quarta-feira, 19 de dezembro de 2012

MENSAGEM DE NATAL

O Natal recorda de um modo intenso a experiência de um grande encontro: a natureza divina assume definitivamente a natureza humana. Temos a mesma natureza do Deus Encarnado. O Amor de Deus está em nós, tomou a nossa forma; portanto, este amor que está em nós é um dom divino. Esta verdade já é motivo de grande alegria e de festa neste tempo que nos faz melhores, mais atentos, mais sensíveis, mais fraternos e mais humanos a distribuir presença e presentes, mensagens, sorrisos e celebrações. Não nos esqueçamos de cuidar do  espírito; reforcemos as preces, a linguagem que sai de nosso interior, do nosso coração, e se abre para fecundar a graça de amar. O encontro com o Deus Menino se dá, em primeiro lugar, no espaço da fé. O Natal nos transforma, transcende e nos amplia. A partir desta verdade vamos para o espaço do mundo para abraçar todos os seres! No espaço do mundo aconteceu a Encarnação! O Natal melhora a vida!

Feliz Natal para todos!

Frei Vitório Mazzuco

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O mal-estar na civilização

Freud, 1929; volume XXI, cap. IV

Freud, neste capítulo, faz uma suposição acerca da formação da família, dizendo que a necessidade de satisfação genital “não apareceu mais como um hóspede que surge repentinamente e do qual, após a partida, não mais se ouve falar por longo tempo, mas que, pelo contrário, se alojou como um inquilino permanente”. A partir daí, o macho quis conservar a fêmea junto de si, seu objeto sexual. A fêmea, por sua vez, não querendo separar-se de seus rebentos indefesos, viu-se obrigada a permanecer com o macho mais forte. Tem-se, então, o início da vida comunitária, a qual teve um fundamento duplo (dois pontos) a compulsão para o trabalho – momento em que o homem percebeu que a sorte na terra estava em suas mãos, cuidando-a e utilizando-a para seu sustento, paralelamente necessita de um companheiro para esse novo modo de vida – o trabalho,  e o poder do amor, que fez o homem relutar em privar-se de seu objeto sexual – a mulher (a mãe) – e a mulher, em privar-se daquela parte de si própria que dela fora separada – seu filho. Eros e Ananke (amor e necessidade) se tornaram os pais da civilização humana.

Esses dois grandes poderes cooperaram para que um número bastante grande de pessoas pudesse viver reunido numa comunidade. Supunha-se que o desenvolvimento ulterior da civilização progredisse sem percalços no sentido de um controle ainda melhor sobre o mundo externo - tanto da terra quanto do outro e no de uma ampliação do número de pessoas incluídas na comunidade. Observou-se, contudo, que essa civilização não agiu de forma a proporcionar a total felicidade, pois o amor tem em sua raiz um grande paradoxo (felicidade x infelicidade), o qual se dissolve em parte pela sublimação.

O amor sendo um dos fundamentos da civilização, deu-se com a descoberta feita pelo homem de que o amor sexual (genital) lhe proporcionava as mais intensas experiências de satisfação, fornecendo-lhe, na realidade, o protótipo de toda felicidade, sugerindo-lhe que continuasse a buscar a satisfação da felicidade em sua vida seguindo o caminho das relações sexuais e que tornasse o erotismo genital o ponto central dessa mesma vida.

Sendo assim, o homem tornou-se dependente, de uma forma muito perigosa, de uma parte do mundo externo, do qual lhe escapa o controle, isto é, de seu objeto amoroso escolhido, expondo-se a um sofrimento extremo, caso fosse rejeitado por esse objeto ou o perdesse através da infidelidade ou da morte.

Freud diz que nem todas as pessoas estão preparadas para o amor. Uma pequena minoria pode, devido à sua constituição, achar a felicidade pela via do amor, mas isso requer vastas alterações psíquicas na função amorosa. Tais pessoas se fazem independentes da concordância do objeto, ao deslocar o peso maior de ser amado para o ato de amar; elas se protegem da perda do objeto, e voltam então seu amor de forma igualitária para todos os indivíduos e não para objetos isolados, sem exigirem a exclusividade, como é o caso do amor genital. Desta forma evitam as oscilações e decepções do amor genital, que lhe consome um quantum de energia.

Com esta atitude, o homem se afasta da meta sexual do amor, transformando o instinto em um impulso ‘inibido em sua finalidade’. 

Este amor transformado produz em si mesmo um estado de sentimento uniforme, terno, estável, já não tendo muita semelhança exterior com a vida amorosa genital, tempestuosamente agitada. Nessa utilização do amor para o sentimento interior de felicidade quem mais avançou, diz Freud, foi talvez São Francisco de Assis. Este viveu de forma sublimatória, deslocando a energia sexual para fins sociais em prol da humanidade, deixando sua marca de desprendimento material, substituído pelo amor universal.


sexta-feira, 5 de outubro de 2012

POR OCASIÃO DA FESTA DE SÃO FRANCISCO – 3


Hoje, a vida está em festa porque é o dia do Santo da Festa da Vida. Hoje, 4 de outubro, é São Francisco de Assis, intensamente lembrado! Ele fez festa com o “unum necessarium”. Mostrou para todos como é bom viver com a medida do suficiente, sem acúmulos ou apegos. Isto o impediu de ter arrogância, inveja, ciúme, e daí podemos imaginar com que leveza pulsava o seu coração.

É festa porque fez do mundo um espaçoso claustro; um eremo de horizonte aberto que enxergava longe com os olhos da meditação. Acordou uma cidade toda dizendo: “Bom dia, gente boa!” e de casa em casa levantou a estima em sorrisos matinais. Fez a festa da paz nas tensões entre bispo e prefeito; foi contar histórias de seu Deus ao sultão Melek-el-Kamil que o ouviu com atenção de líder de um povo monoteísta. Domou no sinal de bênção um lobo feroz que veio mansamente deitar aos seus pés e comer em suas mãos. Fez a festa de todas as criaturas lembradas num Cântico cheio de otimismo. Na dor e no amor conservou sempre a mesma vibrante alegria.

É festa porque a sua amada Senhora Pobreza o ajudou a passar livre entre as tensões do espírito burguês de seu tempo. Para ele, dignidade é  compartir. Minoridade é unir o diverso. Fraternidade é interagir. Servir é ter tempo para, pacientemente, limpar cicatrizes gangrenadas de leprosos. É festa porque reuniu na mesma ciranda o poderoso e intuitivo Inocêncio III, penitentes e nobres, doentes e pobres, mendicantes e mandatários, abades e porteiros, o bom e o vulgar, o benfeitor e o sem lar, ladrões e aldeões, bardos e menestréis, cavaleiros e peregrinos, dominicanos e beneditinos, São João do Latrão e São Damião, Subásio e Porciúncula, Clara de Assis e Leão de Viterbo, crônicas e legendas, presépio e cruz, oriente e ocidente, cotovias e flores, sol e lua, esmola e banquete, beleza e natureza,  Eucaristia e casa reconstruída.

É festa porque Francisco fez o Evangelho ser possível e o cristianismo redivivo. A singularidade de sua pessoa criou a pluralidade do encontro. É o Santo que vai do eclesial ao social, da Encarnação à Paixão, do simples e primitivo grupo à organizada Ordem dos Menores. É o Santo da poesia, da simpatia, da cortesia, do violino sem corda tocando imaginária melodia. É o louco contemplativo e o místico intuitivo. Marcou com o sinal do Tau papiro e parede, bênção e bilhete para o amigo e confidente. Entrou na caverna da solidão para escutar a inspiração e saiu com a definitiva Regra da Missão. Boas Festas deste Seráfico e Simpático Francisco de Assis e do Mundo! Paz e Bem!

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

POR OCASIÃO DA FESTA DE SÃO FRANCISCO – 2




























Hoje, 03 de Outubro, às 18 horas, na maioria das Fraternidades Franciscanas, celebra-se o Transitus de São Francisco, a sua passagem para a eternidade. Hoje, o Cantor do Irmão Sol vive o seu mais gritante paradoxo: aquele que cantou o mundo na sua beleza irradiante em todas as criaturas, despede-se deste mundo e faz a travessia para o outro lado da existência terrena. Mas faz este rito de passagem de um modo sereno, alegre, sem as tensões próprias da morte. Hoje, em Francisco, Criação e  Redenção encontram-se e confraternizam-se. Hoje, a força originária do mundo volta à sua raiz sagrada. Ele parte cantando com todas as criaturas viventes, exatamente no momento onde já não mais pertence ao espaço de todas as coisas visíveis.  Há uma reconciliação terna com o poder da morte. Ela não vem buscá-lo numa ruptura brutal com o convívio de tudo e de todos; mas permite que todos os seres o acompanhem ao Paraíso definitivo.

Francisco despede-se desta habitação cantando o Cântico das Criaturas; e o Espelho da Perfeição diz que ele se foi no ritmo e melodia do Hino da Irmã Morte. A lírica poesia da criação transforma-se uma liturgia escatológica. O menestrel dos bosques, dos vermes, pássaros, montanhas, florestas, peixes e lobo, é agora acolhido pelo coro dos Anjos. Há uma fusão de naturezas. Aquele que cantou lua e estrelas atravessa o limite do universo e entra no inefável espaço da glória.

