segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 30

A MÍSTICA DA ENCARNAÇÃO

Sem encarnação não há comunicação


   Cada pessoa humana concretiza facetas próprias do Filho Eterno. Verdadeiramente a Pessoa Humana é uma realidade Sagrada. Quem viola, viola o Filho de Deus. Quem acolhe, acolhe Deus mesmo. O Natal tem um alcance Total, um alcance profundamente humano e cósmico.

A festa do Natal não é unicamente a festa da nossa História, mas de toda a História, não só dos cristãos, mas de toda a Humanidade. A História está grávida de Cristo! Há a cristificação da matéria: as pedras, os ciscos do caminho, as plantas, os animais, tudo o que existe, se move, sente, vive e pensa tem a ver com o Menino que nasce.

Por isso fazemos presépios. Por isso, nesta visão cósmica da Encarnação, a Liturgia Antiga cantava: "Alegres pelo Nascimento, as montanhas e as colinas se inclinam e os elementos do mundo, num inefável gozo, executam neste dia uma Melodia Sublime!"

Celebra-se uma Liturgia Cósmica que escapa aos olhos e ouvidos sensíveis, que é vista e ouvida, porém, pelos olhos da Fé. Sabemos que o mundo foi definitivamente visitado por Deus. A criação se alegra, canta e se extasia com o Hóspede Divino!

   São Francisco queria que no Natal, neste Dia Santo, todos dessem água às flores. Queria que tratassem bem os animais de estimação. Saudemos a natureza de nossas janelas! Pisemos com cuidado o chão de nossos caminhos para não atropelarmos a vida!

Todos somos cristificados, somos irmãos e irmãs, e os irmãos se tratam bem e com carinho! São Francisco entendeu bem: queria que, neste dia em que o Verbo se fez Carne, que todos  comessem carne fartamente. Que se jogassem sementes pelas estradas para que as aves tivessem o que comer. Que aqueles que tivessem um asno ou um boi dessem muita forragem porque na noite de Natal a Virgem colocou seu gracioso Menino entre eles. Que todos se lembrassem da nossa consanguinidade e se presenteassem mutuamente.

DEMO-NOS PRESENTES PORQUE DEUS NOS DEU UM PRESENTE SEM PREÇO: DEU-SE A SI MESMO NUM MENINO!

CELEBRAR O NATAL É:

   Proclamar o maior Evento da História: O Verbo se fez Carne! (Jo, 14)
   
   Deus nutre simpatia para com a nossa espécie. Quem é o Humano para que Deus se tornasse um deles?
   
   Que Grandeza possui o Humano para fascinar o Supremo?  Em cada existência deve palpitar esta pergunta.

    A resposta não está em nenhum livro; cada pessoa tem que respondê-la para si mesma. Nisso se decide tudo, o sentido absoluto ou eterno fracasso.
   Hoje temos tanto conhecimento, mas não sabemos quem somos nós.
Os últimos séculos nos judiaram com humilhações cosmológicas, biológicas, psicológicas e religiosas. O Humano quis ser o centro do Universo físico, querendo que tudo girasse em tomo dele.

     A terra é um grãozinho de areia perdido no espaço cósmico. Se Deus dissesse a um Anjo: “Vai me procurar na terra!” O Anjo não acharia de tão minúscula... Mas Deus sim! Somente ele sente pulsar onde bate o coração humano!

Continua

sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 29



A MÍSTICA DA ENCARNAÇÃO

Sem encarnação não há comunicação

  Cada qual sabe por experiência própria: é difícil suportar-se e mais difícil ainda é abrir-se aos demais, escutá-los, amá-Los em suas estreitezas e limitações. E, contudo e apesar de tudo: Deus quis ser como nós!

Deus não assumiu uma humanidade abstrata. Ele assumiu desde o primeiro momento um ser histórico: judeu de raça e de fé, teve pai e mãe, cresceu na estreiteza de uma pequena pátria, viveu no interior, trabalhou; não sabia grego nem latim; falava em dialeto aramaico com sotaque da Galileia; sentiu as forças de ocupação em seu país, teve que fugir do rei, conheceu a fome, a sede, a saudade, as lágrimas pela morte do amigo, a alegria da amizade, a tristeza, as tentações. De nada foi poupado. Até do abandono e da morte. O Natal nos mostra o que Deus é capaz. Se fez um de nós sem deixar de ser Deus.
 
“E o Verbo (a Palavra, a Comunicação) se fez Carne!...” Pode Deus fazer-se? A fé não nos ensinou que Ele é imutável? Mas apesar disso, Deus tomou a nossa forma, se fez Humano!

   Isso nos ensina a sermos mais cristãos e não meros monoteístas. Isto nos permite celebrar o Natal: a Festa de um Deus feito carne quente, presente, palpável. A mudança não está só no humano assumido por Deus, mas está em Deus mesmo! Ele toma a iniciativa, faz a aproximação. Não se pode eliminar a Encarnação. Ela é um fato, um acontecimento de Deus.

   Ele é um Amor tão Grande e Absoluto que pode realizar em si todas as possibilidades... e também esta: de tornar-se Humano finito e infinito. Se não pudesse Encarnar-se não seria Humano, nem Absoluto. Se não pudesse fazer-se outro, sem perder o que sempre É, “não seria o Amor pleno e total. Um Amor que se comunica, sai de si e entrega-se sem reservas!”

   O Mistério do Amor se chama Pai e sua expressão Absoluta se chama Filho. Deus tem algo muito grande a dar: entrega-se Ele mesmo! Quando Deus se dá é Pai. O que surge desta doação é o Menino, o Filho! No Filho, a Bondade, a Beleza e toda a Riqueza Infinita de ser Pai se expressa e se concretiza.
Este Menino expressa toda a riqueza, a beleza, a bondade, as verdades finitas e temporais que podem ser criadas.

   Ele é o espelho de toda Criação! Tudo é criado a partir deste Filho, tudo começa a espelhar o Filho. Assim todas as coisas da criação, o mínimo átomo que começou a vibrar, a pequenina célula que começou a pulsar, os macrocosmos, os microcosmos.

Todas as coisas possuem uma característica paternal, maternal e filial. Todos são filhos e filhas, irmãos e irmãs, junto com o Irmão Maior... O Filho Eterno, na Casa do Pai. Dentre os seres filiais, há uma espécie que é, por excelência, a imagem do Pai e do Filho: a Espécie Humana com seus inumeráveis indivíduos... cada um desde o início do mundo até o último nascido, cada um espelha a seu modo esta verdade.

Mas entre todos há um que Deus predestinou para ser a sua Imagem Total: Jesus de Nazaré! Ele mostrou o Amor de Deus para fora de Deus, mostrou como Deus ama, para que pudesse ser Infinito permanecendo finito, para que pudesse ser Deus no Mundo sem deixar de ser Criatura. Esta vontade de Encarnação e de Comunicação para fora e para dentro do tempo constitui eternamente o Humano!

A Humanidade é a expressão temporal do Menino Eterno. A Humanidade expressa algo de Deus para nós! Quem falava com Jesus encontrava-se com Deus. Quem compreendia Jesus entendia Deus mesmo.

   GRANDE COISA DEVE SER O HUMANO PARA QUE DEUS QUISESSE SER UM DELES!

      Se o Humano é a Comunicação de Deus na História, o Deus Menino é a máxima comunicação de Deus na História. É o Projeto Divino totalmente realizado. O Filho, ao Encarnar-se, não atingiu somente a santa humanidade de Jesus de Nazaré.

Ele tocou a todos nós! Cada um, no desígnio eterno, foi feito por, para e com o Filho!

  TODOS SOMOS FILHOS NO FILHO!

Continua

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 28



A MÍSTICA DA ENCARNAÇÃO

Sem encarnação não há comunicação

Cada qual sabe por experiência própria: é difícil suportar-se e mais difícil ainda é abrir-se aos demais, escutá-los, amá-Ios em suas estreitezas e limitações. E, contudo e apesar de tudo: Deus quis ser como nós!

Deus não assumiu uma humanidade abstrata. Ele assumiu desde o primeiro momento um ser histórico: judeu de raça e de fé, teve pai e mãe, cresceu na estreiteza de uma pequena pátria, viveu no interior, trabalhou; não sabia grego nem latim; falava em dialeto aramaico com sotaque da Galileia; sentiu as forças de ocupação em seu país, teve que fugir do rei, conheceu a fome, a sede, a saudade, as lágrimas pela morte do amigo, a alegria da amizade, a tristeza, as tentações. De nada foi poupado. Até do abandono e da morte. O Natal nos mostra o que Deus é capaz. Se fez um de nós sem deixar de ser Deus.

“E o Verbo (a Palavra, a Comunicação) se fez Carne!...” Pode Deus fazer-se? A fé não nos ensinou que Ele é imutável? Mas apesar disso, Deus tomou a nossa forma, se fez Humano!

Isso nos ensina a sermos mais cristãos e não meros monoteístas. Isto nos permite celebrar o Natal: a Festa de um Deus feito carne quente, presente, palpável. A mudança não está só no humano assumido por Deus, mas está em Deus mesmo! Ele toma a iniciativa, faz a aproximação. Não se pode eliminar a Encarnação. Ela é um fato, um acontecimento de Deus.

Ele é um Amor tão Grande e Absoluto que pode realizar em si todas as possibilidades... e também esta: de tornar-se Humano finito e infinito. Se não pudesse Encarnar-se não seria Humano, nem Absoluto. Se não pudesse fazer-se outro, sem perder o que sempre É, “não seria o Amor pleno e total. Um Amor que se comunica, sai de si e entrega-se sem reservas!”

O Mistério do Amor se chama Pai e sua expressão Absoluta se chama Filho. Deus tem algo muito grande a dar: entrega-se Ele mesmo! Quando Deus se dá é Pai. O que surge desta doação é o Menino, o Filho! No Filho, a Bondade, a Beleza e toda a Riqueza Infinita de ser Pai, extrojeta-se, expressa e concretiza.
Este Menino expressa toda a riqueza, a beleza, a bondade, as verdades finitas e temporais que podem ser criadas.

Ele é o espelho de toda Criação! Tudo é criado a partir deste Filho, tudo começa a espelhar o Filho. Assim todas as coisas da criação, o mínimo átomo que começou a vibrar, a pequenina célula que começou a pulsar, os macrocosmos, os microcosmos.

