segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

NATAL É TRAZER À LUZ

A criança olhava curiosa o trabalho do eletricista que o pai contratou para uns reparos na instalação elétrica da casa. De repente, perguntou:
- O que é eletricidade?

Pacientemente, o eletricista respondeu:

- Sinceramente, não sei, filho. A única coisa que sei é que posso fazer com que ela lhe dê luz!
Que Mistério revela o Natal! Diante do Mistério, nós não temos compreensão, nem palavras. Há em nós um silêncio contemplativo como pastores olhando aquele Menino na manjedoura. Quando o Amor é grande demais, faltam dizeres. Mas uma coisa sabemos: a Vida ficou toda Iluminada! Por isso, hoje, não temos muitas palavras, mas queremos dizer à luz de todos os nossos gestos de cuidado e amor:

- Amamos muito você! FELIZ NATAL!

Feliz Natal!

Pastoris, presépios e lapinha

São Francisco introduziu na Itália e no mundo. Frei Gaspar de Santo Agostinho trouxe para Olinda e Brasil. Daí, então, a representação popular do Nascimento de Jesus é quadro de simplicidade, encanto, alegria, devoção, representação, arte, arranjo familiar da divindade tão caseira, tão próxima, tão feliz! A Lapinha com seu caráter dramático, música e encenação, bailado e textos especiais. O Pastoril mais profano: dança moderna com conteúdo nem sempre de um auto de Natal. O Presépio com a Sagrada Família e suas imagens que une mundos: o céu e a terra em silenciosa adoração. Nas palhoças, nos pátios, nos templos, nas casas, na visitação pública das exposições, Jesus, José, Maria, a Camponesa, Diana, Libertina, Linda Rosa, Lindo Cravo, Pastorzinhos e Ciganas, cortejo, flores e dança: Deus na festa da gente!

terça-feira, 14 de dezembro de 2010

Natal de Greccio: Bem-aventurados os que cuidam

Segundo a tradição, a primeira representação visualizada, teatralizada e celebrada de um Presépio aconteceu no ano de 1223, num bosque próximo de Greccio, na Úmbria, região da Itália. Quem tomou esta iniciativa foi Francisco de Assis, e,com isso, ele passa a ser primeiro a organizar de um modo plástico a cena da Encarnação do Filho de Deus. Encarnar-se significa morar junto, estar próximo tomar a mesma forma. Este é o cuidado de nosso Deus: ser um com o humano. Sair da gruta de Belém, do bosque de Greccio, numa verdade de colo,ternura, encantamento,fecundidade de pai e mãe, silenciosa contemplação de ofício de pastores.O presépio de Greccio lembra o calor humano que prepara o lugar para o divino nascer.Tudo se une! Animais, ovelhas,bois,o burro,pedras,árvores e plantas, céu estrelado, noite silente,anjos e canções. Há muita luminosidade em tudo e por tudo: a luz do Amor que aquece e a sensibilidade que observa um Deus ensinando convivência.


O Deus que ama e cuida prepara ali o futuro do mundo: a essência da vida não está no aparato técnico mas no afeto.Quem reinventa o Natal reencontra a humanidade e a vizinhança do sagrado.Aquele Deus Menino nos ensina que a essência da vida está sempre em preparar um lugar, uma casa, um ninho, uma manjedoura. A vida precisa de cuidado para subsistir! Se você cuida, uma Estrela Guia aparece no céu da sua vida indicando o caminho do bem, da bondade, da solidariedade, da porta que se abre, do presente que vem de longe ou de perto. O Natal de Greccio nos traz o mundo dos valores, dos símbolos e significados: quando se começa a acolher e hospedar tudo começa a dar certo! Na simplicidade do lugar a Vida foi recebida, o Verbo se fez carne, a Grandeza de um Deus se fez Criança. O gesto obediente de José, a inspiração lida no sonho, o sim gratuito de Maria, o jeito sagrado de ser família nos mostra que o cuidado é a base onde se revela a vida. Esta dimensão, que tem uma fonte espiritual inesgotável, nos prepara para grandes realizações.

Bem aventurados os que cuidam! Os que geram fraternidade, os que aproximam todas as criaturas, os que preparam o berço para o Divino e para o Amor! Bem-aventurados os que estão próximos dos relacionamentos mais simples, os que criam a inserção natural dos gestos mais generosos! Bem-aventurados os que vivem de um modo maternal, paternal e filial. Os que cuidam fazem nascer um Deus cada dia!

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

o Círio de Nazaré

No segundo domingo de outubro, em Belém do Pará, o Círio faz da cidade uma pororoca humana. Todos os anos, desde 1793, em Belém, Santarém e Marabá, um fenômeno religioso e social acende a grande tocha da fé. A Virgem serena com seu Menino com traços amazônicos, a berlinda, um andor sobre rodas puxado por fiéis, a chuva de papel picado, foguetório, bandeiras, bandas, carros de anjos, de promessas, de milagres, barcos e velas e remos, a corda, o clero, a comunidade, as bandas, o povo, a massa de fiéis tocando este cordão umbilical que une céu e terra, humano e divino, sagrado e profano. O almoço, o pato ao tucupi, a confraternização dos parentes, este pacto das almas com sua Mãe e seu Deus vencendo as angústias terrenas no meio da festença.


Texto publicado na "Folhinha do Sagrado Coração de Jesus"

segunda-feira, 4 de outubro de 2010

BOAS FESTAS DE SÃO FRANCISCO!

Compartilho com vocês as palavras e vida de uma amiga, Viviane Noel, Poeta de Respiração e Ação, que mora em Petrópolis. É um testemunho vivencial necessário. É, neste ano, as palavras que assimilei e partilho para este dia celebrativo, e que dão mística para celebrar Francisco de Assis.


As coisas não encontram eco em nós, senão quando nos deixamos encantar por elas. Não é por uma simples decisão de seu querer que o homem pode libertar-se de sua vontade própria. Deixado unicamente ao poder de seu querer, o homem ficaria irremediavelmente agarrado ao seu eu, como o banco de areia do seu destino; não permitiria que algo diferente dispusesse de seu ser. Só o encantamento opera esse milagre, por uma espécie de arrebatamento. Arrebatando o homem fora de si mesmo, o encantamento despoja-o do seu eu e o abre a uma profunda comunhão com o mundo. É com razão que P. Ricoeur escreve: “É o encantamento da poesia que me liberta de mim mesmo e me purifica”. A humildade franciscana, aproximando tão estreitamente o homem espiritual das coisas da natureza e, por isso mesmo, das suas próprias origens obscuras, seria impossível sem o espírito de poesia e de louvor que a sustenta. (LECLERC, 1999, p. 228 e 229)


Para finalizar minhas palavras, que pela sua própria natureza de encantamento e de poesia, não permitem um fim em si mesmas, mas uma eterna continuidade de arrebatamento diante do sagrado na criação, compartilho com todos uma real história de comunhão e de poesia.

Há vinte anos, numa árvore no quintal de minha tia, havia um ninho de tico-ticos. A mãe os alimentava constantemente, era aquela algazarra no ninho. Até que, numa manhã ensolarada, o gato de uma prima minha, muito esperto, subiu na árvore, derrubou o ninho e começou a devorar os pequenos passarinhos. Minha tia correu na tentativa de acudi-los, mas apenas um pôde ser salvo.

Sem saber ao certo o que fazer com aquele filhote, minha tia o entregou em nossa casa. Era tão indefeso, inocente e encantador. Tínhamos um bebê em casa, “um bebê de verdade”, comemorávamos meu irmão e eu. Nós o alimentávamos com papinha de fubá, pedacinhos de pão molhados no leite e frutas. Fizemos um ninho para ele de franelas. Era o nosso xodó! E seu nome: Pedrinho!!!!

O tempo foi passando, ele foi crescendo, suas penas também! Aos poucos, fomos incentivando-o a voar. Ele começou a bater as asas e a voar rasteiramente no colo do irmão vento. Ele gostava de ficar nos galhos das pequenas árvores em nosso quintal. Gostava também quando abríamos a mangueira e, com a água que escorria pelo chão formando poças, ele brincava e se banhava. Quando se cansava da farra, abria o bico e as asas para abraçar o irmão sol, que o aquecia depois de ter se refrescado com a irmã água.

Apesar de todo incentivo, Pedrinho não parecia querer bater as asas de vez. Formamos uma família! Ele crescia saudável e encantador, piava todas as manhãs até que déssemos bom dia a ele. Ele aguardava ansioso pelo café da manhã, não podíamos comer fruta alguma sem que o oferecêssemos também e ele não negava nenhum oferecimento, mas tinha predileção por melancia.

Pedrinho conhecia o barulho do carro de meu pai e fazia festa no poleiro, assim como nossas vira-latas faziam no quintal. Acompanhava minha mãe que cantarolava ao lavar roupa. Reconhecia de longe a voz e o assobio de meu irmão. Era um verdadeiro companheiro! Ele dormia numa gaiola, mas vivia grande parte do seu dia passeando pelo quintal ou mesmo dentro de casa. Era a atração da família. As crianças o adoravam, pois ele gostava de subir em seus pés, enquanto descansava um pouquinho. Tínhamos que ficar muito atentos com seus passeios pelo quintal, pois Pedrinho não tinha a menor preocupação com o perigo, todos os animais para ele eram amigos. Não temia nossas cadelas, nem mesmo os gatos dos vizinhos que se lambiam ao vê-lo.

Lembro-me de um dia em que eu estendi uma toalha no chão para pegar um pouco de sol. Deitei na toalha, enquanto o observava em suas andanças, ciscando na areia e beliscando algumas plantinhas. Quando eu menos esperava, Pedrinho estava ao meu lado, em cima da toalha, com asas e bico abertos. Que delícia de companhia! Eu curtia muito agarrá-lo, pois era muito fofinho, mas ele ficava bravo e me pinicava.

Por dezessete anos ele viveu em nossa companhia. Pedrinho foi meu companheiro de infância, de adolescência e de uma parte da minha vida adulta. Ele presenciou e fez parte de grandes transformações dentro e fora de mim, assim como da minha família. Quantas vezes desabafei com este amigo e pelo girar de seu pescoço e pela forma como piava, duvido que não me entendia.

Há dois anos, ele começou a apresentar alguns sinais de velhice. Um veterinário, criador de pássaros, ao saber da história dele, ficou boquiaberto, pois afirmava que jamais conheceu um tico-tico que tivesse vivido tanto tempo. Era fruto de muito amor e muito cuidado.

