humano de um jeito diferenciado. Como os Três Reis Magos saímos dando passos inéditos para encontrar Mistério e lugar celebrativo. Tem uma Estrela mapeando o rumo, tem uma Estrela na consciência espiritual.

Somos Magos de culturas diferentes e não dá para ir buscar Encarnação em sentido único. O Deus que vem morar na história encheu a terra de divindade humanizada. Apesar da explosão midiática de hoje, as Hierofanias, a manifestação do Sagrado na existência, são de ontem, de hoje e para o amanhã. Os Magos tinham a precisão do olhar científico que ao ser filtrado por uma Luz, tornou-se busca da presença divina. Há sempre grandes almas nascendo em algum lugar; mesmo antes de Cristo, as religiões já celebravam em algum lugar a certeza: há um Deus que atrai como um ímã e revela que, por caminhos diferentes, chegaremos todos ao Único Necessário.

Os Reis Magos entendiam de luz sideral e de Luz Absoluta. Quem conhece segredos da ciência não pode esconder que almas santas nascem em terras desconhecidas e em qualquer tempo, envoltas em panos de mistério. E saíram procurando em todo caminho, trilhas e becos, vilas e cidades. Entraram e escutaram a Alekh: “Eu trago luz para seu lar, dou luz para sua casa. Eu deixo luz em sua morada!”

A luz celebra um princípio eterno: Deus é uma luz cósmica que acende sonhos, buscas, altares, velas e moradias. Há um raio de divindade que brilha dentro de cada pessoa no olhar e no gesto. Moisés viu a luz na sarça ardente, um arbusto queimando o que não serve, o que é finito e limitado, para purificar o que ainda serve, tornando infinito. No meio da luz Deus vem conversar e não tem como não fazer um caminho, uma viagem como um Rito de Iniciação. O Evangelista João coloca a voz do Mestre: “Eu sou a luz do mundo!” (Jo 8,12). Se tem luz pode-se saber para onde se vai e onde se está, o que tem gosto e o que está pleno de temperos e sentidos. “Sal da terra e luz do mundo” (Mt 5,14). 

Continua  

FREI VITORIO MAZZUCO

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

FRANCISCO DE ASSIS: MEDITAÇÃO E ORAÇÃO – Final


Tudo o que lembra a bondade de Deus leva Francisco de Assis à contemplação e à ação. Por isso, Francisco não tem lugar nem método fixo de oração, mas sim uma livre expressão em diversas formas. Vamos comentar brevemente algumas:

Retiro Franciscano: O retiro franciscano é a experiência eremítica. Recolher-se para colher. Ir para um lugar afastado, ficar um tempo e de lá sair. Sair dos rumores do tempo para meditar os atributos de Deus. No Carceri, no Monte Alverne, Fonte Colombo, ali nestes lugares encontrava espaço e tempo para silêncio e prece. O eremo não é lugar para ficar, mas sim para sair em direção a todos para anunciar as maravilhas encontradas ali.

Leitura e Meditação da Sagrada Escritura: Francisco de Assis fez da Palavra um grande Amor em sua vida. Traduziu literalmente a Palavra em sua vida. A seguia sine glosa, isto é, sem alteração. Ler, encarnar, viver a Palavra de um modo puro, concreto e simples.

Paixão de Cristo: Foi o seu mais rico livro de meditação pessoal. Onde o Amor de Deus é capaz de chegar! Descobrir este Amor, responder ao Amor e reconstruir-se a partir deste Amor.

Natureza:  Outro vasto texto de meditação de Francisco. Imagem nos olhos, Palavra nos lábios. Olhar e contemplar. Ver a grandeza de Deus nos detalhes de minerais, vegetais, animais, tudo na mais perfeita irmandade. Criaturas do mesmo Pai, vestígios da Beleza de Deus. Meditar passando pelo filtro da natureza e aí louvar, agradecer, extasiar, admirar. No coração fazer pulsar o Cântico das Criaturas.