É crepúsculo de verão luminoso, colorido e quente na Úmbria; porém já é o entardecer forrado de folhas secas no amarelado chão do outono assisiense. Até a natureza apronta-se para bruscas mudanças. Ano de 1226. Aquele que andou todos os caminhos, agora repousa enfermo no palácio episcopal. O médico Giovanni Finiatu de Arezzo o visita e conversa com ele sobre seu estado de saúde. Diz que vai correr tudo bem como que a predizer o fim bem próximo. Há cumplicidade entre os dois. Um, santamente, sabe que seu estado de alma prenuncia o fim de todas as dores no abraço das alegrias eternas; o outro, clinicamente, tem a certeza que o seu mal não tem cura.  O médico sente que o amigo vai expirar brevemente. O santo dá boas vindas à Irmã Morte com visível contentamento. Chegam Frei Leão, Frei Ângelo, Fra Jacoba, Frei Masseo; trazem as lágrimas, o pranto, panos, uns doces e o canto. Francisco é só alegria, prece e entrega ao misericordioso Deus. Não há dor física. Nos irmãos e na sua amiga dói a separação; em Francisco, vibra o gosto pelo encontro com o sonhado Reino do Céu. Francisco pede para sair do palácio episcopal e ir para o aconchego da Porciúncula. Da cama dos bordados lençóis quer o chão tecido pela terra mãe. Ali expira mansamente no leito nupcial no colo da sua Amada Senhora Dama Pobreza.

terça-feira, 2 de outubro de 2012

POR OCASIÃO DA FESTA DE SÃO FRANCISCO - 1


A nossa quase decadente civilização moderna precisa de Francisco. Ele entende de tempos ruinosos e de reconstrução. Ele é homem da busca sincera e das mais radicais mudanças que levam a polir a vida e descobrir novos sentidos. Ele sempre foi pelo caminho da contramão do consenso, isto é, resolveu ser feliz abraçando a Pobreza. Que estranho jeito este de ser feliz sem ter nada? Isto espanta e encanta a modernidade. Ele atraiu muita gente, fundou uma Ordem, trouxe uma cultura de paz, sem as tensões do domínio, da posse e do poder. Ele mostrou para a sociedade de seu tempo que era possível viver bem sem excluir doentes, pobres, camponeses e leprosos. Ele saiu de sua casa definitivamente e criou uma casa do espírito bom e fraterno.

Francisco de Assis é um Santo que tem um diferencial: causou um mal-estar em sua época, um impacto, um escândalo, mas entrou para sempre na simpatia de culturas e religiões. Disse que o Evangelho era mais que palavras. Criou boas relações com a natureza e viveu uma sacralidade com pedras e pássaros. Reinventou a convivência de irmãos e irmãs. Visitou o Papa e instaurou na Cúria um sonho: a eclesiologia não vai ruir enquanto houver mendicantes de sentidos.

Francisco é o fundador de uma Ordem que não coube em si e se fez mais de três. O seu amor plural criou famílias espirituais que têm rosto, Regra, força de profecia e espírito comum. Atraiu Clara de Assis e deu espaço para o feminino ser forte na mística e na contemplação; mas abriu seu coração para deixar que Clara construísse, com seu jeito próprio e no discernimento do Espírito, um franciscanismo pleno de claridade, silêncio, prece e a terna e fraterna clausura a guardar o falante, vivo, pobre e crucificado Cristo de São Damião. E cada ano, a sua Festa, proporciona grandes ocasiões celebrativas e reflexivas.

terça-feira, 25 de setembro de 2012

ITINERÁRIO A ASSIS – Final












Encerro com este texto a série de comentários que fiz sobre o ITINERÁRIO A ASSIS. Afirmo de coração que voltei feliz e realizado. Concretizamos um sonho e um propósito claro: Ser Peregrinos! Posso dizer convictamente que voltamos não de uma viagem comum, mas realmente de um Caminho Espiritual. Toda viagem comporta sacrifícios e renúncias, a peregrinação é um exercício de  heroísmo interior. Fomos e fizemos! É um rever os sentidos do nosso mundo sob a luz do sagrado. Caminhar e sonhar que podemos ser melhores. Subir ruas e colinas que nos dobram os joelhos. Enxugar o suor na avermelhada face e contemplar do alto os vales, ouvir os sinos, sentir o ardo outono europeu, os aromas vertentes do lugar, a incrível presença gritante das pedras, contemplar o Belo e o Bom e sofrer os medos e displicências que temos em atirar-se fortemente na experiência.

Fazer uma verdadeira peregrinação é como abraçar os leprosos de Francisco; ser levado por uma estranha força, que nos faz ou pegar ou largar. Não é lutar com o contrário que vem de fora, mas vencer os nossos limites de dentro. Sei que este grupo preparou-se longamente para ter estes instantes de fervor. Acompanhei de longe devido aos meus muitos compromissos, a preparação do grupo, porém mergulhei junto na peregrinação, largando todos os meus apegos e agendamento.

O que relatei aqui são meus olhos nos olhos do grupo; meu coração na experiência de cada um e de cada uma que se fez caminho; é a fala que todos gostariam de dizer, mas que mudos diante da beleza, nem sempre conseguiam exprimir. Por isso, nas noites, enquanto todos dormiam o justo sono dos viandantes, eu escrevia o mundo de vivências que pululavam no consciente e no inconsciente de todos. A noite sempre é uma síntese. O amanhecer é sempre as palavras vestidas de gente.
























Não posso citar nomes para não correr o risco de alguém ficar de fora. Mas sei que cada um se lê no que aqui relato. Amei estar com este grupo. Ele tinha o ritmo dos mesmos passos e os anseios da mesma busca. Alguns mais outros menos de vida franciscana, mas todos sabiam que um dia chegariam onde estavam, pois a Assis já tinha sido uma escolha da alma. O grupo foi obediente, alegre, responsável, amigo, decidido, incansável. Muitos faziam a primeira viagem de sua vida para o exterior, para celebrar ali na Itália e Portugal um longo itinerário já feito em seu interior. Fácil é conduzir espiritualmente um grupo que fala a mesma linguagem do espírito, canta a mesma melodia insuflada por uma escolha e reza a mesma Regra de Vida.

As celebrações: missas, paraliturgias, orações da manhã e da noite, preces à mesa, cantos, terços, a hora do Ângelus, as folhas entregues com textos das Fontes Franciscanas e Clarianas, o caderninhos de cantos, tudo feito com muita unção.  A Equipe de Coordenação, que ia na frente e se fazia sempre presente para  marcar o lugar da hospedagem , distribuir os quartos, pagar os bilhetes de ônibus, dar os avisos , cuidar de tudo, foi de uma dedicação sem par. O modo como o grupo de organizou fraternalmente: mães  cuidando de seus filhos, fez o caminho ser tranqüilo.  Os casais da OFS ali unidos pelo matrimônio e pela Espiritualidade Franciscana Secular, deram um belo testemunho de união, mãos dadas, preces, partilhas e testemunhos. Os homens e mulheres do grupo deixaram fluir os valores cristãos e franciscanos. Rimos juntos, choramos juntos, fundimos emoções e sentimentos. Como foi belo ver a seriedade com que as pessoas aceitavam a convocação do Guia Espiritual e iam para as grutas, florestas, capelas e espaços para a prece e meditação pessoal. Foram 23 dias de retiro! E todos colaboraram para que isto acontecesse! Há que se destacar a humilde e preciosa presença de Frei Serginho, OFMCap. A simpática e piedosa Irmã Yolanda. Que bênção que eles foram para o grupo! Que sincronia o grupo teve com o jovem italiano, o mais que um motorista profissional que nos levou do aeroporto Fiumincino de Roma, nos colocou dentro de Assis e nos acompanhou até Rieti e ao Alverne. Que alegria e amor serviço demonstrado pelas Irmãs, funcionários e voluntários dos lugares onde nos hospedamos! Quando há espírito bom, os horizontes da bondade se abrem diante de nós e o caminho fica mais fácil.

Foi só coisa boa? Noventa e nove por cento sim! E sabe por quê? Porque esta viagem não aconteceu de improviso, ela foi tecida durante três anos de preparação material, econômica e espiritual. Livro com o texto-base foi estudado individualmente e em grupos; os temas e o roteiro pensados e traçados com  quem tinha muito mais experiência; contatos com a Agência de Viagem, fechamento das vagas e convites para preencher  as lacunas das desistências. Meta clara do que se queria com este Itinerário a Assis. Mas não teve nada de dificultoso? Sim! Claro que teve, pois não foi uma peregrinação de anjos, e por isso falemos do 1% de dificuldades que tivemos. Sempre num grupo grande de pessoas (éramos trinta e um!) que andam, convivem e se aproximam, tem lá seus momentos de desafios. É difícil para algumas pessoas, acostumadas a sempre estar no comando e nas lideranças, ter que aceitarem ser conduzidas. Se não estou na frente vejo sempre falha em quem está no comando. Poucas pessoas passaram a viagem reclamando de quase tudo, mas houve quem reclamasse constantemente, claro que nos cochichos e  entre paredes do quarto e ocultos no espaço do nosso ônibus, pois jamais pegariam o microfone para  manifestar a sua opinião de um modo público. Poucas pessoas nos atrasaram ou fizeram valer a sua vontade pessoal em detrimento do comum. Quanta dificuldade em manter o silêncio onde realmente é silêncio e como é difícil para alguns não saber usar o privilegiado tempo que se apresenta como espaço meditativo. Nós e nossas ansiedades e tensões diárias e modernosas! Quando viajamos levamos uma bagagem de frescuras e inutilidades! E temos a dificuldade da inculturação num país diferente do nosso. Quando o espírito não é bom e se escora na negatividade, as coisas começam a dar errado... e algumas pessoas experimentaram na própria pele momentos de sombra obscura num caminho feito de luz. Porém, o grupo soube absorver isto com maturidade! Porém, devo dizer que isto foi muito insignificante e nem perturbou a caminhada.