Todas as coisas possuem uma característica paternal, maternal e filial. Todos são filhos e filhas, irmãos e irmãs, junto com o Irmão Maior... O Filho Eterno, na Casa do Pai. Dentre os seres filiais, há uma espécie que é, por excelência, a imagem do Pai e do Filho: a Espécie Humana com seus inumeráveis indivíduos... cada um desde o início do mundo até o último nascido, cada um espelha a seu modo esta verdade.

Mas entre todos há um que Deus predestinou para ser a sua Imagem Total: Jesus de Nazaré! Ele mostrou o Amor de Deus para fora de Deus, mostrou como Deus ama, para que pudesse ser Infinito permanecendo finito, para que pudesse ser Deus no Mundo sem deixar de ser Criatura. Esta vontade de Encarnação e de Comunicação para fora e para dentro do tempo constitui eternamente o Humano!

A Humanidade é a expressão temporal do Menino Eterno. A Humanidade expressa algo de Deus para nós! Quem falava com Jesus encontrava-se com Deus. Quem compreendia Jesus entendia Deus mesmo.

GRANDE COISA DEVE SER O HUMANO PARA QUE DEUS QUISESSE SER UM DELES!

Se o Humano é a Comunicação de Deus na História, o Deus Menino é a máxima comunicação de Deus na História. É o Projeto Divino totalmente realizado. O Filho, ao Encarnar-se, não atingiu somente a santa humanidade de Jesus de Nazaré.

Ele tocou a todos nós! Cada um, no desígnio eterno, foi feito por, para e com o Filho!

TODOS SOMOS FILHOS NO FILHO! 
 
Continua

segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 27


A MÍSTICA DA ENCARNAÇÃO

Sem encarnação não há comunicação

Para celebrar o Natal é preciso recriar uma atmosfera Sagrada. Celebrar o Natal implica mais do que orar e refletir. Importa abrir o coração e se alegrar. Podemos pensar diante de uma Criança? Podemos fazer doutrinas diante de uma vida que se abre como uma flor? Não pode haver indiferença, quando, de repente, a vida se ilumina! Para celebrar é preciso exorcizar o medo que inibe. Deus não vem para julgar ou condenar. Ele nasce criancinha, seu choro é de criança e não afugenta ninguém.

Ele não veio armado para punir. Ele está aí, na fragilidade de um Menino, para ficar bem junto à nós e nos libertar. Celebrar a chegada de um amigo! Cabe a cada um e a cada uma criar a festividade da Festa, fazer silêncio no coração, preparar a alma, reconciliar todas as coisas. Só assim a festa se deixa saborear. Deus se fez Humano e veio morar na nossa Casa! Este é o motivo que temos para celebrar!

O Natal revela o projeto que Deus se propusera a si mesmo: Deus quis se comunicar de forma completa a um outro ser diferente d’Ele!

Dignou-se a dar-se de presente a alguém! Deus não quis ficar unicamente Deus. O Criador fez-se também criatura. Não quis só comunicar somente seu Bem, sua Verdade, sua Beleza... Ele nos presenteou também com isso. Por isso, sempre quando amamos o Bem, pensamos a Verdade e apreciamos a Beleza... estamos apreciando, pensando e amando Deus.

Deus quis dar-se! Para isso é preciso existir alguém diferente que o possa receber. Esse alguém somos nós... e entre nós o olhar divino repousou sobre Jesus de Nazaré. Nele Deus será absoluta Comunicação, Encarnação e Presença! Ser humano só tem sentido se for para ser receptáculo do Divino. É como um copo, só tem sentido se receber um líquido precioso, pois foi feito para isso. Em Jesus de Nazaré, o humano encontra sentido e realização plena da sua existência, pensada, querida e criada para hospedar Deus. Quando nos doamos a alguém estamos comunicando a Encarnação Divina.

Deus comunicou-se a uma Mulher. Bateu mansamente em sua porta. Pediu morada. A Mulher disse que Sim. Porque havia lugar para ele em sua hospedagem. O Amor se fez Carne e veio morar aqui. E assim a vida divina começou a crescer no mundo. Deus nasceu! "Senhor, mostra-nos teu rosto!" E ele mostrou-se assim como é: permaneceu o Deus que sempre era, assumindo o Humano que nem sempre era. Deus não ficou indecifrável. Não ficou na sua onipotência eterna, ele veio morar na fragilidade da criatura.

Não atraiu para dentro de si a humanidade, mas ele se deixou atrair para dentro da humanidade. "Passei por Belém de Judá e ouvi um sussurro terno. Era a voz de Maria embalando o filhinho: Sol, meu filho, como vou cobrir-te de panos? Como vou ver-te nas minhas mãos, tu que conténs todas as coisas?"
E José, perplexo, exclamava: “Como pode? Como pode ter forma de criança Aquele que deu forma a todos os seres? Como pode fazer-se pequeno na terra, Aquele que é grande no céu? Como pode este estábulo conter Aquele que contém todo o universo? Como pode seus bracinhos estarem envoltos em panos, se seu braço governa a terra e o céu? Como pode?”

Deus se abaixa, se faz mundo, se torna humano. Pequeno é o nosso Deus. Infinito é seu Amor! Aproximou-se de nós, não temeu a matéria, não receou acolher a condição humana, por vezes trágica e absurda. Quem poderia imaginar que um Deus se fizesse assim?

   A ninguém é desconhecida a condição humana. Apesar de sua bondade fundamental, o humano não deixa de ter seus fracassos. Ele pode ser um lobo para o outro, uma máquina autodestruidora para consigo mesmo.

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quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 26


A MÍSTICA DA ENCARNAÇÃO

Sem encarnação não há comunicação

                    "Uma noite tão deliciosa para os homens como para os animais", conta Tomás de Celano (1 Cel 85). Francisco passa a vigília de pé diante do presépio, comovido e alegre. Experimenta naquela noite, um momento de êxtase.

    Mas o que via? Não era apenas uma cena maravilhosa. Contemplava o mistério do Natal em sua profundidade. Via toda criação unida com Deus num mistério profundo. Queria tudo o que existia, tudo o que vivia para este instante único, para esta comunhão com a vida divina no Deus Menino. O divino não devia ser buscado fora da fragilidade humana e de suas raízes, fora da criação material. NO DEUS MENINO TUDO SE ENCONTRAVA! E o que estava oculto se tornava visível. O sentido do mundo se tornava bem claro. A unidade da criação se revelava. Era uma Epifania de Luz. Não se podia acolher o divino sem respeitar toda a vida: a vida humana, é claro, mas também as mais humildes formas de vida. Não se podia comungar com a vida divina sem confraternizar com toda a vida, com toda criatura, com toda criação!

O caminho desta comunhão e desta fraternidade era o presépio, a humildade original que nos aproxima das mais humildes criaturas, aquela proximidade e doçura que nos fazem reintegrar o vasto círculo da criação. As criaturas todas se tornaram o berço divino. Só podia aproximar-se do Menino quem entrasse no presépio, e se fizesse bem próximo das criaturas mais humildes. É o respeito por toda a vida, por mais humilde que seja, Francisco quando se aproxima, faz acordar um bebê que representava ao vivo o Menino. Isto simboliza o nascimento oculto de Deus nas profundezas da alma.

Eis o Natal e seu Universo de Símbolos! A vela, as estrelas, as bolas coloridas, o pinheirinho, o presépio, os animais, os pastores, José, Maria, o Menino repousando sobre palhas.

   O presépio é a expressão sensível de uma aproximação interna de Deus por caminhos de humildade e de reconciliação: por Caminhos da Encarnação! É a inserção natural. A matriz cósmica de Deus para nascer no humano e ter necessidade do humano. O Menino Deus nasce em toda parte onde há seres humanos bastante humildes para se reconhecerem irmãos e irmãs uns dos outros e de toda criatura.

É assim que visualizamos o evento maior da nossa história: a Encarnação de Deus! Estes símbolos nascem do real, da fé e falam ao coração de um modo muito direto. Hoje, estes símbolos foram capturados pelo comércio e apelam para o nosso bolso. Mas apesar de toda profanização, o Natal ainda guarda algo inviolável, guarda aquela sacralidade que é própria da vida. Toda vida é sagrada e remete para um mistério sacrossanto. Todo atentado contra a vida é um atentado contra Deus.

Na vida do Menino a fé celebra a manifestação da própria vida e a comunicação do próprio mistério. Isso não se perdeu na nossa sociedade secularizada. O Natal é mais rico do que todos os mecanismos de consumo.

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terça-feira, 17 de dezembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 25


A MÍSTICA DA ENCARNAÇÃO

Sem encarnação não há comunicação

"Vede a humildade de Deus!", gostava Francisco de dizer.

E foi ali, em Greccio, que ele teve esta idéia, e tomado por um grande desejo disse aos seus irmãos: "Quero lembrar o Menino que nasceu em Belém, os apertos que passou, como foi posto num presépio, e ver com os próprios olhos como ficou em cima da palha, entre o boi e o burro." (1Cel, 84).

   Naquele tempo, ainda não existiam os presépios de Natal, principalmente os presépios vivos. A ideia era nova, simples, e até ingênua.

Tinha surgido no coração de Francisco como uma chama de Amor. Uma idéia extraordinária como só os poetas podem ter, pois são eles que nos fazem voltar aos olhos da infância. E, logo, reencontramos os segredos perdidos. Um boi e um burro, um estábulo; e o Natal é restituído com o realismo de sua ternura.

Ver e fazer ver o Filho de Deus, nascendo ao mundo na humildade e na pobreza de um presépio entre animais; nada era mais importante para o futuro do mundo. Numa sociedade mercantil, onde o soberano era o dinheiro, o que podia ser mais útil do que fazer brilhar a gratuidade de um Deus? Num mundo de clérigos ávidos de poder e honra, o que podia ser mais salutar do que lembrar a humildade de um Deus? E num tempo de guerras, violências, Cruzadas... o que podia ser mais urgente, mais necessário do que fazer ver a doçura e a mansidão de um Deus?

Não era só uma simples ideia. Era toda a vida de Francisco. Reinventar o Natal, Reencontrar a Humanidade, a Ternura de Deus era o que Francisco queria para si mesmo, para os irmãos e para o mundo inteiro. Era o seu presépio vivo. Era preciso ver longe, muito longe. E assim, a partir da coisa mais simples do mundo, fora dos caminhos comuns, dos caminhos batidos, ele reencontrava a Fonte Oculta da Ternura e da Fraternidade.

