terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Trindade, Francisco e a Nova Criação - Final


5. Trindade, Francisco e a Nova Criação

A ecologia constitui um jogo complexo e completo de relações. Tudo inclui, nada negligencia, tudo valoriza, tudo concatena; essa é a compreensão da Nova Criação! Um modo de estar no mundo ético ou religioso, isto é, parte de que tudo o que existe e merece existir. Todos somos criaturas, temos um laço que nos une, a fraternidade cósmica. Esta visão é o avanço ecológico da compreensão da vida como Nova Criação.A criação visa o equilíbrio entre a vida e a morte. A criação se rege pelo princípio da exuberância da generosidade. Há sempre um equilíbrio entre a vida e a morte e a partir daí buscar o equilíbrio entre todas as coisas.A Nova Criação é uma ecologia mística.Dá uma visão de que todo o universo pertence ao Reino da Trindade. Essa visão de São Francisco, ele sente o mundo confraternizando com o Espírito. Nós temos clareza da encarnação do Espírito, no entanto temos dificuldade de perceber a habitação do Espírito no mundo em todas as coisas. O Espírito arma a sua tenda, então ele habita não só em Maria, mas no mundo, na natureza. “O Espírito dorme na pedra, sonha nas flores, sente nos animais e pensa no ser humano”. Ele é a grande força unificadora de toda a criação. Por isso, nós temos que intensificar esta concepção que nos leva a assumir o mundo não como objeto de nossa dominação, mas como irmão.
O universo constitui um desbordamento dessa diversidade e dessa união. O mundo é assim complexo, diverso, uno, entrelaçado e interconectado, porque é espelho da Trindade! Deus aponta em cada ser, acena em cada relação, irrompe em cada ecossistema, mas principalmente se sacramentaliza na vida de cada pessoa humana, pois nela encontramos a inteligência, a vontade e a sensibilidade como concretização distinta de nossa única e inteira humanidade. Somos uma só vida e comunhão realizadas distintamente, sendo unos e múltiplos em analogia com o mistério do Deus Tri-Uno.Viver a Nova Criação permite-nos o universo com sumo afeto, porque abraçamos o próprio Deus Trindade. Desta experiência nasce uma nova espiritualidade integradora, holística, capaz de unir o céu com a terra. Bem dizia Albert Einstein: “Sustento que o sentimento religioso cósmico é a motivação mais forte e mais nobre da pesquisa científica”. Não só da pesquisa, mas de uma existência aberta, sem medo do corpo e da matéria com seu peso e seu fulgor. O mundo não é apenas ponte para Deus. É o lugar da veneração e a casa do encontro com Deus. Porque isso é verdade, entende-se a afirmação do maior místico do Ocidente Mestre Eckhart: “Se a alma pudesse conhecer a Deus sem o mundo, o mundo jamais teria sido criado”. O mundo e nós dentro dele existimos para propiciar a Deus ter companheiros na sua superabundância e nós podemos ser divinos em nossa criaturabilidade.

Francisco de Assis elaborou toda uma ecologia interior, uma ecologia mística, uma ecologia da mente. Nos seus escritos, orações e hinos percebem-se o entusiasmo e o brilho que o universo produzia na sua experiência do mundo e de Deus. No final da vida, compôs o hino ao Irmão Sol, peça do mais alto êxtase cósmico. Compôs o seu hino, o Cântico ao Irmão Sol, quando já estava cego e extremamente doente. Canta o sol e a lua, o vento e a água, elementos que já não podia ver em sua quase cegueira. Mas estavam no seu interior como símbolos e arquétipos de absoluta integração. O hino celebra o matrimônio cósmico do céu e da terra, do ser humano que está junto com todas as coisas, com o Deus Solar que irradia no fundo de seu coração. Bem escreveu o filósofo Paul Ricoeur: “Eu me auto-expresso ao expressar o mundo e exploro minha própria sacralidade, quando procuro decifrar o mundo”. São Francisco é testemunho desta verdade ecológica.
Nunca se viu no Ocidente tanta suavidade e tanta ternura como Forma de Vida e maneira de integração como em Francisco de Assis. Por isso, ele continua como referencia cultural para todos aqueles que buscam uma Nova Criação. Dante Alighieri o chamou “Sol de Assis” que continua a irradiar até os dias atuais, despertando em nós aquelas potencialidades adormecidas que nos fazem mais sensíveis, solidários e compassivos com todos os seres do cosmo.
Precisamos resgatar a convicção de que o paraíso não se perdeu totalmente e a ele podemos retornar para cumprir a vocação divina testemunhada no gênesis: nosso lugar é a Terra, mãe e amiga, feita jardim do Éden para cultivá-la com carinho e guardá-la com o coração na mão. Essa é a verdadeira ecologia franciscana e trinitária.
A compreensão trinitária de Deus ganha uma surpreendente ilustração a partir da ecologia. O discurso ecológico se estrutura ao redor da relação e da interdependência de todos com todos. Tudo tem a ver com tudo em todos os pontos e em todos os momentos. Nada no universo existe fora da relação. A nova física deixou claro que não podemos falar de partículas elementares, como átomos, núcleos, hadrions, quarks; estes são momentos de densificação de energia. Na nova visão, o universo é concebido como uma teia de eventos sempre inter-retro-relacionados. Todos os fenômenos naturais e culturais estão interligados, de sorte que nenhum pode ser explicado por si sem os outros. Niels Bohr, um dos formuladores da física quântica, dizia: se arranco uma folha de grama no chão faço estremecer a galáxia mais distante, pois ela está também relacionada com a folha de grama.
Agora temos condições de entender o por quê desta conexão universal. É porque todas as coisas são sacramentos da Trindade e da divina pericórese. Reportemo-nos ainda a Santo Agostinho, o grande pensador da Trindade: “cada uma das pessoas divinas está em cada uma das outras e todas em cada uma e cada uma em todas e todas em todas e todas são somente um”. Seguramente nenhum ecólogo moderno diria com mais pertinência a realidade relacional divina e humana do que Agostinho. A Trindade emerge, pois, como a representação mais adequada do mistério íntimo do universo, de sua estrutura e de sua dinâmica. Nesse sentido, a fé na Trindade ganha uma contemporaneidade insuspeitada. Não representa um enigma matemático ou um resquício do paleocristianismo. Ela é a forma mais moderna de se falar de Deus, como comunhão de pessoas, como jogo eterno de relações de vida e de amor, como Trindade de Pai, Filho e Espírito Santo. O campo da ecologia é o campo privilegiado para entendermos Deus-Trindade. Nesse campo, temos a experiência de base necessária para entendermos a completa e absoluta relacionalidade em Deus como Trindade de pessoas divinas.
Se tudo é relação em Deus e no universo, então tudo deve ser inclusivo e relacional nas sociedades, nas igrejas e nos contactos humanos. Tudo deve conservar-se como sistema aberto, capaz de receber e de dar, enriquecendo os outros. Tudo tem conta e tem valor, porque está inserido dentro do jogo infinito das relações de inclusão. Com razão, dizia S. Francisco que ninguém deveria aspirar a nada, mas continuar in plano subsistere, quer dizer, permanecer no chão comum, onde todos se sentem irmãos e irmãs, porque filhos e filhas do Pai e Mãe de infinita bondade.Essa visão trinitária reforça aquilo de que mais precisamos atualmente na nova fase da humanidade, a fase planetária e que era tão essencial para S. Francisco, a solidariedade entre os povos com suas diversidades culturais e religiosas, a comunhão amorosa com a mãe Terra e a irmanação com todos os elementos vivos e inertes da natureza.
Texto de Frei Vitório Mazzuco, OFM, e Leonardo Boff

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Aquele abraço!


Lembra do bordão do Chacrinha, velho guerreiro da comunicação popular? Lembra do apelo da canção do Gilberto Gil? Bons tempos aqueles onde havia o abraço da cultura misturando tropicália, auditório, exílio, ditadura, resistência e um povo se fazendo caminho e encontro! O abraço instaura um momento muito especial e luminoso na existência. O abraço é abandono e confiança. É uma aproximação de história, vida e coração, um puro acolhecimento. Alô, leitor e leitora da Folhinha! Aquele abraço! E hoje eu lembro uma canção mais recente, do Dante Ozzetti, que diz: “Vem me abraçar, vem! Vem reparar bem. Quem é que abraçou quem. Pois vou lhe abraçar também. Quem quer um pedaço. Um pouco de alguém. Abraçando tem. E ainda mais. Se o abraço for além de um minuto. Aí é fatal. Envolveu. Você tem um alguém total!”Aquele abraço!”

Texto publicado hoje, 29/12/2008 na Folhinha do Sagrado Coração de Jesus

quarta-feira, 24 de dezembro de 2008

É Natal


Minhas Amigas e Meus Amigos,
Paz e Bem!


É Natal. Comércio e lojas se entopem de gente. É Natal nos inúmeros arranjos... Muito Papai Noel pouco Menino Jesus. É Natal do marketing e do consumo. Natal rentável. Porém é Natal na Festa da Alegria. A cidade se enfeita, casas se enfeitam e as pessoas são sensivelmente melhores. É Natal nos grupos, nas empresas, nos encerramentos, nas famílias, nos presentes, nos cartões. É um Natal de relações fraternas, com muito mais gestos humanos e menos gestos celebrativos para lembrar o Sagrado. Deus vem Menino porque quis ser um de nós, veio pequeno, fraco, frágil... para ser percebido e acalentado. Não um Deus onipotente, terrível, armado com exércitos. Veio despojado para não impor medos. Deus quis se dar.

O Natal é a festa de acolher Deus que quis se dar. Saiu de si e veio para o nosso jeito. Uma mulher consentiu e um Sim de Amor engravidou a Vida de Emanuel, Deus com a gente! A partir de então, cada Sim de Amor é um Natal acontecendo. Cada Mãe é a humanidade se permitindo que Deus realize maravilhas. Cada criança é um Menino Jesus, uma manifestação de vida e ternura divina.

É Natal nos abraços, nas palavras escolhidas e nas mensagens. É melhor ser melhor, ser muito bom, pelo menos no final do ano. É melhor não profanar a vida, não podemos atentar contra o espírito do Natal. É melhor desejar vida, alegria, felicidade, amor e paz... Ganhamos um presente e ficamos criançamente felizes. No fundo este é o melhor presente que ganhamos: O Menino nos ensina que viver é estar bem pertinho.
Feliz Natal!
Um Ano Novo para não esquecer, cada dia, nossas promessas de Natal!

terça-feira, 23 de dezembro de 2008

NATAL – Ritual dos olhos


Recebi esta mensagem do meu amigo Fábio Paes. Ela é inspirada num texto de Saramago, “Ensaio sobre a cegueira”. Fábio é sensível, visionário e provocador. Não posso guradar esta mensagem só para minha reflexão! Então divido com vocês!


