segunda-feira, 8 de fevereiro de 2010
quinta-feira, 21 de janeiro de 2010
História de racismo na civilização ocidental
Por Eduardo Galeano
A democracia haitiana nasceu há um instante. No seu breve tempo de vida, esta criatura faminta e doentia não recebeu senão bofetadas. Era uma recém-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada pela quartelada do general Raoul Cedras. Três anos mais tarde, ressuscitou. Depois de haver posto e retirado tantos ditadores militares, os Estados Unidos retiraram e puseram o presidente Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito por voto popular em toda a história do Haiti e que tivera a louca ideia de querer um país menos injusto.
O voto e o veto
Para apagar as pegadas da participação estadunidense na ditadura sangrenta do general Cedras, os fuzileiros navais levaram 160 mil páginas dos arquivos secretos. Aristide regressou acorrentado. Deram-lhe permissão para recuperar o governo, mas proibiram-lhe o poder. O seu sucessor, René Préval, obteve quase 90 por cento dos votos, mas mais poder do que Préval tem qualquer chefete de quarta categoria do Fundo Monetário ou do Banco Mundial, ainda que o povo haitiano não o tenha eleito nem sequer com um voto.
Mais do que o voto, pode o veto. Veto às reformas: cada vez que Préval, ou algum dos seus ministros, pede créditos internacionais para dar pão aos famintos, letras aos analfabetos ou terra aos camponeses, não recebe resposta, ou respondem ordenando-lhe:
– Recite a lição. E como o governo haitiano não acaba de aprender que é preciso desmantelar os poucos serviços públicos que restam, últimos pobres amparos para um dos povos mais desamparados do mundo, os professores dão o exame por perdido.
O álibi demográfico
Em fins do ano passado, quatro deputados alemães visitaram o Haiti. Mal chegaram, a miséria do povo feriu-lhes os olhos. Então o embaixador da Alemanha explicou-lhe, em Porto Príncipe, qual é o problema: – Este é um país superpovoado, disse ele. A mulher haitiana sempre quer e o homem haitiano sempre pode.
E riu. Os deputados calaram-se. Nessa noite, um deles, Winfried Wolf, consultou os números. E comprovou que o Haiti é, com El Salvador, o país mais superpovoado das Américas, mas está tão superpovoado quanto a Alemanha: tem quase a mesma quantidade de habitantes por quilômetro quadrado.
Durante os seus dias no Haiti, o deputado Wolf não só foi golpeado pela miséria como também foi deslumbrado pela capacidade de beleza dos pintores populares. E chegou à conclusão de que o Haiti está superpovoado... de artistas.
Na realidade, o álibi demográfico é mais ou menos recente. Até há alguns anos, as potências ocidentais falavam mais claro.
A tradição racista
Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objetivos: cobrar as dívidas do Citybank e abolir o artigo constitucional que proibia vender as plantations aos estrangeiros. Então Robert Lansing, secretário de Estado, justificou a longa e feroz ocupação militar explicando que a raça negra é incapaz de governar-se a si própria, que tem "uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização". Um dos responsáveis pela invasão, William Philips, havia incubado tempos antes a ideia sagaz: "Este é um povo inferior, incapaz de conservar a civilização que haviam deixado os franceses".
O Haiti fora a pérola da coroa, a colônia mais rica da França: uma grande plantação de açúcar, com mão-de-obra escrava. No Espírito das leis, Montesquieu havia explicado sem papas na língua: "O açúcar seria demasiado caro se os escravos não trabalhassem na sua produção. Os referidos escravos são negros desde os pés até à cabeça e têm o nariz tão achatado que é quase impossível deles ter pena. Torna-se impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma, e sobretudo uma alma boa, num corpo inteiramente negro".
Em contrapartida, Deus havia posto um açoite na mão do capataz. Os escravos não se distinguiam pela sua vontade de trabalhar. Os negros eram escravos por natureza e vagos também por natureza, e a natureza, cúmplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir o amo e o amo devia castigar o escravo, que não mostrava o menor entusiasmo na hora de cumprir com o desígnio divino. Karl von Linneo, contemporâneo de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica: "Vagabundo, preguiçoso, negligente, indolente e de costumes dissolutos". Mais generosamente, outro contemporâneo, David Hume, havia comprovado que o negro "pode desenvolver certas habilidades humanas, tal como o papagaio que fala algumas palavras".
A humilhação imperdoável
Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos haviam conquistado antes a sua independência, mas tinha meio milhão de escravos a trabalhar nas plantações de algodão e de tabaco. Jefferson, que era dono de escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão inferiores.
