segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Reflexões Franciscanas - 16


37. A partir de 1211, Francisco de Assis, estava disposto a ir para a Síria e Marrocos, não para guerrear, mas para testemunhar. Como a dizer: “Eu creio, vocês creem, vamos conversar na maior riqueza que temos: a fé! Ter fé é transformar sentimentos!” Não foi desta vez.  O IV Concílio de Latrão preparava mais uma Cruzada entre 1215 e 1216. Francisco preparava pregação de paz. Inocêncio III, que iria comandar esta Cruzada, morre em 16 de julho de 1216, e com ele morreu o que seria o estigma de um Papa à frente de um exército fortemente armado. Francisco estava no funeral do Papa e queria pedir ao sucessor Honório III a suspensão de mais esta batalha contra os muçulmanos. Não consegue a suspenção, porém em 1218, consegue autorização do Papa para ir até o acampamento dos cruzados, em Damieta, e convencer os seus chefes, o cardeal Pelagio e o Rei João de Brienne, para que dialoguem com Melek-el-Kamel, o sultão, que tinha uma proposta: os cristãos se retirariam do Egito e ele devolveria Jerusalém. A bem da verdade esta Cruzada não era para conquistar Jerusalém novamente, mas para destruir o poderio militar do Islam.  E lá vai São Francisco! Passa do acampamento cristão para o muçulmano e vai dialogar com Melek-el-Kamel. Quando o sultão vê aquele homem frágil, maltrapilho e desarmado até se assusta, mas percebe que ele não oferece perigo. O que ele oferece é que a violência seja substituída pela mansidão, que o ódio seja trocado pelo respeito, que o inimigo seja irmão, que morrer por amor e caridade é muito melhor que guerrear por nada.

38. Escreve Tomás de Celano: “No tempo em que o exército dos cristãos sitiava Damieta, o santo de Deus estava presente com seus companheiros(...) Então, ao prepararem-se os nossos para o dia da batalha, tendo ouvido isto, o santo queixou-se profundamente da guerra. E disse a seu companheiro: “Se em tal dia acontecer o embate, o Senhor me mostrou, os cristãos não se sairão bem. Mas se eu disser isto, serei julgado como louco; se eu me calar, não escapo da consciência. Portanto, o que te parece?” O companheiro respondeu-lhe, dizendo: “Pai, não te importe que sejas julgado pelos homens, porque não é agora que começas a ser julgado como louco. Descarrega tua consciência e teme mais a Deus do que aos homens. Então, o santo sai e dirige aos cristãos com admoestações salutares, desaconselha a guerra, anuncia a derrota. A verdade torna-se fábula, eles endureceram o coração e não quiseram ser advertidos. Vai-se, combate-se, guerreia-se e os nossos são acuados pelos inimigos.” Ali, em Damieta, no Egito, Francisco viu o inútil mecanismo de morte, gerado por aqueles que não quiseram reconhecer em suas palavras, uma exortação vinda de Deus. Mas foi após a derrota, que no dia 31 de Agosto de 1219, que permitiram que ele fosse até o sultão. Então, ele vai com coragem e fé. Até prevendo se fosse preciso o martírio, mas que fosse pelo bem de cristãos e muçulmanos. Francisco quer dialogar com o sultão. Se existe a boa vontade sempre há aproximação, presença e conversa. Mesmo assim a fé tem que ser provada. Há em Francisco de Assis e em Frei Iluminado de Rieti, os dois que chegaram ali na tenda do sultão, uma doçura, simplicidade e transparência que encanta a todos. Eles se apresentam em nome de Deus. Isto é causa de admiração, veneração e estima. Em meio à guerra alguém vem apresentar-se na paz do Senhor! Há em Francisco e em seu companheiro uma atitude de humildade e bondade que não existia nos violentos cruzados. Melek-el-Kamel, aceita o testemunho do santo, porque sabe que ele vem como portador de uma Palavra Sagrada. O sultão é líder dos Islam e tem muita consciência religiosa para perceber que pobre frade traz o fervor do Espírito, e é neste espírito que vão dialogar. Não há entre os dois nenhuma palavra de agressividade e desprezo. Não é momento de falar contra Jesus ou Maomé, ou contra a Bíblia ou contra o Corão. Não está ali, um cristão latino,  que jamais seria capaz de insultar o profeta ou quem quer que seja. Francisco tem o maior respeito pelo sultão e seus comandados a partir do espírito do Evangelho. Como era tradição, aceitou o desafio do Ordálio de Fogo.

Frei Vitório

segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Reflexões Franciscanas - 15



35. Francisco de Assis é lembrado hoje, em tempos de Estado Islâmico, como alguém que esteve lá entre os muçulmanos. Vamos falar um pouco sobre isto nesta continuidade de reflexões. No seu tempo, Francisco viu a expansão muçulmana como uma grande desforra contra as conquistas do Império Romano tendo Alexandre Magno como grande protagonista. A cristandade medieval foi cercada pelo mundo do Islã e viu nela uma força política, militar e ameaçadora da fé. Ambos os lados usaram a força das armas para dizer que cada lado tinha o seu lado diabólico e infiel. Assegurar a paz e restituir terras virou guerra santa cujo único resultado foi um ódio secular. Nas pregações cristãs, os Cruzados não eram tratados como homicidas por matarem muçulmanos, mas sim 'malicidas', matavam o mal que era o “infiel”. Soldado morto em combate nas Cruzadas tinha a glória no céu. Do lado islâmico, a ideia era a mesma, pois os “cristãos hereges” queriam terras e destruição da religião do Profeta. A bem da verdade, nenhum dos lados conseguiu enfraquecer o outro. Os dois lados saíram  fortalecidos do  ódio e da guerra. Como isto aconteceu? Aproximação de línguas, cultura, ritos, unificação política, ortodoxia forte, Jerusalém, Damasco, Cairo passam a ser centros referenciais importantes. Tanto cristãos como muçulmanos se apegam à Cidade Santa, na Terra Santa. Conquistar lugares é purificá-los, cada um impondo ali a sua fé. Entre vitórias e derrotas, as Cruzadas e o Islã fazem propaganda de vitórias e castigos divinos; ira divina contra povo pecador. Sempre Deus e povo levam a culpa geradas por alguns senhores da guerra. Somente uma nova vida moral, muita penitência e armas na mão podem mudar destinos dos povos. Saladino, Balduíno, Gregório VIII, Clemente III, Celestino III, Inocêncio III, sultões e reis católicos querem conquistas e respostas precisas. Para reformar é preciso libertar. Há uma certa diplomacia de cartas, negociadores, atividade política misturando soberanos, Papas, cardeais, príncipes e soldados. Toda a questão é devolver a Terra Santa. Lugar de fé torna-se elemento diabólico de guerra. Se não existe diálogo no espírito aparece a força das armas. Como os cristãos poderão ser chamados cristãos se não reivindicarem seus direitos libertando a Terra Santa das mãos dos inimigos? O outro lado pensava o mesmo.

36. Em meio a este turbilhão aparece Francisco de Assis. Só tem as armas da fé para combater o bom combate. Não é tarefa de mero combatente, mas tarefa profética. Todo profeta surge quando não se vê mais saída, e tem a coragem de mostrar o reverso da história. Não pode haver violência conduzida pelo nome de Deus. Ele prefere ir na paz do Evangelho, dom de Deus, vitória de Cristo com o sangue da Paixão. Quem tem o Evangelho não precisa de espada, lança ou escudo. Cruzada armada não é nenhum remédio. As pessoas se curam, se convertem  e se encontram no bem. Não existe, para Francisco, inimigo que não possa ser amado. Isto está no Evangelho. “Amai vossos inimigos; fazei o bem aos que vos odeiam” (Lc 6,27). Sabedoria divina é missão salvífica. Mais do que pregar, ele vai amar. Não se vai ao campo contrário levando sofrimento e morte; o inimigo não tem como acreditar que possa existir uma saída. Não há nada a defender de material, mas sim conquistar uma força espiritual. Para ele, tudo e todos são Irmãos, os muçulmanos também são irmãos. Você pode ser irmão e irmã  quando dialoga, quando escuta e fala do conhecimento dos mistérios de Deus. Você pode ser irmão e irmã pelo exemplo e palavra, pelo Amor, pela caridade, pela doação, até pelo martírio se for preciso. Isso Francisco fez. Ele não quis espiritualizar as Cruzadas, porque sabia que não se espiritualiza uma violência; ele quis evangelizar, isto é: mostrar que é possível uma Boa Nova de justiça e paz. É por aí que temos que dialogar.

Frei Vitório

Imagem: "Francisco e o Sultão", de Giotto

sexta-feira, 19 de dezembro de 2014

Reflexões Franciscanas -14



33. Argumentos teológicos se unem a argumentos de uma evangelização necessária. A pobreza interna e externa entra no modo de estar no mundo ontem e hoje a partir do Evangelho: no social e nas questões sociais, entre os embates políticos do liberalismo, socialismo e comunismo, nos que não têm nada e são excluídos, na pobreza produzida, na economia de desenvolvimento, na fome do mundo e nos que sofrem as consequências dos mecanismos de morte. A pobreza entra nas famílias religiosas e seus carismas. A discussão sobre a pobreza avança no campo teológico, litúrgico, eclesial e conciliar. Uma Igreja pobre entre os pobres, sinal dos tempos. Houve um homem chamado Francisco de Assis; há um Papa chamado Francisco. Ambos apontam que o caminho para mudar o mundo e a Igreja começa pelo ideal da máxima simplicidade, humildade e pobreza. Jesus construiu o Reino sobre esta base. Nós seremos capazes de reconstruir?

