terça-feira, 16 de maio de 2017

Francisco e o irmão corpo


Frei Vitório Mazzuco

Conta Tomás de Celano: “Disse também uma vez o santo: ”Deve-se prover o irmão corpo com discernimento, para que ele não provoque a tempestade da tristeza. Seja-lhe tirada a ocasião de murmurar, para que ele não fique entediado de vigiar e de perseverar reverentemente em oração. Ele, pois diria: “Morro de fome”, não consigo carregar o peso de teu exercício. Depois de ter devorado suficiente ração, se ele resmungar tais coisas, sabei que o jumento preguiçoso precisa se esporas, e o burrinho indolente espera chicote” “ ( 2Cel 129 ).

Hoje muita gente quer moldar o corpo com exercícios e dietas. Nas academias os horários estão cheios com pontuais exercícios. Nos bosques e logradouros próprios para isso, caminhadas e corridas. Suplementos vitamínicos. A vida é fit, o alimento é fit, a mística é fitness. Para se chegar a medida certa acontecem acertos e exageros. Será que forçar o corpo além das suas possibilidades é sadio? Fazer dieta é não comer, ou saber comer? É preciso escutar o corpo que clama como no texto acima: ”não consigo carregar o peso de teu exercício!”.  Claro que o corpo tem que ser domado como o texto acentua: “o jumento preguiçoso precisa de esporas”. Mas atenção a medida certa! Nem demais, nem de menos. A fala de São Francisco, segundo Tomás de Celano é clara: “Deve-se prover o irmão corpo com discernimento para que ele não provoque a tempestade da tristeza”. 

Mas o texto acima, falando do corpo chama a atenção também para exercitar-se na oração. Quando o corpo está bem, a alma vem junto. 

Se existem programas para deixar um corpo sarado, por que não cuidar também da alma?

sexta-feira, 12 de maio de 2017

Feliz dia das mães


Mãe é uma identidade humana grudada em Deus, pois exerce a modo divino o jeito de criar, amar, cuidar. Mãe é uma vida, uma história, um nome que vive acordado dentro da gente.  Mãe oferece um amor gratuito feito bênção. Muitos vão dizer que celebrar o Dia das Mães é apelo comercial, porém as estradas estão cheias de gente indo, os almoços preparados, presentes escolhidos, casas reencantadas de presenças filiais, túmulos novamente floridos, músicas dedicadas, e muita gente reunindo histórias.

Mãe tem este inocente jeito de amar onde os sentimentos não são vagos, mas onde o amor é encarnado e incondicional. Desprendida, natural, paciente, silenciosa, chora e ri deste jeito filial de chegar partindo.  Mãe não representa o amor como numa novela, mas é o próprio amor em seu jeito mais natural na tela de nossa vida. Mãe tem este jeito onde o humano se transcende, uma energia interior onde o amor sempre está ali. Mãe é a nossa casa verdadeira, e quando ela se vai é como se andássemos pelo mundo buscando o lar perdido. E quando ela ainda está viva voltamos sempre à sua morada para descansar lá dentro, num imenso colo.

Mãe é aquela que revela o jeito de amar como um estado de ser, por isso não se cansa de fazer. Suas palavras soam em nós como um mantra repetitivo e necessário: Não se esqueça de levar agasalho! Tomou seu remédio? Arrumou sua cama?  O almoço tá na mesa! Fez o dever de casa? Não saia sem documentos! Colocou o relógio para despertar? Tomou banho? Não perca a hora de ir para a escola!  Vai quando visitar seus avós? Não seja malcriado! Deus te abençoe! Ah! Estas palavras soam como a batida de seu coração ao ritmo dos cuidados diários.

Mãe tem este jeito simples onde a santa simplicidade armou tenda numa experiência profunda: amar é dar-se. Mãe marca plantão na cozinha temperando com vida um alimento que não encontramos em lugar nenhum. Ela vive o que o Evangelho diz ser sal da terra e luz do mundo. O Dia das Mães não é para os que compram nas Casas Bahia, o Dia das Mães é para os que celebram!  Às Mães nossas preces, as nossas mais belas orações que brotam de corações agradecidos.

