segunda-feira, 28 de dezembro de 2015

PROFECIA DA FAMÍLIA FRANCISCANA DO BRASIL - X


Depois da pausa para o tempo de Natal, retomamos a reflexão sobre o tema "Profecia da Família Franciscana" - item 3.


Na experiência religiosa do mundo e das pessoas, onde está Deus? Deus está muito nas religiões das pessoas e menos na espiritualidade. Não aceite o poder da religião que para mostrar a glória de Deus diz que você não vale nada. Não acredite numa religião que joga Deus contra o humano. Isto pode ser uma espécie de pedagogia religiosa, mas não é espiritualidade franciscana e clariana. Tem muita gente se arvorando em santidade, mas não quer nada com a humanidade. Não adianta ser santo enquanto o mundo vai à breca. Indivíduo é um burguês espiritual. Sujeito é o Evangelho feito profecia!

Produza uma cultura de originalidade e não de clones. Seja político de um modo verdadeiro, no verdadeiro sentido da política: arranjo existencial para o bem comum; capaz de sacrifícios em vista do bem comum. A política não é tudo, mas tudo tem uma dimensão política. A classe política nos representa sim: nós a colocamos lá a través da nossa covardia e alienação. O sujeito ama e pensa o social na medida do amor; não herda uma política, mas sim a conquista. Seja uma presença de ação forte e simbólica: cultivo de identidade que se apresenta e fala. A ação simbólica tem consequências políticas.  Apresente-se! O que não tem visibilidade não existe! Indivíduo se esconde em cópias, sujeito é presença e diferença muito original. A humanidade precisa de nossa sadia originalidade.

Seja uma identidade plena e não vazia. Hoje há uma extrojeção compulsória de uma identidade vazia. É o big brother brasil e sua gritante audiência. É a morte da naturalidade, da sensualidade, da banalização das convivências. Não somos androides feitos para copular sob edredons! Isto embrutece os espíritos que sonham ser mais sadios.

Seja um serviço voltado para as minorias ameaçadas. Ir onde ninguém quer ir, fazer o que ninguém quer fazer. Isto a FFB tem que ter coragem de pegar!

continua

segunda-feira, 21 de dezembro de 2015

Mensagem de Natal

Alguém pendurou esperança em nossa miséria



Dezembro tem um ‘climão’. Aguça a sensibilidade a tal ponto que algumas coisas doem, outras impactam, algumas gritam. Podem pedir nos semáforos uma ajuda que desconfiados negamos em outros dias e meses do ano, mas os olhares suplicantes desta época evocam uma solidariedade que precisa ser despertada. Há presépios em todos os cantos dizendo que se do Oriente magos trouxeram presentes à um Menino que tinha o aplicativo da Estrela indicando rota, quem sabe não possamos chegar ao coração de alguém que pede no sinal, porque está no vermelho.

Vejo corpos tatuados como hierógrifos rupestres das cavernas primitivas. Se a alma e o coração não são vistos, é melhor marcar a pele; porém dezembro revela um Deus encontrado na Carne. Não seria melhor tatuar no ar das intuições e inspirações e depois deixar o corpo mostrar o que vem de dentro dos poros? Tem gente sem casa, sem lugar, sem crédito, sem noção e sem nada. É no meio disto tudo que Ele vem habitar entre nós para dar um jeitinho em tamanha falta de jeito. Amamos o tempo de Natal e enfeitamos os dias de cores e as trevas de luzes porque, afinal, Alguém pendurou esperança em nossa miséria. Uma árvore de plástico chinês substitui o pinheiro morto pela moto serra, mas vá lá, que uma bola colorida não substitua sementes nem os biomas! Se as interrogações dos corações valem apenas um e noventa e nove, ainda tem enfeite simbolizando a glória humana de parecer-se com um Deus, e isto não tem preço! Enquanto um jornal nacionalmente semeia a neura da realidade catastrófica, e revistas dizem que há época de crise, isto é, veja as publicidades de nossas páginas e editoriais manipulados; um Deus aparece, uma Mulher diz o mais importante Sim, um Espírito fecunda!  Apesar das estatísticas, Natal dá ibope sim, proclama quem é quem no divinizar a humanidade. O Menino Deus é a gramática que todo mundo entende sem precisar de analistas de plantão nos intervalos das notícias.

Escuto, leio, acesso e curto no facebook, até algumas amigas e amigos meus fazendo discursos políticos, ou melhor, ódios ideológicos vociferados com palavrões, xingando a mãe do juiz diretamente da arquibancada, já que todo mundo perdeu a cadeira cativa. Porém, prefiro o silêncio trêmulo de emoção sagrada que mostra que o Verbo se fez Carne no maior projeto de crédito total no humano. Mesmo assim não tinha lugar para nascer, foi conviver com boi e burro, fez a cama na varanda de um estábulo, chorou na manjedoura a dor de ter que aguentar um Herodes assassino capaz de matar crianças; um César Augusto fazendo recenseamento; portas se fechando e uma fuga para o Egito, um Deus migrou, mudou de lugar, e tanta gente aqui, apenas mudando de canal com o controle remoto do cérebro estatelado comodamente no sofá. Deus foi lá e brilhou, e mudou a conjuntura, sem grito, sem carro de som, sem boneco inflável e sem camisa verde amarela na rua. Resolveu onde tinha que resolver: a partir da sagrada família! O projeto de recuperar a convivência e não a conveniência de mercado. Deus foi lá concretizar um sonho de  pai que acredita em sonho e cuida do filho mais do que do carro, ouve a voz do anjo e não das postagens da mídia repetitiva, acredita na mulher parindo Vida Eterna, e vê que por detrás de todo desejo utópico há o tópico da realidade: a história é para quem sabe se encarnar, pra quem representa a memória da ânsia essencial e suprema da natureza humana: não sou cópia de produto, sou um Deus chegando para ensinar que identidade é espiritualidade e não partido político ou time de futebol.

Fim de ano tudo está cheio, ruas estão cheias, feiras, as lojas, o trânsito, filas, lotéricas, o saco do Papai Noel, as câmeras digitais, os selfies no colo do velhinho e todo mundo querendo chegar primeiro para ganhar alguma coisa.  Mas foi Deus quem chegou primeiro onde nós queríamos chegar: no coração das pessoas e das coisas. Aproveitou uma abertura infinita na plenitude dos tempos e veio. Mostrou que mesmo no vazio há espaço para o melhor de Deus e o melhor do humano. Não quis ser o esperado presente de amigo oculto, mas segredo revelado, desejado, prazer de eternidade, uma beleza e uma bondade profunda dada gratuitamente sem estipular quantia. Não precisou de prefeitura para iluminar a praça, mas mandou anjos cantarem na noite aos corações pastores com réstias de boa vontade, a seguinte verdade: o que ilumina a vida é chegar primeiro ao Mistério. Que ser homem e mulher é ser igual o Verbo que se fez Palavra, e mostrou o que é ser gente e Deus ao mesmo tempo, e que isto é Vocação para a Santidade e não programa vazio de pregadores gritando pecado, culpa e demônios para todo lado. Natal é graça! Chega de desgraça no horário nobre!  Horário nobre é dizer: é chegada a hora e é agora, o Reino do Céu está entre nós!  Não precisamos nos calçar de nenhuma cunha, Ele é o puro, o transparente, a Criança Eterna, o Emanuel, o Deus conosco!

No meio de tanta sombra obscura é preciso dizer: Feliz Natal! Feliz Renascer! Feliz Refundar!  Feliz começar de novo! Feliz Natal mundo! O Amor já estava presente no mundo em forma de obras do Criador e gestos de cuidado, todavia soltaram lama nos leitos dos que dormiam sossegados no povoado perto da barragem. Não se chorou muito os desaparecidos, mas o doce do rio que ficou turvo e as praias comprometidas em pleno verão. Feliz Natal para os que salvam as espécies! Principalmente os que se preocupam com a espécie humana. Feliz Natal para os que fazem novenas cantando e orando para a Luz verdadeira, a que ilumina toda a vida em todos os tempos. Feliz Natal para os que estão presentes lá onde está a verdade, porque de fofoca o wattsapp já está congestionado! O Menino Deus ajuntou num presépio a paisagem mais completa e a Boa Nova mais lúcida. Compartilhou a comunicação fraterna e não o controle da vida dos outros. Preferiu ser modelo e salvação para a alteridade, assumir o mundo e não o abandonar jamais.  Feliz Natal para os que amam o Filho de Deus como irmão maior, Deus imenso, eterno companheiro que veio morar junto.  Feliz Natal para os que sabem que ele é sacramental, que é Palavra Sagrada, tudo repartido como precioso presente.

Feliz Natal para os que levantam de madrugada e vão lá conferir na minha linha do tempo onde estou e com quem estou! Obrigado por se preocuparem comigo! Mas saibam que é muito bom estar onde o Verbo se fez Carne; que é muito bom estar no Bosque de Greccio onde não tem sinal de internet, mas sinal do céu! É muito bom estar totalmente aqui onde Ele veio, com endereço de Belém, em Nazaré, no sentido que explode para dentro e implode sentidos para fora. É bom saber que é bom estar onde Deus diz: eu te amo! É bom estar onde Francisco de Assis andou graciosamente tocando violino em galhos secos para acalmar o lobo de Gubio. Feliz Natal! Feliz Ano Novo! Desculpem as muitas palavras, mas agora preciso ir contemplar a cidade, doar um livro, fazer prece, pensar nos que pensam a Paz e o Bem, enfim, fazer um atentado poético!

Fr. Vitório




quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

PROFECIA DA FAMÍLIA FRANCISCANA DO BRASIL - IX



3. A FAMÍLIA FRANCISCANA E SEU MODO PROFÉTICO DE SER RESPONSÁVEL

O que é ser responsável? Na raiz da palavra responsabilidade está o latim medieval: “spons”, que significa: assumir em vista de uma profunda união. É um esponsal místico com a vida. É profético casar com os projetos, casar com as verdadeiras escolhas. Casar com aquilo que está em minha alma. Amar a fonte e a raiz e encontrar-se com elas. Sem a fonte e a raiz não somos nada. Isto está na base de todos os pactos, de todos os comprometimentos, de todas as alianças. De “spons” vem resposta e responsabilidade. Na Idade Média havia uma mística que movia as ações: “Tuum semper videns principium!” = ver sempre o teu princípio!  Em Clara de Assis isto é dizer: “Não perca de vista seu ponto de partida!”

Ser responsável é dar-se por inteiro. Quando você se entrega por inteiro não sobra nada. Dá tudo como princípio da Pobreza. Você não é uma migalha. Quando se dá tudo torna-se totalmente livre, por isto responsabilidade e liberdade não se separam. “Spons” é  união profunda e duradoura; é corresponder continuamente a um compromisso assumido e não perder de vista que o laço que se quer assumir é a transformação da vida e da história por Amor. “Spons” é encantamento! Sem enamoramento não conseguimos viver!

