quinta-feira, 22 de dezembro de 2011

O NATAL REENCANTA A VIDA

É tempo de Natal, o nosso coração e o mundo estão em festa porque Deus se faz mundo, toma forma de humano e vem pisar o nosso chão, caminha conosco, veste-se de simplicidade e apresenta-se de um modo humilde para dizer: Paz a todos de vontade boa!

Como a mais bela paisagem de todos os tempos, uma Criança Divina sorri a todos no presépio, atraindo a atenção e mostrando que o Amor é proximidade e vizinhança e dizendo para nós: eu me faço um outro, e revelo o humano de um Deus e o Divino do humano.

Por isso, a vida se enfeita de luz e cores porque há no ar algo novo, um jeito novo, uma linguagem nova. Nosso Deus não é um Deus difícil de se encontrar, mas sim um Deus leve, lírico, amoroso, sereno, poético, terno, familiar, e faz alegria quando chega.

Por isso vivemos esta espera e a nossa vida se reencanta. Por causa deste Deus Menino, a vida vale a pena, o Amor tem nome, a família ganha sacralidade, nós trocamos presentes porque ganhamos o maior de todos os presentes: o Amor Divino pulsa na carne e no coração de todas as pessoas!

Por tudo isto quero juntar as melhores palavras, o melhor reconhecimento, a melhor gratidão a vocês que caminharam comigo, neste ano, nas reflexões, aqui neste Blog. Agradeço a sintonia, o retorno, as críticas, as contribuições, os questionamentos, as palavras de incentivo. Amemo-nos com este jeito jeitoso que este Deus Menino nos ensinou a amar! Feliz Natal e um Maravilhoso Ano Novo!

Frei Vitório Mazzuco, OFM

terça-feira, 20 de dezembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA - FINAL

Para encerrar esta série de reflexões sobre Espiritualidade, gostaria de transcrever um texto. Lembro de uma música de Milton Nascimento cuja letra diz assim: “Certas canções que ouço/ cabem bem dentro de mim/ Que perguntar carece/ Como não fui eu que fiz?” Pois é... gostaria de ter escrito este texto que transcrevo em seguida. Ele não quer ser uma contraposição à Religião, nem é uma crítica a Religião, mas sim é a confirmação de que as religiões precisam da Espiritualidade e da Mística.


DIFERENÇAS ENTRE RELIGIÃO E ESPIRITUALIDADE

Religião não é apenas uma, são centenas de instituições.
Espiritualidade é apenas uma – uma percepção, uma sensibilidade.
Religião é para os que ainda dormem. Espiritualidade é para os que despertam.
Religião é para aqueles que necessitam que lhes diga o que fazer, que ainda necessitam de ser guiados.
Espiritualidade é para os que prestam atenção à sua Voz Interior.
Religião tem um conjunto de regras dogmáticas
Espiritualidade te convida a raciocinar sobre tudo.
Religião não indaga, nem questiona.
Espiritualidade questiona tudo.
Religião cria dogmas. Espiritualidade descobre.
Religião pode impor, ameaçar, amedrontar.
Espiritualidade te dá Paz Interior.
Religião fala de pecado, de demônio e de culpa.
Espiritualidade te diz: aprende com o erro.
Religião reprime, pode te fazer falso.
Espiritualidade transcende e te faz verdadeiro!
Religião institucional nem sempre é Deus, é meio.
Espiritualidade é Tudo e, portanto, é Deus.
Religião é humana, é uma organização com regras.
Espiritualidade é Divina, com princípios naturais.
Religião é causa de divisões. Espiritualidade é fator de união.
Religião te busca para que nela acredites. Espiritualidade – tu tens que buscá-la.
Religião segue os preceitos de um livro sagrado. Espiritualidade busca o sagrado em todos os livros
Religião se alimenta da anti-crítica, da consciência pesada, dos clichês mentais do medo.
Espiritualidade se alimenta da Confiança e da Fé.
Religião faz viver restrito ao pensamento estereotipado.
Espiritualidade faz Viver na Consciência
Religião se ocupa com parecer, conforme modelo.
Espiritualidade se ocupa em Ser.
Religião alimenta ego. Espiritualidade nos faz transcender nosso ego.
Religião nos leva a renunciar ao mundo, independente do que é bom ou mal, natural ou artificial.
Espiritualidade nos faz viver a Obra de Deus, não renunciar a Ela.
Religião é adoração. Espiritualidade é meditação.
Religião sonha com glória e com paraíso idealizados.
Espiritualidade nos faz viver a gloria e o paraíso aqui e agora.
Religião vive no passado e no futuro.
Espiritualidade vive o presente.
Religião enclausura nossa mente e coração.
Espiritualidade liberta nossa consciência e sentimento.
Religião fala de vida eterna como recompensa.
Espiritualidade nos faz consciente da Vida, agora e no futuro.
Religião promete para depois da morte...
Espiritualidade é, transcendendo o fenômeno natural da morte, encontrar Deus em nosso interior, desde já.

Prof. Dr. Guido Nunes Lopes

Outro texto sobre o mesmo tema, que transcrevo:


ESPIRITUALIDADE E RELIGIÃO   

Frei Betto

Espiritualidade e religião se  complementam mas não se confundem. A espiritualidade existe desde que o ser  humano irrompeu na natureza, há mais de 200 mil anos. As religiões são  recentes, não ultrapassam 8 mil anos de existência.

A religião  é a institucionalização da espiritualidade, assim como a família é do amor. Há  relações amorosas sem constituir família. Do mesmo modo, há quem cultive sua  espiritualidade sem se identificar com uma religião. Há inclusive  espiritualidade institucionalizada sem ser religião, como é o caso do budismo,  uma filosofia de vida.

As religiões, em princípio, deveriam ser  fontes e expressões de espiritualidades. Nem sempre isso ocorre. Em geral, a  religião se apresenta como um catálogo de regras, crenças e proibições,  enquanto a espiritualidade é livre e criativa. Na religião, predomina a voz  exterior, da autoridade religiosa. Na espiritualidade, a voz interior, o  “toque” divino.

A religião é uma instituição; a espiritualidade,  uma vivência. Na religião há disputa de poder, hierarquia, excomunhões e  acusações de heresia. Na espiritualidade predominam a disposição de serviço, a  tolerância para com a crença (ou a descrença) alheia, a sabedoria de não  transformar o diferente em divergente.

A religião culpabiliza; a  espiritualidade induz a aprender com o erro. A religião ameaça; a  espiritualidade encoraja. A religião reforça o medo; a espiritualidade, a  confiança. A religião traz respostas; a espiritualidade suscita perguntas. As  religiões são causas de divisões e guerras; as espiritualidades, de  aproximação e respeito.

Na religião se crê; na espiritualidade se  vivencia. A religião nutre o ego, pois uma se considera melhor que a outra. A  espiritualidade transcende o ego e valoriza todas as religiões que promovem a  vida e o bem.

A religião provoca devoção; a espiritualidade,  meditação. A religião promete a vida eterna; a espiritualidade a antecipa. Na  religião, Deus, por vezes, é apenas um conceito; na espiritualidade, uma  experiência inefável.

Há fiéis que fazem de sua religião um fim e se  dedicam de corpo e alma a ela. Ora, toda religião, como sugere a etimologia da  palavra (religar), é um meio para amar o próximo, a natureza e a Deus. Uma  religião que não suscita amorosidade, compaixão, cuidado do meio ambiente e  alegria, serve para ser lançada ao fogo. É como flor de plástico, linda, mas  sem vida.

Há que tomar cuidado para não jogar fora a criança com a água  da bacia. O desafio é reduzir a distância entre religião e espiritualidade, e  precaver-se para não abraçar uma religião vazia de espiritualidade nem uma  espiritualidade solipsista, indiferente às religiões.

Há que fazer das  religiões fontes de espiritualidade, de prática do amor e da justiça, de  compaixão e serviço. Jesus é o exemplo de quem rompe com a religião  esclerosada de seu tempo, e vivencia e anuncia uma nova espiritualidade,  alimentada na vida comunitária, centrada na atitude amorosa, na intimidade com  Deus, na justiça aos pobres, no perdão. Dessa espiritualidade resultou o  cristianismo.

Há teólogos que defendem que o cristianismo deveria ser  um movimento de seguidores de Jesus, e não uma religião tão hierarquizada e  cuja estrutura de poder suga parte considerável de sua energia  espiritual.

O fiel que pratica todos os ritos de sua religião, acata os  mandamentos e paga o dízimo e, no entanto, é intolerante com quem não pensa ou  crê como ele, pode ser um ótimo religioso, mas carece de espiritualidade. É  como uma família desprovida de amor.

O apóstolo Paulo descreve  magistralmente o que é espiritualidade no capítulo 13 da Primeira Carta aos  Coríntios. E Jesus a exemplifica na parábola do Bom Samaritano  (Lucas 10, 25-37) e faz uma crítica mordaz à religião em Mateus  23.

A espiritualidade deveria ser a porta de entrada das religiões.  Antes de pertencer a uma Igreja ou a uma determinada confissão religiosa,  melhor propiciar ao interessado a experiência de Deus, que consiste em se  abrir ao Mistério, aprender a orar e meditar, penetrar o sentido dos textos  sagrados.

Frei Betto é escritor, autor de Um homem chamado  Jesus (Rocco), entre outros livros.  


sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 31

No último item acima explicitado falamos do iter, o caminho. Vamos encerrar esta série de reflexão sobre a Espiritualidade com três elementos essenciais deste caminho. Precisamos vibrar mais com a nossa força espiritual e com a espiritualidade. Todas as espiritualidades são maravilhosas porque falam de verdades maravilhosas. Vamos, então, lembrar três elementos do caminho espiritual:

1. O INICIADO - Muitas religiões falam da Iniciação, o cristianismo católico fala dos sacramentos da iniciação; porém muitos entendem (e talvez esta seja a prática) a iniciação como preparar para o dia do batismo, para o dia da primeira comunhão, para o dia do crisma... e depois que passar este dia? Será que este tempo termina com a festa entre pais, padrinhos, amigos, parentes regada com cerveja e refrigerante, macarronada, frango e maionese? Não é esta a proposta de uma Pedagogia Iniciática. A Iniciação é tarefa para toda a vida, é a tarefa essencial de tornar-se plenamente humano, tornar-se cada vez mais espiritual no decorrer do dia a dia. É uma via interior. É um trabalho constante que tem um início, mas que está na contínua tarefa de aprender a aprender. É ser eternamente discípulo. O aprendizado é evolução; e está em todo momento religando a razão ao coração e vice versa. Liga a ciência à consciência, a efetividade à afetividade, a existência à essência. O Iniciado está no caminho do aprendizado e este caminho o leva a: ser, conhecer, fazer, conviver. Aprender é evoluir. Abre o olhar para si mesmo, para o Sagrado, para o Universo, para o outro e para o Grande Outro, o Mestre. Não só abre o olhar como leva à uma fantástica mudança. Muda o olhar para mudar o mundo. A iniciação educa para ser. Educa para que nunca esqueçamos que devemos ser seres de ligação entre Deus e o Ser Humano, entre Céu e Terra, entre Matéria e Espírito.

