sexta-feira, 30 de dezembro de 2016

FELIZ ANO NOVO MARIANO!


Os 300 anos do encontro da imagem da Mãe Divina de Aparecida nos dá a tônica para este ano de 2017 aqui no Brasil. Ainda estamos na alegria do ciclo do Natal onde celebramos a Palavra Encarnada. Não podemos esquecer que a Palavra que se fez Carne precisou de Maria, a inteira receptividade.

Pela Palavra, a Mãe Divina é fé, fidelidade e fusão de vontades. Deus quis ter Mãe, ela disse sim à vontade sagrada. Que ela nos ensine a não ter nenhuma resistência interior para deixar que uma vontade superior tome conta de nós. Ela não tem nenhuma autoafirmação egoísta, sabe que o Senhor fez maravilhas em seu ser. Que ela nos inspire a anulação de nosso soberbo eu, para sermos protagonistas de um Deus que age em nós.

Maria é simples, pobre, humilde, pura, pacífica, silenciosa. Uma contraposição aos apelos do mundo de hoje tão publicitariamente barulhento em vender uma imagem do humano autossuficiente, orgulhoso, arrogante, sensual, violento, desassossegado e ansioso, que fala demais em Jesus, mas não o faz nascer. Maria se faz um nada na presença de Deus para deixar que Deus seja Tudo com sua presença. Ela não obstruiu a presença da Palavra, não bloqueou uma ação concreta do Amor. Ela é Imaculada, isto é, livre de toda mancha de egoísmo que pudesse obscurecer a Luz de Deus no seu ser.

Repleta de Amor, Maria pode receber e oferecer a Palavra no mundo e para o mundo. Entrega seu ventre para que, na mais completa hospitalidade e humildade, a palavra fosse gerada ali. Aprendamos com ela a germinar interioridade! Maria preparou seu coração para que um Deus, infinitamente despojado, habitasse um ser humano despojado. FELIZ ANO NOVO sob a proteção da Mãe Divina!

FREI VITÓRIO MAZZUCO

terça-feira, 13 de dezembro de 2016

SÃO FRANCISCO E O PASTOR EVANGÉLICO

Pessoas de fé encontram-se e se atraem no fascinante caminho da busca espiritual. Este livro narra a experiência de Chase Falson, um pastor evangélico que se vê às voltas com uma crise espiritual. Aos poucos vai perdendo a fé em Deus, na Palavra de Deus e na sua Igreja. Atormentado por dúvidas existenciais, ele fica ainda mais abalado com a morte repentina de uma criança da sua congregação e começa a pôr em xeque todas as certezas que antes eram os alicerces de sua vida. Depois de ter um colapso em pleno culto, acaba sendo afastado de seu ministério.

Em crise consigo mesmo por não ter se mantido firme em sua crença, Chase decide passar um tempo na Itália com seu tio Kenny, um frade franciscano. Lá ele é apresentado aos ensinamentos de São Francisco de Assis, que viveu há mais de 800 anos e cuja maneira simples de amar Jesus mudou a história do mundo e renovou a Igreja Católica em meio aos desafios da Idade Média. Na tentativa de recuperar sua fé e preencher o vazio da alma, Chase concorda em partir em peregrinação pelos lugares sagrados em Deus se revelou ao venerado santo italiano. Ao longo desta busca, ele conhece diversas pessoas que vivenciaram incríveis experiências de fé. As histórias emocionantes que elas lhe contam iluminam seu caminho para reconquistar a graça, a humildade e a alegria de viver.

Este livro de Ian Morgan Cron - Em busca de Francisco – Como a história do santo de Assis ajudou um pastor a redescobrir sua fé, Sextante, Rio de Janeiro, 2014 - é uma história de perda e descoberta, um romance esperançoso e comovente, com implicações profundas para aqueles que anseiam por um relacionamento mais intenso com Deus e com o mundo à sua volta.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quarta-feira, 30 de novembro de 2016

FRANCISCO DE ASSIS, TERNURA E VIGOR

Recomendo sempre a obra São Francisco de Assis, Ternura e Vigor, de Leonardo Boff, Vozes, Petrópolis, 2003. Francisco atravessa séculos com sua vida inspirando vidas. Leonardo Boff, com sua alma franciscana, capta o melhor do Pobre de Assis e o aproxima de nós na Ternura e no Vigor.

Este é um livro que transmite um conhecimento especial: a espiritualidade e a afetividade, a profecia e o compromisso e qualificar que a vida e o humano não se separam! Mundo, convivilidade, amor, sensibilidade, cuidado, compaixão, humanidade, desejo, irmandade, estar junto com os pobres, integração, experiência do Sagrado, encarnação, masculino e feminino, eros e ágape, democracia cósmica, o universo interior reconciliado com o cosmo exterior, virtude, ascese, fraternidade, libertação que gera o belo e bom, o justo e o livre, a fé, uma Igreja  próxima e popular, seriedade evangélica e leveza de encanto, no dizer sejam bem-vindas todas as coisas, a irmã morte e as negatividades, a vida se qualifica por uma resposta clara ao Amor.

Tudo isto jorra nesta obra como uma cristalina fonte. Um encontro com a verdade feita na história, no coração paterno e materno de Francisco e no jeito irmão e mestre, simples e luminoso, poético e terapêutico, teológico, terno e vigoroso de Leonardo Boff.

FREI VITORIO MAZZUCO

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Francisco de Assis pelo biógrafo Paul Sabatier


Paul Sabatier começou a redigir  esta obra Vida de São Francisco de Assis, USF-IFAN, Bragança Paulista, 2006, em  1890 e trabalhou intensamente até 1893 na mesma. A obra foi lançada em Paris em 1984, e a primeira edição esgotou-se em pouco tempo e teve pedido de mais quatorze traduções. Alcançou um estrondoso sucesso em todas as nações da Europa. Tolstói o leu e fez traduzir para a língua russa.

