segunda-feira, 16 de outubro de 2017

FRANCISCO DE ASSIS – ENTRE HISTÓRIA E A MEMÓRIA

Constantemente surgem livros sobre São Francisco de Assis. Indico para os que amam conhecer Francisco de Assis este livro de André Vauchez, Francisco de Assis. Entre História e Memória, Martins Fontes, SP e Instituto Piaget, RS, 2013.  O autor é um grande historiador, membro da Escola Francesa de Roma, é especialista sobre santidade e espiritualidade medievais. Esta sua premiada biografia sobre São Francisco de Assis tem forte fundamentação histórica e é exatamente a perspectiva histórica com que aborda São Francisco que faz o diferencial desta obra. O autor pesquisou por 30 anos, período em que viveu na Itália, os textos franciscanos e as biografias franciscanas. Como diz a quarta capa desta obra: “André Vauchez mostra a novidade e a originalidade da mensagem franciscana, a sua nova relação com a Sagrada Escritura, a sua ligação a Deus, à natureza e ao mundo”.

O autor passa pela bibliografia e pela cronologia e pelo Testamento de Francisco, que são obras essenciais para a fundamentação histórica. Diz o texto: "Uma obra que não teme reconhecer as dificuldades e os afastamentos em relação ao projeto inicial do Santo. Os frades menores, no seu conjunto e desde a sua origem, jamais traíram ou abandonaram a sua mensagem. Nenhuma Ordem religiosa conseguiu manter com seu fundador uma relação afetiva tão forte e escutar as suas palavras durante tantos séculos”.

Esta obra tem o mérito de ir à riqueza das Fontes Franciscanas. Muito se escreve sobre ele, mas em geral cada autor ou autora juga conhecê-lo de modo suficiente para interpretá-lo a seu modo. Assim, Francisco de Assis é visto sob vários aspectos: asceta, louco, poeta, estigmatizado, fundador de uma grande Ordem religiosa, modelo de ortodoxia católica, reformador da Igreja, herói romântico, “detentor de um cristianismo evangélico e místico esmagado pela instituição eclesiástica”, defensor dos pobres, promotor da paz entre os seres humanos e religiões, apaixonado pela natureza é o patrono da ecologia, santo ecumênico. Então, qual é o Francisco verdadeiro? Vamos ler mais esta obra! Ela traz respostas.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

A PORCIÚNCULA DE SOROCABA


Meus confrades de Sorocaba, SP, levaram a sério a inspiração original de nosso Pai São Francisco: é preciso reconstruir a casa! E recriaram no pátio do Convento local uma réplica da Porciúncula. Bom Jesus dos Aflitos agora tem também a consolação de Nossa Senhora dos Anjos. A Porciúncula, onde estiver é manancial, este lugar fontal   da mística franciscana, um ícone do berço da Fraternidade. De Assis a Sorocaba é preciso lembrar a vida comum, o amor mútuo, o espaço da prece, da reflexão, do silêncio. É eremo, isto é, espaço para encher-se de graça e bênçãos e reiniciar novamente o caminho.

Se Assis é a capital do espírito, a Porciúncula é lugar necessário, uma luz sobre o caminho. Se você não vai à Assis, o fascínio da Porciúncula vem até você em Sorocaba. A mensagem pulsante do Evangelho, alegria, serenidade, simplicidade, fidelidade, pobreza...tem lugar. A Porciúncula original foi edificada no século X, no ano de 1045. Pertencia aos monges beneditinos do Mosteiro do Monte Subásio, que ali criaram uma pequena porção de santuário, para ajudar o povo que não podia ir nas peregrinações nos santuários mais distantes, podiam fazer a sua desobriga no lugar mais próximo. Santuário é o lugar sagrado onde a presença de Deus se manifesta, o mistério presente da divindade determinando o lugar do culto. No século XIII, os beneditinos doaram a Porciúncula a Francisco de Assis que a reconstruiu e fez um grande encontro entre passado e presente. Na Porciúncula viveu Francisco, os frades primitivos, ali passou Clara, ali morreu o Poverello, ali aconteceram os Capítulos das Esteiras.

A Porciúncula de Sorocaba nos diz que Clara e Francisco continuam mais vivos que nunca e que a sua escolha de Amor atravessa o tempo e marca definitivamente um lugar no mundo. Na Porciúncula a Fraternidade se faz encontro, cresce, contagia e se comunica. Como diz Tomás de Celano: “Em qualquer lugar, no entanto, conheceu por experiência que o lugar de Santa Maria da Porciúncula era repleto de mais copiosa graça e frequentado pela visitação dos espíritos celestes. Por isso, dizia muitas vezes aos irmãos: "Cuidai, filhos, para nunca deixardes este lugar. Se fordes expulsos por uma parte, entrai de novo por outra; pois este lugar é verdadeiramente santo e habitação de Deus. Aqui quando éramos poucos, o Altíssimo nos aumentou; aqui, com a luz de sua sabedoria, ele iluminou os corações de seus pobres; aqui, com o fogo de seu amor, inflamou as nossa vontades. Quem rezar aqui com coração devoto obterá o que pedir” (1Cel 106,2-6).


Em 1210, Francisco pede ao Bispo de Assis e depois aos Cônegos de São Rufino alguma igrejinha para cuidar. Não obteve resposta. Vai então ao Abade do Mosteiro Beneditino, Dom Teobaldo, e este, com o consenso da comunidade monacal, entrega a Porciúncula para uso e moradia dos frades, e pedem apenas uma condição: se o grupo de Francisco crescer, que a Porciúncula seja a Casa Mãe. Dom recebido, dom compartilhado. A igrejinha reconstruída sob o sólido alicerce da Pobreza ganha um sinal: por graça e gartidão com um vaso cheio de óleo ao bem feito pelos beneditinos, há o gesto da retribuição, cada ano, os frades mandavam aos monges um cesto cheio de peixes e os monges agradeciam com um vaso cheio de óleo ( 3Comp 56 e LP 8 ).

E assim a Porciúncula vai se tornando um ícone eterno da experiência primitiva do amor fraterno, do trabalho com as próprias mãos, da proximidade com bosques e leprosários, da pequena cela como moradia, dos primeiro encontro com o Evangelho, da presença dos primeiros companheiros, lugar de preparar-se e partir para a missão. No dia 19 de março de 1212 chega ali a nobre jovem Clara de Favarone. Em Julho de 1216, Francisco consegue do Papa Honório II a Indulgência da Porciúncula ou a Indulgência do Perdão da Porciúncula. Ali Clara e Francisco comum juntos num luminoso banquete espiritual (Fior 15). A amiga especial de Francisco Jacoba de Settesoli, traz o doce conforto na hora de sua morte (3Cel 37-39). A Irmã Morte vem buscar Francisco.

No século XIII, ali estavam os irmãos Bernardo de Quintavalle, Pedro Cattani e Egídio, prontos para sair em missão. No século XXI, aos 08 de setembro de 2017, oito séculos depois, os irmãos Gilberto Piscitelli, Benedito Gonçalves e André Becker, em Sorocaba, nos ensinam que todos temos que ser criativos em fazer renascer a simplicidade primitiva. E refizeram o ideal da Porciúncula: chegar, partir, enviar, sair, regressar, fortalecer, orar, num momento privilegiado de encontro. Em louvor de Cristo, Amém!

Veja mais imagens da Porciúncula de Sorocaba

FREI VITÓRIO MAZZUCO

terça-feira, 10 de outubro de 2017

FRANCISCO DE ASSIS E SEU MÊS DE FESTA


Tem a celebração do Transitus, a Missa Festiva, o tríduo, a novena, o teatro, a semana franciscana, o mês franciscano, as exposições, momentos litúrgicos, festivos, litero-musicais, bênção dos animais, palestras, artigos e sermões, distribuição de taus, chaveiros, santinhos, frades de hábito, programas na rádio, televisão, enfim, Francisco de Assis é uma Festa! Um pobre celebrado com alto nível de intensidade litúrgica, espiritual, cultural e folclórica.

Celebrar Francisco é exaltar uma personalidade que atravessa as fronteiras da religião. Todos querem dizer quem ele é, porque ser ele mesmo foi a sua marca registrada. Num mundo onde nem mais sabemos quem somos nós, Francisco de Assis é revelador de uma identidade. A festa de São Francisco e o mês franciscano de outubro mexem com consciências, abala instituições, reencanta carismas e convoca criatividades.

Celebrar São Francisco é mostrar que desde o Concílio de Latrão até o Vaticano II ele é uma novidade necessária. Sozinho ele é um movimento vivo, com a força da Fraternidade ele é a revolução constante. E qual a sua força de mudança? Em primeiro lugar porque Jesus Cristo passa a ser para ele a fusão de alma, coração, vontade e projeto, e núpcias.  Em segundo lugar, o Evangelho sai do texto e entra no contexto de ser alguém numa palavra que anda e convive, simbiose entre espírito e letra.