[Dedicado aos diversos natais de miopia, cegueira e morte]

A história do Natal surge como um grito universal de reverência à vida e, diga-se de passagem, de toda e qualquer vida, do verme ao homem que foi a Lua. Na rotina de nossos dias passamos pelas coisas como se fossem meras aparências daquilo que nomeamos como “coisas úteis” e “inúteis”, “necessário” e “desnecessário”, “sagrado” e “profano”, “bom” e “ruim”. Malditas dicotomias necrófilas!

O que é a vida? Eis o grito e expressão de poetas, músicos, filósofos, pensadores e loucos. Sim, loucos, só pensa e se concentra nestas coisas da vida quem não tem nada o que fazer, pelo menos é isto o que dizem. E foi neste cenário de situação, que um homem, chamado de Francisco de Assis, no auge da Idade Média, percebendo a insensibilidade da humanidade frente ao grande valor da existência, criou o presépio. Pegou um burrinho, galinhas, feno, uma criança recém-nascida, convocou a comunidade, camponeses e camponesas, prostitutas e piegas, associações, líderes locais e encenou a assim chamada “noite de natal”.

Um menino pobre, risonho e simples era reverenciado em meio a todo um cenário nostálgico de sensibilidade, beleza e poesia. Causou estranhamento para todos. Por que aquilo? Porque mesmo sem palavras, as pessoas choravam e se deliciavam de admiração? A delicadeza e fragilidade daquela cena, deixava o peito acelerado, prestes a explodir. O óbvio se transforma em extraordinário quando o ser humano silencia, pára e contempla o que está diante de si. Este é o sentido de festa, armar a consciência de enfeites de admiração. O natal não tem segredos e nem necessita de muitas teorias e estratégias de compreensão e não tem nada de sobrenaturalidade, apenas um natural observado, percebido e constatado. O Natal é a máxima plasticidade da rotina, da existência e do óbvio que se equaciona no extraordinário.

Eis que este homem medieval apontava para esta cena e gritava: “Eis que absurdo fantástico e simples! Estão cegos?! Vejam a profundidade daquilo que excluímos na consciência de nossos sentidos”. Para ele, isto se chamava “Deus”, outros chamam isto de “vida”... enfim, o que importa é o feedback que acontece em meio à multidão de alienações do dia-a-dia. Para escândalo de todos, ele continuava de modo aclamativo e jogralesco: “Vejam o contorno do mistério inegável da vida!!!”, e junto com estas palavras derramava lágrimas de admiração. O que ele via? Por que este excesso de comoção e concentração?

Dias se passam, pessoas nascem e pessoas morrem. Alguns são esmagados pela injustiça e excessos de outros. Pisamos em gramas, pisamos em gentes, anulamos egos, matamos de fome, de cultura, de beleza, de reconhecimento e de comida milhares de meninos e meninas, àrvores e rios ... E qual o valor que damos a este ciclo?

Tudo é um mistério belo e precioso, digno de reverência. O jogo entre o banal e o excepcional se mistura e cria a receita de um ritual. Somos feitos de rituais para não deixarmos de ver, nada mais! Por isto, criamos o Natal e outros rituais. Somos seres de memória utilitarista, e esquecemos com facilidade a fatalidade e exuberância da existência. A vida se faz de maneira tão singela e silenciosa que necessita do microscópio da atenção, do bisturi do cuidado e do telescópio da contemplação. Ninguém ainda descobriu a fórmula da vida, e mesmo que descubram existe um início, meio e fim surpreendente e uma aparência para além do que imaginamos.

A vida nos escapa e nos surpreende a cada esquina dos dias. O Natal é o momento que temos de parir a eterna novidade da vida. Nossos olhos se tornam em úteros e nossas mãos em aconchegos do nascido, que muitas vezes abortamos pela insensibilidade. Assim escreve Saramago, em seu livro, “Ensaio sobre a Cegueira”:

“Se podes olhar vê, se podes ver repara!”

Natal é a festa dos olhos diante da realidade que está para além dos cenários dos shoppings, avenidas e dos enfeites de nossas portas, mas sim, a realidade esquecida e periférica de nossos dias. Nada mais e nem menos, nem tão longe e nem tão perto, depende de como se vê.

Fábio José Garcia Paes, míope, mas de óculos.

segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

A Trindade, Francisco e a nova criação - 14


4. Um mistério de comunhão: a pericórese
Na comunidade dos Atos, os cristãos se amavam tanto que formavam um só coração e uma só alma (At 4,32). Se lá o amor constituía tão forte comunidade, como não deve ser com a Trindade! Santo Agostinho, comentando tal fato, escreveu: “O amor em Deus é tanto que impede a desigualdade e cria a igualdade inteira. Se na terra e nos homens pode haver tanto amor a ponto de muitas almas fazerem-se uma só, como não existiria também tal amor entre o Pai e o Filho e o Espírito Santo já que são sempre inseparáveis e, assim, serem um só Deus? Lá, nas muitas almas, fizeram-se uma só por uma inefável e suprema conjunção: aqui, igualmente e pela mesma razão, as pessoas divinas se fizeram não três deuses, mas um único Deus”. Ou como diz Alexandre de Hales, um dos Mestres medievais da Escola Franciscana: “À pergunta donde provém a pluralidade de pessoas em Deus, eu penso se deva responder que ela deriva da perfeição, do poder, da bondade e da capacidade. Querendo, todavia, precisar o assunto, conforme nosso modo de compreender, deve-se dizer que a raiz da pluralidade de pessoa em Deus encontra-se, acima de tudo, em sua bondade. De fato, o esplendor e a perfeição do bem se manifestam no ato de se comunicar. Mas cada comunicação sempre se dirige de um sujeito a outro sujeito. Disto segue que onde há comunhão há sempre dois ou mais sujeitos e, por conseqüência, multiplicação e número. A Suma Bondade é, pois, de certo modo, a causa principal de tal pluralidade de pessoas em Deus”.
O que constitui a união entre as divinas pessoas é a ininterrupta e infinita interpretação do Pai, do Filho e do Espírito Santo num jogo sem fim de amor e de recíproca entrega.
Nós preferimos essa última linha de pensamento, pois é mais adequada para expressar a singularidade da fé cristã em Deus, sempre comunhão de pessoas divinas, porque recolhe a experiência trinitária de S. Francisco que sempre partia da Trindade e porque responde às demandas de nossa cultura individualista e às exigências de justiça dos pobres que sonham com inclusão, participação e comunhão.
Essa comunhão que produz união é específica das pessoas e dos seres espirituais. Somente pessoas, diferentes uma das outras, podem estabelecer relações de intimidade e de amor e podem criar comunhão entre elas. Se estas pessoas são eternas e infinitas, sua comunhão é também infinita e eterna. Essa compreensão processual e pessoal impede que os três sejam considerados cada um por si Deus e com isso se caia no triteísmo (concepção substancialista e não relacional). Os divinos três são únicos e irredutíveis, mas desde sempre e para sempre inter-relacionados. São sempre concomitantes de sorte que, ao famoso ioque, deve-se acrescentar o Spirituque e o Patreque. Em outras palavras: o Pai se revela através do Filho no Espírito. O Filho revela o Pai na força do Espírito. O Espírito é o Sopro do Pai voltado para o Filho. Como se depreende as relações são sempre ternárias: onde está uma pessoa estão sempre as outras.

Ampliando:
A vida da Trindade e das primeiras comunidades são caracterizadas pela união entre as pessoas num jogo sem fim de amor e de recíproca entrega. Hoje, percebemos diferentes máscaras em nosso comunicar, revelar e se entregar. Por que isso ocorre?
Imagem: Trindade no Altar-mor do Santuário Santo Antônio do Valongo - Santos
Texto de Frei Vitório Mazzuco, OFM, e Leonardo Boff - continua amanhã

Oração do Pastor Joe Wright


Quando pediram para o ministro Joe Wright abrir a nova sessão do Senado de Kansas, todos estavam esperando o tradicional discurso, mas isso foi o que eles ouviram:

Pai celeste, nós estamos diante de Ti hoje para pedir Seu perdão e para buscar Sua direção e liderança. Nós sabemos que Sua palavra diz, "Cuidado comaqueles que chamam o mal de bem", mas isto é exatamente o que temos feito.
Nós perdemos nosso equilíbrio espiritual e revertemos nossos valores. Nós exploramos os pobres e chamamos isso de loteria.
Nós recompensamos preguiça e chamamos isso de bem-estar.
Nós cometemos aborto e chamamos isso de escolha.
Nós matamos os que são a favor do aborto e chamamos de justificável.
Nós negligenciamos a disciplina de nossos filhos e chamamos isso deconstrução de auto-estima.
Nós abusamos do poder e chamamos isso de política.
Nós invejamos as coisas dos outros e chamamos isso de ambição.
Nós poluímos o ar com coisas profanas e pornografia e chamamos isso deliberdade de expressão.
Nós ridicularizamos os valores dos nossos antepassados e chamamos isso de iluminismo.
Sonda-nos, oh, Deus, e conhece os nossos corações hoje; nos limpa de todopecado e nos liberta.
Amém!

sexta-feira, 19 de dezembro de 2008

A Trindade, Francisco e a nova criação – 13


Talvez uma representação concreta e de cunho popular nos facilite a compreensão de pericórese trinitária. Em fins de julho de 1986, realizou-se o VI Encontro Intereclesial de Comunidades Eclesiais de Base na cidadezinha de Trindade, Goiás. Nos fundos do local do encontro havia em enorme painel onde se lia: “A Santíssima Trindade é a melhor comunidade”. Representava-se a SS. Trindade da seguinte forma: apareciam as duas mãos do Pai, das quais saía em forma de pomba o Espírito Santo que, por sua vez, repousava sobre a cabeça do Filho, Jesus Cristo. Este, erguendo os braços, tocava as mãos do Pai. Agarrados aos seus ombros, à esquerda e à direita, havia representantes do povo e dos movimentos populares como a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Conselho Indigenista Missionário (CIMI), as Comunidades Eclesiais de Base (CEBs) e outros. Com isso se queria significar: existe a comunhão humana feita de participação e de comunhão de todos entre si e com a Trindade. Os divinos três são distintos e irredutíveis. Um não é o outro. Mas ninguém se afirma em exclusão do outro. Cada pessoa divina se afirma, afirmando a outra e se entregando totalmente a ela. As pessoas são distintas para poderem se entregar umas às outras e estarem em comunhão.
Ampliando:
1) Como aplicar criativamente a reflexão trinitária a estas afirmativas?
a) “A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam”.
b) “A SS. Trindade e, pois, um mistério de inclusão que impede de entendermos uma pessoa sem as outras”.