A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ruínas. A terra haitiana fora devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas calamidades da guerra contra a França, e um terço da população havia caído no combate. Então começou o bloqueio. A nação recém nascida foi condenada à solidão. Ninguém lhe comprava, ninguém lhe vendia, ninguém a reconhecia.
O delito da dignidade
Nem sequer Simón Bolívar, que tão valente soube ser, teve a coragem de firmar o reconhecimento diplomático do país negro. Bolívar havia podido reiniciar a sua luta pela independência americana, quando a Espanha já o havia derrotado, graças ao apoio do Haiti. O governo haitiano havia-lhe entregue sete naves e muitas armas e soldados, com a única condição de que Bolívar libertasse os escravos, uma ideia que não havia ocorrido ao Libertador. Bolívar cumpriu com este compromisso, mas depois da sua vitória, quando já governava a Grande Colômbia, deu as costas ao país que o havia salvo. E quando convocou as nações americanas à reunião do Panamá, não convidou o Haiti mas convidou a Inglaterra.
Os Estados Unidos reconheceram o Haiti apenas sessenta anos depois do fim da guerra de independência, enquanto Etienne Serres, um gênio francês da anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos porque têm pouca distância entre o umbigo e o pênis. Por essa altura, o Haiti já estava em mãos de ditaduras militares carniceiras, que destinavam os famélicos recursos do país ao pagamento da dívida francesa. A Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à França uma indenização gigantesca, a modo de perdão por haver cometido o delito da dignidade.
A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem dimensões de tragédia, é também uma história do racismo na civilização ocidental.
Eduardo Galeano é escritor. Texto publicado em Resumen Latinoamericano, via Resistir.info
A democracia haitiana nasceu há um instante. No seu breve tempo de vida, esta criatura faminta e doentia não recebeu senão bofetadas. Era uma recém-nascida, nos dias de festa de 1991, quando foi assassinada pela quartelada do general Raoul Cedras. Três anos mais tarde, ressuscitou. Depois de haver posto e retirado tantos ditadores militares, os Estados Unidos retiraram e puseram o presidente Jean-Bertrand Aristide, que havia sido o primeiro governante eleito por voto popular em toda a história do Haiti e que tivera a louca ideia de querer um país menos injusto.
O voto e o veto
Para apagar as pegadas da participação estadunidense na ditadura sangrenta do general Cedras, os fuzileiros navais levaram 160 mil páginas dos arquivos secretos. Aristide regressou acorrentado. Deram-lhe permissão para recuperar o governo, mas proibiram-lhe o poder. O seu sucessor, René Préval, obteve quase 90 por cento dos votos, mas mais poder do que Préval tem qualquer chefete de quarta categoria do Fundo Monetário ou do Banco Mundial, ainda que o povo haitiano não o tenha eleito nem sequer com um voto.
Mais do que o voto, pode o veto. Veto às reformas: cada vez que Préval, ou algum dos seus ministros, pede créditos internacionais para dar pão aos famintos, letras aos analfabetos ou terra aos camponeses, não recebe resposta, ou respondem ordenando-lhe:
– Recite a lição. E como o governo haitiano não acaba de aprender que é preciso desmantelar os poucos serviços públicos que restam, últimos pobres amparos para um dos povos mais desamparados do mundo, os professores dão o exame por perdido.
O álibi demográfico
Em fins do ano passado, quatro deputados alemães visitaram o Haiti. Mal chegaram, a miséria do povo feriu-lhes os olhos. Então o embaixador da Alemanha explicou-lhe, em Porto Príncipe, qual é o problema: – Este é um país superpovoado, disse ele. A mulher haitiana sempre quer e o homem haitiano sempre pode.
E riu. Os deputados calaram-se. Nessa noite, um deles, Winfried Wolf, consultou os números. E comprovou que o Haiti é, com El Salvador, o país mais superpovoado das Américas, mas está tão superpovoado quanto a Alemanha: tem quase a mesma quantidade de habitantes por quilômetro quadrado.
Durante os seus dias no Haiti, o deputado Wolf não só foi golpeado pela miséria como também foi deslumbrado pela capacidade de beleza dos pintores populares. E chegou à conclusão de que o Haiti está superpovoado... de artistas.
Na realidade, o álibi demográfico é mais ou menos recente. Até há alguns anos, as potências ocidentais falavam mais claro.