Hoje, já no sossego do meu quarto e antes de voltar ao meu trabalho aqui no Santuário, desarrumei a mala e percebi que eu estava arrumado por dentro, com uma bagagem enorme de paz e sensação boa de que tudo valeu a pena. O Itinerário a Assis restabeleceu a ordem, a harmonia, e a recolocação centrada num universo físico e espiritual. É agora, mais ainda, um tempo forte de louvar o Senhor; de ter mais motivação para ser um fraterno servidor; um esperar com toda esperança; e aquela vontade de fazer-se puro e bom, simples e descomplicado, Irmão de todos! Paz e Bem!

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

ITINERÁRIO A ASSIS - 29























Hoje, dia 24/09, nosso grupo de Peregrinos do Itinerário Franciscano a Assis, volta ao Brasil. Às 16h30 tocaremos o solo de São Paulo e nos espalharemos para todos os cantos de onde viemos. O tema do dia de hoje, motivado na prece matinal, desde o deslocamento do hotel para o aeroporto de Lisboa é: “Nosso claustro é o mundo!”

Voltamos para o nosso dia a dia, não só com as malas e lembranças que trazemos, mas com a grande bagagem do que vivenciamos. Há uma serena alegria no grupo pela sensação do propósito cumprido: não ir como turistas, mas sim como caminhantes de uma proposta espiritual. Experimentar é refazer a experiência. Refizemos caminhos, adentramos lugares, fizemos uma releitura de nossas Fontes Franciscanas e Clarianas in loco; respiramos o mesmo clima, conferimos as provas evidentes de que a nossa Espiritualidade tem chão real e concreto. Temos o mapa e a bússola, resta-nos agora não perder o ponto de partida, não perder a meta, o caminho orientado pelo coração.

Estamos de volta ao nosso cotidiano tão cheio de desafios e mediocridades; mas é nele que o grito de Francisco é mais contundente: O Amor tem que ser amado! Enfrentaremos as crises relacionais, os ciúmes, as cobranças e alguns conflitos; porém chegou a hora de descer do Tabor, embora, com certeza, nenhum do grupo gostaria que esta viagem terminasse hoje, mas é a partir de hoje que temos que fazer valer a Fraternidade, a Paz e o Bem, a serena Alegria dos reconciliados com o mundo interno e externo.

De Assis para Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro. O nosso Itinerário agora traça o caminho de sua verdadeira presença: temos que trazer Assis para onde estamos. Mais do que um lugar, Assis é uma Forma de Vida, um modo de fazer o Evangelho ser protagonista de todas as escolhas, de todos os passos, de todas as palavras, das coerentes atitudes. É de fato dizer como Francisco, na longa e iluminada noite da casa de Bernardo de Quintavalle: “Meus Deus é meu Tudo!” Não terminamos um longo percurso, estamos inundados da graça espiritual do mergulho feito numa experiência de Deus. Vimos onde podem chegar um homem e uma mulher de Assis que resolveram moldar-se do jeito de Jesus Cristo. Depois desta viagem não poderemos ser mais os mesmos. Temos que nos transformar naquilo que recebemos de grandioso. O efeito desta viagem  foi realizar uma transfusão de consanguinidade espiritual, em nossas veias, agora, corre o sangue de uma Herança de uma Família Espiritual, franciscana, clariana, fraterna, terna e materna, irmã, irmão e pai... ah! Fizemos também a graciosa experiência de sermos filhos e filhas. Em louvor de Cristo, amém!



ITINERÁRIO A ASSIS - 28




Chegamos a Fátima, em Portugal, na parte da tarde deste domingo, dia 23/09, e tivemos um bom tempo para vivermos o tema do dia: “Maria, Mãe de Jesus, Esposa do Espírito Santo”. Desde o aeroporto de Lisboa, a Paula, nossa guia em terras portuguesas, com muita competência foi nos recordando o que aconteceu de extraordinário, milagroso e sobrenatural na Cova d’Iria. A 13 de maio de 1917, três crianças pastoreavam um pequeno rebanho; Lúcia, 10 anos, Jacinta, 07, e Francisco, 09 anos. Viviam a simplicidade do campo, a alma do cuidado e o ser puro e natural de crianças pastoras, bem do jeito que o Mistério gosta de encontrar, e no pasto fecundo espalhar suas sementes. Era meio-dia. Da família traziam o costume de rezar o terço e estavam rezando quando notaram uma intensa luz, um brilho diferente do sol daquele dia.

Pensaram ser um relâmpago e resolveram recolher as ovelhas e ir embora. Outro relâmpago e sobre a azinheira viram uma Iluminada Senhora, de brilho mais intenso que o sol e com um branco terço na mão, que os convocava a rezarem mais intensamente o rosário; e por cinco meses esta aparição concretizou-se em muitos diálogos e revelações e segredos. História que todo o mundo cristão católico conhece em detalhes.

Hoje chegamos ali, e não sem preparação. No caminho refletimos, ouvimos, recapitulamos, aprofundamos, rezamos e cantamos. Entramos em Fátima cantando o “Ave, Ave, Ave Maria”. Fomos ver a bela e espaçosa igreja da Santíssima Trindade construída em 2008. Paramos na grande esplanada, chegamos à Capelinha que está no lugar exato das aparições, fomos à Basílica reverenciar o túmulo dos três pastorzinhos que estão enterrados ali.

Vimos os devotos percorrendo de joelhos longo trecho até o lugar do milagre. Sentimos a força sagrado do lugar, nosso coração ardeu de emoção e fé, lacrimejamos os olhos tocados pela força do lugar e das pessoas simples em sua fé, que pisavam aquele chão com imenso respeito. Visitamos a silenciosa Capela do Santíssimo, a Capela da  Reconciliação; a bela exposição “No Trilho da Luz”. Tivemos o momento de busca conjunta da compreensão do mistério do lugar e depois cada um foi liberado para fazer seu caminho de peregrino. Só há um modo de ir à Fátima, ir como peregrino. Às 15 horas, a Missa na igreja maior, com a bela participação de muitos jovens do movimento Juventude Alegre de Maria (JAM), entregamos as cartas e bilhetes que vieram do Brasil para serem colocados aos pés de Nossa Senhora e lembramos todas as pessoas que queríamos trazer presentes em nossas orações. Na volta, o Angelus e o terço rezado no ônibus fechou o maravilhoso dia de Peregrinos de Fátima.

Acompanhe a nossa viagem   



ITINERÁRIO A ASSIS - 27

























Sábado, dia 22/09, o sugestivo tema do Itinerário hoje é “Felizes os olhos que veem o que vós vedes”! E por isso mesmo, dia livre e o grupo não teve programação comum a não ser celebrar a Eucaristia, às 18 horas. Mapa na mão, mochila nas costas, roupa confortável espalhamo-nos por Roma. Hoje foi dia de ver, com muita calma, a arte viva dos modelos vivos que por aqui passaram: Paulo, Pedro, Francisco... e a Arte dos grandes gênios da pintura, arquitetura e escultura que moldaram Roma desde seus primórdios até a contemporaneidade.

Heróis e santos, soberanos e escravos, mártires e pagãos, devotos e hereges, espada e pincel, história e fé, totens e altares moldam Roma. Há um inusitado encontro entre a revanche, a desforra dos poderes, imperiais e papais, registrando em monumentos quem realmente manda no pedaço. A Arte é sempre o fiel da balança. Ela harmoniza e relaxa as tensões das épocas. Estamos numa cidade onde o tempo deixou marcas do primitivo até o ultramoderno. Forma e deformidade. Púlpito e passeatas. Preces e preços. Incensos e terços exalando um forte cheiro de rosas made in China. Roma é mesmo uma “insalatta”.
Do teto magnífico da Capela Sistina ao torso de Davi, das cúpulas e capitéis, quadros e estátuas, a Arte é onipresente. Roma é a poesia das formas! Sinto isso quando ando aqui! Mestres e discípulos, sacralidade e sensualidade, tudo elevando ao panteão da glória os aliados e mandando os inimigos ao inferno. Tudo o que aqui está não nasceu do nada. Nasceu de uma inspiração, de um delírio, de uma encomenda, de uma resposta, de um credo.

Roma é um museu de mundos! Em cada obra que se vê e se expõe há sangue e alma. Séculos amontoam-se entre ruínas, templos e monumentos. Milhares de inscrições guardam a história. Batalhas e exércitos marcaram uma reforma agrária de convicções. Andar em Roma é aprender a pensar além do nosso estreito mundo. A Arte é o que impera sobre Roma, e ela é o eterno grito espiritual, a dizer que, apesar de tudo, o mundo andou e as conquistas humanas foram muitas. Mesmo caminhando por Roma com meu velho hábito franciscano e uma confortável sandália, não dá para ficar indiferente ao que Francisco viu aqui. E o que ele viu? Um dia a dia de pessoas vindas de toda parte do mundo, um universo de línguas, poderio, riqueza , a glória dos vencedores e o sangue derramado dos vencidos.

Supremo paradoxo! O mais simples dos Simples teve que entrar no esplendor do pórtico curial para ver abençoada uma Regra de Vida que era a estética do Simples e a Arte de viver o Evangelho. É preciso olhar Roma com o olhar de Francisco e segurar ruínas nas costas e não deixar cair o mais puro da fé. É tão diferente entrar sem o olhar do Poverello, pois entrar sem o jeito de Francisco é apenas, com uma câmera digital na mão, fotografar o mistério, mas não mergulhar dentro dele. Roma está invadida e tomada por gente que fotografa o mistério, apenas.

Mas vamos nós pelos Arcos do Triunfo, glória à custa de mortes. Vamos olhar a fé cristã, das catacumbas às basílicas, das cátedras aos claustros, e sua força que clama por um Reino de paz, justiça, amor e corações em chamas. Nero incendiou a cidade, o cristianismo incendiou a terra e chegou onde as Legiões Romanas não conseguiram ir. Por favor, Pai Francisco, interceda por nós para que tudo isto não se acabe em silenciosos mausoléus de Michelangelo!