Imagem: Santuário de Trindade, em Goiás

Texto de Frei Vitório Mazzuco, OFM, e Leonardo Boff
Amanhã, continua com o subtítulo “4. Um mistério de comunhão: a pericórese”

quinta-feira, 18 de dezembro de 2008

A Trindade, Francisco e a nova criação - 12


Continuação do subtítulo Caminhos da reflexão teológica
Mas como se há de entender a comunhão das pessoas divinas? Essa tendência se obriga a construir uma categoria que funcione como chave da compreensão radicalmente trinitária de Deus que, por um lado, supera o simples monoteísmo da tradição abraâmica (judaísmo e muçulmanismo) e, por outro, evita o politeísmo na forma de triteísmo (Pai, Filho e Espírito Santo como três deuses). Essa categoria se chama pericórese, divulgada pelos teólogos da Ortodoxia, especialmente a partir de S. João Damasceno (morreu em 750). Como não existe tradução adequada para esta palavra (os medievais usavam circumincessão e circuminsessão; pericórese quer dizer: circularidade e inclusão de todas as relações e de todos os seres relacionados. Relação de mútua presença e interpenetração entre Deus e o Universo ou entre as Três Pessoas Divinas entre si e com toda criação) a utilizamos assim em português. O sentido é sinalizar a inter-retro-relação que as divinas pessoas guardam entre si. Todas se interpenetram reciprocamente, como bem o formulou em 1441 o Concílio de Florença: “O Pai está todo no Filho, todo no Espírito Santo. O Filho está todo no Pai e todo no Espírito Santo. O Espírito Santo está todo no Pai e todo no Filho. Ninguém precede a outro em eternidade ou o excede em grandeza ou sobrepuja em poder”. A SS. Trindade é, pois, um mistério de inclusão que impede de entendermos uma pessoa sem as outras. Elas surgem eternamente de modo simultâneo. Deus é Trindade desde sempre. Não é primeiro uno e depois se desdobra em trino como dão a impressão as duas tendências referidas acima, a latina (unidade da natureza divina) e a grega (unidade da pessoa do Pai).
Texto de Frei Vitório Mazzuco, OFM, e Leonardo Boff

Continua amanhã com este subtítulo “Caminhos da reflexão teológica”

quarta-feira, 17 de dezembro de 2008

A Trindade, Francisco e a nova criação - 11


3. Continuação do subtítulo "Caminhos da reflexão teológica"
Cristãos vindos da cultura médio-oriental grega denominada pela concepção monárquica absoluta e, em conseqüência, por um estrito monoteísmo a ponto de terem dificuldade de admitir Jesus como Deus encarnado e Filho de Deus, sentiam a urgência de enfatizar a trindade das Pessoas e, a partir, daí compreender a unidade divina. Também eles partiam do credo que reza: “creio em Deus Pai todo-poderoso”. Sublinhavam mais a idéia de Pai que a de Deus. E diziam o Pai é cheio de vida, de inteligência e de amor. Ao expressar-se a si mesmo profere a Palavra reveladora de sua natureza paterna. É o Filho do Pai. Ao proferir a Palavra, o Pai emite, simultaneamente, o sopro que carrega esta Palavra. É o Espírito Santo, espirado pelo Pai junto com o Filho. O Pai, portanto, comunica toda sua natureza e substância de forma diferente (senão teria dois filhos), de tal sorte que Filho e Espírito Santo são consubstanciais ao Pai e, por isso, são Deus. Num ambiente de ausência de comunhão onde campeiam as desigualdades e o individualismo desenfreado, os cristãos são levados, naturalmente, a sublinhar as três pessoas divinas em comunhão e iguais em eternidade e em infinitude. As relações entre elas é tão absoluta e completa, a comunhão entre as três divinas pessoas é tão suprema que formam um único Deus cheio de vida, de amor e extravasão de si.


Texto de Frei Vitório Mazzuco, ofm e Leonardo Boff

Imagem de Andrei Rublev

Amanhã, continuação deste subtítulo "Caminhos da reflexão teológica"

terça-feira, 16 de dezembro de 2008

A Trindade, Francisco e a nova criação -10


3. Caminhos da reflexão teológica

Este dados seminais foram sistematizados pela reflexão cristã durante os primeiros séculos. Como entender minimamente haver três pessoas divinas sem com isso triplicar Deus? Como conciliar a trindade de pessoas com a unicidade de um único Deus? Como em todas as coisas, também aqui, na reflexão trinitária, a cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. Situações culturais e sociais condicionam as formas de sistematização, todas elas insuficientes face à riqueza contida na realidade da comunhão das divinas pessoas.Cristãos vindos do paganismo, principalmente os romanos, confrontavam-se com a necessidade de superar o politeísmo reinante. Urgia enfatizar a fé num único Deus. Neste contexto pregar, sem maiores explicações, sempre difíceis, a fé na SS. Trindade era dar a impressão de continuar no mesmo politeísmo, apenas reduzido a três deuses. Para manter a concepção trinitária de Deus e obviar o politeísmo, sistematizavam assim sua fé em três divinas pessoas: importa partir da unidade; o credo nos orienta a isso, mandando-nos professar: “creio em Deus, Pai todo-poderoso”. Essa unidade é a natureza divina única. Essa natureza, entretanto, é viva, dinâmica e espiritual. Quando se mostra como origem de tudo, eterna, sem princípio e sem fim, se chama Deus-Pai. Quando se volta sobre si mesmo, se autoconhece e projeta uma imagem de si mesma, se chama Deus-Filho. Quando Deus-Pai e Deus-Filho se voltam um para o outro, se conhecem e se amam, emerge também uma imagem de união e comunhão que é o Deus-Espírito Santo. Temos, pois, três Pessoas que realizam o único Deus vivo, dinâmico, espiritual e eterno.


Texto de Frei Vitório Mazzuco, OFM, e Leonardo Boff
Amanhã, continuação do subtítulo “Caminhos da reflexão teológica

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

A Trindade, Francisco e a nova criação - 9


Continuação do subtítulo “Como se deu a revelação da SS. Trindade” – 9ª parte

Por fim, em Jesus se dá também a revelação do Espírito Santo. Ela ocorre na própria vida e na prática de Jesus. Ele é mais que um portador privilegiado do Espírito. O Espírito habita Jesus de forma permanente como aquela força que o leva a falar com autoridade (exousía) e a operar milagres. Essa força (dynamis) surpreende a todos porque está em Jesus, sai dele (Mc 5,30).O texto clássico da revelação da Santíssima Trindade por Jesus é sua palavra de despedida em S. Mateus: “Ide, pois, fazei discípulos meus todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (28,19). Por mais claro que seja, opinam os estudiosos que esta fórmula é tardia, pois recolhe a experiência batismal da comunidade primitiva, no tempo em que foi escrito o evangelho por S. Mateus, por volta do ano 85 de nossa era. Ele havia meditado muito sobre a vida e as palavras de Jesus. Disso compreendeu que Jesus nos havia, de fato, revelado quem é Deus, quer dizer, a Santíssima Trindade, e que em nome deste Deus-Trindade deveriam ser batizados os que nele crêem. Jesus está na origem desta fórmula eclesial.
Ampliando:
1) Constatamos que os efeitos pós-modernidade invadiram as nossas fraternidades, dificultando a vivência comunitária (Trinitária)
2) Você já fez uma experiência de comunhão em sua vida pessoal e de fraternidade? Em que momento?

Texto de Frei Vitório Mazzuco, OFM, e Leonardo Boff
Amanhã, continuação com o subtítulo “Caminhos da reflexão teológica”

sexta-feira, 5 de dezembro de 2008

O Mestre Leonardo faz 70 anos!

Fiz por seis anos os estudos de Teologia com ele. Aprendi a admirá-lo como pessoa simples e sábia, coração franciscano, apaixonado pela vida, pelo povo, pelo universo e seus cuidados. Ele ensinou-me que ter fé é humanizar a vida, que não basta estudar teologia, mas é preciso ser teólogo. Ele continua presente com seu ensinamento profético, e em nenhum momento passa indiferente diante das realidades da fome, do empobrecimento, da exploração, da exclusão, os crimes ambientais. Sua presença, seus livros e palestras são sempre um grito de alerta, despertadores de consciência. Sua palavra e reflexão suscita debates, rejeições, acolhida, críticas e entusiasmo, porém nos ajuda a olhar a realidade com o pé no chão.
Ele fez da teologia um acontecimento e um fenômeno público, fala da fé mas também fala sobre a realidade social, a justiça, paz e integridade da criação. Uma teologia que não quer compactuar da iniqüidade. Uma teologia que nos ensinou a olhar para o alto e encontrarmos Deus; olhar para o lado e redescobrir a relações fraternas; olhar para baixo e perceber os ofendidos da história. Na sua matriz franciscana mostrou que a teologia deve mudar e transformar a história com os meios do Evangelho. O Mestre Leonardo representa um bom momento de uma Igreja e eclesiologia envolvida com o processo histórico de um povo e de um continente. Mostrou para nós uma verdadeira teologia, que tem atrás de si a Humanidade e não apenas bibliotecas e academias. Uma teologia que mexeu com a nossa fé e com os nossos compromissos genuinamente cristãos. Mestre Leonardo fala sempre sobre realidades extremamente conflitivas, por isto é amado e contestado ao mesmo tempo; contudo revela para nós que fé verdadeira tem que passar pelo filtro da solidariedade, pela denúncia da exploração da grande massa dos injustiçados e põe o dedo na acumulação escandalosa da riqueza em poucas mãos. Por estar apaixonado pelo cerne do Evangelho parte das angústias e aspirações dos pobres e pede a conversão das estruturas (o que aliás ocupou um lugar privilegiado na pregação de Jesus).
Mestre Leonardo continua viajando pelo mundo falando pelos que não podem falar ou são silenciados, consciência das consciências e convite às práticas libertadoras, diz serenamente e convictamente que é preciso conhecer, avaliar, analisar, saber, ir ver para transformar! São 70 anos vividos com intensidade e plenitude. O corpo pode ter lá seus limites, mas a força do olhar e das palavras continuam nos rejuvenescendo! Parabéns!
Seu ex-aluno mas sempre discípulo.

Amanhã continua o texto sobre a SS Trindade.

quinta-feira, 4 de dezembro de 2008

3. Como se deu a revelação da SS. Trindade - 8ª parte

Em primeiro lugar Jesus revela a pessoa do Pai. Sempre que se refere a Deus, denomina-o de Abba, expressão tirada da linguagem infantil. E esse Pai é cheio de bondade e misericórdia, pois ama a todos, até “os ingratos e maus” (Lc 6,35).Quem designa a Deus de Pai é porque se sente seu filho de verdade (cf. Mt 11,25-27; Mc 12,1-9; 13,32). Um dos títulos reveladores da consciência de Jesus é exatamente esse de filho em sentido absoluto. O Filho possui mesma natureza do Pai. Assim, ele pôde dizer: “eu e o Pai somos uma mesma coisa” (Jo 10,30). Os judeus logo captaram essa identificação acusando Jesus: “ele se faz igual a Deus”(Jo 5,18). Pedro, ao invés, vê aí a grande revelação e a proclama em seu ato de fé: “tu és o Cristo, o Filho de Deus vivo” (Mt 16,16). Não sem razão o céu mesmo o testifica: “esse é o meu Filho amado em quem ponho todo o meu carinho” (Mt 3,17; 17,5).

