segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

COMO E COM OS TRÊS REIS MAGOS: VAMOS AO PRESÉPIO!


Não dá para ser franciscano e não ir, de um modo especial nesta época do ano, ao Presépio; embora no espírito franciscano é preciso ser e ter o Presépio o ano inteiro e a cada momento. Nesta época do ano é inegável que o coração tem ritmo e pulsar diferente de maior sensibilidade, de alegrias e encontros, e também certos apertos, certos nós na garganta diante de tantos contrastes. O Natal fisga o coração humano de um jeito diferenciado. Como os Três Reis Magos saímos dando passos inéditos para encontrar Mistério e lugar celebrativo. Tem uma Estrela mapeando o rumo, tem uma Estrela na consciência espiritual.

Somos Magos de culturas diferentes e não dá para ir buscar Encarnação em sentido único. O Deus que vem morar na história encheu a terra de divindade humanizada. Apesar da explosão midiática de hoje, as Hierofanias, a manifestação do Sagrado na existência, são de ontem, de hoje e para o amanhã. Os Magos tinham a precisão do olhar científico que ao ser filtrado por uma Luz, tornou-se busca da presença divina. Há sempre grandes almas nascendo em algum lugar; mesmo antes de Cristo, as religiões já celebravam em algum lugar a certeza: há um Deus que atrai como um ímã e revela que, por caminhos diferentes, chegaremos todos ao Único Necessário.

Os Reis Magos entendiam de luz sideral e de Luz Absoluta. Quem conhece segredos da ciência não pode esconder que almas santas nascem em terras desconhecidas e em qualquer tempo, envoltas em panos de mistério. E saíram procurando em todo caminho, trilhas e becos, vilas e cidades. Entraram e escutaram a Alekh: “Eu trago luz para seu lar, dou luz para sua casa. Eu deixo luz em sua morada!”

A luz celebra um princípio eterno: Deus é uma luz cósmica que acende sonhos, buscas, altares, velas e moradias. Há um raio de divindade que brilha dentro de cada pessoa no olhar e no gesto. Moisés viu a luz na sarça ardente, um arbusto queimando o que não serve, o que é finito e limitado, para purificar o que ainda serve, tornando infinito. No meio da luz Deus vem conversar e não tem como não fazer um caminho, uma viagem como um Rito de Iniciação. O Evangelista João coloca a voz do Mestre: “Eu sou a luz do mundo!” (Jo 8,12). Se tem luz pode-se saber para onde se vai e onde se está, o que tem gosto e o que está pleno de temperos e sentidos. “Sal da terra e luz do mundo” (Mt 5,14). 

Continua  

FREI VITORIO MAZZUCO

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

FRANCISCO DE ASSIS: MEDITAÇÃO E ORAÇÃO – Final


Tudo o que lembra a bondade de Deus leva Francisco de Assis à contemplação e à ação. Por isso, Francisco não tem lugar nem método fixo de oração, mas sim uma livre expressão em diversas formas. Vamos comentar brevemente algumas:

Retiro Franciscano: O retiro franciscano é a experiência eremítica. Recolher-se para colher. Ir para um lugar afastado, ficar um tempo e de lá sair. Sair dos rumores do tempo para meditar os atributos de Deus. No Carceri, no Monte Alverne, Fonte Colombo, ali nestes lugares encontrava espaço e tempo para silêncio e prece. O eremo não é lugar para ficar, mas sim para sair em direção a todos para anunciar as maravilhas encontradas ali.

Leitura e Meditação da Sagrada Escritura: Francisco de Assis fez da Palavra um grande Amor em sua vida. Traduziu literalmente a Palavra em sua vida. A seguia sine glosa, isto é, sem alteração. Ler, encarnar, viver a Palavra de um modo puro, concreto e simples.

Paixão de Cristo: Foi o seu mais rico livro de meditação pessoal. Onde o Amor de Deus é capaz de chegar! Descobrir este Amor, responder ao Amor e reconstruir-se a partir deste Amor.

Natureza:  Outro vasto texto de meditação de Francisco. Imagem nos olhos, Palavra nos lábios. Olhar e contemplar. Ver a grandeza de Deus nos detalhes de minerais, vegetais, animais, tudo na mais perfeita irmandade. Criaturas do mesmo Pai, vestígios da Beleza de Deus. Meditar passando pelo filtro da natureza e aí louvar, agradecer, extasiar, admirar. No coração fazer pulsar o Cântico das Criaturas.

Fraternidade: Expressão de nosso Pai comum. Lugar de Irmãos e Irmãs. Lugar de restaurar a vida com o jeito de Jesus. Servir o semelhante, alegrar-se com ele, confraternizar-se com ele.

Trabalho: Também é oração e meditação. Diz Francisco de Assis: “ Os irmãos, aos quais o Senhor deu a graça de trabalhar, trabalhem com fidelidade e devoção, de maneira que afugente o ócio, inimigo da alma; e não percam o espírito de oração e piedade, ao qual devem servir todas as coisas temporais”. (Rb 5).

Horas de Quarto: Para Francisco de Assis, a cela, ou o quarto não é de madeira, pedra ou tijolo, mas de carne e osso; e não se acha incrustada num convento, mas acompanha ocupante para onde quer que vá. Diz o Espelho da Perfeição: “É o nosso corpo a nossa cela, e a nossa alma se encerra nele como um eremita em seu cubículo para quietamente meditar e orar a Deus”.

Esta é meditação franciscana, que se faz de maneira espontânea no retiro, na natureza, na convivência fraterna, no trabalho, onde podemos e devemos encontrar a paz e a alegria. Paz de consciência, paz da ação de graças, paz da realização de participar do grande Amor de Deus, de ser irmão e irmã de toda humana criatura e de todos os seres.

FREI VITÓRIO MAZZUCO


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

A arte nos aproxima do mistério da Encarnação


No dia 5 de dezembro, às 19h, na Catedral de Bragança Paulista (SP), tivemos o Concerto de Natal dos Meninos Cantores Canarinhos de Petrópolis. O evento foi uma parceria entre a Universidade São Francisco-USF, Secretaria da Cultura e Turismo de Bragança Paulista e Diocese de Bragança. A finalidade foi abrir o Natal na cidade e inaugurar a Exposição Internacional de Presépios que foi montada pela parceria acima citada, na Cripta da Catedral.

O Natal marca o coração humano porque é sempre o despertar de uma consciência espiritual. Há uma multiplicidade de significados do Natal em um mundo de culturas diferentes. O Coral dos Meninos Cantores e os Presépios revelam a Hierofania, isto é, a Manifestação de Deus que tem que ser percebida e celebrada. Nesta época, grande parte da humanidade volta-se intensamente para a presença divina. É uma festa luminosa, e a Luz celebra um princípio eterno. 

O Natal é um pensamento eterno, uma recordação, uma luz diária e permanente que nos desperta para a consciência de um Deus dentro de nós e em meio a nossa vida.

A Exposição de Presépios quer mostrar que a Criação toda representada ali se junta para revelar santidade e humildade para o mundo. Quando a consciência espiritual está traçada dentro de nós, uma Estrela nos revela onde está o Menino Deus. Olhar Presépios é mergulhar no infinito de Deus. Visitar Presépios é ser transportado a um glorioso estado de Iluminação Espiritual.

Os Meninos Cantores Canarinhos de Petrópolis nos encantaram com suas vozes angelicais. Eles foram importantes demais para o Natal da Paz em Bragança. O Concerto dos Canarinhos na Catedral de Bragança foi uma verdadeira Celebração. Um rito de Fraternidade. Uma ação artística, litúrgica e cultural cheia de graça e de amor para com os nossos corações, que certamente se inclinaram diante do Menino Jesus.