Obeliscos, ergam a loucura da Cruz! E a loucura da Cruz seja plantada, como um pedestal, no altar das almas. Pé no chão, olhamos cada detalhe; pé no chão, olhamos para as alturas. Não dá para andar por Roma sem olhar para o alto.  E não é que em San Giovanni de Laterano, na capela de São Francisco; aquele que beijou assustadores e mal cheirosos leprosos;  aquele que pediu esmolas nas ruas, aquele que de riquinho mimado e convencido se fez o menor dos menores, não é que sobre ele, esculpiram  ali, uma Legião de Anjos Sorridentes?

Em Roma, a Arte passa pelo paleolítico mundo e gera mundo novo. Une o grego e o romano e revela uma humanidade que foi muito forte, e nos convoca e provoca a sairmos da nossa mediocridade em que nos ancoramos hoje. Que estas pedras nos alimentem de sonhos para uma futura humanidade possível e renovada, se não, o que deixaremos para o amanhã?

A pintura italiana é a pintura de todos. Ninguém contesta um Boticelli, um Rafael, um da Vinci, um Michelangelo, um Caravaggio. Cor, textura, volume, luz, atmosfera, sutileza, elegância, plasticidade, forma, jeito celestial, ternura viril e vigor feminino, apocalipse, mistério, demiurgo, parusia, protesto, paraíso e inferno, sentimentos, símbolos, imagens, perfeição em carne e osso. Tudo, de um certo modo, aponta para o infinito. Esta Arte é a eterna mídia. Trouxe dos primórdios dos séculos tudo o que une pessoa e natureza, humanidade e divindade. Fez mais revolução que as invasões napoleônicas e a loucura dos césares. Escultura e pintura mostram com sinceridade a verdade da história, às vezes com exagero, mas sempre uma visão transparente do agora antecipando o futuro. Roma não é passado; a sua Arte é e será sempre o amanhã da criatividade. Os artistas mostram um mundo antigo para criar um outro muito melhor. Hoje custaremos dormir, pois os deuses todos, os Santos, os altares, as galerias de arte, a Beleza que inundou nosso olhar e coração, ficam comichando dentro da gente... é de perder o sono!

Acompanhe a nossa viagem  


ITINERÁRIO A ASSIS - 26




























Nesta sexta feira, dia 21/09, o tema do dia foi “Nosso compromisso com a Profissão”; fomos bem cedo para a Basílica de São João de Latrão (em italiano se diz “San Giovanni in Laterano”). Por que fazer esta peregrinação até a Basílica? Porque Francisco de Assis chegou aí em 1209 para pedir ao Papa Inocêncio III a aprovação da sua Forma de Vida. Não trazia uma Regra de Vida elaborada, mas sim fragmentos do Evangelho com a Sagrada Palavra que ele queria viver, ao pé da letra, com seus primeiros companheiros.

O Papa não tinha como aprovar, pois faltava o toque canônico no que seria o texto espiritual normativo condutor de vidas; mas também não podia desaprovar porque era puro Evangelho. Não deu a Bula, deu a Bênção. Francisco entendeu a Bênção como consentimento e saiu daqui para criar a sua imensa família no sangue da mesma inspiração.

Nosso ônibus nos deixou ao lado da estátua comemorativa da chegada de Francisco e seus mendicantes e penitentes companheiros junto a Cúria Romana. Na frente, a reverência humilde mostrada pela obra esculpida em bronze e de uma transparente expressividade, contrastando com a portentosa Basílica.
Pudemos imaginar e sentir na pele, o maltrapilho Poverello  entrando e aproximando-se da corte papal. O Papa tendo um sonho de intuir um mendigo escorando uma coluna da igreja prestes a ruir e evidenciar quando despertou que este mendigo era Francisco. Foi o primeiro despertar para Francisco que se tem notícia na história.

A Basílica do Latrão é a catedral do Bispo de  Roma, que é o Sumo Pontífice. É a mãe de todas as igrejas que estão pelo mundo. Dirigimo-nos à Capela de São Francisco e antes passamos por um afresco de Giotto, como que nos transportando para o medieval em plena explosão renascentista do conjunto de obras que revelam a incrível beleza desta igreja.

Ver Giotto ali é como entrar junto com o pobre e popular Francisco até o trono papal. Na Capela de São Francisco fizemos um momento de motivação, meditação e oração. Numa bela celebração renovamos nossos votos (os religiosos presentes), a profissão (os da OFS), e os compromissos sacramentais (os simpatizantes e agregados). Num primeiro momento celebramos todos juntos e depois, em pequenos grupos, mãos no altar de São Francisco, agradecemos o benefício singular de seguir as pegadas de Jesus, prometemos pôr a serviço da Fraternidade todos os nossos talentos e capacidades, nossos trabalhos e convivência fraterna, para que juntos possamos viver os conselhos evangélicos durante toda a nossa vida.

Em seguida fomos ver de perto a relíquia de São João Batista, o Batistério mais antigo do cristianismo, o obelisco laterano, o maior de Roma; a Escada Santa cheia de tradição e relíquias, e a multidão de fiéis subindo-a de joelhos.

Terminada a visita ao Latrão seguimos para a Basílica de Santa Maria Maior, também conhecida como a Basílica de Nossa Senhora das Neves. Ela é de 432, do pontificado do papa Sisto III, e erigida em homenagem ao dogma da Maternidade Divina de Nossa Senhora, que foi declarado pelo Concílio de Éfeso em 431. Ali, ficamos em oração diante da Relíquia do Presépio do Menino Deus e nos altares dedicados à Mãe Divina.  Foi uma manhã fecunda! Depois, tivemos a tarde livre até 18 horas, quando nos reunimos para celebrar a Eucaristia e concretizar uma grande partilha na Mesa da Palavra. E assim foi o dia!

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sexta-feira, 21 de setembro de 2012

ITINERÁRIO A ASSIS - 25

























O tema de hoje, quinta-feira, dia 20/09, foi “Nossa Profissão de Fé”, e iniciamos bem cedo, chegando à Basílica de São Pedro, às 7 horas, para celebrar na Cripta, junto aos túmulos dos Papas, e bem perto onde estão os restos mortais do grande apóstolo e primeiro Papa da Igreja. Na Capela Lituana, sob o olhar da Mãe de Deus, celebramos a Eucaristia, onde confirmamos a nossa fé no Credo da Igreja que abraçamos.

A missa foi participada com recolhimento, emoção e quase à meia voz, pois estávamos como que não acreditando que estávamos ali, nos alicerces da nossa Comunidade Cristã e na força original e originante da Igreja Primitiva. Após a celebração, tivemos a manhã livre para visitar os Museus do Vaticano, a Capela Sistina e os arredores da Praça São Pedro.

À tarde chegamos às Catacumbas de São Calisto. São do século II, cemitérios subterrâneos, lugares de ritos fúnebres, e expressivo culto aos mortos, sepultura dos Mártires; e nas perseguições, lugar ajeitado para celebrar a Eucaristia, embora os cristãos não usassem as catacumbas para se esconderem, pois o Império Romano sabia muito bem onde elas se encontravam. Aqui é o Santuário dos Mártires e uma referência de peregrinação da Igreja nascente. É o estar junto na vida e na morte. O lugar da evidência dos símbolos primitivos cristãos.

Entramos pelas galerias, lugar de repouso, dormitório, cemitério, uma vale cavado (daí é que vem o termo catacumba = cavidade) nas entranhas da terra, onde se evidencia a alma que já vive na divina paz. Ali, todos os sinais de que não se enterra a fé, mas que ela brota da força comunitária, vence as perseguições e floresce regada com o sangue dos mártires.

Nas paredes, fragmentos do poema do papa Dâmaso: “(...) aqui repousa unida uma multidão de Bem-aventurados. As sepulturas venerandas conservam os corpos dos Santos, mas a casa real do celeste arrebatou para si as almas eleitas”. Guiados pelo simpático, espirituoso e competente Pe. Antônio, SDB, vimos sarcófagos, cubículos, criptas, altares, o Bom Pastor, o Orante, o Monograma de Cristo (XP entrelaçados), o Peixe, a Pomba, o Alfa e Ômega, a Fênix, a Âncora, as Lâmpadas de óleo, o corredor dos Sacramentos, destacando o Batismo e a Eucaristia, a Escada dos Mártires... Entramos e saímos pela Via Appia, um voltar ao tempo primitivo da nossa fé mais pura e coerente. As Catacumbas não significam a morte, mas o Cristianismo mais corajoso e ressuscitado, uma Fé viva que fez estrada e preencheu a terra. Que aula de Iniciação tivemos hoje neste lugar!

Das Catacumbas de São Calisto fomos à Basílica de São Paulo fora dos Muros. Segundo a tradição, São Paulo Apóstolo está sepultado debaixo do altar mor, o Altar Papal. Um igreja exuberante, harmoniosa, belíssima! Igreja da Porta Santa dos Anos Jubilares. Igreja dos peregrinos. Aqui se vem para confirmar a Fé.  É uma igreja do século XVIII, construída sobre outra que era da época paleocristã. Vimos as imagens de todos os Papas, desde Pedro até Bento XVI desenhadas na parte superior. Fizemos nosso momento oracional bem baixinho, quase que silenciosamente no Túmulo de São Paulo, o Apóstolo das Gentes, sob o fundo orante e cantante dos Beneditinos, que naquele momento, rezavam gregorianamente as Vésperas. Que dia! Que dia!