Texto de Frei Vitório Mazzuco, OFM, e Leonardo Boff

Continua amanhã com a parte final deste subtítulo “2. Como se deu a revelação da SS. Trindade”

quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

3. Como se deu a revelação da SS. Trindade - 7ª parte

Antes de mais nada, como se revelou a SS. Trindade? Há dois caminhos a serem considerados: o caminho da história e o caminho da palavra. O caminho da história é o mais amplo e geral. Deus-Trindade vai se entregando a si mesmo na medida em que a história da criação se desenvolve e avança; surgem ordens cada vez mais diversas e organizadas como expressões do único processo evolucionário. No nível vivo e humano, sempre que surgem formas cooperativas e sinergéticas, laços de solidariedade e de comunhão, aí está o Deus-Trindade em ação. Essa revelação está ainda em curso, porque a criação em evolução não se concluiu.O outro caminho é o da palavra: na consciência da humanidade foi surgindo reflexamente a percepção de que Deus é uma realidade complexa, que é vida e amor. Tais realidades expressam o caráter comunional de Deus. Essa percepção encontrou uma culminância na vida, história e destino de Jesus de Nazaré. Com razão, os cristãos consideram Jesus como o grande revelador da essência íntima de Deus, da SS. Trindade. Não tanto porque tivesse encontrado formulações trinitárias, mas porque em sua prática e na forma como se comunicava aparecia aquilo que chamamos como a revelação do Deus Trindade.

Texto de Frei Vitório Mazzuco, OFM, e Leonardo Boff

Continua amanhã com o subtítulo “2. Como se deu a revelação da SS. Trindade” – 2ª parte

terça-feira, 2 de dezembro de 2008

1. A experiência trinitária de S. Francisco – Parte 6


Francisco que criou, inspirado na Trindade, as três Ordens, que restaurou três igrejas em Assis, que não se cansava de inserir a invocação intratrinitária “Glória ao Pai, ao Filho e ao Espírito Santo” em seus escritos e orações, ajude-nos a reencontrar este sopro trinitário de vida que transforma todos os relacionamentos e nos dá uma plena comunhão de vida. “Não é Trindade puro mistério da fé, que se aceita e se venera, mas o Grande Mistério da Vida Divina, com seu dinamismo salvífico que junta céu e terra, eternidade e tempo, no diálogo de Amor”(Pilonetto, A. “Francisco de Assis 750 anos depois”, Cefepal – 16, 1978, 54). O Santo, um apaixonado venerador da Trindade, um “cultor Trinitatis”, como comunhão fraterna.Dizer que Deus é comunhão de pessoas significa admitir que existe diversidade em Deus. E que a diversidade se ordena à comunhão e à participação. As Pessoas são diversas para poderem estar juntas, uma se comunicando com a outra e formando entre si uma única realidade aberta e infinita. A própria estrutura do universo e de cada coisa, assim nos dizem cosmólogos contemporâneos, se realiza dentro de um jogo de relações e de ininterruptas inclusões; para um cristão essa verificação não surpreende, pois ela é reflexo da realidade comunional do Deus-Trindade. Vejamos, rapidamente, como a reflexão atual coloca a questão da Trindade.
Ampliando:
1. Faça a experiência da comunhão com a Trindade à luz do texto “A Carta aos Fiéis – Segunda recensão, 1 a 15, expressando-a de uma maneira criativa.
2. Retire do texto frases que mais falem a você sobre a Trindade. Partilhe com o grupo.

Texto de Frei Vitório Mazzuco, OFM, e Leonardo Boff

Continua amanhã com o subtítulo “2. Como se deu a revelação da SS. Trindade” . Imagem "Francisco", de Murilo.

segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

1. A experiência trinitária de S. Francisco – Parte 5


A Palavra Santa é palavra que brota da Trindade: “fiz o propósito de comunicar-vos por meio das presentes letras e de mensageiros as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a Palavra do Pai, bem como as palavras do Espírito Santo, que são “espírito e vida” (2Carta aos Fiéis, 3).A Trindade brota como a respiração da sua alma e da sua fé: “Tu és Trino e Uno, Senhor Deus, todo o Bem, Tu és bom, Tu és o Bem, todo o Bem, o soberano Bem, Senhor Deus, vivo e verdadeiro”(BLe 3).
Em Francisco a Trindade é uma verdadeira liturgia: “O Deus trinitário constitui verdadeiramente, na opinião de Francisco, a plenitude da felicidade do homem. Toda a vida humana culmina simbolicamente nessa maravilhosa oração que encerra o último capítulo da Regra Não-Bulada (Rnb 23) e constitui como uma liturgia viva à Glória do Deus Trino. Faz lembrar os imensos cortejos luminosos das igrejas orientais, em que toda a humanidade já tivesse sido transfigurada pela incandescência da Trindade Viva (Rnb 23,6-7). A sua visão de fé transforma-se num canto lírico. A errupção do Amor faz-lhe precipitar e repetir as palavras, acumulando-as e fundindo-as nesse vulcão ardente do Deus Vivo (Rnb 23,11). A oração de Francisco transforma-se, como na tradição oriental, em liturgia celeste. O seu coração torna-se o verdadeiro santuário da Santíssima Trindade onde ele celebra o Deus Vivo. A habitação da Trindade no coração do humano constitui para ele, verdadeiramente, o fim de toda oração, de toda missão, de toda a vida e de toda a vida de Penitência”( Michel Hubaut, OFM, A espiritualidade de Francisco de Assis, Editorial Franciscana, Braga, 1993, 77-78).

Texto de Frei Vitório Mazzuco, OFM, e Leonardo Boff

Imagem: "Francisco em Oração", de Caravaggio. Este tema continua amanhã na parte 5

sexta-feira, 28 de novembro de 2008

2. A experiência trinitária de S. Francisco – Parte 4

Com uma vida de intensa comunhão com o divino e com tudo o que existe, Francisco desenvolve sua atividade num clima trinitário. Seus biógrafos contam-nos que abre simbolicamente por três vezes o Evangelho para saber a vontade de Deus (TC 29; LM 13,2).
Na pregação e na missão a doxologia é sempre trinitária (LM 9,8, Rnb 16,9; 21,1-2; 23,11). O Deus Trino e Uno é “mais desejável que qualquer outro bem”(Carta à Ordem 50-52).
Na compreensão de Francisco, a Trindade é criadora e faz parte do plano constante de salvar a vida e a história. A Trindade aperfeiçoa e diviniza o humano: “damo-vos graças por causa de vós mesmo, porque por vossa santa vontade e pelo vosso único Filho criastes no Espírito Santo todos os seres espirituais e corporais, nos fizestes à vossa imagem e semelhança e nos colocastes no paraíso” (Rnb 23,1).
Maria é a obra-prima do humano-feminino = “Santa Virgem Maria, não há mulher nascida no mundo semelhante a Vós, filha e serva do altíssimo Rei e Pai celestial, Mãe de nosso santíssimo Senhor Jesus Cristo, esposa do Espírito Santo (Antífona do Ofício da Paixão). Maria foi “eleita pelo santíssimo Pai celestial, que vos consagrou por seu santíssimo e dileto Filho e o Espírito Santo Paráclito!” (SMD 2).

Texto de Frei Vitório Mazzuco, OFM, e Leonardo Boff

Este tema continua amanhã na parte 5

quinta-feira, 27 de novembro de 2008

A experiência trinitária de S. Francisco – Parte 3

São Francisco nos ajuda a superar aquilo que é a maior desventura da teologia cristã: a amnésia da experiência trinitária. Com isso se deixou de colocar como eixo da vida, da Igreja, da sociedade e da compreensão do mundo aquilo que é conteúdo real, escondido sob expressão Trindade: a comunhão, da relação em todas as direções, a troca e a unidade na diversidade. Em seu lugar predominou e continua predominando uma visão monoteísta, da unidade sem a diversidade, da solidão do uno, da piramidalização das relações e da submissão de todos a um único princípio. Perdeu-se o caráter revolucionário presente na fé em Deus-comunhão-de-pessoas, diferentes na unidade e unidas na diversidade. O revolucionário reside na afirmação de que no princípio está a comunhão dos divinos Três e não a solidão do uno.Se assim é, então em tudo deve prevalecer a comunhão, o respeito pelas diferenças e busca da convergência na diversidade. O que vemos na história e nas Igrejas é a prevalência do princípio do centralismo numa única pessoa e na subordinação das demais. Em outras palavras, subjaz a esse tipo de organização o velho monoteísmo pré-trinitário; ele funciona como legitimação ideológica de todos os autoritarismos como bem o formulou Gengis Kahn ao escrever em seu selo: “um só Deus no céu e um só senhor na terra, seu representante, Gengis Kahn”. Uma efetiva fé no Deus-Trindade = comunhão-de-pessoas impossibilitaria semelhantes formulações.À luz desta constatação ressalta como altamente inspirador o que proclamou João Paulo II, na América Latina, em Puebla, no dia 28 de janeiro de 1979, diante da assembléia geral dos bispos do Celam, ao ensinar que a essência íntima de Deus não é a solidão, mas a comunhão, porque Deus é família, é Pai, Filho e Espírito Santo. Estimo que esta afirmação constitui o ponto alto de todo o magistério do Papa Wojtila. Voltemos à experiência de Francisco.

Texto de Frei Vitório Mazzuco, OFM, e Leonardo Boff

Este tema continua amanhã na parte IV

quarta-feira, 26 de novembro de 2008

1. A experiência trinitária de S. Francisco – Parte 2

Com efeito, em seus poucos escritos se nota uma perspectiva trinitária extremamente coerente. Quer dizer, não fica preso ao linguajar do monoteísmo pré-trinitário que fala simplesmente de Deus, comum nos discursos dominantes. Ele sempre qualifica sua fala em termos trinitários, Pai, Filho e Espírito Santo. Isso se nota em seus escritos como Admoestação nº 1, nas Orações de Louvor a serem recitadas em todas as Horas Canônicas, na Regra Não-Bulada e na Regra Bulada. Mais ainda, faz uma opção, certamente inconsciente, mas de grande profundidade teológica: estabelece uma certa ordem em seu discurso ou fala de três pessoas, Pai, Filho e Espírito Santo, ou então começa sempre pela Trindade e daí deriva para a unidade (cf. Regra Não Bulada 21, 1; 16; 23, 32.36; 2Carta aos Fiéis 3; 3Carta 1,52; Pai Nosso 17) com expressões como essa “adorai o Senhor Deus todo-poderoso, em Trindade e Unidade”( Regra Não Bulada 21,2); ou “em nome da suprema Trindade e da santa Unidade do Pai, do Filho e do Espírito Santo” (3Carta aos Fiéis, 1). Com isso, Francisco se coloca no coração da experiência cristã de Deus, experiência de comunhão entre divinas pessoas. Essa experiência nunca teve muita centralidade na teologia escolar e na piedade comum dos fiéis.Se ele vê a criação como a grande casa paterna e materna de Deus e todos os seres como irmãos e irmãs da grande família divina, se percebe laços de fraternura e de consangüinidade entre todos os elementos cósmicos, é porque está sob singular influxo de uma experiência trinitária e comunional de Deus. Ele não precisa falar conscientemente sobre a Trindade. Ele é tão unido à realidade divina que é Trindade que esta se auto-revela no concreto de sua vida e de seu modo de sentir o mundo. Daí a importância da vida de S. Francisco que se transforma num texto teológico a ser lido, interpretado, desdobrado e traduzido para o enriquecimento da vida cristã e humana.