34. Escreve São Boaventura: “Francisco é uma nova manifestação da graça salvífica de Cristo, por um apelo à total imitação de Cristo e pelo profundo desejo da sede do divino” ( LM, Prólogo 5 ). Restaurar a casa arruinada é reconstruir a partir de um modelo: o da pobreza! O Papa Inocêncio III reconhece naquele mendicante que entrou em seu sonho como o que sustentava a Basílica de Latrão para que ela não desabasse. A pobreza foi a resposta silenciosa e gritante de Francisco, foi a sua natural pregação. Ele viveu a pobreza em oposição à tentação da grandeza e poder temporal. Andou pelas ruas e praças, e a sua simples presença abalou a avareza e o orgulho do clero e dos poderosos de seu tempo. Ele queria que todos se preocupassem exclusivamente com as coisas de Deus e a partir daí melhorar o mundo. No “Sacrum Commercium Beati Francisci cum Domina Paupertate”, provavelmente escrito por Frei Giovanni Parenti, numa alegoria poética estimula-se a esposar-se com a pobreza, ter uma vida de pobreza, tomar partido pela austeridade. Sede pelo Evangelho e não sede pelo dinheiro. Poder dado não é para dominar, mas para santificar. O remédio para as crises de relações que brotam dos que têm muito em mãos, é libertar-se de bens terrenos;  ou talvez até quem sabe desfazer-se deles entregando a quem puder usá-los para o bem comum! É testemunho de pobreza evangélica ter prédios, grandes construções e conventos fechados, sem uso, deteriorando, e sem saber o que fazer com eles? Se pobreza é ter em comum, que tal propiciar a oportunidade de outras formas de uso deste espaço para o bem comum? Este seria um verdadeiro sinal profético de reconstruir a casa!

34a) Gostaria de deixar aqui duas colocações de  Michel Mollat, sobre o que é ser pobre no período medieval: “O pobre é aquele que de forma permanente ou temporária se encontra numa situação de fraqueza, de dependência, de humilhação, caracterizada pela provação de meios, variáveis segundo as épocas e as sociedades, meios de poder e de consideração social: dinheiro, relações, influência, poder, ciência, qualificação técnica, honorabilidade de nascimento, vigor físico, capacidade intelectual, liberdade e dignidade pessoais. Vivendo do dia a dia, o pobre não tem nenhuma possibilidade de se levantar sem a ajuda do outro. Uma tal definição pode incluir todos os frustrados, os deixados por conta deles próprios, os associais, os marginais; esta definição não é específica de uma época, duma região, de um meio. Ela não exclui sequer aqueles que por um ideal ascético ou místico quiseram se desapegar do mundo ou que, por devotamento, escolheram viver pobres entre os pobres” (Michel Mollat, Les pauvres au moyen-âge, Paris, 1978).

 E diz também Mollat:  “A novidade específica consiste em se ter ele, Francisco de Assis,  instalado perto do pobre, procurando reabilitá-lo a seus próprios olhos, trazendo-lhe uma mensagem contra a pobreza em nome de uma vitória sobre a pobreza. Isto equivalia a proclamar a dignidade do pobre como tal, não só como imagem de Jesus Cristo, mas porque Jesus o amou. Assim se explica o beijo no leproso” (Michel Mollat, A pobreza de Francisco: opção cristã e social, in Concilium/169, 1981, vol. 9, p.36)

Frei Vitorio


quarta-feira, 17 de dezembro de 2014

Reflexões Franciscanas - 13



31. O século XIV foi um século de crises. A Ordem Franciscana conhece momentos de decadência, mas não vê decair seu ideal de pobreza. Nestes séculos, entre os anos 1380 e 1396 surge o I Fioretti, livro que narra em forma legendária a luta heroica dos seguidores da Senhora Dama Pobreza para manter vivo este ideal. A reação contra uma decadência reforça o surgimento da Observância, com o beato Paoluccio de Trinci , em 1368, que foi reconhecida pelo Papa Eugênio IV, em 1446 com a bula “Ut Sacra”. Neste período refloresce o ideal franciscano da pobreza, pregação e santidade. Surgem São Bernardino de Siena, São João de Capistrano, São Thiago das Marcas. Em 28 de maio de 1517, a separação da Ordem entre Observantes e Conventuais. Em 1525 surgem os Capuchinhos. Todos buscando viver de modo mais perfeito possível a pobreza. A Ordem cresce e se difunde em ramos diversos: Reformados, Recoletos, Alcantarinos. Aparecem São Leonardo de Porto Maurício, Beato Leopoldo de Gaiche, Lino de Parma, todos procurando viver radicalmente  o espírito e a vida da pobreza.

32. A Segunda e Terceira Ordem dão também a sua silenciosa, mas efetiva contribuição. As Clarissas, na sua incansável fidelidade, no silêncio e na contemplação, no trabalho e na prece vivem a única riqueza necessária  e  escondida aos olhos do mundo, dentro dos Mosteiros, deixam transparecer o ideal franciscano, pelo brilho de Clara de Assis, com uma clareza inquestionável. A Ordem Franciscana Secular dá o seu memorável exemplo no mundo, fazendo renascer o espírito do Seráfico Pai na prática da simplicidade, da humildade e da pobreza. As Ordens em suas Regras e Constituições, seguram entre concessões e proibições, a pobreza como garantia de um límpido modo de vida. A pobreza franciscana tem implicância ascético-místico, espiritual, bíblico, histórico, apologético, jurídico, econômico. Nasce daí uma sólida espiritualidade que mostra que a essência e a alma do franciscanismo é realmente  a pobreza.

Frei Vitório

Imagem: São Bernardino de Siena e São João de Capistrano, óleo de Alonso Cano, Museu de Bellas Artes, Granada.

sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Reflexões Franciscanas - 12


29. Numa das ilustrações de Giotto, na igreja inferior da Basílica de São Francisco, em Assis, na alegoria da Pobreza, o artista tem uma finíssima intuição. Francisco segura uma vela, um pouco abaixo da representação de Madonna Povertà, e nesta vela está escrito: Sancta Paupertas. É o modo como Giotto, artisticamente, exalta o ideal do Poverello. Desde os tempos de Francisco e até hoje o tema da Pobreza é de viva atualidade. Há muita doutrina, arte e poesia sobre “la gente poverella” das três Ordens fundadas pelo Pai Pobre; porém mais que isto há uma história e uma espiritualidade viva por detrás deste tema. Não é um novo modo de ver a economia, mas é a máxima identificação com o modo de ser pobre de Nosso Senhor Jesus Cristo. É aceitar a pobreza da Cruz sempre solidária com a real pobreza dos crucificados da realidade. Não é apenas um fervor espiritual, mas é um modo de viver em comunhão fraterna. Não tem como ser fraterno sem a mística da pobreza. Não tem como estar com os necessitados deste mundo sem um Evangelho vivido pra valer, sem trabalhar com as próprias mãos, em não deixar-se corromper pela sedução dos bens.

Pobreza tem a ver com a minoridade e a minoridade é evitar qualquer triunfalismo, e não querer que estruturas fortemente econômicas adentrem às fraternidades dos Menores. Pobreza é ter em comum, portanto a Fraternidade deve ser a única riqueza. Ser mendicante, para as Ordens Mendicantes, era refazer a experiência de Jesus pobre e peregrino, que “ não tinha onde repousar a cabeça”(Lc 9,3-5). O mendicante não era um parasita grudado na bondade dos outros, mas sim um “Alter Christus”, uma pobreza itinerante, um esforço ascético e um ideal de despojamento pessoal e coletivo, para pregar unicamente o Reino de Deus sem estar preso a nada.

30. Como é que as Ordens Mendicantes depois foram construir grandes conventos e casas? Quando o ideal torna-se decadente é preciso o reforço de estruturas. Hoje sobram as estruturas que mal podem ser administradas. O ideal seria entregá-las aos que cuidam dos pobres e para o cuidados dos pobres. Os  bens conquistados têm que estar a serviço de Deus. A Pobreza Evangélica deve ser um ministério e não apenas um conselho. De 1203 até a sua morte em 1226, Francisco é pobre por imitação e seguimento do Senhor Jesus, por intuição e atuação, por enamoramento e núpcias com a Senhora Dama Pobreza. Ele sempre teve diligente atenção aos mistérios da Pobreza que é o modo de ser do Senhor, e por causa dela regrou a sua vida e deixou que a Pobreza o conduzisse aos pobres, leprosos e infiéis. Não foi uma imitação branda, mas uma conformidade, isto é, tomar a mesma forma de Jesus Cristo, “que sendo rico se fez pobre”. Suas preces, escritos, Regras e Testamento exaltam e propõem o ideal da altíssima pobreza.

De 1226 até 1256 a Ordem cresce muito e isto traz algumas crises. Como ter uma atuação prática da pobreza quando há milhares de frades. A Bula “Quo elongati” de 28 de dezembro de 1230, concede aos cardeais protetores administrar as doações dos benfeitores. Os recursos  vem dos amigos espirituais, mas as necessidades se tornam acomodação. A construção da Basílica de São Francisco, o recolher de ofertas, a construção de grandes conventos, privilégios e posses de bens são causas de desentendimentos e contrariedades. Há mais garçons e operários nos conventos do que frades e leigos. É muito difícil ser fiel à Regra de Vida quando o patrimônio cresce.