Pedrinho já sentia o peso da idade. Sua gaiola teve que ser adaptada para suas necessidades. Seus olhos já não enxergavam mais como antes, não havia mais firmeza em suas finas perninhas e seu canto já não mais ecoava pela casa. Doía acompanhar a irmã morte se aproximando de nosso tão querido amigo. Doía muito. No dia dois de outubro de 2007, brinquei no quintal com Pedrinho pela última vez. À noite, coloquei um pedaço de laranja para ele e, imediatamente, começou a bicá-la, ele se deliciava com as frutas. Minha mãe tapou sua gaiola e fomos todos dormir.

No dia seguinte, dia três de outubro, ao levantar para trabalhar, meu pai repetiu o rito de todo dia, ligou o rádio - Pedrinho gostava das músicas no rádio, cantava junto com elas - e foi levar um pedacinho de mamão para o Pedrinho. Nós sempre brincávamos dizendo que Pedrinho devia achar que meu pai era um mamão gigante, pois só lhe dava mamão todas as manhãs. Mas quando meu pai destapou a gaiola, Pedrinho estava caído morto em seu fundo. Que dor! Mas seu semblante era belo, estava em paz. E para a minha surpresa, o meu querido pássaro partiu no dia do trânsito de São Francisco, uma bela data para um pássaro alçar seu mais belo vôo!

Ainda escuto seu canto, ainda procuro por ele, ainda como frutas pensando em dividir com ele e não há um pássaro no céu ou na terra que não me faça lembrar do meu tão amado Pedrinho.

Foi na poesia e na amizade que minha alma encontrou, na natureza de um pássaro, o totalmente sagrado, a verdadeira irmandade, a verdadeira comunhão que se dá nas diferenças. E junto com o canto do Pedrinho que ecoará eternamente dentro de mim, louvo a Deus por todas as criaturas, especialmente o irmão Francisco que, ainda hoje, tem tanto a nos ensinar e a nos encantar!

Voe Pedrinho, voe com o irmão Francisco! Ouço o cantarolar de vocês dois e sinto uma alegria infinita em minha alma!

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

CLARA DE ASSIS - 3

Voltemos ao ponto nº 1 desta série de reflexões, onde situamos os fortes momentos celebrativos da presença de Clara de Assis no mundo. Estamos no Grande Jubileu e, por isso, toda a família franciscana espalhada em todos os cantos da terra e, sobretudo, as Irmãs Clarissas comemoram os 800 anos da Vocação de Santa Clara. Vamos apresentar as linhas mestras deste Grande Jubileu, que serão a base de futuras reflexões aqui neste blog.


6. 1212 – 2012: 800 ANOS DA VOCAÇÃO DE SANTA CLARA. Todo Jubileu, bem preparado e fortemente vivido, torna-se um privilegiado tempo de vivência espiritual. A história de uma alma santa nos santifica. Comemorações externas provocam festas dentro de nós. Detalhes de uma vida santa molda em nós um encantamento único pelo Carisma, pela vida das Clarissas, um aprofundamento na vida, história e presença das três Ordens, interiorização, novos textos, novos livros, artigos, preces, canções e liturgias. Afloram os dons das Irmãs de ontem e de hoje, há uma imensa partilha fraterna em toda a Família Franciscana e Clariana. Com quais conteúdos o Grande Jubileu está sendo celebrado? Vejamos:

2009 - A VOCAÇÃO – Identidade e Relação com a Primeira Ordem. Redescoberta das Fontes.

2010 - A CONTEMPLAÇÃO – Vida Espiritual e Vida em Cristo. Escuta, Silêncio, Conversão.

2011- EM ALTÍSSIMA POBREZA – Pobreza, Minoridade, Despojamento, Restituição.

2012- A SANTA UNIDADE

Como é bom celebrar e ter o que celebrar! Este Grande Jubileu é um reencantamento do Carisma, é, mais uma vez, apresentar ao mundo a Identidade das Clarissas, revelar o seu Projeto Pessoal e Comunitário.

Quantos estudos, reflexões, retiros todos focados na fontal espiritualidade de Clara e Francisco. Um jubileu traz a Palavra de Deus nas Escrituras, na Teologia, na Eclesiologia, no Franciscanismo, e como isto é importante para a Espiritualidade geral!

Pessoas são convidadas, há solenes e simples momentos de memória, partilha e celebração, há leituras de textos fontais, a Regra e o Testamento são revisitados, os Escritos e Preces de Clara são alvos de fecundas releituras. Isto dá brilho às escolhas, aos Votos e à vida fraterna. O povo vem, benfeitores são convidados, a Folhinha do Sagrado Coração de Jesus registra em suas míticas pagelas, as paróquias anunciam, os encontros acontecem, novos documentos surgem, preces e poesias; a federação de Mosteiros vibra e se organiza, a Família Franciscana faz documentos, subsídios e Jornadas. O Serviço de Animação Vocacional fala de Clara, boletins e blogs, sites, internet e assessorias, enfim os meios de comunicação social publicam e, assim, Santa Clara, cada vez mais é conhecida.

Uma data move a criatividade de todos e a consciência. Há 800 anos Clara saiu de sua casa paterna, encontrou-se com Francisco em Santa Maria dos Anjos e ficou para sempre em nossa lembrança. Hoje, Clara não é só das Clarissas; é a Clara da Televisão, Clara do tempo bom, Clara das Congregações Femininas, Clara do Ramo de Oliveira, Clara dos Filmes, Clara dos Musicais, Clara dos Centros de estudos de Franciscanismo, Clara do Frei José Carlos Pedroso, Clara em muitas obras, Clara em muitos nomes de mulheres, Clara nas Cartas dos Ministros Gerais, Clara no samba de Jorge Benjor, Clara nos Cds e nas Cantatas, Clara em vídeo, Clara encarnada em cada Irmã Clarissa espalhada nos silenciosos e alegres Mosteiros, Clara como a Luz! Que beleza de Jubileu é este!

segunda-feira, 30 de agosto de 2010

CLARA DE ASSIS - 2

No dia 18 de Março de 1212, Clara de Assis sai de sua casa e vai para a igreja de Santa Maria dos Anjos, a Porciúncula, encontrar-se com Francisco de Assis.

De modo que estamos numa caminhada jubilar, para celebrar em 2012 este encontro que marca para sempre a história da Ordem. É um momento privilegiado para, mais uma vez, redescobrir Santa Clara, a mãe, esposa e irmã de toda família franciscana. É muito comovente o reencontro com a mãe! A partir de então, a Ordem tem uma faceta feminina. Clara traz o brilho da personalidade e a força de seu carisma pessoal. Tem a mesma escolha de Francisco: o Evangelho. O que a move é o Amor a Jesus, Pobre e Crucificado. O Deus humilde, simples, despojado. A grandeza de um Deus que se fez servo. Ela também quer ser assim, de grande dama da sociedade assisiense, ser serva e irmã de inumeráveis irmãs. Quando o Amor é grande demais não dá para ser sozinha: arrasta consigo uma família de Irmãs que, assim como Clara, ganha juventude através dos séculos.
Com certeza, podemos dizer que, sem Clara, a experiência de Francisco não seria completa. Ela é uma testemunha excepcional da busca radical da vivência do Evangelho que abalou Assis a partir destes seus dois jovens cidadãos. Entre Francisco e Clara está um protótipo de um ideal, um modelo pleno de humano, uma conversão que mistura radicalidade e ternura, espírito e afeto. Escreve Caetano Esser, um dos grandes estudiosos do Franciscanismo: “Clara seguiu de perto São Francisco na sua nova vida e nas vivências do início da Ordem. Dele assimilou profundamente o Espírito, conservando em si o estado mais puro deste Espírito. O seu testemunho é digno da mais alta consideração” (Origem e Valores Autênticos da Ordem, Milão,1972).

Imagem do Painel no Colégio Nossa Senhora Aparecida - Consa - das Irmãs de Ingolstadt, em São Paulo.

quarta-feira, 25 de agosto de 2010

CLARA DE ASSIS - 1

Até inícios do século XX, a vida de Santa Clara era conhecida somente através de biografias cheias de devoção e baseadas em sua Legenda e em certos contos fantásticos. A vida de pessoas santas, sobretudo, aquelas que vêm do mundo medieval, não podem fugir da força legendária, uma narração feita unicamente para a edificação do espírito. Aos poucos, Clara de Assis vai revelando sua atraente vida, sua clara espiritualidade e mística, obra e escritos, sobretudo a partir destas ocasiões celebrativas:

1. Até 1912 o conhecimento de Clara estava mais no espaço fecundo dos Mosteiros e nas 21 mil Clarissas espalhadas pelo mundo todo. Neste ano de 1912, temos os 700 anos da VOCAÇÃO DE CLARA e da FUNDAÇÃO DAS CLARISSAS. Nascem aí estudos aprofundados, crescem as pesquisas e investigações. Lazzeri, entre os anos 1919 e 1920, descobre e publica o PROCESSO DE CANONIZAÇÃO.

2. Em 1953, temos os 700 anos da MORTE DE SANTA CLARA. Surgem as publicações das CARTAS DE SANTA CLARA PARA INÊS DE PRAGA, que passam a ser um marco para a Espiritualidade pessoal de Clara.

3. Em 1965, o Concílio Vaticano II faz a grande convocação para a VOLTA DAS ORIGENS. Conhecer os fundadores e fundadoras, seus Carismas específicos, escritos, biografias, literatura, enfim as FONTES, para colher desta riqueza a autenticidade e o ideal como base da renovação das famílias religiosas. O Franciscanismo na sua vertente Clariana descobre, com este impulso dado pelo Concílio, uma verdadeira e própria espiritualidade.

4. Em 2003, celebramos os 750 anos da MORTE DE SANTA CLARA. Vieram com isto publicações de muitos livros, artigos e muita divulgação da Legenda de Santa Clara.

5. De 2009 a 2012: 800 ANOS DA VOCAÇÃO DE CLARA! Estamos em pleno Tríduo deste grande JUBILEU e este é o motivo dos textos que apresento aos poucos neste blog. O Carisma Franciscano precisa da presença e inspiração de Santa Clara de Assis. Então comecemos a conhecê-la, amá-la e bem pensá-la em nosso coração:

quarta-feira, 11 de agosto de 2010

Hoje é FESTA DE SANTA CLARA DE ASSIS
e quero lembrá-la assim...