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quinta-feira, 20 de setembro de 2012

ITINERÁRIO A ASSIS - 24


 

Nosso segundo dia em Roma começou bem cedo. Saímos às 7 horas para participarmos da Audiência Coletiva com o Papa. Muitos do grupo só entenderam por que saímos cedinho quando viram a imensa fila de peregrinos aguardando o momento de entrar no enorme, moderno e suntuoso anfiteatro. Uma multidão de etnias, culturas, línguas e motivos diferentes para estar ali: grupos organizados por agências de viagem, peregrinos, paróquias, escolas, um encontro internacional de abades beneditinos, congregações e ordens em Capítulos Gerais, corais, jovens recém-casados, seminaristas, movimentos, comunidades de experiências religiosas diversas, e nós, a Ordem Franciscana Secular.

Estava ali também a Fraternidade da Imaculada Conceição da OFS de São Paulo e um enorme grupo de rumorosos brasileiros, enchendo de verde e amarelo, gritos e aclamações, o teatro bem organizado. Dez mil pessoas! Um só coração e uma só alma. A entrada do Papa e o acolhimento com muita alegria. O Evangelho do dia lido em várias línguas e a catequese do Papa. Tinha voltado do Líbano e manifestou a sua preocupação com os povos do Líbano e Síria. Após a catequese a apresentação de todas as delegações presentes. Depois a palavra de saudação do Papa em cada língua das diversas nações presentes, a bênção final e uma grande  explosão de alegrias. Por que estivemos na Audiência Coletiva com o Papa?

Bem cedo, a caminho do Vaticano, no ônibus, fizemos a nossa primeira reflexão e focamos a questão do Franciscanismo como o grande  encontro entre a intuição e a instituição. Ser obediente e fiel à Igreja é levar para dentro da instituição a força do carisma e receber a força da unidade eclesial.

A Legenda dos Três Companheiros nos fundamenta num belo relato: “O bem aventurado Francisco resolveu pedir ao mencionado senhor Papa Honório, um dos cardeais da Igreja romana, a saber, o predito senhor de Óstia, como se fosse papa de sua Ordem, a quem os irmãos pudessem recorrer em seus negócios. O bem aventurado Francisco tivera uma visão que podia ter induzido a pedir o cardeal e a recomendar a Ordem à Igreja romana. De fato, vira uma galinha pequena, que tinha as penas emplumadas, com os pés à maneira de uma pomba doméstica; ela tinha tantos pintinhos, que não podia reuni-los sob suas próprias asas, e eles andavam ao redor da galinha, permanecendo fora. Despertando do sono, começou a pensar sobre tal visão e imediatamente reconheceu, pelo Espírito Santo, que ele era representado figurativamente por aquela galinha e disse: “Eu sou essa galinha, pequeno de estatura e frágil por natureza, e devo ser simples como a pomba e voar ao céu com a paixão alada das virtudes. O Senhor, por sua misericórdia, deu-me e dará muitos filhos aos quais não poderei proteger com minhas próprias forças; portanto, é necessário que eu os recomende à Santa Igreja, a fim de que os proteja e governe sob a sombra de suas asas” (LTC 63). A Audiência Papal nos ocupou a manhã toda.

Na parte da tarde focamos três lugares para uma visita histórica cultural: O Coliseu, a estátua de Moisés na Igreja de São Pedro in Vincoli, e a Fontana de Trevi. O Coliseu ou Anfiteatro Flaviano ganhou este nome porque teve próximo uma colossal (Colosseum) estátua do imperador Nero. Impressiona pelo seu colosso arquitetônico. Abrigava 50 mil pessoas e foi um lugar do “panis et circenses”  do Império Romano, o pão e o circo. Lugar de diversão, espetáculos, lutas de gladiadores, combates entre homens e felinos, leões, tigres, leopardos etc. Reprisavam épicas batalhas e até mesmo batalhas navais com cenários e engenharia de dar inveja hoje aos efeitos de Steven Spielberg. Os imperadores Trajano, Vespasiano, Domiciano e outros celebraram aí suas glórias. É a gigantesca propaganda ideológica de um Império que marcou toda uma civilização. Beda, o monge, profetizou em sua obra “De temporibus liber”: “Enquanto o Coliseu se mantiver de pé, Roma permanecerá; quando o Coliseu ruir, Roma ruirá e quando Roma cair, o mundo cairá”... bem, pelo menos viemos de muito longe para conferir... e ele ainda ali está...

Chegamos à igreja de São Pedro in Vincoli ( São Pedro em Cadeias) depois do meio da tarde. Ela é do ano 431. Tem no altar central as cadeias (as correntes) que foram usadas no apóstolo Pedro na prisão (cfr. Atos dos Apóstolos). Mas a grande atração desta igreja vem da Arte. Nela está o túmulo do Papa Júlio II, grande mecenas dos maiores artistas da época renascentista, e, sobretudo de Michelangelo. E o genial Michelangelo o fez em 1545. A figura central deste mausoléu é Moisés. A estátua é de tal perfeição que o próprio Michelangelo extasiado e alucinado diante da beleza de sua obra, bateu com o martelo na estátua e gritou: “Por que não falas?” Nós, de queixo caído, fotografamos.

Andamos muito pelas ruas vendo a bela, milenar e misteriosa Roma. Curtimos seus becos e cafés, suas lojas igual um brechó superchic, sua riqueza inesgotável de história e sua insana agitação motorizada, num contraste entre o ontem das gigantescas e artísticas construções e o hoje das máquinas. Fomos parar na Fontana de Trevi (Fonte dos Trevos). É uma obra barroca. Esplêndida! A fonte de água está aí desde 19 a.C. e a obra de Leon Alberti e Bernini, veio mais tarde, a partir de 1629, continua até hoje a encantar os turistas que se aglomeram ali. Há uma lenda que, se alguém, jogar uma moeda em suas águas, com as costas voltadas para a fonte, sempre volta a Roma. Por via das dúvidas todos nós fomos lá fazer o ritual de jogar as moedas, numa pueril alegria. Digo para vocês que foi a quinta vez que repeti o mesmo gesto... Morei em Roma dois anos e esta é a quarta vez que volto à cidade conduzindo um grupo. Não sou muito chegado a superstições... “mas hoje estou aqui, vivendo este momento lindo, de costas pra você e as mesmas emoções...sentindo!”

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quarta-feira, 19 de setembro de 2012

ITINERÁRIO A ASSIS - 23

























Mesmo com aquela vontade imensa de não ir embora do Alverne, de permanecer ali mais tempo, ou quanto tempo o coração pedir, arrumamos nossas malas e tomamos o caminho de Roma para mais uma etapa da nossa viagem. Como dizem: todos os caminhos levam a Roma! E nosso itinerário fez-se caminho desde às 8h20, quando todos já no ônibus, em plena viagem, fizemos a nossa oração da manhã com o tema: “Compromisso e responsabilidade”. Que compromisso é este de sair dos caminhos de Francisco e ir pelo mundo? Fomos desafiados a levar algo para o mundo e que tal começarmos pela pluralidade de Roma, a secular cidade que concentrou impérios, domínio, poder e fé, a Roma dos Césares, a Roma dos Papas, a Roma dos mártires, a Roma moderna.

Depois que nos instalarmos na hospedaria em Villa Serena, onde ficaremos por quatro dias, fomos visitar o Vaticano. Do ônibus avistamos sua onipresente cúpula que olha Roma do alto, dominando um horizonte sem fim. Chegamos à Praça São Pedro e fomos literalmente abraçados pelas colunatas de Bernini. Ficamos estupefatos e atordoados! Das pedras dos caminhos de Francisco e seu máximo despojamento... de repente, estávamos ali, diante de 140 estátuas, anjos, santos, papas, quadros, capitéis, esculturas, piso e teto feitos por mãos de inspirados gênios da arte: Michelângelo, Rafael, Bernini, Bramante. A Praça com gente do mundo inteiro, o barulho da fonte e sinos, murmurar de línguas conhecidas ou não, filas, guarda suíça, policiais romanos, tudo organizado, preciso e solene como é de praxe neste lugar. Olhamos a Praça e fomos engolidos por ela. Imensidão e êxtase. Clássico e barroco. Século XVII sendo fotografado por olhos da modernidade. Um obelisco da civilização egípcia, do primeiro século, troféu de guerra do imperador Calígula e ajeitado pelo Papa Sisto V,  que colocou em seu topo uma Cruz de Cristo. Contam as narrativas históricas que foram mais de novecentos homens que o ergueram apesar de seus 40 metros e pesando toneladas.

E entramos na Basílica de São Pedro, o apóstolo está enterrado ali; ele é o primeiro na sucessão dos pontífices, e aqui é a Sede do Papado. Um banho de arte e um mar de turistas e peregrinos. Muitas fotos e olhares de admiração, mas também é lugar de grandes celebrações e orações. Confirmamos a nossa missa que faremos na cripta na quinta feira e fomos buscar alegres os bilhetes para a audiência coletiva com o Santo Padre amanhã. Voltamos às 19h para nosso alojamento. Hora de descanso e renovar as forças. Na quarta feira continuamos nosso caminho em Roma. Venha conosco neste relato, e saiba que em nossas preces, lembranças, saudades e partilhas... você já está aqui.

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terça-feira, 18 de setembro de 2012

ITINERÁRIO – 22 – Festa das Chagas

























Hoje, 17 de Setembro, Festa das Chagas de São Francisco, tivemos o privilégio de celebrar a Festa no lugar onde ele recebeu os Estigmas! Entramos de corpo e alma, emoção, sentimento e fé na programação da Fraternidade do Monte Alverne. Ontem, às 18h30,  a oração das Vésperas e às 23h30 a Solene Missa da Vigília da Festa que entrou  madrugada adentro, com a Igreja de Santa Maria dos Anjos do Alverne completamente tomada.