Na foto acima, tirada durante a "Experiência de Assis", em 2012, a Gruta de Greccio.

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sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 24


A MÍSTICA DA ENCARNAÇÃO

Sem encarnação não há comunicação

Francisco nos ensinou a nascer para Deus, para o mundo, para as pessoas e para si mesmo. Tudo isto ele celebrou no Natal, que quis transformar numa experiência mística, num novo nascimento. Ele se fez menino com o Menino. O Espírito do Senhor faz acontecer nele seu "advento de doçura", no auge do rude inverno da natureza e da humanidade.

Estamos no fim do ano de 1223, numa pequena aldeia da montanha do Vale de Rieti, no centro da Itália. Esta aldeia chama-se Greccio. Ali o ano deve terminar como todos os outros: no frio, na distância isolada, na pobreza. A neve vai caindo e as atividades externas vão tomando-se raras. As mulheres fiam a lã, e os homens cortam e racham a lenha.

Diante da lareira, dentro de casa, contemplam o fogo que crepita. Eles, silenciosos, esperam. Esperam o quê? O retorno de dias melhores? A primavera? O sol? Tudo isto e mais ainda: um pouco de calor humano, amizade, alegria. Sonham com um sopro de inocência e de ternura. Mas o que pode trazer-lhes, naquele momento a felicidade?

Na Liturgia, a cristandade escuta: "Oxalá rasgasses os céus e descesses! (Is 63,19) "Céus, destilai orvalho lá do alto; nuvens, fazei chover o Justo..." (Is 45,8). Parece que em Greccio não há ninguém para falar aos corações. É a imensa solidão do inverno. E como são longas as noites de inverno na montanha! Há o uivar dos lobos. Terra gelada, terra ansiosa, a expectativa de um pouco de Amor, "quando enfim verás nascer a aurora divina?"

Ali todos ouvem falar de Francisco de Assis, que lhes ensinou a viver segundo o Evangelho e em grande fraternidade com todas as pessoas. Revela-lhes o verdadeiro rosto de Deus. Não do Deus dos domínios da eclesialidade, nem das Cruzadas, nem do dinheiro. Mas um Deus dos pequenos que vem a nós com doçura.

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quarta-feira, 11 de dezembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 23


A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA – O Cântico das Criaturas

12. O Cântico das Criaturas é o hino que celebra a reconciliação paradisíaca do humano com a totalidade de suas relações, com Deus, o Inefável, com o cosmos, com seu irmão e irmã, com os outros na paz fraterna e com a morte aceita como irmã. Há no hino um apelo total à confraternização.

O que aparece no Hino é o problema humano, sempre antigo e sempre atual do humano buscando a unidade de todas as coisas, mesmo com as realidades mais dramáticas como a morte. E se entoa então o hino de louvor. O humano de hoje dificilmente canta as coisas. Ele canta a si mesmo a propósito das coisas. Não deixa as coisas serem coisas. Faz delas um prolongamento do humano e de sua subjetividade que procura conquistar e poder.

O Cântico das Criaturas mostra que a unidade não pode ser constituída sem uma comunhão cósmica, sem uma comunhão com as raízes cósmicas de nossa vida interior e exterior. Tudo deve ser um crescimento total, porque tudo deve desabrochar no louvor de Deus.

O humano moderno está condenado – e isso funda sua fatalidade – a dominar a natureza. Deve combater as doenças e organizar a satisfação de suas necessidades fundamentais. Mas deve ter o cuidado, porque, uma coisa é cultivar a terra e experimentar como ela é mãe generosa e outra é a destruição do solo sem respeito e veneração.

A visão franciscana procura respeitar as coisas sem deixar que elas fiquem outra coisa que coisas. Mas procura ouvir a canção essencial que cada coisa entoa para Deus. E tenta, bem ou mal, unir-se nessa Canção perene ao Criador!

Imagem acima: Segrelles

Continua

Na próxima série, dentro da Mística de São Francisco, o tema SEM ENCARNAÇÃO NÃO HÁ COMUNICAÇÃO.

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 22


A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA – O Cântico das Criaturas

b) A nossa irmã terra... a nossa irmã e mãe terra: “Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã e mãe terra, que nos alimenta e governa e produz variados frutos e coloridas flores e ervas”.

O humano tem a experiência da terra como mãe, com capacidade maternal inexaurível de todos os frutos. Ela nos “sustenta e governa” como a mãe sustenta e governa a criança: produz variados frutos, diz o verso. Francisco nomeia ervas e flores. Ela não se contenta em nutrir os filhos, mas como mãe bondosa ela nos enche de beleza: os verdes e as flores são a festa da terra mãe; são a alegria dos olhos e da alma, formam o reino da beleza e da graça; constituem o sorriso da terra na extensão do cosmos. São Francisco dava tanta importância ao verde e às flores (cf. 2 Celano,346). Isso é um símbolo de sua fineza de alma e sensibilidade poética e estética.

Ele chama a terra de mãe e de irmã. Com isso confere à terra uma nova dimensão. Ela é mãe, sim, porque nos sustenta. Mas não é fonte absoluta da vida. Por si só é uma criatura e por isso é como as demais realidades cósmicas. E por isso irmã. Depende, como cada um de nós, do mesmo Altíssimo Pai. A terra em Francisco ocupou o lugar privilegiado como expressão simbólica. Basta ver os lugares onde se situam os conventos no vale de Rieti, do La Verna, em Assis: sempre os mais soberbos, onde as paisagens eram mais luxuriantes e evocadoras. Sua experiência mística foi desenvolvida em contato com a terra. Primeiro nas cavernas. Depois de sua conversão em Assis, se retirava com frequência para uma caverna próxima, onde, dizia, respondendo aos amigos, encontrou um rico tesouro. Depois em Poggio Bustone, no vale de Rieti (como na foto acima), e no La Verna. O mundo e o universo da caverna são o universo interior, profundo, cheio de sombras e ressonâncias. A caverna é símbolo materno. Entrar na caverna para se encontrar é entrar no ventre materno. Habitar na caverna é participar na vida da terra, no seio da mesma mãe terra. Na caverna o humano está na sua profundidade e na sua unidade radical.

Sua relação profunda com a terra se exprimiu de forma exemplar quando Francisco estava moribundo. Queria morrer nu sobre a terra. Celano conta que quando Francisco estava para morrer “Chamava todas as criaturas para o louvor de Deus, exortando-as ao divino amor com os versos que havia composto. E aos Irmãos dizia: quando virem que começo a expirar, coloquem-me nu sobre a terra e depois da morte, deixem-me aí, sobre a terra por espaço de tempo que se emprega para percorrer uma milha” (403-404). Que sentido possui este ato de deitar-se nu sobre a terra? Isso pode exprimir o seu grau de pobreza, de nudez diante de Deus, como Cristo na Cruz, nu distendido no madeiro. O gesto possui, certamente, um significado mais profundo: significa a união e a adesão à nossa mãe e irmã terra.

Continua

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 21


                     A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA – O Cântico das Criaturas

                                   11. SOL      VENTO      Fogo
                                            luz        Água           Terra

a) A celebração do Sol: “Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o senhor irmão sol, pois ele é dia e nos ilumina por si. E traz de ti, Altíssimo, o sinal”.
Cantar o sol é um topos comum da poesia e de todo hinário religioso cristão e pagão. Nesse sentido, Francisco se insere numa experiência comum que o transcende. O Speculum Perfectionis nos diz: “Francisco considerava o sol o mais belo de todas as criaturas e de forma melhor recordava Nosso Senhor Jesus Cristo e Deus, chamado pela Escritura de Sol da Justiça”. No Sol, Francisco vê o sinal de Deus. Para Francisco, o Sol é um convite permanente para a memória do divino. “De manhã, ao nascer o sol, cada homem deve louvar a Deus que criou o sol para nossa utilidade, pois é por ele que nossos olhos possuem a luz” (Sp.167). Ele mesmo cego, de uma cegueira de que foi tomado depois de uma viagem pelo oriente, não deixa de cantar ao irmão sol. Guardou, mesmo cego, sua luz interior e sua força evocadora.

O senhor irmão sol não é uma imagem material, guardada no interior, mas ela emerge das profundezas da alma, e aponta para algo mais sublime. Para descobrir algo de mais sublime precisamos penetrar um pouco mais na intimidade do elemento. Primeiramente, o sol é saudado como fonte de luz: dele vem o dia, é belo, radiante, cheio de esplendor. Ele é chamado de senhor. Participa da nobreza do mundo. Ele é senhor. Senhor era uma expressão que Francisco reservava para Deus e Jesus Cristo. Começa com o elemento masculino e encerra com o elemento feminino. Esse casal é uma imagem mística antiquíssima. Nos cultos solares das religiões arcaicas, o sol é considerado como elemento masculino, como o grande Senhor, esposo da terra. Da união de ambos é que nasce a vida, e todas as coisas.

São Francisco chama o sol não apenas de Senhor, mas também de irmão. Aqui há um elemento novo. O Sol é criatura também, embora o seu conteúdo simbólico seja profundo. Por isso, além de Senhor e irmão e com isso estabelece uma consanguinidade e fraternidade com ele. Assim como o sol é divino e sinal do divino, o é também o humano, seu irmão. O sol é, pois, o arquétipo da profundidade da alma. As grandes experiências do inconsciente, a irrupção do divino se faz sempre entre luz e fogo. Por isso, São Francisco, na noite em que soube entre dores quase mortais que seria participante do Reino dos Céus, entoou um hino ao irmão sol.

O sol é símbolo do Altíssimo e ao mesmo tempo fraterno. Um sol ao mesmo tempo sacro e íntimo. O sol é a expressão de uma plenitude interior. O sol irmana todas as coisas, penetra tudo, ilumina tudo, desde as montanhas até o último cisco da estrada, desde o homem até o verme, é por excelência o símbolo da grandeza de Deus. Sem se macular ele reluz no esterco, sem se orgulhar se espelha nas águas. Conserva sua identidade suprema.

Continua

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 20

A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA – O Cântico das Criaturas

Para São Francisco, todas as criaturas, como diz o hino, são o lugar da revelação do Altíssimo. O mundo material tem valor. Não perde sua dignidade, embora o Altíssimo exceda infinitamente. Ele não quer cantar sozinho. Canta com as criaturas. Aqui se vê o espírito não possessivo de São Francisco. Não é ele que canta pelas e através das criaturas. Elas já cantam por si só. Ele se une a elas no cantar e louvar. Irmana-se e confraterniza-se. Como diz Celano, “nunca se viu tanto afeto para com todas as criaturas” (88). E continua: “Todas as criaturas eram chamadas de irmãos e irmãs. De maneira extraordinária e inusitada sabia, com intuição penetrante de seu coração, compreender os segredos das criaturas, porque ele havia reconquistado a gloriosa liberdade dos filhos de Deus”(90).