O Iniciado faz um real caminho da busca pela verdade. No “Eu sou” do Mestre vai burilando o seu “Eu sou”, a subjetividade profunda, a filosofia de identidade que o prepara para grandes tarefas comuns, que o prepara para o mundo e para o social. O Iniciado fortalece o espiritual. Vai a fundo nas opções e não se contenta com o discurso pseudo religioso da satisfação imediata. Ele é paciente e cuidadoso em chegar a verdade de si mesmo, de Deus e de todos os seres. Ao fazer bem o discurso do profundamente humano, a humanidade vê nele o divino. Existe sempre algo misterioso a ser descoberto. Espiritualidade é um passo a mais. Dar um passo a mais a partir de onde estamos. O Iniciado é o ser do caminho. Identifica tendências, segue indicações profundas. Procurar ser tudo o que puder ser de melhor. Não descansa nunca. O Iniciado sabe que a verdadeira transformação é quando torna-se fervorosamente o que se é.

2. O DESPERTO - É aquele que acorda o sagrado que dorme dentro de si. Traz para o visível carnal o invisível espiritual. Aproxima-se do mistério e escuta a fala audível do mistério. Não deixa de estar atento ao fio que liga céu e terra. Olha a vida a partir do espaço da sua profundidade, é o olho do anjo no olho humano. Vive num estado de alma e acorda a sua inteligência contemplativa. Desperta uma consciência pura. Faz de sua alma um espelho límpido que reflete a dimensão espiritual, que reflete algo que está para além da existência. Vive num estado de vigília para não perder esta sua essência. Como diz Teilhard de Chardin, é a antropologia da vastidão; um fenômeno humano espiritual. Não é suficiente ser eu, dentro de mim há algo maior que eu mesmo. É acordar este desejo mais íntimo que é o desejo da vida eterna, da vontade de Deus. É acordar o santo que está dentro de si. É dizer todos os dias: eu desejo a santidade! Comemorar o dia de todos os santos como o seu dia também. Quem vive a plenitude de um modo permanente é santo. O santo está em nós, é preciso despertá-lo. Não se forma um santo, mas se acorda a imagem e semelhança divina que está em nós.

Alguém viu a Alma? Existe algo em nós que não é corpo, que não é matéria. O ser humano é uma essência, uma alma existencializada. É uma maneira única de encarnar o amor de Deus no mundo. Cuidar da alma, cuidar do espírito é quando a gente se ultrapassa em direção ao outro. Isto é ser nobre e sagrado. É cada dia acordar perguntas em nós: quem sou eu? Qual a imagem do absoluto que me habita? Quem acorda para esta verdade sabe bem o que é a vida.

3. O CONTEMPLATIVO - Faz do tempo um templo. O caminho iniciático é passar do espaço tempo para o espaço templo. Recolhe. Silencia. Medita. Vê. Escuta profundamente. O falar e o pensar correto têm muito a ver com o contemplar. Deus é um grande intervalo (Fernando Pessoa) . É aquela pausa para refazer-se. Respirar. Expirar. Transpirar. Quando esvaziamos a mente, o cálice transborda. O contemplativo consolida uma plena atenção. É atento e presente. Nutre-se pelo aqui e pelo agora. É sempre um ser de encontros. Faz ressurgir a função de templo em cada momento. Ao conquistar Deus reúne todo o universo. O contemplativo faz uma prece com todos os elementos do mundo. Percebe o algo mais e o maravilhoso. Percebe Deus nas nuances da vida. Conhece o Ser que o faz ser.

O contemplativo tem o silêncio antes das palavras; o silêncio antes da comunicação; o silêncio antes da ação. Traz a fala da palavra interior. Tem a calma e silêncio de comunhão. Mais do que uma fala é o templo da presença. O contemplativo é filho do tempo e da eternidade; sempre está acordado para o que não morre.

CONTINUA

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA- 30

Já ao término do nosso percurso, vamos elencar mais algumas virtudes vividas sob o filtro da espiritualidade franciscana. Durante os nossos encontros repetimos como um refrão: cada virtude puxa um encadeamento de outras virtudes, cada uma está implícita em muitas. Muitos destes conteúdos já contemplamos nas virtudes anteriormente citadas. Este é apenas um resumo de tudo o que refletimos. Vejamos:


CORDIALIDADE: Para a linguagem da espiritualidade e da mística, o órgão do conhecimento não é o intelecto, mas sim o coração. Nós só retemos em nossa mente aquilo que é filtrado pelo coração. O que toma o nosso coração toma conta de nosso corpo inteiro, da nossa vida, da nossa história e de nossas práticas. Nós somos o que colocamos em nosso coração. Quem não tem nada no coração não é ninguém. A cordialidade é acolher a vida, como diz Guimarães Rosa, “coraçãomente”. É receber alguém com boa energia do sentimento, do afeto, da delicadeza que está no coração. A pessoa cordial sente a vida pulsar em todos os detalhes. E recebe o outro como na visita que Maria fez a Isabel: faz vibrar o coração quando alguém chega. Encontrar-se é fazer vibrar a interioridade. “ Quem dá coração, tem corações!”

GRATUIDADE ( GRATIDÃO): É a capacidade de maravilhar-se diante de tudo o que se recebe da vida. Agradecer é reconhecer. É a afirmação de ser criatura, tão frágil, mas tão privilegiada. É estar encantado por tantos dons e bens recebidos.

FRATERNIDADE: A pessoa se firma e se define pelas suas relações qualificadas. Na fraternidade podemos viver a qualidade de nossas relações. Nas qualidades de nossas relações há sempre uma revelação. A fraternidade ajuda a abrir mão de interesses puramente egoístas. Uma coisa é viver junto, ser um agrupamento de pessoas; outra coisa é estar num grupo que tem uma consangüinidade espiritual, possui uma tradição que vem de longa data, tem espírito comum e objetivo comum. Mesmo vivendo dentro de uma estrutura ou de um instituição, assume com liberdade a corresponsabilidade de assumir uma causa pessoal filtrada pela causa de todos. A fraternidade é o lugar do relacionamento com o projeto comum, universal, vital, na vitalidade de um carisma que nos desafia a viver com uma identidade comum sem interferir na identidade pessoal. Temos um sangue biológico e um sangue espiritual. Este sangue espiritual é a força, a essência e o fundamento da vida que escolhemos para viver juntos.

PRUDÊNCIA: é agir com muita moderação, com muita sensatez, sem precipitação. Agir de um modo cauteloso, comedido, com plena atenção que evita ocasiões de erro.

RESPEITO: Sensibilidade para captar a verdade presente no diferente de mim mesmo. Olhar para alguém e ver a sua qualidade, o seu ritmo, a sua diferença a sua identidade única, sua tradição, cultura, bagagem e costumes. Acolher a capacidade do outro(a) que é única e capaz de acrescentar algo em minha existência. É dizer: “A minha alma engrandece por ter encontrado você!” É ser sal da terra segundo o jeito do Evangelho: sentir o gosto especial daquilo que tempera a minha vida.

HUMILDADE: Vem de húmus, isto é, a fecundidade que está no subsolo da vitalidade. A força escondida que faz tudo desabrochar. A capacidade de assumir a grandeza do próprio tamanho sem aparentar ser maior ou menor, mas sim ser a arte de ser o que se é. É a silencioso e oculta consistência interna que dá tempo para que tudo ganhe vida, floresça, desabroche. O humilde se submete à condição de ser um inútil que deixa transparecer a utilidade sem barulho. Tem a coragem de não aparecer, mas revelar mansamente o mistério e o valor da pessoa e de todas as coisas.

SIMPLICIDADE: É a transparência do humilde. O simples revela a força do humilde. Visibiliza aquilo que o humilde esconde, mas de um modo discreto. É gritante, mas não gritado. É a emergência do húmus. A simplicidade se apóia numa experiência profunda de vida e não precisa de publicidade. O simples é natural e faz fluir a vida. Como gosta de lembrar o Mestre Frei José Carlos Pedroso, OFMCap : simplicidade vem do latim simpliciter, pliciter, plicas = dobras, pregas. Uma saia pliçada é esteticamente linda mas difícil de lavar e de passar. Quando se cria uma dobra temos um aplique, duas dobras duplicam, três dobras triplicam...é preciso tirar as dobras, tornar fácil o caminho, afastar os obstáculos. Simplicidade é facilitar o caminho da vida; é descomplicar.

JUSTIÇA: Está ligado ao que refletimos sobre a solidariedade. É a virtude que induz a cumprir o que é reto, o que é devido como exigência de ordem e harmonia mandato. É fazer conscientemente o dever, é cumprimento, mandato. É a disposição permanente e dinâmica do bem valor. É a retidão de vida em consonância com a verdade que se abraçou.

UNIÃO: é arte de unir pedaços e moldar um mosaico que revela uma força comum. Um ícone de unidade; uma mandala de verdades unidas pelo mesmo laço. A virtuosidade vivida na união é a reunião do munus ( cum+munus ), isto é, o papel de cada um numa tarefa forte com a força de todos. É unir diferenças para criar laços, para criar um todo. A diferença é condição para criar a união. Se não houver o diferente, como criar? Não somos linha de montagem que produz tudo igual. Somos a riqueza diversificada de cada identidade que cria a unicidade.

ITINERÂNCIA: A palavra tem raiz latina iter que significa caminho, via, percurso, senda, meta, dar um passo, fazer estrada. É mobilidade, busca, dinamismo. Para a mística e a espiritualidade, tudo começa por um passo. O caminho se faz ao andar. É a mística de Santiago. É seguimento, imitação, entrar no ritmo dos passos do Valor Maior. São Francisco dizia: "A regra e a vida é esta: seguir e ensinamento e as pegadas de Nosso Senhor Jesus Cristo” ( cfr. Rnb 1) . Sempre é bom lembrar o mítico poema de Antonio Machado, poeta de Sevilha ( 1875-1939), que escreveu estes versos que estão em seu grande poema “Provérbios y Cantares”:

Caminhante, o caminho são tuas pegadas


E nada mais que pegadas;


Caminhante, não há caminho:


Faz-se caminho ao caminhar.


Caminhando, se faz caminho


E quando olhas para trás,


Verás a trilha que nunca mais


Voltarás a trilhar.


Caminhante, não há caminho,


Sobram apenas sulcos no mar”

Continua

segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 29

A Espiritualidade tem que falar divinamente do humano; falar em nome do Divino que habita o humano e que não pode ser violado, injustiçado, subornado, por nada, por nenhuma ideologia, por nenhum arranjo político, por ninguém. Ao fazer isso, a Espiritualidade presta um serviço incontestável à toda humanidade, aos humilhados e ofendidos, para que a sua dignidade e sacralidade seja respeitada. A Espiritualidade tem que acordar a denúncia profética, para que os opressores sejam julgados já na história, pela voz da própria consciência que é a voz de Deus falando e julgando de dentro dos corações ofendidos. A Espiritualidade deve ajudar a pessoa a conquistar e reconquistar a sua humanidade.