Frades de todos os lugares e ramos da Ordem, OFS, Religiosos e Religiosas e uma quantidade enorme de Jovens da GIFRA ( Gioventù Francescana) que chegaram de uma caminhada retiro e passaram a noite toda em Vigília. O Ministro Geral da Ordem dos Frades Menores, Frei José Rodríguez Carballo, OFM, presidiu a celebração.

Convocou a todos para a contemplação, disse que contemplar é olhar a vida de um modo sobrenatural, olhar a vida com os olhos do transcendente, com os olhos do céu, com os olhos de Francisco e Clara. Na manhã de hoje participamos das Laudes e, às 11 horas, da Soleníssima Missa da Festa, na Basílica central.

À tarde, a Procissão das 15 horas com a bênção para a Itália e a reverência à Relíquia (o Sangue ) de São Francisco. Às 18h30, as Vésperas Solenes. Todas as celebrações foram presididas pelo Ministro Geral que, por duas ocasiões, saudou com muito carinho o nosso grupo de Peregrinos do Brasil.

Ontem e hoje foram dias esplêndidos de sol numa interação festiva entre a festa litúrgica e a festa da mãe natureza que veio comemorar junto trazendo luz, céu azul, clima ameno e muita alegria. Individualmente ou em pequenos grupos mergulhamos nas múltiplas facetas do Alverne. Quantos lugares, quantas mensagens! O Conde Orlando de Chiusi que doou este lugar a São Francisco deve ter recebido o cêntuplo pela sua amizade e generosidade para com o Santo! Que lugar magnífico! Santo Antônio de Pádua morou uns meses aqui em 1230.

 O Ministro Geral da Ordem, São Boaventura, também residiu e escreveu, não por acaso, a sua obra “Itinerarium mentis in Deum”, em 1259, justamente nesta montanha, que é por si só, um Itinerário para que a inteireza humana volte-se para seu Deus e para si mesma.

A Capela dos Estigmas tem sempre uma lâmpada acesa para lembrar aquele evento de luz que iluminou o monte e silenciou os pedregosos recantos. Deus tomou forma num corpo! Muitos fizeram as trilhas da bela e única floresta natural da Itália e foram até o cume ver a cruz que continua a falar numa evocação singular.

Encontramos dezenas e dezenas de capelas e grutas e em algumas dormiu, orou, dialogou com Jesus, recebeu a visita do Senhor, o nosso Irmão Menor Francisco de Assis. Um forte terremoto rachou as pedras e criou naturais lugares de esconder-se para revelar. A arquitetura do lugar foi sendo construída pouco a pouco e parece querer escalar junto para chegar ao mais alto.

Na praça chamada Quadrante reúnem-se, fazem paradouro e passagem, os muitos peregrinos. Relógios solares marcam a hora de não ter pressa, pois o tempo do espírito não é o tempo dos cronômetros. Os poços lembram a sede saciada e o relaxar dos pés cansados de tantos caminhos e constantes buscas. Os muitos campanários marcam liturgia das horas, e a música dos sinos harmoniza-se com a melodia do lugar, vento silvando nos altos ramos da frondosa mata. Uma grande hospedaria se espalha por entre antigas paredes, pátios e potes imensos de terracota. Há vários refeitórios para os peregrinos e muitos voluntários servindo pratos e sorrisos. Boa comida, bom vinho, boa convivência numa babel de línguas e culturas, mas um só coração e uma só alma. Este é sempre o prato do dia.

Pátios e corredores aguardam a procissão diária, com a Cruz, os frades e o latim do Hino ao Seráfico Pai e a virtuosa ladainha à Santa Mãe de Deus. A colorida e expressiva arte em cerâmica de Andrea dela Robbia  nos espiam e acompanham com os olhos onde quer que vamos. No Corredor dos Estigmas, quadros com afrescos mais contemporâneos relatam uma Legenda Franciscana de séculos. No meio do corredor uma porta prepara o impacto e a surpresa do leito de Francisco, uma cama de pedra onde ele dormia, um granítico espaço receptáculo da mais pura prece. Um imenso precipício nos separa 70 metros dos atalhos que fazem chegar ao vistoso e grandioso vale.

A gruta de Frei Leão, o Eremitério dos Estigmas, o claustro com a cisterna maior, as capelinhas, os carvalhos, baobás, enfim o bosque e seus penhascos. Foi o Itinerário de uma Alma que encontrou este lugar; ontem e hoje passamos e repassamos por ele para encontrar a nossa alma franciscana, e  chegar aqui com 31 irmãos e irmãs, assim como Francisco  foi chegando com os seus. Anjos e demônios travaram batalhas por aqui, mas quem venceu foi um Serafim Alado! Numa parede do grande corredor de 78 metros está cravada a prece dos Louvores a Deus, o conhecido Bilhete a Frei Leão: Tu és o Bem, o Sumo Bem, Todo Bem; tu és Fortaleza, Doçura, Guarda e Defensor.

Quem passa pela força deste abrupto e místico lugar tem que sair transfigurado. E  temos que sair com a missão e o propósito que nos deu hoje o Ministro Geral, na hora da Bênção e do Envio: “Façam, onde estiverem, o Amor ser Amado! E não deixem de fazer soar o constante brado de Francisco: Meu Deus e meu Tudo!”.

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segunda-feira, 17 de setembro de 2012

ITINERÁRIO A ASSIS - 21 - Monte Alverne




















Às 11h40 deste domingo, dia 16/09, num surpreendente dia ensolarado, chegamos ao Monte Alverne. Metade da viagem de três horas e cinquenta minutos fizemos observando a paisagem da Itália com algumas informações culturais, e a outra metade fizemos em prece e silêncio. Não se pode chegar ao Alverne de qualquer jeito. É o Santuário da Transfiguração, do Calvário, da Cruz, das vigorosas rochas, das evocativas cavernas, dos sinos, dos tetos de pedra, dos cantinhos sagrados, da procissão de cada dia, da obra em alto relevo de Andrea della Robbia. Francisco chegou aqui em 1214, nós que chegamos aqui em 2012... e  o que podemos dizer?

Nas fendas das imponentes pedras um testemunho: Deus falou gravando em Francisco as marcas da Paixão. Capaz de amar, capaz de sofrer por amor. Um longo itinerário de Amor o fez igualzinho ao amado. Aqui, ele recebeu os Estigmas. As marcas do Iniciado; as marcas do dedo divino do Amor que moldou nele a consanguinidade da Cruz e Paixão. Aquele que deixou tudo o que era o status do agradável sobre a terra, recebe as Chagas. Dor humilhante e torturante? Não! Glória da identificação com o Mestre. Francisco sempre buscou algo que não fosse uma glória passageira, mas agora traz na pele a certeza da glória eterna. Sangrou de amor seu coração de dentro para fora e de fora para dentro. Neste lugar, ele teve um encontro com o Anjo; foi o coroamento de seu caminho de pobreza em direção ao Crucificado. Um dia este Crucificado lhe falou, hoje trocou com ele de lugar no madeiro, crucificando-o em sua própria carne.

E hoje estamos aqui... Depois de nos instalarmos na hospedaria dos peregrinos, almoçamos e fomos a procissão da Hora Noa, às 15 horas. A procissão saiu da Basílica e foi até a Capela dos Estigmas. Nem podíamos acreditar! Estávamos ali onde espelhou-se a dor e o amor. Pés, mãos e coração com as feridas da Cruz. Abaixo, um rochedo enorme mostra o tamanho deste amor abissal. Uma montanha inteira é testemunha, as árvores e as pedras, os pássaros e o falcão, tudo enfim são testemunhas de que este Poverello purificou-se através do sofrimento. Um sofrimento pleno de sentido.

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ITINERÁRIO A ASSIS - 20 - Fonte Colombo

























Hoje, sábado, dia 15 de setembro, passamos o nosso dia em Fonte Colombo, o Santuário da Regra Franciscana. Ninguém deve arriscar a sua vida com coisas pequenas. A grandiosidade da vida está na purificação das escolhas. Se há uma escolha verdadeira quando se orienta para o melhor e para o maior. Devemos sempre colocar a nossa vida num patamar mais elevado. Francisco molda a sua vida na grandiosidade do Evangelho. “A Vida e a Regra é esta: viver o Evangelho de Nosso Senhor Jesus Cristo”. Por isso, hoje subimos 547 metros na montanha e fomos ao “Sinai Franciscano”. Temos uma Regra de Vida totalmente baseada na Palavra do Senhor.

Fonte Colombo tem reminiscências antigas de lugar sagrado desde o século VIII, mas não tinha este nome em sua primitiva história. Francisco chegou aí no século XIII, em 1217, e deu ao lugar o nome de “Fons Columbarum”, porque encontrou no meio da bela floresta uma fonte que jorrava das pedras e era bebedouro para as pombas. Outros falam que foi uma dama nobre de sobrenome Colomba que cedeu o terreno para ele. Entramos cantando o Hino da Regra Franciscana, muito conhecido dos franciscanos seculares. Fomos à igreja, fizemos a nossa reverência, falamos da importância do lugar e depois saímos para descobri-lo em sua silenciosa beleza. O dia estava esplêndido! Priorizamos a Capelinha da Madalena (a Capela do Tau) e lá vimos e contemplamos um dos maiores ícones Franciscanos, o Tau, gravado em vermelho na parede, provavelmente por São Francisco. Descemos para o Sacrum Speculum: as Grutas Sagradas. Nelas Francisco, sob inspiração do Senhor, ditou a Frei Leão a nossa Regra de Vida de 1223, a regra definitiva. E em seguida nos separamos para um dia todo de deserto, silêncio e meditação em cada canto, e, sobretudo no fabuloso bosque com suas trilhas, água corrente, verde quase outonal e  muito recolhimento.