Fraternidade: Expressão de nosso Pai comum. Lugar de Irmãos e Irmãs. Lugar de restaurar a vida com o jeito de Jesus. Servir o semelhante, alegrar-se com ele, confraternizar-se com ele.

Trabalho: Também é oração e meditação. Diz Francisco de Assis: “ Os irmãos, aos quais o Senhor deu a graça de trabalhar, trabalhem com fidelidade e devoção, de maneira que afugente o ócio, inimigo da alma; e não percam o espírito de oração e piedade, ao qual devem servir todas as coisas temporais”. (Rb 5).

Horas de Quarto: Para Francisco de Assis, a cela, ou o quarto não é de madeira, pedra ou tijolo, mas de carne e osso; e não se acha incrustada num convento, mas acompanha ocupante para onde quer que vá. Diz o Espelho da Perfeição: “É o nosso corpo a nossa cela, e a nossa alma se encerra nele como um eremita em seu cubículo para quietamente meditar e orar a Deus”.

Esta é meditação franciscana, que se faz de maneira espontânea no retiro, na natureza, na convivência fraterna, no trabalho, onde podemos e devemos encontrar a paz e a alegria. Paz de consciência, paz da ação de graças, paz da realização de participar do grande Amor de Deus, de ser irmão e irmã de toda humana criatura e de todos os seres.

FREI VITÓRIO MAZZUCO


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

A arte nos aproxima do mistério da Encarnação


No dia 5 de dezembro, às 19h, na Catedral de Bragança Paulista (SP), tivemos o Concerto de Natal dos Meninos Cantores Canarinhos de Petrópolis. O evento foi uma parceria entre a Universidade São Francisco-USF, Secretaria da Cultura e Turismo de Bragança Paulista e Diocese de Bragança. A finalidade foi abrir o Natal na cidade e inaugurar a Exposição Internacional de Presépios que foi montada pela parceria acima citada, na Cripta da Catedral.

O Natal marca o coração humano porque é sempre o despertar de uma consciência espiritual. Há uma multiplicidade de significados do Natal em um mundo de culturas diferentes. O Coral dos Meninos Cantores e os Presépios revelam a Hierofania, isto é, a Manifestação de Deus que tem que ser percebida e celebrada. Nesta época, grande parte da humanidade volta-se intensamente para a presença divina. É uma festa luminosa, e a Luz celebra um princípio eterno. 

O Natal é um pensamento eterno, uma recordação, uma luz diária e permanente que nos desperta para a consciência de um Deus dentro de nós e em meio a nossa vida.

A Exposição de Presépios quer mostrar que a Criação toda representada ali se junta para revelar santidade e humildade para o mundo. Quando a consciência espiritual está traçada dentro de nós, uma Estrela nos revela onde está o Menino Deus. Olhar Presépios é mergulhar no infinito de Deus. Visitar Presépios é ser transportado a um glorioso estado de Iluminação Espiritual.

Os Meninos Cantores Canarinhos de Petrópolis nos encantaram com suas vozes angelicais. Eles foram importantes demais para o Natal da Paz em Bragança. O Concerto dos Canarinhos na Catedral de Bragança foi uma verdadeira Celebração. Um rito de Fraternidade. Uma ação artística, litúrgica e cultural cheia de graça e de amor para com os nossos corações, que certamente se inclinaram diante do Menino Jesus.


O canto dos Canarinhos de Petrópolis é muito importante para a humanidade. Celebra o céu e celebra a terra. Coloca a terra em harmonia com o céu, celebra as relações afetivas que, em graus diferentes nos unem ao divino e aos humanos. O canto e a música no Concerto de Natal tão expressivo, expressam a harmonia e a ordem universal. É um canto orante. A harmonia das vozes nos coloca em comunhão com todas as coisas, e põe cada coisa no seu lugar. Todos saímos do Concerto com uma leveza em nossas almas.