A Espiritualidade não pode falar de um Deus qualquer; mas de um Deus de nossos pais, dos profetas, de Jesus Cristo, de um Deus que não compactua com a iniqüidade. Um Deus onipotente e forte, Senhor do Cântico das Criaturas e de muita ternura para com o seu povo; um Deus que não permite que a vida seja destruída.

A Espiritualidade ajuda a voltar o olhar para o céu e encontrar ali este Deus que ensina a ver a terra, e perceber a pessoa ao lado, sofrida e necessitada. Uma Espiritualidade tem que trazer Deus das nuvens ao chão; tem que ajudar a transformar a história, reconstruir a casa, viver o Evangelho não para uma pregação piedosa, mas para uma maior humanização. O que adianta uma Espiritualidade que não se comprometa com o processo histórico de um povo? Tem que estar por detrás um processo de mudanças e não apenas livros e cheiros de adocicados incensos. Tem que ter um compromisso pela justiça. É momento de iluminação e animação de práticas e não fuga de realidades conflitivas. Do que adianta ficarmos recitando salmos, orar em línguas e cantar mantras enquanto há exploração das grandes maiorias e acumulação escandalosa nas mãos de minorias? Uma Espiritualidade não pede só a transformação da pessoa, pede também a transformação das estruturas. Ou será que a realidade não ocupou um lugar privilegiado na pregação de Jesus e dos grandes Mestres?

A Espiritualidade muda não só a consciência, mas convida à uma ação: transformação interior e a mudança do mundo. Conhecer a realidade do mundo. Conhecer para transformar. O divino, o religioso, o espiritual, o social, são dimensões que atravessam tudo. Viver é fazer esta travessia. Diz o teólogo Congar: “Nós só podemos ter a teologia da nossa própria prática”. Ser espiritual é humanizar a vida. Abraçar uma Espiritualidade é ser levado à práticas de Amor; é nascer novamente de atos concretos de Amor.

A Espiritualidade é necessária para a luta na vida e pela vida, para o fundamento das convicções. É estar entre o povo com muito amor pelo povo. Não ter só um protagonismo individual, mas um protagonismo de homens e mulheres novos. É amar o povo como se ama a pessoa amada. Construir uma sociedade melhor é refazer o sonho de Jesus: instaurar o Reino de Deus.

A Espiritualidade tem que sonhar e realizar a prosperidade. Não perder a vontade de crescer, de evoluir, de ser criativo. Ser mais, amar mais, ter mais, saber mais, multiplicar mais; sem superioridade, mas de forma compartilhada. O necessário não pode faltar para ninguém, contudo não precisamos mais do que o necessário, se não vamos comprometer o futuro do planeta e das pessoas.

A Espiritualidade faz nascer em nós uma certa rebeldia: dizer um não à domesticação, à escravidão, à manipulação, à rotulação. Precisamos ter lucidez crítica, cobrar coerência e apontar injustiças sem medo.

Enfim, existe uma Espiritualidade que brota da Solidariedade. Não temos muito que dizer. É melhor ler um trecho de uma carta de um pai revolucionário aos seus filhos: “Se sentires a dor dos outros como a tua dor, se a injustiça no corpo do oprimido for a injustiça que fere a tua própria pele, se a lágrima que cair do rosto desesperado for a lágrima que você derrama, se o sonho dos deserdados desta sociedade cruel e sem piedade for o teu sonho de uma Terra Prometida, então, serás um revolucionário, terás vivido a solidariedade essencial”.

terça-feira, 29 de novembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 28

Com Francisco de Assis aprendemos que ser solidário é a identificação com a Pobreza e com o Pobre; que ser solidário é ser irmão e irmã de todos; é ver o mundo no coração da experiência de alguém que está experimentando uma grande carência. Isto é o que transforma as práticas e o modo de estar no mundo, tornando “o amargo em doçura de corpo e alma” (Test 3).


Francisco não está preso aos projetos do mundo. Ele se recusa a ter um pensamento utilitarista, isto é, ter o melhor uso dos recursos para o melhor funcionamento dos sistemas; um processo que continua industrializando e mercantilizando mentes e corações ( cfr. o filme: “Quanto vale ou é por quilo?”, de Sérgio Bianchi). Ele é um pobre, um livre, um diferente, um irmão que mostra que a verdadeira solidariedade é apontar para a desumanidade; é notar a negatividade e as injustiças presentes nos processos sociais e lutar contra isso; é questionar as promessas que o sistema faz e não cumpre; é deixar as pessoas falarem; é educar para a originalidade; cuidar da singularidade da pessoa para que ela seja cada vez mais ela mesma e não apenas vítima; pregar e viver a sensibilidade, a fineza, a cordialidade; ser um instrumento de paz, e paz é garantir a quem precisa o melhor! Temos que perguntar: que Espiritualidade brota desta prática solidária?

Com São Francisco de Assis temos a inspiração de reconstruir e transformar, viver e praticar a solidariedade como serviço! Tudo isto gera uma Espiritualidade comprometida; reacende um modo de crer. A fé instaura a esperança de que algo precisa mudar e a esperança instaura um dever ser melhor. É sempre um projeto a ser realizado e não uma tarefa já cumprida. Dizia Francisco, pouco antes da sua morte:  “Irmãos até agora nada fizemos, vamos recomeçar!” Nós precisamos ter fé no Deus da Vida e na vida que precisa de cuidado para poder mudar, ultrapassar, transcender e transformar. Crer não é dominar a vida, mas servi-la! Mostrar que as misérias não podem ficar paradas no absurdo. É preciso instaurar a dinâmica da Utopia (não entender utopia como fuga da realidade), a linguagem e a prática do princípio-esperança do dever-ser. É a capacidade humana de poder contestar, transgredir, estar além de qualquer situação que é dada. É a proclamação e a realização de uma promessa orientada para um cumprimento: atravessar desertos e chegar à Terra Prometida. A Espiritualidade não quer a vida, quer a Vida Eterna; não quer o amor, mas o Amor sem fim; não quer isto ou aquilo, quer Tudo, quer o melhor!

Continua

terça-feira, 22 de novembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 27

Na sua origem, o Projeto Franciscano, teologicamente é centrado na Encarnação, na Paixão e na Eucaristia. A Encarnação é um Deus que vem morar junto, é humano, é carne da nossa carne, é raça, é Filho do Homem, é um atencioso, pleno de cuidado e solidário. A Paixão mostra que a Cruz não é fim; é fonte! Fonte de capacidade do Amor se entregar até as últimas conseqüências. Morrer prometendo ao contrário o paraíso e arrumando uma Mãe para o discípulo e para o mundo. A Cruz fala em meio a enigmas, entregas e incompreensões, mas sempre fala e manda reconstruir! A Eucaristia lembra, cada dia e em todos os lugares, a partilha, o fortalecer a caminhada, o dar um pedaço de si, revelando nele a própria natureza, alimentando de um Deus que se faz humildade e comida para tocar o humano nas suas entranhas. É fazer-se inteiro em cada pedaço! A Eucaristia faz ir para a mesa quem mais precisa.


Francisco de Assis ensinou a solidariedade através do Cântico das Criaturas, isto é, a destinação universal de todos os bens, a fraternidade universal e o universalismo fraterno. O Altíssimo Onipotente é sempre um Bom Senhor, o Sumo Bem, é o Deus de nosso coração que nos convoca a um Amor Universal, inaugura a fraternidade e a solidariedade de todos os seres, de todas as criaturas, de todas as pessoas. Todo ser criado nos remete à fecundidade social do amor. A verdadeira fraternidade humana se ampara na comunhão de valores e de bens fundamentais para a vida: a terra, a água, o ar, o fogo, a luz, o verde das plantas, a habitação, o mundo limpo e bonito, partilhado e cuidado para oferecer a todos as melhores condições de viver. Ao dividir tudo isso, conquistamos a verdade, a justiça, o amor, a solidariedade, a liberdade, a mais plena comunhão de bens e de dons.

Com o Projeto Franciscano, aprendemos que solidariedade é energia de amor e generosidade, que é busca incansável do bem, do dom de si à fraternidade humana; uma atitude permanente de renúncia e serviço; de gerar recursos para viver e trabalhar em benefício de todos. Aprendemos que pobreza não é contrária ao sonho de ter, nem a angústia de não ter, mas é gerar recursos, trabalhar e dividir com todos. Aprendemos que obediência é atitude constante de escutar o Amor e dizer: “De boa vontade o farei, Senhor!” e, a partir daí, ter paixão na vontade e nos projetos. Aprendemos que a pureza de coração é epifania de um amor solidário e universal.

Continua

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 26

SOLIDARIEDADE: Francisco de Assis agrupou pessoas para viver com elas valores enraizados no Evangelho e no sonho da Fraternidade. O grupo primitivo de Francisco não passou despercebido porque teve um modo original de se expressar socialmente: viver simples, vestir-se simples, estar entre os simples, cuidar dos chagados e ajudar camponeses. Seus primeiros companheiros e pouco tempo depois, Clara de Assis e suas companheiras que se ajuntaram a eles, vieram de várias categorias sociais; mas o seu propósito tão claro, criou uma única classe humana: a dos que fazem o Amor ser realmente amado! Escolhem a itinerância e a contemplação como um modo de vida e isso os ajuda a viver o desprendimento, a mobilidade, o privilégio de não ter privilégios, a liberdade, a igualdade, e uma prática da caridade que garante a realização do Evangelho e uma visão de mundo muito sensível. Este grupo, sem usar este termo, viveu a solidariedade como a fecundidade social do amor.

Fazem a experiência de dar e receber; a experiência de esmolar; e a esmola não era só o que se recebia como doação ou que se oferecia prodigamente, mas era, sobretudo, estar no lugar onde estavam as necessidades dos doentes e leprosos, dos pobres e fracos, dos mendigos, dos lascados, dos excluídos, dos irmãos e irmãs, da gente marginalizada e desprezada. Aqui começa, para esta fraternidade, a primeira prática solidária: o que eu tenho eu dou, porque é preciso viver não para si mesmo, mas em favor dos que necessitam; e viver era suprir, oferecer, estar junto dividir, providenciar o necessário (cfr Rnb 9). Assim cresceram eles e todos os que participavam deste modo de ser, pois quem vai ao encontro da necessidade alheia devolve à pessoa a sua beleza e dignidade.

Porque decidiram viver nas ruas e pelos caminhos Assis, pelas estradas da Úmbria e do mundo, da portaria do mosteiro de São Damião para todas as portas abertas das necessidades sociais, perceberam os malvistos, os malcuidados, os mal educados, os banidos e os que são vítimas de preconceitos de castas e credos. É assim mesmo! Quem decidiu seguir as sendas de Jesus Cristo, consegue ver melhor o faminto, o preso, o nu, o sedento, o pequeno, o sofrido e o paralítico. Não tem como não filtrar tudo pelos olhos do Evangelho e suas práticas.