Santa Clara nasceu em Assis, no dia 16 de julho de 1193. Seu nome era Chiara di Messere Favarone, nome que evocava a força da família nobre. Nobre de nascença, nobre de costumes. Um pai, senhor feudal e cavaleiro. Família que tinha um palácio na cidade e um castelo no campo. Bela de rosto e rica de bolso. Uma mãe, Hortolana, mulher culta, sensível, líder e viajada. O pai morre cedo e a vida de Clara é conduzida por um tutor, seu tio Monaldo. Uma biografia simples com final previsto para o comum: arrumar um marido influente, rico e nobre para dar continuidade à estirpe dos Ofredducci Favarone.

Porém, aconteceu o oposto: a bela, e não despercebida Clara, é voltada para o espiritual, para a piedade, ama os pobres, é desapegada de sua herança, mistura-se com a vassalagem, acredita nos loucos sonhos de um jovem convertido que faz rumor em Assis, Francesco di Bernardone. Uma mulher prometida a cavaleiros, reis e príncipes, resolve prestar atenção num jovem deserdado pelo pai, que se desfaz do status de novo rico e resolve abraçar valores do Evangelho. Um mendigo penitente que vai criando um itinerário de vida. Mas não é o jovem que a atrai, mas sim o Evangelho percebido não como letra, mas como pessoa: Jesus, Francisco, leprosos, pequeninos, vermes do caminho e marginalizados. A Boa Nova não é só para monges, teólogos, clero, prelados e pregadores, a Boa Nova vale para todos os detalhes da bela Úmbria.

A menina Clara, com treze anos começa a perceber isto. O jovem Francisco, com 25 anos já está de carne e osso, hábito roto e calos nas mãos, olhos brilhando, e uma incontida alegria, totalmente envolvido no projeto de fazer o Amor ser amado. Clara tinha um primo, Rufino, que fez estrada com Francisco. Quando completou 18 anos, ajudada por uma governanta, fugiu de casa para ser livre na escolha. Se casar com um da mesma classe social era sonho da sua família; amar todas as classes sociais, incondicionalmente, era um sonho seu, atrelado a um acolhimento divino. Foi juntar-se com Francisco e seus companheiros em Santa Maria dos Anjos. Antes mandou apoio, ajuda e boas energias para o grupo que já estava lá. Quando se juntou à Fraternidade primitiva, cortou os cabelos e os cordões umbilicais do seu brilhante passado de moça rica.
Havia no ar a psicose da heresia que não a permitiu ser mulher entre homens penitentes. Foi viver um tempo num mosteiro de Beneditinas e depois, junto ao altar, presépio, cruz e eucaristia, ao Espírito Comum e Francisco, ao discernimento na prece, encontrou o seu lugar definitivo: cuidar da inspiração junto à Cruz de São Damião. Seu tio, cavaleiros a serviço da família procuraram, usando a força, levá-la de volta para a casa. Mulher que ama não conhece caminho de volta. Não tem retorno. Olha para a frente e abraça a vida de oração, silêncio, contemplação, ação, elementos de uma vocação que não diminuiu sua beleza e força de atração. Duas irmãs de sangue e sua mãe foram morar com ela no novo mosteiro. Nascia uma nova Ordem, as Damas Pobres, as Clarissas. Assim nasceu Clara de Assis, uma raiz forte da frondosa árvore que começou a ser semeada por Francisco de Assis.

Clara foi mais irmã que abadessa; encarnou humildade e sobriedade, paciência e serviço, cuidou com bênção e carinho das irmãs enfermas e fracas. Fez penitência sorrindo e caridade abrindo o mosteiro para os arredores. Assis e o mundo olhavam estarrecidos aquela jovem decidida que abriu mão de riqueza, de baú de jóias e vestes, valores do mundo, para seguir apaixonadamente Jesus. Transformou a sua condição social em força espiritual: ser cristã é casar com o Deus humilde, pobre, crucificado. Mostrou que beleza é Espelho do Sagrado. Que clausura não é fechamento, mas abertura para a escolha mais livre de Amor. Clara de Assis é uma heroína do desapego. Escondeu-se para deixar transparecer uma Verdade Maior. Hoje é para nós uma luz de personalidade forte, atitudes generosas, sensibilidade, este modo histórico de como o sagrado feminino se revela. Não renunciou o Amor, apenas purificou a escolha: tornou-se vassala do Grande Rei.

Muitos pensaram que era uma mulher frágil e manipulável por bulas, decretos, regras, protecionismo e propriedade curial. Ela mesma pediu um privilégio, garantido em 1228, de colocar tudo em comum sem acumular nada. Aprendeu com Francisco que ser pobre é pra valer: não ter nada mesmo para possuir a Única Riqueza que preenche o coração: Deus e a Fraternidade. Os dois foram os últimos da história a conseguir viver isto de um modo absoluto. Clara não ficou para a história como uma ex-rica. Permanece como uma mulher santa, irmã, esposa e mãe que guia vidas. Hoje tem mais de 21 mil seguidoras no mundo. O seu pobre mosteiro continua sendo uma mina de pedras preciosas lapidadas pelo Altíssimo. Nos últimos dias de sua vida escreveu uma Regra que muitos acham que é igualzinha a de Francisco; mas examinando bem é apenas um jeito de ser clara, de ser filha, de ser esposa, de ser irmã, de ser espelho do Evangelho. Não é apenas uma Regra de Vida Monástica, é um modo terno, forte e leal de organizar a vida seguindo o destino do Amado.

terça-feira, 27 de julho de 2010

IDENTIDADE HUMANA FRANCISCANA - final

Nas escolas se forma para não existir. Nas universidades, um discurso cada vez mais técnico, prepara um mundo de profissionais saindo com visão estreita, especialistas de um reduzido espaço de compreensão. Muita gente entende de muita coisa, porém não fala de Biologia; é como se a belíssima e misteriosa sinfonia da grande evolução orgânica não encontrasse um lugar. A falta de visão de mundo leva a humanidade a viver em briga com o resto da criação.

“Francisco, vai! Restaura a minha casa!” É sempre útil falarmos da casa e estarmos em casa. A crise ecológica é não saber estar em casa. É crise de relação entre o humano e as coisas, o humano e todos o seres viventes. Restaurar a casa é aprender a falar do lugar que habitamos; é dizer e sentir, expressar tudo e todos sem esquecer nada e ninguém. Não há sentido um esquecimento da ecologia e a antropologia: “Quando olho o firmamento que criastes pergunto: quem é o humano para que dele vos lembreis?” (Salmo 8)

Devemos voltar a ser os Meninos do Dedo Verde, isto é, em tudo o que tocarmos recuperarmos a beleza e a harmonia. Diante do novo indecifrável, face ao grande mistério da vida, frente ao maravilhoso e infindo cosmo criado, ao nos medirmos com o engenho e arte do próprio humano... Qual é a nossa posição?

segunda-feira, 26 de julho de 2010

IDENTIDADE HUMANA FRANCISCANA - XX

“Quando pensamos no século XXI, pensamos em tecnologia, viagens espaciais, biotecnologia, robôs. Mas a imagem do futuro é mais complexa do que a tecnologia que nós usamos para visualizá-la (...) Os avanços mais estimulantes do século XXI ocorrerão não por causa da tecnologia, mas pela expansão do conceito do que significa ser humano” (Naisbitt, in Megatrends 2000).

O modelo de humano, que é Francisco de Assis, pode nos resgatar da miséria existencial; pode alertar o mundo que, em certos momentos, assume posturas de quem está caminhando para um suicídio coletivo. O sociedade tecnicista e industrial vai demolindo ecossistemas essenciais para um suporte da vida. Nunca se falou tanto de ambiente, em consciência ecológica, em ecologia. Seminários, palestras, campanhas, camisetas, documentários, filmes, Greenpeace, protestos, passeatas, partidos verdes, ambientalistas, ecólogos... num terrível discurso técnico cheios de soluções, cheios de métodos e remédios, mas sem entrar na causa da doença. A causa é mais profunda; falta uma cosmovisão, falta um engajamento na vida como ser vivente.

Muitos viajam e sobrevoam paisagens fantásticas, mas não olham pela janela. A maioria das pessoas não enxerga o mundo. Nossas estradas estão emolduradas de entulhos; a mansão linda joga lixo no terreno baldio que está ao lado ou na frente; o mundo de todo mundo termina na sua própria cerca. Amazônia é uso e turismo; ninguém vai lá para fazer imersão num sistema vivo; preferem fazer imersão numa língua estrangeira ou comprar souvenirs do Mickey e companhia.

Continua amanhã

quarta-feira, 21 de julho de 2010

IDENTIDADE HUMANA FRANCISCANA - XIX

Gosto de usar a palavra Poesia, palavra grega "póesis”, que significa “o fazer perfeito”, a vivência atenta, a admiração, o encantamento. Francisco de Assis é um Poeta da Vida. A Idade Média nos legou este homem santo, um enamorado pela vida e pelo Deus da vida. O seu ideal se encontra lá onde floresce a verdade, onde se prega a formação do humano total, onde vicejam a fraternidade, o amor, a ternura, a sensibilidade, a comunhão com tudo e com todos. Francisco é conduzido por Deus, mas mergulhado na terra, irmão de toda criatura. Ele não queria ser dono e senhor de ninguém, mas ser irmão da água, do fogo, das estrelas, do sol, da lua, dos pássaros, florestas, árvores, plantas, do verme rastejante,captando assim que a vida é parte de um todo.

Francisco se coloca nesta esteira admirável de engrandecimento e respeito por todo o mundo criado, nada destruindo, nada ferindo, nada prejudicando, quase que pedindo licença para pisar o chão; desculpando-se com a irmandade por não servi-los o bastante.

Continua amanhã
Imagem de P. Casentini

terça-feira, 20 de julho de 2010

IDENTIDADE HUMANA FRANCISCANA - XVIII

Francisco é sempre atual porque a liberdade e a felicidade buscada na sua efervescente juventude não envelheceu. Não parou no tempo, mas rejuvenesceu cada momento de sua vida com uma liberdade profunda e infinita. Livre de qualquer amarra, abandonou-se no colo do Pai do Céu e sua santa vontade. Sua sede de conquista foi conquistar irmãos e irmãs para as verdades do Evangelho, para a paz e para o bem. Não perdeu o seu anseio de estar rodeado de amigos, de alegria, de festas, de música e danças. Tudo isto teve continuidade numa ardente fraternidade. O franciscanismo não é triste e ensimesmado, mas é cheio de sociabilidade, de acolhimento, de oração alegre, de jeito festivo e vivencial. É um humanismo divinizante.