O canto dos Canarinhos de Petrópolis é muito importante para a humanidade. Celebra o céu e celebra a terra. Coloca a terra em harmonia com o céu, celebra as relações afetivas que, em graus diferentes nos unem ao divino e aos humanos. O canto e a música no Concerto de Natal tão expressivo, expressam a harmonia e a ordem universal. É um canto orante. A harmonia das vozes nos coloca em comunhão com todas as coisas, e põe cada coisa no seu lugar. Todos saímos do Concerto com uma leveza em nossas almas.

O canto dos Meninos Cantores vem do céu e padroniza-se em rituais de regência, afinação e competência na terra. O Maestro Marco Aurélio Lischt cria a condução da música para atender o céu e traça ritos para responder a terra.  Quando a música e rito se estabelecem, temos o céu e a terra em perfeita ordem.  O canto dos Canarinhos de Petrópolis sobe como vapor da terra para o céu e descem como um orvalho de Advento para a terra. 

Quero agradecer aqui todos os que colaboraram para que isto fosse uma realidade: 

APRESENTAÇÃO CANARINHOS DE PETRÓPOLIS:
Frei Thiago Alexandre Hayakawa, ofm
Elisangela Cadoni
Júnia Michele de Oliveira Silva Assunção

EQUIPE DE FILMAGEM:
Alessandra de Toledo Santos
Carlos Alexsandro Silva Fernandes
Celino Pires da Silva
Florival Souza

EQUIPE DE MONTAGEM DOS PRESÉPIOS:
Adriana Moraes
Bruna Regina Eufrásio
Cecília Lamper
Eloá Ramalho de Camargo
Haydeé Sonia Vieira Camiloti
Liseth Bulhões Bonventi
Lucas Souza Cardoso
Maria Cristina Gonçalves Ramalho
Mauro Ramalho
Nair Cristina Pacheco
Wesley de Godoy

EQUIPE DE ELÉTRICA:
Cleiton Aparecido Moura Oliveira
Fábio Cardoso Silveira
José Sachetti
Misael Martinez Costa
Vinícius Francisco Leiria

EQUIPE DE APOIO:
Antonio Luiz
Cristina Mendes Malengo
Juliana Correa Alvares
Ricardo Donizete Franco
Robson Fernando Bovolenta
Thaís Mendes

PINTURA:  João Batista Bernardes

COORDENAÇÃO:
Frei Vitório Mazzuco, ofm
Profa.  Dalva Leme

Todos celebramos juntos o esplendor que nos veio do céu nas vozes de Anjos em forma de Meninos. Vamos guardar para sempre a memória da graça de estarmos ali naquele momento. Que o Natal tenha para nós um ardor nunca experimentado! Feliz Natal!

Frei Vitorio Mazzuco, ofm
Pastoral Universitária































quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

FRANCISCO DE ASSIS: MEDITAÇÃO E ORAÇÃO – 3


Na Criação. Francisco de Assis gostava de meditar e orar a grandeza do amor de Deus que se manifesta na Criação, um espetáculo de beleza e bondade, de graça e magnitude de tudo o que forma o universo dos seres que a povoam e que revelam, umas e outras, o poder e a sabedoria do Criador. Todas as criaturas arrancam da alma de Francisco de Assis aquele Cântico de louvor às Criaturas, mas é ao Altíssimo que ele dirige suas palavras. É um Cântico completo de louvor e glória, de honra e bênção ao conjunto de todas as criaturas que revelam em suas qualidades as qualidades de Deus. É o Cântico da Irmandade de todos os seres, grandes ou pequenos, os irracionais e os racionais, todos na mesma origem.

Francisco de Assis medita o Deus Pai que tirou todos os seres do nada e os conserva em seu Ser a cada momento. E todos são companheiros no mesmo destino de louvar a Deus. As irracionais, pelo seu modo harmonioso e belo, seguem a ordem estabelecida. As criaturas racionais, como o ser humano, devem tomar consciência desta ordem e abraçá-la com liberdade e amor. Francisco de Assis sente isto como a sua grande missão durante toda vida, aqui no mundo e em toda a eternidade. Ele quer ser um alegre trovador que medita e canta e quer que todos sejam trovadores de Deus, de um modo amoroso e alegre, este é o modo de vida franciscana.

No Filho de Deus. O centro do amor de Deus se manifesta em seu Filho, Jesus Cristo. Francisco de Assis se encanta com o Filho de Deus, humano, um de nós, irmão, pobre, servo de todos. Por isso a convergência da meditação franciscana é a Encarnação. Tudo o que manifesta este Amor de Deus por nós, através de seu Filho, é objeto da sua contemplação, meditação e oração. É seu entusiasmo seráfico, é a sua resposta de amor. Onde isto se torna ainda mais evidente?

No Presépio. É aí que Francisco de Assis reinventa a cena do Evangelho e a representa ao vivo em Greccio. O Presépio é a meditação da Encarnação; é imitado até os dias de hoje pela piedade cristã.

Na Cruz. Desde o início de seu processo de conversão a Cruz era o que mais comovia Francisco de Assis. Chorava a paixão pelas trilhas dos bosques. (LTC 15). Compõe o Ofício da Paixão para rezar todos os dias como especial sinal de reverência e compaixão pelos sofrimentos do Filho de Deus. A sua conhecida prece nos recorda esta verdade: “Absorvei, Senhor, eu vos suplico em meu espírito, e pela suave e ardente força de vosso amor, desafeiçoai-me de todas as coisas que debaixo do céu existem, a fim de que eu possa morrer por vosso amor, ó Deus, que por meu amor vos dignastes morrer”.

Na Eucaristia. Um amor perpetuado feito alimento sagrado. Na carta escrita a todos os Irmãos e Irmãs, Francisco revela uma visão cósmica dos mistérios da redenção presente na Eucaristia. Implora aos Irmãos e Irmãs, beijando os pés, que prestem total reverência e toda honra ao Santíssimo Corpo e Sangue do Senhor.

Na Fraternidade. O Filho de Deus se fez irmão e servo. A Fraternidade refaz os vestígios de Jesus Cristo de modo radical: ser Irmão e Irmã, Menores, simples e pobres, por Amor e a serviço de tudo e de todos. Fazer o bem a alguém é fazer a Cristo. Ele via o Rei dos reis em cada irmão e irmã, por mais mínimos que eles fossem: pobres, leprosos e enfermos.

Na Sagrada Escritura. Para Francisco de Assis, a Palavra de Deus é fonte de meditação e oração. Fazia paráfrases de trechos da Sagrada Escritura e tinha grande amor pelos teólogos que explicavam a Sagrada Escritura com Espírito e Vida.

Na Igreja. Ele ama incondicionalmente a Mãe Igreja. Por ela se faz homem católico e apostólico. Respeita os que formam a Eclesiologia, contemplando neles a vontade do Senhor. Leva para dentro da Igreja a mensagem vital e revigorante da Boa Nova.

Em Maria. A Virgem feita Igreja. Rainha da Ordem, do céu e da terra, pobre e despojada como seu Filho.

Na morte. Ela é a irmã que abre a porta para a plena harmonia. Ela é a bem-aventurança da alegria pela conquista da vida eterna, ela é o acorde final de uma grande sinfonia de amor.

CONTINUA

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quinta-feira, 23 de novembro de 2017

FRANCISCO DE ASSIS: MEDITAÇÃO E ORAÇÃO – 2


Para meditar com Francisco de Assis é preciso mergulhar sem cessar e demorar-se bastante neste atributo divino: Deus é bom! E aqui voltamos novamente a Frei Constantino Koser, OFM: “Três letras apenas, mas que envolvem em si e evocam para Francisco toda a imensidade de mistérios sublimes e suaves, o seu Deus. O mais indefinível de todos os termos, o mais pleno de conteúdo, o de maior alcance, o mais divino, o mais semelhante ao próprio Deus Uno e Trino: Deus é bom. “Só Deus é bom” (Lc 18,19). “Deus caritas est”” (1Jo 4,16) (O Pensamento Franciscano, p.16).