A tradição racista
Os Estados Unidos invadiram o Haiti em 1915 e governaram o país até 1934. Retiraram-se quando conseguiram os seus dois objetivos: cobrar as dívidas do Citybank e abolir o artigo constitucional que proibia vender as plantations aos estrangeiros. Então Robert Lansing, secretário de Estado, justificou a longa e feroz ocupação militar explicando que a raça negra é incapaz de governar-se a si própria, que tem "uma tendência inerente à vida selvagem e uma incapacidade física de civilização". Um dos responsáveis pela invasão, William Philips, havia incubado tempos antes a ideia sagaz: "Este é um povo inferior, incapaz de conservar a civilização que haviam deixado os franceses".
O Haiti fora a pérola da coroa, a colônia mais rica da França: uma grande plantação de açúcar, com mão-de-obra escrava. No Espírito das leis, Montesquieu havia explicado sem papas na língua: "O açúcar seria demasiado caro se os escravos não trabalhassem na sua produção. Os referidos escravos são negros desde os pés até à cabeça e têm o nariz tão achatado que é quase impossível deles ter pena. Torna-se impensável que Deus, que é um ser muito sábio, tenha posto uma alma, e sobretudo uma alma boa, num corpo inteiramente negro".
Em contrapartida, Deus havia posto um açoite na mão do capataz. Os escravos não se distinguiam pela sua vontade de trabalhar. Os negros eram escravos por natureza e vagos também por natureza, e a natureza, cúmplice da ordem social, era obra de Deus: o escravo devia servir o amo e o amo devia castigar o escravo, que não mostrava o menor entusiasmo na hora de cumprir com o desígnio divino. Karl von Linneo, contemporâneo de Montesquieu, havia retratado o negro com precisão científica: "Vagabundo, preguiçoso, negligente, indolente e de costumes dissolutos". Mais generosamente, outro contemporâneo, David Hume, havia comprovado que o negro "pode desenvolver certas habilidades humanas, tal como o papagaio que fala algumas palavras".
A humilhação imperdoável
Em 1803 os negros do Haiti deram uma tremenda sova nas tropas de Napoleão Bonaparte e a Europa jamais perdoou esta humilhação infligida à raça branca. O Haiti foi o primeiro país livre das Américas. Os Estados Unidos haviam conquistado antes a sua independência, mas tinha meio milhão de escravos a trabalhar nas plantações de algodão e de tabaco. Jefferson, que era dono de escravos, dizia que todos os homens são iguais, mas também dizia que os negros foram, são e serão inferiores.
A bandeira dos homens livres levantou-se sobre as ruínas. A terra haitiana fora devastada pela monocultura do açúcar e arrasada pelas calamidades da guerra contra a França, e um terço da população havia caído no combate. Então começou o bloqueio. A nação recém nascida foi condenada à solidão. Ninguém lhe comprava, ninguém lhe vendia, ninguém a reconhecia.
O delito da dignidade
Nem sequer Simón Bolívar, que tão valente soube ser, teve a coragem de firmar o reconhecimento diplomático do país negro. Bolívar havia podido reiniciar a sua luta pela independência americana, quando a Espanha já o havia derrotado, graças ao apoio do Haiti. O governo haitiano havia-lhe entregue sete naves e muitas armas e soldados, com a única condição de que Bolívar libertasse os escravos, uma ideia que não havia ocorrido ao Libertador. Bolívar cumpriu com este compromisso, mas depois da sua vitória, quando já governava a Grande Colômbia, deu as costas ao país que o havia salvo. E quando convocou as nações americanas à reunião do Panamá, não convidou o Haiti mas convidou a Inglaterra.
Os Estados Unidos reconheceram o Haiti apenas sessenta anos depois do fim da guerra de independência, enquanto Etienne Serres, um gênio francês da anatomia, descobria em Paris que os negros são primitivos porque têm pouca distância entre o umbigo e o pênis. Por essa altura, o Haiti já estava em mãos de ditaduras militares carniceiras, que destinavam os famélicos recursos do país ao pagamento da dívida francesa. A Europa havia imposto ao Haiti a obrigação de pagar à França uma indenização gigantesca, a modo de perdão por haver cometido o delito da dignidade.
A história do assédio contra o Haiti, que nos nossos dias tem dimensões de tragédia, é também uma história do racismo na civilização ocidental.
Eduardo Galeano é escritor. Texto publicado em Resumen Latinoamericano, via Resistir.info
segunda-feira, 18 de janeiro de 2010
O HAITI É AQUI!