O jeito franciscano de viver a vida inspirou Giotto, Tasso, Rafael, Murillo, Vasco da Gama, Palestrina, Galileu, Pélico, Volta, Galvani, São João Maria Vianney, Ozanan, Pacelli, Newman, Gounoud, Mercier, Papini, Inácio de Loyola, São Vicente de Paulo, São Francisco de Salles, São Vicente Palotti, Santo Afonso de Ligori, Hélder Câmara, João XXIII, Bento XV... e todos nós, entre milhões de anônimos.

Continua amanhã

segunda-feira, 19 de julho de 2010

IDENTIDADE HUMANA FRANCISCANA - XVII

Ser humano franciscano é revelar-se pessoa de ideias claras, definidas, seguras, de opções profundas e progressos amplos, senda da perfeição. Sair de uma natureza agitada, para um equilíbrio emocional admirável, uma integração interior harmoniosa, que se traduz para vivência habitual da paz íntima, do amor autêntico, da fraternidade com todos os seres, do interior para a harmonia exterior. Ser humano franciscano é sensibilizar-se pela integração e maturidade humana que não deixa de buscar o sagrado. Ser humano franciscano é fazer da sua personalidade uma constante busca do natural e do sobrenatural, bebendo na fonte da intuição e da realidade transformada. Permitir que a Graça realize maravilhas! Não deixar de perceber que Natureza e Graça andam lado a lado, e que todos os sentidos se harmonizam.

Não basta apenas humanizar o Amor, é preciso espiritualizá-lo. Isto faz do Amor uma oblação; como cantamos na prece: "Ó Mestre, fazei com que eu procure menos ser amado, do que amar!” Ser humano franciscano é Amar com projeto de Amor. Amar o bom e o mau para mudá-los. Amar o pobre e o rico para aproximá-los e criar uma fraternidade de bens e dons. Amar o homem e a mulher para espiritualizar o Amor. Amar o são e o doente para curar corpo e alma. Amar todas as criaturas para criar a fraternidade universal e a consciência planetária. Cantar com todos os seres o Amor do Criador de todos os amores. O caminho da perfeição é a trilha do amor divinizante.

Continua amanhã

sexta-feira, 16 de julho de 2010

IDENTIDADE HUMANA FRANCISCANA - XVI

Um tipo como Francisco é flor da humanidade. Tem que ser colhida no seu esplendor. É humanidade dignificada pelo espírito. Nós pensamos santidade como pessoa canonizada. O franciscanismo pensa santidade como plenitude humana, transbordamento do que se tem como natural e sobrenatural. É a resposta mais sublime da natureza humana à busca da perfeição. É a forma mais integrativa de ser uma pessoa feliz e bem realizada.

Ser franciscano é transfigurar a natureza, complexa, com virtudes conquistadas, em meio a crises e vitórias. Ter a coragem de ser modelo de uma personalidade equilibrada e feliz. De desequilíbrios e desequilibrados a vida já está cheia. Faltam Franciscos!

Não podemos esquecer que ele viveu, nos inícios do seu caminho, o gosto de uma vida medíocre e comum, como qualquer pessoa no mundo; comprazendo-se sobremaneira com as consolações humanas do ter, poder e saber. Depois rompeu com o agradável fácil, que não o fazia feliz; desprendeu-se das necessidades, para abraçar, cada momento, o desejo de ser melhor. Viveu uma atmosfera de permanente sobrenaturalidade. O franciscanismo é apelo para uma humanidade mais radiante, totalmente livre, encantada e com a mística das miudezas diárias.
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quinta-feira, 15 de julho de 2010

IDENTIDADE HUMANA FRANCISCANA - XV

Diz Carlos Zagonel: "Francisco emergiu em sua vida num mundo novo, sem ambições de liderança, mas o Senhor o constituiu líder de um número incontável de homens e mulheres de vontade boa que, em todos os tempos e de muitas maneiras, procuram servir a humanidade de seu tempo, com simplicidade e coragem. Simplicidade de quem não é ambicioso e coragem de quem não tem medo de inovar” ( Zagonel, in “Contexto Histórico de Francisco” ).
A partir de uma natureza bruta, como um belo bloco granítico, pedra pura ou cepo de madeira, de onde surgem obras primas de escultura e de arte genial, Francisco passa pela fase cruciante da conversão e se transforma numa imagem transparente e personificada de um humano divinizado. O santo é a obra prima do humano. Grande homem, grande santo. O franciscanismo existe para santificar a nossa frágil humanidade, existe para esculpir em nós uma obra de arte humana.

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terça-feira, 13 de julho de 2010

IDENTIDADE HUMANA FRANCISCANA - XIV

O que aprender com o arquétipo humano que é Francisco de Assis? Se buscamos graus de competência profissional, por que não buscar, como ele, graus de perfeição? É um humano pleno, simples, transfigurado. Precisamos aprender com ele e com Jesus Cristo que transfigurar não é mudar de figura, mas revelar-se no que se é. Transfigurar é estimular a vida sempre para o melhor. Muitas pessoas deixam-se levar, em suas naturezas, pelo caminho da facilidade e da mediocridade, da omissão e da covardia, da violência ou da maldade, da passividade e do desespero. O franciscanismo é uma proposta para olhar mais o tesouro do caminho, a pérola mais preciosa, o saber por que viver. Não podemos frustrar a nossa preciosa existência. Viver é saber por que viver!


Francisco orientou a sua vida para o caminho não muito fácil, mas gratificante, de buscar só o Bem, o Sumo Bem, o Bem Pleno, o Bem Total, o Amor que precisa ser Amado, a Verdade. Francisco fundamentou a sua existência nas normas do Criador de todas as criaturas, “do qual vem todo o bem” e, de toda felicidade real, não ilusória. Lutou para desenvolver a sua potencialidade humana, que recebeu do Pai, e por isto saiu dos projetos de Pedro Bernardone para ir buscar um caminho de virtudes nas estradas da vida. Quis viver cada instante na paz e na união, no amor e no perdão, na compreensão e no diálogo, na comunicação de si e doação oblativa aos outros. Na integração de todas as suas dimensões humanas e espirituais, para realizar a obra prima de um homem perfeito, quanto possível, à imagem do Criador. Ele não quis ser igual ao Bill Gates, que também tem méritos; ele quis mais, ele quis ser igual o Pai do Céu.

Continua amanhã. A imagem de P. Casentini.

segunda-feira, 12 de julho de 2010

IDENTIDADE HUMANA FRANCISCANA - XIII

Em ritmo crescente, a pessoa desabrocha e vai se plenificando na infância, na juventude, na idade adulta e na velhice, perfazendo o ciclo de sua vida. Esta vida, assume sentido conforme os valores que a conduzem e impregnam. O franciscanismo traz valores para impregnar a vida.
Nem sempre nossa vida é perfeita, como gostaríamos, dentro da contingência do mundo. Temos nossas limitações, nossas fraquezas, nossos condicionamentos. Crescemos em bem-estar material, mas nem sempre crescemos em inteligência e vontade, em afetividade e liberdade. A nossa inteligência se acomoda na net; a nossa vontade nas vitrines; e a nossa vontade é uma cópia de vontades que, como repetitivos pps, inundam a nossa opinião. Somos rápidos para consumir e lentos para buscar o bem. Somos condicionados por fatores de herança familiar, ambiental e cultural. O franciscanismo não nega tudo isto, mas evidencia um caminho de intuição, de experiência vivencial mais livre, capaz de grandes opções.

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sexta-feira, 9 de julho de 2010

IDENTIDADE HUMANA FRANCISCANA - XII

Não duvidamos que todo ser humano busque a perfeição (do latim “per+facere” = por fazer-se, trabalhar-se, dar um acabamento melhor a si mesmo). A mística chama de Via da Perfeição, isto é, o caminho em busca da realização, da felicidade, a contínua diminuição dos problemas da vida. Se existe uma convocação na vida é o chamado para ser feliz, uma felicidade plena. O humano é chamado ao amor, à verdade e ao bem. O lema do movimento franciscano, PAZ e BEM, quer expressar esta convocação. Cada pessoa, desde o berço da sua infância até a passagem para o eterno, é convidada a ultrapassar-se. Superar entraves é um fascinante sentido, um modo de existir no mundo (cfr. A “Perfeita Alegria”). Toda a questão é saber se estamos atentos a isto ou estamos mais seduzidos pela perfeição das coisas, por exemplo: celulares, notebook, carros, eletrodomésticos, Ipod, subwoofer, webcam, blackberry, etc... mas onde fica a perfeição do humano? Onde fica o sentido fascinante de existir no mundo. O jeito franciscano é um modo simples e fascinante de existir no mundo.
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quarta-feira, 7 de julho de 2010

IDENTIDADE HUMANA FRANCISCANA - XI

2. Modo espiritual de atuar no mundo. Viver a vida tendo como base uma Espiritualidade que ilumina as práticas. Mesmo tendo uma diversidade de ofícios e profissões, de carreira, de competência, posso viver a vida fazendo um serviço com força e motivação espiritual. Viver a vida segundo o Espírito (que é o princípio da Espiritualidade). Posso servir à verdade (educador, pensador, filósofo), servir ao bem (educador), servir ao Belo (artista), servir o mundo religioso (sacerdócio); em tudo dar um exemplo de vida e de valor.


3.  Modo espiritual de estar no mundo. Com uma vida heróica (se tem que ser, que seja o melhor). Não diminuir a qualidade. Ir pelo mundo mostrando a pérola conquistada. Levar o desejo que habita no coração. Estar no mundo de um modo pessoal ou grupal sem perder o espírito, a alma da vida e da ação.

terça-feira, 6 de julho de 2010

IDENTIDADE HUMANA FRANCISCANA - X


A Identidade tem muito a ver com alguns pontos que elencamos a seguir:


1. Modo espiritual (ou religioso) de viver no mundo. É ter presente que tipo de existência ou que tipo de vida eu tenho em relação aos vários tipos de vida humana. Viver a vida biologicamente, onde há uma força adaptativa que me insere no meio físico, técnico, nas diversas formas de organização e da produção. Viver a vida de um modo psico-social, isto é, relacionando-me com o meio social através da linguagem; através de processos associativos, normas, instituições (família, sociedade, grupos). Viver a vida no modo mental ou ideológico, quando procuro compreender-me como realidade e existência, filosofia de vida, ciências e vários conhecimentos.