O canto dos Meninos Cantores vem do céu e padroniza-se em rituais de regência, afinação e competência na terra. O Maestro Marco Aurélio Lischt cria a condução da música para atender o céu e traça ritos para responder a terra.  Quando a música e rito se estabelecem, temos o céu e a terra em perfeita ordem.  O canto dos Canarinhos de Petrópolis sobe como vapor da terra para o céu e descem como um orvalho de Advento para a terra. 

Quero agradecer aqui todos os que colaboraram para que isto fosse uma realidade: 

APRESENTAÇÃO CANARINHOS DE PETRÓPOLIS:
Frei Thiago Alexandre Hayakawa, ofm
Elisangela Cadoni
Júnia Michele de Oliveira Silva Assunção

EQUIPE DE FILMAGEM:
Alessandra de Toledo Santos
Carlos Alexsandro Silva Fernandes
Celino Pires da Silva
Florival Souza

EQUIPE DE MONTAGEM DOS PRESÉPIOS:
Adriana Moraes
Bruna Regina Eufrásio
Cecília Lamper
Eloá Ramalho de Camargo
Haydeé Sonia Vieira Camiloti
Liseth Bulhões Bonventi
Lucas Souza Cardoso
Maria Cristina Gonçalves Ramalho
Mauro Ramalho
Nair Cristina Pacheco
Wesley de Godoy

EQUIPE DE ELÉTRICA:
Cleiton Aparecido Moura Oliveira
Fábio Cardoso Silveira
José Sachetti
Misael Martinez Costa
Vinícius Francisco Leiria

EQUIPE DE APOIO:
Antonio Luiz
Cristina Mendes Malengo
Juliana Correa Alvares
Ricardo Donizete Franco
Robson Fernando Bovolenta
Thaís Mendes

PINTURA:  João Batista Bernardes

COORDENAÇÃO:
Frei Vitório Mazzuco, ofm
Profa.  Dalva Leme

Todos celebramos juntos o esplendor que nos veio do céu nas vozes de Anjos em forma de Meninos. Vamos guardar para sempre a memória da graça de estarmos ali naquele momento. Que o Natal tenha para nós um ardor nunca experimentado! Feliz Natal!

Frei Vitorio Mazzuco, ofm
Pastoral Universitária































quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

FRANCISCO DE ASSIS: MEDITAÇÃO E ORAÇÃO – 3


Na Criação. Francisco de Assis gostava de meditar e orar a grandeza do amor de Deus que se manifesta na Criação, um espetáculo de beleza e bondade, de graça e magnitude de tudo o que forma o universo dos seres que a povoam e que revelam, umas e outras, o poder e a sabedoria do Criador. Todas as criaturas arrancam da alma de Francisco de Assis aquele Cântico de louvor às Criaturas, mas é ao Altíssimo que ele dirige suas palavras. É um Cântico completo de louvor e glória, de honra e bênção ao conjunto de todas as criaturas que revelam em suas qualidades as qualidades de Deus. É o Cântico da Irmandade de todos os seres, grandes ou pequenos, os irracionais e os racionais, todos na mesma origem.

Francisco de Assis medita o Deus Pai que tirou todos os seres do nada e os conserva em seu Ser a cada momento. E todos são companheiros no mesmo destino de louvar a Deus. As irracionais, pelo seu modo harmonioso e belo, seguem a ordem estabelecida. As criaturas racionais, como o ser humano, devem tomar consciência desta ordem e abraçá-la com liberdade e amor. Francisco de Assis sente isto como a sua grande missão durante toda vida, aqui no mundo e em toda a eternidade. Ele quer ser um alegre trovador que medita e canta e quer que todos sejam trovadores de Deus, de um modo amoroso e alegre, este é o modo de vida franciscana.

No Filho de Deus. O centro do amor de Deus se manifesta em seu Filho, Jesus Cristo. Francisco de Assis se encanta com o Filho de Deus, humano, um de nós, irmão, pobre, servo de todos. Por isso a convergência da meditação franciscana é a Encarnação. Tudo o que manifesta este Amor de Deus por nós, através de seu Filho, é objeto da sua contemplação, meditação e oração. É seu entusiasmo seráfico, é a sua resposta de amor. Onde isto se torna ainda mais evidente?