Celebrar São Francisco é ter aquela vontade de ser eremita e andarilho. Elegante e mendigo. Desapegado e livre. Rico de amizades e pobre de materialidade. Este jeito de aprender a ficar só em meio a todas as criaturas e formar com elas um novo jeito de ser irmão e irmã que lança a solidão para a imensidão do estar junto. Ir à guerra sem pegar em armas. Ir para o diferente e dizer que há uma verdade no lado de lá.

Celebrar São Francisco é viver leve e solto em meio à Regra de Vida e ter este jeito de organizar tudo a partir da intuição. Com ele anarquia e democracia brincam de roda e instauram uma nova profecia. Celebrar São Francisco é mandar vir o doce preferido na hora da morte, reunir as pessoas amadas e cantar. Improvisar um coro, ensaiado ou não, e deixar a melodia tomar conta do ambiente: Ó Alma Santíssima que atravessa para a eternidade reunindo cidadãos e Anjos, e a Trindade dando boas vindas dizendo com a Irmandade: permanece conosco para sempre!

Celebrar o mês franciscano é escutar Francisco de Assis dizendo para todos: “Eu fiz o que é meu dever; que Cristo vos ensine o que é vosso!” (2Cel 214,9).

FREI VITÓRIO MAZZUCO

terça-feira, 26 de setembro de 2017

É preciso voltar a Assis - Final

Misericórdia é dar o coração aos mais fragilizados

Misericórdia é Vida Fraterna! Nós não somos apenas um ajuntamento de pessoas, mas uma consanguinidade espiritual que nos vincula uns aos outros. A Fraternidade nos conecta. Somos todos do mesmo DNA de Clara e Francisco, e este sangue que corre em nossas veias tem uma poderosa implicação humanística: compartilhamos uma mesma natureza humana e divina. Cor e miseratio! Misericórdia é chave para abrir e entrar na porta santa do Reino.

“O Amor de Deus é a flor e a Misericórdia o fruto” (Santa Faustina Kowalska). O fruto do Amor é a Misericórdia, tudo o que é Amor é Misericórdia. Misericórdia não é atirar pedras, mas estender as mãos; fazer pontes e não exclusão, atar feridas dos necessitados, levar o errado a enxergar o erro.

Misericórdia é dar o coração aos mais fragilizados (miseris cor dare). O Papa Francisco, inspirado em Santo Agostinho, coloca dois aspectos da Misericórdia: 1. O Coração é o centro 2. Uma situação miserável, seja material ou espiritual. A Misericórdia, que tem a sua fonte no Amor, é um Amor feito de Coração, exercido em presença de sofrimento ou desordem.

“Há o amor de pai e filho, o amor de casal, o amor de irmãos e irmãs de sangue, o amor de amizade, o amor de fraternidade, o amor de civismo, o amor de grupo, e tantos tipos de amor. Cada estilo de amor demanda e desperta na psique um estado peculiar de ação e sensação. Quando exerço o amor em direção a alguém em situação penosa, emito uma forma típica da alma, chamada Misericórdia. Este alguém em dificuldade posso ser eu, e aí há a misericórdia para comigo mesmo e pode ser o outro ou a outra, e aí a misericórdia para com o próximo.

Se eu amo a pessoa por quem estou apaixonado ou me deleito numa ocorrência de beleza e bondade, simplesmente amo. Mas se me dobro sobre alguém no buraco e lhe estendo o braço puxando-o para a situação normal, esse meu ato gratuito de restabelecimento da norma assume o nome de Misericórdia ou Amor Misericordioso. Para além da afetividade e da espiritualidade, a misericórdia tem a ver com o conceito físico e científico da ordem cósmica.

Digamos que a lei básica do universo é a ordem, ou seja, a união, a relação, numa palavra: o Amor. De outra forma, o universo se desintegraria. Tal ordem macrocósmica, que parte do pó atômico e chega às galáxias se, se reverbera em cada um dos seres existentes, chamados microcosmos, incluindo nestes o microcosmo humano que somos nós. Tal ordem ou união nada mais é que o Amor. Os conceitos de amor-união-relação-ordem se interpenetram”  (Marchionni Antônio, “A Misericórdia é Lei do Cosmo”, in Fraternidade e Misericórdia- Um olhar a partir da justiça e do amor, Cultor de Livros, São Paulo, 2016, p. 15).

FREI VITÓRIO MAZZUCO

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

É preciso voltar a Assis - V


 Francisco e Clara de Assis não venderam sonhos

Não há misericórdia em lutas ideológicas que chegam à violência. Não há misericórdia se não sair para as periferias existenciais que são mais do que bairro, rua, espaço de cidade ou campo, centros urbanos ou lugares de tensões. A periferia existencial é o vazio da vida, a falta de sonho, de utopias, de esperanças que está nestes lugares e nos corações das pessoas. Tem muita gente que tem mansão confortável, cheia de móveis luxuosos, freezers cheios de comida, dinheiro no banco e no luxo, mas sem felicidade ou projetos para dar a vida um sentido maior. Tem tudo, mas precisam de vícios e experiências traumáticas e excesso de antidepressivo. Há periferia existencial na pobreza material dentro das periferias materiais.

Tem que haver mais misericórdia nas Igrejas e aqui vamos incluir a nossa; pois religião não pode ser um produto bonito e bem embalado para ser divulgado e vendido. Francisco e Clara de Assis não venderam sonhos, nem esperança, nem Deus, nem religião. Nossas liturgias não podem ser um remédio psicotrópico relaxante, cheias de louvores emocionais e ardor neomísticos, mas com pouco Amor pela doutrina social da Igreja e pela mística do Evangelho que deseja conduzir o ser humano a uma experiência de esperança profunda e de uma humanização profunda. Menos gospel e mais proximidade com o doente, com a viúva, criança, idoso e portadores de necessidades especiais.

Somos evangelizadores, discípulos e missionários da Misericórdia e não cidadãos turistas que fazem viagem para discutir economia global e política internacional em lugares exóticos, vendo filmes de arte/cabeça, passeando por lugares calmos e paradisíacos, longe do barulho e dos traumas dos centros urbanos e periféricos. Misericórdia é visitar o Pinel, o Juqueri, visitar a sua rua e saber de seu bairro. É bom sofrer em Paris, mas reconstruir o espaço público mais próximo quem quer?

CONTINUAÇÃO DOS APONTAMENTOS DA PALESTRA NO CAPÍTULO DAS ESTEIRAS DA FAMÍLIA FRANCISCANA DO BRASIL - APARECIDA - AGOSTO 2017

FREI VITÓRIO MAZZUCO

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segunda-feira, 18 de setembro de 2017

É preciso voltar a Assis - IV


Misericórdia não é bondade que se improvisa com validade vencida


O destinatário da Misericórdia é para o que sofre a poluição da cidade que dificulta a fluidez da respiração; os males da estufa de carbono, a água escassa das represas, a bala perdida, os que sofrem a poluição das notícias midiáticas e perdem a opinião própria, os que vivem grudados em celulares que truncam conversas e tiram a nossa inteireza; a revolta tensa das conversas dos que querem a pena de morte, os que sofrem a tormenta diária da imprensa impressa e 'wiliamborneada' nas telas da TV. Os destinatários da Misericórdia são os que têm que escutar constantes notícias ruins, malfazejas, apocalípticas, ou os diários boletins de sangue no Oriente Médio ou do sangue jorrando da cabeça e do peito baleado dos mendigos do centro da cidade. A Misericórdia dá conta e alento à estas criaturas imersas em coisas tão reais? Quebrar a indiferença já é um caminho, pois a Misericórdia é um caminho para conduzir o ser vivente para um outro lugar.

Misericórdia tem a vertente evangélica de dar de comer aos famintos, acolher peregrinos, cuidar dos enfermos, visitar encarcerados, enterrar os mortos, doar roupa para os nus vítimas dos descuidos. Misericórdia é tarefa e exercício de Amor e não desobrigação de um dever burocrático. Tem que ser expressão de algo mais profundo. A Misericórdia vem antes! A justiça aboliu a escravidão, mas a misericórdia, a indignação, a solidariedade para com a dor dos escravos chegou primeiro.

Diz Tagore, o nosso querido poeta e místico hindu: “A Misericórdia é um pássaro, que é o primeiro que, na noite, pressente a alvorada”.

Misericórdia complementa os valores que existem e supre os que inexistem. Misericórdia não é bondade que se improvisa com validade vencida e prazo para acabar, esta duração pré-fixada de campanhas; mas é a própria e constante bondade presente em toda visão e ação humana.

Vamos voltar a florir o vale de lágrimas antes que acabe o vale! Vamos diminuir a quantidade de lágrimas do vale e de toda terra. Vamos unir Misericórdia e Direitos Humanos que é exatamente não deixar faltar o básico para viver. Há Misericórdia no saneamento básico, no avanço econômico sustentável, na saúde e educação de qualidade, na igualdade de gênero, nas vivências participativas, na acolhida aos refugiados.