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quarta-feira, 9 de novembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 25

GENEROSIDADE: É a ação baseada em valores já trabalhados a partir do nascível, isto é, da boa educação recebida desde o berço e que continua gerando muita disponibilidade. É estar sempre disposto, bem preparado para fazer o que deve ser feito com qualidade. Este preparo vem da terra da própria formação pessoal, familiar e fraterna. Com naturalidade e iniciativa faz com espontaneidade e segurança.


DIÁLOGO: Através da palavra, da comunicação, através da fala e de uma grande capacidade de escuta, entra no mundo das idéias num intercâmbio de compreensão. O diálogo recupera uma fala e uma escuta terapêutica: faz bem e permite atravessar os medos e incertezas. Dialogar é também saber silenciar. O falar e o pensar têm muito a ver com o silenciar.

PERSEVERANÇA: É a tenacidade dos que não desistem nunca. É manter o ritmo da persistência na busca apaixonada em atingir uma meta. É não se entregar jamais! Esta virtude tem a ver com o heroísmo, que é feito da busca incessante, da pertinácia incansável daqueles que não param à beira do caminho. É permanecer no sonho. Como diz Walter Hugo de Almeida: “ Somente os que acreditam na verdade dos sonhos é que chegam à vitória”

SENSIBILIDADE: É o esprit de finesse, isto é, o espírito de plena atenção, fineza e cuidado. Colocar todos os sentidos para perceber a vida e os detalhes da vida. Não deixar nada passar despercebido. Afinar o espírito pra ver, sentir exercitar a atenção constante. O franciscanismo (cfr. "O Belo e o Bom") nos ajuda a criar uma estética de muita sensibilidade, isto é, de ter gestos de leveza, delicadeza, sutileza nas atitudes e relações. Uma grande sensibilidade para com as pessoas, para com a vida e para com todos os seres.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 24

DISCIPULADO: A tarefa do discípulo é estar aos pés do Mestre. O discípulo é aquele que está sempre num contínuo aprendizado; é tarefa para toda vida, é o eterno aprendiz. Aprender vem da raiz latina discere e daí derivam as palavras discípulo, discipulado, disciplina. Estar aos pés do Mestre e escutar seu ensinamento, escutar a sua palavra e ampliar. Afeiçoado ao Mestre experimenta o seguimento e a imitação. O discipulado traz as virtudes do respeito e da reverência. Diante do Mestre reconhece a sua originalidade, a sua autenticidade, a sua coerência e se sente cativado por ela. Dá um sim de absoluta confiança. Não arrisca a vida por qualquer coisa, mas pelo direcionamento positivo do Mestre. O discipulado é a virtude que traz constância, firmeza, perseverança na busca, tenacidade. O discipulado reencanta a obediência como precisão da vontade. Obedecer é descobrir um grande valor, é compreender a própria vida à luz de uma grande convocação, é interpretar a lógica de amor nos detalhes da vida, é discernimento, é agir criativo.


O discípulo não mede esforços para estar junto ao Mestre e aprender. Diz Hermógenes Harada: “O discípulo busca ter grande desejo e se engaja na obra discipular. O discípulo, quando quer, uma vez decidido, imediatamente, simplesmente faz. Querer é fazer. Ele não diz querer é poder; diz antes, humildemente: querer é fazer. Mas pode fazer tudo o que quer? Sim, mas da seguinte maneira: realiza a obra, muitas vezes pequenina, o que pode, o que sabe e em grande desejo o que não pode. (...) O grande desejo significa aquela abertura na reverência e positividade absoluta à tarefa proposta. É uma postura na qual jamais está em jogo ou em dúvida a decisão de gostar, admirar, querer, de se empenhar para conseguir. Esse grande desejo garante de antemão a continuidade do trabalho, a ausência do desânimo, a eliminação, a imunização contra a toxina do ressentimento e frustração por não progredir ou não poder gozar de imediato o fruto desejado. A dinâmica do grande desejo, o discípulo cultiva sempre de novo, olhando com grande desejo o fim, se afeiçoando cada vez mais a ele, e então, a partir desse esquentamento, faz a obra do que pode fazer. Concentra toda a energia acumulada no grande desejo para descarregar a energia infinita na pequena obra bem finita e determinada da hora presente, como se estivesse realizando a maior obra. Busca, pois, o infinito no finito e encontra o finito como infinito.”

Diante da convocação do Crucifixo de São Damião, Francisco de Assis responde: “De boa vontade o farei, Senhor!” ( LTC 5,13). No discipulado é essencial apresentar-se com boa vontade. Aqui, a vontade é enraizada na vontade do Mestre, é a vontade obediente, aberta, disposta, vigorosa, animada. É deixar fluir na própria vontade a vontade de Deus. A boa vontade traz o cultivo das virtudes da humildade, docilidade, fortaleza, paciência, tenacidade, resistência. Esta boa vontade gera uma forte espiritualidade como aquela espiritualidade que nos deram Domingos, Inácio, Teresa, Francisco, os mestres do seguimento.

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terça-feira, 25 de outubro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA - 23

É preciso cuidar de escutar sempre a voz interior! Há uma convocação para existir! Ser atravessado por esta grande convocação, ser atravessado por uma presença. Ser atravessado por esta presença que me diz que eu tenho que fazer na vida algo de muito grande, que ninguém pode fazer por mim. O modo de amar de cada um não é igual ao do outro. A água molha todas as flores, mas cada uma nasce com a cor e o viço próprio. Esta convocação para amar já é um caminho espiritual. “Francisco, vai! Reconstrói a minha casa!” É a escuta da voz interior. É a revelação de um fazer a partir da mais profunda identidade. Quem vê o rio tem que perceber a presença da fonte... e quem me vê, quem vê o meu ser...vê o quê?


É preciso cuidar das qualidades das relações. Na qualidade da relação existe uma revelação. Cuidar da atenção, ser muito presente, ser muito perceptível, muito atento. Nutrir-se do aqui e do agora, ser sempre um ser de encontro. Cuidar da utopia humana, cuidar do humano pleno. Refazer a experiência de Jesus, Francisco, Clara. Eles são seres que dão testemunho de uma plenitude e nos ensinam que nós podemos aprender e evoluir. Nos ajudam a identificar-se com o melhor e ser tudo o que pudermos ser para atingir o melhor... e não descansar. A verdadeira transformação só é possível quando você se torna quem você é! Isto é relevante para a vida humana. Cuidar nos ensina a ver para além de nós mesmos, nos ensina a ver a vida em suas relações espirituais, afetivas, sociais, políticas e profissionais. É uma ação de envolvimento de pessoas, uma reciprocidade ativa. É comunhão, inspiração para relações fraternas... enfim, cuidar é elevar a qualidade de vida. Cuidar é transformar! É fazer surgir um novo ser humano. (cfr. Boff, Leonardo, Saber Cuidar, Vozes, Petrópolis, 1999. Leloup, Jean-Yves, Uma arte de cuidar, Vozes, Petrópolis, 2007).

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sábado, 22 de outubro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 22

O que precisamos cuidar? Em primeiro lugar precisamos parar de trabalhar exageradamente com a nossa negatividade. Parar com este discurso de jornal televisivo de que tudo está ruim: a vida, a conjuntura, as relações, o mundo, as coisas, as pessoas, a rua, a cidade, a qualidade de vida, a política, a família e a comida. Precisamos vibrar mais com a positividade, cuidar da positividade, este lado sadio da existência. Investir mais na integridade, na inteireza do ser, respirar e transpirar mais o belo e o bom (confira a reflexão anterior), deixar a boa energia passar. Evitar esta carga pesada de excesso de preocupações, doenças, anfetaminas, ritalina, receitas e queixas. Evitar as preocupações econômico-financeiras que nos levam, cada dia, às peregrinações aos caixas eletrônicos, lugar de consulta, aplicações, reservas e poupanças. É bom e necessário que isto exista, mas vamos aprender com São Francisco, ele nos ensinou que dinheiro não é para acumular, mas sim para cuidar da vida.


Precisamos cuidar do afeto. Não reprimir o afeto, o amor, a ternura. Muito cuidado com discursos religiosos que reprimem o afeto! Religião que diz muito não é sadia. Condenar o afeto é reprimir o Amor. Precisamos ter o cuidado de não impedir o desejo de ser melhor, o desejo de plenitude, o desejo das bem-aventuranças. Estar sempre ao lado da vida para vencer o medo da morte. Vencer os medos é escutar mais os desejos do coração. É preciso cuidar do sentimento. Cuidar de fazer fluir o amor que se direciona para algo, para alguém, para um grande projeto de vida. O que passa pelo coração, naturalmente e necessariamente, se transforma em amor. Isto nos leva prioritariamente a cuidar de alguém. Cuidar do que é humano, são e santo. Não separe o humano aquilo que Deus uniu. E o que Deus uniu? Humano e divino, espírito e matéria, efetividade e afetividade.

É preciso cuidar do emotivo e do afetivo; mergulhar na sensibilidade. Não pode faltar o Bem Amado, a Bem Amada como razão da existência. “Só o Bem Amado dá sentido à vida. É melhor viver no inferno com Ele, do que no céu sem Ele. Ele é o Bem, todo o Bem, o Bem Universal, a plenitude do Bem. Ele é a força propulsora, a atração enamorante, o êxtase transfigurante e mortal. Ele é a vida e a morte, a dor que vale a pena ser abraçada, o caminho que tem que ser seguido. Ele é a palavra que sustenta a fé, o móvel que nos descentra, a voz que nos chama. Por causa d’Ele, a lepra é doçura e o deserto um desafio que esconde uma terra prometida. Ele é tudo!, como diz Ângelus Silesius: “Ele é verdade e palavra, luz e vida, alimento e bebida, caminho e peregrino, porta e repouso, bastão, luz, brinquedo, pai, irmão e filho, mãe e namorada, esposa e filha. Ele é genuflexório, onde nos ajoelhamos para adorá-lo. Ele é a familiaridade que buscamos e a identidade mais profunda que temos e somos. Ele só é atingido quando não somos mais nós que vivemos, mas quando Ele vive em nós. O nosso eu é Ele e Ele toma o lugar do nosso Eu, marcando-nos com as chagas de seu intenso Amor”.
 
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sexta-feira, 21 de outubro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 21

CUIDADO (o Saber Cuidar): É uma virtude que está sendo resgatada. Nunca se falou tanto de cuidado. A luta hoje é resgatar o cuidado. O cuidado é fundamental para que possamos elevar o nosso patamar civilizatório. A essência do humano não está na razão, na técnica, na inteligência ou na capacidade de criar condições materiais para a subsistência. A essência do humano está no cuidado. Se o ser humano não cuida da vida, a vida não subsiste; a falta de cuidado leva sempre a grandes crises. Se começamos a cuidar, tudo começa a dar certo. O cuidado traz as virtudes essenciais da caridade, da solidariedade, da hospitalidade, da cortesia, da generosidade, fraternidade, gentileza, reverência, respeito, sensibilidade e a vassalidade (o ser serviçal). A estrutura básica do humano não é a razão, mas o afeto, antes da razão vem o afeto e o afeto é fundamental para o cuidado.