De 1256 a 1279, período de São Boaventura e Nicolau III, há lutas internas e externas nas fraternidades. A mendicância torna-se apostolado, mas nem sempre evangelização. A pobreza torna-se tema de pregação apologética e a minoridade corre risco pois valores espirituais tonam-se espécies materiais. De 1279 até 1334 há uma luta entre a prática e a vivência da pobreza e a pobreza que é pura teoria. Muitos escritos sobre a pobreza, muitas opiniões diversificadas, e muita mudança de opinião. A pobreza é idealista, e o ideal ganha posicionamento moral e jurídico e por ele se luta e se morre.

Frei Vitório

Imagem: Alegoria da Pobreza, Giotto, Basílica de São Francisco de Assis, em Assis

terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Reflexões Franciscanas - 11



26. A pobreza franciscana é um modo de ser que, ao se desfazer de tudo, encontra a riqueza maior: "Compartilha-se a pobreza de Cristo, que sendo rico, por causa de nós se fez pobre para que da sua pobreza tornássemos ricos" (2Cor 8,9; Mt 8,20), ( Perfectae Caritatis, 13). Desapropriação não é privação, mas libertação de apegos, sobretudo de apegos internos. Libertar-se de amarras internas é libertar-se também da prisão escravizante da materialidade. Isto dá a liberdade para a maior disponibilidade. Livre para amar, doar, servir e fazer acontecer o Reino. A liberdade para amar é que fez de Francisco a transparência da humildade. Nele, ser menor e súdito de tudo e de todos era um jeito de ser e estar. Nos seus Escritos e Fontes sempre aparece: “Servir ao Senhor em pobreza e humildade”. Ser pobre não é apropriar-se de cargos de mando. É não atribuir nada a si mesmo. “Eis o meio de reconhecer se o servo de Deus tem o Espírito do Senhor. Se Deus por meio dele operar alguma boa obra, e ele não o atribuir a si, pois o seu próprio eu é sempre inimigo de todo bem, mas antes considerar como ele próprio é insignificante e se julgar menor que todos os outros homens” (Adm 12). “Bem-aventurado o servo que, sendo louvado e exaltado pelos homens, não se considera melhor do que quando é tido por insignificante, simplório e desprezível. Porque o homem vale o que é diante de Deus e nada mais” ( Adm 20 ).

27. Abraçar a pobreza evangélica é mais do que abraçar o não ter nada. É preciso ter Deus como a riqueza essencial para viver desapropriado. São Francisco de Assis entregou seus pertences ao seu pai, diante do Bispo, em público, numa praça de Assis porque podia realmente afirmar: “Agora direi livremente: Pai nosso que estais nos céus, não pai Pedro Bernardone, a quem devolvo - eis aqui - não somente o dinheiro, mas entrego também todas as vestes. Portanto, dirigir-me-ei nu para o Senhor. Ó espírito nobre deste homem a quem somente o Cristo basta!” (2Cel 12). Pobreza não é uma questão de materialidade ou não materialidade, mas é identidade sagrada. Como diz o próprio Francisco à Santa Clara e para as  Clarissas: “Eu, Frei Francisco pequenino, quero seguir a vida e a pobreza de nosso altíssimo Senhor Jesus Cristo e de sua Mãe Santíssima e perseverar nela até o fim; e rogo-vos, senhoras minhas, e dou-vos o conselho para que vivais sempre nesta santíssima vida e pobreza. E estai muito atentas para, de maneira alguma, nunca vos afastardes dela por doutrina ou conselho de alguém” (Última vontade escrita para Santa Clara ).

28. Ser pobre de coisas é o caminho mais rápido para herdar a riqueza do Reino. Ser pobre de coisas é exercitar o não apego, sincero e afetivo, a moradia, comida, vestes, dinheiro e seu uso, viagens e carro. Ser pobre é sentir mais alegria e satisfação, unida à humildade, em não ter nada, e estar mais junto de gente simples e desprezível, pobres e fracos, doentes e leprosos e os mendigos dos caminhos (Rb III e Rb VI). Ser pobre é transformar a pobreza em virtude: “Ave, rainha Sabedoria, o Senhor te salve com tua irmã, a santa e pura simplicidade. Senhora santa pobreza, o Senhor te salve com tua irmã, a santa humildade. Senhora santa caridade, o Senhor te salve com tua irmã, a santa obediência. Santíssimas virtudes todas, salve-vos o Senhor de quem vindes e procedeis” (Saudação às Virtudes, 1-4) “ A  pura e santa simplicidade confunde toda sabedoria deste mundo(...) A santa pobreza confunde a ganância e a avareza e os cuidados deste mundo” (Saudação às Virtudes, 10 e 11).

Frei Vitório

|Imagem do filme "Brother Sun Sister Moon", by Zeffirelli

sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Reflexões Franciscanas - 10



23. Continuando a franciscana reflexão sobre a pobreza: “Ser franciscano, ser franciscana dentro do mundo e da Igreja que faz tais opções pelos pobres, comporta uma verdadeira conversão de nossas práticas tradicionais. E para esta conversão contamos com o melhor exemplo de São Francisco de Assis. Ao mudar de vida, não permaneceu na casa de seu pai, rico comerciante, e aí trabalhou para os pobres. Abandonou tudo e se misturou com os pobres e foi ser um deles. Viveu como eles viveram, sofreu a força de marginalização que a sociedade impõe aos pobres e aí dentro descobriu uma dimensão da riqueza de Jesus Cristo em sua Encarnação e Paixão. Começou a ver o mundo com os olhos dos pobres. Por isso que foi um revolucionário religioso com repercussões no social”. (Leonardo Boff, O que significa ser franciscano hoje no Brasil, in O Franciscanismo no mundo de hoje, Vozes, Petrópolis, 1981, p. 35).

24. “Em que não consiste fundamentalmente a pobreza de São Francisco de Assis? Não é simplesmente não ter; isso é consequência! É deixar as coisas serem, respeitar as coisas, não colocá-las sob o domínio do humano, não possuir, não deixar que elas entrem no interesse, com todos os seus lobos. O que São Francisco quer é dar-se, estar junto do outro e da outra; e se dá conta que entre o eu e os outros estão as coisas que nos separam. Então, ele tira as coisas não porque não as ama, mas porque elas separam um de outro. Na medida que tira, ele se associa, se faz junto do outro e da outra, se coloca junto. Não sobre o outro e a outra, sobre a natureza, sobre os poderes, isso seria dominação” (Leonardo Boff, O que significa ser franciscano hoje no Brasil, in Franciscanismo no mundo de hoje, Vozes, Petrópolis, 1981, p.25). “O projeto  da Igreja, de unir seu destino ao destino dos pobres, tem um claro conteúdo evangélico, o que não se pode dizer do velho projeto do poder. Essa adesão à Igreja significa nada mais nada menos que uma volta aos mais originário da identidade franciscana. A Igreja de hoje, na América Latina, criou condições espirituais e pastorais mais favoráveis que em outras épocas para que o espírito franciscano possa viver seu carisma de pobreza como solidariedade e identificação com os pobres. Esse é o melhor serviço que podemos prestar à Igreja e ao mundo” (Idem, obra acima citada, p. 76)


25. No que se refere a sua vida simples e pobre, Francisco de Assis enfrentou alguns desafios: Viveu em tempo conturbado de guerras frequentes entre Assis e Perugia, entre cristãos e muçulmanos e muitas batalhas de conquistas de terra, patrimônio e poder. Em meio a isto tudo pregou a paz em oposição à guerra, proibiu que seus frades e seguidores usassem armas, deu de presente a sua armadura, administrou rivalidades urbanas, e uma rixa entre o prefeito e o bispo de Assis. Foi trabalhar com os camponeses e vestiu-se como um deles. Experimentou os abusos cotidianos que eles sofriam, as dominações variadas sobre os pobres: trabalho excessivo, esgotamento físico, e uma injusta exclusão. Abençoou prostitutas, esteve ao lado de mulheres e crianças, gritou contra as crianças abandonadas na Sardenha por armadores genoveses, no famoso episódio da Cruzada das Crianças, em 1212. Venceu as tentações para dominar a sensualidade. Venceu o domínio do saber, para que isto não levasse ao orgulho, promoção e privilégios, embora jamais tenha condenado o saber, pediu que os frades letrados não perdessem o espírito de devoção.  Esteve no mundo com tudo o que ele comporta, mas mostrou o que é viver religiosamente no mundo. Quanto ao modo de viver a pobreza no tempo de Francisco de Assis, cf. Michel Mollat, A pobreza de Francisco: opção cristã e social, in Concilium/169, 1981/9, p. 37-38).

Frei Vitório

Imagem: Francisco e seus primeiros confrades com o Papa Inocêncio, cena do filme "Irmão Sol Irmã Lua", de Zeffirelli 

quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Reflexões franciscanas - 9


21. Falemos sobre a Pobreza, o sem nada de próprio, a desapropriação e o desapego, a partir de algumas inspirações franciscanas. Em 1Cel, 76 podemos ler: “O pobre Francisco, pai dos pobres, queria viver em tudo como um pobre; sofria ao encontrar quem fosse mais pobre do que ele, não pelo desejo de uma glória vazia, mas por compaixão”, ou como 1Cel, 39 diz  sobre os primeiros frades: “Seguidores da santíssima pobreza porque não tinham nada, nada desejavam e por isso não tinham medo de perder coisa alguma”.  Francisco e os frades primitivos nos ensinaram que ser pobre é também, e sobretudo, colocar-se junto aos pobres, estar com eles e ver o mundo a partir dos olhos dos que nada possuem. Normalmente vemos ódio e revolta a partir das carências materiais, mas não assumimos os sonhos e anseios dos que querem sair de uma situação de miséria. Francisco e seus frades primitivos fizeram aquilo que a Igreja atual sempre clama em seus documentos: uma opção clara e preferencial pelos pobres, assumindo suas angústias e esperanças, suas opressões e aspirações, e que isto se torne o centro das práticas evangelizadoras. Viver o Evangelho é estar naturalmente ao lado dos que nada possuem.