O modo espiritual situa-se, na mesa da humanidade, no grupo das pessoas, que dão à sua existência uma razão e compreensão da vida a partir do Sagrado. Olha fatos, acontecimentos, fenômenos, procurando neles um sentido divino. Sem desfazer-se da compreensão científica, quer perguntar pelo sentido das manifestações humanas à luz da fé. É um modo transcendente, é um sinal da dimensão transcendente da vida humana. É o entendimento da vida como dar um sentido ao provisório e o definitivo, ao temporal e o eterno. Viver a vida buscando as potencialidades da alma e do espírito, a comunhão com os seres e com o destino do humano, a solidariedade criatural, a sacramentalidade da vida (sinais da manifestação de Deus), a vida, trabalho, o presente e o futuro.

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segunda-feira, 5 de julho de 2010

IDENTIDADE HUMANA FRANCISCANA - IX

Falar e refletir sobre a Identidade Franciscana não é algo simples, mas muito complexo. Francisco não é um teórico, nem um pensamento exposto de um modo metodológico. Ele é uma vivência, e não é fácil detectar a dinâmica inspiradora de uma vida (cfr. Salvador Ângelo Domingos, “Formação para a Vida Franciscana”,
Est/Vozes/Cefepal,1981.)

Para Francisco a sua Identidade é clara: “O próprio Altíssimo me revelou que eu devia viver segundo a forma do santo Evangelho”. A Identidade Franciscana é viver segundo a forma de vida do Evangelho. Se houver outras chaves de leitura para identificar a Identidade Franciscana não se pode dizer sem esta verdade: Viver a fraternidade evangélica, a pobreza evangélica, a minoridade evangélica, a alegria evangélica. É dar um lugar teológico à vida. Posso viver uma vida qualquer, como posso viver uma vida segundo a força do Evangelho. E isto não é exclusivo à pessoa religiosa que está ligada a uma consagração religiosa. Isto vale para todos e dá um diferença: Moldar o modo de ser segundo um Valor Maior (do Evangelho) é um modelo, um modo vivente, um jeito de estar e atuar no mundo.

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sexta-feira, 2 de julho de 2010

IDENTIDADE HUMANA FRANCISCANA - VIII

Isto me dá uma profundidade ao entusiasmo; não é um entusiasmo desenfreado, mas orientado, canalizado.

Basta ler Francisco e vamos perceber a Identidade Humana. É preciso ler para a gente se entusiasmar por uma compreensão. Que tipo de humano surge, então, de Francisco?

- Uma pessoa capaz de gesto heróico. O verdadeiro herói é um fio condutor que me leva à uma obra bem feita... e não ficar nunca satisfeito, dizer assim: "Parece que eu poderia ter feito melhor...”

“Até agora nada fizemos, vamos recomeçar!”

- Uma pessoa capaz de uma grande escuta. São os momentos de inspiração.

- “Francisco de Assis foi um jovem ardente e entusiasta; filho de uma das famílias mais distintas de Assis. Chamavam-no “Rei da Juventude”. Desde cedo, julgou-se um predestinado. Alguém o chamava dentro da obscuridade. Permaneceu atento a tudo. Queria descobrir o que se passava em seu interior. Envolto por aspirações profundas, ambicionava grandes coisas. Líder da mocidade, ingressou na cavalaria, pois queria ser um nobre cavaleiro. Era simples, autêntico, transparente. Vivia em constante disponibilidade. Encantava-se por tudo o que fosse belo, nobre. Era sensível a todos os acontecimentos. Tinha anseios de servir. Nada o satisfazia. Os questionamentos continuavam a persegui-lo. Buscava, afanosamente uma resposta. Nesta busca, vai além daquilo que a comodidade lhe oferecia. Era um insatisfeito, enquanto não percebia o caminho que devia seguir. Um despretencioso, enquanto se deixava conduzir pela voz que lhe vinha em seu interior” (in “Mensagens para o nosso tempo”, Serpal/Vozes, vol. 35,1976)

quinta-feira, 1 de julho de 2010

IDENTIDADE HUMANA FRANCISCANA - VII

Aprendemos com a Mística Franciscana que seguir e imitar é enamoramento. Para entender o que é Identidade Humana Franciscana temos que seguir e imitar o modo de Francisco ser Humano. Não basta seguir ou imitar, tem que haver um encantamento. Falávamos antes que Francisco é um modelo vivo. Um modelo de grandeza do humano. O que é um modelo de grandeza?


É a superação de si mesmo. Francisco superou-se. Imitar Francisco no estereótipo não resolve. Posso vestir a roupa que ele vestia, cortar o cabelo como ele cortava, andar como ele andava... mas se não mudar nada em mim. Isto basta? O modelo de grandeza não é percebido na aparência mas na essência. Devo construir em mim um núcleo de modelos, de valores, de virtudes, de dons e talentos. Criar palavras de ânimo. Palavras que atinjam a alma. Preencher bem as lacunas da minha vida com algo de extremo valor. A minha história tem que ser contada com este caráter de busca da verdade; de valentia de conquistar um ideal. Nisto tem que aparecer um límpido empenho de ser:

“Senhor, que queres que eu faça?” “De boa vontade o farei!” “Francisco, quem pode te dar mais, o Senhor ou o servo?”

Esta reflexão continua amanhã

quarta-feira, 30 de junho de 2010

IDENTIDADE HUMANA FRANCISCANA - VI

  •  Francisco é medieval e moderno ao mesmo tempo. Representa a maturidade da civilização feudal e a perspectiva de uma nova civilização. Amadurecer é ter coragem de trocar estruturas.
  •  Está na Igreja mas acrescenta algo novo para ela. A Igreja, em seu tempo exerce uma liderança. O Papa é árbitro da cristandade, dita normas para as nações. Em seu tempo surge o comércio e a indústria que ultrapassam o sistema rural do feudalismo. A guerra é um prato comum e cotidiano. As Cruzadas, espécie de guerra santa, tem como finalidade reconquistar a Palestina e os lugares santos, mas não é um empreendimento sagrado. O muçulmano, segundo Francisco não é para ser combatido, mas escutado na sua fé. Deus não é o Senhor da guerra, mas da pacificação. Para converter não precisa combater.
  •  Ambicionou ser Cavaleiro não por causa das armas, mas pelo Código de Valores.
  •  Faz o Evangelho (o Código Cristão) ser lido sob nova luz. Falar do Evangelho e opor-se a vícios.
  •  Mostra que ser peregrino é ter sensibilidade pelo caminho.
  •  Existir de modo cristão é existir por amor. O amor não separa ninguém.
  •  O melhor modo de ir é ir com austeridade de costumes.
  •  Estar em casa é reconstruir a casa e torna-la casa de todos.
  •  Uniu sofrimento a perfeita alegria, amou e exaltou a vida mesmo quando fechavam-lhe portas.
  •  Amar é amar tudo o que existe. Ouvir pássaros não é estilingá-los. Não se polui a água, mas lava-se nas cachoeiras, não se cortam as matas, mas as transformam em templos de prece e solidão; não se faz audição musical fechado em salas, mas ouve-se a sinfonia do universo. Muita gente conhece os clássicos, porém não distingue o pio de uma coruja.
  •  Não é um romântico amigo dos bichinhos, mas um extraordinário batalhador que desencadeou uma revolução social.
Imagem: Bargellini

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terça-feira, 29 de junho de 2010

IDENTIDADE HUMANA FRANCISCANA - V

Começa com um Arquétipo (figura modelar) Humano: Francisco de Assis. Qual o seu jeito de viver que inspira a humanidade?


  •  O mundo em que vivia estava contaminado pelo desejo de possuir sempre mais.
  •  A pessoa era uma coisa entre outras tantas coisas. A mulher valia um dote para um bom casamento.
  •  A voz do coração não era ouvida e assim era destruído o sentido da ordem da natureza e da ordem cósmica. Francisco começa a escutar mais o coração. Não sufoca esta voz, deixa que ela comece a falar.
  •  Nasce num ambiente que o impele ao espírito de aventura, vitória pela força das armas, honra, nobreza, posses.
  •  Resolve ser diferente, consciente, conhecedor da realidade, denunciador da vida desumana da época.
  •  De uma vida sem sentido escolhe uma vida mais simples e humilde, vivida com satisfação e sentido.
  •  Tem atitude de respeito e de amor por todas as criaturas vivas. Abandono e confiança. Respeito e reverência (sem aproximações de interesses materiais, utilitaristas e possessivos).
  •  Acolhe com valores mais positivos.
  •  Assume uma atitude de gratuidade perante a vida e ensina que: de nada podemos nos apropriar, mas tudo podemos ver como dom gratuito de alguém, como expressão máxima do amor que nada exige em troca, mas tudo dá.
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segunda-feira, 28 de junho de 2010

IDENTIDADE HUMANA FRANCISCANA - IV


O jeito franciscano de estar no mundo é uma história de amor e fraternidade universal. Quem está na vida tem que construir uma história, deixar um legado, empolgar, animar, passar um ideal, enfim, ter uma identidade cativante. Uma pessoa que tem esta bagagem não tem idade, é sempre do presente, traz uma vitalidade para o tempo.

O Movimento Franciscano, surgido em Assis no século XII, foi uma resposta para esta época e continua respondendo às buscas de soluções para os problemas conflitantes de hoje: para onde vai a humanidade, quem somos nós, por que vivemos? Há oito séculos ele é narrado através de Fontes, Escritos, filmes, movimentos culturais e religiosos, enfim uma nova forma de civilização. Gente conhecida da história tinha o franciscanismo como modo de ser e fazer: Cristóvão Colombo, Luís IX, rei da França, Garcia Moreno, presidente mártir do Equador, Cervantes, Michelangelo, Leão XIII, Pio XII, João XXIII.