Esta é a profética responsabilidade de criar uma nova identidade: ser sempre protagonista do Reino, tempo de transformação, é chegada a hora e é agora! Ser sujeito livre e responsável. O que isto significa?  Ser fiel ao que se acredita sem a mediação do mercado que não tem pátria e nem fidelidade. O mercado roubou até a alma da religião e fez dela a sua alma, por isso a nossa sociedade está encharcada de religião sem alma. Ser responsável é ser agente de mudanças e isto significa entrar numa forte espiritualidade. Não posso perder o sagrado que existe em mim! Empresas e instituições não podem sufocar a minha liberdade e responsabilidade, nem minha libido. Eu amo e isto é tudo! Faço por amor e não quero que nenhum sistema me adoeça. Vou usar bem o meu tempo e não deixar que ele faça um embotamento de experiências. Não se pode viver a descartabilidade de relações. Nem um envelhecimento precoce. Não somos mercadoria que vem com prazo de validade.

Continua

terça-feira, 1 de dezembro de 2015

PROFECIA DA FAMÍLIA FRANCISCANA DO BRASIL - VIII



Ser livre é abraçar as causas propostas por esta Assembleia Geral Ordinária. A Família Franciscana do Brasil ajuda a pensar uma existência franciscana e clariana no mundo; a trabalhar em comum. Nós precisamos da força de muitos e muitas para nos achar em meio a tudo isto. Precisamos da força de todos para reconstruir a transformação da intimidade e da subjetividade. Em que consiste ser humano? É a decisão de ser melhor entre os melhores, de ser mais em meio à mediocridade. É uma decisão de moldar uma nova identidade como vimos acima. Toda decisão tem uma cisão, comporta uma ruptura. Francisco disse que isso é conversão, Clara também: para eles conversão é mudar de mentalidade e mudar de lugar!

Neste sentido vamos aprender com os nossos pais fundadores. Nós fazemos cálculos, eles faziam sonhos. Nós fazemos terapias, elas faziam estrada e abriam caminhos de ver mais profundamente. Nós não abraçamos muito o passado, mas eles são medievais que permanecem como uma eterna provocação para ser;  para serem confrontados como modelos necessários, e não apenas serem usados pelo estereótipo. O moderno recicla o medieval e vende segundo o seu interesse. Não dá para vender Clara e Francisco, pois eles romperam com isto. Por isto vão estar sempre cutucando nossas estruturas.

Ser livre é ser simples. É guardar a força e a visão da decisão, da compaixão, pelo caminho da cordialidade e da simplicidade. O coração é o ser humano inteiro. O simples é inteiro. O complicado aumenta suportes. Francisco saiu da tutela da casa de Pedro Bernardone e Clara saiu da tutela da  casa de Offreducci Favaroni porque não queriam produzir riquezas, queriam produzir sonhos de uma vida mais simples e livre.

Continua

quinta-feira, 26 de novembro de 2015

PROFECIA DA FAMÍLIA FRANCISCANA DO BRASIL - VII



Ser livre é a libertação de todo tipo de tutela; a tutela é a canga que colocam sobre nós. São algumas tradições que não servem mais e precisam ser revistas. É ter a coragem de em meio a escombros:  RECONSTRUIR A CASA! (3Comp 5). Ser livre é saber que a nossa história não é um amontoar-se de ruínas. Ser livre é libertar-se das tutelas do medo. Viver com medo é ser escravo. Esta não é uma frase terapêutica, mas a decisão de tomar a vida nas mãos e voltar a moldar um humano forte. Uma vida com medo é uma vida desumanizada. O amedrontamento cria peso estruturais e agressividade. Ao reagir ao medo, reage-se de forma violenta. A nossa civilização é especialista em produzir medo, por isso a nossa liberdade perdeu a sua pureza. As indústrias de segurança nunca ganharam tanto dinheiro! Em meio a tudo isto é profético perguntar: Quem vive? Quem é o humano? Não podemos nos apequenar, não podemos ser marionetes de uma história assim.

Ser livre é saber que Deus não nos quer punir. Ter fé é a coragem de abrir caminhos de liberdade. A fé abre caminhos onde não existem caminhos. Só a fé pode nos libertar do medo. Não podemos manipular a vontade de Deus sob o domínio da vontade própria ou no que dizem sacerdotes e pastores. Ser livre é recuperar a confiança perdida e acreditar na atuação de Deus na história através do grupo forte que nós somos. Temos que nos libertar das tutelas de certas manipulações religiosas que ainda decidem quem vai para o céu ou para o inferno, quem são os eleitos ou quem são os condenados. Vamos abraçar mais a fé! “Vai, tua fé te salvou!”. Todos temos uma fé e uma força que nos salva. Os olhos tem que ver coisas que jamais viram. O vigor, a energia e a ternura é o modo de ser de nossa fé. Naquilo que acreditamos é que somos fortes!

Ser livre é libertar-se da tutela do poder político que perdeu a moral, a ética e a credibilidade, porque é o primeiro a se corromper pelo capital. A política é serva do capital. Ser livres diante do excesso de leis e direitos que querem ser a base para recompensar ou punir. Ser livre é não delegar a nossa vida à condução das tutelas. Temos que ter mais coragem de usar a própria razão, desde que ela seja bem formada. Os sonhos ainda valem muito! Como eu faço para formar olhos bons para ver a vida do jeito bom de Francisco e Clara? Como eu faço para viver melhor? Como transformar o acúmulo de informações em sabedoria? Como sair da covardia de ser, que as vezes confundimos como obediência?

Continua

terça-feira, 17 de novembro de 2015

PROFECIA DA FAMÍLIA FRANCISCANA DO BRASIL - VI



2. A FAMÍLIA FRANCISCANA E SEU MODO PROFÉTICO NA LIBERDADE DE VIVER, ATUAR E ESTAR NO MUNDO

É profético relacionar o tipo de existência em relação aos modos de vida ou estados de vida. Viver biologicamente com força adaptativa que insere no meio físico, social, técnico, e nas diversas formas de organização. Viver de um modo psicossocial, relacionando-se com o meio social, através da comunicação da linguagem própria, dos ícones próprios, através de processos associativos. Compreender-se como realidade, filosofia de vida, sensibilidade e conhecimento.

Situar-se na mesa da humanidade, que dá à sua existência uma razão e compreensão da vida a partir do sagrado. Olhar os fatos, acontecimentos, fenômenos, procurando neles um sentido divino. Sem desfazer-se da compreensão científica perguntar pelo sentido das manifestações humanas à luz da fé. É um modo transcendente, um entendimento da vida dando sentido ao provisório e ao definitivo, ao útil e ao inútil, ao temporal e ao eterno. Viver a vida buscando as potencialidades da alma e do espírito, a solidariedade criatural, a sacramentalidade da vida e suas hierofanias.

Viver de modo livre! Não é fácil pensar a liberdade em tempos que o mercado nos escraviza, em que o dinheiro tem uma força real e simbólica e que nós pensamos o que pensam as mídias; e o capitalismo como sistema, organiza ainda, tendenciosamente, a totalidade de nossas relações. Produção em massa para um consumo de massa. Dizemos que somos livres, mas aceitamos a "macdonaldização" da existência. Entramos numa baia para comer uma comida que já foi escolhida por um cardápio que não é nosso. Não podemos viver a uniformização da vontade que nos reduz a iguais em tudo. É a disciplinização dos corpos: parar para comer rápido e abastecer-se para trabalhar mais rápido. Ser livre não é ser massa. Ser livre é não se deixar envolver pelas muitas contradições que movem o nosso mundo. Ser livre é começar a pensar e escolher com a própria cabeça e coração. Ser livre é escolher uma Força Espiritual e viver uma pertença que mostre o diferencial na cultura atual. Estamos em épocas de grandes mudanças, um feixe de processos. É muita coisa para uma cabeça só! Ser livre é não se perder neste emaranhado, e mobilizar em nós e em nossas escolhas as melhores energias que temos.

Continua

sexta-feira, 13 de novembro de 2015

PROFECIA DA FAMÍLIA FRANCISCANA DO BRASIL - V


conclusão do subtítulo:
1.A FAMÍLIA FRANCISCANA DO BRASIL E A IDENTIDADE COMO PROFECIA. CRIAR SUJEITOS FORTES E NÃO INDIVIDUALIDADES FRACAS. A LIBERDADE DE SER.

O indivíduo se identifica com o patrão, com o que vem dos domínios do poder e dos cargos, que tem muito tempo para decidir o tempo e a vida dos outros. O sujeito não acelera a vida, está na comunidade fraterna sem dissolver as diferenças. O indivíduo se esconde na casa e vive com seus hábitos mentais confundindo manias pessoas com carisma pessoal. O sujeito sai da casa para o mundo, reconstrói a casa e reconstrói o mundo, faz e relata eventos em que guarda a memória boa dos fatos. O indivíduo tem a identidade da máquina. O sujeito sabe que só é possível a identidade quando se guarda a memória das coisas grandiosas dentro do próprio coração. O indivíduo é programado para esquecer.  Quem não cultiva a memória não tem mais raízes. Nós vivemos hoje numa produção de esquecimento. O sujeito recorda. O indivíduo é tempo produtivo. O sujeito é tempo celebrativo. O indivíduo abraça o mercado que não dá nada de graça e paga caro para vestir-se de grife. O sujeito abraça o dom de existir na gratuidade. O indivíduo é medroso e inseguro e por isso precisa de sistemas autoritários. O sujeito é livre em meio às pesadas estruturas.

Aprendamos com Clara de Assis a profecia do Feminino! Clara não é importante somente como companheira de Francisco, mas é um forte exemplo do Movimento Religioso Feminino dos séculos XII e XIII. Exerceu uma influência muito grande entre as mulheres de seu tempo a tal ponto que Hortolana, sua mãe, Inês e Beatriz, suas irmãs de sangue, Inês da Boêmia, e tantas mulheres a seguiram.  Donato de Besançon foi o primeiro a escrever uma Regra de Vida para mulheres que viviam nos mosteiros; e a partir daí todas as Regras, por assim dizer, femininas, ou compilações de Regras, são feitas por homens. Clara foi a primeira mulher a escrever uma Regra do próprio punho e bem própria para mulheres. Não temos o original com a chancelaria pontifícia, mas nos restou o texto de Clara com sua limpidez original.

A firmeza de Clara causa certa perplexidade. Ela conduz vidas! Escreve um texto tendo como pano de fundo São Bento e a Regra não Bulada de Francisco; mas não deixa de ser original. Seu tempo é tempo litúrgico. Seu tema mais importante é a Pobreza. Clara causa impacto! Pode uma mulher e seu grupo de mulheres viverem sem nada? Podem sim! Se há um intenso amor, existe um desatrelamento do jurídico e a entrega a algo mais substancial: não preciso ter nada pois tenho uma riqueza essencial, a capacidade de amar o Amado!

Clara sempre falou e viveu  mais que Francisco a Pobreza. A sua fraternidade feminina de São Damião viveu radicalmente pobre e esta é sua original irradiação. Clara pede o direito de não ter nenhum direito; quer ser livre para amar. É como se voltasse às fontes do feudalismo: autogerir-se!
Clara viveu tão coerentemente a sua vida que o Mosteiro passa a ser lugar de irradiação: não é reclusão entre paredes, mas sim um ideal que voa para o mundo. Um ideal que sai pelas frestas de São Damião e ganha corações. Em Clara de Assis todos podemos ser de Deus; todos podemos ser nobres de alma através de seu Amor.