A nossa contemporaneidade beatificou e santificou duas heroínas do cuidado: Madre Tereza de Calcutá e Irmã Dulce da Bahia, que cuidaram da vida moribunda da rua. Governos cuidam de bancos, empresas, grupos de interesses, mas não cuidam de pessoas. Querem a obra social, mas não querem o doente, o mutilado, o fétido, o sem-nada. Escolas cuidam de preparar para o mercado, mas não cuidam da solidariedade. Igrejas cuidam do status hierárquico, da precisão litúrgicas, das pompas cerimonialísticas... e a pessoa, a pessoa é prioridade para estas grandes instituições que existem com a única finalidade de cuidar do humano? Quem quer o detalhado espírito de fineza e sensibilidade? Temos que voltar a pensar, procurar e imitar as figuras exemplares da sociedade que nos testemunharam um total cuidado pela vida em todas as suas dimensões. Hoje, buscamos muitas terapias para curar, erradicar, sanar, mas temos que estar ciente que a única forma de cura é cuidar; esta é a grande clínica do humano, a clínica do coração e do afeto.

Francisco de Assis viveu há 800 anos e é sempre novo. Por quê? Porque foi o homem do enternecimento, da aproximação com o excluído, da ternura e vigor, da paz, da valorização de cada detalhe da natureza, de não perder nunca a sua humanidade e transformar em prece a sua alma: Meus Deus é meu Tudo! Fez de cada ação um projeto infinito, no simples, no modesto; no humilde fez aparecer o grande. Nós, modernos temos muito que aprender com ele. Nós, herdeiros de uma cultura que tudo materializa e tudo vende, entregamos o espiritual para as religiões. Ele entregou o espiritual para a louvação de todas as criaturas, colocou o espiritual presente em tudo, mostrou que o universo está empapado do Espírito do Senhor e, por isso, não pode ser maltratado. Mostrou para nós que religião, mais do que professar é sentir, como diz uma paradigmática canção franciscana: “Doce é sentir, em meu coração, humildemente vai nascendo o Amor... doce é saber, não estou sozinho, sou uma parte de uma imensa vida...”. Em tudo, Francisco de Assis redescobriu a grande fraternidade universal e o universalismo fraterno e recriou o mundo com o Criador. Ele nos inspira a cuidar da vida em seu todo, a cuidar da natureza. Isto não é apenas um gerenciamento racional e sustentável de recursos da natureza, mas é o modo de relacionar-se com a natureza, o modo de relacionar-se com a realidade total da existência: o físico, o mineral, o vegetal, o biológico, o animal, o consciente, o espiritual..., onde tudo nos irmana, tudo se integra, nada se separa. A vida é uma rede de relações; nada existe fora disto. Se não cuido desta integração posso esfacelar a vida. O cuidado pela vida carrega uma promessa, um futuro. Deus mesmo nos ensinou o universo das relações cuidadosas, e o amoroso cuidado por todos os seres. Ele mesmo é uma fonte originária (Pai e Mãe), que está acima de nós com a sua fontal presença. Ele está dentro de nós (numa comunhão de amor, o Espírito Santo que preenche toda a terra com seu sopro criador e renova todas as coisas); Ele está ao nosso lado na irmandade, consanguinidade e fraternidade filial (o Filho). Cuidar é não separar fé, natureza e universo, cosmo, planeta, terra e espécie humana.

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quinta-feira, 20 de outubro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 20

É perceber que a transparência é carisma maior. Ser uma pessoa verdadeiramente espiritual é a maior evangelização, a maior missão, a maior pastoral que existe. Ele é o que é! Onde passa, toca, fala e acolhe, ali nasce alguma coisa. Ele é o santo do Amor, da paz, da convivência. Ama intensamente e deixa que o Amor viva intensamente nele. O Amor se fez forma nele e o estigmatizou. Ele incorporou todos os dons que um humano pode receber do Divino.


As imagens, quadros e esculturas sobre Francisco querem dizer o quê? Elas são uma constante recordação de que precisamos, cada dia, encher a nossa vida do Belo e do Bom. Ele é uma coisa boa de se ver! Olhar o santo e encher-se de graça. Não é a adoração de um ídolo, mas é abraçar um modelo referencial de grandeza. São Francisco desejou ardentemente fazer o bem. Quem faz ardentemente o bem em vida continua fazendo o bem após a morte. Quem ama intensamente sempre se eterniza em todas as representações. Quem não vive para si mesmo ultrapassa a barreira do tempo e se atualiza numa obra perene.

Ele teve a firme e forte vontade de realizar tudo o que queria, por isso permanece. Ao vê-lo, nós refazemos a nossa vontade, às vezes tão fragmentada. Olhamos para ele para cuidar do Espírito. Hoje, o mundo das agências de top models olha para a representação humana para cuidar de quê?

Francisco transmite uma energia divina vivendo no humano. Ele é a expressão simples e reveladora da pureza de coração, da mansidão, da fortaleza, do amor fecundo. Ele é uma sensibilidade suspensa no ar, numa vitalidade que transparece. Num coração aberto para o Absoluto, o Pai sempre deposita sua beleza. Os artistas captam isso com mais facilidade e mostram que o espírito sempre trabalha na imagem. Não seria este o segredo de tantas representações? Quem vê um belo panorama se enamora, se encanta...Se nos colocarmos diante do vazio, como apaixonarmos?

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quarta-feira, 19 de outubro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 19

O invisível e o visível, a essência, a medula, a profundidade tomam forma, quantidade, cor e qualidade. Sai de si e atinge o humano. Como um ato amoroso da vida toma forma num corpo. Torna-se figura, imagem. Como? Com o vigor da simplicidade, da transparência. Para isso é preciso saber sentir, escutar e ver. Sensibilidade à flor da pele, a Palavra nos ouvidos e a Imagem nos olhos. Perceber e amar. Escutar e crer. Ver e professar. Disto surge uma bela e boa espiritualidade. Para o franciscanismo ver, falar e escrever e igual a pintar. As virtudes do belo e do bom nos fazem artistas que esculpem e pintam o mais belo quadro da Paisagem do Humano e da Paisagem do Divino. Somente assim a palavra ressoa e refulge, encarna-se, plastifica-se. Somente assim podemos compreender Francisco, o canto das criaturas. Francisco não quer possuir as criaturas, mas cantar o valor e a beleza que elas possuem. É a arte de conhecer e reconhecer os dons e as virtudes da existência. Reconhecer é fazer então uma nova criação. Recriar com o Criador. É perceber que o Belo é alegria e o Bom uma sabedoria criadora; enfim, é ver todo o criado impregnado de Beleza. Para o franciscanismo, o humano é a sinfonia de Deus e por isso deve conquistar a harmonia espelhando-se na harmonia do natural.


Quando alguém é unificado por uma intensa experiência afetiva e espiritual torna-se uma fonte. O movimento franciscano, que brota da estética do belo e do bom, tem sua base em alguém: a experiência concreta e vital de Francisco de Assis, um homem de coração enamorado pela vida e pelo Deus da vida! O seu forte amor progressivo e cheio de energia faz com que ele e seus seguidores e seguidoras tornassem criadores e criativos. Daí surge uma arte de viver. A fonte da Arte Franciscana é a paixão. O apaixonado é sensível, antenado, real e contemplativo. Escolhe o natural e transforma o natural numa linguagem. O natural sempre nos atinge e nos refaz. Existe a Beleza do Simples? O que é a Beleza do Simples? É descobrir e fazer aparecer o modesto em sua força. Uma fragilidade que é potência. A grandiosidade da vida, do mundo e das pessoas só é dada para quem tem os olhos voltados para esta Beleza.

Queria abrir, neste ponto da reflexão, um fato que a meu ver é um fenômeno que vem do Belo e do Bom. São Francisco é o santo mais representado na iconografia. Podemos ir muitas feiras de artesanato, em lojas de artigos para presentes, em loja de antiguidades e outros objetos de decoração, em lojas de artigos religiosos, em bancas de artistas autônomos e anônimos, em galeria de artes e em muitas exposições de pintura e escultura, sempre estará ali uma imagem, um quadro, um banner, um pôster, um arranjo com São Francisco. Muitos artistas, religiosos ou não, o moldam e pintam. Por quê? Será por que há estudiosos do fenômeno religioso que o apontam como o maior herói religioso depois de Jesus Cristo? Ou porque ele é um arquétipo humano, o melhor de nós, uma expressão cristalina das virtudes que sonhamos, o humano divino que gostaríamos de ser. Ele, no seu modo de ser natural, foi pródigo, nobre, jovial, cordial, magnânimo, penitente, generoso, amigo, cavaleiro, terno e fraterno. Criou uma revolução de amor e, por isso mesmo, tornou-se um reformulador social e eclesial. Permanece para sempre nas representações da humanidade porque tinha consciência historial, vive intensamente a sua época e mostra algo de novo para o seu tempo. Um homem cheio de encontro, de amor, de brilho, sem cair no pieguismo. Para o povo e para os artistas, ele é a visualização das virtudes que gostaríamos de ter e que podemos ter. Ele é a teologia da imagem. O que é a teologia da imagem?

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terça-feira, 18 de outubro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 18

BELO, BOM, BONDADE: O grande mestre de Paris, o franciscano Alexandre de Halles, sintetiza esta força virtuosa criando a reflexão sobre o Belo e o Bom, a estética franciscana. O que é o belo e o bom? Ele mesmo, entra no hábito franciscano, vai para dentro da academia com os pés descalços e o máximo despojamento, na fluência da transparência do simples e natural. Ele diz que o belo e o bom revelam grande expressividade da mística da Encarnação: o Deus Humilde aparece na beleza da Criança, na tecitura da bondade. É a redescoberta do que a vida tem de melhor: convocação divina e convocação do amor! O Belo é o transparente e o transcendente, o Uno e o Vero. O Belo é sempre percepção, chamado, apelo, um grito para perceber o real, o palpável, o sensível. Não podemos estar no grito de abandono de todas as coisas, é preciso vê-las, percebê-las, senti-las. A forma do Belo (ver a Beleza de tudo o que é ), torna-se amada e imitada, cria o discipulado e arrasta. Não basta só um entusiasmo inicial, é preciso um dinamismo constante, um impulso de vida exercitado na convivência com o valor de todas as coisas. Quanto mais você entra neste dinamismo, mais se torna vivaz (percebe a vida que está dentro) e mais a vida floresce; então se descobre a arte da vida. O que é a Arte, ou melhor, a virtuosidade da Arte? É ser um artista da vida. O artista é aquele que vive imerso nas estruturas da vida e nelas coloca a sua profundidade, a sua interioridade, a sua sensibilidade. Neste sentido, é preciso, ser, ter, fazer e conhecer a arte para se ter um projeto de vida.


O franciscanismo é um modo místico, espiritual, existencial, cultural e sensível de estar na vida. Não é só aplicação técnica de uma filosofia de vida ou postura de vida, mas é saber que a vida é Arte Divina e Arte Humana, é Lógica de Amor, isto é, um grande encontro entre a inspiração, o sopro, o hálito que dá vida a tudo com o Humano, com o Divino e a Fraternidade. A partir daí, o belo não basta, é preciso ser bom.