Na literatura provençal, a qual Francisco admirava, descobria a canção do encantamento pela dama e a efusão emotiva do amor. Francisco soube depurar essa corrente que o influenciou tanto, de todo o peso, de toda a ligação nervosa com a terra e com a Dama, para conservar-lhe o ritmo essencial que incluía a canção até a morte e o sofrimento. Sua relação profundamente humana com Clara, mostra a maravilha como ele integrou o feminino e o encantamento do amor. O eros foi libertado de todo o peso e transformado em ágape, sem perder toda sua profundidade psicológica. Isso nos ajuda a compreender a expressão cantar com todas as criaturas. O cantar “com grande humildade” mostra a superação de todo o ressentimento contra nossa arqueologia. Une-se com o cosmos, com o mais baixo até o mais alto, para juntos cantarem o Inefável.

Imagem: Francisco e Clara, de Giotto

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quinta-feira, 21 de novembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 19

A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA – O Cântico das Criaturas

Sabemos da psicologia de São Francisco, ardente e fogosa, que ele queria o que queria, com grande paixão e profundidade. Como jovem nutria uma paixão imensa; queria ser grande e ser conhecido no mundo. Sonhava tornar-se um grande cavaleiro, um príncipe. Depois sua ambição se espiritualizou, mas não permaneceu menos ambiciosa. Na Vita Secunda, narra Celano que um dia Francisco, já convertido, pergunta aos irmãos: “De que coisa pensais vós que eu mais me alegro?”- Ele mesmo responde: “Serei venerado como santo por todo o mundo”. Ao longo da vida, contudo, foi redescobrindo cada vez mais o mistério de Deus. A palavra Altíssimo e ninguém é digno de mencionar Teu nome, revela sua alma não mais possessiva e ambiciosa. Não renuncia ao Altíssimo. Renuncia à posse do Altíssimo.

Na primeira estrofe revela duas coisas: A paixão de Francisco para o alto, para o mistério. Mas essa paixão é livre de toda ambiguidade, purificada de todo o desejo de poder e vontade possessiva. Está nu e pobre diante de Deus. Só Deus é Deus. Só Deus pode falar a linguagem do divino. E Francisco deixa Deus ser Deus. Não quer enquadrá-lo dentro de categorias humanas. Abre então outro caminho, o caminho da humildade, da encarnação nas criaturas.

10. Diante do inefável deve imperar o silêncio. Mas como o humano não é pedra, ele fala. Seu falar, contudo, a partir do Inefável e Altíssimo, deverá desembocar de onde veio: do Altíssimo. Mas deve-se falar assim, que ao falar, deixa o mistério falar através de sua fala.

São Francisco fala das criaturas. Canta, contudo, de uma forma que elas falem sempre do Inefável, do Altíssimo do qual são sinais. O verso “Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas” mostra a transição do silêncio para a fala que deve articular o silêncio.

Imagem: "São Francisco de Assis", do pintor espanhol Murillo

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segunda-feira, 18 de novembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 18

A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA – O Cântico das Criaturas

E porque Francisco conseguiu essa profunda reconciliação, é que ele comove e seduz toda a humanidade. O esplendor do humano e sua tragédia, sua ânsia de ascensão e seu enraizamento na terra, sua dimensão urânica (céu) e a sua dimensão telúrica (terra) encontram nele um intérprete privilegiado.

9. Altíssimo, onipotente, bom Senhor
Teus são o louvor, a glória, a honra
E toda a bênção.
Só a Ti, Altíssimo, são devidos;
E homem algum é digno
De Te mencionar.

Esta primeira estrofe é o hino do silêncio diante do mistério inefável. O Altíssimo atrai todas as energias do louvor e da adoração. Só Ele é digno de todos os títulos. Por isso é o Bem Total, o Sumo Bem, Todo Bem.

Francisco despojou-se não só de seus bens, mas da vaidade pessoal, dessa terrível vaidade farisaica que torna as pessoas virtuosas (não confundir com santas), pequenos tiranos, senhores e deuses para si próprios e para os outros. Por isso, ele diz aqui que de Deus são os louvores, a glória, a honra e todo o bendizer. Estaríamos pensados a dizer que é o humano que louva e dá glória e honra a Deus. Então, não sou eu que louvo e honro. É Deus que louva e honra em mim e através de mim.

Por aí se entende por que São Francisco prescreve aos Irmãos na primeira Regra: “Peço na caridade, que é Deus, que todos os meus irmãos pregadores, oradores e trabalhadores, tanto clérigos como leigos de procurar humilhar-se em todas as coisas, de não gloriar-se e não alegrar-se no íntimo da alma e não exaltar-se exteriormente por causa das boas obras e palavras e também por nenhum bem que se faz, diz e opera neles o Senhor”.

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quinta-feira, 14 de novembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 17


A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA – O Cântico das Criaturas

8. Quanto à estrutura do Cântico convém ainda notar: nele se cruzam as duas linhas, a horizontal e a vertical. Começa com a vertical: “Altíssimo e bom Senhor!” Altíssimo é a expressão do Voo do Espírito para o Alto. Aqui se resume a grande experiência de Francisco. “E ninguém é digno de mencionar teu nome”. Esta expressão exprime a pobreza total de nossas palavras frente ao Altíssimo. Nenhum louvor, nada pode exprimir o mistério de Deus. São Francisco o sabe, não por um saber teológico, mas por uma experiência total, vital, afetiva.

Não podendo cantar o Altíssimo, volta-se às criaturas: “Louvado sejas, meu Senhor, por todas as tuas criaturas!” Renuncia à Transcendência, mas canta o mundo a partir da Transcendência. O universo visível será o caminho para o Sacro, para  o Totalmente Outro porque “de ti, Altíssimo, porta o Teu sinal”. Portanto, o movimento inicial era totalmente vertical: cantar Deus. Agora, ele se reduplica e se volta às criaturas, abre-se para a fraternidade universal conquistada pela experiência do Verticalismo, da mesma filiação divina. Indigno de sequer nomear o nome de Deus,  se sente na mesma filiação, na mesma  pobreza criacional de todas as coisas.

Ele começa do Alto, Deus, desce para os elementos mais preciosos, o sol, depois desce aos mais humildes, como o vento, a água, e acaba na mãe terra. E termina com a frase expressiva, no coração do mundo: “Louvai e bendizei ao meu Senhor e rendei-lhe graças e servi-o com grande humildade!” Ele canta as criaturas porque elas são para Francisco carregadas de valor simbólico do Altíssimo. O Cântico é primeiro uma vivência interior de Deus que se extravasa no exterior, sobre o cosmos. Estando largamente disponível aos apelos do Altíssimo, ao mais Alto dos céus, aceita a comunhão fraterna com a nossa terra, que nos sustenta e governa. Este caminho de grande humildade e de comunhão fraterna se transforma num caminho de profunda reconciliação com tudo, até com a morte. Com isto alcança a máxima libertação, integrando tudo dentro da vida, inclusive a morte.

Imagem de Frei Geraldo Roderfeld no Seminário Frei Galvão de Guaratinguetá (SP)

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quarta-feira, 13 de novembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 16


A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA – O Cântico das Criaturas

7. O Hino contém ainda duas outras estrofes. Foram acrescentadas posteriormente. O Cântico foi composto no outono de 1225. A última estrofe celebra o perdão e a paz alcançada pelo santo que mediou uma rixa entre o prefeito e o bispo de Assis, e foi composta em julho de 1226. A última estrofe celebra nossa irmã a morte corporal e foi inspirada pouco antes do trânsito de São Francisco, nos primeiros dias de outubro de 1226.

Elas se destacam do hino. Não mais o cosmos que é cantado, mas o cosmos humano, inserido dentro da fraternidade cósmica. É uma fraternidade conquistada entre tensões e sofrimentos, graças a um amor que supera o ódio e a angústia da morte. São Francisco quis acrescentá-las ao canto. Elas, na verdade, fazem-lhe parte e se originam da mesma inspiração fundamental.

O hino quer cantar e comemorar a união mística de tudo com Deus. Não podia deixar o humano fora, na sua tribulação. O hino se abre ao mundo humano, estigmatizado por conflitos e pela angústia da morte. O mundo cósmico não seria totalmente reconciliado no matrimônio universal se não inserisse o mundo humano. O humano se concilia com o outro humano. O humano se reconcilia com a morte, aceitando a sua existência mortal. Integra a morte a vida. Aceita-a não como uma bruxa má, mas como a irmã que nos introduz na casa da Vida e do Amor.

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segunda-feira, 11 de novembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 15


A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA – O Cântico das Criaturas

A realidade profunda das coisas reside no poder estarem todas na casa comum do Pai. Deus é essencialmente Pai. Dizer que Deus é Pai, não era para Francisco uma doutrina, um dogma teológico. Para ele era uma experiência afetiva e estética profunda. Ser irmão e irmã não significa apenas uma verdade intelectual, mas uma verdade psicológica. Traduz uma verdadeira emoção amorosa, uma fusão afetiva cósmica. Essa declaração de irmão e irmã é uma confissão de intimidade e de consanguinidade com as coisas todas, todos estão na casa paterna de Deus. Por isso podemos nos irmanar. Não somos inimigos. Nada nos ameaça. Estamos na atmosfera do aconchego e do carinho dos irmãos e das irmãs. Isso é o ser profundo em tudo.

5. Os elementos: “levam de ti, Altíssimo, o sinal”, diz o Poverello. Francisco é muito sensível aos símbolos. Celano conta como Francisco tinha respeito para com a luz e o fogo, símbolos da Luz Eterna. Por isso deixa arder as lanternas, as lâmpadas e as velas. Caminha com veneração sobre as pedras, com respeito Àquele que foi chamado de Pedra. Os elementos do Cântico ao Senhor Irmão Sol são a expressão desta vivência interior e sacra.