Uma biografia histórica que se tornou um fenômeno literário. Em 1931 tinha quarenta e três edições em todas as línguas europeias. Obra plena de mística cristã, italiana e medieval. Por razões ideológicas de reação contra o autor que era um protestante calvinista e pastor, o livro foi parar no Index dos livros proibidos.

É a obra que dá um impulso para os estudos históricos críticos sobre Francisco de Assis; Paul Sabatier é o pai dos estudos críticos das Fontes Franciscanas. A Universidade São Francisco de Bragança Paulista a partir de seu Instituto Franciscano de Antropologia propiciou a primeira tradução em língua portuguesa.  Editora Vozes  está preparando uma nova edição desta mesma obra. Foram muitos anos sonhados na paciência da espera e na vontade de ter mais um subsídio fundamental para a compreensão do fenômeno humano e cristão chamado Francisco de Assis.

Não é apenas uma obra a mais sobre esse personagem santo e reformador, a respeito do qual já se escreveram obras  suficientes para formar uma biblioteca. Este livro, porém, é uma obra diferenciada, estimula nossa vontade de ler e vontade de ser. É muito bom ler Francisco; o mundo precisa de sua vida real e legendária para fortalecer sua criatividade, sua esperança, seus sonhos e sua fé. Francisco é um santo empenhado em recriar a vida. Para o povo, Francisco é um prolongamento do seu modo de ser, um ser natural e sobrenatural ao mesmo tempo. É muito bom ler Sabatier, autor de um pensamento diverso. Quem pensa diferente também recria um diálogo com o mundo, com a fé, com os valores cristãos, com a ética, com a história; e nos ensina a sermos mais  autênticos.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quarta-feira, 23 de novembro de 2016

FRANCISCO DE ASSIS, O SANTO RELUTANTE

Uma das obras modernas impactantes e que inspirou outras obras e artigos, como por exemplo a Conspiração Franciscana,  temos esta: Francisco de Assis, O Santo Relutante,  de Donald Spoto, Objetiva, Rio de Janeiro,2003.  O autor é doutor em Teologia pela Universidade Fordham, professor de Estudos da Religião, Literatura Bíblica , e grande escritor, com mais de 20 obras. Ele interessou-se por Francisco de Assis após ter pesquisado, entre biografias e artigos, as 1.575 obras escritas sobre São Francisco de Assis. Segundo ele, nenhum santo foi objeto de tanta atenção da parte de historiadores e biógrafos. Ele procura olhar Francisco além dos preconceitos modernos, e vê-lo como um italiano medieval com um entendimento muito específico da realidade. Tira o mito da ideia romântica sobre a era dos castelos e dos cavaleiros errantes, das damas medievais e da honra cavalheiresca.  A vida e o exemplo de Francisco possuem uma integridade que desafia nossos preconceitos sobre o que constitui uma vida de virtude, sem falar de uma forma respeitável de encarar a religião.

Donald Spoto realça a humanidade de Francisco de Assis e diz que ele não era um teórico da vida espiritual, jamais falava de Deus a não ser em termos de experiência, porque era testemunha de um Deus vivo e atuante. Ele deu ao mundo uma vida de simplicidade radical, desvinculada de quaisquer posses e, portanto, livre para seguir os acenos da graça e o caminho que leva a Deus, a qualquer momento e em qualquer lugar em que Deus o chamasse. Fé é uma atitude diante da realidade, e a conversão é obra constante de toda uma vida. Uma vida comovente e penitente. Por ter uma clara concepção da vida, de si mesmo e dos outros, Francisco podia compreender melhor quem era Deus.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

segunda-feira, 21 de novembro de 2016

UMA POÉTICA VIDA DE SÃO FRANCISCO

Para o conhecimento de Francisco de Assis vale a pena ler São Francisco de Assis, de Johannes Joergensen, Editora Vozes, Petrópolis, 1982. Quem era o autor?  Joergensen,  escritor, biólogo, poeta lírico e autor de muitos ensaios, nasceu em 06 de novembro de 1866, em Svendborg, na Dinamarca e morreu no dia 29 de maio de 1956. Era protestante luterano e aderiu ao panteísmo romântico e ao darwinismo positivista, ao naturalismo e ao simbolismo impressionista.  Em 1898, aos 32 anos, passou para o catolicismo. Em 1913 era professor de Estética em Louvaine e professor no Instituto Católico de Paris. Morou em Assis por 35 anos. Buscava a verdade, a serenidade e a paz.  Ele se autodefiniu como Peregrino de Assis.

Escreveu a sua vida de São Francisco com muito sentimento e poesia, sempre harmonizando com a poética a sua busca pela verdade. Escreveu na sua língua natal e publicou pela primeira vez em Copenahage em 1907. Foi traduzida imediatamente em várias línguas, com centenas de edições e reimpressões. Identificou-se com Francisco como poeta e como convertido. No início de sua biografia coloca uma apresentação das Fontes, dando destaque a Tomás de Celano. Sua obra é original e destaca a poesia religiosa de Francisco de Assis.