Texto de Frei Vitório Mazzuco, OFM, e Leonardo Boff

Este tema continua amanhã na parte III

terça-feira, 25 de novembro de 2008

A Trindade, Francisco e a nova criação - 1ª parte

São Francisco não foi um teólogo, mas viveu uma vida teologal de grande densidade. Transformou-se no que foi, porque criou espaço dentro de si à realidade divina, para que, através dele, se manifestasse assim como ela é. Se Deus é comunhão de divinas pessoas num infinito jogo de inter-retro-relações de vida e de amor, então essa realidade comunional encontrou em São Francisco, na sua prática e nos seus gestos concretos, um lugar privilegiado de expressão.
São Francisco não foi um clérigo letrado que faz um tratado daquilo que crê, mas um humano enamorado pelo divino que gerou um cristianismo de sedução. Não basta seguir o Senhor, tem que se apaixonar por Ele! Em Francisco irrompe um jeito terno e fraterno de compreender Deus como comunidade, um conglobante mistério que unifica sua vida e o faz perceber a Trindade viva em tudo o que existe: olha o Filho numa relação íntima com o Pai e numa abertura total ao Espírito, uma relação interpessoal, viva, transbordante.

Questionamento para aprofundamento do texto
1) Somente o cristianismo possui a fé no Deus Trino. Por quê?
2) Você já identificou como se revela a expressão da Trindade na obra da criação? Onde? Como?
3) Como se explica o alcance da experiência trinitária de Francisco?

Texto de Frei Vitório Mazzuco, OFM, e Leonardo Boff

Amanhã, “A experiência trinitária de S. Francisco”

terça-feira, 4 de novembro de 2008

Pluralidade cultural e religiosa - II


Ter uma espiritualidade sólida, cristã e franciscana dá consistência ao caminho. Hoje, muita gente agarra tudo e se faz um franco atirador... pega tudo o que vem e não leva nada com profundidade. O nosso modo de viver muda na medida em que vamos conquistando uma medida de valores. Ir à boate, barzinho, balada, etc não é ruim; a questão é o modo transparente de como se está ali. Hoje há uma queda na qualidade dos relacionamentos porque pouco se investe na qualidade do humano, e cria-se um vazio existencial, uma superficialidade muito grande. Você não deve deixar de estar num lugar onde pessoas do seu ciclo de relacionamentos estão. Mas você tem que ter um diferencial. Você não precisa ser melhor ou pior que ninguém, você tem que ser é especial, único, alguém que é uma fonte de valores que servem de parâmetros para que os outros melhorem o nível da própria vida. Na qualidade de nossas relações há uma revelação. Amar é perceber alguém. Se você dá o melhor, pessoas mudam. Vejo, sou... logo existo!

 Voltando à questão  do yoga... Não sou um especialista no assunto, mas a minha área de atuação como teólogo é a Teologia Espiritual, e, necessariamente, tenho que saber um pouco. O hinduísmo é uma escola de espiritualidade. O  Yoga não é uma religião; mas pode nos ajudar a dinamizar uma experiência religiosa. O yoga faz parte de métodos que ajudam a educação integral do humano. Assim como a Meditação Cristã (os Beneditinos divulgam muito esta Meditação...) também. Para o yoga, a saúde é um dever moral e para o cristianismo a saúde é um dever religioso. É o domínio das nossas resistências orgânicas e nervosas, o auto-controle emocional, a concentração mental, transformar as nossas forças psico-afetivas em forças mentais e espirituais. Não reprimir, mas sublimar. Levar à iluminação e à contemplação... São métodos milenares que estão também nas buscas dos Mestres do Espírito. Jesus também recolhia-se em momentos e lugares de quietude e concentração.

O yoga entrou no cristianismo com o Pe. Dechannet, um dominicano, que escreveu aos católicos para que fossem um iogue de Cristo, e que usassem estas práticas para viver mais intensamente as virtudes teologais: Fé, Esperança e Caridade. Tudo é uma questão de discernimento. No cristianismo precisamos também de disciplina para buscar a perfeição espiritual. O próprio cristianismo fala das Três Vias: Purgativa, Iluminativa e  Unitiva... que na Índia já pertenciam  aos exercícios dos  sádhanas. É um encontro cultural e espiritual entre Oriente e Ocidente. Santo Agostinho fala no seu clássico livro Confissões: “Percorri ruas e praças deste mundo, buscando-Te sempre... e não Te encontrava porque em vão procurava no exterior aquilo que estava dentro de mim”. O poeta-místico hindu Kabir diz: ”Se expulsas Deus fora de ti, o que adoras é a distância”. O yoga já ajudou muito neste encontro de convicções entre o oriente e ocidente. Por caminhos diferentes todos estão na mesma busca.

Quando não se conhece uma experiência diferente, uma religião protege-se contra o diferente refugiando-se em seus dogmas. Hoje, o mundo mudou muito e a Igreja tem que acompanhar também estas mudanças que mexem muito em conceitos teológicos e filosóficos. O grande objeto da mística e da ascese cristã é a perfeição do humano. Isto se dá no natural e no sobrenatural. O natural é cuidar bem e desenvolver os bens que recebeu de Deus: o corpo e suas potencialidades. O humano precisa para isto da medicina, da psicologia, da filosofia, da nutrição, da higiene, da arte. O sobrenatural é cuidar do espírito e acreditar na Graça de Deus, na ação encarnada de Jesus Cristo na história, a sede de transcendência... para isto o humano precisa da espiritualidade e das religiões. Não dá para separar as duas coisas... somos naturais e sobrenaturais ao mesmo tempo. Esta é a união da alma com Deus. A religião ajuda a cuidar do espírito, o yoga ajuda a cuidar da personalidade. O humano sozinho não consegue nada, mas com ajuda de Deus e de exercício concretos na sua existência chega à uma superação.

 Não basta apenas buscar uma vida de piedade se não há controle sobre a vida instintiva, mental e emocional. Hoje, nós temos muita gente que se arvora em estado de santidade, mas  tem problemas emocionais não equilibrados... é preciso encontrar um equilíbrio nisto tudo! Saúde e santidade não se separam. Muitos cristãos têm dificuldade em concentrar-se para meditações, orações mentais e silêncio interior. A nossa liturgia e a nossa oração são por demais barulhentas. A dificuldade vem da incapacidade de se concentrar. É preciso haver um encontro entre a piedade e a mente. É preciso encontrar uma prática eficiente da vida cristã. Não preciso abrir mão de minha fé, mas posso ter a liberdade de buscar outros métodos. O yoga não  dá a fé, mas dá o método para chegar lá... assim como uma Igreja Católica não lhe dá um  cristianismo, é Jesus quem dá....a Igreja é Mediadora de uma Grande Busca.

 

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Descascar abacaxi


Usamos esta expressão para dizer que superamos dificuldades juntos ou sozinhos. O que o abacaxi tem com isso? Porque é cascudo por fora? Tem casca grossa e talo serrilhado com espinhos? Não podemos cometer esta injustiça! Temos que descascar abacaxi, sim!  Por detrás desta aparência é só doçura! Existe sempre um fim saboroso quando superamos desafios! Temos que ver a vida com seu gosto, com sua vibração, com sua alegria, com sua emoção. Tem sempre alguém preocupado com o nosso bem-estar que entrega um pedaço de fruta já descascada para a gente degustar; são os que facilitam a nossa vida. São os que tiram as dificuldades, descomplicam, fazem com tranquilidade os mais belos e escondidos gestos de  amor. Chegam até nós e dizem: eu ofereço os pedaços mais doces do abacaxi!
Este texto foi publicado na Folhinha, no último dia 27 de outubro.

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Pluralidade cultural e religiosa


Este texto foi escrito a propósito de uma carta questionando um texto sobre a prática do yoga no site "Ecologia &Espiritualidade".

Nós sempre crescemos quando somos questionados e fazemos um encontro com o diferente. É uma riqueza a unidade na diversidade! Nosso site é um portal franciscano e é de responsabilidade de nossa Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil. O site "Ecologia e Espiritualidade" está unido ao nosso porque faz parte de um Curso de Pós-Graduação do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis - ITF; é o espaço aberto e democrático, para os que lutam pela ecologia interna e externa, manifestem a sua opinião; e, sobretudo, porque faz parte da Forma de Vida do Franciscanismo: lutar pelo meio-ambiente, cuidar e preservar a Vida em suas múltiplas manifestações. A missão do site dos ecólogos é integrar as diversas tradições, pensamentos e ações voltadas para o mesmo objetivo, ou seja Ecologia e Espiritualidade. 

Hoje, neste época pós-moderna em que vivemos, uma das características é a pluralidade cultural e religiosa, isto é dialogar com um leque de experiências que vêm dos movimentos religiosos e da cultura dos povos, não aceitar isto é afunilar-se para dentro e re-afirmar o que já decretou o fim da modernidade: o indivíduo como portador de sentido para si próprio sem abrir-se para o amplo da existência. 

O Documento da Família Franciscana do Brasil “Reviver o Sonho de Francisco e Clara de Assis no Chão da América Latina e do Caribe” (cf. VIII Centenário do Carisma Franciscano, Celebração Latino-Americana e Caribenha, Brasília 17 a 19 de Outubro de 2008) diz em sua página 34: “Francisco desempenha hoje um papel invejável nos encontros ecumênicos e inter-religiosos, pois recebe comum aceitação e respeito, não só de católicos mas de quantos acreditam nos valores humanos e na vida. É que ele não traz a marca da polêmica, mas da simpatia; não combate heresias, a não ser com o exemplo; valoriza a escuta mais do que a fala; e no dizer de Nikos Kazantzakis, escuta a música dos pássaros, mas também lhe interpreta a letra. Em sua vida, busca o diálogo até com o Sultão em tempo de plena Cruzada; intervém para mediar a reconciliação entre o prefeito e o bispo de Assis, e para restabelecer a paz em situações em que está rompida. Em nossos dias, por duas vezes a cidade de Assis, por ser a terra de Francisco e Clara, foi sede do encontro inter-religioso mundial de Oração pela Paz, dando origem ao chamado Espírito de Assis” (Doc. Cit. 5 - O ecumenismo e o diálogo em todas as direções). 