“O Deus Uno e Trino no princípio parece um deserto, não porque o seja, mas porque a alma é incapaz de entender e de o amar. Aos poucos, à medida que o cavalheirismo, amparado e sobrenaturalizado pela graça divina, invadir o que parece deserto, ver-se-ão as flores, os encantos, a doçura, ver-se-á Deus Pai, Filho e Espírito Santo a abraçar divinamente suas criaturas, assemelhando-as mais e mais a Si mesmo em suavidade e bondade indizível. O conhecimento de Deus não dará trégua ao amor de Deus, e o amor de Deus não dará trégua ao conhecimento de Deus, estimulando a inteligência na busca do conhecimento cada vez mais profundo. Na medida em que aprofunda o conhecimento amoroso de Deus, nesta medida se conquista para Deus. Mas para que seja franciscano o modo de conhecer a Deus, é preciso que de fato o amor seja o incentivo da inteligência, o motivo e o estímulo de todas as horas e de todos os esforços” (O Pensamento Franciscano, p. 17).

Ao meditar o amor de Deus desafiava o amor: exigia insistentemente a resposta do amor. Sublime vocação das criaturas, de poderem amar a Deus. Privilégio excelso dos cavaleiros de Deus, de o poderem amar tão singularmente. Neste sentido, Francisco de Assis deu exemplo nas formas mais acabadas, mais completas, mais ardentes e mais sublimes. Clamava amargurado e feliz ao mesmo tempo pelo desejo desta felicidade do Amor: “É preciso amar muito a o Amor daquele que muito nos amou” (2Cel 196). Esta atitude radical de resposta de amor ao amor, ele expressou na Regra Não Bulada, capítulo 23: “Amemos todos de todo coração, de toda mente, e fortaleza, e com toda a inteligência, com todas as forças, com topo empenho, com todo afeto, do íntimo da alma, com todo o desejo e vontade ao Senhor Deus. Criou-nos e nos remiu, salvou-nos em pura misericórdia, cumulou-nos a nós (...) ingratos e tolos e maus, com todos os bens, e continua a cumular-nos. Nada pois, desejemos, nada queiramos, nada nos agrade ou alegre, a não ser o Criador, Redentor e Salvador nosso, o Deus único e verdadeiro que é o bem todo e verdadeiro, o supremo bem, o único bem.  É misericordioso e meigo e doce; Ele só é santo, justo, verdadeiro e reto; Ele só é benigno, inocente e casto; Ele de quem e por quem e em quem está todo perdão, toda graça, toda glória, de todos os penitentes e justos, de todos os santos que no céu conjuntamente se alegram. Quem nos dera que nós todos, em toda parte, em toda hora e em todos os tempos, todos os dias e continuamente creiamos, louvemos, bendigamos, glorifiquemos e sobreexaltemos; engrandeçamos e rendamos graças ao Deus Altíssimo e Supremo e Eterno, à Trindade e Unidade, ao Pai e ao Filho, ao Espírito Santo, ao Criador de todos. Para todos os que nele creem e nele esperam e o amam, é Ele sem princípio e sem fim, imutável, invisível, inenarrável, inefável, incompreensível, ininvestigável, bendito, louvável, glorioso, sobreexaltado, sublime e excelso, suave, amável, deleitoso e todo desejável mais que todas as coisas por todos os séculos sem fim. Amém”.

A meditação e oração em Francisco de Assis são palavras que jorram abundantemente do manancial de sua alma.

CONTINUA

FREI VITÓRIO MAZZUCO

terça-feira, 21 de novembro de 2017

FRANCISCO DE ASSIS: MEDITAÇÃO E ORAÇÃO – 1



Já me perguntaram mais do que uma vez: existe um método de oração ou meditação franciscana? O jeito franciscano não é de método, mas é mais viver em estado de oração e meditação. Menos técnica e mais vivência. Celano dizia que Francisco era um homem feito oração; e o modo como ele interage com todos os seres, o faz um natural meditativo sem método. Não encontramos nas Fontes um esquema tradicional explicitamente formulado. No cristianismo temos uma bela tradição como a meditação inaciana, o modo beneditino; ou então, meditação cristã que usa o modo oriental. Francisco é do século XIII e os métodos de meditação se fixaram no Ocidente a partir do século XV. O que escrevo aqui parte também de uma conversa com o saudoso Frei Alberto Beckhauser, OFM, com quem andei dialogando sobre isto.

Francisco de Assis, com sua personalidade individual plena de liberdade e uma consequente aversão a esquemas rígidos a serem aplicados a todos, não tem explicitamente uma meditação organizada e isto flui para a sua família franciscana. Mas se quisermos entender um caminho, um método, num sentido mais amplo, como modalidade, estilo ou atitude da alma que se empenha no “tu a Tu com Deus”, o que constitui uma meditação orante, podemos sim extrair, a partir da experiência de Francisco e seus seguidores, um exemplo e um ensinamento. Não existe um método franciscano de meditar ou orar, mas existe, sim, uma meditação orante que podemos qualificar como franciscana, pois a alma de Francisco não encontra obstáculos como a preocupação de exercício estudado e treinado.

Francisco de Assis não prescreveu aos seus discípulos formas e métodos de meditação e oração. Fez a sua experiência e deixou a seus frades a mais ampla liberdade, a fim de que cada um, exercendo suas faculdades pessoais, procurasse entender as inspirações do Senhor. Frei Alberto fala de um “cavalheirismo seráfico”, isto é, partir para a aventura de descobrir a bondade de Deus e o espetáculo de seu Amor em tudo o que existe. E para isto existe os caminhos da fraternidade conventual à fraternidade cósmica. Uma das paixões de Francisco era esconder-se sozinho nos bosques, frestas e grutas, separado de tudo e todos e ali entregar-se às reflexões sobre Deus e suas qualidades, sobretudo onde Ele é Belo e Bom. Ao conhecer o Criador conhecia-se cada vez mais como Criatura. Fazia um encontro entre Verdade e Realidade que vazava em preces breves como esta: “Senhor, quem sois vós e quem sou eu? Vós, o Altíssimo Senhor do céu e da terra; e eu um miserável vermezinho vosso ínfimo servo!” Ou aquela prece de atravessar noite: “Meus Deus e meu tudo!”

Este seu jeito de ser Fraternidade fazia uma imersão na Fraternidade Divina, a Trindade Santa, e exclamava com o coração incontido: “Ó quão glorioso e santo e grande é ter no céu um Pai! Ó quão santo e belo e deleitável é ter no céu um Esposo. Ó quão santo, dileto, aprazível e humilde, tranquilizante e doce e amorável e sobre todas as coisas desejável é ter semelhante Irmão, que deu a vida pelas suas ovelhas!” (Carta aos Fiéis, 54-56). Diz Frei Constantino Koser, OFM: “A riqueza infinita de Deus Uno e Trino, do Mistério Inefável, fundamento da vida espiritual franciscana, se refrata de modos incontáveis na retina finita da inteligência e da vontade criada. Aspectos mil há em Deus, cada qual mais amável, cada qual mais digno de consideração, cada qual por si só suficiente para a plenitude da felicidade extática pelas eternidades sem fim. A mentalidade de cada qual se espelhará nos atributos a que der preferência em suas meditações e preces. São Francisco deu preferência aos atributos que, em conjunto, manifestavam Deus como um Soberano de cavaleiros:  a grandeza, a glória, a sublimidade, a delicadeza na suavidade, modos corteses e finos, a justiça, a misericórdia, mas, mais que tudo, a bondade “  (Koser, Constantino, O Pensamento Franciscano, 15-16).