6. Uma das coisas mais características no Cântico é o feminino e o masculino. Surgem como símbolos da unidade e da totalidade psíquica do humano. Basta observarmos o binômio masculino e feminino:

irmão sol
irmã lua e estrelas
irmão vento
irmã água
irmão fogo
irmã terra.
Esse casal cósmico não é constituído arbitrariamente. São combinações do inconsciente em busca de uma unidade radical religioso-cósmica. É uma linguagem que exprime esse afã humano. Um outro elemento ressalta claramente isto: O irmão e senhor Sol e a irmã mãe Terra. O Sol é símbolo da virilidade e paternidade, do elemento germinador e fecundante. A Terra, nossa Mãe, é por excelência o símbolo da vida, da fecundação que sustenta e nutre todos os viventes. Todos os demais elementos são encerrados dentro destes dois, da paternidade e da maternidade.

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sexta-feira, 8 de novembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 14


A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA – O Cântico das Criaturas

Para Francisco, os elementos falam através destes adjetivos. “Toda paisagem é um estado de alma” (G. Bachlard). A alma tem uma experiência. Assim, Francisco sentiria dentro de si a grandiosidade da união com Deus. Limpara depois de anos de penitência os olhos para Deus e para as profundezas das coisas. Agora podia ver Deus em todas as coisas. Isso foi uma conquista longa e dificultosa. Daí o mundo se transfigurar e se tornar, para ele, um grande sacramento. Tudo falava de Deus: desde o vermezinho da estrada até o sol. Quando  Francisco chama as coisas de preciosas, para ele essa palavra preciosa não constitui uma grandeza mensurável, um valor como um tesouro. Mas exprime a riqueza misteriosa, que não mais pertence ao domínio do ter, mas da realidade do Ser. É a expressão de sua experiência religiosa e sacra que lhe permite ver a sacralidade e a transparência divina do cosmos.

O canto de São Francisco não é um canto romântico. Não canta numinosidade das coisas enquanto coisas. A numinosidade lhe vem da alma ligada a Deus e a Cristo. Por isso, o canto significa o termo de um longo itinerário espiritual. Quando lhe caíram as escamas dos olhos, então podia ver Cristo e Deus e entoar o hino da casa paterna, onde todos são irmãos e irmãs, a terra e o sol, o fogo e a morte. As coisas ficam coisas. Mas isso não esgota a sua realidade. Elas são símbolos que também expressam a alma. O Universo interior se exprime no universo exterior. Então tudo começa a falar, a fala do mistério e de Deus.

4. O surpreendente do cântico é o modo familiar com que Francisco fala das diferentes realidades cósmicas. Ele as chama de irmãos e irmãs. Esse fato de poder chamar a realidade sub-humana de irmão e irmã nos coloca diante de uma maneira diferente de ver o mundo do que aquela, por exemplo, científica. Para a ciência as coisas são coisas, destituídas de qualquer grandeza humana e numinosidade. São objetos de nossa conquista e de exercício de nossa vontade de poder. Falta o respeito e a grandiosidade do sentir-se junto, dentro de uma mesma casa paterna. Em Francisco, elas se revestem de grande simpatia. Como as biografias nos contam, ele chamava tudo de irmão e irmã. Não havia poesia nisso. Mas queria dizer a verdadeira realidade das coisas. Que realidade?

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segunda-feira, 4 de novembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 13


A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA – O Cântico das Criaturas

A alma canta com uma espontaneidade, com o candor e o calor da língua materna. Esse canto parece quase um hino pagão. Não se fala de Cristo, nem do mistério Trinitário, nem do mundo sobrenatural, nem do Reino. As realidades materiais são evocadas e cantadas. Contudo, se olharmos bem, se olharmos mais profundamente as coisas materiais, além de serem coisas são a língua e o instrumento expressivos de uma experiência religiosa profunda acontecida no coração de São Francisco. Os elementos cósmicos são celebrados como símbolos do mundo interior. Não se trata  de um discurso poético-religioso sobre as coisas. As coisas aparecem como um invólucro de um discurso mais profundo. Essa leitura simbólica do hino nos faz penetrar na experiência religiosa de São Francisco. Não se trata de alegorizarmos os elementos. O sol fica sol, a lua fica lua, a água, água. Mas além de um valor objetivo possuem um valor simbólico. O Santo exprime através destes elementos o seu mundo interior.

É uma afirmação serena da fraternidade universal. Tudo é claro, luminoso e imediato.

3. Os elementos referidos por Francisco e pelos quais canta o Criador não são simplesmente elementos. Ele os qualifica, dá-lhes adjetivos que expressam a vivência interior que possuía. O sol é radiante e com grande esplendor. O fogo é radiante e robusto, forte e jucundo; água é humilde, preciosa e casta e assim por diante. Esses adjetivos qualificam os elementos. Mais que os elementos qualificam a alma. Nem sempre é verdade que o sol é radiante e de grande esplendor. Ele pode queimar e matar as plantações. Nem sempre a água é humilde, preciosa e casta. A água convulsa do oceano pode matar. A água poluída pode  contaminar. O fogo pode queimar e seus danos são irreparáveis.
Imagem: Cena do filme "Irmão Sol Irmã Lua" 
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quinta-feira, 31 de outubro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 12

A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA – O Cântico das Criaturas


Foi então que aconteceu o evento de doçura. De volta ao Monte Alverne, nos extremos da fraqueza e da perda das forças, Francisco se detém em São Damião, onde vivia Santa Clara e suas Irmãs. Exatamente na igreja, na qual o Senhor lhe falara e lhe pedira para reconstruir a sua casa em ruínas. Os sofrimentos não lhe davam tréguas. ”Durante 50 dias não estava em condições de suportar a luz do dia, nem o clarão do fogo da noite... Os olhos o atormentavam de tal maneira que nem podia repousar nem dormir” (Legenda Antiqua S. Francisci, Archivum Franc. Historicum XV (1922, 289-299).

Uma noite não podendo mais suportar as dores, São Francisco, numa atitude de profunda simpatia não só com as coisas, teve grande piedade e pena de si mesmo e disse ao Senhor: “Senhor, acorde-me em minha enfermidade, para que a possa suportar pacientemente” (Legenda Ant., 299). Segundo Celano travou-se uma luta em São Francisco para vencer as dores e a impaciência... orando entrou em agonia... No decurso desta agonia ouve em espírito uma voz que lhe diz: “Diga-me, irmão: se alguém lhe presenteasse, como dom por teus sofrimentos e pelas tribulações, um imenso tesouro precioso, a terra inteira transformada em ouro fino, as rochas em pedras preciosas, a água dos rios em perfumes, não te alegraria?” O beato Francisco responde: “Senhor, seria um tesouro imenso, preciosíssimo, inestimável e para além de tudo o que se pode desejar e amar!” – “Pois bem, irmão, disse a voz, alegra-te em meio as tribulações e enfermidades: vive agora em paz, como se foras já no meu Reino” (299).

Nesse momento uma alegria incontida invadiu e irrompeu em São Francisco, ao saber que já estava no Reino de Deus, que sua alma entrou numa esplêndida aurora. Levanta-se. Escreve o Hino a todas as Criaturas. Chama os Frades e com eles canta o Hino recém-composto. Esse canto de luz surgiu no meio de uma noite escura da alma. Emergiu das profundezas de uma existência que foi se erguendo, sofrida, acrisolada, como um botão que busca, insaciável, a luz do sol. É o símbolo expressivo de um universo que se configurou dentro do coração. Causa espanto que um homem cego, que em meio às dores horríveis, que não gozava mais as excelências das coisas, cante exatamente a matéria, o sol, a lua, a água e o fogo.

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quinta-feira, 24 de outubro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 11




A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA – O Cântico das Criaturas


Vamos procurar compreender o Espírito que está por detrás do Cântico das Criaturas de São Francisco, ou o Cântico do Sol como também é conhecido.

O Cântico das Criaturas é uma experiência de Francisco. Vamos procurar compreendê-la. Compreender é refazer a experiência do outro. É tentar descobrir o sentido, redescobrir a experiência religiosa que está por detrás dos escritos de S. Francisco. Este texto nos irá mostrar a maravilha de como este autor viveu Deus dentro de sua vida.

Este texto nos leva a pensar que o humano deve ter os seus olhos abertos para a profundidade das coisas. Temos que aprender a dar um mergulho religioso na realidade. Para a gente experimentar e exprimir... (Aqui reside uma decisão para toda humana criatura, uma decisão fundamental, pois é isto que nos faz pessoas maduras.)

Temos que perguntar: Poderá o mundo técnico, secular, segmentarizado, pluralista, urbano, opaco, revelar Deus? Essa pergunta é falha. A verdadeira pergunta consiste: Poderemos nós, nesse mundo técnico, secular, segmentarizado, pluralista, urbano e opaco, ver a presença de Deus? Deus esta presente em tudo e em toda parte. Isso não faz o problema. O problema é se nós temos olhos para vê-Lo.


  1.  Na leitura do Cântico das Criaturas parece que estamos vendo uma escada (de Jacó) através da qual o místico Francisco ascende até Deus. Nesse sentido Francisco não é original, mas se alinha entre os místicos e os cantores bíblicos, salmistas e santos que cantaram também a natureza com seus elementos. Mas a originalidade de Francisco consiste no modo singular e simples como as coisas, no Cântico, são concebidas, valorizadas, ornadas. Ele segue a ordem cosmológica da época (os 4 elementos: terra, água, fogo e ar e o geocentrismo da cosmologia antiga), mas segundo uma ordem profunda da psique. Os elementos subjetivos (sol, lua, estrelas, etc.) valem enquanto exprimem uma vibração mística da alma. Eles formam uma língua com a qual o místico quer exprimir aquilo que lhe passa na alma: a união religioso-cósmica de tudo com Deus.

  2. O hino representa o término de um longo itinerário espiritual de S. Francisco. Já se havia passado vinte anos de conversão. Dia após dia se esforçava Francisco em seguir os traços do Senhor, com grande humildade, meditando o “evento da doçura” do Altíssimo Filho de Deus. No Monte Alverne havia recebido as chagas do Senhor crucificado. Perdia sangue, enfraquecido pela doença, e cego, quase agonizante. Sofria mais certamente na alma. Via a cristandade medieval cobiçosa e cheia de poder sagrado e profano. Fazia-se então uma cruzada contra os mulçumanos na Palestina. Os valores evangélicos da pobreza, simplicidade e paz eram violados profundamente na Igreja, em nome do amor de Deus. Na Ordem havia já aparecido os primeiros problemas. Fazia-se tarde na vida de Francisco. Tarde sem doçura das tardes da Úmbria e da Toscana.