CONTINUA

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

PROFECIA DA FAMÍLIA FRANCISCANA DO BRASIL - IV


continuação do subtítulo:
1.A FAMÍLIA FRANCISCANA DO BRASIL E A IDENTIDADE COMO PROFECIA. CRIAR SUJEITOS FORTES E NÃO INDIVIDUALIDADES FRACAS. A LIBERDADE DE SER.

Francisco e Clara são uma paragem onde a humanidade se encontra nos cruzamentos de seus caminhos. Eles nos ensinaram que a nossa vida deve ser um único gesto de Amor multiplicado no tempo. Como eles temos que ser facilitadores de encontro com a humanidade. Vamos facilitar para a humanidade também um encontro com Clara e Francisco de Assis. Podem sair muitas respostas daí. Temos que colocar em nós, nas mãos e nos corações das pessoas um encontro com subjetividades fortes. Este é o grande grito profético: o máximo e o melhor do humano é o que mais revela a face de Deus. O ser profético franciscano e clariano é uma proposta de ser que seduz e cativa a humanidade. Ser assim é reforçar identidades!

Que experiência significativa estamos oferecendo ao mundo? Que força reparto, com que força estamos indo? Se tiver comigo duas ou três pessoas que querem a mesma coisa: transformo e transformamos o mundo. Com que ousadia enfrentamos o domínio do poder. O poder corrompe até os bons. Como administramos o  sombrio que acompanha a vida? Quantas pessoas são para nós ainda um pedaço de sombra? Onde fazemos valer a nossa luz? Não tenhamos medo de perseguições, porque luzes mais brilhantes são apagadas mais cedo. No oceano da vida, como estamos fazendo a  travessia? Vivemos embarcados em projetos; há momentos que estes projetos podem naufragar, mas a vida continua. Temos que dar continuidade à vida!

Que identidade humana forte estamos oferecendo ao mundo? Deixar de ser indivíduo para voltar a ser sujeito. Indivíduo não é a mesma coisa que sujeito. O mundo de hoje cria um indivíduo com a obrigação de produzir, mas anula o sujeito que poderia decidir com mais criatividade. O mundo mercantilizado promete o sujeito, mas materializa o indivíduo. O indivíduo é isolado, é apenas mais um na multidão, não tem nenhum diferencial. O sujeito é mais forte. Não é sozinho e não quer estar só. É apaixonado por projetos comuns. Tem a consciência de que é um agente de transformação e faz a diferença. Tem a consciência de que é um sujeito histórico; a sua vida é uma missão de ser, um tornar-se, uma promessa, uma chance  de Ser a mais.  É grito profético perguntar: como enfrentar um panorama com tanto individualismo e poucos sujeitos? O indivíduo é escravo da tecnologia. O sujeito olha a realidade. O indivíduo ama e usa o objeto. O sujeito convive com as coisas. O indivíduo dessacraliza o real; o sujeito sabe da vida e constrói o seu saber pela observação do real. O indivíduo morre e envelhece a partir do momento que tem muito medo, o sujeito vive superando medos.

Continua

terça-feira, 3 de novembro de 2015

PROFECIA DA FAMÍLIA FRANCISCANA DO BRASIL - III



1. A FAMÍLIA FRANCISCANA DO BRASIL E A IDENTIDADE COMO PROFECIA. CRIAR SUJEITOS FORTES E NÃO INDIVIDUALIDADES FRACAS. A LIBERDADE DE SER.

Há muitos anos, a Família Franciscana zela pela nossa identidade. Para o nosso modo de ser identidade é espiritualidade. Nós somos o que ressoa em nossa sacralidade mais íntima e que de modo algum pode ser violado. Nós somos o que amamos. É profético refazer a experiência de Francisco que diz: “Muito deve ser amado o Amor daquele que muito nos amou” (2Cel 196,9). Se amar alguém é importante, amar uma mística interna de vida é urgente. Uma identidade espiritual, moral, ética, humana, franciscana e clariana, espalha um humano modelar necessário.

Viver nesta família é sermos devotos da vida. E ser devoto da vida é buscar um sentido para a nossa existência aqui na terra e estar assim de olho em todos os sentidos.  O nosso modo de estar no mundo é uma história de amor e fraternidade universal e universalismo fraterno. É nossa profética consanguinidade de revelar que se está imerso  na vida tem que construir uma história, deixar um legado, empolgar, animar, seduzir, passar um ideal, segurar uma identidade profética e cativante.

Temos oito séculos de herança, atravessamos o tempo, superamos épocas e idade, e estamos sempre presentes, trazendo uma vitalidade para o nosso tempo. O que surgiu em Assis no século XIII, como resposta a uma época, ressurge em nós como busca de soluções para os problemas conflitantes de hoje: quem somos nós, para onde vai a humanidade, para que vivemos? Como estamos nós? Como nos sentimos ser o que temos que ser? O que nos possibilita e o que nos oculta? Buscar uma humanidade possível, buscar um mundo possível, buscar um Deus possível é nossa missão de profeticamente criar um novo patamar civilizatório, reunindo Fontes, Escritos, Carismas e Testemunhos Encarnados.

Que Francisco de Assis e Clara de Assis não sejam apenas um gosto estético, mas sim provocadores de vidas. Eles nos ensinaram que o cristianismo não é apenas uma coleção de verdades que eu tenho que aprender, mas um caminho que tenho que percorrer com responsabilidade. Que precisamos viver com enamoramento. Não existe vida humana possível sem encantamento. Não existe sujeito que não seja cruzamento de muitos caminhos.

Continua

terça-feira, 27 de outubro de 2015

PROFECIA DA FAMÍLIA FRANCISCANA DO BRASIL - II



Continuação da Introdução

Nos primórdios das primeiras comunidades, Francisco querendo animar os Irmãos a refazerem a experiência dos Apóstolos no mundo, fala de uma visão profética, conforme relata Tomás de Celano: “O bem-aventurado Francisco enchia-se a cada dia da consolação e da graça do Espírito Santo e com toda vigilância e preocupação formava os novos filhos com novas instituições, ensinando-os a andar com passo indeclinável no caminho da santa pobreza e da bem-aventurada simplicidade. E, num certo dia, ao admirar-se da misericórdia do Senhor com relação aos benefícios a ele concedidos e ao desejar que lhe fosse indicado pelo Senhor o processo de sua conversão e dos seus, dirigiu-se a um lugar de oração, como ele fazia tantas vezes. (...) Em seguida, foi arrebatado em êxtase e totalmente absorvido por uma luz e, tendo-se-lhe dilatado as fronteiras do coração, viu claramente as coisas que haveriam de acontecer. Retirando-se finalmente aquela suavidade e luz, renovado no espírito, ele parecia transformado em um outro homem.

E assim, voltando-se alegremente, disse aos irmãos: “Confortai-vos, caríssimos e alegrai-vos e não fiqueis tristes por parecerdes poucos, nem vos amedronte a minha ou a vossa simplicidade, porque como me foi mostrado pelo Senhor na verdade, Deus nos fará crescer transformando-nos na maior multidão e nos dilatará de maneira múltipla até os confins da terra. Também para vosso proveito, sou obrigado a dizer o que vi, o que eu certamente preferiria calar, se a caridade não me obrigasse a relatar-vos: “Vi  grande multidão de homens que vinham até nós e queriam conviver conosco no hábito, no santo modo de vida e na regra da bem-aventurada Religião. E eis que ainda está nos meus ouvidos o ruído daqueles que vão e voltam segundo o mandato da santa obediência. Vi os caminhos como que cheios da multidão deles a se reunirem de quase todas as nações nestas regiões. Vem franceses, apressam-se espanhóis, correm alemães e ingleses, e avança a maior multidão de outras línguas diversas. Quando os irmãos ouviram isto, encheram-se de salutar alegria tanto por causa da graça que o Senhor Deus conferia a seu santo quanto porque tinham sede ardente da conquista de outros que eles desejavam fossem acrescentados a cada dia ao seu número.

E disse-lhes o santo: "Irmãos, para rendermos graças fiel e devotamente ao Senhor nosso Deus por todos os seus dons e para que saibais de que maneira se deve conviver com os irmãos presentes e futuros, compreendei a verdade dos processos que hão acontecer. Agora, no início de nosso modo de vida, encontraremos frutos muito doces e suaves para comer, mas, pouco depois, ser-nos-ão oferecidos alguns de menor suavidade e doçura; e no fim, ser-nos-ão dados alguns cheios de amargor, os quais não podemos comer, porque devido a sua acidez, serão incomestíveis a todos, embora apresentem algum perfume e beleza exterior. E, como eu vos disse, o Senhor verdadeiramente nos aumentará em povo numeroso. Mas por último acontecerá como quando um homem lança suas redes ao mar ou em algum lago e apanha copioso cardume de peixes e, depois de ter jogado todos em seu barco, não querendo por causa da grande quantidade levar todos, escolhe os maiores e os que lhe agradam em seus vasos e atira fora os demais. Aos que consideram com espírito de verdade ficaram bastante manifestas a verdade com que refulgem e a clareza com que se manifestam todas estas coisas que o santo de Deus predisse. Eis como o espírito de profecia repousou sobre São Francisco” (1Cel 26-28).

Continua. No próximo post, o capítulo: A FAMÍLIA FRANCISCANA DO BRASIL E A IDENTIDADE COMO PROFECIA.
 

quinta-feira, 22 de outubro de 2015

PROFECIA DA FAMÍLIA FRANCISCANA DO BRASIL



INTRODUÇÃO

Quando o mundo entra em transformações profundas que atingem as conjunturas, as  pessoas, as  estruturas, as  religiões e a diversidade de grupos humanos, é aí que a profecia tem muito que fazer. Quando em meio à crise e problemas, é aí que o jeito profético, franciscano e clariano de ser, afirma, confirma, provoca e desafia a partir dos valores do Evangelho, este modo de ser presença, grito, convivência e respostas para infindáveis perguntas.

Profeta não fala a partir de si, mas da inspiração, da força divina que o habita. Fala em nome de uma verdade maior que é inspiração, de um valor maior que torna-se seguimento apaixonado. Acredita que há um chamado, uma escolha sagrada que atravessa a sua pessoa. É obediente, fiel e leal. Obediente na escuta do valor maior, fiel ao projeto de vida pessoal e comum, leal a Alguém. Profeta ama a Deus incondicionalmente e assume um compromisso de com Ele mudar os rumos da história. Ele não tem bola de cristal, nem é um adivinho ou guru de plantão gerando consultas. Mas é um ser de total intimidade e sincronia com o Senhor da vida e portador da maior certeza: um Deus misericordioso e compassivo aproxima-se da história, humaniza-se, devolve dignidade ao humano e esperança aos pobres. Sabe que Deus precisa de sua presença, palavra e protagonismo.