Assim meditando, contemplando, orando e saboreando, Francisco de Assis mais e mais submergia em Deus e acabava sentindo-se assoberbado pela majestade divina e ao mesmo tempo sublime, terrível, suave e delicada. E quando em seus arroubos se sentia irremediavelmente perdido, mergulhava na consideração da bondade divina, degustando a palavra em todas as formas: “Onipotente, santíssimo, altíssimo e sumo Deus, todo o bem e sumo bem, toda graça, toda glória, toda honra, toda a bênção e todos os bens vos tributamos para sempre”

CONTINUA

FREI VITÓRIO MAZZUCO

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

Francisco de Assis: esposo da pobreza


Faz parte da tradição cristã e franciscana unir Francisco de Assis a Senhora Dama Pobreza. Não é um tema fácil de se compreender enquanto não nos desvencilharmos de categorias sócio-econômicas. Por outro lado, pobres temos entre nós, e eles mexem com nossas consciências com sua angustiosa e extrema pobreza. Em nosso país, pátria do paradoxo, a opulência do alto da montanha domina a planície da miséria. Sonhos de grandeza e o pesadelo do não ter nada. Serviços cada vez mais caros e o luto dos que velam os mortos de uma vida que é banalizada.

Francisco de Assis experimentou os dois lados. Teve muito e se despojou de tudo. Sua pobreza foi opcional: ser pobre por amor para ser livre. Desapropriou-se para estar de um modo melhor com os que não tinham nada de próprio. De pai rico ele passou a ser irmão dos pobres. Ele mudou de lugar social para construir uma coerência espiritual incontestável. Sua família tinha uma rica tradição. Filho de Pedro Bernardone, Francisco tinha por nascença a linhagem de seu avô, Bernardo Mariconi, que era de Lucca, na Toscana, homem de comércio, com relações mercantis dentro e fora da Itália. Bernardo deixou a Toscana e veio morar na Úmbria e deixou para seu único filho, Pedro Bernardone, seu patrimônio, o atrativo pelos negócios, pelo lucro, o fascínio da riqueza e a força do poder. Tudo isto Pedro herdou de Bernardo, depois passou para Francisco que renunciou esta história de ser rico.

Adiantaria ter muito e ter um pai fora de casa, que por causa dos negócios era um mercador ausente do lar? Francisco quer a riqueza do Pai que traz tudo para perto e não deixa ninguém no isolamento. Seu pai biológico deu todos os bens materiais que ele podia sonhar como jovem. Seu Pai do Céu deu-lhe a felicidade que preenchia o seu coração mais do que dinheiro, roupa, cavalo e festas. Seu pai, Pedro Bernardone, deu-lhe sonho de pai, Francisco queria um sonho de Amor Maior além das fronteiras de uma loja e tinturaria, marca registrada de sua família em Assis.

Francisco descobriu um tesouro inestimável: o Evangelho. Descobriu ali as pérolas preciosas da Palavra. Pérolas não são apenas uso, mas são contemplação e identificação. Francisco buscou a pérola rara do Reino. Ao ler a Boa Nova descobriu a Identidade Pobre do Deus Encarnado. Viu que em Jesus Cristo a Pobreza era uma opção sagrada. Não ter nada e ser tudo. Apaixonou-se por esta proposta e casou com ela. Desposou a Senhora Dama Pobreza, a alma do Deus Humilde. Aprendeu com ela que um Deus não retém nada para si, mas tudo dá. Casou com o sonho de Deus, com a presença de Deus, com o Amor de Deus. E este jeito de Deus era de total renúncia de apegos. A questão de Francisco não era material, mas espiritual. Fez uma opção pela Identidade Sagrada de um Deus que se apresentou ao mundo no total despojamento. Depois, no decorrer de sua vida, não ter nada de próprio foi apenas a liberdade de viver e identificar-se com o modo como Deus ama.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quinta-feira, 26 de outubro de 2017

FRANCISCO DE ASSIS, UM JOVEM PARA OS JOVENS


Neste outubro de 2017, em feriado prolongado, estive num Encontro de Jovens em Santo Amaro da Imperatriz com o jovem Francisco de Assis. E fiquei pensando que em cidades escondidas, entre centros maiores, acontecem coisas grandiosas. Perugia e Assis, Florianópolis e Comunidade São Francisco de Assis. No painel do salão a frase: “Loucos como Francisco”, e eu pensando, que aqueles mais de 60 jovens estavam indo na contramão do consenso: perto da praia, sol e mar; foram ali para aprender, conviver e rezar.

A cidade de Assis viu aquele jovem, que era orgulho de seu pai e mãe, andar pelas ruas como um líder, elegante, esbanjando dinheiro e simpatia. Trabalhava com o pai e gastava o que ganhava. Uma alma boa, espírito justo, coração cheio de bondade. Tinha o modo normal dos jovens de então: amizades, alegria, festa, taberna, serenata e sonhos de conquistas, e a brilhante carreira das armas. Mesmo gastando muito nas farras com seus amigos, Francisco tinha uma sensibilidade para com os que vinham pedir esmolas.

A cidade de Santo Amaro da Imperatriz viu o espírito de Assis reunir jovens do Sul, com ânimo, iniciativa, vontade, criatividade, liderança e aquela disposição de saber com um jovem de Assis como se anda neste país e pelo mundo com jeito de devolver sentidos. Suas famílias orgulhosas de ver filhos aproveitando bem o tempo, deixaram que seus filhos fossem até ali e eles foram recebidos em casas de outras famílias com abraços acolhedores de mudar o mundo. Jovem que tem ideal abre portas nunca vistas, são filhos e filhas de uma grande família de uma humanidade que ainda acredita.

Assis e Perugia tinham uma rivalidade entre si. Nobres e plebeus, vez ou outra, entravam em combate. Francisco de Assis vai para a luta e é preso. Na cadeia vence as grades com bom humor, mas também com momentos de tristeza, melancolia e incertezas.  Experimenta a doença. Dizem que vai ser honrado pelo mundo inteiro. Sonha com um palácio cheio de armas. Tem que tomar decisões de servir o Senhor ou o servo. Volta para a sua terra. Francisco está estranho como um apaixonado.


Santo Amaro da Imperatriz viu aqueles jovens reproduzirem a vida de Francisco de Assis num teatro sugestivo feito com a seriedade daqueles que sabiam que não podiam brincar coma vida de um mito, místico, modelo e santo. As famosas serenatas na praça de Assis enchiam um salão de música com som e ritmo de rock, danças e alegria no rosto. Nenhuma disputa entre si. Todas as classes sociais estavam ali representadas, sobretudo aqueles que tinham as mãos calejadas pelo trabalho na terra. Muitos sonhos e dinâmicas representativas. Camisetas sugestivas e gente enamorada de seu jeito. Nenhuma disputa, mas muita busca.

Assim como Francisco de Assis fez estrada, entrou em frestas e florestas, descobriu lugares, silenciou e cantou, dividiu e reuniu; aqueles jovens meditaram a Encarnação: Deus vem morar na terra dos humanos tomando jeito de criança para dar jeito na humanidade. Aqueles jovens refletiram a Cruz, o lugar do Amor capaz de tudo, capaz de levar até o fim uma escolha: um Deus que deixa marcas. Aqueles jovens moldaram a massa do pão, saborearam a Eucaristia e sentiram o gosto de um Deus vivendo inteiro em cada pedaço, sangue único correndo na veia de todos.