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FREI VITÓRIO MAZZUCO

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segunda-feira, 28 de agosto de 2017

É preciso voltar a Assis - III

Precisamos resgatar uma moral teológica para o mundo

É tempo de limpar a vida de egoísmo, estagnação, vaidade, presunção, negligência, falta de delicadeza, instabilidade, fé fragilizada.

O lema do Brasão Episcopal do Papa Francisco, quando era Arcebispo em Buenos Aires, era este: "Miserando atque elegendo”: olhando com amor o escolheu. Hoje temos que colocar este olhar de misericórdia e viver a misericórdia dentro de uma relação horizontal entre ética e ontologia: valores que definem o Ser. É o grande momento da Ontologia, Axiologia e Cosmologia.

A Misericórdia não é apenas uma lei moral ou ética, mas é uma virtude essencial para qualquer relacionamento. A Misericórdia, a Fraternidade e a Compaixão correm o risco de não serem entendidas se a comunidade mundial não for colocada em contato com a possibilidade de superar abismos enormes que nos separam, abismo culturais, abismos da intolerância, abismos da ausência de valores que impactam as diversas dimensões da vida. Diz o Papa Francisco: “Um dos graves problemas de nosso tempo é certamente a alterada relação com a vida”.

A Misericórdia é a grande virtude de Deus, e nós precisamos resgatar uma moral teológica para o mundo. O que temos é uma moral de Estado onde só existem direitos e não deveres, e isto cria dicotomias infernais. A Misericórdia, como compaixão e respeito pela vida das pessoas, é um esvaziar-se para dar sentido à lógica da vida de todo ser humano. É uma ética de alteridade e uma moral que respeita e acolhe a maneira como a vida de alguém deve se desenvolver.

A Misericórdia é o coração pulsante do Evangelho!  Diz nosso Papa Francisco: “A misericórdia de Deus é o coração pulsante do Evangelho, e que por meio dele deve chegar ao coração e à mente de cada pessoa e de todas as criaturas”.

O destinatário da Misericórdia é, a partir desta convocação, qualquer criatura que habita a face da terra; aqueles que vivem a vida como ela se apresenta, com suas limitações, mas alegrando-se com a felicidade dos que possam ter uma possibilidade de vida melhor; criaturas humanas que estão na rua, na casa, no trabalho, na escola, no concerto, no hospital, na prisão, no quartel, na fábrica. O destinatário da Misericórdia é a pessoa que acorda e vai trabalhar, que sofre no trânsito, luta pelo lugar nos meios de transporte, que está na desesperança do desemprego ou na dúvida e na dívida, na droga e no álcool; os que precisam desenvolver esforços físicos, psicológicos ou mentais para enfrentar esse jogo de mil combinações do dia a dia.

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FREI VITÓRIO MAZZUCO

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terça-feira, 22 de agosto de 2017

É preciso voltar a Assis - II

NÃO PODE HAVER FRATERNIDADE SEM MISERICÓRDIA


Há obediência em ouvir uma voz e vir. Há forte energia da presença fraterna. Há renovação de promessas e sentir a presença de sentir-se pertença. Há uma virtude vivida por Deus e seu Filho que nos inspira: a Misericórdia! Colocar o coração nos limites da fragilidade humana para descobrir a força de amar e cuidar. Não pode haver Fraternidade sem Misericórdia, diante dos desafios éticos e humanísticos do mundo contemporâneo.

Quando aconteceram os primeiros Capítulos das Esteiras, o momento celebrativo era Pentecostes e o fogo que estava nas cabeças vinha do incandescente amor que estava no coração. Não era fácil para eles em tempos de mudanças do feudalismo para a comuna, da eclesiologia decadente para a força dos Movimentos Penitenciais, um sentimento novo de Cortesia e Cordialidade em tempos rudes de guerras. Assis não era só videiras e girassóis, havia o expectro da guerra entre nobres e plebeus, entre o papa e o imperador entre a avareza e a desambição.

Mas hoje Assis é aqui, em tempos de guerras, tensões, violência urbana, governo paralelo do tráfico e um atentado moral que é o desgoverno ao qual estamos sujeitos. Assis é aqui em meio a surpreendentes atentados terroristas, depressão ganhando espaço como uma grande síndrome moderna;  a alienante busca de felicidade por meio das drogas; uma eclesiologia de freio de mão puxado, mas que começa a soltar-se aos poucos. Há 800 anos, um mendigo chamado Francisco,  adentra a estrutura eclesial e vai fazer um Papa sonhar; e hoje um Papa Francisco faz toda uma Igreja sonhar e anda soltando as amarras.

O Ano da Misericórdia, em 2016, nos provocou com uma rara onda positiva para repensar, viver e levar a Misericórdia. E do século XIII ao século XXI há segmentos do tempo que lembram para nós que todo tempo é tempo de salvação, e lembram para nós um tempo propício onde a salvação age com mais intensidade. Este é o nosso tempo! Viver a misericórdia é derramar qualidade num tempo de dramáticas desesperanças.

Voltar a Assis, no tempo de Clara e Francisco, é retomar o tempo de humanizar um Deus e divinizar o humano. Se não, como se apaixonar pela Encarnação? Vamos voltar como peregrinação, conversão e indulgência, levando a Misericórdia. Peregrinação andar pelos campos da realidade. Conversão como mudança de lugar. Indulgência como perdono, perdonare, per+dono, através dos dons, devolver os dons, apresentar-se com qualidade. Mais comunhão de vida. Não existe intercessão sem comunhão.

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FREI VITÓRIO MAZZUCO

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

“É preciso voltar a Assis!”


Não podemos voltar ao passado, mas podemos trazê-lo de volta até nós e atualizá-lo. Francisco de Assis e Clara de Assis não são santos do passado, mas sim do presente. Eles puxam a nossa história para a frente e apontam um futuro de esperança. Eles são santos da utopia e sonhos não envelhecem. Falta de esperança e desencanto no mundo não fazem parte da nossa proposta franciscana e clariana.

O Espelho da Misericórdia é olhar o mundo e sonhar, propor e concretizar uma humanidade possível, um mundo possível e um Deus possível. Assis, mais do que uma cidade é um lugar onde os espíritos sadios se encontram. Assis é aqui no Capítulo das Esteiras onde o ontem e o hoje se encontram para tecer propostas urgentes agora e para o amanhã de certezas.

Vamos voltar a Assis como Capítulo das Esteiras, vamos refazer I Fioretti 18, que narra para nós a inspiração do fato: “Grandes coisas prometemos, maiores nos são prometidas”. A palavra Capítulo tem sua raiz latina “caput”, isto é, cabeça. Mas num sentindo mais amplo, o que está na totalidade do nosso corpo, mente, espírito, alma e coração. “Caput” é o que está no mais alto dos nossos anseios, o que está em nosso centro, núcleo, no lugar mais elevado, naquilo que está acima, no mais importante.

Temos que dizer como o apóstolo Paulo que Cristo é a cabeça do Corpo Místico.  Caput, Capítulo, Capitão, Capital, a cidade mais importante, cabeceira, o lugar da nascente, um manancial forte e inesgotável. Caput, Capítulo, o que está nas nossas cabeças? Quem é a cabeça do grupo? Para São Francisco o Espírito Santo era a cabeça, o Ministro Geral da Ordem; para Clara, o Espelho era a fusão entre a Amada e o Amado; para a Fraternidade Primitiva, o Capítulo sabia gerar adequadamente obediência, pobreza e pureza de coração na medida certa, esta coisa linda de ter a cabeça afiadíssima com o Evangelho. Então, vamos voltar a Assis, a Santa Maria dos Anjos, e reunir milhares no mesmo espírito, sem falar banalidades, mas contar as maravilhas que o Senhor anda realizando através da força do comum. Como buscar inspiração? O que move um encontro assim? O que atrai para um encontro assim? A lógica da pobreza e da simplicidade justifica as Esteiras.

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FREI VITÓRIO MAZZUCO

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

FRANCISCO DE ASSIS, NOSSO IRMÃO


Quero apresentar este livro com vários autores: Costa Freitas, David Azevedo, Adelino Pereira, Gama Caeiro Cerqueira Gonçalves, Carreira das Neves e João Lourenço,  Francisco de Assis Nosso Irmão, Problemas de Ontem e de Hoje, Editorial Franciscana, Braga, Portugal, 1995. É uma coletânea da homenagem feita a Província Portuguesa da Ordem Franciscana, na passagem do primeiro centenário da sua restauração.