Feliz Dia das Mães!

Frei Vitório Mazzuco

terça-feira, 9 de maio de 2017

Francisco de Assis, uma experiência cristã


Esta obra é muito importante para o conhecimento de São Francisco de Assis. Toda Ordem Minorítica, seu nascimento e seu desenvolvimento, tornam-se uma apologia da ação de Deus na história. Assim, a reflexão hagiográfica se configura como uma sólida confirmação da validade do próprio percurso e da própria identidade religiosa; contudo, marca também uma precisa linha de leitura da experiência original de Francisco, que encontra na sua Ordem sua máxima expressão e as premissas de sua continuidade.

Sob esta comum consciência, permanecem totalmente abertas as perguntas que, no decorrer dos séculos, dividirão os Menores quanto aos termos com os quais observar fielmente e perpetuar o próprio modelo; mas sem que por isso se comprometa a convicção de que um fio ininterrupto partira da opção de Francisco de Assis e continuava a se desenvolver no tempo e no espaço graças à obra de todos os que tinham seguido e seguiam seu ensinamento.

Para saber mais leia: Francisco de Assis, Realidade e memória de uma experiência cristã, CFFB, Petrópolis, 2004.

quarta-feira, 3 de maio de 2017

Francisco orante


Imagem: Lodovico Carracci - São Francisco em meditação

Frei Vitório Mazzuco

O modo orante de Francisco de Assis pode inspirar a oração que brota da nossa intimidade. Nada melhor que buscar um testemunho das Fontes Franciscanas para este jeito de orar: “Francisco, homem de Deus, corporalmente distante do Senhor, lutava para manter o espírito presente no céu; e, já feito concidadão dos anjos, somente a parede da carne o separava. Toda a sua alma tinha sede do seu Cristo, ele lhe dedicava não só todo o coração, mas também todo o corpo.

Relatamos umas poucas maravilhas das suas orações a serem imitadas pelos pósteros, o quanto vimos com nossos olhos. Conforme é possível transmitir a ouvidos humanos. Fazia de todo tempo um ócio santo, para gravar a sabedoria no coração, para não parecer que fracassava, caso não progredisse. Se por acaso as visitas dos seculares ou quaisquer negócios o surpreendiam, interrompendo-o antes de terminar, ele voltava novamente às realidades interiores (...).

Sempre procurava um lugar escondido em que pudesse unir a seu Deus não só o espírito, mas também cada membro. Quando era subitamente agraciado em público pela visita do Senhor, para não estar sem cela, fazia do manto uma pequena cela. Muitas vezes, faltando-lhe o manto, para não revelar o maná escondido, cobria o rosto com a manga. Sempre interpunha algo aos presentes para que não conhecessem o toque do esposo, de modo que, inserido entre muitos no estreito espaço de um navio, rezava sem ser visto. Finalmente, não podendo nada destas coisas, fazia do peito um templo (...).

Estas coisas em casa. Mas, rezando nas florestas e nos lugares solitários, enchia os bosques de gemidos, banhava os lugares de lágrimas, batia com a mão no peito e aí, encontrando como que um esconderijo mais oculto, conversava muitas vezes com palavras com seu Senhor. Aí respondia ao Juiz, suplicava ao Pai, conversava com o Amigo, divertia-se com o Esposo (...)Muitas vezes, com os lábios imóveis, ruminava interiormente e, arrastando para o interior as realidades exteriores, elevava o espírito às superiores. Assim, totalmente transformado não só em orante, mas em oração, dirigia toda atenção e todo afeto a uma única coisa que pedia ao Senhor” (2 Cel 94).

Podemos concluir de olho nas Fontes que a oração de Francisco é uma oração que envolve corpo, mente, alma e coração. É ocupar o tempo com a sabedoria do coração. Uma total concentração para não perder o instante da visita do Senhor e o estado de enlevo. É a busca do lugar escondido e solitário para estar melhor no comum. É o toque do Esposo, a conversa com o Amigo e a resposta ao Juiz. É fazer do peito um templo! Homem feito oração.