Em Santo Amaro da Imperatriz os jovens recriaram outra Assis e partilharam ideias, escutaram profundamente, silenciaram, fizeram preces marcantes e reconstruíram certezas.  Sonho de Francisco, sonho de Clara, sonho de Diego, de Laís, de Mariana, de Leão, Gabriel, Rufino, Cícero, Edson, Ângelo e Ângela, e tantos que participaram de uma experiência já feita em muitas Caminhadas, Missões, Acampamento, e agora mais uma: ajeitar no canto da cidade que pulsa as energias de um circuitos de águas, um eremitério, um retiro, um momento forte de formação, e beber na Fonte Pura do Evangelho. Reverência a estes jovens!

FREI VITÓRIO MAZZUCO

segunda-feira, 16 de outubro de 2017

FRANCISCO DE ASSIS – ENTRE HISTÓRIA E A MEMÓRIA

Constantemente surgem livros sobre São Francisco de Assis. Indico para os que amam conhecer Francisco de Assis este livro de André Vauchez, Francisco de Assis. Entre História e Memória, Martins Fontes, SP e Instituto Piaget, RS, 2013.  O autor é um grande historiador, membro da Escola Francesa de Roma, é especialista sobre santidade e espiritualidade medievais. Esta sua premiada biografia sobre São Francisco de Assis tem forte fundamentação histórica e é exatamente a perspectiva histórica com que aborda São Francisco que faz o diferencial desta obra. O autor pesquisou por 30 anos, período em que viveu na Itália, os textos franciscanos e as biografias franciscanas. Como diz a quarta capa desta obra: “André Vauchez mostra a novidade e a originalidade da mensagem franciscana, a sua nova relação com a Sagrada Escritura, a sua ligação a Deus, à natureza e ao mundo”.

O autor passa pela bibliografia e pela cronologia e pelo Testamento de Francisco, que são obras essenciais para a fundamentação histórica. Diz o texto: "Uma obra que não teme reconhecer as dificuldades e os afastamentos em relação ao projeto inicial do Santo. Os frades menores, no seu conjunto e desde a sua origem, jamais traíram ou abandonaram a sua mensagem. Nenhuma Ordem religiosa conseguiu manter com seu fundador uma relação afetiva tão forte e escutar as suas palavras durante tantos séculos”.

Esta obra tem o mérito de ir à riqueza das Fontes Franciscanas. Muito se escreve sobre ele, mas em geral cada autor ou autora juga conhecê-lo de modo suficiente para interpretá-lo a seu modo. Assim, Francisco de Assis é visto sob vários aspectos: asceta, louco, poeta, estigmatizado, fundador de uma grande Ordem religiosa, modelo de ortodoxia católica, reformador da Igreja, herói romântico, “detentor de um cristianismo evangélico e místico esmagado pela instituição eclesiástica”, defensor dos pobres, promotor da paz entre os seres humanos e religiões, apaixonado pela natureza é o patrono da ecologia, santo ecumênico. Então, qual é o Francisco verdadeiro? Vamos ler mais esta obra! Ela traz respostas.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quarta-feira, 11 de outubro de 2017

A PORCIÚNCULA DE SOROCABA


Meus confrades de Sorocaba, SP, levaram a sério a inspiração original de nosso Pai São Francisco: é preciso reconstruir a casa! E recriaram no pátio do Convento local uma réplica da Porciúncula. Bom Jesus dos Aflitos agora tem também a consolação de Nossa Senhora dos Anjos. A Porciúncula, onde estiver é manancial, este lugar fontal   da mística franciscana, um ícone do berço da Fraternidade. De Assis a Sorocaba é preciso lembrar a vida comum, o amor mútuo, o espaço da prece, da reflexão, do silêncio. É eremo, isto é, espaço para encher-se de graça e bênçãos e reiniciar novamente o caminho.

Se Assis é a capital do espírito, a Porciúncula é lugar necessário, uma luz sobre o caminho. Se você não vai à Assis, o fascínio da Porciúncula vem até você em Sorocaba. A mensagem pulsante do Evangelho, alegria, serenidade, simplicidade, fidelidade, pobreza...tem lugar. A Porciúncula original foi edificada no século X, no ano de 1045. Pertencia aos monges beneditinos do Mosteiro do Monte Subásio, que ali criaram uma pequena porção de santuário, para ajudar o povo que não podia ir nas peregrinações nos santuários mais distantes, podiam fazer a sua desobriga no lugar mais próximo. Santuário é o lugar sagrado onde a presença de Deus se manifesta, o mistério presente da divindade determinando o lugar do culto. No século XIII, os beneditinos doaram a Porciúncula a Francisco de Assis que a reconstruiu e fez um grande encontro entre passado e presente. Na Porciúncula viveu Francisco, os frades primitivos, ali passou Clara, ali morreu o Poverello, ali aconteceram os Capítulos das Esteiras.

A Porciúncula de Sorocaba nos diz que Clara e Francisco continuam mais vivos que nunca e que a sua escolha de Amor atravessa o tempo e marca definitivamente um lugar no mundo. Na Porciúncula a Fraternidade se faz encontro, cresce, contagia e se comunica. Como diz Tomás de Celano: “Em qualquer lugar, no entanto, conheceu por experiência que o lugar de Santa Maria da Porciúncula era repleto de mais copiosa graça e frequentado pela visitação dos espíritos celestes. Por isso, dizia muitas vezes aos irmãos: "Cuidai, filhos, para nunca deixardes este lugar. Se fordes expulsos por uma parte, entrai de novo por outra; pois este lugar é verdadeiramente santo e habitação de Deus. Aqui quando éramos poucos, o Altíssimo nos aumentou; aqui, com a luz de sua sabedoria, ele iluminou os corações de seus pobres; aqui, com o fogo de seu amor, inflamou as nossa vontades. Quem rezar aqui com coração devoto obterá o que pedir” (1Cel 106,2-6).


Em 1210, Francisco pede ao Bispo de Assis e depois aos Cônegos de São Rufino alguma igrejinha para cuidar. Não obteve resposta. Vai então ao Abade do Mosteiro Beneditino, Dom Teobaldo, e este, com o consenso da comunidade monacal, entrega a Porciúncula para uso e moradia dos frades, e pedem apenas uma condição: se o grupo de Francisco crescer, que a Porciúncula seja a Casa Mãe. Dom recebido, dom compartilhado. A igrejinha reconstruída sob o sólido alicerce da Pobreza ganha um sinal: por graça e gartidão com um vaso cheio de óleo ao bem feito pelos beneditinos, há o gesto da retribuição, cada ano, os frades mandavam aos monges um cesto cheio de peixes e os monges agradeciam com um vaso cheio de óleo ( 3Comp 56 e LP 8 ).

E assim a Porciúncula vai se tornando um ícone eterno da experiência primitiva do amor fraterno, do trabalho com as próprias mãos, da proximidade com bosques e leprosários, da pequena cela como moradia, dos primeiro encontro com o Evangelho, da presença dos primeiros companheiros, lugar de preparar-se e partir para a missão. No dia 19 de março de 1212 chega ali a nobre jovem Clara de Favarone. Em Julho de 1216, Francisco consegue do Papa Honório II a Indulgência da Porciúncula ou a Indulgência do Perdão da Porciúncula. Ali Clara e Francisco comum juntos num luminoso banquete espiritual (Fior 15). A amiga especial de Francisco Jacoba de Settesoli, traz o doce conforto na hora de sua morte (3Cel 37-39). A Irmã Morte vem buscar Francisco.

No século XIII, ali estavam os irmãos Bernardo de Quintavalle, Pedro Cattani e Egídio, prontos para sair em missão. No século XXI, aos 08 de setembro de 2017, oito séculos depois, os irmãos Gilberto Piscitelli, Benedito Gonçalves e André Becker, em Sorocaba, nos ensinam que todos temos que ser criativos em fazer renascer a simplicidade primitiva. E refizeram o ideal da Porciúncula: chegar, partir, enviar, sair, regressar, fortalecer, orar, num momento privilegiado de encontro. Em louvor de Cristo, Amém!