Entre notícias, fotos, corpos, poeira, lágrimas, sangue, destroços, feridas, fome, manchetes, espanto, enfim tudo o que o terremoto no Haiti tem causado...me pego cantando baixinho o grudento refrão da canção de Caetano Veloso: “O Haiti...é aqui!”. É mesmo! O Haiti tremeu as bases de todo mundo. Há uma corrente internacional de ajuda, solidariedade, socorro, hospital de campanha, voluntariado, depósito em conta corrente, doações. De repente o mundo percebeu que os recursos não são iguais para todo mundo. Não acontece enchente no prédio em que moro; apenas nos desesperamos com algum vazamento de cano como se fosse o fim do mundo. Mas é lá na vila desprotegida da periferia que as águas destroem. E quando um país todo é uma imensa e pobre vila descuidada?
Vejo os aviões chegando com o melhor do pessoal, do equipamento e da competência diante de sinistros. E todos sentindo-se inúteis diante de um país que não tem nada. O Haiti é aqui nos nossos limites, no nosso coração compungido de dor e os olhos vendo um quadro de morte. O Haiti é aqui na emoção dos poderosos americanos, franceses, chineses, brasileiros e tantas nações que chegam ali e percebem o que acontece com os nada favorecidos. O Haiti é aqui no desigual, no desnível social, no esquecimento universal. A Haiti é aqui no encontro entre o superior e o inferior . O Haiti é aqui na força da reunião de forças. O terremoto botou por terra o frágil, mas está reconstruindo o que nos resta de humanidade. Há milhões de dólares desembolsados por pessoas que não sabem o que é desgraça. Há troca e partilha de recursos. E assim, de um pequeno país, de um povo pobre, de uma parte da terra destruída é que irão surgir as obras verdadeiras e perenes do coração. A natureza sempre encontra um jeito de mostrar para nós os nossos limites de criaturas também, mas os valores que brotam dos impactos, resgatam em nós uma força divina, bem aqui!
Vejo os aviões chegando com o melhor do pessoal, do equipamento e da competência diante de sinistros. E todos sentindo-se inúteis diante de um país que não tem nada. O Haiti é aqui nos nossos limites, no nosso coração compungido de dor e os olhos vendo um quadro de morte. O Haiti é aqui na emoção dos poderosos americanos, franceses, chineses, brasileiros e tantas nações que chegam ali e percebem o que acontece com os nada favorecidos. O Haiti é aqui no desigual, no desnível social, no esquecimento universal. A Haiti é aqui no encontro entre o superior e o inferior . O Haiti é aqui na força da reunião de forças. O terremoto botou por terra o frágil, mas está reconstruindo o que nos resta de humanidade. Há milhões de dólares desembolsados por pessoas que não sabem o que é desgraça. Há troca e partilha de recursos. E assim, de um pequeno país, de um povo pobre, de uma parte da terra destruída é que irão surgir as obras verdadeiras e perenes do coração. A natureza sempre encontra um jeito de mostrar para nós os nossos limites de criaturas também, mas os valores que brotam dos impactos, resgatam em nós uma força divina, bem aqui!
sábado, 16 de janeiro de 2010
ZILDA ARNS
Hoje, a terra acolhe a fecunda semente da mulher cuidadora. No céu, a festa já começou há dias. Um encontro entre céu e terra de uma alma imortal e de uma obra que será perene. Hoje, em Curitiba, Zilda Arns, velada, amada, sepultada e eternizada. Uma mulher profundamente mãe, daquelas que o eu desaparece e só transparece a obra. Quem conhece a arte de amar, aprende a criar como o Criador. Assim foi Zilda, uma mulher que salvou e reconstruiu vidas.
Hoje, a subjetividade desta mulher é exaltada, pois sua vida foi fazer da objetividade uma missão. Ela, muitas vezes, ficou hospedada aqui em casa. Observei-a com reverente silêncio. Vinha aqui como irmã, alma franciscana, e bebia a presença e orientação de confrade, seu orientador espiritual. Sentava-se à mesa, rezava conosco e contava histórias. Era versada na ciência do Amor e familiarizada com as crianças do mundo inteiro. Passava uma confiança muito grande. Ganhava presentes e distribuía palavras e sorrisos.
Hoje, eu tenho que escrever sobre Zilda de quem só se fala bem. Conhecida pela solidariedade e pela força feminina aliada a empreendimentos e a coragem de fazer o que muitos poderes não fazem. Zilda valia mais que muitos governos!