No capítulo VIII descreve a presença de Jacoba de Settesoli no momento da morte de Francisco: “A primeira pessoa admitida junto ao cadáver de Francisco foi Jacoba. Toda chorosa, ela lançou-se de novo sobre o corpo de seu mestre, e cem vezes beijou as chagas das mãos e dos pés do extinto. Depois, juntamente com os frades, velou, durante a noite, ao lado do ataúde do falecido mestre, e , quando raiou a aurora do domingo seguinte, a discípula de Francisco sentiu que a sua resolução estava estabelecida: agora ela não mais partiria de Assis, e passaria o resto de sua vida nos lugares onde Francisco peregrinara e fizera as suas obras. Como o convento de São Damião, a casa de Jacoba em Assis, bem depressa houve de se tornar um lugar de reunião para os discípulos fiéis, e numerosas foram as esmolas que das mãos dela passaram para as mãos de Frei Leão, Frei Egídio e Frei Rufino”.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

sexta-feira, 18 de novembro de 2016

FRANCISCO DE ASSIS, CAMINHOS DE INTERIORIDADE

Indico uma obra muito boa: "Caminhos de interioridade com São Francisco de Assis", de Michel Hubault, Editorial Franciscana, Braga, 2008. Michel Hubault é um religioso franciscano da Ordem dos Frades Menores, pregador, escritor, conferencista, publicou muitas obras sobre São Francisco. Na introdução da obra, ele faz uma pergunta: Que pode a espiritualidade franciscana oferecer ao nosso tempo? E compara os séculos XII e XIII aos tempos de hoje. O alvoroço constante e as mudanças aceleradas na sociedade. Em meio a tudo o rigor e as intuições de São Francisco em sua época e que servem de inspiração para a nossa época. O seu singular carisma, com efeito, foi o de ter conseguido conciliar as aspirações dos homens e mulheres do seu tempo com a Boa Nova do Evangelho.

Quando Francisco atinge a maioridade, a sociedade feudal está desmoronando e aparece o mercado. Do rural para a sociedade urbana. Há transformações dos modos de vida tradicionais. Riqueza muda de mãos: sai das mãos do senhor feudal e passa a ser dinheiro móvel, na compra e venda de bens. Tudo pode ser comprado: da mercadoria mais comum até um título de nobreza, uma esposa nobre e um benefício eclesiástico. Há lutas para se libertar da tutela dos nobres. Francisco de Assis participa desta luta. Os grupos começam a se organizar. Um ideal de fraternitas está no ar. Francisco abraça este ideal e o sublima, sabe que pode dar um sentido mais forte a toda transformação pessoal e social. Encontra-se com  o Cristo de São Damião e começa a ter consciência e prática de que a única revolução duradoura e proveitosa para a humanidade teria de se basear no Evangelho, pois só ele é capaz de inventar uma nova forma de viver. Francisco de Assis nunca deixará de apreciar o respeito pela liberdade e de mostrar simpatia pela audácia, pela novidade, pela fraternidade e pela mobilidade.

Francisco de Assis restaura a si mesmo, os valores, o modo de estar no mundo e inspira uma mudança na Igreja. A eclesiologia do século XIII é paradoxal: continua prisioneira de velhas estruturas feudais, está defasada, alheia à cultura emergente. Perde o contato com o povo, e os modelos de vida cristã que propõe não se adaptam às aspirações dos homens e mulheres deste tempo. Fervilham os movimentos penitenciais, grupos evangélicos e novas comunidades. Todos manifestam um sincero desejo de retorno ao Evangelho, relações mais fraternas, mais cordiais, menos hierárquicas. O século XIII foi o século do laicato. Não rompe com a Igreja, mas mostra um caminho de interioridade fundamentado na Boa Nova. Com isto permaneceu!

FREI VITÓRIO MAZZUCO

sexta-feira, 11 de novembro de 2016

Francisco de Assis na história medieval

Muitas pessoas desconhecessem a Idade Média; outras pensam conhecer e emitem opiniões sem fundamentos, outras manifestam um grande interesse. O fato é que a Idade Média influencia as épocas da história com uma vitalidade invejável. Indico para quem se interessa um bom livro, uma bela síntese histórica, para a compreensão do período medieval: O Cristianismo na Idade Média, de Danilo Mondoni, SJ, Edições Loyola, 2014. O autor diz que “sem a visão negativista do iluminismo - época das trevas – nem a exaltação unilateral do romantismo – a civilização cristã – esta obra tem por objetivo descrever e compreender os encadeamentos históricos que delinearam e caracterizaram a cristandade medieval, apresentando uma visão de conjunto de seu desenvolvimento, desde a fase inicial, caracterizada pela missão anglo-saxã e pela relação entre a Igreja e o reino dos francos, passando pelo ressurgimento da vida urbana no Ocidente e pela pretensão pontifícia de supremacia política e espiritual sobre a Europa, até as discrepâncias entre as exigências da Igreja e um mundo já em mudança, tentativas de reforma eclesial e formação de Igrejas nacionais, questionamento do princípio hierocrático pelo princípio da soberania do povo e pela teoria conciliar, secundados pelo humanismo e pela Renascença”.

Mas gostaria de citar o que diz a obra em referência a São Francisco de Assis, mostrando que a vida de Francisco significou uma reação religiosa contra os perigos e males da cultura urbana: a primazia do humano sobre o institucional, o desprezo das riquezas que coisificam o ser humano, o valor do simples e natural em face do artificialismo das necessidades de consumo, o despojamento de todo prestígio e toda hipocrisia para se voltar à verdade original, o amor à pobreza como fonte de liberdade interior, o amor a todo ser vivo e a paz entendida como amor positivo e universal a todos os irmãos e irmãs. Foi um louvor ao Senhor mediante suas criaturas – estas não são somente símbolos, mas realidades vivas, filhas de Deus. Francisco foi uma das pessoas mais abertas às alegrias da vida: cantou e exaltou todas as criaturas como transparência da glória e do amor de Deus.