Profecia não é um tratado teológico, mas um uma experiência de Deus. Sabe a força divina presente nos fatos do Antigo e Novo Testamento e torna-se um protagonista desta força de um Deus que age através dele. Sabe compreender um Deus terno, paterno, materno e fraterno que gerou, na Aliança, grupo humano forte, desde Abraão, Isaac e Jacó até a Encarnação do Verbo. Sabe continuar a atuação encarnada deste Deus na vinda de seu Filho que pisou fraternalmente o chão da terra dos humanos para falar da Boa Nova, do Reino, da justiça, da cura, da defesa dos fracos, da sorte do povo, e de toda uma história transformada a partir da Ressurreição

Francisco de Assis, Clara de Assis e sua comunidade primeira tiveram um modo diferenciado de viver em seu tempo e em sua terra porque, através de um modo terno, vigoroso, paterno, materno e fraterno souberam fazer do Evangelho a sua própria vida, históra e votos. O amor a Deus era a primazia absoluta de suas palavras e atos. A partir deste amor encontraram a riqueza de viver em fraternidade, pregar a paz em tempo de guerras, tensões entre classes sociais, injustiça e discriminação de doentes, pobres e leprosos. Francisco de Assis, Clara de Assis e seus primeiros irmãos e irmãs viveram natural e corajosamente pobres, desapropriados e desapegados num tempo de ostentação de poder de bens, armas, terras, cavalos, roupas, hierarquia, guerra de religião, e ambição de títulos de nobreza.

Imagem: Piero Casentini 

No próximo post, continua a introdução deste tema.

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

FRANCISCO DE ASSIS E A OBEDIÊNCIA COMO SERVIÇO


Esta é a chamada obediência amorosa que tem que caracterizar a fraternidade. Ela é fruto do Amor no Espírito, ajuda tanto os superiores como os súditos a viverem segundo o Espírito do Senhor. Assim, quando um Ministro Provincial, um Ministro da Fraternidade, não se comporta segundo o Espírito, segue a carne e vai contra a pureza da vida fraterna, e devem levá-lo ao Ministro Geral. Quando entre os irmãos existe alguém que não vive segundo o Espírito, mas segundo a carne, os demais irmãos devem admoestá-lo solícita e humildemente, se não emendar-se devem levá-lo ao Ministro Provincial.

Isto não é castigo, mas serviço recíproco. “E nenhum irmão faça mal a outro ou diga mal dele; muito pelo contrário, através da caridade do espírito, sirvam e obedeçam uns aos outros de boa vontade. E esta é a verdadeira e santa obediência de Nosso Senhor Jesus Cristo” (RnB 5). Aqui, Francisco de Assis recorre com liberdade, que é uma de suas características, a uma expressão bíblica, tirada de São Paulo: Irmãos, sois chamados à liberdade.

Procurai que esta liberdade não sirva a carne, mas sim uns aos outros ao Espírito, por amor ao Espírito. Pois toda a Lei se resume em uma só palavra, a saber: ama ao próximo como a ti mesmo ( .... ) E digo: caminhai no Espírito contra a carne. As obras da carne são impuras ( .... ). Porém, os frutos do Espírito são: amor, alegria, paz, paciência, benevolência, bondade, longanimidade, mansidão, fé, modéstia, abstinência, castidade ( .... ). Se, pois, vivemos no Espírito temos que caminhar com o Espírito “ (Gal 5, 13-26; Rm 15,30).

Francisco de Assis acrescenta a obediência como serviço recíproco e de modo livre a compara à obediência de Cristo. Servir e obedecer mutuamente é o caminho de Cristo que resume toda lei, todo amor. Viver assim é vencer o egoísmo.

Imagem: Francesco Podesti (Ancona 1800-Roma 1895)

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terça-feira, 13 de outubro de 2015

FRANCISCO CHAMA A ATENÇÃO PARA OS PENITENTES SÓ NA APARÊNCIA



E as Admoestações XIV? Vejamos: “Bem-aventurados os pobres de espírito, porque deles é o reino dos céus. Muitos há que, insistindo em orações e serviços, fazem muitas abstinências e macerações em seus corpos, mas, por causa de uma única palavra que lhes parece ser uma injúria a seu próprio eu ou por causa de alguma coisa que se lhes tire, sempre se escandalizam e se perturbam. Estes não são pobres de espírito, porque quem é verdadeiramente pobre de espírito se odeia a si mesmo e ama quem lhe bate na face” (Adm XIV).

São palavras surpreendentes em Francisco de Assis, tão dedicado à oração e a exercícios de penitência. Mas estas palavras revelam a perspicácia que Francisco tinha em distinguir entre os pobres, penitentes e contemplativos só na aparência, que no fundo de seu coração não buscavam mais do que a si mesmos, e ao menor mal que sofressem, ou algo de ruim que os afligisse, fugiam da serenidade.

Muito diferente daqueles que faziam da penitência um caminho para diminuir os exageros do eu, e desprendidos e humildes, amavam as contrariedades, não temiam perseguições, porque o seu eu se anulava na força do Senhor. A expressão pobreza de espírito ou pobreza com espírito é, efetivamente, a ação do Espírito Santo que opera em pessoas de virtudes autênticas. Aquelas pessoas que tinham um verdadeiro amor ao Espírito do Senhor. Para isto temos que ir à Regra não Bulada, Capítulo V: "E cuidem todos os irmãos, tanto os ministros e servos como os demais, para não se perturbarem ou se irritarem por causa do pecado ou do mal do outro, porque o demônio quer, por causa do pecado de um só, corromper a muitos; mas ajudem espiritualmente, como melhor puderem, aquele que pecou, porque não são os sadios que precisam de médico, mas os enfermos. Igualmente, nenhum irmão exerça qualquer poder ou domínio, mormente entre si. Pois, como diz o Senhor no Evangelho: Os príncipes das nações as dominam e os que são os maiores exercem poder sobre elas; não será assim entre os irmãos; e quem quiser tornar-se o maior entre eles seja o ministro e servo deles; e quem é o maior entre eles faça-se o menor ( cf Lc 22,26)” (RnB 5)

Imagem de Mariano Salvador Maella, pintor espanhol (1739-1818)

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quinta-feira, 8 de outubro de 2015

NÃO EXISTE CIÊNCIA QUE NÃO VENHA DE DEUS



Vamos continuar comentando umas palavras de São Francisco presentes nas Admoestações VII: “Diz o apóstolo: a letra mata, o espírito, porém, vivifica. São mortos pela letra aqueles que somente desejam conhecer as palavras para serem considerados mais sábios entre os outros e poderem adquirir grandes riquezas, para dá-las aos parentes e amigos. São também mortos pela letra aqueles religiosos que não querem seguir o espírito da divina escritura, mas apenas desejam conhecer as palavras e interpretá-las aos outros. E são vivificados pelo espírito da divina escritura aqueles que não atribuem a seu eu toda letra que conhecem e desejam conhecer, mas, pela palavra e pelo exemplo, as retribuem ao altíssimo Senhor Deus, de quem é todo bem”.

O Espírito vivifica a letra como um bem, como um dom de Deus; o Espírito coloca a palavra em referência a Deus. Os que abusam do conhecimento da letra para fins egoístas, por razões de orgulho, podem conhecer o fracasso, e morrem em suas palavras. Não existe ciência que não venha de Deus e que não remeta a Ele.

As Admoestações VIII completam: “Diz o apóstolo: Ninguém pode dizer Senhor Jesus, a ser no Espírito Santo. E também: Não há quem faça o bem, não há sequer um só. Portanto, todo aquele que inveja seu irmão, por causa do bem que o Senhor diz e faz nele, pertence ao pecado de blasfêmia, porque inveja o próprio Altíssimo que diz e faz todo o bem”. Existem currículos? Existem graus acadêmicos? Existe brilho de conhecimento? Não é apenas mérito humano, mas ação do Espírito do Senhor e a Ele deve retornar. O conhecimento é mediação da Sabedoria que vem do Altíssimo.

Imagem de São Francisco no altar da Paróquia São Francisco de Assis - SP

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terça-feira, 6 de outubro de 2015

OBEDIÊNCIA AMOROSA


Continuação do tema abordado no último dia 2 de outubro

Quem são estas pessoas que vivem religiosamente no mundo sem estarem ligadas a uma Instituição? São aquelas que querem viver os conselhos que brotam do Evangelho. Em obediência mútua formam fraternidades. Para as três Ordens, e aqui Francisco escreve para a Ordem Franciscana Secular, vale a obediência amorosa, os que recebem um encargo sejam os menores e servos de todos, que tratem os irmãos e irmãs com misericórdia.

Vejamos uns trechos da Carta aos Fiéis: “Sendo servo de todos, tenho por obrigação servir e ministrar a todos as odoríferas palavras de meu Senhor. Por isso, considerando em meu espírito que não posso visitar a cada um pessoalmente por causa da enfermidade e fraqueza de meu corpo, resolvi transmitir-vos por meio da presente carta e de mensageiros as palavras de Nosso Senhor Jesus Cristo, que é a Palavra do Pai, e as palavras do Espírito Santo, que são espírito e vida. Esta Palavra do Pai tão digna, tão santa e gloriosa, o altíssimo Pai a enviou do céu por meio de seu santo anjo Gabriel ao útero da santa e gloriosa Virgem Maria, de cujo útero recebeu a verdadeira carne da nossa humanidade e fragilidade. Ele, sendo rico acima de todas as coisas, quis neste mundo, com a beatíssima Virgem, sua Mãe, escolher a pobreza. (....) Tenhamos igualmente caridade e humidade; pratiquemos a esmola, porque ela lava as almas das imundícies dos pecados. Pois os homens perdem tudo o que deixam neste mundo; levam, porém consigo, o fruto da caridade e as esmolas que praticaram, pelas quais terão do Senhor o prêmio e a digna remuneração. (...) Àquele a quem foi confiada a obediência e que é tido como maior seja o menor e servo dos outros irmãos. E faça e tenha misericórdia para com cada um dos irmãos, como gostaria que se lhe fizesse, se estivesse em caso semelhante. Não se ire contra o irmão por causa do pecado dele, mas, com toda paciência e humildade, admoeste-o e benignamente o apoie. Não devemos ser sábios e prudentes segundo a cerne, mas antes devemos ser simples, humildes e puros. (...) Nunca devemos desejar estar acima dos outros, mas antes devemos ser servos e submissos a toda criatura humana por causa de Deus. E a medida que todos aqueles e aquelas fizerem tais coisas e perseverarem até o fim, pousará sobre eles o Espírito do Senhor e fará neles habitação e um lugar de repouso e serão filhos do Pai celestial, cujas obras realizam. E são esposos, irmãos e mães de Nosso Senhor Jesus Cristo. Somos esposos, quando a alma fiel se une pelo Espírito Santo a Jesus Cristo. Somos seus irmãos, quando fazemos a vontade do Pai que está nos céus; somos mães, quando o trazemos em nosso coração e nosso corpo através do amor e da consciência pura e sincera; damo-lo à luz por santa operação que deve brilhar como exemplo para os outros” (Carta aos Fiéis).