Com nosso roteiro em mãos, cada um pôde fazer o caminho de Francisco que subiu ao monte; que teve a ajuda de Frei Leão e Frei Bonício para escrever com precisão as palavras que determinam o fio condutor de quem segue a vida franciscana. Escrever uma Regra, para Francisco não era compilar um texto normativo, mas sim organizar com o Evangelho, com o Amor e com a força da Fraternitas um modo de vida.

Aqui, em Fonte Colombo, nosso Pai Seráfico passa por uma dolorida intervenção cirúrgica, tem os nervos dos olhos cauterizados para que a doença que atacava suas vistas fosse mitigada.

Ontem, um anônimo escrevia um comentário no meu blog dizendo assim: “Espiritualidade ou fantasia? Só Assis tem Espiritualidade?” Costumo não responder aos anônimos, pois prefiro o face a face dos que são seguros de sua verdade, mas preciso dizer algo para este irmão ou irmã anônimo: Estou com um grupo de peregrinos que querem refazer um caminho espiritual, se estivéssemos buscando fantasia teríamos ido  para a Disney, Orlando, na California. Aqui, nós vemos documentos que comprovam os fatos, trazemos em nossas mãos Fontes seguras, há crônicas e registros, dados e datas, história real e também Legendas Medievais escritas para a edificação do Espírito. Francisco é um santo histórico e de legenda. Tem um bilhete de entrada em todas as culturas, é arquétipo humano e santo. Um perfeito seguidor e imitador de seu Mestre. Assis não retém o monopólio da Espiritualidade porque é a síntese de todas as Espiritualidades. Aqui vêm cristãos e não cristãos, crentes e não crentes, todos que sabem que o Espiritual abre caminhos; nós apenas fizemos desta viagem um Itinerário para esquentar uma forte busca do mistério profundo e simples ao mesmo tempo. Chegamos ali pelas 9h40 e saímos depois das 16h, o tempo cronológico não vimos passar, o que sentimos foi o kairológico tempo da Eternidade.

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sexta-feira, 14 de setembro de 2012

ITINERÁRIO A ASSIS - 19


Hoje, sexta feira, 14 de setembro, Festa da Exaltação da Santa Cruz, é o nosso dia livre, não temos programação; é tempo para descansar e cada um fazer o seu dia como aprouver. Ontem à noite fizemos a nossa Festa do Natal de Greccio, revelamos os amigos secretos, trocamos presentes, cantamos e rimos muito. Hoje é dia de refazer as anotações, cuidar da roupa, ir ajeitando as coisas pessoais. Vou aqui registrar uma bela carta que recebemos da Beatrizinha de São Lourenço. Ela devia estar aqui conosco, mas desta vez não pode vir e escreveu-nos esta cartinha carinhosa e verdadeira:

“Vocês vão a Assis, cada um levando um sonho diferente, um desejo, uma ansiedade e a vontade de conhecer e estar nos lugares onde São Francisco esteve e viveu.
O Subásio, o Alverne, o Vale de Rieti, esperam por vocês. Olhem tudo com muita atenção, não só os caminhos, as construções, as subidas e descidas, mas sintam o que eles dizem pra vocês.
Há sempre uma palavra, um sopro, nos falando algo novo, escondido em algum lugar. Vivam tudo com muita intensidade. Orem, celebrem, sorriam, cantem, dancem, mas acima de tudo, escutem o silêncio tocar suas almas. É na qualidade da escuta que a alma se quebranta e se refaz. Vivam essa viagem com a alegria de um Francisco adolescente, mas com a mesma realeza com que ele viveu todos os outros momentos e fez deles, um caminho que nós tentamos trilhar.
Há 800 anos, as montanhas da Úmbria, guardam o segredo do amor que só é descoberto por quem sabe amar de verdade. Tragam então, nos seus corações, um pouco desse Segredo-Amor.
Paz e Bem!  Feliz Viagem!
Com carinho, 
Beatriz”

PS: Beatrizinha, pura verdade! Ontem o Anjo que você confeccionou foi entregue a uma pessoa muito especial: Laura, a italianinha, nosso anjo aqui em Rieti! Obrigado por suas palavras e pelo  artesanal presente!

ITINERÁRIO A ASSIS - 18



Chegamos a Greccio, ao Santuário do Presépio, a mística da Encarnação, lugar que mexe com a nossa intimidade. Entrar em Greccio é como voltar ao ventre da mãe e ser trazido novamente à Luz! Francisco veio a este lugar em 1217 e, desde então, suas profundas marcas aqui estão. Subiu a montanha, abasteceu-se da força divina e descia para pregar ao povo. A aldeia de Greccio ouvia encantada a pregação do Santo e não queria que ele nunca mais fosse embora e arrumaram um jeito dele ficar.

João Velita, homem rico da aldeia, ajeita um terreno no bosque que o Santo pede para ser  mais retirado da aldeia, distante na medida de um tiro de pedra. Diz a lenda que pediram a uma criança que atirasse uma tocha o mais longe possível, onde ela caísse, despenhadeiro acima ou abaixo, ali seria o lugar; para a surpresa de todos a tocha foi parar a três quilômetros de distância. Ali escavaram as grutas e espaços para alojar Francisco e seus frades. Pura lenda, mas carregada de significação: o lugar do recolhimento é sempre um lugar indicado pela Luz.

Entre 1223 houve a famosa celebração de Natal, onde Francisco escolhe um canto no meio da floresta, faz uma manjedoura na fenda da pedra, e foi compondo com frades e o povo da aldeia os personagens do Presépio; uma encenação teatralizada do Nascimento do Senhor, o primeiro Presépio que se tem notícia depois daquela Luminosa e Gloriosa noite em Belém. Greccio é a atualização de Belém. Hoje neste ponto celebrativo tem uma capela dedicada a São Lucas.

Leão, Rufino e Ângelo escreveram, na instigante inspiração de Greccio, os trechos da Legenda dos Três Companheiros, tem até uma carta com dia mês e ano comprovando o relato dos três que também passaram um bom tempo neste Eremo. A Legenda dos Três Compnaheiros é a mais pura revelação de um ideal nascivo,  gestado sob a fecundidade divina. Greccio é um útero, seio, ventre... lugar de um novo renascer.

Hoje, o Eremo é um santuário cravado e pendurado na rocha; simplicidade e imponência, permanência e fortaleza; é como se fosse um grande ouvido colado para uma grande escuta dos ecos do Absoluto. Por dentro dele podemos ver o primitivo refeitório, um quartinho de São Francisco, a cantina, o pequeno e surpreendente dormitório dos frades, a capelinha e o coro, relíquias do bem aventurado João de Parma, o púlpito onde São Bernardino de Siena pregava.

Celebramos a missa na igreja nova, construída em 1960 e dedicada à Imaculada Conceição. Esta igreja é de uma beleza indescritível! Que celebração! Bem preparada, bem cantada! Destacamos o significado do Presépio, da Encarnação, da Fecundidade de um Deus e da Sagrada Família. Na ocasião comemoramos as Bodas de Pérola de Cidinha e Luiz Fernando, 30 anos de matrimônio. Depois permanecemos rezando e contemplado a igreja, onde o foco é a Encarnação. Sobre ela tem uma exposição internacional de presépios, que só de contemplá-los podemos deixar de lado qualquer texto para a edificação do espírito.
Assim na parte da manhã fomos ver e apreciar este espaço onde se fez o fervoroso e real presépio franciscano. Sentir que lá estão vivas as fortes palavras dos pregadores, a santa presença dos que conservaram a pureza do ideal, a contemplação da onipotência de um Deus que se revela na simplicidade de um Menino. O lugar é um espelho de pequenez e pobreza, humildade e piedade, oração e penitência. Ficamos ali toda a manhã  extasiados e magnetizados pela beleza do lugar. Foi um dia chuvoso, nublado e sem o brilho do sol que encontramos nos outros dias, deste final de verão, na Itália, mas como isso ajudou a nossa compenetração!

À tarde, fizemos uma opção, cancelar uma ida a Rieti e voltar para Greccio para momento de deserto, oração, silêncio, retiro e contemplação. Começamos pela a aldeia de Greccio, a  6 km acima do santuário e depois voltamos para um  mergulho profundo no eremo. Tarde forte de prece! Conseguimos estar juntos para rezar, só o nosso grupo, na capelinha do primeiro Presépio e dali cada um escolheu seu canto de paz, silêncio e meditação. O Irmão Sol veio conosco na tarde e pediu que a Irmã Névoa abrisse o horizonte para que contemplássemos a incrível beleza da paisagem, lá em embaixo no vale, já que estávamos há 638 metros de altura.

Assim passamos o dia todo dando-nos à Luz, neste difícil parto de ser contemplativo, de entrar e sair do mais profundo de nós mesmos, de recolhermo-nos, de afastar nossas precipitações e ansiedades, de não ter preocupações, de não ficar ligados em tudo o que nos distrai... Certamente, após um dia de viver dentro literalmente de um espaço sagrado:  nascemos de novo!

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quinta-feira, 13 de setembro de 2012

ITINERÁRIO A ASSIS - 17














Chegamos ao Santuário de La Foresta às 8h30 para iniciarmos a visita com a celebração eucarística. Todos entramos, desde o despertar, no clima do eremo para chegarmos ali bem concentrados. A capela (Santa Maria) restaurada em 1500 foi onde celebramos. Francisco esteve neste lugar em 1225; os frades da primeira hora viveram aqui em 1231; frades eremitas  entre os séculos XIII e XIV; os seguidores do espiritual Ângelo Clareno em 1346; o fato é que o lugar é habitado pela divindade. Aqui São Francisco  realizou o milagre da vinha (cfr. a bela narrativa em Legenda Perusina, 25). O Santuário guarda a gruta onde Francisco refugiou-se e teve a tentação dos ratos e a certeza, revelada pelo Senhor, que já estaria no Paraíso. A inefável alegria sentida em seu coração inspirou, neste espaço, o Cântico das Criaturas. Uma alegria que explode para o universo. Como pode um homem frágil e quase cego, vivendo um momento de dores e dúvidas, escrever um Cântico de Luz? Somente quem chega e pisa o chão de La Foresta pode compreender com mais nitidez.