22. Francisco e seus frades estavam ao lado dos pobres e foram lá trabalhar por aqueles que tinham carência de meios, que não possuíam acesso às necessidades mais básicas, seja de bens materiais ou como chance de serem percebidos e acolhidos e assim terem a chance de  participar da vida comum. Foram entre os pobres e os serviram; ao servir aprenderam a ascese, o não ter nada, o uso  necessário e moderado das coisas. Foram lá e lutaram para mostrar os mecanismos de expropriação dos que sempre usaram os pobres para se enriquecer. Aprenderam com eles que certas virtudes não são conselhos de auto-ajuda, mas que ser humilde e simples, desprendido, pródigo e generoso é ter um coração disponível para dar e receber sem restrições. Francisco e seus frades primitivos viveram a solidariedade, que é a transparente  expressão de um amor que vai lá onde o povo pobre está. Da Legenda Franciscana  ao Documento de Puebla o mesmo grito: pobreza produzida é injustiça, pobreza como solidariedade é modo real de evangelizar. Oxalá aprendêssemos com o modo franciscano primitivo que ser pobre é também comer como o povo pobre come, morar como ele mora. Diz 1Cel, 42: “De uma cabana vai-se mais depressa para o céu do que de um palácio”.

Frei Vitório

No alto, cena do filme "Irmão Sol Irmã Lua", de Franco Zeffirelli

Continua

terça-feira, 18 de novembro de 2014

Reflexões Franciscanas - 8


19. Ainda sobre São Francisco: “Um dos motivos mais profundos porque o movimento de Francisco continuou a ter influência até o dia de hoje, está no fato de que com ele começou a existir um novo tipo de homem” (N.G. van Doornik, Francisco de Assis, profeta de nosso tempo, Vozes, Petrópolis, 1976,p.48). “Deve-se admitir que, depois de Jesus, Francisco é o único cristão perfeito. Que ele teve a coragem de pôr em prática o programa do Galileu com fé ilimitada e ilimitado amor – é esta a sua verdadeira originalidade” (Ernesto Renan, citado por N.G. van Doornik, Francisco de Assis, Profeta de nosso tempo, Vozes, Petrópolis, 1976, p. 48-49 ). “Uma das figuras e revelações mais perfeitas que jamais houve na Igreja”(Teillhard de Chardin). “Estava reservado a um dos maiores modeladores da alma e do espírito, na história da humanidade, formar uma síntese entre uma amorosa mística cristã-cósmica, de um lado, e de outro, uma união cosmo-vital afetiva com a essência e a vida da natureza. Creio que Francisco, neste particular, não teve antecessor na história do cristianismo ocidental” ( Max Scheler, Wegen und Formen der Sympathie, 1922, p. 141. Citado por Van Doornik –Obra citada).

20. Sobre os primeiros frades: “A tal ponto estavam repletos de simplicidade, aprendido a inocência e conseguido a pureza de coração, que nem sabiam o que era falsidade e, como tinham a mesma fé, tinham também o mesmo espírito, uma só vontade, um só amor, coerência perene, concórdia de procedimento, cultivo das virtudes, conformidade de opiniões e piedade nas ações” (1Cel 46). Sobre Francisco de Assis: “Desde que começou a servir o Senhor comum de todas as coisas, gostava de fazer coisas comuns, fugindo de toda individualidade, que tem a mancha de todos os vícios” (2Cel 14). Ainda sobre os frades primitivos: “Apenas falavam quando era necessário e de sua boca nunca saía nada de inconveniente ou ocioso: em sua vida e procedimento não se podia descobrir nada de lascivo ou desonesto. Seus gestos eram comedidos e seu andar simples. Tinham os sentidos tão mortificados que mal pareciam ver ou ouvir senão o que lhes estava pedindo atenção. Tinham os olhos na terra, mas o pensamento no céu. Nem inveja, nem malícia ou rancor, nem duplicidade, suspeição ou amargura neles existiam, mas apenas muita concórdia, calma contínua, ação de graças e louvor”. (1Cel 41)

Imagem do filme "Brother Sun Sister Moon", de Franco Zeffirelli 

Continua

Frei Vitório

segunda-feira, 17 de novembro de 2014

Reflexões Franciscanas - 7


17. Ouvir ou ler as palavras do Evangelho para Francisco não era estar diante de um escrito. É Alguém falando! “Não leveis nem ouro, nem prata, nem moedas nos vossos cintos, nem bolsa, nem suas túnicas, nem sandálias, nem cajado...” (Mt 10,9). É entrega sem reservas à uma grande convocação. É descobrir o que vai orientar a sua vontade:  “É isto que procuro, é isto que desejo de todo o meu coração” (1Cel 2). Encontrou o seu ideal: Viver pobre por Amor como Jesus. É o Evangelho que determina a sua existência e a sua sabedoria. “Meus irmãos, dizia um frade dominicano, mestre em teologia: a teologia deste homem é uma águia voando sustentada pelas asas da pureza e da contemplação, enquanto a nossa ciência vai rastejando" (2Cel 103-104 ). Quando a graça divina é derramada num coração fecundo como o de Francisco, nasce daí uma forte espiritualidade. Ela não vem do nada. Vem de uma vida aberta ao Espírito. Uma escolha convicta, pessoal. Emoção, sentimento, ideias e práticas. Personalidade forte e virtuosidade. Uma fé simples, viva, luminosa, o conduz ao Senhor que ele quer seguir e imitar (1Cel 48).

18.  Olha o que dizem sobre o meu Pai Simpático: “Existe um nome que, quando percebido, sintoniza as vibrações da alma profunda, que, quando pronunciado, o timbre da voz arrebata: Francisco de Assis! Que seus filhos e filhas, que a Igreja, que mesmo todos os espíritos religiosos venerem e celebrem este Santo, não admira. Mas, que não-católicos, que todo o mundo culto, poetas e literatos, economistas e filósofos, políticos e até estadistas modernos, vivamente se interessem pelo Santo, é simplesmente estupendo!” (P. Lippert, SJ, início de seu artigo, “in Stimme der Zeit”, por ocasião  do 7º Centenário da Morte de São Francisco ) e “Mais que um mestre, Francisco é para mim e para minhas Irmãs um exemplo de dedicação total a Deus através de Cristo e de seus pobres. A lição de Francisco consiste em estar apaixonado de Jesus Cristo; o seu exemplo consiste em pôr incessantemente esta lição em ato. Sem dúvida, Francisco, se tivesse, por mera hipótese, de voltar, serviria os pobres sobretudo com impulso de todo o seu coração, com os atos que todos os dias o Espírito do Senhor lhe ditasse. Seu exemplo vale até hoje. O amor é sempre novo, como novos são os pobres, os leprosos, os marginalizados, os sem pão e os sem esperança. O exemplo de Francisco fascina e arrasta ainda hoje muita gente, ricos e pobres. Sempre me confortou e estimulou. Para escolher os pobres, minhas Irmãs e eu sempre fomos completamente livres: foi a mesma opção de liberdade de Francisco” (Madre Teresa de Calcutá,citada por Nazareno Fabretti,  “Francisco, evangelismo e comunidades populares, in Concilium 169/1981 -9,p. 46-47).

Imagem: cena do filme "Irmão Sol Irmã Lua", de Zeffirelli 

Frei Vitório

quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Reflexões Franciscanas - 6

14. De tudo isto brota uma bela Espiritualidade. Olhar leprosos com olhos sem a graça é nojento. Olhar com os olhos do Espírito é pura doçura. Penitência existe para adoçar o amargo da vida. Deixar-se conduzir pelo Senhor (cf. Testamento). Quando o Senhor conduz não se tem misericórdia por tabela, mas Ele envia para junto dos que precisam de compaixão. Vencer a repulsa e ver alegria na dor, inundar de Amor o vazio de tantas vidas. “Francisco, diz o Senhor, se queres conhecer-me, troca já as coisas carnais e amadas com vaidade, pelas espirituais e, tomando as amargas como doces, despreza-te a ti mesmo; pois, as coisas que te digo terão sabor na ordem inversa” (2Cel 9). Mais que gesto heroico, beijar e abraçar um leproso é para Francisco saltar para o outro lado, ultrapassar o limite dos sentidos, renunciar a tudo que o prendia. O Amor quando toma conta traz alegria, amplia o “eu” sozinho, faz um novo nascimento. “O ideal do amor divino, agindo e revelando-se na prática da pobreza e da humildade, nasce em sua alma” (LM 1 , § 6 ). Perceber que há um forte chamado dentro de si é perceber-se numa luta interna. É preciso muita coragem para despojar-se e tornar-se pobre como os pobres e com os pobres. Vai visitar sempre os leprosos para entender o que é a pobreza (2Cel 9).