São trechos entusiasmantes desta Carta aos Fiéis que nos leva a colocar-se de um modo semelhante ao Pai, Esposo, Irmão e Filho. Este é o segredo de ser um irmão e uma irmã menor. Viver a pobreza, a humildade, a submissão, a disponibilidade, e receber assim o Espírito do Senhor, que nos faz participantes da vida íntima, extraordinária, beatificante de Deus, com as qualidades de filhos e filhas do Pai, esposos e esposas do Filho, irmãos, irmãs e mães no Espírito. Um caminho sagrado, assim na terra como no céu.

Imagem que ilustra este post: Jose Benlliure

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sábado, 3 de outubro de 2015

A VERDADEIRA E PERFEITA ALEGRIA DE SÃO FRANCISCO



Todas as quintas-feiras, às 19h30, num Curso Especial aqui no Instituto Teológico Franciscano, um grupo de 40 pessoas reúne-se para ler, conhecer, estudar, conhecer, compreender e meditar textos das Fontes Franciscanas. É um paciente trabalho de exercitar o gosto pela Leitura Espiritual e buscar a adequada aproximação de um forte documento espiritual. Há uma reverência na leitura, porque se percebe as etapas da formação de um espírito próprio. Ler o ontem e trazê-lo para o hoje da pertença. A leitura de textos fontes vai dando mais nitidez ao que queremos neste mundo. Não é fácil fazer isto sozinho, por isso buscamos a força do grupo.

Terminamos nesta quinta-feira, dia 1º de outubro a Leitura das duas versões do texto "Da verdadeira Alegria e da Perfeita Alegria", uma versão original pertencente aos Escritos de São Francisco e a outra a versão ampliada na legendária versão de "I Fioretti", cap. 8. Dois textos que surgiram na paixão de uma procura e que revelam que a verdadeira e perfeita alegria não é o fazer, não é o status de cargos de mando, nem a evidência de obras extraordinárias, mas estar atentos ao surpreendente do Caminho que vai surgindo em cada passo, no vencer-se a si mesmo, no suportar pacientemente toda a realidade da vida que nos surpreende. Como? Sem perturbação, sem murmúrio, num modo de ser que assume a realidade situacional que se nos apresenta tal qual ela é. Assumimos na positividade ou na tragédia da negatividade? Mergulhar no interior da realidade é enfrentar a vida com serenidade.

O texto tem uma transição na pergunta existencial: Mas o que é mesmo a verdadeira e perfeita alegria? Na proximidade da Festa de São Francisco foi muito bom encerrarmos a leitura deste texto. Foi nosso caminhar de volta à Santa Maria dos Anjos, a Porciúncula, que aliás, não é um simples lugar, mas o ponto de partida e chegada de um encontro onde surgiu e sempre refaz o processo de caminhar num mesmo ideal fraterno. Ser o  que se é na caminhada. Suportar pacientemente a vida não é algo estático, mas caminhar vigorosamente para o coração do que somos. Assumir na cordialidade até mesmo as portas fechadas e a agressividade das palavras não acolhedoras.

Para Francisco, a interioridade é abraçar a Cruz e a sua convocação. A partir daí nada mais nos importuna, tudo se suporta na paciência do viver ao ritmo do Evangelho. Mas o que é a verdadeira e perfeita alegria? Ainda não sabemos plenamente, mas o texto em narração breve ou mais ampla, compacta ou floreada nos revela algo de muito profundo. Ele abre um processo de busca para a compreensão, e para um processo de transformação de pessoas evoluídas. Para mostrar o que é revela o que não é a verdadeira e perfeita alegria.

Ela não é o poder da sabedoria, não é o poder eclesiástico, não é o poder político e civil, não é o poder da pregação, nem o êxito da missão, nem o poder de curar e operar milagres. Nisto não está e nem consiste a verdadeira e perfeita alegria. O caminho traz provas e provações. Prestígio pode trazer sucesso, mas não realização. A questão é estar no caminho e ter um irmão que não abre a porta, estar na neve, na noite, no frio, na lama, na espera longa para ser atendido, ser provado pela distância e pelo cansaço, ser agredido em palavras e por um bastão, ser considerado simples demais, ignorante demais, não mais necessário para a comunidade. Há ideais que ficam fora enquanto os demais, que são tantos e tais, ficam dentro.

Mas onde está a verdadeira e perfeita alegria? Na paciência da compreensão do diferente. Se tenho paciência não serei perturbado. É a saúde da alma, mais forte que o corpo sofrido. A perfeita e verdadeira alegria não está no orgulho de viver sobre a proteção de uma instituição, mas sim em abraçar a despojada liberdade do Evangelho. No princípio era a pregação, mas agora é a palavra encarnada que não se altera diante de situações contrárias. Ser alegre, feliz e realizado não está em elementos externos de status, mas na integração pessoal. Não há discurso, mas a fala serena da não alteração. É difícil! Mas aí está a verdadeira e perfeita alegria. É uma busca! Um dia chegaremos lá! Lemos os textos para conhecer; e ler para conhecer é interpretar, e começar a interpretar é empreender um caminho de mudanças!

BOAS FESTAS DE SÃO FRANCISCO!

Frei Vitório

           

sexta-feira, 2 de outubro de 2015

AS PALAVRAS E CONSELHOS BROTAM DA PROFUNDIDADE DO CORAÇÃO DE FRANCISCO




No Espírito de Francisco, podemos dizer também, que o espírito da carne é a apropriação do Bem de Deus, o enriquecer-se, glorificar-se, a si mesmo às custas de Deus e do próximo. O Espírito de Deus é entregar-se a si mesmo por completo, dispor-se inteiramente ao serviço de Deus e do próximo, viver sem nada de próprio, ser um servo total do Senhor e da humanidade, sobretudo dos pobres. O irmão e a irmã Menores não reconhecem mais do que um só Senhor, a saber, Deus e seu Amor por toda humanidade. Quem ajusta a sua vida com este princípio, prega, como diz Francisco de Assis, com suas obras.

Claro que não conseguimos dizer, com nossas palavras, sem fundamentarmos nas Fontes, tudo o que São Francisco entendia sobre o espírito do Senhor e eu santo modo de operar. São Francisco expressou, com maior clareza, sua própria experiência mística, tão profunda, colocando em relevo sua íntima comunhão com o Pai, Filho e Espírito. Suas palavras e seus conselhos brotam da profundidade de seu coração e nos deixam sentir porque insistia tanto nas virtudes da cruz: pobreza, humildade, paciência, obediência, serviço, minoridade. Vamos analisar um pouco alguns pensamentos da Carta aos Fiéis.

Para quem escreveu Francisco esta carta? Para os fiéis leigos, consagrados a Deus, mas vivendo no mundo; aos cristãos que querem viver com seriedade o ideal evangélico; aos que Francisco propõe a mesma vida de amor radical. São homens e mulheres que querem fazer e viver uma vida de penitência no mundo. O essencial na Carta se resume em mostrar a autêntica penitência, que a conversão consiste em vencer o espírito do egoísmo ( o espírito da carne ) e uma total receptividade do Espírito do Senhor, no serviço a Deus, à toda humana criatura, e a todos os seres criados. Isto consiste em viver segundo o Evangelho: seguir as pegadas de Nosso Senhor Jesus Cristo! Em nenhum de seus escritos, Francisco de Assis se expressa com tanta naturalidade e autenticidade como nesta carta. Ele se dirige a todos os homens e mulheres que vivem no mundo e querem seguir em seu espírito o Espírito do Senhor.

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quinta-feira, 1 de outubro de 2015

O ESPÍRITO DO SENHOR SANTIFICA A PESSOA POR DENTRO


Tenho colocado aqui estes textos para mostrar a distinção que Francisco de Assis faz entre Espírito do Senhor e o espírito carne. O Espírito é o Santo Espírito do Senhor e o seu santo modo de operar; carne é tudo o que tem o nível da materialidade sem a presença do Espírito do Senhor. Vejamos o que ele diz na Regra não Bulada:

 “Por isso, na caridade que é Deus, suplico a todos os meus irmãos que pregam, que rezam e que trabalham, tanto aos clérigos quanto aos leigos, que se esforcem por humilhar-se em tudo e por não se gloriar nem regozijar consigo mesmos nem se exaltar interiormente das boas palavras e obras e menos ainda, de nenhum bem que Deus muitas vezes faz ou diz e opera neles e por eles, segundo o que diz o Senhor: Não vos alegreis, no entanto, porque os espíritos se vos submetem (Lc10,20). E saibamos firmemente que não nos pertence, a não ser os vícios e pecados. E mais devemos alegrar-nos, quando suportarmos quaisquer angústias da alma ou do corpo ou tribulações neste mundo por causa da vida eterna.
Portanto, acautelemo-nos, irmãos todos, de toda soberba e vanglória; e guardemo-nos da sabedoria deste mundo e da prudência da carne (Rm 8,6); pois o espírito da carne quer e se esforça muito por ter as palavras, mas pouco por fazer as obras, e procura não a religião e a santidade interior do espírito, mas quer e deseja ter a religião e santidade que aparecem exteriormente aos homens. E estes são aqueles de quem diz o Senhor: E, em verdade vos digo, já receberam a sua recompensa. O Espírito do Senhor, porém, quer que a carne seja mortificada e desprezada, vil e abjeta. E procura a humildade, a paciência e a pura, simples e verdadeira paz do espírito. E deseja sempre e acima de tudo o divino temor, a divina sabedoria e o divino amor do Pai e do Filho e do Espírito Santo (cf. Mt 28,19).
E restituamos todos os bens ao Senhor Deus Altíssimo e Sumo e reconheçamos que todos os bens são dele e por tudo demos graças a ele, de quem procedem todos os bens. E o mesmo Altíssimo e Sumo, único Deus verdadeiro, os tenha, e lhe sejam restituídos; e ele receba todas as honras e reverências, todos os louvores e bênçãos, todas as graças e glória, Ele, de quem é todo o bem, o único que é bom.
E quando nós virmos ou ouvirmos dizer ou fazer mal ou blasfemar contra Deus, nós bendigamos, façamos o bem e louvemos a Deus, que é bendito pelos séculos!"  (Rnb 17).

Aqui, neste trecho da Regra, Francisco de Assis deixa claro o que é essencial. O espírito da carne, o egoísmo, busca à honra e à glória, busca à boa aparência, se esvanece em palavras solenes, para ser bem visto por todos. Este é o orgulho e a vã sabedoria do mundo da carne. Já receberam a sua recompensa, uma santidade aparente. Mas o Espírito do Senhor santifica a pessoa por dentro, em seu coração; é ali onde opera a humildade, a paciência no sofrimento, a simplicidade, a paz, e sobretudo, as virtudes divinas: a reverência, a sabedoria e o Amor. Esta é a participação na santidade do Senhor, sua Fonte Única, em louvor e ação de graças.