Hoje , ao acompanhar o velório e o enterro de Zilda, eu tenho que perguntar: O que fazemos com a nossa capacidade de Amar? Ela, nos ensina que amar não basta, é preciso dar um sentido forte a este amor. Ela ensinou isto a todas as mulheres e homens da Pastoral da Criança. Zilda, a pastora incansável do Cuidado pela Vida. Ela deu às milhares e milhares de crianças a chance de viver, de brincar na infância, de alimentar-se, de sentir o banho sadio na água purificadora do asseio. Santo remédio!
Obrigado Zilda Arns! Você nos ensinou a verdade de Amar, a eternizar-se no tempo. Você ensinou que o grande objetivo da vida é a própria Vida. Você nos ensinou a constância, o desapego do status, a constância, a discrição, a habilidade para conversar, a ousadia, a conhecer as melhores intenções do que nos resta de cidadania, a ausência de complicação, a simplicidade da obra social, a compreensão rápida. O seu zelo fez sua estrada de imortalidade. Um terremoto a matou fisicamente, mas você criou em nós um abalo enorme de consciência! Descanse no Prêmio Nobel da Paz do seu Dever Realizado!
Hoje, a subjetividade desta mulher é exaltada, pois sua vida foi fazer da objetividade uma missão. Ela, muitas vezes, ficou hospedada aqui em casa. Observei-a com reverente silêncio. Vinha aqui como irmã, alma franciscana, e bebia a presença e orientação de confrade, seu orientador espiritual. Sentava-se à mesa, rezava conosco e contava histórias. Era versada na ciência do Amor e familiarizada com as crianças do mundo inteiro. Passava uma confiança muito grande. Ganhava presentes e distribuía palavras e sorrisos.
Hoje, eu tenho que escrever sobre Zilda de quem só se fala bem. Conhecida pela solidariedade e pela força feminina aliada a empreendimentos e a coragem de fazer o que muitos poderes não fazem. Zilda valia mais que muitos governos!
Hoje , ao acompanhar o velório e o enterro de Zilda, eu tenho que perguntar: O que fazemos com a nossa capacidade de Amar? Ela, nos ensina que amar não basta, é preciso dar um sentido forte a este amor. Ela ensinou isto a todas as mulheres e homens da Pastoral da Criança. Zilda, a pastora incansável do Cuidado pela Vida. Ela deu às milhares e milhares de crianças a chance de viver, de brincar na infância, de alimentar-se, de sentir o banho sadio na água purificadora do asseio. Santo remédio!
Obrigado Zilda Arns! Você nos ensinou a verdade de Amar, a eternizar-se no tempo. Você ensinou que o grande objetivo da vida é a própria Vida. Você nos ensinou a constância, o desapego do status, a constância, a discrição, a habilidade para conversar, a ousadia, a conhecer as melhores intenções do que nos resta de cidadania, a ausência de complicação, a simplicidade da obra social, a compreensão rápida. O seu zelo fez sua estrada de imortalidade. Um terremoto a matou fisicamente, mas você criou em nós um abalo enorme de consciência! Descanse no Prêmio Nobel da Paz do seu Dever Realizado!
quarta-feira, 6 de janeiro de 2010
A Folia de Reis
"Ó de casa, nobre gente, escutai e ouvirei! Lá das bandas do Oriente são chegados os três Reis!" A toada cheia de fé e anúncio, roupas coloridas, brilho, fitas e espelho, a visita às casas, vilas e cidades, flores, bilhetes, a bandeira, a reza o beijo no estandarte, o interior de Minas, São Paulo, Goiás, Espírito Santo, Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Paraná, recria a peregrinação dos três Reis Magos- Belchior, Baltazar e Gaspar - que vão até Belém para adorar o Deus Menino. A chegada, a acolhida, os presentes, o ouro da realeza, o incenso da divindade e a mirra da humanidade. A estrela-guia, roupas, instrumentos e cores, o ciclo natalino, o Deus que vem abençoar família, criação, roça, horta e cômodos, os bens terrestres e os bens da crença: promessa atendida e cumprida, graça recebida, adjutório ... Deus na Terra da gente!
Texto publicado pela Folhinha do Sagrado Coração de Jesus
quarta-feira, 23 de dezembro de 2009
Morte e Vida Natalina
Mais um momento chega até os nossos olhos e agendas. Momento de viajar e gastar o corpo em ônibus, carros, enfim, em estradas e rumos. O mais interessante, nesta experiência de vai e vem, é que concluímos que o nosso verdadeiro e histórico lugar de apoio, origem e memória nunca é onde estamos (isto se evidencia na maioria das pessoas).