15. Francisco afasta-se um pouco de seus companheiros que o ainda querem líder da juventude. A sua atração agora é outra. Não quer mais honras impostas, quer aquela dignidade que brota espontaneamente do Amor. Quando o coração está elevado em ideias mais profundas todo ser transparece uma paixão. Os companheiros perguntam se ele vai casar. Eis a sua resposta: “Não, e não partirei para as Apúlias, continuarei aqui e vou realizar grandes feitos e depois vou desposar a mais bela, a mais rica e a mais nobre das mulheres” (1Cel 7). Francisco larga os banquetes alcoviteiros, mas jamais abandona a festa. Faz a festa do encontro com os excluídos de seu tempo. Não dá apenas dinheiro, roupas ou tecidos; mas dá-se a si mesmo em cada gesto, em cada pedaço de coisas que reparte. É mendigo entre os mendigos (2Cel 9). Prodigalidade não é ideia, mas é ação de saber dar e  saber receber. A escola de Francisco é o aprendizado com os pobres.

16. Há certos passos que tem que ser dados, e quanto maior os desafios, mais eles fazem o difícil caminho do discernimento. Francisco quer estar no mundo sem ser do mundo, ou melhor, renunciar-se ou desapegar-se de algumas coisas do século. Passo mais difícil foi libertar-se do egoísmo, do orgulho, da vaidade, ainda alguns resquícios de seu tempo de ambição. Passo dado para dentro de uma igreja em ruínas, com uma bela Cruz  bizantina,  totalmente em pé em meio a escombros, só pode ser comunicação divina. Escuta a inspiração falando de modo audível: “Francisco, não vês que minha casa está em ruínas? Vai e restaura-a para mim!” Trêmulo e atônito respondeu: “De boa vontade o farei, Senhor!” (3Comp 5). A Cruz falou! A Cruz sempre fala em meio aos maiores desafios. Ele sente estas palavras de um modo tão vivo. Amar é renunciar, reconstruir, colocar tudo novamente em pé, calejar as mãos, não deixar apagar a lâmpada do Santíssimo e realizar uma transformação espiritual (1Cel 10-15; 2Cel 12).

Imagem de Frei Dito

Frei Vitório

segunda-feira, 10 de novembro de 2014

Reflexões Franciscanas - 5



11. Francisco de Assis herdou dos ideais cavalheirescos um idealismo muito forte (1Cel 2-4). Os valores do Código da Cavalaria Medieval estão muito presentes em sua personalidade. Amabilidade, cortesia, modos distintos, nobreza, virilidade, afabilidade, sinceridade, lealdade, ser livre, fiel, magnânimo, ousado, corajoso, sempre pronto para a ação, decidido. Mesmo preso em Perugia (2Cel 4), em meio à tristeza, abatimento e à tediosa impaciência de seus companheiros de cárcere, Francisco mostra-se na sua grandeza de alma, uma alma elevada e boa, conservando o seu humor, vivendo de sonhos e esperanças, tendo um forte domínio de si mesmo, otimismo transparente, tudo para não deixar-se humilhar pela dura provação que é estar preso e derrotado pela guerra. Jamais a sua vida será triste e banal. Ele acredita nas suas forças interiores. Conviver com nobres, ler romances de cavalaria, vivenciar a guerra de Assis contra Perugia, mexe e molda seu caráter. Como todo jovem da época, sonhava merecer se tonar cavaleiro para enfrentar diferentes tipos de batalha.

12. Gualter de Brienne, guerreava nas Apúlias pela causa dos nobres e da Igreja. Francisco, como já dissemos, juntou-se a ele. Há sonhos que precisam fazer estrada. Seus pais não o impedem. Ele segue na sua visão e vontade de ter terras, palácios, armaduras, vestes vistosas e uma bela dama por companhia. Francisco sempre partiu atrás, junto e na frente de seus sonhos. Em junho de 1205, morre Gualter de Brienne. Aliando este fato a muitas dúvidas, Francisco interrompe a expedição. É preciso fazer uma nova releitura da experiência. Até que ponto vale a glória humana se não for ancorada em algo maior? Ouviu em sonho uma voz que dizia: “Volta para Assis!” Voltar não foi nenhuma derrota, mas sim realizar espiritualmente o mesmo objetivo que o fez partir. Ele está em Spoleto. Entre suas interrogações a mais célebre: "Senhor que queres que eu faça?”. Voltar e achar o seu lugar é conversão. Há uma manifestação divina e uma tomada de posição humana. Seus sentimentos agora se tornam sentimentos de força espiritual. Com a mesma garra com que cuidou dos negócios de seu pai, vai agora administrar as convocações de sua alma.

13. Da prática comum das coisas de seu meio e vivência como um natural jovem de Assis, passa à prática da fé que o envolve. Nada mudou no seu jeito. Sua fé é viva, simples e nobre. Do gosto que tinha pelas lides do comércio de seu pai, passa ao gosto pela meditação, silêncio, oração recolhida em lugares solitários, e o aumento de sua generosidade para com os pobres. A sua vida vai ampliando sentidos. Tudo isto acontece sem deixar de ser uma batalha interior. A vida de Francisco sempre foi um combate a ser vencido. Não está claro ainda que rumo deve dar à sua vida. Procura a orientação na prece. Há capelas desertas e em ruínas que se transformam em lugar de sua decisão. Revê a sua vida passada. Reza fervorosamente. Pede perdão, reconcilia-se. Quando as coisas ficam claras, seus olhos têm uma nova luz. O impacto que se deu dentro de si, choca os que estão fora. Quem é este Francisco agora?

No alto, cena do filme "Irmão Sol Irmã Lua", quando Francisco se aproxima das ruínas de São Damião

Frei Vitório

sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Reflexões Franciscanas - 4


9. Quem é Francisco de Assis, que fez este itinerário a ultrapassar fronteiras? Um homem gracioso, organismo frágil, sensível e forte na vontade e determinação. Dos quinze aos vinte anos vive em torno aos projetos de seu pai. Dos vinte anos em diante faz uma escolha pelos sonhos de seu coração e do coração de Deus. Ama o que é belo e que vale a pena. Não é redutivo, mas amplo. O que toca reconstrói e refloresce. Como jovem está onde estão as serenatas, os perfumes, os tecidos, a imaginação, a alegria de viver e a segurança confortável da casa paterna. Passa pela doença e pelo desencanto do mundo. Saúde recuperada, volta a agitar Assis com sua presença. Ele viveu entre festas e canções de gestas, andou pelas ruas e campos, conviveu com nobres, plebeus e burgueses. Líder, afável, sabia das delícias dos sentidos. Exibia luxo e esmolas. Era um jovem normal, porém sem vícios, era apenas focado em sonhos. Mesmo exuberante em suas posses, jamais deixou de ter compaixão pelos pobres. Tinha senso moral, nobreza de costumes e um coração generoso.

10. Francisco de Assis conheceu a riqueza, glória, prazeres, paixões, derrotas e doença; mas sempre entrou e saiu das experiências com uma entrega impressionante. O que depõe contra a vida o incomoda muito. Se fugiu das fétidas chagas do leproso, foi capaz de abraçar o humano presente entre as feridas. Sofrimento dos outros o faz derramar lágrimas abundantes, sofrimento próprio o leva a uma fantástica mudança. Ser sensível para ele é trabalhar bem a memória e não esquecer nada e ninguém. Nada passa despercebido em sua vivaz e tenaz, objetiva e realista presença. Ele não apenas vê as coisas, mas se identifica com elas. Vida nova para ele é ter um ideal e concretizar sonhos. Apaixonado e ponderado. Jovem alegre e festivo e, ao mesmo tempo, espírito sério. Jovem do cuidado, prudência, habilidade, sólida vontade. Uma alma ansiosa por algo maior, mas nunca precipitado, egoísta ou banal. Entusiasmado, audacioso e voluntarioso, tinha jeito de mercador, alma de cavaleiro, postura de eremita.

Imagem: No alto, cena do filme de "Irmão Sol Irmã Lua", quando Francisco volta, ferido, da guerra.

Frei Vitório 

Continua

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Reflexões Franciscanas - 3


6. Na Quaresma de 1212, recebe a jovem Clara de Favarone, a futura Santa Clara de Assis e com ela funda a Ordem das Damas Pobres, a segunda Ordem, as Clarissas. Neste ano de 1212, as Cruzadas agitam o mundo de então. Multidão transformada em exército partem para a guerra contra os muçulmanos. Há uma guerra santa no ar, sede de martírio e ambição em aumentar bens materiais, tudo isto aliado a um ideal de libertar a Terra Santa das mãos dos assim chamados infiéis. No meio disso tudo acende a vontade missionária, no meio do choque de religiões e civilizações, Oriente e Ocidente se dão a conhecer. A submissão pelas armas recebe o nome de conversão. Claro que ninguém converte ninguém pela violência. Francisco sonha um outro modo: dialogar no espírito. Faz um capítulo de sua Regra de Vida para “aqueles que quisessem ir entre os Sarracenos”, e dá o exemplo, embarca para a Síria para dialogar com o diferente. Uma tempestade impede a viagem e Francisco volta para a Porciúncula no inverno de 1213. Não deixa de realizar suas viagens apostólicas. Em 8 de maio de 1213, recebe do Conde Orlando a doação da montanha do Alverne. Em 1215 Francisco está em Roma, onde se realiza o IV Concílio de Latrão. Aí encontra-se com Domingos de Gusmão, São Domingos, que veio ao Concílio pedir a aprovação da Ordem dos Frades Pregadores, os Dominicanos. Na pauta do Concílio: preparativos de uma nova Cruzada, a união da Igreja grega e latina, condenação de novas heresias e autorização ou não para a fundação de novas ordens religiosas.