Imagem: "Cântico do Irmão Sol", de Piero Casentini 

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segunda-feira, 21 de outubro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 10


Vejamos mais um texto narrado pelo Biógrafo São Boaventura:

“Quem seria capaz de narrar o amor fervoroso no qual ardia Francisco, o amigo do Esposo? Parecia, de fato, todo absorto, como um carvão ardente, na chama do amor divino” (LM IX, 1-2).

Quem somos nós, para falarmos de Deus se Ele não é uma chama que queima em nós? A mística franciscana nos provoca a evoluirmos como filhos e filhas apaixonados pelo Pai das Luzes. Deus não vem dos valores relativos criados pela intelectualidade humana; porém vem do mais profundo de nossos sentimentos. A mística franciscana quer nos ajudar a refazer a experiência do próprio Filho de Deus, o Mestre de Nazaré, que diz: “Deus é Amor!”.

É como se a mística franciscana nos dissesse assim: se você quer falar de Deus, fale sobre o Amor! Não o amor relativo, preso ao turbilhão dos sentimentos e que, às vezes, podem ser mesquinhos, como o suposto amor de certos romances e novelas; ou então das possessivas relações a dizer : “Eu te amo, mas exijo isto, e aquilo e mais aquilo; eu te amo pelo que você tem”. Para a mística franciscana amar é dizer: eu te amo pelo que você é e pelo Amor que está em você! Quanto eu digo “eu te amo”, para a mística franciscana é a mesma coisa que dizer: eu me faço feliz e quero te fazer feliz pelo Amor que nos envolve. É preciso amar o Amor que está em alguém. Eu me faço feliz com Ele e quero que Ele te faça feliz! Ninguém pode fazer feliz alguém, mas você se faz feliz com alguém através do Valor Maior (“a priori”). Francisco de Assis compreendeu isso como ninguém: há valores que só quem ama alguém percebe em alguém que é amado!

Para a mística franciscana, o verdadeiro Amor é o Absoluto que alimenta tudo e todos, é imenso, é a Vida! Para falar de Deus temos que passar por este filtro de compreensão do Amor. A primeira definição de amor que temos em nossa vida é o amor de nossos pais. Um amor que se aproxima da perfeição; mesmo assim este amor é pequeno perto do Amor de Deus Pai. Ao vislumbrar esse sentir, podemos ter uma vaga e nebulosa ideia, pois ainda vemos como que num espelho, não o vemos face a face como diz São Paulo.

Para São Francisco, o Amor de Deus é a mais bela oferenda. Ele consegue ver que Deus colocou nos caminhos de sua vida a dor, o leproso, o mendigo, a incompreensão da cidade. O Pai, que ele tivesse o privilégio de praticar a generosidade do Amor. O amor como oferenda e encontro nos harmoniza. Francisco observava que tudo era a mais completa oferenda: a natureza pratica ajuda. Já pensou se dissesse: “não vou mais chover” ou se um canário piasse dizendo: “hoje não vou mais cantar”. Para a mística franciscana, a vida celebra e pratica a mais bela e constante doação, esse princípio cósmico sem o qual se perde a razão de ser. O sol ajuda as plantas, as plantas ajudam os animais, os animais ajudam o ecossistema. Tudo é ajuda, respiração e movimento. Por isso, para Francisco de Assis, falar de Deus é falar de um movimento de cuidado! Repetir, isto é, refazer o cuidado, é criar um movimento de Amor no Universo, pois cada um de nós é como uma célula neste grande corpo cósmico e parte de um único Corpo: O Corpo Sagrado do Amor de Deus, o Corpo Místico. Para a mística franciscana, falar de Deus é sentir Deus, é Amar com o Deus ama. O verbo amar é que permite a maior e melhor aproximação de Deus. Nós rezamos muito, mas isto ainda é pouco: é preciso em nossas palavras respirar e perceber.

Fim deste primeiro Capítulo. Na próximo post, "A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA – O Cântico das Criaturas" 

sexta-feira, 18 de outubro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 9



2. O QUE É A MÍSTICA FRANCISCANA?

É o refazer a experiência vivida de São Francisco de Assis de que Deus é formalmente Amor, não somente nas suas obras, mas no seu Ser: Deus é essencialmente Amor! Este Amor é a virtude por excelência, o cumprimento de todas as virtudes e a raiz, a forma e a finalidade das virtudes. Francisco, segundo os autores das Legendas primitivas, era o Místico do Amor. Ele foi tocado e visitado por tão grande Amor divino.

Diz o seu biógrafo Tomás de Celano: “Pois ainda que este homem fosse devoto em tudo, como quem fruía da unção do Espírito, no entanto, com especial afeto ele se movia com relação a certas realidades especiais. Entre outras expressões, cujo uso estava nas conversas comuns, ele não podia ouvir dizer amor de Deus sem uma certa mudança em si mesmo. Ao ouvir falar do amor do Senhor, subitamente  se excitava, se comovia, se inflamava, como se com a palheta da voz exterior  se tocassem as cordas mais íntimas do coração. Dizia que oferecer tal riqueza, o  amor de Deus, em troca de esmolas era nobre generosidade e que aqueles que o julgavam  menos do que o dinheiro eram os mais loucos. E observou infalivelmente até a morte o propósito que ele, ainda envolvido com as coisas do mundo, fizera de não rejeitar pobre algum que lhe pedisse por amor de Deus. Uma vez, como ele não tivesse nada para dar a um pobre que lhe pedia esmola por amor de Deus, tendo tomado uma tesoura às escondidas, apressa-se em dividir a túnica. Tê-lo-ia feito, se, surpreendido pelos irmãos, não tivesse feito prover um pobre com outra compensação. Disse: “Muito deve ser amado o amor daquele que muito nos amou!”” (2Cel 196, 3-9)

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quarta-feira, 16 de outubro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 8



1.2 – O Amor como unidade de conhecimento e vontade

O ser humano, no seu pensar e agir, quer e deve procurar conhecer as causas últimas e a causa única de cada realidade, e agindo assim faz a metafísica, e vivendo assim descobre a mística: que é perguntar pela verdadeira natureza do Ser.

O princípio do Amor é a autocomunicação de Deus como conhecimento e vontade. A transcendência absoluta do espírito é o espaço que se abre para o “a priori” da revelação do Amor. Quando o conhecimento e a vontade se unem ao Ser, chega-se à experiência do Amor.

O amor é um modo como Deus revela a transparência de sua potência, de Si mesmo e da sua Criação; onde Ele mostra a capacidade de dar incondicionalmente o seu Ser. O ESPÍRITO INFINITO DE DEUS SE REVELA ATRAVÉS DE SEU AMOR CRIATIVO. No coração de tudo o que é, palpita o Amor de Deus.

Amar é afirmar a existência humana através da abertura a este Amor; é encontrar-se com o Amor como condição e princípio para o conhecimento. No coração do conhecimento está o Amor que nutre a vida. A mística significa conhecer, perceber e sentir, através do espírito, a luz que torna todo ser transparente e humano.

O ser humano é o ente que escuta a revelação do Amor Divino na medida que se abre, livremente, para a mensagem de Deus que se revela como Amor. É no Amor que se realiza a revelação divina que transcende o ser humano. O lugar da revelação de Deus é sempre naquele momento da história que em o ser humano ama; o amor é o lugar da transcendência. No Amor, o humano transcende o finito de sua própria matéria. A sensibilidade do ser humano vem de sua capacidade de transcender a matéria.

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segunda-feira, 14 de outubro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 7


Na mística moderna de Rahner temos três aspectos: 

1 - A explicação fenomenológica - O humano, enquanto sujeito espiritual, é um Ser que não pode mais evitar de interrogar-se sobre si mesmo e sobre os seres em geral. É o fenômeno existencial do humano que coloca a pergunta necessária. O ser humano é uma pergunta necessária e ontológica do Ser e examina a sua essência. O ser humano é uma pergunta infinita e absoluta, e tal pergunta ontológica resulta na possibilidade de escutar uma resposta cristã.

2 - A redução transcendental -  O sujeito é uma dimensão “a priori” que coloca numa luz o humano como um ser de transcendência. O humano tem um horizonte “apriorístico” e por isso faz perguntas ontológicas através de uma prévia percepção do conhecimento como experiência transcendental, que é uma possibilidade da verdadeira e própria revelação. O humano, através da experiência mística é elevado ao “a priori” da revelação originária de Deus.

3 - A dedução transcendental - É o ponto que examina a estrutura característica da ação como categoria do sujeito. A essência do sujeito salta para fora na sua ação. O humano é a matéria de Deus, uma revelação histórica. Deus é a transcendência absoluta. O ser humano é transcendência que se orienta para o Absoluto.

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quinta-feira, 10 de outubro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 6

Grande contribuição fontal para a mística é o conhecimento amoroso que parte da Sagrada Escritura, o estudo do pensamento e prática dos Padres Orientais e Ocidentais.

É a força espiritual e transpsicológica do Ser imerso no fazer correr a vida divina contida nos sacramentos, especialmente na Eucaristia. É unir mística cristã com a vida cristã, caminho de santidade da vida e a divinização a que são chamados todos os cristãos. A chamada universal à santidade equivale à chamada universal à mística. Henri de Lubac (1896-1991) afirma que a mística cristã é a mais profunda interiorização do mistério da fé e alicerça suas raízes nas Sagradas Escrituras, na Liturgia e na Vida Sacramental.

Com Karl Rhaner (1904-1984) e Joseph Marechal (1878-1944), o aprofundamento da mística moderna tem como ponto de partida uma nova e mais adequada metafísica, a dinâmica do ato cognitivo, a possibilidade de conhecer Deus.

O sentido humano traz o sujeito do conhecimento em contato com a coisa real. A inteligência, como faculdade superior, deve ser considerada fundamentalmente intuitiva por tendência e por finalidade. A experiência mística é o contato direto, intuitivo e imediato na vida entre a inteligência e o seu fim que é o Absoluto. É o contato místico entre o ser humano e o ser Divino. Converter-se é enamorar-se de Deus. O humano como Ser, tende ao mistério Absoluto.