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quarta-feira, 30 de setembro de 2015

FRANCISCO VIA ANTES OS VÍCIOS ESPIRITUAIS


Em Francisco existe uma atitude de moldar nos irmãos jovens, um modo de descobrirem, antes de tudo, seus defeitos espirituais e extirpá-los, mais do que as faltas corporais exteriores em que caíam. Francisco sabia que a santa obra do Espírito do Senhor supera o espírito da carne, o egoísmo do espírito e do coração, isto é, a soberba, a vanglória, a inveja, o pensar e fazer o mal, e tudo que é um obstáculo ao Espírito do Senhor. Vejamos em seu biógrafo: "Francisco, o homem beatíssimo, voltou corporalmente para junto de seus irmãos, dos quais, como foi dito, nunca se retirou espiritualmente. Entre os súditos, ele se comportava sempre com santa curiosidade, informando-se com prudente e cuidadoso exame dos atos de todos, nada deixando impune, se encontrasse algo de menos correto. E, de fato, primeiramente via os vícios espirituais, em seguida, julgava os corporais, extirpando por último as ocasiões que costumam abrir acesso aos pecados. Com todo empenho, com toda solicitude, guardava a Senhora Santa Pobreza, não permitindo, para não chegar a ter coisas supérfluas, que houvesse em casa sequer um pequeno vaso, pois que mesmo sem ele poderia fugir da escravidão da extrema necessidade. Dizia, pois, que era impossível satisfazer à necessidade e não se tornar escravo do prazer. Difícil ou rarissimamente admitia alimentos cozidos e, quando admitidos, muitas vezes, ou os condimentava com cinza ou extinguia o sabor do condimento com água fria. Quantas vezes, andando pelo mundo para pregar o Evangelho de Deus, convidado por grandes príncipes ao almoço, os quais o veneravam com admirável afeto, tendo degustado só um pouco as carnes por causa do Evangelho, colocava no bolso o restante, que parecia comer, levando a mão à boca para que ninguém pudesse perceber que ele fazia. O que direi sobre beber vinho, quando nem a própria água, abrasado ele pelo desejo da sede, admitia beber suficientemente?" (1Cel 51).

Imagem: Cena do filme "Francisco", interpretado por Mickey Rourke

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terça-feira, 29 de setembro de 2015

FIDELIDADE AO SENHOR


Francisco sabia que era tocado pela graça, mas para exercitar a humildade se considerava um pecador. Quanto mais sentia a graça de Deus que o preenchia, tanto mais experimentava sua impotência, seus limites e sua prostração. Por isto colocaram em seu pensamento a certeza de que o Amor não era suficientemente amado. E dizia com frequência aos irmãos: “Ninguém deve lisonjear-se com aplauso injusto de tudo aquilo que um pecador pode fazer. O pecador pode jejuar, rezar, chorar, macerar a própria carne. Mas isto não pode: ser fiel a seu Senhor. E assim, nisto devemos gloriar-nos: se rendermos a Deus a sua glória e, servindo-o fielmente, atribuirmos a ele tudo o que ele nos concede. O maior inimigo do homem é a carne; ela não sabe ensinar nada para afligir-se, não sabe prever nada para temer. O empenho dela é abusar das coisas presentes. E o que é pior, ela transfere para a sua glória o que foi dado não a si, mas à alma. Ela colhe o louvor das virtudes, o aplauso exterior das vigílias e orações. Nada deixando à alma, exige até mesmo a esmola das lágrimas” (2Cel 134). A nossa glória é esta única observância, fiéis até o fim, em levar cada dia a Paixão do Senhor, para vencer o único e grande inimigo: o egoísmo em si mesmo.

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terça-feira, 22 de setembro de 2015

FRANCISCO ENSINA SUPERAR O EGOÍSMO

Nas Admoestações XII, diz Francisco: “Assim se pode conhecer se o servo de Deus tem o espírito do Senhor: se seu eu não se exaltar, quando Deus realizar por meio dele algum bem – porque o eu é sempre contrário a todo bem – mas antes se considerar o mais desprezível e se avaliar como menor do que todos os outros homens”. Aqui aparece a compreensão que Francisco tem do Espírito do Senhor, que tem que superar em nós o espírito da carne, que é o egoísmo. O espírito do egoísmo é oculto, sutil, forte, e muito difícil de vencê-lo, descobrir e desmascarar. O espírito do egoísmo não poupa os bons, para que pensem que o bem que fazem é obra sua e não um dom da graça.

Corremos o risco de nos considerarmos melhores que os demais. Mas quem tem o Espírito do Senhor e o seu Santo modo de operar é humilde e se considera menor entre os menores. Exagero? Não! É caminho de quem conhece melhor a bondade do Senhor e por isso mesmo tem melhor consciência do próprio egoísmo. Por causa disso Francisco de Assis julga muito a si mesmo, mas não os demais. Olha a si mesmo controlando qualquer ostentação e egoísmo, olha os outros sob o filtro do olhar da graça do Senhor.

Nos conta Tomás de Celano qual era sua atitude quando o louvavam como santo: “Esforçava-se por esconder no arcano de seu peito os bens do Senhor, não querendo expor à glória o que poderia ser causa de ruína. Muitas vezes, de fato, quando era exaltado por muitos como santo, respondia palavras deste tipo: “Ainda posso ter filhos e filhas; não me louveis como se estivesse salvo! Não se deve louvar ninguém cujo êxito é incerto. Sempre que aquele que concedeu o empréstimo quiser tirar o que foi concedido, só restarão o corpo e a alma, coisas que também um infiel possui”. Na verdade dizia estas coisas aos que o louvavam. – E a si dizia assim: “Tivesse o Altíssimo concedido tantos bens a um ladrão, este seria mais grato do que tu, Francisco” (2Cel 133).

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terça-feira, 15 de setembro de 2015

SÃO FRANCISCO E A EUCARISTIA


Nas Admoestações 1, Francisco de Assis fala sobre o Corpo do Senhor, a Eucaristia. O Espírito do Senhor que está em nós recebe o Senhor Jesus que está na Eucaristia. É a visibilidade e o gosto do Espírito. Ver um Deus feito homem, corpo, sangue e pão. Um Deus presente que nos abre os olhos do Espírito, que nos permite vê-lo pela fé. É o Espírito que vivifica, que dá a carne, que corporiza. Sem o Espírito, a matéria de nada serve. O Espírito habita nos que creem e nos que recebem o Corpo e Sangue do Senhor. Quem crê come e bebe a própria compreensão. Há uma obra do Espírito na Eucaristia, uma íntima conexão. Ver o Corpo e Sangue com o olhar da fé, com os olhos do Espírito, é a prova que as palavras são espírito e vida (Jo 6,63).

Diz Francisco: “ (...) diariamente ele vem a nós sob a aparência humilde; todos os dias ele desce do seio do Pai sobre o altar nas mãos do sacerdote. E assim como apareceu aos santos apóstolos em verdadeira carne, também a nós se nos mostra hoje no pão sagrado. E do mesmo modo que eles, enxergando sua carne, não viam senão sua carne, contemplando-o contudo com seus olhos espirituais creram nele como no seu Senhor e Deus (cf. Jo 20,28), assim também nós, vendo o pão e o vinho com os olhos do corpo, vejamos e creiamos firmemente que é vivo e verdadeiro o seu santíssimo corpo e sangue” (Ad 1, 17-21).

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quarta-feira, 9 de setembro de 2015

O ESPÍRITO SANTO É O MINISTRO GERAL DA ORDEM


O último texto ou post conclama à obediência mútua entre superiores e súditos. Obedecer em tudo, menos aquilo que vai contra a sua consciência e a Regra. Como diz no Testamento, os superiores são seus senhores em cujas mãos se entrega. Quando os irmãos não puderem observar a Regra espiritualmente, que sejam acolhidos fortemente por seus superiores, que transformem estes irmãos enfraquecidos no espírito, como seus superiores.

O importante é que a obediência esteja em todos, e todos devem obedecer em primeiro lugar o Espírito Santo, que segundo São Francisco de Assis, é o Ministro Geral da Ordem. O Espírito Santo age santificando, faz na santidade, traz a qualidade de Espírito em todas as ações, transforma o fazer a oração em fruto divino, como diz a Regra Bulada : "Aqueles irmãos aos quais o Senhor deu a graça de trabalhar trabalhem fiel e devotamente, de modo que, afastado o ócio que é inimigo da alma, não extingam o espírito da santa oração e devoção, ao qual devem servir as demais coisas temporais"(Rb 5, 2-3).

O Espírito faz orar com o coração puro, em espírito e verdade. O Espírito fecunda o trabalho, a pregação e o estudo. Tudo o que é animado pelo Espírito é um serviço com espírito e é um serviço ao Espírito; o Espírito traz a consolidação e o favorecimento. Toda a obra do Espírito é obra da graça. O Espírito santifica as virtudes: humildade, paciência, minoridade e perseverança.

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quinta-feira, 3 de setembro de 2015

MANIFESTAÇÃO DE UMA FORÇA ESPIRITUAL



Gostamos muito de citar Francisco de Assis em seus Escritos, provamos com o depoimento de seus biógrafos a beleza do conteúdo das suas palavras e palavras a ele atribuídas pelas Legendas, mas ainda que Francisco seja divulgado e conhecido por suas palavras e expressões, não podemos esquecer que ele é a manifestação de uma força espiritual. É indispensável usar palavras para interpretar seu espírito, mas não podemos deixar de lado o olhar sobre o Espírito do Senhor que está por detrás de seus Escritos e relatos sobre ele. O verdadeiro Francisco está em suas Orações, Cartas e Regras que ele escreveu ou ditou, mas sobretudo a evidência que nele há o Espírito do Senhor.

Vamos relembrar aqui a Regra Bulada: “Os irmãos que são ministros e servos dos demais irmãos visitem e admoestem seus irmãos e corrijam-nos com humildade e caridade, não lhes ordenando nada que seja contra a sua alma e a nossa Regra. Os irmãos, porém, que são súditos, recordem-se de que, por amor de Deus, renunciaram às suas próprias vontades. Por isso, ordeno-lhes firmemente que obedeçam a seus ministros em todas as coisas que prometeram ao Senhor observar e que não sejam contrárias à alma e à nossa Regra. E onde quer que estejam os irmãos que souberem e reconhecerem que não podem observar espiritualmente a Regra, devem e podem recorrer a seus ministros. Os ministros, porém, recebam-nos caritativa e benignamente e tenham para com eles tanta familiaridade que eles possam falar-lhes e agir como senhores com seus servos; pois assim deve ser; que os ministros sejam servos de todos os irmãos. Admoesto, no entanto, e exorto no Senhor Jesus Cristo a que os irmãos se acautelem de toda soberba, vanglória, inveja, avareza, cuidado e solicitude deste mundo, detração e murmuração; e os que não sabem ler não se preocupem em aprender, mas atendam que, acima de tudo devem desejar possuir o Espírito do Senhor e seu santo modo de operar, rezar sempre a ele com o coração puro e ter humildade e paciência na perseguição e na enfermidade e amar aqueles que nos perseguem, repreendem e censuram, porque diz o Senhor: Amai vossos inimigos e rezai por aqueles que vos perseguem e caluniam. Bem-aventurados os que sofrem perseguição por causa da justiça, porque deles é o reino dos céus. Aquele, porém, que perseverar até o fim, este será salvo” (Rb 10, 1-13)

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segunda-feira, 31 de agosto de 2015

A ÚNICA COISA QUE INTERESSA A FRANCISCO


Francisco de Assis é o portador da paz e do bem porque procura restabelecer a paz e o bem onde não reina a harmonia. Ele é contra a violência, a guerra, a coação, as palavras agressivas, a opressão, as brigas. Luta contra o egoísmo porém nunca contra suas vítimas. Quer que a paz e o bem reinem entre senhores e servos, ricos e pobres, nobres e plebeus, sacerdotes e leigos. Procura vencer o mal pela fé e pelo bem, o melhor caminho para a paz.