7. Em 1216 morre o Papa Inocêncio III, muito importante para a vida inicial da Ordem. Honório III é o sucessor e vai aprovar a indulgência para quem visitasse a Capela da Porciúncula. No Capítulo de Pentecostes de 1217 há as resoluções de instituir Províncias, Ministros Provinciais e as primeiras missões fora da Itália e rumo ao Oriente. Francisco escolhe a França por causa de seu nome, do forte espírito católico  e eucarístico. Em 1218 acontece o célebre Capítulo das Esteiras durante a Festa de Pentecostes na Porciúncula. A partir daí, organiza-se a formação dos postulantes e  noviços.

8. Em 05 de Novembro de 1219, Francisco está em Damieta, no Egito. Entre batalhas perdidas e vencidas, o exército cristão está acampado ali numa Cruzada contra os muçulmanos. Francisco consegue chegar até o sultão Melek-el-Kamel. Sem espada, lança ou escudo, aproxima-se do sultão e os dois dialogam na fé. Francisco sai vivo em meio aos escombros da batalha. Estavam com ele Pedro de Cattani e Iluminado de Rieti. Volta para a Itália, passando antes pela Terra Santa. Na sua volta encontrou a Ordem nos primeiros conflitos para que se modificasse o rigor da sua Regra inicial. Pede ajuda do Papa Honório III que lhe dá o Cardeal Hugolino como o protetor da sua Ordem. Em meio a tudo, Francisco não desiste de sua pregação e faz o seu caminho como peregrino e forasteiro.

Imagem da atriz inglesa Judi Bowker, que fez o papel de Clara no filme "Irmão Sol Irmã Lua" de Zeffirelli

Frei Vitório

Continua

terça-feira, 28 de outubro de 2014

Reflexões Franciscanas - 2



4. Bernardo de Quintavalle, Pedro de Catani, Egídio e alguns jovens de Assis e redondezas formam com Francisco uma fraternidade de penitentes. Vestem-se da mesma forma e esforçam-se por seguir de um modo encarnado o Santo Evangelho. Um dia vão à Roma pedir aprovação para o modo de vida. Levam uma Regra despojada de palavras, mas plena de conselhos do Santo Evangelho. Assustou o Papa e a Cúria com um novo jeito de viver religiosamente.  Ousadia de um leigo sempre causa hesitação em aprovações hierárquicas; mas Francisco e seus primitivos companheiros são compreendidos pelo Papa Inocêncio III.  Recebe abraço e bênção para autorizar a licença de viver e pregar o Evangelho. A primeira profissão da futura Ordem acontece ali, no ano de 1209.

5. Com a aprovação verbal do Papa, Francisco parte para concretizar a experiência daquela fraternidade de penitentes de Assis que a partir de 1210 se consolida como a Ordem dos Frades Menores. A primeira casa da Ordem é a restaurada capela de Santa Maria dos Anjos, a Porciúncula. Dali partiam, para ali voltavam numa prece contínua e pregação contínua levando a paz. Da Porciúncula para Assis, Perugia, Ímola, Cortona,  Bevagna,  Ascoli, Alviano, Arezzo, Firenze, Pisa, Siena, Sartiano, Bolonha... cidades da Itália que receberam as primeiras presenças dos frades. Depois o mundo!

6. Na Quaresma de 1212, recebe a jovem Clara de Favarone, a futura Santa Clara de Assis e com ela funda a Ordem das Damas Pobres, a segunda Ordem, as Clarissas. Neste ano de 1212, as Cruzadas agitam o mundo de então. Multidão transformada em exército partem para a guerra contra os muçulmanos. Há uma guerra santa no ar, sede de martírio e ambição em aumentar bens materiais, tudo isto aliado a um ideal de libertar a Terra Santa das mãos dos assim chamados infiéis. No meio disso tudo acende a vontade missionária, no meio do choque de religiões e civilizações, Oriente e Ocidente se dão a conhecer. A submissão pelas armas recebe o nome de conversão. Claro que ninguém converte ninguém pela violência. Francisco sonha um outro modo: dialogar no espírito. Faz um capítulo de sua Regra de Vida para “aqueles que quisessem ir entre os Sarracenos”, e dá o exemplo, embarca para a Síria para dialogar com o diferente. Uma tempestade impede a viagem e Francisco volta para a Porciúncula no inverno de 1213. Não deixa de realizar suas viagens apostólicas. Em 8 de maio de 1213, recebe do Conde Orlando a doação da montanha do Alverne. Em 1215 Francisco está em Roma, onde se realiza o IV Concílio de Latrão. Aí encontra-se com Domingos de Gusmão, São Domingos, que veio ao Concílio pedir a aprovação da Ordem dos Frades Pregadores, os Dominicanos. Na pauta do Concílio: preparativos de uma nova Cruzada, a união da Igreja grega e latina, condenação de novas heresias e autorização ou não para a fundação de novas ordens religiosas.

Continua
Frei Vitório

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

Reflexões Franciscanas



     1. São Francisco de Assis sempre ultrapassa o que esperamos dele como modelo de fé e caminho espiritual. Sua forte experiência pessoal de uma radical busca espiritual na imitação e seguimento do Senhor tornou-se o patrimônio da Ordem, da Igreja e do mundo. Ele rejuvenesce as espiritualidades. Luminoso e coerente, pé no chão e transcendente, ele é o Evangelho vivente. No solo da realidade e da fraternidade ele construiu um jeito de ser humano, cristão e santo.

     2. Muitos perguntam qual a formação que Francisco teve já que ele mesmo gostava de dizer que era ignorante e iletrado. Este seu modo de dizer tem a ver com o seu modo de despojar-se de qualquer poder de quem sabe. Um modo de viver a minoridade. Ele teve forte formação vinda da parte de seus pais. Seu pai, Pedro Bernardone, homem de negócios delegou a formação de seu filho mais à sua mãe, Jeanne de Bourlemont, a Dona Pica. Sua mãe moldou-lhe a alma com virtuosidade, sensibilidade e piedade. Estudou junto à igreja de San Giorgio, uma instrução que o tornaria apto para o comércio. Estudou latim, aprendeu a ler e fazer cálculos. Mãe e pai ensinaram rudimentos da língua francesa. Francisco torna-se assim um hábil negociador.

     3. Em 1202, Francisco se envolve na guerra entre Assis e Perugia. Alistou-se e lutou. Derrotado foi feito prisioneiro. Em 1203 está em liberdade, mas vai revelando uma total mudança de vida. Mesmo assim, seu sonho cavaleiresco e algumas ambições de seu pai, o levam a seguir Gualter de Brienne para uma expedição às Apúlias. Neste caminho dialoga com suas perguntas e dúvidas, escuta seus sonhos, que em forma de visão apontam um outro destino.  Novamente desiste do projeto e volta para Assis. Não é um derrotado, mas conquista um novo lugar. Toda mudança provoca, e a cidade de Assis assustou-se com o moço rico que se torna penitente, mudando seus hábitos. É recebido com muita ironia, sarcasmo, descrédito. Alguns conseguem ver em Francisco  sinais de uma nova santidade.

     4. Bernardo de Quintavalle, Pedro de Catani, Egídio e alguns jovens de Assis e redondezas formam com Francisco uma fraternidade de penitentes. Vestem-se da mesma forma e esforçam-se por seguir de um modo encarnado o Santo Evangelho. Um dia vão à Roma pedir aprovação para o modo de vida. Levam uma Regra despojada de palavras, mas plena de conselhos do Santo Evangelho. Assustou o Papa e a Cúria com um novo jeito de viver religiosamente. Ousadia de um leigo sempre causa hesitação em aprovações hierárquicas; mas Francisco e seus primitivos companheiros são compreendidos pelo Papa Inocêncio III. Recebe abraço e bênção para autorizar a licença de viver e pregar o Evangelho. A primeira profissão da futura Ordem acontece ali, no ano de 1209.

Imagem:  Cena do filme "Irmão Sol Irmã Lua", de Franco Zeffirelli

Frei Vitório

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sexta-feira, 24 de outubro de 2014