Não temos a intenção de, com esta resposta, contrariar uma opinião, que para nós é bem-vinda e nos dá um parâmetro para o que acreditamos... Queremos também dividir o nosso modo de pensar e uma das finalidades do site que é ser fiel ao Carisma Franciscano. Vou enumerar os assuntos elencados e dar a nossa opinião, apenas para um confronto de idéias. 

1. Sabemos que o Yoga é uma filosofia hinduísta e que hoje é praticado por budistas, zenbudistas, cristãos, não-cristãos, esotéricos e pessoas que têm um pensamento holocentrado. É um caminho para o sadio da existência e não uma doutrina e nem um dogma. O hinduísmo não é cristão, por isso não fala de Jesus Cristo e as verdades que estão em nosso Credo. O Yoga é um conjunto de exercícios que levam à concentração, meditação e  à quietude da alma e do corpo. 

Hoje existem práticas do Yoga  adequadas ao cristianismo e a outras formas de experiência espiritual. Frei Inácio Larrañagna, nas Oficinas de Oração, usa exercícios de respiração vindos do yoga para ajudar a orar melhor. Recentemente, em Bauru (SP), Pe. Enedir promoveu, no Santuário do Sagrado Coração de Jesus, uma palestra-debate com dois monges budistas que falaram aos católicos sobre a Kryo-Yoga e a importância da Meditação. Não havia nenhum proselitismo e nenhuma manipulação de verdades religiosas, mas sim um encontro entre verdades para iluminar as próprias experiências e práticas. Um dos paradigmas da pós-modernidade é este: há muito mais verdades no conjunto das religiões do que nos dogmas isolados de cada uma delas. É preciso acolher e compreender todas as experiências para apaixonar-se mais ainda pela própria religião. Não estive presente nesta palestra, mas sei por testemunho de quem esteve, que os dois monges budistas fizeram uma verdadeira declaração de reverência ao cristianismo. 

2 e 3. Realmente nas práticas de yoga aparecem mantras. Se fossem mantras franciscanas certamente usariam frases das Fontes Franciscanas e Clarianas ( cfr. O CD “Mantras Franciscanas”), se fossem cristãs usariam as mantras beneditinas e das comunidades ecumênicas de Taizé espalhadas pelo mundo. Mesmo no cristianimso católico cantamos frequentemente: “Ó Luz do Senhor, que vem sobre a terra, inunda meu Ser, permanece em nós”. Pe. Jonas tem toda razão quando afirma que mantras hindus evocam os antepassados; o Evangelho de Mateus também traz a nossa ancestralidade, a nossa herança transgeracional (cf. Mt  1, 1-17s) Somos filhos da terra e da Luz, assumimos a nossa herança de parentesco e da consaguinidade e ao mesmo tempo, pela fé, superamos as nossas raízes biológicas para nos irmanarmos no que cremos. “Quem é minha mãe, quem são meus irmãos?” Jesus não está relativizando a família biológica, mas fundamentando pela Palavra a família espiritual. Não é um simples culto “reecarnacionista” ou apenas a lembrança dos mortos, mas sim a certeza de que em nosso sangue habitam gerações. 

4. Se alguém entrega-se a outras filosofias e vê a sua fé em Jesus Cristo enfraquecer, ou ser deturpada, significa que nunca teve fé em Jesus Cristo. Jesus vai à casa de todos, recoloca o humano no seu eixo e aproxima as pessoas do Divino. Não vem abolir mas realizar. Explica as escrituras e se insere numa tradição religiosa particular. Respeita as tradições mas não se fecha nelas. Traz sempre uma Palavra que convida ao Discernimento. Jesus não é uma Filosofia, embora seja o Mestre. Ele é o arquétipo da grande Síntese: une céu e terra, humano e Divino, faz a união de todas as qualidades que nos habitam. Ensina que somos participantes da Natureza Divina. Mostra a Unio Mística: “Eu e o Pai somos Um!”. Desperta a Imagem e Semelhança de Deus que está em nós. 

5. A função da Legenda é a edificação do Espírito, é um método pedagógico que usa o exagero. É preciso exagerar para dizer  algo que é grande demais. A Legenda Maior ou qualquer outra Legenda ao descrever as mortificações inserem-se no conceito Medieval de Penitência: penitência não é castigo, mas o exercício que se faz para eliminar excessos: excesso de vaidade, de ostentação, egoísmo, avareza e também da gula. Ser Penitente é chegar à medida do necessário, mas não ser um suicida. O caminho da Penitência é o caminho do equilíbrio. A maior penitência é vencer-se para não ser fechado e fundamentalista a tal ponto de não ver a maravilhosa Presença de Deus nos detalhes da Vida. Francisco não destruiu seu corpo, apenas dominou a sua finitude e sublimou os seus limites transformando-os. 

Não se perde a alma quando se está de um modo equilibrado com os pés no chão. O sadio e o santo não estão nas abstrações ou nas piruetas metafísicas, os nos preconceitos fundamentalistas de movimentos religiosos. O humano ganha a sua alma quando é profundamente humano habitado por uma inspiração Divina; quando integra em si a plenitude da totalidade: o Humano e o Divino; quando assume uma Espiritualidade Transreligiosa, isto é, não separa aquilo que Deus uniu: corpo e alma, Espírito e matéria, céu e terra, espiritualidade e afetividade. 

Como iniciante num grupo de espiritualidade franciscana, coloque um ponto final no passado, vire a página, o que passou fazem parte de uma experiência que deve ser integrada nas avaliações da sua existência. Como Francisco de Assis você agora é peregrino pascal, isto é, faz a Passagem para o melhor e escolhe um Valor Maior; isto traz a verdadeira liberdade de acolher e integrar o negativo da vida. Acolher e transformar o negativo da vida em Perfeita Alegria. Quem escolhe a Vida não tem o que se preocupar com os mecanismos da morte. 

Quanto a sua última pergunta... se um cristão entende yoga como religião não deve praticá-la pois não se pode servir a dois senhores; mas se entender como terapia...  é  a busca do sadio. Salvação vem de salus que quer dizer sadio. Sanar é a mesma coisa que curar, sanar, cuidar.... Será que faz mal cuidar-se? Por caminhos diferentes uma pessoa pode chegar ao sadio da existência. O que foi  ruim para uma pessoa não significa que é ruim para milhares. O importante é realizar-se nas escolhas que se faz. O critério de um Caminho Transcendente é a felicidade, a realização, o sentir-se bem. O Humano Religioso constrói-se com pedaços arrancados da  Felicidade! 

A fé vive mais nas perguntas e nos questionamentos. Como Franciscanos escolhemos o Caminho da Vida, o Caminho do Evangelho que é sempre o caminho do diálogo e da construção do Espírito. Ao percorrer pacientemente este Caminho...as respostas vão chegando! 

Frei Vitório Mazzuco OFM

quarta-feira, 1 de outubro de 2008

Boas Festas de São Francisco!


Da vigília do dia 3 até o dia 4 de outubro celebramos a FESTA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS, uma data que não passa despercebida porque a sua vida é uma iluminação que nos dá o sentido maravilhoso da existência.
Ele é a saudade que temos daquela perdida terra prometida do espírito, onde não chegamos, porque perdemos os nossos sonhos em algum lugar. Ele é a medida do essencial para renunciar tudo aquilo que é vão e nos nivela por baixo.
Ele é a inocência, a jovialidade, a alegria de ser, a paixão, a doçura, a emoção, o ardor e a simplicidade. Ele é a loucura e o escândalo, a fé vivida com coerência. Francisco de Assis é o intuitivo, o otimista religioso, a palavra portadora de alegria, a vontade criativa e criadora. Para os que amam a natureza ele é o humano primitivo, a cristianização do cosmos, a comunhão com a matéria. Para os estetas, ele é um ícone sempre representado, um sabor novo, um pão caseiro. Para os estudiosos, ele é ensaio, romance, literatura e legendas. Para os místicos, ele é um contemplativo itinerante, um provocador espiritual. Para os frades, ele é um pai sempre vigoroso e terno. Para o Evangelho, ele é um Espelho da Perfeição. Para a Itália é “o mais italiano de todos os santos e o mais santo de todos os italianos”.
Para o mundo, Francisco é o novo e o futuro, um presente de oito séculos. Para a psicologia, um humano fecundo, um sentimento sem amargura.
Para Clara de Assis, ele é o que vai junto modelando o melhor da raça humana, amor sublimado no projeto comum, companheiro de céu antecipado nestas coisas da terra.
Ele é a Paz e o Bem! A mundividência despojada do Pobre, o leproso abraçado, a inclusão, um humano, cristão, santo e amigo que provoca em nós um discreto sorriso de cumplicidade...
Boas Festas de São Francisco!
Fr. Vitório Mazzuco Filho OFM
Esta imagem de São Francisco é de Frei Geraldo Roderfeld

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Se correr o bicho pega?


Quem de nós não conhece este dito popular? Quem de nós já não correu de um cão raivoso e provocador, de um ganso irritado, de um boi mais exaltado? Não tem muito folclore nisto não; mas sim a verdade de que se colocarmos em perigo o afeto temos que sofrer as conseqüências dos sustos. Para cada ação de agressividade e indiferença pode haver uma reação de violência e destruição. Às vezes usamos a provocação de raiva e ódio e nos jogamos uns contra os outros. Não é melhor juntar as forças do bem? Não é melhor unir na harmonia e na entre-ajuda? Não é melhor o afago do que o chicote? Não é melhor o colo do que expulsar do convívio? Vamos ter mais controle dos atos! Por isso gosto demais da ampliação do dito popular citado que um dia ouvi: “Se correr o bicho pega; se ficar o bicho come; mas se juntar o bicho foge!” É a arte da integração!
Texto publicado na Folhinha do Sagrado no dia 28 de setembro de 2008