Estamos sempre fora de nosso início, daquilo que esperamos “visitar”, ou melhor, revisitar. Visitar a família ou a nossa casa de origem é uma maneira que encontramos, pedagogicamente, de nos tatearmos e nos acariciarmos. Já peguei tantos metrôs, aviões, destinos diversos, mas nenhum tem a lógica desta “viagem” de final de ano, um fenômeno que invade internamente feito enchente.
“Natal”, já falei tanto disso em artigos, palestras, textos e poesias, sempre tentando desvencilhar hábitos coletivizados, com uma pitada de criticidade frente ao valor singular desta época, porém, hoje aqui, diante destas palavras, calo como mãe diante de um leito do filho enfermo por uma doença misteriosa. Não sei o que dizer, não sei o que imaginar, apenas embalo-me no acontecimento, com um sentimento de cansaço. Tantas coisas fizemos, lutamos, brigamos, conseguimos, frustramo-nos, acreditamos, amamos e deletamos de nossas listas de prioridade neste período de 360 dias. O cenário da vida se equaciona num calendário? Não sei, pois estamos sempre muito ocupados para nisso pensar.
Sempre tive a imagem do natal como um grande enterro. Enterro de nossas vaidades – aquilo que tentamos sobrepor ao outro. Enterro de agendas e cronogramas, para que dali eu possa presenciar o broto autêntico da vida, sem jóias e relógios, apenas nua, medida sem vergonha, descaso de mentiras e domesticações. Enterro do que não vi, não degustei, não tateei e não cheirei. O natal para mim é ressurreição do eu mais primário, mas existente, escondido, fragilizado, anêmico, marginalizado, excluído, banido, subnutrido, esquecido.
Hoje galga em mim uma vontade de dormir na estrada, a caminho de algo que não encontrei e nem encontrarei. Quero fugir das luzes e buscar a escuridão da noite de natal. Talvez lá eu possa me encontrar, perdido num ventre de rotina que hoje se resume num plano universo (um só verso), por isso, bebida e comida, um estado de sobrevivência fatal e corriqueira.
Talvez o que chamam de "noite iluminada", seja no fundo o brilho que buscamos no silêncio contemplativo da escuridão, que é sinônimo de não-aparência, não-horizonte, apenas percepção de respeito e espreiteza. Neste sentimento iluminamos a nós mesmos, nossos eixos e centros, tão desbirutados pelas gigantescas demandas e estratégias sociais, profissionais, políticas, culturais e comportamentais em que nos deixamos reger diariamente.
A ética de nosso coração está no estômago de nossa faina histórica.
Neste ano vi tanta gente falar, planejar e contar carros, apartamentos, e-mails, maridos. Outros vi enlouquecer, dormir, enfartar, casar, fugir e romper com patrões e família. Natal é motivo de memória, é o parto do novo!
Esta memória faz-me voltar para a minha imagem. Confesso que envelheci, tenho fios brancos em minha barba, barba esta de tantos comentários e deslogios (falta de cuidado, assim dizem!), meu corpo a manjedoura das minhas angústias, medos, esperanças e projetos. Hoje me identifico com Jesus no horto e não aquela imagem do presépio: vivo, como folha verde na primavera. Talvez esta confusão de imagens e cenários, entrando num complexo quase que ilegível, seja o resultado da tão falada experiência religiosa - confundir imagens, rostos, anos e etapas. Hoje não sei se sou Filho envelhecido ou tornei-me Pai, terceira pessoa da trindade. Mas com inspiração nas cicatrrizes que carrego, descrevo balbuciando ao vento: quero ser Espírito para voar deste chão, quero vitalidade para percorrer desertos e jejuns, ou então, quero ser menino aquecido pelo bafo simples e real de um burro. Sem medo de bactérias, de compromissos, de nojeiras, de absurdos, de idiotices e/ou maluquices. Quero ser/estar entre o sono do sonho e o sonho do sono, aqueles de minha infância que eram levemente encerrados ao som profético e familiar de um passarinho a mergulhar no orvalho da manhã. Na cozinha nasce o cheiro do café e o som dos passos de minha vó, preparando o caixote de lenhas, frescas para o sacrifico do almoço. Doce abandono, curta viagem, enorme distância, parida memória.
De Fábio José Garcia Paes
Estamos sempre fora de nosso início, daquilo que esperamos “visitar”, ou melhor, revisitar. Visitar a família ou a nossa casa de origem é uma maneira que encontramos, pedagogicamente, de nos tatearmos e nos acariciarmos. Já peguei tantos metrôs, aviões, destinos diversos, mas nenhum tem a lógica desta “viagem” de final de ano, um fenômeno que invade internamente feito enchente.