São Luís de França e os Franciscanos - Final


São Luís e o Papa Inocêncio IV (1248), de Louis Jean F. Lagrenee
Frei Sandro Roberto da Costa, ofm
4. Conclusão
A infância do príncipe Luís foi marcada pela presença dos primeiros franciscanos que chegaram à França. Religiosos austeros, piedosos, penitentes, mas ao mesmo tempo plenamente inseridos nos centros urbanos que surgiam, cientes de suas labutas e ambiguidades cotidianas, seja na política, seja no mundo acadêmico ou eclesiástico-religioso.
Franciscanos e dominicanos influenciaram o modo de Luís impostar a política na França. Ambas as Ordens contavam com homens preparados, intelectuais e pensadores que dominavam as cátedras na universidade de Paris. Da parte especificamente franciscana, é interessante notar que Luís se cerca daqueles frades imbuídos de uma nova visão do modo de ser religioso e de impostar as relações com o mundo. O empenho nas reformas, a radicalidade de vida, o combate aos abusos, a visão alegórica, apocalíptica e milenarista, prospectando um mundo diferente, transformado pela radicalidade evangélica, marcam a vida destes homens. Mas não são monges, isolados nos eremitérios e mosteiros, distantes e alheios aos problemas humanos. Ao contrário, são religiosos empenhados em buscar respostas às grandes questões e desafios que aquele momento e aquela sociedade lhes propõem, vivenciando-as e conhecendo-as a partir de dentro. Le Goff afirma que “São Luís... entre os franciscanos estava inclinado a seguir os joaquimitas: mas ele se cerca daqueles que se impõem por sua influência na sociedade da segunda metade do século XIII, quer dizer, pessoas da Igreja que buscam antes de tudo achar um modus vivendi entre as novas seduções da vida, o desenvolvimento de uma economia de troca e empréstimo, e as necessidades da salvação. Pessoas partidárias tanto do compromisso religioso como do compromisso social, de uma evangelização da sociedade nova equilibrando o admissível e o inaceitável”[56].
Os franciscanos correspondem muito bem a esse novo modus vivendi: são homens de uma piedade e seriedade religiosa a toda prova, fautores da pobreza e da simplicidade, vivem nas cidades, e estão nos grandes centros de estudos, discutindo em pé de igualdade com os maiores pensadores de seu tempo, dando respostas pertinentes e eficazes aos desafios dos novos tempos. São homens que entendem as necessidades, a linguagem e os desafios das cidades. Encontram-se, com a mesma desenvoltura, nos mais simples e humildes tugúrios ou nos palácios e parlamentos dos reis. Homens preparados e capazes de corresponder às exigências dos espíritos mais sérios e preocupados em impostar uma política de governo que correspondesse aos desígnios de Deus. Mas, ao mesmo tempo, capazes de guiar os espíritos humanos nas árduas batalhas espirituais travadas dia a dia na busca da salvação da própria alma. Com os discípulos de Francisco de Assis, Luís de França aprendeu a cuidar bem da cidade dos homens, sem perder de vista a Cidade de Deus.
Na peregrinação em busca da salvação, a exemplo de Francisco de Assis, Luís seguiu os passos do Cristo da Paixão. Através da penitência, do sacrifício e da caridade para com o próximo, os pequenos e pobres, conseguiu atingir a meta. Na decisão de partir para a segunda cruzada, doente e enfraquecido, estava a certeza de que a derrota da primeira fora causada por sua culpa, por causa de seus pecados. Assim, a cruzada revela-se como uma via purgativa, de salvação e de conformação com o Cristo pobre e sofredor[57]. A morte na cruzada é a conclusão ideal de sua vida.
As palavras dirigidas ao filho no seu Testamento Espiritual representam o ponto de chegada de uma vida pautada pela busca do bem comum, e pelo empenho pela própria salvação, seguindo as pegadas de Cristo: “Filho dileto, começo por querer ensinar-te a amar ao Senhor, teu Deus, com todo coração, com todas as forças, pois sem isto não há salvação... Guarda, meu filho, um coração compassivo para com os pobres, infelizes e aflitos e, quanto puderes, auxilia-os e consola-os. Por todos os benefícios que te foram dados por Deus, rende-lhe graças para te tornares digno de receber maiores. Em relação a teus súbditos, sê justo até o extremo da justiça, sem te desviares; e põe-te sempre de preferência  da parte do pobre mais do que do rico, até estares bem certo da verdade. Procura com empenho que todos os teus súditos sejam protegidos pela justiça e pela paz, principalmente as pessoas eclesiásticas e religiosas. Sê dedicado e obediente a nossa mãe, a Igreja Romana, ao Sumo Pontífice, como pai espiritual. Esforça-te por remover de teu país todo pecado, sobretudo o de blasfêmia e heresia. Ó filho muito amado, dou-te, enfim toda bênção que um pai pode dar ao filho e toda Trindade e todos os santos te guardem do mal. Que o Senhor te conceda a graça de fazer sua vontade de forma a ser servido e honrado por ti. E assim, depois desta vida, iremos juntos vê-lo, amá-lo e louvá-lo sem fim. Amém”.

Bibliografia:

Livros:
Fontes Franciscanas e Clarianas, Tradução de Celso Márcio Teixeira, Vozes/FFB, Petrópolis 2004, Primeira Vida de Celano; Compilação de Assis; Crônica de Jordão de Jano; Crônica de Frei Salimbene de Adam (de Parma); Testemunhos Menores – Jacques de Vitry.
Guillaume de Nangis, Vie et vertus de Saint Louis, Librarie de la Société Bibiographique, Paris 1877.
Joinville, Jean, Histoire de Saint Louis, edição de Natalis de Wailly. Paris: Librairie Hachette, 1921.
le Goff, Jacques, São Luís, Record 1999.
____________, Uma longa Idade Média, Civilização Brasileira, RJ 2008.
____________, O maravilhoso e o cotidiano no Ocidente Medieval, Edições 70, Lisboa, Portugal 1985.
____________, São Francisco de Assis, Record, RJ e SP 2011.
Madaule, J., Saint Louis de France, Aux Editions Franciscanies, Paris 1946.

Artigos:
Cardini, F., Nella presenza del Soldan superbo: Bernardo, Francesco, Bonaventura e il superamento dell’idea di Crociata, Studi Francescani, 71, 1974, 199-250.
Carolus-Barre L., Guillaume de Saint-Pathus, confesseur de la reine Marguerite et biografe de Saint-Louis. Archivum Franciscanum Historicum, Firenze 1986, vol. 79, no1-2, pp. 142-152. 
D’Aincreville, P., Le voyage de Salimbene en France, La France Franciscaine, t. I, 1912, p. 21-75.
Miatello, A. L. Pereira, Os frades mendicantes e a educação política no século XIII (Vicente de Beauvais e Gilberto de Tournai), XVIII Encontro Regional da ANPUH, 24-27 de julho de 2012
Miatello, A. L. Pereira, O rei e o reino sob o olhar do pregador: Vicente de Beauvais e a realeza no século XIII, Revista Brasileira de História, vol. 32, nº 63.
Peano, P., Resenha de obra sobre frei Hugo de Digne, Archivum Franciscanum Historicum, 79, 1986, 14-19.

Arquivos eletrônicos:
Carolus-Barré Louis, Le Procès de canonisation de Saint Louis (1272-1297). Essai de reconstitution. Rome : École Française de Rome, 1994, 328 p. (Publications de l'École française de Rome, 195). http://www.persee.fr/web/ouvrages/home/prescript/monographie/efr_0000-0000_1994_edc_195_1
Delaborde Henri-François. Le texte primitif des Enseignements de saint Louis à son fils. In: Bibliothèque de l'école des chartes. 1912, tome 73. pp. 73-100. Doi : 10.3406/bec. 1912.448470. http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/bec_0373-6237_1912_num_73_1_448470
Genet, Jean-Philippe. Saint Louis : le roi politique. In: Médiévales, N°34, 1998. pp. 25-34. doi : 10.3406/medi.1998.1410.  http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/medi_0751-2708_1998_num_17_34_1410
Glorieus, Paul, Prélats français contre religieux mendiants. Autour de la bulle: “Ad fructus úberes” (1281-1290). In Revue d'histoire de l'Église de France. Tome 11. N°52, 1925. pp. 309-331. Doi : 10.3406/rhef.1925.2360. http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/rhef_0300-9505_1925_num_11_52_ 2360.
Laband, Edmond-Rène, Saint Louis Pèlerin. In: Revue d'histoire de l'Église de France. Tome 57. N°158, 1971. pp. 5-18. Doi : 10.3406/rhef.1971.1856.  http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/rhef_0300-9505_1971_num_57_158_1856   
Mercuri, Chiara. San Luigi e la crociata. In: Mélanges de l'Ecole française de Rome. Moyen-Age, Temps modernes, T. 108, N°1. 1996. pp. 221-241. doi : 10.3406/mefr.1996.3483. http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/mefr_1123-9883_1996_num_108_1_3483
Stein, Henri, Pierre Lombard, médecin de Saint Louis In: Bibliothèque de l'école des Chartes. 1939, tome 100. pp. 63-71.doi : 10.3406/bec.1939.449186.  http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/bec_0373-6237_1939_num_100_1_449186.




[56] Le Goff, Uma Longa..., oc, p. 261.
[57] “O Cristo sofredor é aquele proposto por Boaventura e pelo movimento franciscano, ao contrário de Francisco que tinha, ele mesmo, privilegiado o rosto amoroso do Pai celeste e que se viu ‘irmão’ do Cristo. Francisco se identificou com os sofrimentos espirituais do Filho, ao Cristo do Monte das Oliveiras, e não aos tormentos do supliciado, ao Cristo do Gólgota”. Mercuri, Chiara, San Luigi e la Crociata, 235-236. In: Mélanges de l'Ecole française de Rome. Moyen-Age, Temps modernes T. 108, N°1. 1996. pp. 221-241. doi : 10.3406/mefr.1996.3483. http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/mefr_1123-9883_1996_num_108_1_3483.  