Na sua minoridade não quer ser chamado de reformador, renovador, revolucionário; nem que assumir algum partido, que funda um movimento de contestação, ideologia, sistema ou grupo institucional. Ele não é filósofo, político ou teólogo. Ele quer a Fraternidade que mais tarde transforma-se em três Ordens. Ele quer ser o que sempre foi: Irmão Menor, servo de tudo e de todos, pobrezinho, que lava os pés de quem queira, como Jesus, experimentar ser tocado por forças divinas. A todos aceita e venera como seus maiores.

A única coisa que lhe interessa é a vida, a obra e o Espírito do Senhor e seu santo modo de operar. Ele é um homem de outro mundo não porque se desfez deste mundo, mas porque entrou no mundo de Deus que transforma este mundo. É o Reino e a Palavra que o encantam. Do Evangelho fez sua forma corporal e espiritual, sua fala, suas mãos e pés, carne e sangue, coração, corpo, mente, alma e caminho.


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quinta-feira, 27 de agosto de 2015

A SAUDAÇÃO DE PAZ E BEM


Francisco de Assis não transformou a saudação "Paz e Bem" num simples cumprimento religioso, mas sim num programa de vida. Desejar a paz e o bem a tudo e a todos é ter as melhores palavras e a melhor presença, é bem-dizer, é desejar o melhor; não é só dizer, mas fazer o bem, levar a saúde da alma, do corpo e das relações. Ter nos lábios o que pulsa no coração. É o contrário do mal-dizer, da negatividade, de falar apenas o mal. Reprova nos irmãos o maldizer. Ser um irmão e irmã é ser portadores de paz, do amor e do bem. No lugar da maldição colocar a bênção.  
                                                               
Francisco de Assis, diz na Regra Não-Bulada, Capítulo XII: “Portanto, acautelemo-nos, irmãos todos, de toda soberba e vanglória, e guardemo-nos da sabedoria deste mundo e da prudência da carne, pois o espírito da carne quer e se esforça muito por ter as palavras, mas pouco por fazer as obras, e procura não a religião e a santidade interior do espírito, mas quer e deseja ter a religião e santidade que aparecem exteriormente aos homens. E estes são aqueles de quem diz o Senhor: “Em verdade vos digo, já recebera a sua recompensa”. O Espírito do Senhor, porém, quer que a carne seja mortificada e desprezada, vil e abjeta. E procura a humildade, a paciência e a pura e simples e verdadeira paz de espírito. E deseja sempre e, acima de tudo, o divino temor, a divina sabedoria e o divino amor do Pai e do Filho e do Espírito Santo. E restituamos todos os bens ao Senhor Deus Altíssimo e Sumo Bem, e reconheçamos que todos os bens são  Dele e por tudo demos graças a Ele, de quem procedem todos os bens. E o mesmo Altíssimo e Sumo Bem, único Deus verdadeiro, os tenha, e lhe sejam restituídos; e Ele receba todas as honras e reverências, todos os louvores e bênçãos, todas as graças e glórias, Ele, de quem é todo bem, o único que é bom. E quando nós virmos ou ouvirmos dizer ou fazer mal ou blasfemar contra Deus, nós bendigamos, façamos o bem e louvemos a Deus, que é bendito pelos séculos”.

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terça-feira, 25 de agosto de 2015

FRANCISCO E O ESPÍRITO DO SENHOR


Francisco de Assis não somente fala do Espírito do Senhor e de seu santo modo de operar, mas mergulha nesta experiência vendo, sentindo, percebendo com toda a sua sensibilidade este Espírito que a tudo e a todos dá a vida. Isto traz a Francisco o querer bem, o querer fazer bem, o querer fazer o bem. É a fonte de seu louvor e de sua bênção. Deus é grande, único, o que faz as coisas bem feitas porque é o Bem e o Sumo Bem, o Benfeitor! Une o bem, a paz e a reconciliação. Francisco é muito sensível à paz. Este seu espírito de paz é sentir-se filho do Pai Comum e irmão de todos os que estão na Casa Comum. Não está contra nada, nem sequer contra o fogo que queimou sua face cauterizando a sua insuportável dor. Não está contra o ladrão que entrou em sua casa. Nunca esteve contra os que o consideraram louco.

Francisco de Assis é contra o espírito do mal, o demônio que se apega a materialidade, ao egoísmo, a  ganância e acúmulo de bens. Porém combate isto, em primeiro lugar em si mesmo. O excesso de egoísmo é seu inimigo principal e número um. Não dá para ser pobre sendo egoísta. Ser pobre é ter a coragem de repartir e receber. Com este seu jeito pacífico e reconciliado está bem entre pobres e ricos, entre sacerdotes e leigos, entre letrados e simples, no Evangelho e na Igreja, entre homens e mulheres, entre cristãos e não cristãos, entre os santos e pecadores; une carisma e instituição, o Papa e os Bispos, sacerdotes e monges, amigos e inimigos, plantas e criaturas todas, porque o Espírito do Senhor habita a todos. Para Ele, Deus é Uno e Trino, e quem se associa a Ele se faz Um e Comum com Ele.

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sexta-feira, 21 de agosto de 2015

O AMIGO É SEMPRE UM RECOMEÇO


Em Francisco o ser amigo está em consonância com o Espírito de Deus e de Jesus Cristo. Tratar com fineza cada ser é reconhecer esta presença sagrada em si, nos irmãos e irmãs e em todo ser criado. Para Francisco tudo é animado e possuído por Deus e não pelo espírito do mal ou da carne. Para ele, o espírito da carne é toda forma de egoísmo, orgulho, inveja, blasfêmia, dureza de palavras e insensibilidade. Estas formas de egoísmo espiritual ou corporal estão em contradição com a pureza de coração, espírito e corpo, com o Espírito da verdade e do amor, com a simplicidade, com o serviço pleno a Deus, a humanidade e a criação.

Quem entra no Espírito Amigo do Senhor, estará sempre num amor renovado e na bondade nova. Diz 1Cel 103: “Mas, embora o glorioso pai já estivesse consumado na graça diante de Deus e brilhasse com obras santas entre os homens deste mundo, no entanto, pensava sempre em começar as coisas mais perfeitas e, como cavaleiro instruidíssimo nos acampamentos de Deus, depois de ter provocado o adversário, procurava instigá-lo a novos combates. Tendo o Cristo como guia, propunha fazer grandes coisas e, enfraquecidos os membros e já quase morto o corpo, espera o triunfo sobre o inimigo em nova batalha. Pois a virtude verdadeira desconhece o fim do tempo, quando a expectativa da recompensa é eterna. Abrasava-se, por conseguinte, em desejo muito grande de voltar aos primórdios da humildade e, alegrando-se na esperança diante da imensidade do amor, pensava em levar de novo seu corpo à primeira servidão, embora já tivesse chegado ao extremo. Afastava totalmente de si os obstáculos de todos os cuidados e abstinha-se plenamente do estrépito de todas as preocupações. E quando por necessidade moderava o primitivo rigor por causa de sua enfermidade, dizia: “Comecemos, irmãos, a servir ao Senhor, porque até agora apenas pouco ou nada fizemos!”

Temos aqui a operação do Espírito que dá a vida, que é amor, fogo, vento, água corrente, sempre em movimento vivente. “Vede faço novas todas as coisas!” Assim devemos pensar como Francisco e precisar do amigo Francisco quando cremos que já chegamos, que já estamos prontos, que já podemos descansar, que sorrindo, fazemos algo de bom sem exigir mais... É preciso recomeçar! O amigo é sempre um recomeço.

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segunda-feira, 17 de agosto de 2015

DISCÍPULOS E APÓSTOLOS



Jesus não tinha servos, mas amigos. Aos amigos ensinou a ser discípulos e apóstolos. Segredou grandes ensinamentos que os levou a grandes práticas. Francisco viu virtudes nos amigos e disse que a soma de virtudes dos amigos identificava o frade perfeito (Cfr. Espelho da Perfeição, 85). Amigo para Francisco é fonte de todo bem, de toda palavra boa. Do Espírito do Senhor é que os amigos bebem no mesmo manancial, na fonte do amor mútuo, terno, paterno e materno. Amigo converte em vida a palavra. Amigo tem aquele jeito de ser pobre em muitas partilhas. É o terreno fértil da minoridade, onde aprendeu a florir irmandade vivificada, livre de egoísmo, que se reparte aos outros e a toda criação. O amigo não conhece o espírito da carne que é o egoísmo, mas sim o dom da pertença que é a fraternidade.

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quarta-feira, 12 de agosto de 2015

FRANCISCO E AS QUALIDADES DE UM AMIGO

Para Francisco, relacionar-se é experimentar o relacional e o criacional de Deus. A partir do amor de Deus e para com Deus convergem todas as relações. Relacionar-se é participar respeitosamente da vida dada por Deus, não invadir ou manipular. Deus é amigo e parceiro porque dá a vida, participa da vida, une humano e criação, perfeição e redenção, beatitude. Deus é o Bem, Sumo Bem, Todo Bem. Amizade é Bondade. Por isso, escreveu um bilhete para seu maior amigo, Frei Leão, mostrando como é estar junto:

“Vós sois santo, Senhor Deus único, que fazeis maravilhas. Vós sois forte, vós sois grande, vós sois altíssimo, vós sois o rei onipotente, vós, ó Pai santo, o rei do céu e da terra. Vós sois trino e uno, Senhor Deus dos deuses, vós sois o bem, todo o bem, o sumo bem, Senhor Deus vivo e verdadeiro. Vós sois amor, caridade; vós sois sabedoria, vós sois humildade, vós sois paciência, vós sois beleza, vós sois mansidão, vós sois segurança, vós sois quietude, vós sois regozijo, vós sois nossa esperança e alegria, vós sois justiça, vós sois temperança, vós sois toda a nossa riqueza até a saciedade. Vós sois a beleza, vós sois a mansidão, vós sois o protetor, vós sois guarda e defensor nosso; vós sois fortaleza, vós sois refrigério. Vós sois nossa esperança, vós sois nossa fé, vós sois nossa caridade, vós sois toda a nossa doçura, vós sois nossa vida eterna: grande e admirável Senhor, Deus onipotente, misericordioso e Salvador”.

 Francisco passa as qualidades do Amigo num bilhete para seu amigo Leão. Aprendamos com ele!

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sexta-feira, 7 de agosto de 2015

A ARTE DA FRATERNIDADE



Francisco amou tudo e todos sem cobranças, sem interferências, deixando cada um ser em seus dons, valores e virtudes. Jamais oprimiu alguém e consequentemente jamais oprimiu a criação. Hoje quem não sabe ter amizade, mesmo sendo o rei da criação, trata todo o ser criado como um tirano. Ainda que se fale tanto da técnica crescente, do refinamento da cultura, de tanta organização, socialização e globalização; mesmo assim há pessoas desamparadas, alijadas e alienadas de todos.