No Presépio. É aí que Francisco de Assis reinventa a cena do Evangelho e a representa ao vivo em Greccio. O Presépio é a meditação da Encarnação; é imitado até os dias de hoje pela piedade cristã.

Na Cruz. Desde o início de seu processo de conversão a Cruz era o que mais comovia Francisco de Assis. Chorava a paixão pelas trilhas dos bosques. (LTC 15). Compõe o Ofício da Paixão para rezar todos os dias como especial sinal de reverência e compaixão pelos sofrimentos do Filho de Deus. A sua conhecida prece nos recorda esta verdade: “Absorvei, Senhor, eu vos suplico em meu espírito, e pela suave e ardente força de vosso amor, desafeiçoai-me de todas as coisas que debaixo do céu existem, a fim de que eu possa morrer por vosso amor, ó Deus, que por meu amor vos dignastes morrer”.

Na Eucaristia. Um amor perpetuado feito alimento sagrado. Na carta escrita a todos os Irmãos e Irmãs, Francisco revela uma visão cósmica dos mistérios da redenção presente na Eucaristia. Implora aos Irmãos e Irmãs, beijando os pés, que prestem total reverência e toda honra ao Santíssimo Corpo e Sangue do Senhor.

Na Fraternidade. O Filho de Deus se fez irmão e servo. A Fraternidade refaz os vestígios de Jesus Cristo de modo radical: ser Irmão e Irmã, Menores, simples e pobres, por Amor e a serviço de tudo e de todos. Fazer o bem a alguém é fazer a Cristo. Ele via o Rei dos reis em cada irmão e irmã, por mais mínimos que eles fossem: pobres, leprosos e enfermos.

Na Sagrada Escritura. Para Francisco de Assis, a Palavra de Deus é fonte de meditação e oração. Fazia paráfrases de trechos da Sagrada Escritura e tinha grande amor pelos teólogos que explicavam a Sagrada Escritura com Espírito e Vida.

Na Igreja. Ele ama incondicionalmente a Mãe Igreja. Por ela se faz homem católico e apostólico. Respeita os que formam a Eclesiologia, contemplando neles a vontade do Senhor. Leva para dentro da Igreja a mensagem vital e revigorante da Boa Nova.

Em Maria. A Virgem feita Igreja. Rainha da Ordem, do céu e da terra, pobre e despojada como seu Filho.

Na morte. Ela é a irmã que abre a porta para a plena harmonia. Ela é a bem-aventurança da alegria pela conquista da vida eterna, ela é o acorde final de uma grande sinfonia de amor.

CONTINUA

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

FRANCISCO DE ASSIS: MEDITAÇÃO E ORAÇÃO – 2


Para meditar com Francisco de Assis é preciso mergulhar sem cessar e demorar-se bastante neste atributo divino: Deus é bom! E aqui voltamos novamente a Frei Constantino Koser, OFM: “Três letras apenas, mas que envolvem em si e evocam para Francisco toda a imensidade de mistérios sublimes e suaves, o seu Deus. O mais indefinível de todos os termos, o mais pleno de conteúdo, o de maior alcance, o mais divino, o mais semelhante ao próprio Deus Uno e Trino: Deus é bom. “Só Deus é bom” (Lc 18,19). “Deus caritas est”” (1Jo 4,16) (O Pensamento Franciscano, p.16).