Veja mais imagens da Porciúncula de Sorocaba

FREI VITÓRIO MAZZUCO

terça-feira, 10 de outubro de 2017

FRANCISCO DE ASSIS E SEU MÊS DE FESTA


Tem a celebração do Transitus, a Missa Festiva, o tríduo, a novena, o teatro, a semana franciscana, o mês franciscano, as exposições, momentos litúrgicos, festivos, litero-musicais, bênção dos animais, palestras, artigos e sermões, distribuição de taus, chaveiros, santinhos, frades de hábito, programas na rádio, televisão, enfim, Francisco de Assis é uma Festa! Um pobre celebrado com alto nível de intensidade litúrgica, espiritual, cultural e folclórica.

Celebrar Francisco é exaltar uma personalidade que atravessa as fronteiras da religião. Todos querem dizer quem ele é, porque ser ele mesmo foi a sua marca registrada. Num mundo onde nem mais sabemos quem somos nós, Francisco de Assis é revelador de uma identidade. A festa de São Francisco e o mês franciscano de outubro mexem com consciências, abala instituições, reencanta carismas e convoca criatividades.

Celebrar São Francisco é mostrar que desde o Concílio de Latrão até o Vaticano II ele é uma novidade necessária. Sozinho ele é um movimento vivo, com a força da Fraternidade ele é a revolução constante. E qual a sua força de mudança? Em primeiro lugar porque Jesus Cristo passa a ser para ele a fusão de alma, coração, vontade e projeto, e núpcias.  Em segundo lugar, o Evangelho sai do texto e entra no contexto de ser alguém numa palavra que anda e convive, simbiose entre espírito e letra.

Celebrar São Francisco é ter aquela vontade de ser eremita e andarilho. Elegante e mendigo. Desapegado e livre. Rico de amizades e pobre de materialidade. Este jeito de aprender a ficar só em meio a todas as criaturas e formar com elas um novo jeito de ser irmão e irmã que lança a solidão para a imensidão do estar junto. Ir à guerra sem pegar em armas. Ir para o diferente e dizer que há uma verdade no lado de lá.

Celebrar São Francisco é viver leve e solto em meio à Regra de Vida e ter este jeito de organizar tudo a partir da intuição. Com ele anarquia e democracia brincam de roda e instauram uma nova profecia. Celebrar São Francisco é mandar vir o doce preferido na hora da morte, reunir as pessoas amadas e cantar. Improvisar um coro, ensaiado ou não, e deixar a melodia tomar conta do ambiente: Ó Alma Santíssima que atravessa para a eternidade reunindo cidadãos e Anjos, e a Trindade dando boas vindas dizendo com a Irmandade: permanece conosco para sempre!

Celebrar o mês franciscano é escutar Francisco de Assis dizendo para todos: “Eu fiz o que é meu dever; que Cristo vos ensine o que é vosso!” (2Cel 214,9).

FREI VITÓRIO MAZZUCO

terça-feira, 26 de setembro de 2017

É preciso voltar a Assis - Final

Misericórdia é dar o coração aos mais fragilizados

Misericórdia é Vida Fraterna! Nós não somos apenas um ajuntamento de pessoas, mas uma consanguinidade espiritual que nos vincula uns aos outros. A Fraternidade nos conecta. Somos todos do mesmo DNA de Clara e Francisco, e este sangue que corre em nossas veias tem uma poderosa implicação humanística: compartilhamos uma mesma natureza humana e divina. Cor e miseratio! Misericórdia é chave para abrir e entrar na porta santa do Reino.

“O Amor de Deus é a flor e a Misericórdia o fruto” (Santa Faustina Kowalska). O fruto do Amor é a Misericórdia, tudo o que é Amor é Misericórdia. Misericórdia não é atirar pedras, mas estender as mãos; fazer pontes e não exclusão, atar feridas dos necessitados, levar o errado a enxergar o erro.

Misericórdia é dar o coração aos mais fragilizados (miseris cor dare). O Papa Francisco, inspirado em Santo Agostinho, coloca dois aspectos da Misericórdia: 1. O Coração é o centro 2. Uma situação miserável, seja material ou espiritual. A Misericórdia, que tem a sua fonte no Amor, é um Amor feito de Coração, exercido em presença de sofrimento ou desordem.

“Há o amor de pai e filho, o amor de casal, o amor de irmãos e irmãs de sangue, o amor de amizade, o amor de fraternidade, o amor de civismo, o amor de grupo, e tantos tipos de amor. Cada estilo de amor demanda e desperta na psique um estado peculiar de ação e sensação. Quando exerço o amor em direção a alguém em situação penosa, emito uma forma típica da alma, chamada Misericórdia. Este alguém em dificuldade posso ser eu, e aí há a misericórdia para comigo mesmo e pode ser o outro ou a outra, e aí a misericórdia para com o próximo.

Se eu amo a pessoa por quem estou apaixonado ou me deleito numa ocorrência de beleza e bondade, simplesmente amo. Mas se me dobro sobre alguém no buraco e lhe estendo o braço puxando-o para a situação normal, esse meu ato gratuito de restabelecimento da norma assume o nome de Misericórdia ou Amor Misericordioso. Para além da afetividade e da espiritualidade, a misericórdia tem a ver com o conceito físico e científico da ordem cósmica.

Digamos que a lei básica do universo é a ordem, ou seja, a união, a relação, numa palavra: o Amor. De outra forma, o universo se desintegraria. Tal ordem macrocósmica, que parte do pó atômico e chega às galáxias se, se reverbera em cada um dos seres existentes, chamados microcosmos, incluindo nestes o microcosmo humano que somos nós. Tal ordem ou união nada mais é que o Amor. Os conceitos de amor-união-relação-ordem se interpenetram”  (Marchionni Antônio, “A Misericórdia é Lei do Cosmo”, in Fraternidade e Misericórdia- Um olhar a partir da justiça e do amor, Cultor de Livros, São Paulo, 2016, p. 15).

FREI VITÓRIO MAZZUCO

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

É preciso voltar a Assis - V


 Francisco e Clara de Assis não venderam sonhos

Não há misericórdia em lutas ideológicas que chegam à violência. Não há misericórdia se não sair para as periferias existenciais que são mais do que bairro, rua, espaço de cidade ou campo, centros urbanos ou lugares de tensões. A periferia existencial é o vazio da vida, a falta de sonho, de utopias, de esperanças que está nestes lugares e nos corações das pessoas. Tem muita gente que tem mansão confortável, cheia de móveis luxuosos, freezers cheios de comida, dinheiro no banco e no luxo, mas sem felicidade ou projetos para dar a vida um sentido maior. Tem tudo, mas precisam de vícios e experiências traumáticas e excesso de antidepressivo. Há periferia existencial na pobreza material dentro das periferias materiais.

Tem que haver mais misericórdia nas Igrejas e aqui vamos incluir a nossa; pois religião não pode ser um produto bonito e bem embalado para ser divulgado e vendido. Francisco e Clara de Assis não venderam sonhos, nem esperança, nem Deus, nem religião. Nossas liturgias não podem ser um remédio psicotrópico relaxante, cheias de louvores emocionais e ardor neomísticos, mas com pouco Amor pela doutrina social da Igreja e pela mística do Evangelho que deseja conduzir o ser humano a uma experiência de esperança profunda e de uma humanização profunda. Menos gospel e mais proximidade com o doente, com a viúva, criança, idoso e portadores de necessidades especiais.