O livro relata em vários artigos a Fraternidade que Francisco viveu com alma ao longo de seu caminho e dela impregnando todos os seus comportamentos, a oração, a pobreza, a pregação, a itinerância, o cuidado dos irmãos, a relação com a Igreja, a promoção da paz, a reconciliação  e todas as formas do seu relacionamento com as pessoas e com a natureza, a solidariedade, o sofrimento e o Cântico das Criaturas.

A Fraternidade é o que se vê primeiro em Francisco, como se ela fosse a esperança menina que adormecida tem no coração e que a figura do Santo faz despertar e sorrir, como luz matinal dum sol que por fim há de irradiar triunfante sobre o mundo.

No livro, os autores, levantam questões que fazem sofrer e inquietar a humanidade hoje e aí projetar o sentir franciscano.  Mais que mensagem proclamada, a Fraternidade é um diálogo que escuta o sofrer humano e procura dele participar e sobre ele dizer o que sente uma alma franciscana. A experiência de Deus, a vivência religiosa, o problema do mal, a paz e a ecologia são algumas destas questões.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

DIA DOS PAIS


Pais são histórias que atravessam anos. Encarnam valores tais como confiança, força, liderança, sustento, objetividade, proteção. Pais são ideais transformados em projeto de vida, são cuidadores da mulher e dos filhos, do biológico ao espiritual, do afetivo ao material estão ali. Têm um papel determinado na família e na sociedade. Pais são aqueles com quem primeiro brincamos na infância, com quem fizemos o dever de casa; eles repassaram segredos, disseram verdades, repreenderam com o olhar, e fizeram deles os nossos objetivos.

Pais são discretos, hábeis e ousados. Antecipam nossas intenções e guardam bugigangas úteis. Têm tino comercial e compreensão rápida. Buscam incansavelmente o bem dos filhos. Pais entendem os filhos em seus mundos; alegram-se e apoiam tudo o que de bom acontecem aos filhos, e trazem ideias para facilitar caminhos. Pais amam as mães. Pais deixam fluir coisas positivas, dão ânimo, mesmo nas dificuldades. Pais são necessários demais para moldar em nós o melhor de nós!

FELIZ DIA DOS PAIS!

FREI VITÓRIO MAZZUCO FILHO

quinta-feira, 27 de julho de 2017

O jeito franciscano de não ter cargo de mando


Nas Crônicas de Salimbene de Parma temos o relato: “Também Frei João de Parma, sendo Ministro Geral, quando se tocava o sino para limpar os legumes ou verduras, ia aos grupos de trabalho do convento e trabalhava como os outros irmãos, como muitas vezes vi com meus olhos. E porque me era familiar, eu lhe dizia: “Pai, vós fazeis o que ensinou o Senhor: Quem é o maior entre vós faça-se o menor, e o que precede como quem serve” (Lc 22,26). E ele respondia: “Assim devemos cumprir toda justiça, isto é, a perfeita humildade”. Também participava do ofício eclesiástico dia e noite, principalmente das Matinas, das Vésperas e da missa conventual. Tudo o que o cantor lhe pedia, fazia-o imediatamente, iniciando as antífonas, cantando as leituras e responsórios e rezando as missas conventuais” (Slb 44).

Num mundo onde existe competição, excesso de status hierárquico, sedução do poder, domínio e ostentação do cargo de mando, vale este jeito franciscano de servir. Ter um cargo não é ter poder, mas serviço. Serviço como a ação generosa de se dar, uma ação esplendorosa de disponibilidade humilde, generosa, cheia de cordialidade. Fazer na pura gratuidade, no modo de doar-se livremente, voluntariamente, na oferenda do fenômeno chamado amor.

Não é ter cargo de mando, mas estar na ação espontânea de ser útil, ser capaz de estar à altura de uma grande ou pequena ação feita na boa vontade. É aquele que tem no servir o espírito do serviço. Servir é eliminar a superioridade. Não é ser maior ou melhor, mas é dar-se sem conotação de domínio, de imposição, de exploração e de poder. É a original doação do simples, capaz de um trabalho humilde.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quarta-feira, 12 de julho de 2017

Francisco de Assis, visitado pelo Senhor


Diz a Legenda dos Três Companheiros: “Quando, já refeitos, saíram de casa e os companheiros todos juntos o precediam, indo pela cidade a cantar, ele, levando o báculo na mão como senhor, ia um pouco atrás deles, não cantado, mas meditando com mais diligência. E eis que subitamente é visitado pelo Senhor, seu coração fica repleto de tão grande doçura que ele não podia falar, sentir nem se mover, e nada mais conseguia sentir ou ouvir, a não ser aquela doçura que de tal modo o alienara dos sentidos corporais que, - como ele disse posteriormente – se naquele momento tivesse sido todo cortado em pedaços, não teria podido mover-se do lugar” ( 3Comp III, 3-4 ).

Em muitos e muitos momentos de sua vida, Francisco de Assis entrou num recolhimento necessário. Saiu dos tumultos do mundo para concentrar-se em estar mais perto do seu  Senhor. Numa busca fervorosa, as respostas vão tornando-se mais claras. É uma passagem mística! E a passagem mística significa de uma experiência que se tem escolher com mais intensidade, escolher o melhor, escolher com exatidão o que é o Espírito do Senhor e o seu santo modo de operar e recolher-se mais na exatidão do que o Espírito do Senhor está pedindo. É o instante de intimidade que irrompe no coração.

Ser visitado pelo Senhor, ser visitado pela inspiração, ser visitado pelo amor. É aquele momento que instaura uma vontade de existir na doçura do Senhor. A partir de então, Francisco de Assis fala com a suavidade do Senhor. Doçura é contraste com a aridez, doçura é contrário de vazio, do sem sentido. Ao encontrar o instante da graça que toma conta de todo ser, Francisco de Assis procura não perder este momento, e guarda o suave, hospeda a calma e, na serenidade, tem as melhores palavras, atos e presença. Na paz que isto traz percebe melhor a verdade de todas as coisas. Começa a falar com a tranquilidade do Senhor. Vai mais para dentro de si, torna-se rigoroso na busca, mas muito cordial com tudo e todos. Encontra a nova medida do agradável. Experimenta o serviço abnegado ao desprezível.

Ser visitado pelo Senhor é a doçura do enamoramento, a medida exata do modo de amar, servir e trabalhar; é ter a coragem de ser diferente, de ser despertado por uma grande afeição. Ser visitado pelo Senhor traz para Francisco o sabor suave da vida. Atentos a esta experiência vamos também experimentá-la em nós.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

segunda-feira, 3 de julho de 2017

FRANCISCO DE ASSIS E A ESMOLA



Na Vida Segunda de Tomás de Celano temos o relato: "Noutra ocasião, na Porciúncula, ao voltar um irmão de Assis com esmola, já próximo de cemitério, começou a prorromper em canto e a louvar o Senhor em alta voz. Tendo-o ouvido, o santo salta de repente, corre para fora e, tendo beijado o ombro do irmão, coloca o saco em seu próprio ombro e diz: 'Bendito seja meu irmão que vai com prontidão, pede com humildade e volta alegrando-se'” (2Cel 76).

No início da Ordem havia o frade esmoler. Saía pedindo esmolas para ter o que partilhar com a Fraternidade e com os pobres que batiam as portas das Fraternidades. A esmola, no período medieval, podia ser a ostentação de quem tem e podia dar, como a superação de todos os entraves daquele que ia pedir. Dar e receber comportam valores. O Evangelho é claro quando diz: "Recebeste de graça, de graça deveis dar” (10,8). Pedir era um exercício de extrema humildade. Dar era o exercício de colocar em comum. Francisco ao ver o irmão voltar cantando e louvando sabe que este está feliz pelo dever cumprido de pedir para suprir as necessidades dos que precisam. Sai em direção ao irmão num salto de acolhimento, gratidão e reconhecimento. Beija os ombros que suportaram o peso das coisas carregadas. Esmola é prontidão em perceber as necessidades; é a humilde receptividade do pedir e receber, é a alegria de ver o amor transformado em gestos concretos de comunhão de palavras, presença e de bens.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quarta-feira, 31 de maio de 2017

FRANCISCO, CAMINHO E SONHO


O autor desta obra diz: “São Francisco, quando eu escrevi as páginas deste livro, e mesmo agora, tantos anos depois, é para mim o homem que caminhou através da porta estreita de sua cidade, deixando para trás posses, mãe, pai, amigos e parentes, e começou a viver no meio de leprosos uma vida livre e desprendida que transformou o pântano fétido abaixo de Assis em um novo Éden, um paraíso de amor cristão. Esta imagem tem permanecido comigo, e esta imagem fez deste livro para mim uma alegria em escrevê-lo. (...).