O que faz a pessoa bonita é a Bondade. A bondade é uma virtude; e a virtuosidade, como um conjunto de virtudes, é a beleza maior e a mola propulsora de todos os gestos de amor e cuidado. O que faz o mundo bonito é a bondade esparramada de todas as coisas: “Louvado sejas, meu Senhor, pela Irmã Água que é mui útil, humilde, preciosa e casta”.

A fecundidade da vida vem deste movimento. A terra boa é o coração belo e bom. Esta é a síntese da perfeição. O belo é a expressão natural e perfeita do bem. O bom é a plenitude da caridade. Francisco viveu esta experiência. O mestre da Paris escreve e impulsiona esta reflexão. Alexandre de Halles descobre a filosofia franciscana da Beleza como difusão do Bem: esta é a verdadeira estética do Simples.

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segunda-feira, 17 de outubro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 17

Por que virtudes tipicamente franciscanas? Por ser o modo, o ponto de vista, ou melhor, o ponto de partida, da aventura do Espírito para elucidar o sentido da vida. É o dever ser, a força ética, o jeito próprio de morar e reconstruir a moradia. O “ethos” franciscano tem um jeito típico de educar, disciplinar, cultivar uma identidade sonhada. É o “eu devo”, “eu posso”, “eu quero” percorrer um caminho virtuoso. “De boa vontade o farei, Senhor! ( LTC, 13). É formar-se, de olho nas Fontes Franciscanas e Clarianas, perceber a força que deu qualidade a um grupo humano nobre, fraterno, humano e divino ao mesmo tempo. Elas brotaram da verdade de quem olhou as manifestações do Espírito, abraçou como comprometimento a Boa Nova, as virtudes do Evangelho, Jesus Cristo, Francisco de Assis, Clara de Assis e a essência do humano que daí se revela. Melhorar o humano é entrar numa escola de virtudes e dar um acabamento melhor ao humano, experimentando o que a experiência franciscana traçou e viveu como projeto de vida. Nem sempre sozinho conquisto uma identidade; mas é a tarefa de refazer a boa caminhada de muitos.


Vamos elencar Algumas Virtudes Tipicamente Franciscanas:

MINORIDADE: É a renúncia do status de quem tem, pode e sabe. É não apropriar-se do próprio poder, mas conviver com a força de tudo e de todos. É a renúncia da superioridade. Se o mar, vindo da potência de sua interioridade, não tivesse a coragem de morrer mansamente na praia, não haveria o espetáculo das ondas, não haveria a magia da praia. Muitos ligam a minoridade à pobreza, ao desapego, a desinstalação. Isto á apenas uma natural consequência, uma irradiação do ser menor. A minoridade é um modo de ser, uma forma de vida. É a conformidade com a grandeza e onipotência de um Deus que se revelou na simplicidade de um Menino.

Um Deus, que no seu amor tão grande Encarnou-se em Jesus Cristo e experimentou estábulo, manjedoura, fuga para o Egito, ceia, lavapés, colocou o coração divino nas mãos, nos pés, nas palavras e se misturou na paisagem do humano. A minoridade remete à vassalidade, ao serviço, ao ser servo. Na Carta aos Fiéis, 47, diz São Francisco: “Nunca devemos desejar estar acima dos outros, mas antes devemos ser servos e submissos a toda humana criatura por causa de Deus”. É não usar o cargo como cargo de mando, mas de serviço prestado por amor. Ser menor é amar com um amor que não faz acepção de pessoas. Ama a todos incondicionalmente, ricos e pobres, bons e maus, fracos e fortes, amigos e inimigos, simpáticos e antipáticos. Ser menor é não querer estar acima dos outros ou acima de tudo, mas testemunhar uma presença silenciosa e amorosa.

A minoridade é a humanidade da Divindade . É ver a gritante simplicidade como Deus ama e, sob o filtro do Evangelho, amar assim do jeito do Deus de Nosso Senhor Jesus Cristo. A minoridade é a consciência e a afirmação do ser criatura. Ser pequeno diante da grandeza de todo ser criado, ser irmão e irmã de toda família criatural, estar num perene estado de gratidão e graça. É como o primeiro e remelento olhar de criança se abrindo ao mundo num encontro de brilhos. A minoridade é fé; não no sentido de conjunto de doutrinas para se crer, mas como admiração, enamoramento, abandono ao colo da vida. Ver todas as coisas com olhar de poeta e sentir-se um nada diante da grandeza de tudo.

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segunda-feira, 10 de outubro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 16

Na passagem entre a era industrial e a época pós moderna, pessoa virtuosa era considerada aquela que tinha ares e práticas consideradas piedosas e beatas. Hoje, destina-se e molda pessoas de beatitude, isto é, pessoas realizadas, felizes, vigorosas, éticas, modelos vivos, engajados em causas nobres da contemporaneidade. Hoje, pessoa virtuosa é aquela que está no empenho e desempenho de superar-se. Diz Mestre Eckhardt (1260-1327): “O humano não deve achar sua obra boa, por melhor que ele a tenha executado, a tal ponto de se sentir nela à vontade e assegurado de si. Pois, se tal acontecer, a sua capacidade de captar, a sua razão se tornará preguiçosa e adormecerá. Antes, deve continuamente se levantar, erguer-se, com ambas as forças de seu ser, isto é, com razão e vontade, e neste alçar-se, agarrar o melhor de si, a sua identidade, no mais alto grau. E, com cuidado e ponderação, precaver-se, por dentro e por fora, contra toda e qualquer falha nessa ação. Se assim o fizer, ele jamais perderá o ser em nenhuma coisa; antes, crescerá sem cessar em alto grau” (Meister Eckhardt, “O Livro da Divina Consolação e Outros Textos Seletos”, Vozes, Petrópolis, 1991,110).


Voltemos ao tema das Virtudes tipicamente Franciscanas. O mundo de seguidores da vida franciscana tem como modelo São Francisco de Assis, um homem virtuoso. Ele mesmo personalizava as virtudes, por isso as chamamos tipicamente franciscanas. Diz o grande historiador Jacques Le Goff: “(Francisco) revela a profunda marca de um amor cortês que confere admirável expressão aos sentimentos do santo por sua dama, a Senhora Pobreza, e ao seu 'amor intenso e genuíno pelo próximo', sem falar da 'cortesia fraterna' em relação a toda criação, inclusive 'nossa irmã Morte corporal', dádiva graciosa de um senhor em quem se encarna um ideal feudal interiorizado em termos de família, pai, mãe, irmão, irmã...” (in Frugoni Chiara, “Vida de um Homem: Francisco de Assis”, Companhia das Letras, São Paulo,2011, 12.)

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sexta-feira, 7 de outubro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 15

Chegamos num ponto de nosso percurso onde vamos tratar das Virtudes tipicamente Franciscanas. Já refletimos, preparando esta parte, sobre a Virtus in medio. Esta expressão vem de um ditado latino, muito em evidência no período medieval, que significa: a virtude está no meio.

Meio, aqui entendido como ponto de equilíbrio, a força que vem da harmonia. Um processo que inspirava os penitentes de então: a contínua eliminação de excessos para chegar à medida exata do coração, e com serenidade, superar as vicissitudes e perturbações. É como diz Hermógenes Harada: “Há a versão “soft” e a versão “hard” dessa harmonia preestabelecida. A “soft” diz que a pessoa virtuosa é sem tribulações e contrariedades. Sem cortes abruptos e sem pôr limites bruscos na sua personalidade. É como as águas mansas de um lago sem ondas. Está no gozo da harmonia perfeita, natural. Nela, dificuldades e desgastes, suores e sofrimentos do árduo mourejar estão superados e não podem existir. É a serenidade das águas mansas. A versão “hard” diz: o virtuoso é um lutador. Deve ser firme, impávido, estóico, imutável e disciplinado. Domina soberano todas as suas paixões. É senhor de si e das situações. É a fortaleza das rochas no meio das águas impetuosas”.

O caminho das Virtudes tipicamente franciscanas passa pela busca incansável dos dons e frutos do Espírito, pelos Conselhos Evangélicos, que são tantos, mas intensamente convergentes nos três conselhos que se tornam Votos: Obediência, Pobreza (sine proprium) e Pureza de Coração; e tem muita inspiração nos votos cavaleirescos. Se a força do Movimento que nasce naquele momento e move Assis, transforma-se em Ordem e abala o mundo, foi um caminho de virtuosidade, e que bebeu em seu tempo os anseios por uma qualidade humana; hoje também estamos numa época, em que na moral, na ética, na teologia, na espiritualidade, na filosofia de identidade, volta-se a falar de virtudes. Antigos tratados são retomados à luz dos desafios de novos tempos.
 
Continua

sexta-feira, 30 de setembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 14

Para aquele que recebia a investidura era exigida a conversio morum (a mudança de costumes), a prática de virtudes (confira o Código da Cavalaria que trataremos mais adiante). O cavaleiro devia ser sempre um exemplo vivo da conversão dos costumes, prática de caridade, e usar as armas a serviço dos oprimidos e necessitados, ter muita disciplina, cuidar do corpo que está a serviço da milícia.


Tinha que ter a consciência que era um peregrino neste mundo, e que precisava organizar, cada lugar do mundo, segundo sua bondade, isto é, respeitando as forças estabelecidas, organizando, mesmo nas situações mais caóticas, um modelo de ordem celeste. A cavalaria quis ser um estado superior, um modo de viver, por isso soube gozar verdadeiramente, numa imensidade jamais perdida, as coisas, os fatos e a vida. Continua ainda a atrair, continua a evocar, no sonho e no mito, e nos vem dizer que ainda existe uma tarefa para se cumprir.

Vamos, então, ao Código da Cavalaria Medieval. Ela é um conjunto de virtudes buscadas e exercitadas para criar uma prática vigorosa e disciplinada. Vejamos:

FIDELIDADE: É colocar-se a serviço de um valor maior. Ser fiel é acreditar na grandeza da escolha que se fez. Quem se entrega a algo muito grande, não tem dificuldade em ser fiel. A fidelidade leva a não arriscar a vida por pouca coisa, mas entregá-la a algo que vale a pena.

LEALDADE: É a virtude daquele que nunca se afasta do que realmente vale a pena. É a presença que acredita numa causa comum, é companheirismo, a força dos que caminham juntos nos mesmos sonhos, nos mesmos projetos.

OBEDIÊNCIA: A palavra vem do latim medieval ob + audire. Ob significa abertura, acolhida ao espírito, acolhida a inspiração, abrir todos os sentidos para perceber o valor. Audire é escutar mais profundamente, é auscultar, ouvir o que vem de dentro. Escutar um valor maior. Quem escuta a plenitude dos sentidos, quem escuta o valor maior não tem dificuldade em obedecer. Obediência é, portanto, escutar uma grande convocação, uma grande inspiração. É a capacidade de ouvir, acolher e assumir o fio condutor que aos poucos vai surgindo e moldando a vida. É ouvido e olhos bem colados na realidade.