Francisco de Assis é um dos santos mais amados, admirados, estudados e pesquisados. Escrevem-se muitas obras: livros, teses, ensaios, artigos, teatro, musicais, filmes e poemas sobre ele.  Muita gente pede indicações de livros sobre Francisco de Assis, por isso, farei uma série de indicações de obras referenciais sobre Francisco de Assis e seu movimento de amor evangélico que se transformou em três Ordens e todas as suas ramificações. Ele sempre será uma fonte de inspiração. E como dizia uma máxima acadêmica medieval: é preciso conhecer melhor, para amar mais.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quarta-feira, 9 de novembro de 2016

Francisco de Assis, personalidade histórica

Francisco fascina pela convergência de duas características na aparência contraditórias, mas não exclusivas uma de outra: a firmeza na indicação do próprio ideal e a flexibilidade em torná-lo presente nas circunstâncias concretas sem jamais desnaturar-lhe os elementos constitutivos fundamentais. Estas, por sua vez, acrescentavam aos aspectos psicológicos de seu caráter um aspecto não acessório de persuasividade concreta: a vontade de participar da marginalização era sincera, real, vivida não no fechamento de um eremitério ou entre os muros de um mosteiro, mas entre o povo, nas ruas, no colóquio entre as pessoas. Estas são palavras da apresentação da obra São Francisco, de Raoul Manselli, Vozes-CFFB, Petrópolis, 1997. O autor, Raoul Manselli, é um especialista em história da Idade Média, professor na Universidade de Roma, escritor conceituado em matéria de Franciscanismo.

O fascínio de Francisco de Assis estendeu-se sobre pensadores, filósofos e historiadores. Muitos o sentem em forma de impulso ao pesquisar e escrever sobre Francisco, não só contemplando o aspecto da santidade, mas particularmente o da personalidade humana em sua breve existência. Esta obra apresenta Francisco como personalidade histórica em toda a sua grandeza. Uma estreita ligação entre o homem Francisco e o se tempo, entre Francisco e seus irmãos em uma Igreja perpassada por profundas inquietações. Deixa emergir uma personalidade coerente e sobressair uma religiosidade nova que se nutre tanto dos sentimentos e da vida popular quanto da mais autêntica espiritualidade litúrgica.

O grande valor desta biografia reside no fato de o autor levar em conta não só as fontes biográficas do século XIII, mas também as pesquisas históricas desenvolvidas especialmente a partir do final do século passado. O próprio autor diz que, através de uma exposição crítica, mostra a relação entre um homem e a realidade religiosa, política e social que o circunda, para compreender e atingir o motivo central inspirador da sua vida e da sua ação que operam no interior daquela realidade para modificá-la e renová-la à luz de um modelo revivido numa imediatez global, o modelo oferecido por Jesus Cristo no Evangelho.

Frei Vitório Mazzuco

terça-feira, 1 de novembro de 2016

Francisco de Assis e a irmã morte


Frei Vitório Mazzuco

Tema estranho quando olhamos a partir dos limites de nossa compreensão e aceitação. Mas é natural em se tratando de Francisco de Assis, que preparou o momento de sua passagem deste mundo para a eternidade. Reuniu os Irmãos, recebeu os doces e a presença de sua amiga Jocoba de Settesoli, compôs um hino às Criaturas para ser cantado naquela hora, arrumou um despojado leito na terra nua. Por amar intensamente a vida, não teve medo da morte. Morreu no outono de 1226 em meio às metamorfoses da estação, o amadurecimento das folhas, o cair para o chão, renascer em todos os galhos e florescer; esconder nos confinados canteiros do inverno e renascer na Eterna Primavera.

Francisco venceu-se e, no vencer-se, destruiu seus medos, sobretudo o medo da morte. Porque reconstruiu o Reino, se sentiu seguro nele para sempre. Abraçar a morte fez parte de seu ser livre. Sêneca, na carta a Lucilius, escrevia: “Quem faz assim pratica a liberdade do pensamento, pois quem aprendeu a morrer, desaprendeu ser escravo”. Francisco não se prendeu a nada, foi livre para o regresso ao Paraíso. Ao fazer de sua morte uma celebração tirou o trágico do instante. Viveu a vida moldando cada dia o eterno. Para ele, cada segundo da vida continha toda a vida em sua plenitude, por isso não sabia do último dia. Disse que todos devem recomeçar; fazer a sua parte.

Desejou o Espírito do Senhor e o seu santo modo de operar. Fez disso a expressão de sua vontade. Compilou uma anotação de todas as maravilhas que viu na vida. Cantou um cântico de luz na sombra da morte. Sabia que ia chegar ao céu e ser imediatamente reconhecido por todos os  sofridos leprosos  que chegaram antes, e pelo  Filho do Homem, que ia identificar e contemplar nele a mesma tatuagem da Paixão, as marcas  do Amor, fundidas num  grande e acolhedor abraço!

segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Que história é esta de chamar a morte de irmã?


No Cântico das Criaturas existe o famoso verso de Francisco de Assis: ”Louvado sejas, meu Senhor, pela Irmã nossa, a morte corporal, da qual nenhum homem vivente pode escapar”; ou como relata Tomás de Celano: “Convidava também todas as criaturas ao louvor de Deus e, por meio das palavras que outrora compusera, ele próprio exortava ao amor de Deus. Exortava ao louvor até a própria morte, terrível e odiosa para todos, indo alegre ao encontro dela, convidava-a a sua hospitalidade; disse: “Bem-vinda, minha irmã morte!”(2Cel 217,7). Francisco preparou ritualmente sua morte, fez da sua morte uma celebração, um rito de passagem. Por estar plenamente na vida e na totalidade da existência integrou a morte não como  um absurdo, mas como parte natural do ciclo da vida.

Francisco de Assis é uma afirmação da vida por isso pode encarar a morte como um processo da curva biológica que traça a linha do nascer, crescer, envelhecer, morrer no momento oportuno ou prematuramente. Francisco preocupou-se com a vida e não com a doença e morte. Morre cantando a vida e sua essência. Ao celebrar a morte, ele a encarou de frente como  aquela que lhe estendia a mão para concretizar  o grande sonho humano: a imortalidade! Ele sabe que não está perdendo nada da vida porque encontrou e ganhou a vida plena que estava dentro de si mesmo. Fez do Amor seu projeto de vida, amar a Deus, amar a humanidade, a fraternidade, amar todos os seres. Esta confraternização universal do Amor não conhece a morte e o morrer. Tudo fez parte de sua vida, inclusive a finitude. Ele pode dizer como Santa Terezinha: “Eu não morro... entro na vida!”. Ele pode dizer como Gabriel Marcel: “Amar é dizer: tu não morrerás jamais!”.