“Natal”, já falei tanto disso em artigos, palestras, textos e poesias, sempre tentando desvencilhar hábitos coletivizados, com uma pitada de criticidade frente ao valor singular desta época, porém, hoje aqui, diante destas palavras, calo como mãe diante de um leito do filho enfermo por uma doença misteriosa. Não sei o que dizer, não sei o que imaginar, apenas embalo-me no acontecimento, com um sentimento de cansaço. Tantas coisas fizemos, lutamos, brigamos, conseguimos, frustramo-nos, acreditamos, amamos e deletamos de nossas listas de prioridade neste período de 360 dias. O cenário da vida se equaciona num calendário? Não sei, pois estamos sempre muito ocupados para nisso pensar.
Sempre tive a imagem do natal como um grande enterro. Enterro de nossas vaidades – aquilo que tentamos sobrepor ao outro. Enterro de agendas e cronogramas, para que dali eu possa presenciar o broto autêntico da vida, sem jóias e relógios, apenas nua, medida sem vergonha, descaso de mentiras e domesticações. Enterro do que não vi, não degustei, não tateei e não cheirei. O natal para mim é ressurreição do eu mais primário, mas existente, escondido, fragilizado, anêmico, marginalizado, excluído, banido, subnutrido, esquecido.
Hoje galga em mim uma vontade de dormir na estrada, a caminho de algo que não encontrei e nem encontrarei. Quero fugir das luzes e buscar a escuridão da noite de natal. Talvez lá eu possa me encontrar, perdido num ventre de rotina que hoje se resume num plano universo (um só verso), por isso, bebida e comida, um estado de sobrevivência fatal e corriqueira.
Talvez o que chamam de "noite iluminada", seja no fundo o brilho que buscamos no silêncio contemplativo da escuridão, que é sinônimo de não-aparência, não-horizonte, apenas percepção de respeito e espreiteza. Neste sentimento iluminamos a nós mesmos, nossos eixos e centros, tão desbirutados pelas gigantescas demandas e estratégias sociais, profissionais, políticas, culturais e comportamentais em que nos deixamos reger diariamente.
A ética de nosso coração está no estômago de nossa faina histórica.
Neste ano vi tanta gente falar, planejar e contar carros, apartamentos, e-mails, maridos. Outros vi enlouquecer, dormir, enfartar, casar, fugir e romper com patrões e família. Natal é motivo de memória, é o parto do novo!
De Fábio José Garcia Paes
segunda-feira, 21 de dezembro de 2009
Paz, Bem e Feliz Natal, Irmãos!
Mensagem de meu amigo Paulo Palladini:
Sempre falo do Natal como a festa da família. Sagrada família. Mas, que família? Pai, mãe, filhos? Ou a grande família: pai, mãe, filhos, avós, tios, primos, netos. Ou ainda com a presença de amigos, vizinhos, colegas de trabalho, irmãos da igreja, companheiros de jornada. Há muitas conformações de famílias, que incluem madrastas e padrastos, e aquelas formadas por dois pais, duas mães. E as sem pai nem mãe. Enfim as combinações são quase infinitas. Há famílias e famílias. Nossa tendência é projetar a idéia da sagrada família para outras instâncias como um bairro, uma cidade. Jesus Cristo, motivo maior para estarmos falando de Natal e família, é o representante do Pai diante do qual todos somos irmãos: formamos uma grande família humana em Cristo. Alguns filósofos pensaram a humanidade como uma só família: diante da humanidade comum a todos, somos irmãos. A humanidade é uma grande família. São Francisco de Assis, mais radical, estendeu a irmandade para além dos humanos, aos seres vivos em geral, animais e vegetais, e também aos demais elementos da natureza: fenômenos físicos e químicos, os astros, o universo inteiro. Daí: irmão pássaro, irmão lobo, irmão sol, irmã lua, irmã árvore, irmã água. Enquanto que a idéia de família atualmente quase que se restringe ao núcleo formado por pai, mãe e filhos (ou filho único), há outros movimentos que abarcam o universo inteiro. Família remete a convivência, proximidade, intimidade, amor. Ora, tem pais que não amam seus filhos, mais freqüentemente não têm intimidade com eles, não conseguem conviver, nem estar próximo. Há filhos que não amam seus pais, ou não suportam conviver com eles. Possuem apenas deveres legais, formais uns para com os outros. No entanto, formam uma família. Pode um arranjo desses ser chamado, verdadeiramente, de família? Se não existe amor para sedimentar as relações entre seus membros, ainda assim isso é uma família? O filósofo Martin Buber considerava dois tipos de relações do ser humano com o mundo: a relação Eu-Tu e relação Eu-Isso. Um humano com outro humano é Eu-Tu, tudo o que exclui o humano é relação Eu-Isso. Contudo há relações entre pessoas que adquirem o caráter Eu-Isso: quando um é objeto para o outro. Pode acontecer dentro de uma família: filhos podem se tornar objetos dos pais e vice-versa. Se, sou tratado como um consumidor de produtos ou serviços, sou um objeto: Isso. As relações humanas podem degenerar para relações Eu-Isso. Para Francisco de Assis não, tudo é Eu-Tu, o outro um igual, um irmão. Seja pessoa, pássaro ou pedra. A reverência, que ele quer observar para todos os seres, queremos também entre nós humanos: através do resgate dos valores autênticos, da ética e da moral, do respeito e da aceitação. Tudo isso exige de nós o exercício cotidiano dessas atitudes, mais ação que falação. Exige a revalorização do caráter autenticamente humano do que somos e do que podemos ser. Um Natal não se faz só com vinhos e peru assado. Faz-se com reflexão sobre essa nossa humanidade combalida e com alegria no coração. Paz, Bem e Feliz Natal, Irmãos!