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quarta-feira, 9 de outubro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 5


1.1 – Características da Mística na fluência do século XX

No século XX cresce o debate sobre a natureza da mística e a universalidade desta experiência. Até o Concílio Vaticano II, os caminhos da mística começavam na hermenêutica baseada sobre as Fontes Bíblicas e da Patrística; porém é exatamente a partir daí que começa a elucidar o significado de natureza do estado místico, da vocação universal à perfeição, do itinerário de virtudes, do vértice da experiência espiritual, dos fenômenos místicos e retoma-se a questão da contemplação adquirida (ativa) e da contemplação infusa (passiva), duas compreensões que têm a ver com o direcionamento da VIA PERFECTIONIS através, da UNIO MÍSTICA, uma espécie de matrimônio espiritual. A mística é essencial para a perfeição e caminho obrigatório para chegar ao ESTADO MÍSTICO, isto é, o próprio Amor recebido diretamente de Deus.

Não se pode deixar de lembrar que nos dois casos existem os fenômenos extraordinários que os acompanham: a prece mística, os efeitos que aparecem além do esforço humano, a pura graça; ou aqueles que tem a cooperação dos exercícios necessários tais como: meditação orientada, silêncio, prece comum. A contemplação adquirida é ativa e ordinária. A contemplação infusa é passiva e extraordinária.

Independente da questão de um Curso Sistemático de Teologia Espiritual, que a partir de 1931, com Pio XI, coloca a ascética como disciplina auxiliar e a mística como disciplina especial. O que nos interessa aqui nesta reflexão? Mostrar que todo este desenvolvimento une num mesmo tronco a mística e a ascética na História da Espiritualidade. Que a perfeição cristã vai crescendo graças à presença de dons do Espírito Santo que operam sobrenaturalmente na vida mística, e a busca incessante da vida da graça, da fé, da caridade e de dons do Espírito Santo, da força extraordinária dos milagres, das visões e da profecia.

Tudo isto faz parte do desenvolvimento da via espiritual e encontra a sua culminância na contemplação e na experiência mística.

Não podemos esquecer de citar o grande pensador cristão Jacques Maritain (1882-1973), que mostra em sua obra o fascínio pela mística; para ele a mística é a culminância de toda forma de conhecimento e consequência da verdadeira metafísica. Para ele, mística é conhecimento das coisas profundas de Deus, experiência esta que vai do contato direto e imediato com Ele, um contato que envolve amor e conhecimento.

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segunda-feira, 7 de outubro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 4


Deus é absolutamente incognoscível e se manifesta na criação, assim toda a realidade das coisas podem aproximar a união com a Origem escondida. Nesta afirmação aparece a dimensão universal da experiência mística, a pedra angular do desenvolvimento da mística nas épocas sucessivas.

A obra do Pseudo-Dionísio não conseguiu emplacar na Igreja Latina a ideia de experiência mística. O Ocidente preferiu a palavra Contemplação. Somente com a Idade Média que a palavra mística torna-se de uso corrente.

Contemplação era uma palavra mais usada para designar um estudo de vida mística dos eremitas e monges.
 
Foi a partir do século XVI que a mística passa a significar uma passagem do sagrado ao segredo, das coisas e sua dimensão essencial, da via ordinária ao extraordinário, o mundo espiritual visto como afeto, visões, êxtase, o puro amor de Deus, a alma que se deixa conduzir pelos espíritos e vive num estado místico.

A alma deve aprofundar-se em Deus e conduzir-se a fonte do amor puro. Quanto mais a alma se eleva, quanto mais a ação de Deus se faz sentir. A mística vai criar os caminhos da oração simplificada, a contemplação ativa e passiva, enfim o Estado Místico.

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quarta-feira, 2 de outubro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 3


Justino (início do I século até 163) é o primeiro escritor cristão a discorrer sobre a relação do mistério cristão com o mistério pagão. Derivados de MÚEIN são também os significados de: realidade secreta, velada, escondida, de não imediato acesso de comunicação, e que pertence a ordem religiosa ou moral.

Não encontraremos jamais o termos MISTIKÓS na Bíblia. O primeiro a introduzir no vocabulário cristão o adjetivo MISTIKÓS foi Clemente de Alexandria (150-215), que usou o termo mais de 50 vezes em sua obra. E aqui o vocabulário era usado como: os segredos e modos da manifestação da realidade divina oculta na Sagrada Escritura, no Rito e na Prece.

Clemente de Alexandria é aquele que introduziu o conceito cristão de mística como CONHECIMENTO DO MISTÉRIO ESCONDIDO EM DEUS. Para Clemente, o cristianismo é uma mística fortemente acentuada, modificando no sentido cristão os mistérios pagãos, e manifestando aos pagãos um novo e verdadeiro mistério: aquele que é capaz de trazer purificação e salvação.

O termo Teologia Mística aparece pela primeira vez na história do cristianismo com o Pseudo-Dionísio, o Areopagita (V e VI séculos) que escreveu um tratado com este nome. A sua obra tem um caráter metafisico e especulativo. Não destaca um tipo particular de experiência, mas sim o CONHECIMENTO DO MISTÉRIO DE DEUS.

Aqui entra pela primeira vez o caráter estético da mística. Ele descreve a natureza divina entre o Belo e o Bom, o Eros e o Ágape, que são os nomes luminosos de Deus.

Eros não é atração física, mas a mais pura imagem do pleno sentido da unidade do Amor divino e uno. O escondimento e a revelação de Deus. Todas as criaturas manifestam o Criador e ao mesmo tempo o escondem. O universo é uma imagem necessária de Deus, mas ao mesmo tempo é incapaz de representar Deus. A partir do momento que o caminho da negação é usado, Deus é conhecido de modo mais profundo mediante a total incapacidade de dizê-Lo. A ignorância é a verdadeira GNÓSIS.

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segunda-feira, 30 de setembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 2


1- O QUE É MÍSTICA?

O século XX trouxe novamente à luz o debate sobre a mística que gerou uma nova teologia mística, fundamentada sobre o princípio que a experiência mística é um fenômeno universal. Karl Rahner é um dos eminentes teólogos que elaborou uma sistematização teórica da nova teologia mística através da sua teologia transcendental. No campo da Teologia Mística Franciscana, é o teólogo coreano Ghye-Young Paolo Ko, frade da Ordem dos Frades Menores. Estes dois teólogos destacam a verdade que o ser humano, como um mistério, se orienta para o mistério divino a ponto de vir a ser, em sua identidade, o homo mysticus.

Rahner afirma que o cristão de amanhã, ou será um místico, ou não será um cristão. Que o século XXI será o século do Espírito ou não será século. Paolo Ko, como uma profecia teológica, resgata a atualidade da teologia cósmica-universal de Francisco de Assis e sua influência na nova teologia mística.

Mas vamos retomar a pergunta inicial deste ponto: O que é mística? O termo MÍSTICA, como substantivo, provém do adjetivo MISTIKÓS, derivados do verbo MÚEIN que quer dizer: fechar os olhos e a boca. Olhos fechados para enxergar somente o segredo, e a boca para não se revelar, a não ser no momento ou à pessoa certa.

Deste verbo grego MÚEIN deriva o substantivo MISTÉRIO, que designa, no sentido helenístico: o rito religioso secreto de iniciação que coloca em contato o ser humano com a divindade. Na Teologia Espiritual do Novo Testamento, o termo MISTÉRION é usado para elucidar a compreensão do mistério do Reino de Deus, a sabedoria escondida do Pai, a presença do Filho no mistério da Encarnação, o destino final da caminhada terrena e a relação mística entre Jesus Cristo e a Igreja. Na Vulgata, o termo é traduzido como MISTERIUM ou SACRAMENTUM. Nos primeiros séculos do cristianismo, a palavra não é apenas uma identidade lexical, mas realidade teológica.

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terça-feira, 24 de setembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - Introdução


Cada um esteja lá, no seu CENTRO, no seu NÚCLEO INTERIOR... e de lá VENHA!


INTRODUÇÃO AO TEMA

Estamos vivendo um grande momento de visualização da proclamação da sede do divino. Seria uma reação contra o esvaziamento religioso-espiritual da passagem dos tempos modernos? Uma revanche do sagrado sobre a cultura profana? O certo é que estamos vivendo um forte momento de um movimento psico-místico-paracientífico-espiritual-terapêutico. Alguns falam da necessidade de uma cura interior. Outros sonham com a volta da garantia aos filhos da terra, de um lugar privilegiado sob o olhar misterioso da Divindade.

Estamos vivendo também um tempo de uma onda mística que reflete forte dose compensatória de carência existencial. Mas a mística não é uma experiência espiritual que pertence a uma elite espiritual, mas é uma experiência aplicável à toda humanidade no seu dia a dia.

A MÍSTICA É A UNIÃO AMOROSA COM O MISTÉRIO ATRAVÉS DA CONTEMPLAÇÃO DO MISTÉRIO.

1- O mistério como objeto da mística
2- A contemplação como método da mística
3- A união amorosa como finalidade da mística

O curso em questão tem como tema A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS (1181/1182-1226), uma testemunha eloquente que viveu uma PROFUNDA MÍSTICA DE DEUS. Sem dúvida, o Santos de Assis, é um dos grandes místicos da história do cristianismo. Contudo, não deixou nenhum escrito sistemático sobre a sua experiência mística, a sua visão sobre a mística e contemplação, ou o conteúdo e método da sua experiência. Mas isto não impede a possibilidade de buscar a identidade de tal experiência. Cada experiência originária do mistério divino não depende da reflexão verbalizada. São Francisco deixou uma rica fonte de escritos, e a maior parte destes escritos sugiram desta experiência originária do mistério divino.

O Santo de Assis no século XII e nós, hoje no século XXI, precisamos nos encontrar na força iniciática; na busca incessante do mistério divino em todos os detalhes da existência. Há no ar uma convocação para fechar a boca num silêncio que fala; a atitude de recolhimento para colher o essencial; o nascivo do contexto religioso extremo bem ligado ao mistério; a experiência mais interna; a realidade mais transcendente; a vivência de uma causa pela qual vale a pena entregar a própria vida. Uma escuta da voz interior; um ser totalmente envolvido por um projeto; um fenômeno interno do espírito; uma comunhão com o mundo do divino.

O sagrado atrai a criatura
A criatura deixa-se atrair
“Seduziste-me, Senhor, e deixei-me seduzir!” (Jr 20,7)

Mística... não vamos nos preocupar se temos ou não temos, mas desde já, abrir o nosso coração para encontrar-se com ela. Que o caminho deste Curso seja de entusiasmo, isto é, daqueles que tem um Deus dentro. Sempre quando somos entusiasmados, somos divinos.

Esta é a força contagiante de São Francisco de Assis: ele é naturalmente uma mística fontal em sua natureza mais íntima; e aqui está a sua eterna magia e seu poder de atração.