Francisco de Assis sente, pensa, sente e age com a certeza de que a morte não é um fim, mas a grande oferenda, a entrega, a restituição de si mesmo para Deus. Conquistou a esperança dos justos, que é imortalizar-se e andar para sempre no florido e fecundo caminho do Paraíso. A força vital que emana de Francisco de Assis o fez dar boas vindas a Irmã Morte.

Frei Vitório Mazzuco

terça-feira, 25 de outubro de 2016

Francisco de Assis e a minoridade


Neste mundo tão competitivo, como falar de Minoridade? Anda meio esquecido este tema, podemos até parodiar o samba do Raça Negra: “Que é que eu vou fazer com esta tal Minoridade...” Aliás, Minoridade não é apenas um termo, mas uma herança da forma de vida franciscana. Está nos escritos, na virtuosidade franciscana e na sigla da Ordem. Minoridade não está ligada a minoria, e não tem aqui a conotação de grupo étnico minoritário na sociedade.

Na verdade, Francisco nunca usou a expressão Minoridade, mas sim Menor, não no sentido daquele que ainda não atingiu a maioridade, mas sim como o mais humilde, o mais simples, o mais pequeno. Diz na Regra Não Bulada: “Do mesmo modo, nenhum dos irmãos tenha qualquer poder ou domínio, sobretudo entre si. Porquanto, como diz o Senhor no Evangelho, os príncipes das nações têm domínio sobre elas, e os que são maiores entre as gentes têm poder sobre elas. Entre os irmãos, porém, não há de ser assim; mas aquele que quiser ser o maior entre eles, seja deles o ministro e servo, e aquele que é o maior faça-se entre eles o menor” (RnB 5,9-12). Minoridade é uma conversão de mentalidade: estar em todas as relações como aquele que serve. Não se pode separar Minoridade e Serviço. É princípio da Boa Nova, prática de Jesus.

Tomás de Celano coloca a Minoridade como fundamento de todas as virtudes: “Foi ele, com efeito, quem fundou a Ordem dos Irmãos Menores e lhe conferiu esse nome nas circunstâncias que seguidamente se referem. Estavam para serem escritas na Regra as palavras “e sejam menores”, mas ao proferir estas palavras, naquela mesma hora, disse: “Quero que a nossa fraternidade se chame 'dos irmãos menores'”.

E eram realmente menores, porque se submetiam a todos, buscando sempre o último lugar e os ofícios a que estivesse ligada alguma humilhação, afim de merecerem, fundamentados em verdadeira humildade, erguer sobre ela o edifício espiritual de todas as virtudes” (1Cel 38).

Autoridade não é poder, mas é expressão do serviço fraterno. O modo de servir é na humildade e na simplicidade. O modo de servir é abaixar-se até a pessoa e lavar seus pés, como o Senhor fez: “Eu não vim para ser servido, mas para servir, diz o Senhor. Os que foram incumbidos acima dos outros, no ofício de prelado, tanto se gloriem desse ofício, quanto se gloriariam se fossem encarregados de lavar os pés aos irmãos” (Adm 4).

Minoridade é um modo forte de amar, é ajoelhar-se diante das criaturas como fez um Deus encarnado. É inverter o status, a hierarquia, o poder. A grandiosidade da pessoa não está nos seus títulos, mas na sua capacidade de servir. Minoridade é uma identidade crística. Servir como o Senhor serviu.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

segunda-feira, 3 de outubro de 2016

FRANCISCO DE ASSIS E SEU CONTÁGIO DE AMOR


Mais uma vez a Festa de São Francisco de Assis, e cada ano, desde o Transitus no dia 03 até 04 de Outubro, a sua presença é sempre um momento celebrativo, reflexivo e provocativo. Ele é um grande apelo espiritual, uma espiritualidade contagiante que se adapta em vários jeitos do modo de viver de ontem e de hoje. Sua espiritualidade é razão e Forma de Vida, uma estreita ligação entre fé cristã e a vida quotidiana, o Evangelho na vida e a vida burilada pelo Evangelho. Ele vive a Fraternidade de um modo que ela reinvente as relações humanas entre si e com todos os seres.

Francisco de Assis viu na Encarnação um jeito de Deus humanizar-se com extrema humildade e simplicidade. Nós vemos em Francisco um modo de divinizar o humano, para que se encontre uma consistência em meio a tanta fragmentação. Deus desejou estar entre nós, Ele tem prazer de conviver entre nós, o mistério da Encarnação é um mistério gozoso, e Francisco de Assis fez a festa luminosa do Natal ser perene. Viver nos caminhos de Francisco é desejar uma vida fraterna que refaça o jeito de Deus morar na casa do humano.

Francisco de Assis teve bem clara a certeza de que o Senhor mesmo revelou o que ele deveria fazer. Ele é um convertido que deixa-se conduzir pelo Senhor. Fé e conversão não separam. Porque crê, Francisco abandona-se nos desígnios de Deus. Mudou o rumo da sua vida pois teve a certeza onde Deus o levaria pelos caminhos da Boa Nova. Muitos pensam que conversão é isto: eu era um bêbado e parei de beber. Conversão não é somente frear vícios, mas sim aceitar o fato de que sozinho não se pode fazer nada, e fazer com a vontade do Senhor.  Não é focar o eu, mas sim priorizar o modo como Deus ama, ampliando o eu em nós. Francisco de Assis fez o Amor de Deus amar radicalmente através dele e da oferenda da sua vida que se entregou por inteira ao fraternismo universal.