“O Deus Uno e Trino no princípio parece um deserto, não porque o seja, mas porque a alma é incapaz de entender e de o amar. Aos poucos, à medida que o cavalheirismo, amparado e sobrenaturalizado pela graça divina, invadir o que parece deserto, ver-se-ão as flores, os encantos, a doçura, ver-se-á Deus Pai, Filho e Espírito Santo a abraçar divinamente suas criaturas, assemelhando-as mais e mais a Si mesmo em suavidade e bondade indizível. O conhecimento de Deus não dará trégua ao amor de Deus, e o amor de Deus não dará trégua ao conhecimento de Deus, estimulando a inteligência na busca do conhecimento cada vez mais profundo. Na medida em que aprofunda o conhecimento amoroso de Deus, nesta medida se conquista para Deus. Mas para que seja franciscano o modo de conhecer a Deus, é preciso que de fato o amor seja o incentivo da inteligência, o motivo e o estímulo de todas as horas e de todos os esforços” (O Pensamento Franciscano, p. 17).

Ao meditar o amor de Deus desafiava o amor: exigia insistentemente a resposta do amor. Sublime vocação das criaturas, de poderem amar a Deus. Privilégio excelso dos cavaleiros de Deus, de o poderem amar tão singularmente. Neste sentido, Francisco de Assis deu exemplo nas formas mais acabadas, mais completas, mais ardentes e mais sublimes. Clamava amargurado e feliz ao mesmo tempo pelo desejo desta felicidade do Amor: “É preciso amar muito a o Amor daquele que muito nos amou” (2Cel 196). Esta atitude radical de resposta de amor ao amor, ele expressou na Regra Não Bulada, capítulo 23: “Amemos todos de todo coração, de toda mente, e fortaleza, e com toda a inteligência, com todas as forças, com topo empenho, com todo afeto, do íntimo da alma, com todo o desejo e vontade ao Senhor Deus. Criou-nos e nos remiu, salvou-nos em pura misericórdia, cumulou-nos a nós (...) ingratos e tolos e maus, com todos os bens, e continua a cumular-nos. Nada pois, desejemos, nada queiramos, nada nos agrade ou alegre, a não ser o Criador, Redentor e Salvador nosso, o Deus único e verdadeiro que é o bem todo e verdadeiro, o supremo bem, o único bem.  É misericordioso e meigo e doce; Ele só é santo, justo, verdadeiro e reto; Ele só é benigno, inocente e casto; Ele de quem e por quem e em quem está todo perdão, toda graça, toda glória, de todos os penitentes e justos, de todos os santos que no céu conjuntamente se alegram. Quem nos dera que nós todos, em toda parte, em toda hora e em todos os tempos, todos os dias e continuamente creiamos, louvemos, bendigamos, glorifiquemos e sobreexaltemos; engrandeçamos e rendamos graças ao Deus Altíssimo e Supremo e Eterno, à Trindade e Unidade, ao Pai e ao Filho, ao Espírito Santo, ao Criador de todos. Para todos os que nele creem e nele esperam e o amam, é Ele sem princípio e sem fim, imutável, invisível, inenarrável, inefável, incompreensível, ininvestigável, bendito, louvável, glorioso, sobreexaltado, sublime e excelso, suave, amável, deleitoso e todo desejável mais que todas as coisas por todos os séculos sem fim. Amém”.

A meditação e oração em Francisco de Assis são palavras que jorram abundantemente do manancial de sua alma.

CONTINUA

FREI VITÓRIO MAZZUCO

terça-feira, 21 de novembro de 2017

FRANCISCO DE ASSIS: MEDITAÇÃO E ORAÇÃO – 1



Já me perguntaram mais do que uma vez: existe um método de oração ou meditação franciscana? O jeito franciscano não é de método, mas é mais viver em estado de oração e meditação. Menos técnica e mais vivência. Celano dizia que Francisco era um homem feito oração; e o modo como ele interage com todos os seres, o faz um natural meditativo sem método. Não encontramos nas Fontes um esquema tradicional explicitamente formulado. No cristianismo temos uma bela tradição como a meditação inaciana, o modo beneditino; ou então, meditação cristã que usa o modo oriental. Francisco é do século XIII e os métodos de meditação se fixaram no Ocidente a partir do século XV. O que escrevo aqui parte também de uma conversa com o saudoso Frei Alberto Beckhauser, OFM, com quem andei dialogando sobre isto.