    Hoje, quando você caminha pelo interior da Úmbria, a paz de São Francisco infiltra na sua alma, e você começa novamente a acreditar que a perfeita alegria é possível, mesmo para homens e mulheres modernos, nos mesmos termos em que São Francisco a conquistou.  A maior parte consideraria esses termos muito elevados: Francisco conquistou a alegria através do perfeito desapego. O que vem a seguir é o relato de um peregrino sobre o que o desapego envolveu. A história começa e termina com a morte de Francisco. Tudo nesse intervalo são lembranças e consequentemente, os incidentes são fragmentados e fora de linha contínua da narrativa. Sua unificação é, eu espero, o próprio Francisco”.
Tudo isto  está na simpática obra: FRANCISCO, A caminhada e o sonho, de Murray Bodo, CFFB, Petrópolis,2004. Leiam!

FREI VITÓRIO MAZZUCO

terça-feira, 16 de maio de 2017

Francisco e o irmão corpo


Frei Vitório Mazzuco

Conta Tomás de Celano: “Disse também uma vez o santo: ”Deve-se prover o irmão corpo com discernimento, para que ele não provoque a tempestade da tristeza. Seja-lhe tirada a ocasião de murmurar, para que ele não fique entediado de vigiar e de perseverar reverentemente em oração. Ele, pois diria: “Morro de fome”, não consigo carregar o peso de teu exercício. Depois de ter devorado suficiente ração, se ele resmungar tais coisas, sabei que o jumento preguiçoso precisa se esporas, e o burrinho indolente espera chicote” “ ( 2Cel 129 ).

Hoje muita gente quer moldar o corpo com exercícios e dietas. Nas academias os horários estão cheios com pontuais exercícios. Nos bosques e logradouros próprios para isso, caminhadas e corridas. Suplementos vitamínicos. A vida é fit, o alimento é fit, a mística é fitness. Para se chegar a medida certa acontecem acertos e exageros. Será que forçar o corpo além das suas possibilidades é sadio? Fazer dieta é não comer, ou saber comer? É preciso escutar o corpo que clama como no texto acima: ”não consigo carregar o peso de teu exercício!”.  Claro que o corpo tem que ser domado como o texto acentua: “o jumento preguiçoso precisa de esporas”. Mas atenção a medida certa! Nem demais, nem de menos. A fala de São Francisco, segundo Tomás de Celano é clara: “Deve-se prover o irmão corpo com discernimento para que ele não provoque a tempestade da tristeza”. 

Mas o texto acima, falando do corpo chama a atenção também para exercitar-se na oração. Quando o corpo está bem, a alma vem junto. 

Se existem programas para deixar um corpo sarado, por que não cuidar também da alma?

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Feliz dia das mães


Mãe é uma identidade humana grudada em Deus, pois exerce a modo divino o jeito de criar, amar, cuidar. Mãe é uma vida, uma história, um nome que vive acordado dentro da gente.  Mãe oferece um amor gratuito feito bênção. Muitos vão dizer que celebrar o Dia das Mães é apelo comercial, porém as estradas estão cheias de gente indo, os almoços preparados, presentes escolhidos, casas reencantadas de presenças filiais, túmulos novamente floridos, músicas dedicadas, e muita gente reunindo histórias.

Mãe tem este inocente jeito de amar onde os sentimentos não são vagos, mas onde o amor é encarnado e incondicional. Desprendida, natural, paciente, silenciosa, chora e ri deste jeito filial de chegar partindo.  Mãe não representa o amor como numa novela, mas é o próprio amor em seu jeito mais natural na tela de nossa vida. Mãe tem este jeito onde o humano se transcende, uma energia interior onde o amor sempre está ali. Mãe é a nossa casa verdadeira, e quando ela se vai é como se andássemos pelo mundo buscando o lar perdido. E quando ela ainda está viva voltamos sempre à sua morada para descansar lá dentro, num imenso colo.

Mãe é aquela que revela o jeito de amar como um estado de ser, por isso não se cansa de fazer. Suas palavras soam em nós como um mantra repetitivo e necessário: Não se esqueça de levar agasalho! Tomou seu remédio? Arrumou sua cama?  O almoço tá na mesa! Fez o dever de casa? Não saia sem documentos! Colocou o relógio para despertar? Tomou banho? Não perca a hora de ir para a escola!  Vai quando visitar seus avós? Não seja malcriado! Deus te abençoe! Ah! Estas palavras soam como a batida de seu coração ao ritmo dos cuidados diários.

Mãe tem este jeito simples onde a santa simplicidade armou tenda numa experiência profunda: amar é dar-se. Mãe marca plantão na cozinha temperando com vida um alimento que não encontramos em lugar nenhum. Ela vive o que o Evangelho diz ser sal da terra e luz do mundo. O Dia das Mães não é para os que compram nas Casas Bahia, o Dia das Mães é para os que celebram!  Às Mães nossas preces, as nossas mais belas orações que brotam de corações agradecidos.

Feliz Dia das Mães!

Frei Vitório Mazzuco

terça-feira, 9 de maio de 2017

Francisco de Assis, uma experiência cristã


Esta obra é muito importante para o conhecimento de São Francisco de Assis. Toda Ordem Minorítica, seu nascimento e seu desenvolvimento, tornam-se uma apologia da ação de Deus na história. Assim, a reflexão hagiográfica se configura como uma sólida confirmação da validade do próprio percurso e da própria identidade religiosa; contudo, marca também uma precisa linha de leitura da experiência original de Francisco, que encontra na sua Ordem sua máxima expressão e as premissas de sua continuidade.

Sob esta comum consciência, permanecem totalmente abertas as perguntas que, no decorrer dos séculos, dividirão os Menores quanto aos termos com os quais observar fielmente e perpetuar o próprio modelo; mas sem que por isso se comprometa a convicção de que um fio ininterrupto partira da opção de Francisco de Assis e continuava a se desenvolver no tempo e no espaço graças à obra de todos os que tinham seguido e seguiam seu ensinamento.

Para saber mais leia: Francisco de Assis, Realidade e memória de uma experiência cristã, CFFB, Petrópolis, 2004.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Francisco orante


Imagem: Lodovico Carracci - São Francisco em meditação

Frei Vitório Mazzuco

O modo orante de Francisco de Assis pode inspirar a oração que brota da nossa intimidade. Nada melhor que buscar um testemunho das Fontes Franciscanas para este jeito de orar: “Francisco, homem de Deus, corporalmente distante do Senhor, lutava para manter o espírito presente no céu; e, já feito concidadão dos anjos, somente a parede da carne o separava. Toda a sua alma tinha sede do seu Cristo, ele lhe dedicava não só todo o coração, mas também todo o corpo.

Relatamos umas poucas maravilhas das suas orações a serem imitadas pelos pósteros, o quanto vimos com nossos olhos. Conforme é possível transmitir a ouvidos humanos. Fazia de todo tempo um ócio santo, para gravar a sabedoria no coração, para não parecer que fracassava, caso não progredisse. Se por acaso as visitas dos seculares ou quaisquer negócios o surpreendiam, interrompendo-o antes de terminar, ele voltava novamente às realidades interiores (...).

Sempre procurava um lugar escondido em que pudesse unir a seu Deus não só o espírito, mas também cada membro. Quando era subitamente agraciado em público pela visita do Senhor, para não estar sem cela, fazia do manto uma pequena cela. Muitas vezes, faltando-lhe o manto, para não revelar o maná escondido, cobria o rosto com a manga. Sempre interpunha algo aos presentes para que não conhecessem o toque do esposo, de modo que, inserido entre muitos no estreito espaço de um navio, rezava sem ser visto. Finalmente, não podendo nada destas coisas, fazia do peito um templo (...).

Estas coisas em casa. Mas, rezando nas florestas e nos lugares solitários, enchia os bosques de gemidos, banhava os lugares de lágrimas, batia com a mão no peito e aí, encontrando como que um esconderijo mais oculto, conversava muitas vezes com palavras com seu Senhor. Aí respondia ao Juiz, suplicava ao Pai, conversava com o Amigo, divertia-se com o Esposo (...)Muitas vezes, com os lábios imóveis, ruminava interiormente e, arrastando para o interior as realidades exteriores, elevava o espírito às superiores. Assim, totalmente transformado não só em orante, mas em oração, dirigia toda atenção e todo afeto a uma única coisa que pedia ao Senhor” (2 Cel 94).

Podemos concluir de olho nas Fontes que a oração de Francisco é uma oração que envolve corpo, mente, alma e coração. É ocupar o tempo com a sabedoria do coração. Uma total concentração para não perder o instante da visita do Senhor e o estado de enlevo. É a busca do lugar escondido e solitário para estar melhor no comum. É o toque do Esposo, a conversa com o Amigo e a resposta ao Juiz. É fazer do peito um templo! Homem feito oração.

terça-feira, 25 de abril de 2017

FRANCISCO E A HUMILDADE


De um modo preciso e brilhante, Tomás de Celano narra como Francisco de Assis propunha a humildade: “A humildade é a guarda e beleza de todas as virtudes. Não sendo ela colocada como fundamento da estrutura espiritual, quando esta parece crescer, avança para a ruína. A humildade, para nada faltar ao homem ornado com tantas graças, o cumulara com mais copiosa fecundidade. Na verdade, segundo a sua própria reputação, ela nada era, a não ser um pecador, quando na realidade era a beleza e esplendor de toda espécie de santidade. Na humildade, ele se esforçou por edificar a si mesmo, para que à base estivesse o fundamento que aprendera de Cristo (...)  Nele  prevaleceu somente uma cobiça: tornar-se melhor, de modo que, não contente com as primeiras virtudes, acrescentava-lhes novas.