sexta-feira, 19 de setembro de 2008

É PRECISO SENTIR O ESPETÁCULO DA CONVIVÊNCIA


A Folhinha do Sagrado Coração da Vozes é precisa: dia 22 de Setembro, às 12h46 é o início da Primavera. Folhinha e Almanaque existem para acordar–nos para os detalhes da vida. Somos alienados porque não percebemos mais estas coisas. Temos que prestar atenção ao nosso modo de conviver com tudo o que existe. Ainda que há uma quebra mundial na economia, é Primavera! Ainda que os carros de campanha política infernizem os nossos ouvidos com a mentira de palanque, é Primavera! Apesar da alta do dólar,apesar do Dunga e do Diogo Mainardi, é Primavera! Que ela nos restitua o sentido da convivência mais refinada com todas as coisas!
A Primavera transforma a vida num jardim florido. Jardim é uma palavra Originária (o Jardim do Éden). É uma afloração de plantas e de gente, é lugar de estar à vontade, de estar num modo espontâneo feito tênis, abrigo, jeans, chinelo, pé no chão. No jardim a vida está ali na festa da sua naturalidade. Nós precisamos do jardim (o Jardim do Paraíso). Por que não vamos mais ao Parque da Luz, ao Trianon, ao Jardim Botânico, ao Ibirapuera? Por que não passeamos na floresta? Por que dizemos natureza selvagem e não cantamos mais “vamos passear no bosque antes que o lobo venha...” Não podemos nos expulsar do Paraíso!
A Primavera nos resgata o jardim e no jardim há o fazer humano; o jardim é uma síntese, o cultivado, o selvagem cultivado. Quem trabalha no jardim é afeiçoado pela natureza. O verdadeiro jardineiro não ameaça o jardim, deixa-o ser! Não cultiva nem mais, nem menos, simplesmente deixa ser o natural. No jardim habita a natureza. A natureza bruta só pode ser entendida a partir dela mesma. No princípio havia o Jardim do Paraíso, não havia a floresta com seus medos. Com a desobediência, o humano se expulsa do jardim e vai viver com medo de cobras, cipós, sombras e animais. Temos que reconquistar a alegria de viver sem medo, isto é, restituir em nós o jardim: o ser originário do humano.
Hoje, nós visitamos mais monumentos de pedra; é melhor visitar a pedreira. Precisamos ver mais a configuração do terreno, isto que é deixar o jardim ser natural. Deixar-se atrair pelo ser do jardim. Mudar o nosso modo de pensar e o nosso modo de andar. Andar mais leve para não ferir as pedras e o jardim. O modo de andar leva a pensar. No jardim deve-se andar de um modo compassado e lento... andar como o jardineiro; não andar como andamos na Avenida Paulista e na Berrini.
Vamos aprender com o jardineiro fiel... para o jardineiro, o mais importante é o Amor que ele tem pelas plantas, sementes e canteiros. O jardim é a obra que brota de seu modo de amar. O modo de amar é a liberdade da natureza. Qual é o nosso Jardim hoje? É quase uma decadência... Até o orquidário nós vemos de um modo abstrato ou comercial, olhamos a partir do funcional. A tecnologia hoje é o nosso jardim. Olhamos mais e-mails e pps do que flores.
A Primavera quer que voltemos ao Jardim, pegar este modo de ser natural e recomeçar a perceber milhões de coisas que antes não se via. A Primavera nos ensina a cultivar, cultivando-se. A Primavera nos pinta um quadro de rara beleza de ipês, azaléias, hortências e jasmins. A natureza dança a dança do vento, chuva, sol e cor. Você gosta da dança porque há um dançarino dentro de você; você está no passo da vida; mas nem sempre está na consciência do passo da vida. A arte nos mostra que estamos na restituição da vida, e isto nos permite ver a beleza. É uma experiência ontológica, isto é, o humano colhido pelo ser natural. Você gosta da Primavera porque há uma semente dentro de você pedindo para desabrochar.
A Primavera nos possibilita a ser melhores!

Feliz Primavera à todos!
Frei Vitório Mazzuco Fº

sexta-feira, 29 de agosto de 2008

O difícil ofício da vida


Reproduzo neste Blog o texto do meu amigo Paulo Palladini, que vale a pena ser lido e refletido.

O difícil ofício da vida
No poema dedicado ao amigo Sierguei Iessienin, poeta como ele, e que acabara de se suicidar, Vladimir Maiakovski escreveu: “Nesta vida morrer não é difícil. O difícil é a vida e seu ofício”. Quatro anos depois, no dia 14 de abril de 1930, o próprio Maiakovski considerou, talvez, o ofício difícil demais também para si, e repetiu o gesto do amigo. Viver é difícil e, além de difícil, muito perigoso, completaria o vaqueiro Riobaldo metido nas veredas do grande sertão desenhado por João Guimarães Rosa. E, como o samba do saudoso poeta, nada disso se aprende na escola. Apesar de todos os manuais, de todas as igrejas, todos os ensinamentos, filosofias, inscrições em pedras diversas e computadores. Viver se aprende vivendo. Como amar se aprende amando. Nossos pais nos ensinaram muitas coisas, Muitas coisas ensinamos para os nossos filhos. Mas viver, cada um aprende sozinho. Por si. É mais ou menos como respirar. Se a criança, ao nascer, não respira, ela morre. E ninguém pode ensiná-la como fazer isso. Algo que ela nunca fez antes: abrir as narinas e a boca, expandir os pulmões, encher o peito de ar, expirar, não parar nunca mais. Só a criança pode fazê-lo. Desde os tempos mais primórdios é assim. E desde antanho tem gente querendo dizer – e diz – aos outros como é que é viver, Como se deve ser. Ou como é viver bem. Preceitos para uma vida boa. O mundo está cheio de literatura desse tipo. Literatura de auto-ajuda. Um livro de auto-ajuda, além de ajudar só o seu próprio autor, sempre tem a pretensão de ensinar aos outros – nós – a arte de viver. Na verdade não é auto-ajuda. Nem ajuda. Nem literatura. Mostra sempre um ponto de vista exterior, um referencial externo ao indivíduo, um preceito, uma norma, que se pretende universal. É assim que se deve ser! Mas vida não é isso. Se viro norma, não vivo. Se quebro a norma, não sei. Quanto equilíbrio não deve haver entre a força que pulsa dentro de um indivíduo e o grande espetáculo da natureza e da sociedade? Definitivamente instalados nos princípios da incerteza e da dúvida: difícil é. Não é estranho que no reino de todas as nossas liberdades, fazemos tudo igual, imitando uns aos outros? As mesmas imagens marcam nossas retinas, desejamos os mesmos objetos, o mesmo corte de cabelo, usamos os mesmos pijamas. Temos as mesmas opiniões sobre quase tudo... Velha opinião formada. Compartilhamos das mesmas cenas na TV e na rede. Nossa evolução em direção à liberdade, a luta pela liberdade só serviu para desistirmos dela? Ou, nem mesmo ainda a alcançamos? Duvidar é ser livre! Liberdade é poder escolher entre três marcas de liquidificador, cinco modelos de camiseta. Dois carros vermelhos. Liberdade é bobagem! Bobagem? Cadê a minha velha calça azul e desbotada?
Confira o blog de Palladini


Imagem: Calça original da Levi Strauss & Co 501 jeans que tem mais de 115 anos de idade.

quarta-feira, 27 de agosto de 2008

Jogo de Cintura

Dizem que nosso povo tem jogo de cintura, tem molejo, leveza, requebro e ritmo leve e solto como uma coreografia de samba. Jogo de cintura é isso e muito mais: é flexibilidade! A vida se adapta mais no ninho daquilo que é flexível. Rigidez demais mata a criatividade. A saúde habita mais e melhor em quem não é tenso, na soltura, na serenidade, no relaxamento e na positividade do sim! Na flexibilidade existe a vida, no rígido habita mecanismos de morte e a ditadura do não. É muito ruim conviver com a tensão, o estado perene de ansiedade e pressa, com o perfeccionismo doentio, com o excesso de contensão, com o intransponível, com o que não cede nunca. Gostoso é partilhar a vida com o maleável, com o que tem a paz dos que ainda não estão prontos e querem sempre aprender.


Este texto foi publicado na Folhinha do Sagrado Coração de Jesus, no dia 25 de agosto.

quarta-feira, 6 de agosto de 2008

VALORES E PRINCÍPIOS FUNDAMENTAIS DE UMA VIDA FRANCISCANA


• Cultivar os valores evangélicos da justiça, da misericórdia, da compaixão e da caridade.
• Cultivar os valores típicos franciscanos: fraternidade, qualidade das relações, integração entre o feminino e masculino, cuidado, alteridade, cortesia, paciência, cordialidade, criatividade, simplicidade, minoridade, beleza e bondade, sabedoria, ternura, alegria, serviço, atenção aos sinais dos tempos, utopia e acolhimento.
• O entendimento do Humano como um ser sagrado
• Promoção de uma cultura de paz.
• Pluralidade cultural: abertura e acolhida ao diferente.
• Postura ecumênica e diálogo inter-religioso• Superação da discriminação e do preconceito de qualquer natureza.• Postura ética, exercício do bem comum.
• A política como exercício do bem comum.
• Respeito à dignidade da pessoa, à sua autonomia e ao seu direito a serviços de qualidade.

sexta-feira, 1 de agosto de 2008

PORCIÚNCULA - 2 de agosto


Lugar fontal para a nossa mística. Santa Maria dos Anjos: berço da fraternidade! Aqui começou a vida e o amor mútuo. Um santuário mariano-franciscano, lugar – santo, dos mais freqüentado em todo o mundo. É um espaço para rezar, refletir, purificar, encher-se de graça e iniciar novamente o caminho.
Se Assis é a “capital do espírito”, Porciúncula é um lugar necessário a toda humana criatura de nosso tempo: uma etapa, uma luz sobre o caminho. Ali emana um único fascínio: a mensagem pulsante do Evangelho, alegria, serenidade, simplicidade, fidelidade, pobreza...
Foi edificada no século X, no ano de 1045. Pertencia aos monges beneditinos do monte Subásio que ali alimentavam uma “pequena porção” de santuário. O que é o santuário? É um lugar sagrado onde a presença de Deus se manifesta. O mistério presente da divindade é que determina o lugar do culto.
Santuário é lugar e não museu arqueológico a mostrar e conservar memórias e glórias mumificadas do passado. Ali os acontecimentos passados são vivos e presentes: ali viveu Francisco, ali passou Clara, ali morreu o Poverello. Francisco e Clara continuam a ser mais vivos que nunca e a sua escolha de Amor é que marca definitivamente o lugar. Ali a Fraternidade se faz encontro,cresce,contagia e se comunica. (Cfr 1 Cel 106)
Em 1210 Francisco pede ao bispo de Assis e depois aos Cônegos de São Rufino alguma igrejinha para cuidar. A resposta é negativa. Vai então ao abade do mosteiro de São Bento, Dom Teobaldo. Este, com o consenso da comunidade monacal, concede a Francisco e a seu primeiros companheiros a Porciúncula para o simples uso e moradia. Só pedem uma condição: se a religião constituída por Francisco crescer, a Porciúncula seja a casa-mãe.
Dom recebido Dom dividido. A casa fundada sobre o sólido alicerce da Pobreza ganha um sinal: por graça e gratidão ao bem feito pelos beneditinos, há o gesto da retribuição: cada ano os frades mandavam aos monges um cesto cheio de peixes. Os monges agradeciam com um vaso cheio de óleo. LTC 56; LP 8.