Os grupo vitais estão fragmentados: família, parentesco e círculos de amigos. Existem amizades pessoais? Sim! Mas elas estão muito fechadas, porque a partilha de uma forte amizade pessoal pode detonar competitividade e comparações, como se houvesse uma invasão de espaço. Francisco abriu e ampliou o círculo de suas relações; fez a arte da fraternidade, amou de um modo pleno, com toda a sua alma.

Para ele, a pessoa humana é percebida e buscada, e isso amplia a sua consciência de mundo. Hoje é a técnica que faz um suporte para um “faz de conta” em ser amigo: facebook, WhatsApp fingem ser relacionamentos, mas são palavras mecanizadas. Francisco rompeu com tudo isto. Porque ama Clara, Rufino, Leão, Ângelo e Jacoba de Settesoli, pode alongar um futuro relacional sem tamanho, e chega verdadeiramente à realidade, sem abandonar nada e ninguém.  O caminho percorrido por Francisco foi de corpo a corpo. Assim chegou à totalidade.

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terça-feira, 28 de julho de 2015

FRANCISCO E A AMIZADE


Francisco de Assis, amigo de Clara de Assis, amigo de Ângelo, de Rufino, de Leão, seu amigo pessoal, confidente, confessor e secretário. Francisco amigo de todos da Fraternidade, Francisco amigo e Irmão de todos os seres da natureza. Uma amizade de presença, carinho, reconhecimento, retribuição, elogios, uma amizade realmente fraterna. Ao seu redor todos se sentem amados.

No caminho de Francisco a amizade é uma seta indicativa de lugar relacional, porque traz a raiz sólida de uma força de convivência. Todo o bom relacionamento tem interferência  na vida e na prática. Como atuar no comum sem a força de um amor fraterno pessoal?  Olhemos para Francisco como ele se aproximava de tudo e de todos: como amigo e irmão, com amor cálido, cordial e intimidade fraterna. Temos que aprender com ele!

Nossas aproximações às vezes são de interesse, de afirmar nosso lado de saber, ter e poder. Isto atinge nossa formação, nossa eclesialidade e vivência comum. Nem sempre foi priorizado o âmbito do coração, do sentimento, da afetividade e da emotividade. Muitas vezes, quando temos aproximações marcantes com alguém, somos rotulados de carentes, além de aparecerem expressões de inveja, ciúme, repressões, tensões e rupturas.

Há amigos, se é que assim podemos chama-los,  que se aproximam enquanto levam vantagem. Depois entram num ostracismo sem tamanho quando você deixou de ser útil para eles. Porém,  há aqueles que despojadamente são fiéis escudeiros de uma vida.

Imagem acima de Piero Casentini: Francisco e seus companheiros.

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sexta-feira, 24 de julho de 2015

GARIMPANDO ALGUMAS ANOTAÇÕES SOBRE FRANCISCO DE ASSIS


Eloi Leclerc segue a mesma ideia ao contemplar Francisco como amante agraciado e genial. Com uma riqueza própria e excepcional de sua humanidade que trabalha bem o espírito, alma, coração, sentimento, afeto e emoção. É o caminho para amar de maneira única a Deus, o ser humano e cada criatura com tamanha profundidade. Francisco entendeu muito bem a Encarnação: o Espírito de Deus se fez de forma radical carne e sangue, se deu em todos os aspectos de pessoa, comunicou-se por inteiro como obra perfeita do Pai.

Eloi Leclerc diz que em Francisco há um humanismo afetivo, cósmico, de amor cordial sem restrições. Em Francisco, repetindo uma ideia de Chesterton, Leclerc diz que humanos e criação não formam um bosque, mas árvores independentes e únicas de uma floresta contemplativa. Cada pessoa e cada ser formam uma realidade única, objeto de um amor único. Isto traz simpatia, encanto, cortesia, nobreza, cordialidade, ternura, fineza de sentimentos, magnitude de espírito, amplidão para fazer brilhar em tudo uma amizade fraterna. Nele isto se transforma num desejo de paz, de todo bem, de bênçãos e graças, perdão, reconciliação, fraternidade recíproca, fidelidade e amizade, uma amizade diferenciada, honrada e preciosa.

Vejamos isto nas Fontes: “Um irmão de nome Ricério, nobre pela estirpe e pelos costumes, tinha tanta confiança nos méritos do bem-aventurado Francisco que acreditava merecer a graça divina quem possuísse o Dom da Amizade do mesmo Santo ou merecer a ira de Deus quem dela carecesse. E como desejasse ardentemente obter o benefício da amizade dele, temeu muito que o santo descobrisse nele algum defeito oculto e que por este motivo acontecesse que mais se distanciasse da amizade dele. Então, afligindo tal temor cada dia e gravemente o referido irmão, e não revelando ele o seu pensamento a ninguém, aconteceu que, num certo dia, perturbado como de costume, chegou à cela em que rezava o bem-aventurado Francisco. Conhecendo o homem de Deus a chegada e ao mesmo tempo o espírito dele, diz-lhe benignamente, depois de tê-lo chamado a si: 'Filho, doravante nenhum temor, nenhuma tentação te perturbe, porque me és muito caro, e entre os especialmente caros eu te amo com caridade especial. Venhas com segurança a mim, quando te aprouver, e te retirarás de mim livremente por tua vontade.' Aquele irmão ficou não pouco estupefato e se alegrou nas palavras do santo pai e em seguida, seguro quanto à afeição dele, cresceu também na graça do Salvador, como acreditara”. (2Cel 44).

Em Francisco a afetividade é um domínio da espiritualização da vida e da vivificação da vida no Espírito. É preciso conquistar pessoas amadas para a vida. Isto não é romantismo, mas Forma de Vida, Forma de Amor do jeito do Evangelho.

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quarta-feira, 22 de julho de 2015

GARIMPANDO ALGUMAS ANOTAÇÕES SOBRE FRANCISCO DE ASSIS

É preciso colocar o afetivo na fé. Em Francisco afeto e espírito não se separam. Experiência religiosa que não aceita o afeto, reprime o Amor. Em Francisco, o afeto é empenhar toda força amorosa do humano, fazer tudo com sentimento, emoção e coração, que traz uma fibra consistente à alma e aos sentidos. Francisco é um gênio do Amor no sentido mais divino e humano da palavra; dele emana uma força amorosa, um carisma maravilhoso de quem põe o coração nas mãos.

Ele encarna o verdadeiro amor materno que se entrega sem cálculos e limites, denso de fecundidade e liberdade. Ele se sente pai e mãe, irmão e irmã, isto não é apenas uma afirmação, é Regra de Vida: “E onde estão e onde quer que se encontrarem os irmãos, mostrem-se mutuamente familiares entre si. E com confiança um manifeste ao outro a sua necessidade, porque, se a mãe nutre e ama seu filho carnal, quanto mais diligentemente não deve cada um amar e nutrir a seu irmão espiritual. E se algum deles cair enfermo, os outros irmãos devem servi-lo como gostariam de ser servidos” (Rb 6).

Scheler, por sua vez, descobre em Francisco um talento amoroso insuperável em que o mais profundo do amor natural humano, marcado pelo desejo, pelo eros, se eleva ao mais puro ágape, ao amor cristão feito cáritas que se entrega a si mesmo, animado pelo Espírito. A profunda e terna amizade com Santa Clara é a mais bela adequação e coroamento do Amor Espiritual, a união do amor humano e do amor divino no seu modo mais pleno.

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sexta-feira, 17 de julho de 2015

GARIMPANDO ALGUMAS ANOTAÇÕES SOBRE FRANCISCO DE ASSIS


Nos surpreende em Francisco o modo como ele se vincula de corpo e alma, num enamoramento real com Deus, com as pessoas e com a criação. Muitos pensam que para ser santo é preciso amar apenas a Deus. Francisco mostra que também é preciso assumir a humanidade e a criação. Aí aparece a sua força de atração, de recriação e de renovação.

 Em 1945, De Greef escrevia: “Francisco viveu uma fraternidade autenticamente afetiva com animais e plantas, como só poderiam fazer as crianças, que veem tudo como criatura de Deus. Todas as criaturas são dignas de ter uma participação afetiva em sua vida. A intenção de Francisco é um meio de suscitar uma autêntica necessidade afetiva, imprescindível para uma autêntica humanização. Aqui se fundamenta a sua união afetiva com toda criação, que faz com que ele retome o cristianismo com brilho e plenitude excepcional.

Tudo leva a pensar que converter-se é sair da impotência dos limites para um autêntico amor, graças a esta contribuição única. Sem esta verdadeira conversão a um pleno amor para com todo ser criado, estamos perdidos, ainda que pese nossas conquistas em outros campos do conhecimento, da técnica e da ciência”.

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quinta-feira, 16 de julho de 2015

GARIMPANDO ALGUMAS ANOTAÇÕES SOBRE FRANCISCO DE ASSIS



Para Francisco é Deus, Pai, Filho e Espírito de Amor que revela o amor fraterno como mãe e filho: “E onde estão e onde quer que se encontrem os irmãos, mostrem-se mutuamente familiares entre si. E com confiança um manifeste ao outro a sua necessidade, porque se a mãe nutre e ama seu filho carnal, quanto mais diligentemente não deve cada um amar e nutrir a seu irmão espiritual?” (Regra Bulada VI,9).

Todo amor e bondade humana, toda beleza criada é uma participação, um dom de todo Bem, uma fonte de toda Beleza, que nos extasia: “Por conseguinte, Francisco, o fortíssimo cavaleiro de Cristo, percorria cidades e aldeias anunciando o reino de Deus, pregando a paz, ensinando a salvação e a penitência (...), não nas palavras persuasivas da sabedoria humana, mas na doutrina e no poder do Espírito. Estava agindo em tudo mais confiantemente pela autoridade apostólica que lhe fora concedida, não usando qualquer adulação, qualquer lisonja sedutora.

Não sabia afagar as culpas de ninguém, mas pungí-las (...) porque primeiramente persuadia a si mesmo em obra o que persuadia nos outros em palavras e, não temendo repreensor, falava a verdade com muita confiança, de modo que até homens letradíssimos, célebres em glória e dignidade, admiravam os sermões dele e na presença dele eram tomados por temor eficaz.

Acorriam homens, acorriam também mulheres, apressavam-se os clérigos, aceleravam os religiosos para ver e ouvir o santo de Deus, o qual parecia a todos um homem de outro mundo. Gente de toda idade e sexo apressava-se para ver as maravilhas que Deus de maneira nova operava no mundo por meio de seu servo. Realmente, naquele tempo, seja pela presença seja pela fama de São Francisco, parecia enviada do céu à terra uma nova luz que afugentava toda escuridão...” (1Cel 36). “Comovia-se acima da compreensão dos homens, quando nomeava vosso nome, ó Senhor santo, e, permanecendo todo em júbilo e cheio de castíssima alegria, parecia realmente um homem novo e um homem de outro mundo” (1Cel 82).

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