Era humilde no modo de ser, mais humilde no sentimento, humílimo na própria reputação. Não se percebia que o príncipe de Deus era um prelado, a não ser por esta claríssima pedra preciosa, porque estava presente como o mínimo entre os menores. (...) Estava longe de sua boca toda altivez, longe de seus gestos toda pompa, longe de seus atos toda soberba.

Aprendera por revelação o sentido de muitas coisas; discutindo-as diante de todos, antepunha às suas opiniões, as opiniões dos outros. Acreditava que o parecer dos companheiros era mais seguro e que o modo de ver alheio era melhor do que o próprio. Dizia que não deixara tudo pelo Senhor aquele que retinha as bolsas do próprio modo de pensar” ( 2Cel 140 ).

A humildade e a paciência são as rainhas das virtudes. Como a raiz da palavra de onde surgiu, a humidade é escondida e fecunda como o húmus. É o alicerce de reconstrução das ruínas. É o terreno fértil onde são semeadas novas virtudes. É modo de ser, sentimento que que se entrega, identidade que se revela se forçar. É minoridade. É renúncia de ostentação. É fazer valer a verdade do outro. É não ser narcisista na atuação, na pregação, na ação de guiar um grupo ou estar à frente de uma determinada tarefa. A humildade se esconde, e deixa que falem as obras.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

terça-feira, 18 de abril de 2017

SÃO FRANCISCO E A SIMPLICIDADE


Diz Tomás de Celano: “O santo, com o mais desvelado empenho, pretendia trazer em si e amava nos outros a santa simplicidade, filha da graça, irmã da sabedoria, mãe da justiça (...) Esta é aquela simplicidade que se gloria no temor de Deus, que não sabe fazer ou dizer o mal. Esta é a que, examinando a si mesma, não condena ninguém com seu julgamento e que, entregando ao melhor o devido exercício do poder, não busca nenhum poder (...) Esta é a que, em todas as leis divinas, deixando aos que hão de perecer os circunlóquios prolixos, o ornato e preciosismos de estilo, ostentações e curiosidades, busca não a casca, mas a medula, não o invólucro, mas o núcleo, não muitas coisas, mas o muito, o sumo e estável bem. O santíssimo pai buscava-a nos irmãos letrados e leigos, não acreditando que ela fosse contrária, mas verdadeiramente irmã da sabedoria, conquanto fosse para os pobres de ciência mais fácil de ter e mais pronta para praticar” (2Cel 189).

O simples entra na familiaridade de tudo, parece ter a consanguinidade de todas as relações. Francisco coloca a simplicidade como filha, irmã e mãe. Aquela que não precisa ficar só vendo o mal e condenando a tudo e a todos. A simplicidade, assim como a humildade renuncia o status do poder, por isso é irmã da minoridade. O simples é imediato, profundo, vai na essência. Não precisa de verborreia. Em vez de dizer que gosta do “precioso fruto da esposa do cantor do dia”, diz simplesmente que come ovo. O simples não entra na vaidade muito presente no mundo acadêmico, mas renuncia também o status de quem sabe para revelar a sabedoria que vem dos que não complicam a vida.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

segunda-feira, 3 de abril de 2017

FRANCISCO DE ASSIS E OS MOVIMENTOS FRANCISCANOS

São Francisco de Assis tem uma história expressiva entre os acontecimentos de dois mil anos de franciscanismo. Muitos livros escritos sobre ele não esgotam a sua trajetória de vida e sua vitalidade que atravessa oito séculos. Ele fundou três Ordens, uma delas com a inspiração de Clara de Assis, e seus seguidores e seguidoras tornaram-se numerosos no Ocidente e no Oriente. A sua original proposta de retorno à pureza original do Evangelho e os rumos que estas Ordens tomaram não foi algo tranquilo.

Este livro procura analisar as características e perspectivas da experiência religiosa de Francisco de Assis e como os seus primeiros companheiros absorveram esta experiência. Sua Ordem e sua figura única e necessária foram a inspiração para muitos movimentos que daí nasceram. A questão é saber se conseguiram ser fiéis ao que registram seus Escritos e Fontes. Há um Francisco real e um Francisco construído no imaginário de muitos, e nos diversos “usos” que  fazem dele.

O Espírito de Assis transborda o mundo. Um Papa escolhe o seu nome. Ele é o nome da Pobreza, da Paz e do Planeta. Francisco de Assis é uma identidade espiritual e religiosa e gerou uma forte Fraternidade com este rosto: “A quem lhes perguntar de que profissão, de que regra, de que Ordem vós sois, respondei assim: Somos da primeira e principal regra da religião cristã, ou seja, do Evangelho, que é fonte e princípio de todas as regras”.

Querem saber mais? Leiam esta obra magnífica de Giovanni Miccoli, FRANCISCO, o santo de Assis na origem dos movimentos franciscanos, Martins Fontes/Selo Martins, São Paulo, 2013.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

terça-feira, 28 de março de 2017

Francisco de Assis e a alegria espiritual


Na segunda vida de Tomás de Celano temos o relato: “Este santo afirmava que o remédio mais seguro contra as mil insídias e astúcias do inimigo é a alegria espiritual (...) O demônio exulta, acima de tudo, quando pode surrupiar ao servo de Deus a alegria do espírito. Ele leva um pó que possa jogar, o mais possível, nas pequenas frestas da consciência e sujar a candura da mente e a pureza da vida. Mas, quando a alegria espiritual enche os corações, em vão a serpente derrama o veneno letal (...) Quando, porém, o espírito está choroso, desolado e tristonho, é facilmente absorvido pela tristeza ou levado a alegrias vãs. Por conseguinte, o santo esforçava-se por manter-se sempre na alegria do coração, por conservar a unção do espírito e o óleo da alegria. Com o máximo cuidado evitava a péssima doença da tristeza, de modo que, quando a sentia a penetrar na mente, ainda que um pouquinho, corria o mais depressa possível à oração” (2Cel 125).

Numa marchinha de carnaval antiga, pedia-se que o guarda colocasse para fora do salão quem jogasse pós de mico na alegria dos outros. O demônio, isto é, a contrariedade da vida, a encarnação do espírito do mal em alguns detalhes da vida, gosta de sujar a serenidade. Nós gostamos de jogar o pó da negatividade na fluência natural da vida. Levantamos com notícias tristes e trágicas e deixamos que elas sejam a opaca lente de nosso olhar. No café da manhã trocamos receitas de psicotrópicos; almoçamos fazendo uma atualização das mortes acontecidas; jantamos notícias de uma cidade alerta contra um onipresente perigo. Vemos o mal no porteiro, na cuidadora, no rapaz que veio instalar a Net, no cachorro da vizinha e em todas as comidas que saboreamos porque acreditamos que tudo faz mal! Se damos espaço a isso sufocamos a alegria espiritual.

Francisco nos ensina que diante da doença, da tristeza, possamos correr o mais depressa possível à oração. Dividir preocupações de um modo orante é o salmo da cura em meio a tormentos. Almas que rezam têm a serena alegria dos que confiam. Na oração do salmista tem sempre uma saída para as tristezas do mundo. Alegria vã é alegria vazia. Os vãos são espaços vazios que precisam ser preenchidos. Que tal encher o vazio com preces?

FREI VITÓRIO MAZZUCO

Imagem do artista plástico carioca Vagner Aniceto/http://www.vagneraniceto.com.br

sexta-feira, 17 de março de 2017

FRANCISCO DE ASSIS E DE JESUS

Francisco é o cristão canonizado com o maior acervo bibliográfico. Este livro propõe mostrar Francisco de Assis como uma testemunha qualificada de conformidade a Jesus Cristo. Para Francisco, o Evangelho não é um livro de leitura e consulta, mas uma aventura na qual entramos. É “Vem, e segue-me!” e não "Toma e lê!”. Francisco está inteirinho nesta diferença.

O livro quer mostrar como Francisco revela a humanidade de Jesus Cristo. O autor é um frade capuchinho, ex-provincial de sua Ordem. Mostra com clareza o espírito franciscano e convida-nos a compreender o que deve ser a preocupação com a exclusão, qualquer que seja a forma. O autor nos mostra que o Evangelho de Jesus Cristo é um apelo, em nome de Deus que é o “Pai de toda humanidade”, a instaurar um novo tipo de relações humanas, mais do que viver a pobreza.