CONTROLE DAS PALAVRAS: É controlar os exageros e excessos de palavras, blasfêmias, calúnias, juízos, palavrões, gírias, expressões muito agressivas, fofocas. É a palavra bem dita. Diz a Legenda dos Três Companheiros, referindo-se a São Francisco: “No entanto, era como que naturalmente cortês nos costumes e nas palavras, não dizendo a ninguém, de acordo com o propósito de seu coração, palavra injuriosa ou obscena; pelo contrário, como era jovem e brincalhão e alegre, propôs jamais responder aos que lhe dissessem coisas vergonhosas. Por isso, sua fama se divulgou por quase toda a província, de modo que muitos que o conheciam diziam que ele seria algo de grande” ( LTC 1,3)

VASSALIDADE ( Ser SERVIÇAL ): É servir por Amor. Não é qualquer atividade feita simplesmente por fazer, mas é ter a consciência que se está contribuindo com o Criador e seus atos de cuidado pela vida. É uma ação bem produtiva e bem atenta às necessidades do outro. Não é um fazer visando lucros e honrarias, mas é o estar voltado, gratuitamente, para a pessoa e para a vida. Não fazer por dinheiro, mas por uma causa nobre. Para Francisco de Assis, este espírito de serviço o moveu a servir leprosos e a trabalhar com camponeses. O serviço f az parte de uma mudança radical de vida, uma conversão. É ir lá e fazer junto; o estar junto com determina o lugar social que se quer abraçar e morar. Toda a ação que se faz está na dependência exclusiva de servir. É ser servo e se fazer naturalmente servo. A sua liberdade e autonomia em servir está em ser servidor de um valor maior.

NOBREZA DE COSTUMES: Este é um termo e uma inspiração virtuosa medieval que quer mostrar algo mais do que uma simples herança, um título, uma tradição familiar do assim chamado “sangue azul”. Quando se fala de nobreza, neste contexto, quer se revelar uma identidade não jurídica, mas sim uma identidade existencial, um modo de ser daquele que tem uma postura nobre, daquele que é naturalmente nobre. Não é um humano qualquer, um humano que se contenta com o banal. É algo mais forte, mais vigoroso! Possui um projeto de vida e o persegue com todas as suas forças. Quem tem claro um projeto de vida sempre tem algo a transmitir, possui um carisma, uma atração muito especial, revela um humano nobre. Afirma R. Delort: “o nobre se distingue por um gênero de vida, por uma mentalidade toda particular, por saber morar, saber vestir, saber exprimir um sentimento, por acreditar em laços edificantes, por inspirar-se em heróis e ter um modelo de vida, por saber ocupar-se, e pelo espírito de combate” ( R. Delort, La vita quotidiana nel medioevo, Roma-Bari,1989,144). Ser nobre é dar um sentido a tudo o que se faz. É não gastar ou desgastar a vida por pouca coisa ( cfr. Fidelidade, Lealdade, Obediência), é ter uma medida de grandeza. “A grandeza de uma época depende da quantidade de pessoas capazes de sacrifícios, qualquer que seja o objeto destes sacrifícios. E neste sentido o mundo medieval não está atrás de nenhuma época. Dedicação é a sua palavra de ordem! (...) Com que coisa começa a grandeza? Com a empenhada entrega a uma causa. A grandeza é uma ligação entre um determinado espírito e uma determinada vontade” ( Jacob Burckhardt ). Ser nobre é ser transparente, sereno, não agressivo, ser cada vez mais nítido e seguro naquilo que se quer.

PRODIGALIDADE: É a virtude exercitada em contraposição à avareza e a ambição. É disponibilidade para dar. Uma pessoa é considerada potente e pródiga em base do que pode oferecer. Um rei, ou um imperador, por exemplo, quando chegava num castelo, dava um banquete para todos, nobres e plebeus; a sua potência era demonstrada nesta generosidade em oferecer, e todos exercitavam a prodigalidade acolhendo o gesto, recebendo com muita abertura. É o saber receber, o que não é tão fácil assim. É um impulso de enamoramento e entrega que se precipita para fora e se desprende em direção a algo ou alguém. Para levar a termo uma entrega é preciso exercitar a acolhida. É dizer: “Sê comigo!”

CORTESIA: É a virtude mais característica do Amor Cortês Cavaleiresco. Quem viveu, conhece , lê ou assiste a realidade e a fantasia das legendas cavaleirescas conhece o reino da cortesia. É um tanto difícil dar uma exata definição de cortesia, pois é todo um vasto mundo de significados. Dante dizia “Uso di corte, quando ne le corti anticamente le virtudi e li belli costumi s’usavano” (Dante, Convívio,II,X,8). Este é um ponto de partida para a compreensão: os costumes e usos da corte para se trabalhar a virtuosidade. Isto compreende uma série de valores: lealdade, generosidade, prodigalidade, fineza no trato, atenção devota à pessoa do outro, gênio do gosto, comunidade dos que amam o belo. Cortesia não é etiqueta, nem regras de civilidade, nem manual de boa educação, mas é uma expressão insubornável de um sentimento interior; é o modo como o outro(a) deve ser amado(a) de um modo verdadeiro. É um relacionamento de respeito, retidão e sinceridade. É não se desconsertar diante de nenhuma situação ou pessoa. É acolher a pessoa na sua grandeza. É colocá-la num Acolhimento de bondade, num clima de bondade para que ela se sinta bem. É deixar transparecer uma serenidade existencial. Um tratamento seguro e amável que eleva a pessoa. É o cuidado com as palavras (cfr. acima o Controle das Palavras). Uma palavra dita de um modo sereno e humano motiva e recupera o humano. A cortesia reluz através de gestos de mansidão, fraternidade, gentileza, paciência, afabilidade e serenidade. Não esqueçam o que repetimos, como um refrão , em todo o nosso curso: uma virtude puxa outras virtudes.

PRUDÊNCIA: É agir com moderação, sem precipitação. É a pessoa cautelosa, comedida e atenta; aquela que evita ocasiões de erros. Sensatez.

CORAGEM: A palavra coragem tem raiz no latim, cor + agere, e significa agir com o coração, agir com a força que vem de dentro, buscar as forças interiores para realizar algo. A ação vem de um impulso da segurança interna. Tem o medo dominado e não precisa de subterfúgios (como armas, por exemplo) para fazer valer o seu poder e seu domínio. O corajoso é aquele que está no domínio do próprio poder.

GENTILEZA: Vem de gen, isto é, o que tem um bom gen, o bem nascido, bem educado, bem criado; tem boa verve. Faz com extrema educação.

HEROÍSMO: É a virtude do herói. Quem é o herói? O herói é aquela pessoa que, por seu conjunto de virtudes, é protagonista de atos que o transformam em melhor vencedor pelas forças das qualidades que o habitam. Passa por situações difíceis e enfrenta os limites, mas carrega isto com galhardia. É a mística da resistência. É firme, decidido, seguro. Para o herói não há indecisão, a indecisão é o espírito não amadurecido para dialogar com a vida.

SEGREDO: É o saber guardar-se. Num mundo onde somos invadidos e consumidos por todos os lados, precisamos acreditar naquilo que está oculto, naquilo que não deve ser contaminado, nem esvaziado. Não é apenas um simples esconder, mas sim deixar transparecer a força de um grande amor, de um grande projeto de vida. Quem foi tocado pelo Amor guarda segredo. Não é apenas o não contar para ninguém. É muito mais que isto! É estar sempre no apreço; é esperar alguém capaz de apreciar. Segredo é comunhão de duas almas e não o barulho da publicidade. É sintonia silenciosa e íntima. É ir à clareza de tudo o que vai se criando no silêncio e não no rumor de ser igual a todo mundo. O segredo é uma coisa preciosa, íntima, profunda. Tem que ser germinado no escondido. A terra não faz assim? Onde a semente nasce e cresce senão no escondido das profundezas do chão? É preciso ser germinado no oculto do espaço da profundidade. O segredo não é posse de si, mas é fenômeno que nasce de si; é o preparo fundamental para o social, para o público. Hoje muita gente que fracassa publicamente porque não tem o recolhimento da profundidade pessoal. Se a semente do que buscamos é grande, então é preciso nos recolhermos para a força da raiz. Quantas vezes não ouvimos esta pergunta que gerou livros, obras, filmes, teatros e ensaios: Qual o segredo de Francisco e Clara? O Amor de Francisco e Clara para com a Dama Pobreza e o Esposo Espelho é algo forte porque descreve o movimento de um crescimento secreto; quanto mais precioso, mais vai para o oculto da raiz, mais nasce, mais desabrocha. Para o mundo não deve interessar o que eles são no segredo dos dois seres sublimados e consagrados; para o mundo deve interessar o que são a partir da obra que realizaram e deixaram há 800 anos. O segredo verdadeiro é o movimento dinâmico da dimensão da profundidade humana. Ao crescer bem no particular torna-se força para o fraterno, para o comunitário.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 13

Ser cavaleiro era ter uma Pedagogia Iniciática; ser e viver em constante treinamento e aprendizado. Devia servir como um valete, um escudeiro, um noviço que preparava a ação de um grande senhor. Participar de torneios que reavivavam os sonhos de glória, desejos e esperança de um possível amor. Ter um ideal humano que atravessava a história a combater por algo que fosse bom e compensador. Ter a poesia como transfiguração da realidade sufocando a sua rudez. O tema central desta poesia era o Amor e a mulher, o assim chamado Amor Cortês, um sentimento novo, que não se baseia na atração física, nem na exaltação da sexualidade, mas que fazia da mulher uma imagem ideal. É um puro encantamento pela Dama; o feminino buscado como ideal distante, como uma afirmação de si mesmo. A Dama, a Princesa, bela e distante, é uma metáfora de busca para demonstrar audácia e valor. A mulher aparece como um valioso prêmio, representa uma união real e encarnada com os valores buscados.


Marco Bartoli nos diz: “a cultura cavaleiresca representa uma exaltação do amor e da mulher: na realidade, nas narrativas cavaleirescas, a mulher é sim, colocada como sobre um pedestal, mas quem a coloca é sempre o homem, a quem ela deve esta sua promoção (...) Se registrava uma correspondência precisa entre a vida vivida e a vida sonhada, entre a vivência cotidiana e o imaginário fantástico. As virtudes que eram exigidas da mulher eram: prudência, silêncio, discrição, humildade. Todas estas coisas que faziam uma mulher gentil, isto é, como devia ser a filha de um bom “gens”, de uma boa família aristocrática” (Bartoli Marco, “ Chiara d’Assisi, Roma, Istituto Storico dei Cappuccini, 1989, 36-39).