Entramos por um caminho marcado por uma expressiva Via Sacra em cerâmica napolitana (de 1735). Uma Madonna, no nicho perto da entrada do santuário, oferece a Francisco um cacho de uva. Tem sempre uma mãe mitigando a dor de um filho. A primitiva igrejinha de São Fabiano está à direita da igreja maior dedicada a Santa Maria.  Após a Missa fomos ver e tocar as madeiras do coro do século XV. Entramos no claustro e fomos direto à casa onde Francisco esteve com seus companheiros (século XIII), as paredes guardam as marcas do Irmão Fogo e da fumaça e o lugar do Milagre das Uvas (cfr. I Fioretti, 19). Paramos na Gruta de São Francisco, uma brecha na rocha, onde ele adentrava e permanecia em profunda adoração e escondia seus olhos sofridos com o glaucoma da luz do Irmão Sol, enquanto a sua alma ia compondo o Cântico para o seu Senhor e Confrade Sol.

A acolhida e a visita guiada foram feitas por Marco, um jovem que, com mais outros seis, mora neste eremo. Eles pertencem ao Mondo X, um movimento fundado na Itália por Frei Elígio, frade de Milão (que foi capelão do Milan, conhecido time italiano). O Mondo X acolhe jovens drogados, portadores de HIV, dependentes químicos e dependentes de toda sorte de sofrimento físico e psicológico. Marco deu um testemunho transparente da importância da espiritualidade e da terapia ocupacional como o grande caminho da recuperação e da cura. Suas palavras grudaram em nós. Depois, Marco nos levou a conhecer a horta e o pomar de onde tiram sustento para a manutenção da comunidade. É uma Comunidade de Vida. Prece e Trabalho. Partilha e apoio mútuo. Fraternidade e Solidariedade. No meio da visita fomos surpreendidos por dois jovens da Comunidade, Lucca e Helmut, que vieram com mousse de chocolate para nos oferecer em sinal de alegria e acolhimento. Este gesto calou fundo em nós. Se um dia o Senhor, pela intercessão de Francisco não deixou faltar uva neste lugar, jamais deixará de dar graças abundantes aos que moram ali e aos que chegam. O mousse de chocolate tinha o sabor do amor que preenche todos os espaços de La Foresta.

Na parte da tarde fomos a Poggio Bustone, cidade onde Francisco chegou em 1209. Ele e Frei Egídio andavam pela região em missão e pregação. Vanni, o nosso motorista, com sua simpatia e seu jeito típico de um italiano lírico e romântico nos disse: “Preparem o coração... Hoje conduzirei vocês a um lugar como um palco elevado de um imenso teatro. Ao abrir a cortina, vocês verão um espetáculo de paisagem!” Dito e feito! Poggio Bustone, mais que uma cidade é um quadro pendurado na encosta da montanha.  Francisco entrou aí saudando o povo: “Buon giorno, buona gente!” Camponeses de ontem e de hoje, morando num lugar assim só podem ser gente boa! A cidade é um eterno bom dia! Chegamos à igreja de São Thiago Maior com seus antigos afrescos já desgastados e um surpreendente mural, como um afresco moderno de 1963, obra do brasileiro Bandeira de Mello, único pintor a ilustrar uma igreja em toda Itália.

Visitamos o claustro com sua gritante simplicidade e suas ilustrações sobre fatos da vida de São Francisco. Descemos ao eremo inferior e lá mais uma gruta, espaço orante de Francisco e seus sete primeiros companheiros que ali ficaram no inverno de 1209. Mais acima, à esquerda, na esplanada da entrada, fica o Templete da Paz com a imagem de um sorridente Francisco e a inscrição: “Templete da Paz. São Francisco, a partir deste monte, no inverno de 1209, chamou seus sete primeiros companheiros e lhes disse: Ide, caríssimos, dois a dois pelas diferentes partes da terra, anunciando aos homens a Paz!”  Pelas 16 horas, iniciamos nossa árdua caminhada espiritual rumo ao eremo superior ou a chamada Gruta da Revelação. É o conhecido caminho de São Francisco.  Uma subida de 1.019 metros na montanha, por uma trilha de pedra entre a vegetação local. Mágico caminho! Paramos para uma belíssima celebração da Paz. Queimamos nossos limites e pecados, cantamos pela paz, rezamos a grande Invocação que pedia a fluência na Mente de Deus trazendo luz às mentes humanas. Pedimos a fluência do Amor em todos os corações; que o propósito dos Mestres guie os nossos propósitos.

Fizemos a investidura de uma fitinha da Paz e soltamos centenas de bolinhas de sabão no ar, simbolizando a nossa vontade de tocar o céu. Trilhamos o íngreme caminho, não sem dificuldades, mas sentimos a alegria da realização. Descobrir o alto, a gruta, o sino, o eremo, os sinais e símbolos e a paisagem divina... ah! Isto não tem preço! Nos sentimos os seres mais predestinados da face da terra.  Neste lugar, Francisco pediu perdão por, durante 25 anos de sua juventude não ter conhecido e experimentado Deus. Segundo as Legendas, um Anjo aparece e garante que seus pecados estão perdoados. Nós descemos experimentando, um pouquinho a imensidão da graça divina.

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quarta-feira, 12 de setembro de 2012

ITINERÁRIO A ASSIS - 16



























Com aperto no coração, saudade e aquela sensação de que podemos sair de Assis, mas Assis não sai da gente... nos despedimos da cidade e tomamos o rumo do Vale de Rieti (11/9). Primeira parada em Pian d’Arca, onde Francisco, que andou naquela região, pregou ao povo e aos pássaros e tocou o coração de tanta gente, que pediram para ele criar uma Ordem para os leigos. Ali vai nascendo a Ordem Franciscana Secular. Junto ao nicho comemorativo do fato, narrado em detalhe por I Fioretti 16,  vimos um teatro preparado pelos irmãos de Taubaté e Wilton, presidiu um momento celebrativo muito forte e belo. Já no ônibus foram lidos os textos sobre Cannara, Bevagna e Spoleto, de modo que sabíamos onde estávamos e de onde saímos; vimos os lugares de nossas raízes.

Paramos em Foligno e fomos até a Praça da Comune, onde Francisco vendeu cavalo e mercadorias para arrecadar dinheiro para reconstruir São Damião. Fomos da Praça da Comune para a Praça São Francisco, na igreja do mesmo nome, onde está o corpo da Beata Angela de Foligno. Ela é uma convertida e mística da Ordem Franciscana Secular. De Foligno a Montelucco, um Eremo de incrível beleza e simplicidade. Chegamos a Rieti no final da tarde.

O que falar do Itinerário de hoje? Percorremos caminhos dos frades primitivos e seu Seráfico Pai. Cannara tem a igreja onde o beato Lúcio Modestine recebeu o borel franciscano da Terceira Ordem (OFS). Pregar o Evangelho nas cidades suscita chamados além da vida religiosa regular. Se há paixão na fala, há poderosa atração. A Ordem Franciscana Secular já nasce com identidade definida: o Evangelho nos caminhos do mundo. O ser humano e todos os seres escutam a força da Palavra. Em Pian d’Arca, os pássaros escutam. Todos estão sob os cuidados do mesmo Pai, Providente e Criador.

Uma espiritualidade forte ultrapassa a compreensão da humanidade e inunda o cosmo.  Em Bevagna temos a confirmação desta verdade e as marcas dos pés mensageiros de Francisco na pedra do lugar. Caminho espiritual deixa marcas em todos os lugares. Tudo são marcas e vestígios; tudo pura revelação. Nós vimos!

Em Foligno vimos um esplendoroso centro comercial. Lojas mostrando estética, moda e uso. No tempo de Francisco era igual. Ele já havia andado por ali trazendo mercadorias de seu pai. Um dia voltou, não para vender com a intenção de aumentar o patrimônio de Pedro Bernardone, mas sim para reconstruir um lugar em ruínas. Em Spoleto, ele vê truncado seus sonhos de ir conquistar glórias e terras nas Apúlias. Seguir o Conde Gualtier e voltar sagrado cavaleiro. Truncado o sonho? Não! Ele teve um outro sonho: voltar para Assis e segurar a forte experiência de Deus que vai dando jeito aos seus novos projetos. Há momento que o coração tem que ser obedecido. Quando o coração fala, o caminho muda. Ele não foi adiante no sonho das armas; voltou para dentro de si mesmo para perceber que devia conquistar um sentido de maior atenção aos outros.

O Eremitério de Montelucco (Monte + lucco = bosque  sagrado ) nos mostrou as escondidas, conservadas e despojadas celas dos frades de 1217; lugares tão pobres e ricos na irradiação de uma força espiritual que podemos sentir ainda hoje. Pedra, taquara, entrelaçado de cipó e barro vulcânico foram abrigos de Santo Antônio, São Francisco, São Leopoldo de Gaichis, São Bernardino de Sena, São Francisco de Pavia. As grutas, os caminhos, a paisagem que se abre para a imensidão do vale, dizem para nós: ‘homens santos habitaram aqui, e por isto este lugar nunca mais foi o mesmo’;  mais do que um simples espaço físico... é um chão sagrado.

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