Um livro necessário para a Espiritualidade! Leia: Francisco de Assis e de Jesus, de Marie-Abdon Santaner, Edições Loyola, São Paulo, 1984

FREI VITÓRIO MAZZUCO 

terça-feira, 7 de março de 2017

São Francisco e as mulheres que marcaram sua vida



Para o Dia da Mulher, umas palavras a partir da experiência de São Francisco. Ele tem uma aguçada sensibilidade muito própria da sua personalidade e espiritualidade. Colocou em sua vida, numa medida exata, o equilíbrio necessário da incessante busca de ser um humano forte. Nele, o masculino e o feminino fraternizam-se. Há a presença histórica de mulheres em sua vida.

Falemos de sua mãe, Jeanne de Boulermont, a mulher que veio da região francesa da Picardia, por isso mesmo conhecida em Assis como Dona Picà, a mulher que veio da distante região dos nobres e cavaleiros. Nela Francisco viveu a intensidade do Amor de Mãe. O amor do cuidado, da compreensão, da prece, da preocupação, das canções ensinadas, da língua francesa, da cortesia, da fineza, da ternura e das múltiplas virtudes. O seu pai era homem de negócios e saiu para trazer para a família a sobrevivência. Sua mãe, mulher da educação e da casa, moldou nele a convivência. Deixou no filho as marcas da nobreza, da fé em Deus, do amor ao próximo, da generosidade, da pureza e mansidão, uma qualificada consanguinidade biológica.


Falemos de Clara de Assis, sua seguidora a partir do Esposo Amado, sua companheira e fundadora do jeito terno e claustral, contemplativo e  acolhedor mosteiro clariano franciscano, raiz de uma exuberante floração. Com ela, Francisco aprendeu a forte presença da busca da perfeição. Entre os dois há troca de projetos comuns, encontros para falar do coração em chama, santa intenção e o cuidado eterno para com a Cruz de São Damião, o lugar da inspiração. Entre os dois um sagrado Amor de contemplação, esponsalício místico, expressão feminina e masculina do Evangelho, oração contínua, comunhão perene, uma transformadora consanguinidade espiritual.

Falemos de sua amiga, Jacoba de Settesoli, com quem viveu a relação da profunda amizade. Jacoba era nobre, rica e caridosa. Dividia virtudes e bens. A grande amizade nas horas da vida esteve presente na hora do Trânsito de Francisco para a eternidade. Na celebração deste maravilhoso rito de passagem não podia faltar a figura desta mulher que trouxe seu doce preferido, o “mostaciolli”, que providenciou também a túnica e os panos que prepararam o sepultamento do amigo. Viu suas chagas e o aconchegou em seus braços na agonia. Uma leiga que viu de perto o mistério e maravilhas realizados pelo Senhor naquele Poverello e depois em sua Ordem. Entre eles, uma fecunda consanguinidade afetiva.

A mãe, Clara e Jacoba deram a sua sonhada Fraternidade o jeito materno de ser, a irmandade e a amizade. São virtudes encarnadas, nascidas de personagens reais. No Dia da Mulher, aprendamos com Francisco que o ser humano masculino e feminino vive na mãe, na esposa, na irmã, e no sonho de colocar sob as asas da proteção e do amoroso cuidado todos os que formavam e formam a sua bela família, a consanguinidade fraterna. Que São Francisco e Santa Clara abençoem todas as Mulheres em seu merecido e celebrativo dia!

FREI VITORIO MAZZUCO FILHO

terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

FRANCISCO DE ASSIS, O SEU “EU”, E ELE EM MIM

Na contracapa da obra estão estas palavras do autor: "Fui tentado a intitular este volume 'o meu Francisco' e teria sido por certo mais exato. Mas prevaleceu em mim o desejo de ouvir dele”. Um grande encontro de grandes “Eus” este belo livro: Eu, Francisco, de Carlo Carretto, Paulus, São Paulo, 1910. 

Esta obra faz de Francisco de Assis o biógrafo de si mesmo, revela seu estado de espírito e seus sentimentos. Nesta obra aparece o Santo como o Arauto da Paz, um profeta da não-violência, um defensor da força do amor. Mostra a Pobreza como força libertadora. Francisco e seus primeiros companheiros sabiam que o distanciamento absoluto em relação às coisas lhes permitiria viverem mais próximo de Deus. Pontua um amor pela Igreja, enfraquecida em tantos que pretendiam a sua renovação.
Este é um livro onde todos podem encontrar, na continua queda dos mitos, uma convocação ou um convite aos sentimentos perenes, humanos e cristãos, que tornam jovem e mais aceitável a vida.

Estas páginas, convincentes como um romance, provocatórias como uma ofensa à nossa mediocridade, estimulantes como uma meditação, mostram São Francisco de Assis como o tipo ideal do cristão para a nossa época.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

terça-feira, 14 de fevereiro de 2017

NA ESTRADA COM SÃO FRANCISCO DE ASSIS

Quer saber detalhes interessantes dos lugares onde São Francisco de Assis viveu, pregou e construiu suas Fraternidades? Leia esta boa obra de Linda Bird Francke, Na estrada com São Francisco de Assis- Uma viagem pela Úmbria e pela Toscana, Record, Rio de Janeiro, 2008.

É um cativante diário de duas viagens paralelas: a de Francisco de Assis e seu caminho rumo à santidade no século XIII e da autora do livro, Linda Bird Francke, que refez os passos do Santo pela Itália até o Egito. É a história contada de olho nos lugares e nos textos medievais. Ela não faz uma viagem de natureza espiritual, mas sim para elucidar ainda mais a admiração que causa Francisco de Assis ao inspirar e fascinar milhões de pessoas. Partindo de Assis, uma pequena cidade da Úmbria, que  atrai dois milhões de visitantes por ano, a segunda cidade italiana mais visitada depois de Roma, a autora percorreu cidades como Siena, Bologna, Veneza, Gúbio e Roma. Foi aos eremitérios escondidos nas montanhas, no Alverne, nas Celle de Cortona, na Toscana e no Vale de Rieti.

No livro, a autora discorre sobre a relação de Francisco com Clara, seus milagres, os cenários que inspiraram um grande amor pela natureza e por todas as coisas vivas. Com uma proposta original, Na estrada com São Francisco de Assis traz à luz o espírito e a personalidade de um ser legendário e constitui um guia inusitado para as belas e atemporais paisagens, lugares sagrados e cozinha italiana. Leia! Deguste!

FREI VITÓRIO MAZZUCO



quinta-feira, 2 de fevereiro de 2017

FRANCISCO DE ASSIS, O POBRE DE DEUS

Este é um dos mais famosos romances sobre a vida de São Francisco de Assis escrito por um grande mestre, Nikos Kazantzakis, um militante político que teve a literatura como a sua vocação maior. É autor de “Zorba, o Grego”, uma obra levada ao cinema com sucesso mundial. Seus romances figuram entre os preferidos do público leitor do mundo todo. Nesta obra, uma versão da vida de Francisco de Assis, encontramos uma arte sensível e comovente, um hino os valores básicos da fé e da fraternidade humanas. Leia O Pobre de Deus, de Nikos Kazantzakis, Círculo do Livro- Nova Fronteira, São Paulo, 1974.

Este romance é narrado por Frei Leão, e logo no prólogo ele diz: "Tu te lembras, Pai Francisco? Este indigno que hoje pega a pena a fim de narrar a tua crônica era humilde e feio mendigo no dia de nosso primeiro encontro. Humilde e feio, cabeludo da nuca às sobrancelhas, tinha a fisionomia coberta de pelos e olhar amedrontado. Em vez de falar, balia feito carneiro, e tu, para ridicularizar minha feiúra e humildade, me apelidaste de Irmão Leão. Porém, quando te contei a minha vida, começaste a chorar e, acolhendo-me em teus braços, disseste: 'Perdoa-me a zombaria. Agora vejo que és realmente um leão, pois só um leão ousaria pretender o que pretendes. (...). De tanto perguntar, minha garganta secou. De tanto caminhar, meus pés incharam. Cansei de bater às portas, mendigando a princípio pão, depois uma palavra amiga e finalmente a salvação. Todo mundo fazia troça e me tratava como débil mental. Era empurrado, escorraçado, estava farto. Aprendi a blasfemar. Afinal de contas, sou humano, sentia-me exausto de andar, passar fome e frio, suplicar ao céu sem nunca obter resposta. Uma noite, no auge do desespero, Deus tomou minha mão. E também a tua, Pai Francisco. Assim nos encontramos”.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

segunda-feira, 30 de janeiro de 2017

FRANCISCO DE ASSIS, HISTÓRIA E HERANÇA


Esta é uma obra que faltava no Brasil para ampliar ainda mais o nosso conhecimento sobre Francisco de Assis. É uma obra de vários autores, que na primeira parte mostra a História de Francisco e na segunda parte a herança de Francisco. A nova forma de vida de Francisco gradualmente se cristalizou após um período em que viveu como eremita fora de Assis, restaurando igrejas em ruínas, corrigindo seus erros, apoiando a sua vida nas escrituras. Enfim um caminho de maturidade espiritual. Vive o estilo da igreja primitiva e dos apóstolos. Era muito consciente da total presença divina, fazendo com que todo o mundo fosse um anfiteatro para o louvor ao Criador.