Paulo Palladini
Leia www. pc.palladini.zip.net
Sempre falo do Natal como a festa da família. Sagrada família. Mas, que família? Pai, mãe, filhos? Ou a grande família: pai, mãe, filhos, avós, tios, primos, netos. Ou ainda com a presença de amigos, vizinhos, colegas de trabalho, irmãos da igreja, companheiros de jornada. Há muitas conformações de famílias, que incluem madrastas e padrastos, e aquelas formadas por dois pais, duas mães. E as sem pai nem mãe. Enfim as combinações são quase infinitas. Há famílias e famílias. Nossa tendência é projetar a idéia da sagrada família para outras instâncias como um bairro, uma cidade. Jesus Cristo, motivo maior para estarmos falando de Natal e família, é o representante do Pai diante do qual todos somos irmãos: formamos uma grande família humana em Cristo. Alguns filósofos pensaram a humanidade como uma só família: diante da humanidade comum a todos, somos irmãos. A humanidade é uma grande família. São Francisco de Assis, mais radical, estendeu a irmandade para além dos humanos, aos seres vivos em geral, animais e vegetais, e também aos demais elementos da natureza: fenômenos físicos e químicos, os astros, o universo inteiro. Daí: irmão pássaro, irmão lobo, irmão sol, irmã lua, irmã árvore, irmã água. Enquanto que a idéia de família atualmente quase que se restringe ao núcleo formado por pai, mãe e filhos (ou filho único), há outros movimentos que abarcam o universo inteiro. Família remete a convivência, proximidade, intimidade, amor. Ora, tem pais que não amam seus filhos, mais freqüentemente não têm intimidade com eles, não conseguem conviver, nem estar próximo. Há filhos que não amam seus pais, ou não suportam conviver com eles. Possuem apenas deveres legais, formais uns para com os outros. No entanto, formam uma família. Pode um arranjo desses ser chamado, verdadeiramente, de família? Se não existe amor para sedimentar as relações entre seus membros, ainda assim isso é uma família? O filósofo Martin Buber considerava dois tipos de relações do ser humano com o mundo: a relação Eu-Tu e relação Eu-Isso. Um humano com outro humano é Eu-Tu, tudo o que exclui o humano é relação Eu-Isso. Contudo há relações entre pessoas que adquirem o caráter Eu-Isso: quando um é objeto para o outro. Pode acontecer dentro de uma família: filhos podem se tornar objetos dos pais e vice-versa. Se, sou tratado como um consumidor de produtos ou serviços, sou um objeto: Isso. As relações humanas podem degenerar para relações Eu-Isso. Para Francisco de Assis não, tudo é Eu-Tu, o outro um igual, um irmão. Seja pessoa, pássaro ou pedra. A reverência, que ele quer observar para todos os seres, queremos também entre nós humanos: através do resgate dos valores autênticos, da ética e da moral, do respeito e da aceitação. Tudo isso exige de nós o exercício cotidiano dessas atitudes, mais ação que falação. Exige a revalorização do caráter autenticamente humano do que somos e do que podemos ser. Um Natal não se faz só com vinhos e peru assado. Faz-se com reflexão sobre essa nossa humanidade combalida e com alegria no coração. Paz, Bem e Feliz Natal, Irmãos!
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