Francisco de Assis, com sua personalidade individual plena de liberdade e uma consequente aversão a esquemas rígidos a serem aplicados a todos, não tem explicitamente uma meditação organizada e isto flui para a sua família franciscana. Mas se quisermos entender um caminho, um método, num sentido mais amplo, como modalidade, estilo ou atitude da alma que se empenha no “tu a Tu com Deus”, o que constitui uma meditação orante, podemos sim extrair, a partir da experiência de Francisco e seus seguidores, um exemplo e um ensinamento. Não existe um método franciscano de meditar ou orar, mas existe, sim, uma meditação orante que podemos qualificar como franciscana, pois a alma de Francisco não encontra obstáculos como a preocupação de exercício estudado e treinado.

Francisco de Assis não prescreveu aos seus discípulos formas e métodos de meditação e oração. Fez a sua experiência e deixou a seus frades a mais ampla liberdade, a fim de que cada um, exercendo suas faculdades pessoais, procurasse entender as inspirações do Senhor. Frei Alberto fala de um “cavalheirismo seráfico”, isto é, partir para a aventura de descobrir a bondade de Deus e o espetáculo de seu Amor em tudo o que existe. E para isto existe os caminhos da fraternidade conventual à fraternidade cósmica. Uma das paixões de Francisco era esconder-se sozinho nos bosques, frestas e grutas, separado de tudo e todos e ali entregar-se às reflexões sobre Deus e suas qualidades, sobretudo onde Ele é Belo e Bom. Ao conhecer o Criador conhecia-se cada vez mais como Criatura. Fazia um encontro entre Verdade e Realidade que vazava em preces breves como esta: “Senhor, quem sois vós e quem sou eu? Vós, o Altíssimo Senhor do céu e da terra; e eu um miserável vermezinho vosso ínfimo servo!” Ou aquela prece de atravessar noite: “Meus Deus e meu tudo!”

Este seu jeito de ser Fraternidade fazia uma imersão na Fraternidade Divina, a Trindade Santa, e exclamava com o coração incontido: “Ó quão glorioso e santo e grande é ter no céu um Pai! Ó quão santo e belo e deleitável é ter no céu um Esposo. Ó quão santo, dileto, aprazível e humilde, tranquilizante e doce e amorável e sobre todas as coisas desejável é ter semelhante Irmão, que deu a vida pelas suas ovelhas!” (Carta aos Fiéis, 54-56). Diz Frei Constantino Koser, OFM: “A riqueza infinita de Deus Uno e Trino, do Mistério Inefável, fundamento da vida espiritual franciscana, se refrata de modos incontáveis na retina finita da inteligência e da vontade criada. Aspectos mil há em Deus, cada qual mais amável, cada qual mais digno de consideração, cada qual por si só suficiente para a plenitude da felicidade extática pelas eternidades sem fim. A mentalidade de cada qual se espelhará nos atributos a que der preferência em suas meditações e preces. São Francisco deu preferência aos atributos que, em conjunto, manifestavam Deus como um Soberano de cavaleiros:  a grandeza, a glória, a sublimidade, a delicadeza na suavidade, modos corteses e finos, a justiça, a misericórdia, mas, mais que tudo, a bondade “  (Koser, Constantino, O Pensamento Franciscano, 15-16).

Assim meditando, contemplando, orando e saboreando, Francisco de Assis mais e mais submergia em Deus e acabava sentindo-se assoberbado pela majestade divina e ao mesmo tempo sublime, terrível, suave e delicada. E quando em seus arroubos se sentia irremediavelmente perdido, mergulhava na consideração da bondade divina, degustando a palavra em todas as formas: “Onipotente, santíssimo, altíssimo e sumo Deus, todo o bem e sumo bem, toda graça, toda glória, toda honra, toda a bênção e todos os bens vos tributamos para sempre”

CONTINUA

FREI VITÓRIO MAZZUCO