quarta-feira, 22 de outubro de 2014

São Luís de França e os Franciscanos - XVI


Frei Sandro Roberto da Costa, ofm
3.3 Um encontro de Luís com os frades
Frei Salimbene de Parma, cronista medieval, é o responsável pela descrição de um dos mais belos quadros de convivência do rei Luís com os franciscanos. Salimbene viajou a Sens, na França, para participar do Capítulo Geral. Além das autoridades da Ordem, como o Ministro Geral João de Parma, chega ao local o rei da França, dirigindo-se em peregrinação para a cruzada. Salimbene descreve a cena da chegada do rei. Povo e religiosos se aglomeram à espera da chegada do rei. Em meio à multidão, perdido, porque se atrasara e os outros frades já tinham ido ao encontro do rei, encontra-se o franciscano Eudes de Rigaud, arcebispo de Rouen, que, mitra na cabeça e cajado à mão, gritava: “Onde está o rei? Onde está o rei?”. Salimbene passa a descrever o rei: “O rei era esbelto e delicado, magro e alto, tendo um rosto angelical e face simpática. E vinha à igreja dos Frades menores não na pompa régia, mas no hábito de peregrino, tendo uma sacola e bordão de peregrinação ao pescoço que decoravam muito bem as espáduas do rei. E vinha não a cavalo, mas a pé; e os seus irmãos de sangue, que eram três condes, [...] seguiam-no em semelhante humildade e hábito. [...] Na verdade, parecia mais um monge, quanto à devoção do coração, do que um cavaleiro, quanto às armas de guerra. E assim, entrando na igreja dos irmãos, tendo feito a genuflexão mui devotamente diante do altar, rezou. [...] Em seguida, o rei disse, com voz bem clara que ninguém entrasse na sala do Capítulo, a não ser os cavaleiros, exceto os irmãos, aos quais ele queria falar. E quando estávamos reunidos no Capítulo, o rei começou a relatar seus atos, recomendando-se a si mesmo, aos irmãos e a rainha sua mãe, e toda sua comitiva; e, fazendo genuflexão com muita devoção, pediu as orações e os sufrágios dos irmãos”[53]

Frei João de Parma tomou a palavra e prometeu as orações da Ordem, devendo cada padre celebrar quatro missas pelo rei. Após o encontro, seguiu-se um lauto banquete, tudo às expensas do rei. Frei João de Parma, embora tendo lugar reservado ao lado do rei, preferiu sentar-se com os mais pobres[54].

No dia seguinte o rei retomou seu caminho em direção ao porto que o levaria para a Terra Santa. Mas ainda faria vários desvios, para visitar os eremitérios franciscanos pelo caminho, onde se punha em oração. De novo é frei Salimbene quem nos descreve uma destas visitas. Em Vézelay, no dia 21 de junho de 1248, o rei e seus três irmãos dirigiram-se ao convento dos frades, modesto e recém-construído. Entraram na igreja e, embora os frades lhes oferecessem bancos e cadeiras, o rei se senta no chão, na poeira, já que o piso da igreja ainda não estava pavimentado. Sentados todos no chão, em círculo em volta do rei, este lhes dirige a palavra e se recomenda às suas orações[55].  



[53] Fontes Franciscanas e Clarianas,  2004, Crônica de Frei Salimbene de Adam (de Parma), o.c., p. 1402.
[54] João de Parma também era fautor da ala reformista dos joaquimitas. São Boaventura foi seu sucessor, que o processou e condenou à prisão perpétua.  A proximidade dos soberanos franceses com os franciscanos espirituais vai continuar após a morte de Luís. Já citamos aqui São Luís de Toulose, sobrinho de Luís. Ele e seus irmãos tiveram como preceptor frei Pedro de João Olivi, um dos maiores expoentes da corrente dos Espirituais.
[55] Carolus-Barré, Louis. Le Procès de canonisation de Saint Louis (1272-1297). Essai de reconstitution. Rome: École Française de Rome, 1994, p. 295, (Publications de l'École française de Rome, 195). http://www.persee.fr/web/ouvrages/home/prescript/monographie/efr_0000-0000_1994_edc_195_1 . Descrição também em Le Goff, São Luís, 401-402.

Continua

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

São Luís de França e os Franciscanos - XV

Boaventura também era admirado por Luís
Frei Sandro Roberto da Costa, ofm
3.2 Outros franciscanos influentes no “entourage” de Luís
O encontro e as palavras proféticas de Hugo de Digne certamente impressionaram profundamente o espírito de Luís, educado desde criança num ambiente de piedade, que favorecia uma mística religiosa e devocional, de busca de realizar, na terra, o reino de Deus. Mas já antes deste encontro o rei mantinha, em sua “entourage”, além dos dominicanos, religiosos franciscanos empenhados com a seriedade da reforma dos costumes. Um dos franciscanos mais próximos de Luís é o mestre da Universidade de Paris, Eudes de Rigaud.
Eudes era mestre regente do convento de Paris e mestre de teologia na universidade daquela cidade. Foi o sucessor de Jean de la Rochelle e de Alexandre de Hales, e foi mestre de São Boaventura. Eudes é um dos “Quatro Mestres”, que redigiram o comentário oficial da Regra franciscana, em 1242[48]. Em 1248 foi nomeado arcebispo da diocese de Rouen, a mais importante da França, mas continuou fazendo parte do círculo dos amigos do rei, sendo um dos frades franciscanos mais íntimos de Luís: “Seu mais próximo conselheiro e amigo”, nas palavras de Le Goff[49].
Em 1255 ele celebrou o casamento da filha de Luís, Isabel. A partir de 1258 Eudes se encontra frequentemente na corte. Em novembro de 1258 presidiu a missa no aniversário de morte de Luís VIII, pai do rei. Os documentos testemunham vários encontros do rei com o arcebispo franciscano, em 1259 e 1260, quando da morte de seu herdeiro, o primogênito Luís. Em 1261 ele foi convidado a pregar na Saint-Chapelle. Sabe-se que, quando o rei estava na abadia de Royalmont, pedia que Eudes presidisse a celebração, como na festa de  Pentecostes de 1262. A presença de Eudes na corte se justifica também pelas missões diplomáticas que o rei lhe confiara, como o tratado entre a França e a Inglaterra, em 1259. Em 1264 Eudes tornou-se membro do Parlamento de Paris.
Destaque-se, no comportamento do arcebispo franciscano, seu espírito reformador e de combate aos abusos no clero regular e secular. Visitando incansavelmente todos os mosteiros, abadias e conventos masculinos e femininos de sua arquidiocese, Eudes conseguiu dar uma nova imagem à Igreja. Seus escritos somam mais de mil páginas, consistindo hoje num documento de valor inestimável para conhecermos a realidade da Igreja em uma região da França, no século XIII. Antes de morrer, Luís o designou um de seus executores testamentários. Eudes também tornou-se membro do Conselho de Regência encarregado de governar a França, sendo o primeiro membro  nomeado pelo rei Felipe III, sucessor de Luís, quando ainda se encontrava em Cartago, em outubro de 1270.
Ainda no campo intelectual, outro mestre franciscano de Paris muito próximo do rei é Gilberto de Tournai. Das poucas informações que nos chegaram sobre ele, sabemos que era mestre de teologia em Paris, amigo de São Boaventura e de Luís, e pregador de cruzadas. Escreveu várias obras de cunho pedagógico. Algumas dessas obras nasceram da amizade com o rei, como a Eruditio Regum et Principum (Educação dos reis e dos príncipes), uma coleção de três cartas escritas em 1259, endereçadas a Luís, versando sobre os princípios necessários ao bom governo dos príncipes[50]. Depois de 1261, Gilberto abandonou a cátedra para viver uma vida de oração e contemplação. A pedido de Boaventura, participou do 2º. Concílio de Lião, em 1274, onde teria apresentado sua obra De Scandalis Ecclesiae[51].
Boaventura de Bagnoregio era um dos maiores pregadores da época, mestre da universidade de Paris até 1257, quando foi eleito Ministro Geral dos Franciscanos, também era admirado por Luís, que o convidava para pregar em sua presença. Boaventura pregou pelo menos dezenove vezes diante do rei.  
A proximidade e intimidade entre Luís e os franciscanos mostra-se numa querela séria, que estourou na Universidade de Paris. Entre 1254 e 1257, alguns mestres seculares colocaram em questão o estilo de vida dos mendicantes, uma novidade que, segundo eles, ia contra o Direito Canônico, especificamente por causa do princípio mendicante e do ensino universitário e da pregação. O chefe dos seculares era Guilherme de Saint-Amour. Depois de uma acirrada polêmica, com a intervenção dos maiores mestres da época, Boaventura e Tomás de Aquino, entre outros, a Santa Sé reconheceu, por duas vezes, o direito dos frades. O rei Luís executou imediatamente as ordens em favor dos frades. Obrigou Saint-Amour a entregar seus cargos e benefícios, proibiu-o de pregar e ensinar, e o exilou da França[52].




[48] A pedido do Ministro Geral frei Haimon de Faversham, alguns mestres das escolas de Oxford e Paris se dispuseram a “interpretar” a Regra, para responder às dúvidas surgidas na Ordem. O resultado da consulta foi a “Expositio quatuor magistrorum super Regulam Fratrum Minorum”, dos mestres de Paris Alexandre de Hales, João de La Rochele, Roberto de Base e Eudes de Rigaud.
[49] Le Goff, Jacques, São Luís, o.c., p. 269.
[50] Veja-se: Retrato do rei ideal, in Le Goff, Um Longa..., oc., p. 217-238. Miatello, A. L. Pereira, Os frades mendicantes e a educação política no século XIII (Vicente de Beauvais e Gilberto de Tournai), XVIII Encontro Regional da ANPUH, 24-27 de julho de 2012.
[51] Cardini, F., Gilberto de Tournai: un francescano predicatore della crociata, Studi Francescani 72, 1975, 31-48.
[52] A questão vai ter seus desdobramentos, a favor e contra os mendicantes. Veja-se a propósito: Glorieus, Paul, Prélats français contre religieux mendiants. Autour de la bulle: “Ad fructus úberes” (1281-1290). In Revue d'histoire de l'Église de France. Tome 11. N°52, 1925. pp. 309-331. Doi : 10.3406/rhef.1925.2360. http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/rhef_0300-9505_1925_num_11_52_ 2360.     

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