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sexta-feira, 25 de junho de 2010

Identidade Humana Franciscana - III

Francisco de Assis nos ensinou que existir é mergulhar na simplicidade, isto é, não ter nenhum poder de dominação. A Árvore da Vida é criada no húmus que a faz surgir e não no querer ser dono do bem e do mal; por isso, Francisco não se expulsou do paraíso, mas reconstruiu o paraíso.
Viver franciscanamente é ser louco como Francisco. Ser louco é assumir tudo o que se apresenta apaixonadamente. Não busca seu interesse, mas procura o Tudo em todos. A identidade humana franciscana existe porque um dia um homem de Assis, considerado louco em seu tempo, lançou-se no labirinto à procura do Amor. Encontrou o Amor que precisava ser amado e avançou com decisão; não ficou esperando livros de autoajuda, terapias, bola de cristal ou gurus de plantão. O caminho que o fez caminhar transpareceu na sua atenta andança pela terra dos humanos. A vida se fez caminhante nos passos do Homem de Assis.

Continua na segunda-feira, dia 28

quinta-feira, 24 de junho de 2010

Identidade Humana Franciscana - II

Viver franciscanamente é lançar-se todo inteiro, momento a momento, a executar uma obra de arte. Nada é banal para quem tenta fazer de sua vida uma composição artística. O inútil perde a sua inutilidade, o sem serventia vira uma instalação; tudo é integrado, nada é desprezível. Viver franciscanamente não é ser seduzido pelo grandioso, mas é abraçar o pequeno e o simples e torna-lo grandioso.

É perceber o corriqueiro, o monótono, o sem novidade, e fazer romper para um mundo novo. Não precisamos ir para uma fronteira polar para perceber o novo e indevassável, mas ele já está aí onde estamos. Viver franciscanamente é refazer o Cântico das Criaturas cada instante. Perceber que a vida se apresenta, se revela; que ela é sempre novidade, que a vida está, permanece.

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quarta-feira, 23 de junho de 2010

Identidade Humana Franciscana - I

No dia 01 de Julho de 1956, o Papa Pio XII falando aos Franciscanos Seculares disse estas palavras que soam muito atuais: “Observai os tempos presentes. Em alguns aspectos eles não são diferentes daqueles tempos que viram nascer o franciscanismo... mas deste espírito franciscano, desta visão franciscana, necessita o mundo de nossos dias”.
O tema "Identidade Franciscana" se propõe a mostrar que Identidade para os dias de hoje não é só cadastro, RG, CPF ou curriculum vitae ou curriculum lates. Identidade é interioridade. Identidade é espiritualidade. Nós somos o que ressoa em nossa sacralidade mais íntima e que não pode ser violado. Nós somos o que amamos. Se amar alguém é importante, amar uma mística interna de vida é urgente. O amor é difusivo. Um cadastro vira fichário e gaveta. Uma identidade espiritual, moral e ética espalha um humano modelar e necessário.

Estamos falando de uma filosofia de vida franciscana. Viver franciscanamente é ser devoto da vida. Ser devoto da vida é buscar um sentido para a nossa existência aqui na terra e estar de olho em todos os sentidos, para trazer a vida mais próxima, isto é, aquela que repousa no dia-a-dia. Não podemos só viver karmas do passado ou remoermos ansiedades de um futuro que ainda não nos pertence.

Viver franciscanamente é um viver diário. A vida está aos pés do familiar, do caseiro, da rotina da hora. Se não pego a vida no instante da hora, ela escapa sem ser percebida. Francisco viveu a vida como quem tem sede. Francisco reconstruiu-se, deixando-se fazer. Escutou a vida em cada momento. Em Francisco, a vida se faz vida.
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terça-feira, 25 de maio de 2010

A 329ª TREZENA E FESTA DE SANTO ANTÔNIO do Convento de Santo Antônio - RJ

São mais de três séculos da maravilhosa Trezena e Festa de Santo Antônio no Largo da Carioca! É o ritual, o louvor e graça, Deus e seu Santo, a alegria e a festa, a piedade, sinais, cantos, pregações, bênção, muitas bênção! O rito é a repetição do mesmo, mas não é rotina. O rito diz as mesmas palavras que contem a verdade do Mistério de Deus na vida; de tanto dizer e repetir, um dia há o encontro com esta verdade. Há pessoas que buscam e sentem isto no dia-a-dia; há pessoas que precisam de tríduos, novenas, dozenas e trezenas para organizarem o seu modo de orar e amar. Não é o tempo cronológico, nem a quantidade de dias, mas sim o tempo oportuno da Graça.

O eu humano mergulha no tu divino pela intercessão de Santo Antônio. O povo vem, faz a promessa de não perder nenhum dia, dá o seu passo! Na espiritualidade tudo começa por um passo; é a mística do santuário. É preciso ir lá para buscar e encontrar. “Onde está o teu tesouro aí está o teu coração”(Mt 6,21). Santo Agostinho diz: “Conservai antes de tudo o Amor a Deus, para que, como Deus é eterno, também vós vivais eternamente, já que cada um é como seu Amor”. O povo vem para a Trezena buscando a Palavra, a Prece e a Bênção. Povo de Deus, povo de louvor e da bênção, seres divinizados. O povo sobe o morro do Convento buscando um lugar sagrado. Quanto mais alto sobe, mais alta é a sua fé, a sua energia, o seu amor e mais alto é o ensinamento que é oferecido. Por isso, na Trezena há Pregadores e Pregação que vão animar o povo a bendizer, isto é, dizer bem os inúmeros benefícios; transmitir a Palavra e a Vida que vem de Deus; mostrar que a família verdadeira é aquela que nos ajuda a atingir o espiritual e uma melhor compreensão de mundo e de todos os detalhes da existência. A Trezena é uma viagem de transformação.

O povo vem para a Trezena e para a Festa e aqui encontra seus objetos sagrados, a comida, a bebida, as celebrações, a confissão, a relíquia, a comunhão eucarística, a alegria e o agito da multidão em festa. O humano religioso é assim: desprendido, natural, feliz, confiante e perseverante. Sabe que o amor é identificação e aproximação. O que falta nas religiões é trabalhar bem o afeto, e nisto Santo Antônio é um grande mestre. Ele é o intercessor de orações e bênçãos. Orar é enviar bênção a todos. Abençoar é criar um antídoto contra a negatividade. E Santo Antônio acolhe a todos na positividade da Graça! Venham para a Trezena e para a Festa, acendam as velas! Se há uma luz acesa em sua vida e em sua casa, a escuridão não poderá entrar! Que a sagrada ternura de Santo Antônio nos ilumine! Boa Festa de Santo Antônio a todos!

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Festa do Divino

Esta festa, tão brasileira hoje, teve o ontem de Portugal, a rainha Santa Isabel e o rei Dom Diniz e a construção da Igreja do Espírito Santo de Alenquer, lá pelos fins dos anos de 1200 e inícios de 1300. No Brasil, a primeira Festa do Divino é de 1761, em Guaratinguetá, SP. Rica  em simbologia, esta festa traz a Pombinha Branca representando o Espírito Santo. As bandeiras brancas e vermelhas enfeitam ruas, palanques, casas, portas e coretos. Crianças e adultos se enchem de majestade na época de Pentecostes. É  momento de agradecer a abundância dos primeiros frutos, a colheita, a partilha e, sobretudo, a ajudar os menos favorecidos. Sob o ritmo das congadas, jongo, moçambiques, batuques que misturam o jeito caboclo, o caipira no canto, a bandeira segue no fandango e cateretê. O Divino desce e arma seu império entre nós!

quinta-feira, 13 de maio de 2010

Maio, o mês dedicado à Mãe de Deus

A mística franciscana diz que espiritualidade e afetividade não se separam. Maria é o afeto encarnado de Deus. A emoção e a ternura de nossa fé, que vindo num mês, numa festa, numa comemoração, vem para sempre. Maio inspira, pela mediação mariana, o jeito suave, sincero, filial, obediente e prazeroso da fé. Em Maria, Deus se fez família, é Filho, tem pai silencioso e trabalhador; tem lar e colo de uma mãe compreensiva e companheira. Na família, percebemos os mais vivos modelos do que entendemos por espiritual.

É preciso ter amor e cuidado para com nossas forças interiores. É preciso alimentar, num mundo agressivo e tenso, as nossas qualidades que moldam em nós a sensibilidade, a alegria, o carinho, a força amiga, a segurança, a tranqüilidade, a beleza e a gentileza. Que façamos disto uma nova e evocadora ladainha de cada dia e aprendamos o jeito de Maria. Obra prima da criação divina, Maria é a eterna energia de Deus, alimentando a nossa fé, não de um modo abstrato e vazio, mas muito próximo, íntimo e acolhedor. Em Maria, Deus quis experimentar o mais profundo do sentimento humano; e no Deus que nasceu de seu ventre, o humano experimenta sua carne divinizada.
Diante da Mãe de Deus, com os olhos fixos em seu olhar, percebemos que tudo é bpm e sagrado. O belo e o bom acontecem de um modo simples e espontâneo, sem forçar nada. Maria é o natural da reza e do rito. Em Maria, a prece flui naturalmente, nem precisa ser criada, ela já existe, ela já está ali. Em Maria, aprendemos que Amor é identificação e aproximação. Ela, com seu corpo e estado virginal, permitiu Deus se tornar visível. Deu à Luz a um Deus simples e singelo. Que Maio nos faça recordar esta verdade.
Imagem: Nossa Senhora, de Simone Martini

quinta-feira, 6 de maio de 2010

Santuários, peregrinações, romarias e caminhadas

Diabo é às brutas, mas Deus é traiçoeiro. Deus vem vindo: ninguém não vê. Ele faz na lei do mansinho - assim é o milagre!" (Guimarães Rosa)


Minhas Amigas, Meus Amigos,
Paz e Bem!
Trabalhar num lugar como o Convento e Santuário de Santo Antônio, no Largo da Carioca, Rio de Janeiro, é participar da caminhada de um povo. Aliás, a palavra caminhada é muito usual entre os devotos brasileiros. Vem lá do dinamismo ainda presente das comunidades eclesiais de base. É uma palavra que revela um novo modo de compreender a vida cristã. Só caminha quem está perseguindo, buscando, almejando alguma coisa. O povo mais ligado à consagração religiosa chama isto de Seguimento. Se olharmos o Evangelho de Lucas, os Atos dos Apóstolos e a grande travessia do povo bíblico desde suas origens estamos indo em direção à Terra Prometida.

Hoje, com mais força ainda, temos as romarias, peregrinações e caminhadas. De ônibus, carros, cavalos, a pé, caminhões e avião, bicicleta, e no nosso caso aqui, de metrô, as pessoas buscam os santuários nacionais, locais, continentais em tradições de datas, promessas e preces repassadas de geração em geração; em práticas sensacionais da religião popular. Fazem disto um tempo forte de imensa vivência religiosa, onde há visivelmente o encontro simbólico do santo com o povo, num contato direto. Toda manifestação explícita religiosa tem importância para a consolidação da fé.