Francisco de Assis sonhou brilhar entre as pessoas de seu tempo, seduzir com a sua liderança a juventude de Assis, partir para as honras da Cavalaria Medieval e chegar à nobreza. Num determinado momento de sua vida fundiu seus sonhos com os sonhos de Deus. É um convertido que renuncia projetos dos costumes nobres de então para sonhar o que Deus sonhou para este mundo: Reino de Deus é casa reconstruída, é humanidade reconstruída é mundo reconstruído. Bens da terra passam e ele desapropriou-se de bens para buscar o tesouro eterno. Como não tinha mais olhar voltado para as atrações do material começou a ver melhor os despossuídos de cuidado. Vai aos pobres como um pobre, vai ao leproso como um abraço, vai a Cúria Romana como um mendigo pedindo para viver pedaços do Evangelho para conquistar a inteireza da Palavra que é Vida.

Francisco de Assis foi de Assis para o Oriente, para o Alverne, para as florestas, para as praças, para onde vivia sua fraternidade primitiva, foi por muitos lugares para mostrar um único lugar: a casa do Amor! Esta casa que deve ser restaurada onde quer que estejamos! Boas festas do Seráfico Irmão e Pai!

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quarta-feira, 28 de setembro de 2016

OS ÍCONES FRANCISCANOS



A tradição franciscana e clariana tem uma riqueza inesgotável de sinais e símbolos, uma iconografia expressiva que se revela na Porciúncula, sandálias, TAU, cordão, ostensório de Clara, o Espelho,  o hábito, o Crucifixo de São Damião, as mãos cruzadas revelando as Chagas, o rosto sempre sereno de Clara, o lobo de Gúbio, e tantos outros. Os ícones franciscanos revelam uma força espiritual muito grande que marcou tantas vidas, uma energia vital silenciosa e inspiradora a mostrar criatividade.

Os ícones franciscanos são materiais, físicos, espirituais e psíquicos e espelham meditação, presença, harmonia, intuição, fantasia, emoção, caminho trilhado, funções rituais e experiências místicas. Mostram que o uso do símbolo é sempre benéfico; um código de mandato, unção, uma doutrina em forma de sinais. Simplicidade e arte como transformação de uma vida. Um ícone vale mais do que mil palavras!

Gosto de estar nos espaços franciscano e contemplar a beleza de seus ícones. A luminosa presença do Crucifixo de São Damião a mostrar que o Amor é sempre difusivo, e que toda reconstrução começa por aí. O TAU é de uma força protetora incrível. A Porciúncula é simplicidade e imponência. O rosto de Clara a dizer para o espelho: O Amado me quer como eu sou! Da experiência pessoal a uma experiência coletiva de fé. Os ícones estão sempre a evocar este jeito franciscano de se colocar de maneira evangélica, mística e profética. E como precisamos destas marcas e motivações franciscanas! Intuir e sentir profundamente, intuir e dar passos missionários. O fato é que estes ícones atravessam o tempo sempre de forma nova, nos corpos, nas paredes e nos altares, estão abertos para as surpresas do espírito. E não podemos esquecer a bela saudação que por si só  tornou-se um ícone: PAZ E BEM!

Veja também: Símbolos franciscanos

FREI VITÓRIO MAZZUCO

sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Francisco de Assis – o amor que deixa marcas 3



Francisco estigmatizado é o corpo traspassado de um desejo profundo. É o corpo que se fez portador da vontade do Senhor assim como Maria: “Faça-se em mim segundo a tua Vontade!” Maria deu-nos o Menino, o Emanuel, o Deus Conosco. Francisco no Deus o Cristo Pobre, Humilde e Crucificado. Greccio e Alverne se encontram na mesma verdade! Este Corpo arde e fala! Este corpo concretizou encontros e rupturas. Deu todos os bens para abraçar a Pobreza. Deu todo o afeto para abraçar o leproso. Deu toda a sua pureza de coração para abraçar a fraternidade. Deu todo os seus ouvidos ao Crucificado de São Damião que pediu a reconstrução da casa. Deu um novo início ao Evangelho transformando- o em Forma de Vida.

No corpo estigmatizado de Francisco a impressão de sua vida inteira, estigmatizada pela Pobreza, Obediência e Pureza de Coração. No corpo de Francisco as marcas de sua marginalidade assumida, pois foi rejeitado por nobres e cidadãos de sua época.  No corpo de Francisco o Amor devorante de Deus e por Deus, um Amor capaz de assumir a fraternidade dos marginalizados da sociedade oficial. Como o Amado ele também abraçou os cegos, os camponeses, os paralíticos, os que não podiam ganhar nada para viver, as mulheres que não podiam nem falar e nem seguir fora da vigilância das autoridades. Ele assumiu em si os estigmas sociais de seu tempo. Não foi um bode expiatório, sim um reformador fraterno de um modo mais leve de viver o Evangelho.

No corpo estigmatizado de Francisco a responsabilidade de conduzir uma Fraternidade que nele acreditou e que não tinha onde reclinar a cabeça. Eram peregrinos e viandantes, vivia com os seus companheiros primitivos   a beleza de estar no mundo como um claustro transitório. Neste mundo encontraram a criação que restituíram ao Criador, pois viram nela a fonte da beleza, do louvor e da graça, podiam falar da Criação como uma consanguinidade familiar, um laço universal que autoriza a falar de todas as criaturas como irmãos e irmãs. Devolveram tudo para não ter posse e inveja de nenhum acúmulo. Viveram uma metamorfose ambulante.

No corpo estigmatizado de Francisco a consolação bela e prudente da serena irmã e companheira, Clara de Assis! Ela entendeu que a Cruz tinha que ser guardada e cuidada para sempre, e que Francisco era seu Espelho. Francisco foi ao mundo levar o Evangelho. Clara ficou no claustro para reviver o ventre de Maria. O Amor tem que ser concebido cada dia. Francisco teve que sofrer pela liberdade de Clara, mas os dois foram muito felizes na liberdade do Amor. A natureza do Amor foi reconstruída como o verdadeiro claustro. Em Clara, a vida do Mosteiro é matriz na qual cada dia a palavra de Deus vem ao mundo. Clara não é apenas uma seguidora de Francisco, ela beija o sangue dos estigmas que ele conquistou e bebe na mesma Fonte.  Diz Angela de Foligno: “Na plenitude de Deus, eu colho o mundo inteiro, além de tudo, dos mares e dos abismos, do oceano de cada coisa. E em tudo, não percebo outra coisa que não seja a potência divina, de modo inenarrável. Então, no ápice da admiração, a minha alma exclama: esta natureza de Amor é grávida de Deus!” (Angela de Foligno, Memoriale, VI, 1285-1298 ).