É preciso ter o faro místico espiritual para sentir o cheiro de Deus que passa. Ter mais perfume na vida.

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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

NUMA ALMA FRANCISCANA, A PRIMAVERA NÃO PODE PASSAR DESPERCEBIDA


Dizem as Fontes a respeito de São Francisco de Assis: “Que alegria ele sentia diante das flores, vendo sua beleza e sentindo seu  perfume! Passava imediatamente a pensar na beleza daquela flor que brotou da raiz de Jessé no tempo esplendoroso da primavera e com seu perfume ressuscitou milhares de mortos. Quando encontrava muitas flores juntas, pregava para elas e as convidava a louvar o Senhor como se fossem racionais. Da mesma maneira,  convidava com muita simplicidade os trigais e as vinhas, as pedras, os bosques e tudo que há de bonito nos campos, as nascentes e tudo o que há de verde nos jardins, a terra e o fogo, o ar e o vento, para que tivessem muito amor e fossem generosamente prestativos. Afinal, chamava todas as criaturas de irmãs, e de uma maneira especial, por ninguém  experimentada, descobria os segredos do coração das criaturas porque na verdade parecia já estar gozando a liberdade gloriosa dos filhos de Deus” (1 Cel 29, 80.81).

“Nas coisas belas reconhecia aquele que é o mais belo, e que todas as coisas boas clamavam: Quem nos fez é ótimo!” (...) Mandou que o hortelão deixasse sem cavar o terreno ao redor da horta, para que, em seu tempo, o verde das ervas e a beleza das flores pudessem apregoar o formoso Pai de todas as coisas. Mandou reservar um canteiro na horta para as ervas aromáticas e as flores, para que lembrassem a suavidade eterna aos que as olhassem” ( 2Cel 124, 165).

“Costumava dizer ao irmão que tomava conta do jardim que não ocupasse todo o terreno com legumes, mas reservasse uma parte para as árvores que, em seu tempo, produzem nossas irmãs flores, por amor para com aquele que disse: “As flores dos campos e os lírios dos vales” ( SP 118).

“Louvado sejas, meu Senhor, por nossa Irmã e Mãe Terra, que nos sustenta e governa, e produz diversos frutos, e coloridas flores e ervas” ( Cântico das Criaturas)

Francisco não leu antologias poéticas, mas simplesmente amou profundamente a Natureza! Ele é Santo da Eterna Primavera! O Santo que percebia que as flores combinam explodir todas ao mesmo tempo para revelar a Onipotência de Deus, tão assim Belo, Poderoso e Simples! Em Francisco, o espírito que fraterniza é o espírito que personaliza, que vê, sente, cheira e colhe. Dos detalhes pequenos aos grandiosos, para Francisco de Assis a vida é uma revelação sagrada. É como diz o poeta Paulo Leminski:

                                   “Quem me dera
                                    Até para a flor no vaso
                                    Um dia chega a primavera”

Para Francisco, o tempo, a hora, as estações são tempo de louvor. E Manoel de Barros confirma: “Os girassóis têm o dom de auroras”

Por isso, com São Francisco vamos celebrar a Primavera fazendo da vida uma bela celebração! Deus cuida de nós no nascivo de cada dia!

Feliz Primavera na Paz e no Bem!

Obs.: Foto tirada por Frei Régis Daher na Fraternidade de Bragança na manhã deste dia 20 de setembro depois das chuvas do dia anterior. É uma Primavera, planta genuinamente brasileira. Ela tornou-se conhecida e muito popular mundialmente após ter sido coletada por Louis Antoine de Bougainville, almirante francês que navegou em volta do mundo no século 18. 

quinta-feira, 19 de setembro de 2013

NOVOS DESAFIOS PARA UM VELHO TEMA: A FORMAÇÃO FRANCISCANA - CONCLUSÃO



  Na Formação Franciscana é preciso viver um CAMINHO como um PROCESSO. Não é viver de programas e normas estáticas, mas uma NOVIDADE CRIATIVA. A Vida tem que se transformar no ALGO MAIS do Seguimento. Formação é sempre um salto qualitativo no ideal que abraçamos. No final de cada etapa perguntar: eu mudei? Eu cresci como pessoa?

Faz parte do Caminho dos Convertidos. Não há conversão pronta, pontual, acabada, mas sim um processo de RE-ORIENTAÇÃO DA VIDA!

 Que seja uma Formação Franciscana que cresça sempre perguntando: Onde estamos? Para onde queremos ir? Onde queremos chegar como Fraternidade? Que Fraternidade queremos? Como liberar o dinamismo adormecido nas Fraternidades? Não podemos ajuntar as experiências, trocar mais idéias sobre a FF? Que modelos temos nas Entidades, nos Grupos, nas Fraternidades? Que passos damos do real para o ideal? Que meios e recursos usamos para chegar à uma boa Formação Franciscana? Com estes questionamentos podemos chegar a uma iluminação de nossas práticas formadoras. Um consenso partilhado. Avaliar sempre!

Precisamos ouvir e perceber mais os fenômenos internos, os modelos vivos que temos em nossa caminhada.

Descobrir mais PRIORIDADES na formação e investir aí, prioridades de compromissos. Fazer algo mais; fazer algo melhor.

 Aplicar sempre a Formação Franciscana à Vida!

 Trabalhar uma Pedagogia Franciscana. Sabemos a meta, mas não sabemos o como. Mais do que ensinar temos que aprender elaborar pensamentos, conteúdos, questionamentos e respostas. Nós não somos só uma grande bagagem de documentos e livros. Somos um grupo humano que enfrenta o desafio de ser forte e autêntico.

 Formar não é empurrar algo para dentro, mas sim trazer para fora uma identidade que soa em nossa intimidade

 A Formação Franciscana é um caminho para toda a vida. Temos que ter uma disponibilidade ativa e inteligente de quem se deixa formar pela Vida Franciscana e para a Vida em geral, deixando-se moldar por Jesus Cristo, pelo Evangelho, por São Francisco, Santa Clara e pela grande e imensa convivência fraterna. Estes são os verdadeiros autores da Formação! Esta é uma tarefa sempre pendente. Nunca tem fim!

Vamos dar um peso formativo ao nosso dia a dia!

    PAZ E BEM!

Frei Vitório Mazzuco, OFM

segunda-feira, 16 de setembro de 2013

NOVOS DESAFIOS PARA UM VELHO TEMA: A FORMAÇÃO FRANCISCANA - 5


NOVOS DESAFIOS PARA UM VELHO TEMA: A FORMAÇÃO FRANCISCANA


>> Que ela leve a um confronto com a vida pessoal e comum e não apenas a um confronto com os  textos.

>> A fragmentação pós moderna também atingiu a Formação Franciscana. Cresce o valor da Espiritualidade, mas a multiplicidade de escolhas de outras espiritualidades pode tirar, de certa forma, o foco da espiritualidade escolhida como Forma de Vida.

>> Nas diversas entidades (Ordem, Províncias, Congregações, OFS), a formação tem um programa, nas Fraternidades Locais não.

>> É preciso ter mais consciências que encontros, cursos e retiros são grandes momentos privilegiados da Formação Franciscana. Tudo é Formação Franciscana... mas,  busca-se outras atividades.

>> Que a Formação Franciscana seja um processo de transformação da pessoa. A raiz de toda Formação Franciscana é a transformação. Até então, o centro da Formação Franciscana era (e continuará sendo) o Seguimento; a partir da convocação dos tempos de hoje, a ideia de pessoa muda o conceito da Formação. A modernidade usa a Liberdade como caminho de busca da pessoa. Liberdade é entender-se e realizar-se como pessoa.




>> A Liberdade de não estar tão preso a leis, normas, conceitos e autoridade.

>> A Liberdade para optar por uma escolha grandiosa. A liberdade de confrontar-se com valores que dão consistência à existência. Uma responsabilidade de converter-se em pessoas livres para comprometer-se com valores.

>> A liberdade de sentir-se finito, limitado, pequeno... mas... livre!

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sexta-feira, 13 de setembro de 2013

NOVOS DESAFIOS PARA UM VELHO TEMA: A FORMAÇÃO FRANCISCANA - 4



2 - RESISTÊNCIAS A UMA FORMAÇÃO INSTITUCIONALIZADA
  
>> Sempre vemos a Formação Franciscana a partir do ponto de vista do outro (a). Formadores (as) marcam a nossa vida para sempre, positivamente ou negativamente. Alguns são feridos do sofrimento do passado. Pode tornar-se uma relação de amor e ódio. Não estou de acordo com suas ideias, mas qual é o meu conceito de formação? Não estou de acordo com sua ideia, mas sou seu irmão (ã).

>> Uns são lógicos, outros são críticos, alguns proféticos, muitos santos. Uns atualizam-se outros não têm abertura para mudanças ou para escutar o diferente.

>> Somos acostumados a medir o sucesso. Na escola, isto é mais fácil; mas como medir o sucesso quando a Formação Franciscana é um processo para toda a vida? Não precisamos medir sucesso, temos é que ser fiéis.

>> Medo de perder a segurança do velho sistema e organização (perder o controle, o poder, o status). Não querer mudar o modo de pensar. Não querer envolver-se como pessoa para não mostrar a própria vulnerabilidade.

>> “Isto eu já sei!”; “Isto eu já conheço!”. Viver num plano superior; já sabe de tudo, vive no andar de cima sem querer conhecer o andar de baixo; sabe muito, mas não consegue entender o que é a Pobreza.

>> A nossa Formação Franciscana corre o risco de ser muito espiritual, muito abstrata. Em São Francisco não era assim, o humano e o mundo emergem com naturalidade. Ele tinha um modo interdisciplinar, isto é, uma visão mais holística da vida; uma FF que leve a um modo amplo de viver. Se o Franciscanismo é a religião da Encarnação (cfr. CBCMF), a Encarnação é holística.

>> Não ter medo da riqueza do grupo, do peso da responsabilidade, da Formação Franciscana imposta, mas ter a coragem de questionar quando a FF é apenas intelectual e cerebral e não vem do coração. Não pode ser teórica informativa, tem que ser experiencial formativa.

* O método tem que envolver toda a pessoa.
* Há muito improviso.
* Falta desejo e sonho.
* Distanciamento entre programa e vida.
* Não se abraça como um dever para toda a vida.
* Interroga-se mais os métodos do que os conteúdos.
* A FF não pode ser apenas o que está na cabeça do Formador (a).

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