Quatro meses ainda é muito pouco tempo, mas já dá para, nas minhas observações, ver a experiência pessoal e coletiva de motivos, buscas, sonhos e aflições; do sair de casa, de caminhar sozinho ou ao lado de alguém ou de muitos, chegar ao lugar esperado do encontro, retornar para o lugar de origem, possivelmente marcado pela força de uma aproximação com o sagrado (não podemos esquecer que muitas romarias são apenas turismo religioso; agências de viagens, guias e organizadores que levam apenas para a atração da festa tradicional em algumas cidades, mas isto é uma outra prática. Muitos preferem o pastel, coxinha e cerveja gelada, e depois aquela canequinha "do estive lá e lembrei de você". Nada de reza! O que eu quero relatar aqui é a prática da religiosidade popular como real busca de Deus).

Os Santuários são lugares teofânicos, isto é, lugar onde o Sagrado se revela e toca o devoto de uma maneira original. Espanhois e portugueses trouxeram para nós da Europa esta prática organizada, mas já encontraram aqui lugares fortes, onde a figura de Jesus, sofrido e humilhado, da Virgem mãe bondosa e terna, santos e santas, estão sempre presentes como intermediários poderosos. É o espaço dos ritos, narrativas, objetos sagrados, lendas ingênuas, milagres, velário, banda de música, cânticos e procissões que passam pela têmpera do povo e se tornam uma referência de esperança e certeza de que, naquele lugar, Deus ouvirá o clamor de seu povo e o livrará de seus males.

Ir a um Santuário é como percorrer um caminho de terra desconhecida e inóspita; é refazer a epopeia de Ulisses no relato de Homero, ou dos nossos Guaranis na busca da Terra sem Males. A dureza da caminhada e da longa viagem chama a atenção para a ideia e o real de que a vida é difícil, e a via que leva para o alto supõe superação e conversão. Num Santuário, o fiel cumpre um ritual de tipo penitencial e purificatório. É mística popular mesmo! A penitência se mistura com a alegria, a reza com rojões, a confissão e promessas terminam com frango e farofa, porque tudo é um grande encontro de parentesco, fé, lazer e souvenirs, emoção e a certeza: "Enfim, cheguei!"

Peregrinação, romaria, caminhada é sentir que, depois de ter percorrido um certo caminho, há o encontro, físico e espiritual, com o outro diferente e igual ao mesmo tempo. Não há prática assim que não leve a uma mínima ou sensacional transformação. É o instante da unificação do humano e sagrado, da regeneração moral. Deus é fato social e coletivo, porém é afirmado para além da sociedade. A emoção aí vai também além da racionalidade. Ir a um Santuário é um Ritual de Passagem. Entendam isso com tudo o que descrevi até agora acrescentando os laços entre pessoas e Deus. É o reavivamento da imagem e semelhança. Toda a questão, para nós que estamos aqui, na acolhida deste povo, é ajudar a transformar esta busca ocasional e dispersa em laços duradouros e consciência de pertença; e a delicada orientação para que não haja uma contaminação supersticiosa ou um escapismo espiritual.

Santuário é itinerário de fé, sinal de identidade pessoal e coletiva, reencontro com raízes puras da crença, e aquele sonho de estabilidade, confiança e maturidade psicológica, religiosa, cristã e humana. Aqui entendo muito o que São Francisco dizia para nós: "Nosso claustro é o mundo!"

Para chegar ao Convento de Santo Antônio não é muito simples. Tem escada íngreme com desconfortáveis degraus para subir e descer, elevador apertado e sufocante, uma praça com chocante exposição de miséria humana em todos os sentidos, tem a agitação, barulho e sujeira típica de centro de cidade... Porém, quando se chega ao Santuário, é como se isto tudo nada existisse. Há calma, silêncio, ritos e preces. Uma ilha, um oásis, uma misteriosa fonte na metrópole... Muitos prédios que nos cercam, envolvem e nos olham com estranha curiosidade...

quarta-feira, 28 de abril de 2010

Santuários, Pastoral Ordinária e Extraordinária

Minhas Amigas, Meus Amigos

PAZ E BEM!
Desde 25 de Janeiro, estou morando no Convento Santo Antônio do Largo da Carioca, no Rio de Janeiro. Fui transferido para cá no último Capítulo Provincial para ser o Reitor do Santuário. São cinco os Santuários constituídos em nossa Província: Convento Nossa Senhora da Penha, Vila Velha, ES; Santuário Mariano de Angelina, SC; Santo Antônio do Valongo, Santos, SP; e Convento São Francisco, SP, e este onde estou agora.
Tenho que dizer uma palavra sobre o que chamamos de Pastoral Ordinária e Extraordinária, e assim estabelecer uma diferença entre Paróquia e Santuário. Muitos me perguntam se sou pároco aqui; não... pois não é uma paróquia. A Paróquia tem uma Pastoral Ordinária, isto é, está na ordem, nas normas, nas leis da Igreja que conclamam a fazer o que todos precisam fazer normalmente e de maneira Organizada e com muita continuidade. É a manutenção cotidiana da fé através da comunidade paroquial e suas pequenas comunidades (capelas): batizado, eucaristia, crisma, casamento, celebração de exéquias, orações comunitárias, celebrações... A Pastoral Extraordinária se caracteriza pela surpresa, pelo fazer aquilo que sai da rotina, algo diferente, as pessoas procuram o Santuário sem pertencer aquela comunidade , vem de todos os lugares, há peregrinação, busca, passos, crises, choque, superação, conversão, instantes decisórios na vida da pessoa, bênçãos, unção, confissão, direção espiritual, aconselhamento, busca individual, agradecimento de favores, milagres, pedidos com muita esperança, alegria, fé e lágrimas.

Ambas são Pastorais necessárias e complementares. Ambas são dirigidas ao mesmo ser humano, mas em circunstâncias diferentes. O extraordinário por ser extraordinário não acontece sempre, não conhece rotina. São Francisco, no seu tempo reconstruiu porciúnculas, isto é, pequenas igrejas à beira da estrada para atender o povo de um modo melhor.

O Santuário vive uma religiosidade mais popular e não se prende muito a rituais pré-estabelecidos. Quando há ritual tem que se expressar com sentimentos de gratidão, esperança, força divina e manifestação de conversão e sempre aquela sensação de que o Santuário é uma Festa (nisto os nordestinos são especialistas!). A Paróquia trabalha com grupo determinado; o Santuário trabalha com a massa. Em geral, quase todos os Santuários ficam num morro, sobre uma montanha ou num lugar mais elevado.... é o cume, a aproximação da divindade, o lugar próximo do céu, a escada para subir até Deus.

Numa semana já trabalhei muito com horas e horas de atendimento ao povo que vem aqui diariamente, mas, todas as terças feiras, uma multidão sobe até o nosso Convento pedir a bênção de nosso confrade Santo Antônio de Pádua e de Lisboa e do Largo da Carioca. Ele acolhe a todos e divide conosco a atenção aos devotos. Para o nosso Confrade Santo, o povo pede a bênção, pede força afetiva no Amor, pede pão, emprego, pede graças entre achados e perdidos, pede os lírios, pede o que o coração pede... Para nós, confrades do Confrade Santo, eles pedem a Eucaristia, a bênção, a unção, a confissão, o perdão, e o tempo que for preciso de nossa atenção... No Santuário, o povo cansado de falar sozinho, encontra uma paciente escuta da franciscanada!

Com abraço fraterno,

segunda-feira, 19 de abril de 2010

Francisco e a natureza

Para as culturas clássicas, não judaicas, a natureza não passava de um aglomerado de divindades boas ou más. Os céus, os campos, os regatos estavam povoados de deuses, e uma grande variedades de seres benfazejos ou não. Até meados da Idade Média, a natureza permanecia marginalizada.

E, então, que surge na Úmbria, em Assis, um jovem extravagante que, em meio a uma existência burguesmente acomodada, descobre um ponto fundamental na história da criação: o homem foi criado por Deus, a natureza foi criada por Deus, logo o homem e a natureza são igualmente criaturas de Deus, irmãos por filiação divina. E reconcilia, em seu espírito, a humanidade com a natureza. Com esta visão, Francisco comportava-se como um novo Adão ao dar nome a todas as criaturas. Uma árvore não será um mito pagão, mas apenas uma árvore. A estrela será apenas estrela e não Vênus. O fogo será apenas fogo, e mais do que isso, irmão fogo! Todas as criaturas parecem estar sendo renovadas à medida que Francisco se identifica mais como criatura de Deus. Antes de Francisco, outras figuras de relevo na espiritualidade cristã viveram em contato com a natureza, mas não sentiram com tanta clareza a sua condição de co-irmãs criaturas.

Francisco não consegue tudo isso de repente. Esse amor foi progredindo à medida em que se abnegava a si mesmo. Esvaziava seu coração das coisas terrenas e o enchia das coisas celestes. Então, via Deus nos mais leves traços e nas mais insignificantes alusões a Deus e o amava assim, presente e percebido.

Ainda hoje admiramos Francisco a sua relação com a natureza, embora muitos não compreendam a profundidade do gesto. Através das criaturas, Francisco chegava diretamente a Deus, num amor puro e límpido. Não que ele desejasse possuir a coisa criada. Francisco não quis se aproveitar. Ele quis com as criaturas louvar a bondade, a sabedoria, onipotência e providência de Deus. A renovação espiritual iniciada por Francisco não ficou restrita apenas à visão contemplativa da natureza em si; toda sua cultura, a começar pela manifestação plástica e poética foi revificada, restaurada, engrandecida. Francisco, ao restabelecer a harmonia primitiva entre o homem e a criação, tornou-se hoje o merecido padroeiro da Ecologia.

quarta-feira, 14 de abril de 2010

A Perfeita Alegria

Reparto aqui a reflexão em grupo durante estudos das Fontes Franciscanas:

Reflexão a partir do texto sobre a Perfeita Alegria, I Fioretti - Do ensinamento de Fr. Francisco a Fr. Leão que a Alegria Perfeita se encontra na Cruz.