No corpo externo estigmatizado de Francisco o esponsal com o corpo interno, a sua vida interior, marcada pelo Amor ao Crucificado. É uma prova evidente: ele que tocou com o Amor toda a obra de Deus, foi tocado com muito Amor pelo próprio Deus. Não é dor corporal, mas sentidos da vida que passam pelo crivo da entrega mais radical por Amor. Francisco não somatizou a dor, mas sim deixou que o Amor marcasse seu corpo. Ele e o Amor tornaram-se Um!

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quinta-feira, 15 de setembro de 2016

Francisco de Assis – o amor que deixa marcas 2


CONFIRA: Francisco de Assis – o amor que deixa marcas 1

Estigmatização é renovação vinda de um caminho percorrido, não é algo imaginário, mas é real quando se percebe uma extraordinária transformação. Renovar-se é a força do humano que não se sente mais escravo de nada, é livre, diante da natureza e da lei, do selvagem ao civilizado, mas acrescenta algo à identidade humana. Francisco apresentou-se ao mundo com as marcas da fraternidade que vinha de uma vivência cristológica. Ele marcou a vida de um modo original. No Cântico das Criaturas ele integrou a terra e os astros, o masculino e o feminino, o selvagem e o civilizado. O seu corpo é o corpo da existência fraterna, por isso pode integrar o natural e o espiritual, o bárbaro e o comportado, o homem e a mulher. “ Se alguém está em Cristo, é nova criatura. Passaram-se as coisas antigas; eis que se fez uma realidade nova” (2Cor 5,17).

Voltando a Cícero, ele entendia o homem novo como aquele que assumiu um cargo público e deve ser o primeiro a mudar. Voltando a Francisco de Assis, ele é o mercador, filho de mercador, desprezado pela nobreza de então, mas assumiu o código de cavaleiro, não pela função em si, pois jamais fez a iniciação cavaleiresca, mas pelos valores que a sua vida exigia. Assim ele vence o desprezo e a incompreensão, ele vence a estigmatização social, mostrando que ele agora tem uma nova função, mesmo com todo sofrimento que isto implica. Ele não se identifica mais com as funções que o pai e a sociedade queriam para ele, mas sim com a nova função, levar ao mundo o jeito sempre Novo da Boa Nova, nascida no presépio e complementada na Cruz, caminho total de mudança radical. O Evangelho e o Reino anunciado e vivido por Jesus tornam-se a grande novidade: a inesperada Humanidade de um Deus e a inquietude humana em abraçar esta Humanidade Nova, que vai trazer a máxima liberdade, a fecunda liberdade, o espírito de coragem, o acesso definitivo à filiação divina.
No Testamento, Francisco diz: “Foi assim que o Senhor concedeu a mim” (Test 1), ele sabe que ele não foi um profissional da religião, mas um enamorado guardião de uma grande Inspiração. Os estigmas de Francisco são sinais concretos e não imaginação. O Cristo que o inspirou não foi estigmatizado, mas Crucificado! Os texto do Evangelho contam com mais detalhes a Paixão de Jesus do que o seu Nascimento.

A intensidade de uma vida deixa marcas e consequências. Não devemos nos prender à confusão entre narrativa e iconografia. Tem gente que está preocupada em provar se São Paulo caiu ou não do cavalo em Damasco. Toda a questão é ver o que mudou na vida de São Paulo. Nós também não precisamos buscar o corpo de Verônica Giuliani, Catherine Emmerich, e Padre Pio de Pietrelcina, para ver fenômenos excepcionais que aconteceram neles. Mas sim buscar indícios na vida de Francisco de Assis e de outros, quanto a uma grande transformação do humano em divino. Os estigmas de Francisco são descobertos e decifrados depois da sua morte, mas as marcas de Cristo já estavam com ele em vida. Marcas são reconfigurações em vida e que a morte deixa como uma herança.
Francisco de Assis recebeu a marca de um Serafim, é a polivalência de uma teofania. É a chama que se acende quando o Anjo e o Homem se encontram. É a figura divina inacessível ferida de Amor e dor que toca o Humano ferido de Amor e dor. É o encontro heroico com as marcas do Amor que glorificam uma entrega. Vida evangélica, vida mística, vida fraterna deixam marcas do interior para o exterior.

Francisco de Assis tem que ser visto na inteireza de sua vida e não no fato isolado de sua estigmatização. Porque os estigmas são convergência de um caminho de santidade, de fundador de uma Ordem, de um profeta de um novo mundo. Os estigmas recontam a vida de Francisco do início ao fim, mostram a inteireza de sua existência. Ele é o Humano Novo dentro de um mundo envelhecido de ontem e de hoje. Ele libertou o mundo de então da depressão coletiva, de voltar-se para o egoísmo, ambição e avareza, de fixar-se em propriedades, de privilégios de sangue e castas sociais, e fazer com que a fraternidade não fosse apenas um modo de monges viverem juntos, mas o jeito de conviver nas estradas do mundo. Ele fez Cristo voltar a andar nos caminhos mais costumeiros da vida, e este Cristo que um dia andou pelas estradas da Palestina amou tanto que foi crucificado. Sofrimento e perfeita alegria. Transformação e laços consanguíneos com o Amado. O corpo de Francisco foi marcado pela centralidade da sua busca: ser igual a Ele! Ele tatuou em sua carne a Palavra Encarnada e Inovadora.