Os cavaleiros pertenciam a uma Ordem Cavaleiresca. O que significa a Ordem neste caso? Um cavaleiro solitário nem sempre pode manter uma mística completa. Ele precisa de um empenho de vida interior ajudado pelo coletivo. É um encontro entre o aperfeiçoamento pessoal e a força do grupo. Ordem é estar unido à uma entidade com legames sagrados, uma força comum, um espírito comum que vai tomando forma de grupo para manter, de modo comunitário, o sonho de coragem, fé e fidelidade. É viver em confrarias. Sua entrada nestas confrarias não era um sacramento, mas uma série de atos e símbolos com caráter religioso. Havia a Investidura. Pela investidura abençoava-se o cavaleiro, incutindo-lhe favores divinos, a perfeição cristã, as graças necessárias para seu estado, a missão de serviço à Deus e à cristandade.

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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Feliz Primavera!

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 12

O Amor Cortês foi a chama que acendeu sentimentos, ideias e virtudes e deu uma forte motivação para um determinado tipo de vida. O trato ascético e o animado espírito de sacrifício estão estreitamente ligados ao Amor, que, para o cavaleiro, era a transferência ética de um desejo, de um sonho, de um projeto de vida.

A necessidade de dar ao Amor um sentido e uma forma nobre encontra um vasto campo para se manifestar nas conversas corteses, nos jogos e torneios e na poesia das canções de gesta. Em tudo isto, o Amor se sublima e se faz romântico. A concepção cavaleiresca do Amor Cortês não nasce da literatura, mas da vida e do exercício de virtudes que elencaremos mais à frente. O motivo do cavaleiro e da sua dama amada estava presente nas relações da vida real. O cavaleiro é um herói por Amor e este era o elã impulsionante, primitivo e invariável, que deve sempre aparecer e retornar. Mais do que uma paixão sensual é uma abnegação ética, uma necessidade de mostrar a coragem, exibir força, expor-se aos perigos, sofrer, sangrar, passar por desafios e por grandes dificuldades. É a ação heróica cumprida por Amor. O sonho da ação heróica enche de ânimo, incha o coração de orgulho pessoal e dá vida ao amor.

O tema do herói é importante para a cavalaria. É um tema que não envelhece em toda a história da humanidade. As Legendas dos Heróis continuam atuais, os feitos inconfundíveis do herói montado em seu cavalo, armado, invencível, unindo força física e força virtuosa, o justiceiro que alia raça e bondade, doçura e ação. Quem de nós não leu ou assistiu filmes sobre o Rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda, a Busca do Santo Graal, a Canção de Rolando, El Cid – O Campeador, Don Quixote, Robin Wood, Lancelot – O primeiro cavaleiro, Os cavaleiros Nibelungos; enfim, um mundo de obras que soam como inspiração? Para as Legendas, a história da humanidade tem que ser uma história de inspiração, superação e de edificação. O herói se coloca a serviço de um ideal e nos dá meios para realizar uma tarefa evolutiva. Ele nos recorda que qualquer um pode empreender a jornada interior e assumir a tarefa de se tornar completo.

O tema da Cavalaria pode ser um tema muito questionado; mas é uma instituição feudal que permaneceu no imaginário popular e surge de vários elementos: o econômico (benefícios e privilégios), o social (vassalo, nobre, freqüentador da corte), político (o cavaleiro possuía imunidade jurídica), religioso ( a cristianização do ideal) e militar (uma nova concepção de milícia). Tudo isto gerou o miles, o cavaleiro combatente e o seu conjunto de qualidades e obrigações.

A Europa medieval é um continente que sofre por todos os lados as invasões, o assédio, as incursões dos povos bárbaros. Estes povos são dotados de grande mobilidade guerreira e de ardorosos combatentes. Isto sacudiu e desafiou a capacidade dos defensores da sociedade cristã, que perceberam que não bastava apenas a estratégia de intervir rapidamente, mas ser por demais eficientes e disciplinados. Não podemos deixar de destacar o momento onde a cavalaria iluminou-se de ideais cristãos, e os combatentes mais exaltados religiosamente correram para as Cruzadas, para a defesa da Terra Santa, para proteger peregrinos pelas terras da Síria e Palestina. Num primeiro momento temos a cavalaria como instituição guerreira contra as invasões, com forte influência cristã para transformar a força bruta em força organizada em honra e fé para manter ideais na Igreja e na sociedade. Num segundo momento temos a cavalaria aventurosa, romântica, galante e lírica; que encontra expressão de sentimento na defesa dos fracos e o culto à mulher amada, a Dama Encantadora, misteriosa e sempre distante. O terceiro momento é a decadência, uma imitação fictícia, um heroísmo cômico, uma força quase inútil.

Mas então, o que sobrou da Cavalaria? Um verdadeiro Código de Comportamento, uma ação segundo a verdade, justiça e fortaleza; sob o fundamento da reta consciência e da prática da fé. Uma inspiração para uma via espiritual, e é via espiritual porque conduz ao aperfeiçoamento, a uma qualificação interior. Deve-se arriscar a vida e absorver uma tarefa, ser uma pessoa justa, límpida, correta; o cavaleiro precisa aproximar-se da realidade, graças aos seus dons naturais ou adquiridos, ao tipo ideal codificado no mito. Não pode ser um cavaleiro verdadeiro sem ser ao mesmo tempo um asceta. Trouxe um modo de comportar-se que tornou viável a convivência entre o sacro e o profano, uma tarefa complementar. Se o sacerdote era chamado à administração dos sacramentos como reparação aos danos sofridos na via espiritual, o cavaleiro era convocado a sanar as conseqüências dos erros sob a ordem social, devia instaurar e proteger a ordem civil. O sacerdote era o guia no que diz respeito ao relacionamento com Deus; o cavaleiro procurava manter o bom relacionamento terreno.

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sexta-feira, 16 de setembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 11

O cavaleiro não é somente um célebre arquétipo de um imaginário sempre fascinante, mas foi o meio com o qual o ocidente cristão encarnou, organizou, e defendeu o próprio ideal de humanidade e de sociedade. Um símbolo vindo de longe, porém com uma orientação profunda, que ergueu uma ética e uma espiritualidade diferente daquela dos círculos eclesiásticos; pode-se dizer que criou uma moral leiga. O cavaleiro surge também como uma figura de edificação moral do combatente autônomo e do exército que servia os senhores feudais, uma afirmação concreta da cristandade entre os leigos, uma divulgação apaixonada do humano e do sagrado. Aí é que reside o seu ponto de atração ainda hoje vital; e o chamado que continua a fazer e exercitar constitui, o lado mais profundo do interesse de hoje sobre a função da civilização medieval, num tempo atual onde vivemos uma profunda e geral crise de valores e falência do caráter.

O mundo medieval tem como grande característica no campo das idéias gerais: as concepções religiosas que a tudo invadem e explicam; e, no mundo das ideais do seleto grupo da nobreza, a inspiração cavaleiresca, para reduzir tudo a um belo quadro, onde brilhava a honra e a virtude; um elegante jogo de formas nobres para criar ao menos a ilusão de uma certa ordem. Mas o que é mesmo este ideal cavaleiresco? Enquanto ideal de uma vida bela e justa, a concepção cavaleiresca tem uma característica singular: é um ideal estético na sua essência, composto de uma fantasia muito variada, plena de emoção heróica. Quer ser um ideal ético, quer valorizar um ideal de vida, colocando-se em relação com a piedade religiosa e com as virtudes vividas na nobreza, especificamente na corte. É a misteriosa mistura de consciência moral e ambição que sobrevive na pessoa humana quando já perdeu tudo: fé, amor, esperança. É aquele sentido de honra que sobrou na pessoa, e que, bem trabalhado, torna-se fonte de novas forças. Uma positiva ambição pessoal que é desejo de glória; uma vontade apaixonada de ser lembrado pela posteridade. Uma inspiração que não anda separada do culto do herói, porque a vida cavaleiresca é uma constante imitação, uma luta constante.

Piedade, coragem, austeridade, sobriedade e fidelidade era a imagem de um cavaleiro ideal. Isto não se adquiria sem certa exigência, sem um certo ascetismo. Este mundo de sentimentos ascéticos é a base sob a qual cresceu o ideal até chegar a idéia de perfeição ( per+facere ): uma intensa aspiração a uma vida bela, uma energia animadora. O cavaleiro é o representante de uma liberdade absoluta que se entrega a uma causa. Tem a coragem de arriscar a sua vida por algo muito grande na medida que a causa exige. (Esta reflexão é a síntese de um texto maior e mais aprofundado; cfr. Mazzuco Vitório , “Francisco de Assis e o Modelo de Amor Cortês Cavaleiresco”, Vozes, Petrópolis, 1994,5º edição).

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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 10

Façamos uma reflexão sobre um dos pontos deste nosso per+curso de Espiritualidade que aborda o Código da Cavalaria Medieval como uma Fonte inspiracional das Virtudes sob a ótica franciscana. Francisco e Clara de Assis viveram na época medieval, tempo este que nos revela uma nítida cultura de amor. Hoje, nós, pós- modernos, temos um velado preconceito sobre a Idade Média, que vaza para nós no redutivo conceito do obscurantismo, da idade das trevas, da inquisição ou do conservadorismo; mas vamos deixar qualquer leitura ideologicamente assim definida, e, façamos uma pergunta: tem a nossa atualidade histórica hoje uma cultura de Amor? Pois a Idade Média tinha e de um modo muito nítido. É neste período que nasce, cresce e é abraçado como um projeto de vida o Ideal do Amor Cortês Cavaleiresco. O que é e o que inspira o Amor Cortês Cavaleiresco? No meio de uma civilização rude, que conhece as batalhas, ambição, o fastígio da glória e das conquistas, o choque entre permanecer no ciclo fechado de feudalismo dominando ou abrir-se para uma nova civilização baseada nas comunas (a organização da civitas, o nascimento das cidades), entre as tensões do poder dos imperadores (que querem unir reinos) e do papado (não podemos esquecer que neste período a eclesiologia tem força de estado e pensa como os impérios ); em meio a toda esta ebulição vai surgindo uma nova linguagem, um novo costume, um sentimento novo, um novo código de comportamento.


O que a sociedade pós- moderna de hoje tem a ver com a medievalidade ainda tão atraente? Por que ela continua a revelar uma originalidade, uma civilização que traz evidente modelo de vivência que pode iluminar e elevar o nível da civilização atual tão carente de modelos de grandeza? A Idade Média, esta época da história tão rica de expressões vitais, nos legou um modelo humano em suas dimensões mais variadas: o monge, o camponês, o intelectual, o artesão, o clero, o mercador, a mulher, a família, o santo, o guerreiro, o nobre, o leproso, o excluído. Mas, sobretudo, o mundo medieval nos passou três tipos que marcaram por demais a sociedade cristã: oratores, bellatores, laboratores, os que oram, os que combatem, os que trabalham. Estes elementos construíram a paisagem social não só deste período, mas encontraram correspondência nos tempos que se sucederam. De todos escolhemos um modelo deste complexo humano medieval que remetia a um princípio, a uma busca, a um projeto de vida. Escolhemos uma grande figura que é um símbolo de toda uma civilização: o Cavaleiro Medieval e seu Código da Cavalaria.

Continua

Imagem ilustrativa de Bergellini