Seu ideal teve um grande apelo para uma ampla variedade de pessoas de várias origens, seus seguidores também onipresentes, levaram sua mensagem de penitência e renovação com força missionária. Sua Regra de Vida é uma força vital e vinculativa. Este livro concentra-se no fundador e no primeiro século da vida e do apostolado de seus primeiros discípulos. O último capítulo fala da era moderna e ao mundo do ecumenismo, ao qual Francisco é uma figura atraente.

Imperdível esta obra! Leiam: Francisco de Assis, História e Herança, Michael J.P. Robson ( Org.), Editora Santuário, Aparecida,SP,2012.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

terça-feira, 24 de janeiro de 2017

FRANCISCO DE ASSIS, EM BUSCA DE DEUS

“Nada se improvisa na vida de uma pessoa. O ser humano é sempre filho de uma época e de um ambiente, como as árvores e as plantas. Um abeto não cresce nas selvas tropicais nem um baobá nas alturas nevadas. Se um alto expoente humano surge na cadeia das gerações, podemos estar certos de que não brota de improviso como os cogumelos nas montanhas".

"Nossa alma se recria à imagem e semelhança das ideias que gravitam ao nosso redor, e nossas raízes se alimentam, como que por osmose e sem que o percebamos, da atmosfera de ideias que nos envolve. Para sabermos quem é o ser humano, temos que olhar ao seu redor. É o que chamamos de contorno vital.
Quando entrou no mundo pela janela de sua juventude, o filho de Pedro Bernardone deparou com um quadro de luzes e sombras. As chamas da guerra e os estandartes da paz, os desejos de reforma e a sede de dinheiro, tudo estava misturado na mais contraditória fusão. Se quisermos desvelar o mistério de Francisco de Assis, pelo menos alguns segmentos, é essa a pretensão deste livro, comecemos observando o que acontece ao seu redor”.

Com estas palavras do autor, apresento esta obra indispensável: O Irmão de Assis, de  Inácio Larrañaga, Paulinas, São Paulo,2000.

FREI VITORIO MAZZUCO

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

FRANCISCO DE ASSIS E O SENTIMENTO ESTÉTICO CHEIO DE VIRTUDES

Uma das obras mais lidas no mundo franciscano é a biografia São Francisco de Assis, de Maria Sticco, Vozes, Petrópolis, 2001. É uma obra escrita por alguém que amou profundamente São Francisco de Assis. A autora nasceu em Perugia, aos 23 de Novembro de 1891 e faleceu em Assis no dia 18 de março de 1981, aos 90 anos. Uma mulher de literatura e espiritualidade e que muito contribuiu para a espiritualidade franciscana. Tornou-se uma leiga intelectual consagrada. Uniu estudo, silêncio, oração, pesquisa e mística. Ela não escreveu sobre ele, ela deixou-se moldar pelo ideal franciscano. Viveu no mundo como uma mulher das letras e mestra do espírito e vida franciscana. Agostinho Gemelli, OFM, no prefácio da obra sintetizou bem o que o livro traduz:

Baseado diretamente nas Fontes Franciscanas, chega, através da meditação, à compreensão da humanidade e sobrenaturalidade de Francisco de Assis, numa fusão do elemento humano e divino. A obra quer apresentá-lo através dos fatos, de um modo muito vivo e muito próximo, para que o leitor tenha em sua frente a imagem e a identidade de Francisco. É mostrar através de Francisco uma consciência e um modo de ser cristão. É uma narração religiosa e artística ao mesmo tempo. É um livro sereno, escrito com amor, por um coração franciscano.

Diz Maria Sticco: “O amor de Deus o leva a encontrar alegria em tudo, mas especialmente na dor perfeita, e eis a conclusão de que a vida é boa e tanto melhor quanto mais dolorosa; faz-lhe abraçar a morte como irmã, e eis que, se outros poetas haviam entendido que o amor é morte, São Francisco afirma que a morte é amor, compreendendo-o Dante e compreendendo-o todos aqueles que na vida não encontram amor e que, à palavra do santo, o esperam firmemente na agonia”. Se alguém quiser entender os princípios cavalheirescos que inspiraram o caminho de Francisco de Assis, leia esta obra!

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

FRANCISCO DE ASSIS, UM SONHO CULTURAL E ESPIRITUAL DA HUMANIDADE

Vou ao prefácio da obra que quero comentar para tirar as ideias principais desta crônica. Não existe santo a respeito do qual se tenha escrito tanto como de São Francisco de Assis. As publicações dedicadas a ele ultrapassam o quadro da literatura devocional.  Ele é uma fonte inesgotável de informação e emoção. Francisco é dessas figuras das quais a humanidade sempre sentirá orgulho. Suas qualidades forçam a simpatia; seus defeitos, se os tem, são atraentes; sua santidade nada tem de afetado ou ameaçador; seus dons naturais suscitam total admiração; e seus ensinamentos exalam o frescor, poesia e serenidade, que mesmo espíritos embotados podem encontrar neles razões para amar a vida e para crer na bondade divina. A todos cativa por sua nobreza, seu desinteresse e sua bondade.

Este homem cavalheiroso avança sempre nobremente para os elevados objetivos que se propôs. Ignora pensamentos medíocres, as mentiras piedosas, pensamentos mesquinhos. Se respeita todas as elites, se obedece de boa vontade não apenas aos superiores, mas também aos iguais e aos inferiores. Não é por nenhum servilismo lisonjeiro, próprio de aduladores e de escravos. Realmente ele nasceu príncipe. E que razões teria ele para lisonjear, se não procura de forma alguma vantagens temporais? Deixa as honras para os outros, esquiva-se das polêmicas, não se preocupa com o amanhã. Quando tem dinheiro, o dá a quem lhe pede; quando não tem, vai aos mendigos para dar-lhes suas vestes. Todos os irmãos desfrutam da sua afeição. Em primeiro lugar os leprosos. Em seguida, os salteadores dos caminhos e os demais pecadores, pelos quais transborda de indulgência e ternura. Pois não julga a ninguém. Inclina-se obsequioso ao menor dos semelhantes, trata a todos com respeito, fala a todos com gentileza e cortesia.

Quer saber mais? Leia a bela biografia: Vida de São Francisco de Assis, de Omer Englebert, EST Edições, Porto Alegre, 2004.  Obra indispensável! Uma primorosa tradução de Frei Adelino G. Pilonetto.

FREI VITORIO MAZZUCO

terça-feira, 3 de janeiro de 2017

FRANCISCO DE ASSIS: O LEIGO E O RELIGIOSO

Indico o livro Francisco de Assis, de Jacques Le Goff, Record, Rio de Janeiro, 2007. O autor, consagrado historiador e medievalista, foi presidente da célebre Escola de Altos Estudos de Ciências Sociais, na França. Como todo bom estudioso e pesquisador do período medieval, Jacques Le Goff, não deixa de interessar-se por São Francisco de Assis. Ele mostra Francisco como personagem histórico, leigo e religioso, que sacudiu a religião, a civilização e a sociedade de então. Nas cidades em pleno desenvolvimento, nas estradas, nos solitários retiros em cavernas e florestas, com a nova prática da pobreza, da humildade e da palavra. Indo por um caminho, às vezes diferente da eclesiologia da época, mas sem cair na heresia. Francisco desempenhou um papel decisivo no impulso de novas ordens mendicantes, difundindo um apostolado voltado para a nova sociedade cristã, e enriqueceu a espiritualidade com uma dimensão ecológica que fez dele o criador de um sentimento medieval da natureza expresso na religião, na literatura e na arte.

Jacques Le Goff, nesta obra, destaca Francisco como modelo de um novo tipo de santidade centrado sobre Cristo, a ponto de se identificar com ele como o primeiro homem a receber os estigmas. Foi um dos personagens mais importantes de seu tempo e, até hoje, da história medieval. Um santo sempre moderno. Ecologista na sua fascinação pela natureza, anticonsumista na radical opção pela simplicidade, defensor da liberdade de espírito, da alegria, da vida comunitária, do feminino, uma história total que sempre abalou as estruturas do poder. Em Francisco de Assis, a vida e as virtudes são o essencial. Em vida e depois da morte, este santo, seduziu e contribuiu muito para impor um modelo de santidade em que a imitação cristológica tem grande parte e em que predominam a humildade, a pobreza e a simplicidade.

FREI VITÓRIO MAZZUCO