Porciúncula:
• experiência primitiva de Fraternidade
• lugar reconstituído com o trabalho manual
• próximo aos bosques
• próximo aos leprosários
• pequenas celas para a moradia
• primeiro encontro com o Evangelho (Mt 10,5-15)
• ali o encontro do rumo definitivo na vida (1 Cel 21;LM 2,8;Lm 1,9;1 Cel 44)
• os primeiros companheiros Bernardo e Pedro vêm morar ali
• Bernardo, Pedro, Egídio e Francisco partem dali para a primeira missão
• a fraternidade cresce e encontra seu espaço
• é o santuário da missão ( 1 Cel 22;LM 3,1: LTC 25: Lm3,7;Fior13)

• No dia 19 de março de 1211/1112, chega a Porciúncula, a nobre jovem Clara de Faverone.
• Em julho de 1216, Francisco consegue do Papa Honório III a Indulgência ou o Perdão da Porciúncula.
• É um lugar muito elogiado. (1 Cel 106; LP 8-12:LM 2,8)
• Lugar dos Capítulos. Ali se realizou o famoso Capitulo das Esteiras – 1221. (LTC 57-59; AP 18,37-39; LP 114, Fior 18)
• Clara vai à Porciúncula visitar Francisco. Comem juntos num luminoso banquete espiritual. (Fior 15)• A irmã Jacoba de Settesoli, amiga de Francisco, chega pouco antes de sua morte, trazendo doce conforto. ( EP112;LP101;Cel 37-39)
• A irmã morte visita Francisco ( 2 Cel 214-217; LM 14,3-6;LTC 68;LP 64)

Ensinamentos da Porciúncula
• momento culminante da mudança radical de Francisco
• não teve dúvidas que o Senhor tinha suas exigências
• acolher o Evangelho, escutar o outro (a),percorrer o caminho proposto
• lugar de penitência e serviço
• ensina que todos devemos ser criativos (as) para fazer renascer a simplicidade primitiva.
• santuário da missão: enviar, regressar, fortalecer e orar.• capítulo: momento privilegiado de encontro

segunda-feira, 28 de julho de 2008

ALTERIDADE: UM OUTRO OLHAR POSSÍVEL


A Psicologia, a Psicanálise e a Antropologia entendem que o ser humano é, fundamentalmente, um nó (um conjunto articulado) de relações: para dentro (imanência) para fora (transcendência) e para os lados (alteridade). Quanto mais profunda e intensamente o ser humano buscar viver estas relações... nesta medida será a expressão da sua mais autêntica humanidade. Na linguagem do Espírito (mística e espiritualidade), chamamos esta tarefa humana de Reconciliação (conciliar sempre de novo, achar o lugar na concha). É um processo de humanização e divinização que atinge a totalidade da existência. Fazer um encontro entre o Humano e o Divino. Ao longo de toda a sua vida, Francisco de Assis viveu esta experiência pascal (passagem) de reconciliação com todas as camadas da existência. Foi após um longo caminho de purificação interior, de renúncia, de integração, que ele tornou-se um ser reconciliado. A sua vida foi uma contínua relação com todas as dimensões da existência: a interior (consigo mesmo), a superior (com o Sagrado) e com a exterior (com a natureza).

Este texto continua amanhã com o subtítulo: "Reconciliação Consigo Mesmo"

quarta-feira, 23 de julho de 2008

ESCOLA E ESPIRITUALIDADE


Educadores e educadoras têm cada dia, a proximidade, a atenção e a admiração de crianças e jovens. Quem de nós esquece o professor, que com brilho nos olhos nos passou algo mais do que um saber científico? Para ser mestre da vida é preciso ter uma vida vivida segundo o Espírito; é preciso ter uma forte motivação de inspiração e fé! Igrejas não têm as pessoas tanto tempo consigo nas horas privilegiadas das manhãs, tardes e noites. Governos não priorizam a vizinhança das pessoas, pois as burocracias criam distâncias e afastamento. Por isso, a escola é o lugar onde pessoas mostram-nos que somos seres especiais, imagens e semelhança do Divino. A espiritualidade, a mística e a fé que devem estar no coração dos mestres e das mestras, deve ajudar a trazer para fora esta verdade. Ensinar e aprender é acordar o Divino que está dentro de nós!

terça-feira, 22 de julho de 2008

ESCOLA E RELIGIÃO


Hoje nas escolas temos uma diversidade de opções religiosas. É o cristianismo nos seus diversos segmentos, várias religiões e filosofias de vida com enfoque confessional. Por caminhos diferentes todos estão na verdade da mesma busca: Deus! Assim a escola deve respeitar e cuidar desta riqueza, pois a opção religiosa mostra a única fonte gratuita de todas as coisas e uma vida plena de significação. A relação entre o humano e o divino melhora a qualidade das relações humanas entre si e entre todos os seres. O sagrado é a vertente de todos os valores e mostra a transcendência do mundo, unindo pessoas e povos no amor, no perdão, na espiritualidade, na imortalidade, na solidariedade, na fraternidade, na igualdade e na justiça. A escola não deve ser lugar de proselitismo religioso, mas um lugar de feliz convivência dos filhos de Deus.

sexta-feira, 18 de julho de 2008

EDUCAÇÂO E CORDIALIDADE


Do mirante do coração precisamos contemplar o mundo e ver a beleza, ver a ternura e a festa. Não podemos ser profetas de coisas ruins! Escola não é porta de delegacia onde precisamos registrar boletins de ocorrência a cada conflito. Escola é lugar de educar seres humanos para assumirem a vida na cordialidade, proclamando o tempo do Coração, da Criatividade e da Paz! A escola é uma árvore frondosa cujos galhos, flores e frutos são feitos de pessoas, e cujo tronco tem a seiva da sensibilidade. A beleza desta árvore é sua fecunda presença que abriga uma educação inclusiva, acolhedora, portadora de afeto. A afetividade não é aula, nem disciplina, nem conceito, é vivência! É voltar-se para a pessoa e cuidar dela na tarefa diária, nesta mais bela lição de casa.

quinta-feira, 17 de julho de 2008

EDUCAÇÂO E ÉTICA


Dói constatar que corruptos de profissão, oportunistas de plantão e contraventores são nossos ex-alunos. Será que não aprenderam que ética é virtude moral e não virtude intelectual? Para ser um bom profissional tem que ser ético; e ser ético é viver para os outros, é ter uma visão mais ampla do mundo e não apenas ter o olhar voltado para o próprio umbigo. Ser ético é dar beleza e dignidade ao projeto humano; ajudar o humano a reencontrar a confiança perdida. Mostrar que dentro de cada ser existe Algo Mais que não pode ser subornado e corrompido. É urgente que as escolas trabalhem a nobreza que habita cada ser humano e não eduquem apenas para o mercado.

quarta-feira, 16 de julho de 2008

FESTA DE NOSSA SENHORA DO CARMO


Esta festa é uma das maiores memórias marianas de origem devocional. O título do Carmo lembra o Monte Carmelo, na Palestina, a herança espiritual do profeta Elias, o profeta contemplativo e defensor do Deus Único de Israel, vencedor dos sacerdotes de Baal, partidários da falsa divindade. Eremitas cristãos, no século XII, recolheram-se ali para dedicar-se dia e noite ao louvor do Senhor sob a proteção da Bem-Aventurada Virgem Maria. A festa de Nossa Senhora do Carmo direciona nosso pensamento ao Deus da Vida sob a proteção de sua Mãe. Que o escapulário do Carmo nos ajude a não perdermos a força do Senhor e a contemplação na ação.
Imagem da Igreja de N. Sra. do Carmo do Recife (PE)

terça-feira, 15 de julho de 2008

INTELIGÊNCIA ESPIRITUAL


Nos grandes temas da educação já se falou de tudo; e agora é o momento de se refletir sobre a inteligência espiritual, isto é, conhecer o Ser que nos faz ser. Escola também existe para estimular a nossa busca interior. Deus está onde está alguém ensinando e aprendendo. Na escola alunos e alunas passam a maior parte de seu dia. Por que não encontrar um tempo forte para falar do divino da hora, da meditação, da prece, do recolhimento, dos textos sagrados? Fazer ressurgir em cada coração a função do templo: dar um passo na direção do Espírito e Deus vai cobrir com seu Amor. Dar um passo na direção da interioridade do outro e da outra e a humanidade vai se cobrir de Amor!

segunda-feira, 14 de julho de 2008

VALORES NA EDUCAÇÃO


Escola não serve apenas para repassar a enorme bagagem de conhecimento, de informação, de atividades pedagógicas, dinâmicas e convivência numa etapa tão privilegiada da vida. Escola tem que ser sobretudo o lugar para se criar uma concepção do mundo e da vida. Educar para o sentido da vida e mostrar o caminho da realização do ser humano. É o lugar para se perguntar: Qual a medida daquilo que é bom? Qual o modelo? O que é válido? Que esperança é para a humanidade uma escola que se preocupa com valores éticos, estéticos e sagrados! É preciso ensinar o bom, o belo e o sadio. A vontade, o sonho, a busca de valores, melhora muito se desejamos e experimentamos o humano com qualidade!

quinta-feira, 10 de julho de 2008

SAGRADA FAMÍLIA (Lc 2,41-52)


Toda criança deve saber a vontade de seus pais e conhecer a existência de uma vontade divina. Nos limites da casa paterna e materna aprende-se os valores que determinam comportamentos do que é ser uma pessoa de qualidade. Mas descobrir a casa do Pai é ultrapassar os laços de consangüinidade. É descobrir o lugar da fé, a observância, a doutrina, o sentar-se aos pés dos Mestres para beber da Palavra, é ouvir atentamente a Sabedoria, amar o Templo e abrir a vida para um horizonte maior. Quando filhos e filhas descobrem coisas grandiosas, saem para longe e os pais sofrem com esta ruptura. Porém, é assim que se cresce em idade, estatura, sabedoria e graça. Todos nós pertencemos a uma família e a Deus. Quando uma família deixa seus filhos viverem a Revelação e o Mistério, torna-se necessariamente Sagrada!


Ícone do VI Encontro Mundial com as Famílias, a ser realizado em janeiro de 2009 com o Papa no México.

segunda-feira, 30 de junho de 2008

Solidariedade Contagiosa


Renasce em toda a parte a solidariedade, este valor que nos lança para fora de nós mesmos. Quem sai de si e busca soluções mergulha nas dificuldades dos outros e diminui a própria dificuldade. O solidário percebe a vida do outro e da outra, uma vida precária, insalubre, sem expectativa, sem graça, sem possibilidades, sem inclusão.

O solitário muda sua consciência, sua percepção, aguça a sua sensibilidade e o conceito de dignidade, amplia o senso de pertença comunitária e se mobiliza. Faz das necessidades do outro e da outra a sua causa, encontra o sentido da cooperação, do amor, da coletividade, da comunhão, de partilhar tempo, competência e coração.