1. 0 texto nos fala de uma experiência, que surgiu na paixão de uma procura na qual Francis foi afeiçoado. Podemos dividi-lo em três partes:

a) A primeira parte diz que a Perfeita Alegria não consiste no fazer do homem.
b) A segunda parte nos apresenta a Perfeita Alegria, como o caminhar que se manifesta em cada passo da caminhada como concreção de si mesmo.
c) A Terceira parte nos mostra a conclusão do texto: a Perfeita Alegria é a Cruz que se manifesta no vencer-se a si mesmo.

2. Francisco, na primeira parte do texto, nomeia para Frei Leão uma série de obras extraordinárias e diz que mesmo que o frade menor consiga realizá-las em sua vida, nisto não está a Perfeita Alegria. Com isso, ele quer dizer que a Perfeita Alegria não vem do homem com tal, não consiste no seu fazer, por mais extraordinário que ele seja. Frei Leão não entende esse modo de falar e, admirado pergunta: “...onde está a Perfeita Alegria?" Aqui começa a segunda parte do texto.

3. Francisco aproveita a viagem de Perusa à Santa Maria dos Anjos, e aí, nesta realidade situacional bem concreta, exemplifica onde está a Perfeita Alegria: "... então se suportarmos tal injúria e tal crueldade, tantos maus tratos, prazenteiramente, sem nos perturbarmos e sem murmurarmos (...) escreve que nisto está a Perfeita Alegria." (I Fioretti, 23). Em seguida retoma por mais duas vezes o mesmo exemplo insistindo sempre na mesma tecla: A Perfeita Alegria consiste em suportar o que está aí. No exemplo dado ele indica o que suportar e como suportar.

Confrontando as duas primeiras partes do texto, num primeiro relance parece que elas não são muito claras no que afirmam. Primeiro, diz que a Perfeita Alegria não consiste no fazer do homem, mas na relação das obras que ele nomeia, normalmente consideramos como obra de Deus e não do homem. É possível que Francisco nos queira dizer outra coisa; talvez que a Perfeita Alegria não consiste no fazer do homem, simplesmente por ele ter sido agraciado pelo fazer de Deus.

Não é o fazer milagres, o conhecer todas as ciências e o converter os homens à fé cristã o princípio da Perfeita Alegria, ela está numa outra dimensão. Mas acontece que ao afirmar na segunda parte onde ela se encontra, Francisco nos deixa na mesma dúvida, pois dizendo que é preciso suportar injúrias, crueldades, maus tratos sem se perturbar, sem murmurar etc, ela está indicando o que é preciso fazer para estar na Perfeita Alegria. Nesta compreensão do texto, podemos contestá-lo, porque pelo que aparentemente aparece, a Perfeita Alegria está na dependência desse modo de ser, que em última análise, requer o trabalho que o homem faz sobre si mesmo para chegar a este comportamento. Mas será que não é o outro o sentido do fazer neste modo de ser da Perfeita Alegria? Se é, então, a Perfeita Alegria não depende do modo de ser, mas ela é este modo de ser apontado no texto.Vamos tentar ver como se dá o modo de ser da Perfeita Alegria.

4. O texto nos diz que ela consiste em suportarmos toda a realidade da vida que nos surpreende, prazenteiramente, sem nos perturbarmos e sem murmurarmos, etc. Portanto, a porta pela qual Francisco nos introduz à compreensão do que ele expõe está na palavra suportar repetida em cada uma das situações do exemplo dado.

O que significa suportar? - Suportar é o modo de ser que assume toda a realidade situacional que se nos apresenta. Esta realidade é o que somos. Não existe fora de nós. Está inserida no acontecer de cada indivíduo. Suportar o que nas advém é assumir o que somos. A Perfeita Alegria está na positividade deste assumir. A positividade consiste em sermos todo a situação, em penetrarmos e movimentar-nos nela, num envolvimento total em que situados nos tornemos o interior da realidade situacional.

Tornar-se o interior da realidade é ir ao âmago da mesma, é ser todo n'aquilo que a institui. Francisco diz que, quem está nesta interioridade, suporta a vida com paciência, com alegria, prazenteiramente, sem se perturbar. Neste modo de ser, não existe abertura de possibilidades, mas somos a própria possibilidade que caminha em busca de si mesmo. Isto significa que interioridade deste modo de ser é a própria possibilidade daquilo que se é. Interioridade é o que leva o indivíduo a assumir a sua realidade na tentativa de se descobrir nela. É o que torna possível este processo de caminhada. Parece ser esta a estrutura da realidade situacional, indicada por Francisco no diálogo
com Frei Leão.

5. Ambos voltam à Santa Maria dos Anjos. Santa Maria não é um simples lugar, mas o ponto de partida de um encontro onde surgiu o processo da caminhada e, caminhando, explica ao Frei Leão em que consiste o caminho que ele chama de Perfeita Alegria. Ela consiste em assumir toda e qualquer realidade, com todo o peso que a mesma suporta (comporta), insistindo e persistindo nela a fim de penetrá-la para descobrir o sentido que nos constitui nesta realidade que somos nós mesmos.

‘‘Se suportarmos todas estas coisas pacientemente e com alegria, pensando nos sofrimentos de Cristo os quais devemos suportar por seu amor (...) aí e nisto está a Perfeita Alegria” (24).

Já vimos que suportar significa assumir o que somos, aguentar o próprio peso de nós mesmos. Mas não basta isto, é necessário assumirmos pacientemente, com alegria, pensando nos sofrimentos de Cristo.

Assumir pacientemente é ser assumido pelo que nós fazemos, deixando-nos fazer por aquilo que está aí resguardado no acontecer do dia-a-dia.

Assumir na paciência é caminhar vigorosamente para o coração d'aquilo que nos faz ser o que somos, na realidade em que nos situamos.

Caminhar para o coração é assumir tudo na cordialidade, é se entranhar no que se apresenta na tentativa de ir sempre à sua raiz.
No rigor desta tentativa somos tomados por um vigor que nos lança ao interior de nós mesmos, de modo que, em tudo haja esta penetração envolvente que não se fixa nas aparências da realidade, mas nos completa nela, levando-nos a unicidade de todas as coisas, a partir da cordialidade da vida que aflora em todo o nosso existir.

A Perfeita Alegria é a caminhada que se dá na cordialidade. É o modo de ser daquele que coloca todo seu existir na busca desta interioridade.

A interioridade desta busca é Cruz. Cruz é estar tão dentro de si mesmo que nada mais nos importuna, mas tudo se suporta na solidão da paciência. Nisto está a Paixão de Cristo que devemos pensar, a Cruz na qual podemos nos gloriar.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

A libertação pascal (revisitada)

Publico aqui o texto do meu amigo Paulo Palladini:
"Nosso Deus não é um Deus morto, mas um Deus vivo", afirmou certa vez o arcebispo Dom Helder Câmara em sua mensagem pascal. E, provocativo, desafiando nosso cristianismo mambembe: "É fácil ser cristão de nome, de tradição, porque nossos pais nos batizaram. Não é fácil ser cristão de verdade”, isto é, viver o evangelho. Oportunas as palavras do velho arcebispo, o militante das causas apaixonantes. São muitos a falar em nome do Filho, em nome do Cristo. Dom Helder confronta o formalismo das práticas religiosas com o valor de uma vivência verdadeiramente cristã. Alerta-nos para a ênfase que é dada ao Cristo morto, à sua paixão e morte, em contraste com a ressurreição. Para ele o sentido maior da Páscoa Cristã é exatamente a ressurreição. "Vamos abrir muito mais espaço em nossa vida para a Ressurreição", conclamou. Proveniente da palavra latina ressurrectione, ressurreição significa ressurgir, de modo figurado morrer e renascer para outra vida, deixar morrer o passado, e reviver com outros valores. Notem que aí está contida a idéia de esquecimento; somente é possível ressurgir para uma nova vida se o que a pessoa foi no passado for esquecido. Para isso é preciso o perdão, tanto para si como para os outros. Porque "tudo isso só terá valor real na medida em que abrir nossos olhos e nos fizer descobrir o Cristo vivo que está em todo aquele que sofre, especialmente nos pobres, nos humilhados e oprimidos". "Ai de quem não abre sempre mais os olhos para o Cristo em quem sofre, em quem precisa da nossa compreensão e do nosso amor. De quem precisa de ajuda, mas, sobretudo, de justiça"... completou. Sua mensagem é clara e pode ser aplicada tanto à nossa vida material como espiritual, opondo assim a verdade à mentira, o altruísmo ao egoísmo, a justiça à injustiça. Pertencer a uma igreja não garante nada disso, nem a participação em todos os rituais é garantia, nem todas as rezas e orações, nem todos os sacramentos, se a pessoa não se fizer impregnar de uma profunda vivência religiosa. Um olhar comprometido com o sofrimento do outro. "Cristo liberta de todas as prisões". A Páscoa tem, para nós, o mesmo sentido de libertação que tem para os judeus. Não nos esqueçamos que esta celebração é de origem judaica, Pessach, quando é comemorada a libertação dos judeus do cativeiro no Egito há mais de três mil anos. Na tradição judaica é a festa do triunfo sobre o cativeiro, na tradição cristã, a festa do triunfo sobre a morte. Nas duas, a possibilidade de uma existência renovada.
Leia www. pc.palladini.zip.net

sexta-feira, 12 de março de 2010

Dia Nacional da Poesia

Neste domingo, 14 de Março, é o Dia Nacional da Poesia. A vida e seus calendários, Folhinha do Sagrado Coração, almanaques, crônicas, falas radiofônicas, sempre remetem a ocasiões celebrativas. Desde o banco de nossa escola, lá na pátria de nossa meninice, aprendemos a guardar datas, feitos e feriados, dias santificados ou não. Lembramos os senhores das armas e das guerras, heróis e figuras que fizeram história até com mecanismos de morte. Então, porque não lembrar os que fazem a Poesia?

Hoje, é dia de Gonçalves Dias, o príncipe dos poetas brasileiros. O poeta tem um jeito silencioso de criar mecanismos de vida. Eles trazem a plenitude dos sentidos, aguçam a vida para os detalhes, transformam as palavras, esmerilham as paisagens, instalam percepções em nossa consciência, são artesãos do verbo, deixam fluir a fala de uma inspiração. Revelam o Ser que nos faz Ser, em toda presença mostram a Presença. Poetas são profetas. Tecem o fio da sensibilidade e da verdade. Aos homens e mulheres que fazem Poesia e vivem num estado de Poesia, a minha reverência hoje e sempre!

* Imagem do Gonçalves Dias, o príncipe dos poetas brasileiros