Somos evangelizadores, discípulos e missionários da Misericórdia e não cidadãos turistas que fazem viagem para discutir economia global e política internacional em lugares exóticos, vendo filmes de arte/cabeça, passeando por lugares calmos e paradisíacos, longe do barulho e dos traumas dos centros urbanos e periféricos. Misericórdia é visitar o Pinel, o Juqueri, visitar a sua rua e saber de seu bairro. É bom sofrer em Paris, mas reconstruir o espaço público mais próximo quem quer?

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FREI VITÓRIO MAZZUCO

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segunda-feira, 18 de setembro de 2017

É preciso voltar a Assis - IV


Misericórdia não é bondade que se improvisa com validade vencida


O destinatário da Misericórdia é para o que sofre a poluição da cidade que dificulta a fluidez da respiração; os males da estufa de carbono, a água escassa das represas, a bala perdida, os que sofrem a poluição das notícias midiáticas e perdem a opinião própria, os que vivem grudados em celulares que truncam conversas e tiram a nossa inteireza; a revolta tensa das conversas dos que querem a pena de morte, os que sofrem a tormenta diária da imprensa impressa e 'wiliamborneada' nas telas da TV. Os destinatários da Misericórdia são os que têm que escutar constantes notícias ruins, malfazejas, apocalípticas, ou os diários boletins de sangue no Oriente Médio ou do sangue jorrando da cabeça e do peito baleado dos mendigos do centro da cidade. A Misericórdia dá conta e alento à estas criaturas imersas em coisas tão reais? Quebrar a indiferença já é um caminho, pois a Misericórdia é um caminho para conduzir o ser vivente para um outro lugar.

Misericórdia tem a vertente evangélica de dar de comer aos famintos, acolher peregrinos, cuidar dos enfermos, visitar encarcerados, enterrar os mortos, doar roupa para os nus vítimas dos descuidos. Misericórdia é tarefa e exercício de Amor e não desobrigação de um dever burocrático. Tem que ser expressão de algo mais profundo. A Misericórdia vem antes! A justiça aboliu a escravidão, mas a misericórdia, a indignação, a solidariedade para com a dor dos escravos chegou primeiro.

Diz Tagore, o nosso querido poeta e místico hindu: “A Misericórdia é um pássaro, que é o primeiro que, na noite, pressente a alvorada”.

Misericórdia complementa os valores que existem e supre os que inexistem. Misericórdia não é bondade que se improvisa com validade vencida e prazo para acabar, esta duração pré-fixada de campanhas; mas é a própria e constante bondade presente em toda visão e ação humana.

Vamos voltar a florir o vale de lágrimas antes que acabe o vale! Vamos diminuir a quantidade de lágrimas do vale e de toda terra. Vamos unir Misericórdia e Direitos Humanos que é exatamente não deixar faltar o básico para viver. Há Misericórdia no saneamento básico, no avanço econômico sustentável, na saúde e educação de qualidade, na igualdade de gênero, nas vivências participativas, na acolhida aos refugiados.

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FREI VITÓRIO MAZZUCO

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segunda-feira, 28 de agosto de 2017

É preciso voltar a Assis - III

Precisamos resgatar uma moral teológica para o mundo

É tempo de limpar a vida de egoísmo, estagnação, vaidade, presunção, negligência, falta de delicadeza, instabilidade, fé fragilizada.

O lema do Brasão Episcopal do Papa Francisco, quando era Arcebispo em Buenos Aires, era este: "Miserando atque elegendo”: olhando com amor o escolheu. Hoje temos que colocar este olhar de misericórdia e viver a misericórdia dentro de uma relação horizontal entre ética e ontologia: valores que definem o Ser. É o grande momento da Ontologia, Axiologia e Cosmologia.

A Misericórdia não é apenas uma lei moral ou ética, mas é uma virtude essencial para qualquer relacionamento. A Misericórdia, a Fraternidade e a Compaixão correm o risco de não serem entendidas se a comunidade mundial não for colocada em contato com a possibilidade de superar abismos enormes que nos separam, abismo culturais, abismos da intolerância, abismos da ausência de valores que impactam as diversas dimensões da vida. Diz o Papa Francisco: “Um dos graves problemas de nosso tempo é certamente a alterada relação com a vida”.

A Misericórdia é a grande virtude de Deus, e nós precisamos resgatar uma moral teológica para o mundo. O que temos é uma moral de Estado onde só existem direitos e não deveres, e isto cria dicotomias infernais. A Misericórdia, como compaixão e respeito pela vida das pessoas, é um esvaziar-se para dar sentido à lógica da vida de todo ser humano. É uma ética de alteridade e uma moral que respeita e acolhe a maneira como a vida de alguém deve se desenvolver.

A Misericórdia é o coração pulsante do Evangelho!  Diz nosso Papa Francisco: “A misericórdia de Deus é o coração pulsante do Evangelho, e que por meio dele deve chegar ao coração e à mente de cada pessoa e de todas as criaturas”.

O destinatário da Misericórdia é, a partir desta convocação, qualquer criatura que habita a face da terra; aqueles que vivem a vida como ela se apresenta, com suas limitações, mas alegrando-se com a felicidade dos que possam ter uma possibilidade de vida melhor; criaturas humanas que estão na rua, na casa, no trabalho, na escola, no concerto, no hospital, na prisão, no quartel, na fábrica. O destinatário da Misericórdia é a pessoa que acorda e vai trabalhar, que sofre no trânsito, luta pelo lugar nos meios de transporte, que está na desesperança do desemprego ou na dúvida e na dívida, na droga e no álcool; os que precisam desenvolver esforços físicos, psicológicos ou mentais para enfrentar esse jogo de mil combinações do dia a dia.

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FREI VITÓRIO MAZZUCO

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terça-feira, 22 de agosto de 2017

É preciso voltar a Assis - II

NÃO PODE HAVER FRATERNIDADE SEM MISERICÓRDIA


Há obediência em ouvir uma voz e vir. Há forte energia da presença fraterna. Há renovação de promessas e sentir a presença de sentir-se pertença. Há uma virtude vivida por Deus e seu Filho que nos inspira: a Misericórdia! Colocar o coração nos limites da fragilidade humana para descobrir a força de amar e cuidar. Não pode haver Fraternidade sem Misericórdia, diante dos desafios éticos e humanísticos do mundo contemporâneo.

Quando aconteceram os primeiros Capítulos das Esteiras, o momento celebrativo era Pentecostes e o fogo que estava nas cabeças vinha do incandescente amor que estava no coração. Não era fácil para eles em tempos de mudanças do feudalismo para a comuna, da eclesiologia decadente para a força dos Movimentos Penitenciais, um sentimento novo de Cortesia e Cordialidade em tempos rudes de guerras. Assis não era só videiras e girassóis, havia o expectro da guerra entre nobres e plebeus, entre o papa e o imperador entre a avareza e a desambição.

Mas hoje Assis é aqui, em tempos de guerras, tensões, violência urbana, governo paralelo do tráfico e um atentado moral que é o desgoverno ao qual estamos sujeitos. Assis é aqui em meio a surpreendentes atentados terroristas, depressão ganhando espaço como uma grande síndrome moderna;  a alienante busca de felicidade por meio das drogas; uma eclesiologia de freio de mão puxado, mas que começa a soltar-se aos poucos. Há 800 anos, um mendigo chamado Francisco,  adentra a estrutura eclesial e vai fazer um Papa sonhar; e hoje um Papa Francisco faz toda uma Igreja sonhar e anda soltando as amarras.

O Ano da Misericórdia, em 2016, nos provocou com uma rara onda positiva para repensar, viver e levar a Misericórdia. E do século XIII ao século XXI há segmentos do tempo que lembram para nós que todo tempo é tempo de salvação, e lembram para nós um tempo propício onde a salvação age com mais intensidade. Este é o nosso tempo! Viver a misericórdia é derramar qualidade num tempo de dramáticas desesperanças.

Voltar a Assis, no tempo de Clara e Francisco, é retomar o tempo de humanizar um Deus e divinizar o humano. Se não, como se apaixonar pela Encarnação? Vamos voltar como peregrinação, conversão e indulgência, levando a Misericórdia. Peregrinação andar pelos campos da realidade. Conversão como mudança de lugar. Indulgência como perdono, perdonare, per+dono, através dos dons, devolver os dons, apresentar-se com qualidade. Mais comunhão de vida. Não existe intercessão sem comunhão.

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FREI VITÓRIO MAZZUCO

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

“É preciso voltar a Assis!”


Não podemos voltar ao passado, mas podemos trazê-lo de volta até nós e atualizá-lo. Francisco de Assis e Clara de Assis não são santos do passado, mas sim do presente. Eles puxam a nossa história para a frente e apontam um futuro de esperança. Eles são santos da utopia e sonhos não envelhecem. Falta de esperança e desencanto no mundo não fazem parte da nossa proposta franciscana e clariana.

O Espelho da Misericórdia é olhar o mundo e sonhar, propor e concretizar uma humanidade possível, um mundo possível e um Deus possível. Assis, mais do que uma cidade é um lugar onde os espíritos sadios se encontram. Assis é aqui no Capítulo das Esteiras onde o ontem e o hoje se encontram para tecer propostas urgentes agora e para o amanhã de certezas.

Vamos voltar a Assis como Capítulo das Esteiras, vamos refazer I Fioretti 18, que narra para nós a inspiração do fato: “Grandes coisas prometemos, maiores nos são prometidas”. A palavra Capítulo tem sua raiz latina “caput”, isto é, cabeça. Mas num sentindo mais amplo, o que está na totalidade do nosso corpo, mente, espírito, alma e coração. “Caput” é o que está no mais alto dos nossos anseios, o que está em nosso centro, núcleo, no lugar mais elevado, naquilo que está acima, no mais importante.

Temos que dizer como o apóstolo Paulo que Cristo é a cabeça do Corpo Místico.  Caput, Capítulo, Capitão, Capital, a cidade mais importante, cabeceira, o lugar da nascente, um manancial forte e inesgotável. Caput, Capítulo, o que está nas nossas cabeças? Quem é a cabeça do grupo? Para São Francisco o Espírito Santo era a cabeça, o Ministro Geral da Ordem; para Clara, o Espelho era a fusão entre a Amada e o Amado; para a Fraternidade Primitiva, o Capítulo sabia gerar adequadamente obediência, pobreza e pureza de coração na medida certa, esta coisa linda de ter a cabeça afiadíssima com o Evangelho. Então, vamos voltar a Assis, a Santa Maria dos Anjos, e reunir milhares no mesmo espírito, sem falar banalidades, mas contar as maravilhas que o Senhor anda realizando através da força do comum. Como buscar inspiração? O que move um encontro assim? O que atrai para um encontro assim? A lógica da pobreza e da simplicidade justifica as Esteiras.

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FREI VITÓRIO MAZZUCO

segunda-feira, 14 de agosto de 2017

FRANCISCO DE ASSIS, NOSSO IRMÃO


Quero apresentar este livro com vários autores: Costa Freitas, David Azevedo, Adelino Pereira, Gama Caeiro Cerqueira Gonçalves, Carreira das Neves e João Lourenço,  Francisco de Assis Nosso Irmão, Problemas de Ontem e de Hoje, Editorial Franciscana, Braga, Portugal, 1995. É uma coletânea da homenagem feita a Província Portuguesa da Ordem Franciscana, na passagem do primeiro centenário da sua restauração.

O livro relata em vários artigos a Fraternidade que Francisco viveu com alma ao longo de seu caminho e dela impregnando todos os seus comportamentos, a oração, a pobreza, a pregação, a itinerância, o cuidado dos irmãos, a relação com a Igreja, a promoção da paz, a reconciliação  e todas as formas do seu relacionamento com as pessoas e com a natureza, a solidariedade, o sofrimento e o Cântico das Criaturas.

A Fraternidade é o que se vê primeiro em Francisco, como se ela fosse a esperança menina que adormecida tem no coração e que a figura do Santo faz despertar e sorrir, como luz matinal dum sol que por fim há de irradiar triunfante sobre o mundo.

No livro, os autores, levantam questões que fazem sofrer e inquietar a humanidade hoje e aí projetar o sentir franciscano.  Mais que mensagem proclamada, a Fraternidade é um diálogo que escuta o sofrer humano e procura dele participar e sobre ele dizer o que sente uma alma franciscana. A experiência de Deus, a vivência religiosa, o problema do mal, a paz e a ecologia são algumas destas questões.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

DIA DOS PAIS


Pais são histórias que atravessam anos. Encarnam valores tais como confiança, força, liderança, sustento, objetividade, proteção. Pais são ideais transformados em projeto de vida, são cuidadores da mulher e dos filhos, do biológico ao espiritual, do afetivo ao material estão ali. Têm um papel determinado na família e na sociedade. Pais são aqueles com quem primeiro brincamos na infância, com quem fizemos o dever de casa; eles repassaram segredos, disseram verdades, repreenderam com o olhar, e fizeram deles os nossos objetivos.

Pais são discretos, hábeis e ousados. Antecipam nossas intenções e guardam bugigangas úteis. Têm tino comercial e compreensão rápida. Buscam incansavelmente o bem dos filhos. Pais entendem os filhos em seus mundos; alegram-se e apoiam tudo o que de bom acontecem aos filhos, e trazem ideias para facilitar caminhos. Pais amam as mães. Pais deixam fluir coisas positivas, dão ânimo, mesmo nas dificuldades. Pais são necessários demais para moldar em nós o melhor de nós!

FELIZ DIA DOS PAIS!

FREI VITÓRIO MAZZUCO FILHO

quinta-feira, 27 de julho de 2017

O jeito franciscano de não ter cargo de mando


Nas Crônicas de Salimbene de Parma temos o relato: “Também Frei João de Parma, sendo Ministro Geral, quando se tocava o sino para limpar os legumes ou verduras, ia aos grupos de trabalho do convento e trabalhava como os outros irmãos, como muitas vezes vi com meus olhos. E porque me era familiar, eu lhe dizia: “Pai, vós fazeis o que ensinou o Senhor: Quem é o maior entre vós faça-se o menor, e o que precede como quem serve” (Lc 22,26). E ele respondia: “Assim devemos cumprir toda justiça, isto é, a perfeita humildade”. Também participava do ofício eclesiástico dia e noite, principalmente das Matinas, das Vésperas e da missa conventual. Tudo o que o cantor lhe pedia, fazia-o imediatamente, iniciando as antífonas, cantando as leituras e responsórios e rezando as missas conventuais” (Slb 44).

Num mundo onde existe competição, excesso de status hierárquico, sedução do poder, domínio e ostentação do cargo de mando, vale este jeito franciscano de servir. Ter um cargo não é ter poder, mas serviço. Serviço como a ação generosa de se dar, uma ação esplendorosa de disponibilidade humilde, generosa, cheia de cordialidade. Fazer na pura gratuidade, no modo de doar-se livremente, voluntariamente, na oferenda do fenômeno chamado amor.

Não é ter cargo de mando, mas estar na ação espontânea de ser útil, ser capaz de estar à altura de uma grande ou pequena ação feita na boa vontade. É aquele que tem no servir o espírito do serviço. Servir é eliminar a superioridade. Não é ser maior ou melhor, mas é dar-se sem conotação de domínio, de imposição, de exploração e de poder. É a original doação do simples, capaz de um trabalho humilde.

FREI VITÓRIO MAZZUCO