Quem um dia deixou-se marcar pela Cruz trouxe a salvação para a humanidade. O Amor não tem sofrimento inútil. O Amor é uma fusão de vontades amantes. Diz Tomás de Celano: ”O filho respondeu diligentemente ao pai, sabendo que pelo Senhor lhe era dada a palavra da resposta: “Dize-me, por favor, ó pai, com quanta diligência teu corpo obedeceu às tuas ordens, enquanto pôde?” Ele disse: “Filho, dou meu testemunho de que ele foi obediente em tudo, em nada poupou a si mesmo, mas quase se precipitava a todas as ordens. Não fugiu de trabalho algum, não escapou de incômodo algum, bastava-lhe poder cumprir as ordens” (2Cel 211).

O corpo de Francisco de Assis não é mais dele, mas do Amor! Não é apenas um fragmento de macrocosmo, uma simples modalidade de viver nesta terra, não é um sangue anônimo. Ele é um corpo transfigurado pela vontade do Amor! É um corpo livre do mundo, da eclesiologia, das doenças e dos demônios, e de tudo o que o ameaça.  Agora não é mais corpo em forma de carne humana, mas sim totalidade de uma vida, é Corpo de Cristo! É um Corpo ritual e sagrado. Ele agora pode mostrar a dramatização de uma Encarnação: de Greccio ao Alverne este corpo mostra o que o Amor moldou em si. Em Greccio, Francisco encenou o Presépio, no Alverne Francisco sangrou a identificação com a Palavra Encarnada! É agora, não um Natal para crianças, mas uma Natividade para adultos. Quer Amar? Então toque o Verbo na sua manifestação mais natural e mais amorosa. Não é apenas ouvir a Palavra, mas ter a Palavra no sangue. A Palavra se fez Carne porque a Carne se fez Amor. É a Palavra expressiva num corpo expressivo. Agora o corpo tem uma importância eterna porque tem as marcas do Amor!

FREI VITÓRIO MAZZUCO


Francisco de Assis – o amor que deixa marcas 2


Estigmatização é renovação vinda de um caminho percorrido, não é algo imaginário, mas é real quando se percebe uma extraordinária transformação. Renovar-se é a força do humano que não se sente mais escravo de nada, é livre, diante da natureza e da lei, do selvagem ao civilizado, mas acrescenta algo à identidade humana. Francisco apresentou-se ao mundo com as marcas da fraternidade que vinha de uma vivência cristológica. Ele marcou a vida de um modo original. No Cântico das Criaturas ele integrou a terra e os astros, o masculino e o feminino, o selvagem e o civilizado. O seu corpo é o corpo da existência fraterna, por isso pode integrar o natural e o espiritual, o bárbaro e o comportado, o homem e a mulher. “ Se alguém está em Cristo, é nova criatura. Passaram-se as coisas antigas; eis que se fez uma realidade nova” (2Cor 5,17).

Voltando a Cícero, ele entendia o homem novo como aquele que assumiu um cargo público e deve ser o primeiro a mudar. Voltando a Francisco de Assis, ele é o mercador, filho de mercador, desprezado pela nobreza de então, mas assumiu o código de cavaleiro, não pela função em si, pois jamais fez a iniciação cavaleiresca, mas pelos valores que a sua vida exigia. Assim ele vence o desprezo e a incompreensão, ele vence a estigmatização social, mostrando que ele agora tem uma nova função, mesmo com todo sofrimento que isto implica. Ele não se identifica mais com as funções que o pai e a sociedade queriam para ele, mas sim com a nova função, levar ao mundo o jeito sempre Novo da Boa Nova, nascida no presépio e complementada na Cruz, caminho total de mudança radical. O Evangelho e o Reino anunciado e vivido por Jesus tornam-se a grande novidade: a inesperada Humanidade de um Deus e a inquietude humana em abraçar esta Humanidade Nova, que vai trazer a máxima liberdade, a fecunda liberdade, o espírito de coragem, o acesso definitivo à filiação divina.
No Testamento, Francisco diz: “Foi assim que o Senhor concedeu a mim” (Test 1), ele sabe que ele não foi um profissional da religião, mas um enamorado guardião de uma grande Inspiração. Os estigmas de Francisco são sinais concretos e não imaginação. O Cristo que o inspirou não foi estigmatizado, mas Crucificado! Os texto do Evangelho contam com mais detalhes a Paixão de Jesus do que o seu Nascimento.

A intensidade de uma vida deixa marcas e consequências. Não devemos nos prender à confusão entre narrativa e iconografia. Tem gente que está preocupada em provar se São Paulo caiu ou não do cavalo em Damasco. Toda a questão é ver o que mudou na vida de São Paulo. Nós também não precisamos buscar o corpo de Verônica Giuliani, Catherine Emmerich, e Padre Pio de Pietrelcina, para ver fenômenos excepcionais que aconteceram neles. Mas sim buscar indícios na vida de Francisco de Assis e de outros, quanto a uma grande transformação do humano em divino. Os estigmas de Francisco são descobertos e decifrados depois da sua morte, mas as marcas de Cristo já estavam com ele em vida. Marcas são reconfigurações em vida e que a morte deixa como uma herança.
Francisco de Assis recebeu a marca de um Serafim, é a polivalência de uma teofania. É a chama que se acende quando o Anjo e o Homem se encontram. É a figura divina inacessível ferida de Amor e dor que toca o Humano ferido de Amor e dor. É o encontro heroico com as marcas do Amor que glorificam uma entrega. Vida evangélica, vida mística, vida fraterna deixam marcas do interior para o exterior.

Francisco de Assis tem que ser visto na inteireza de sua vida e não no fato isolado de sua estigmatização. Porque os estigmas são convergência de um caminho de santidade, de fundador de uma Ordem, de um profeta de um novo mundo. Os estigmas recontam a vida de Francisco do início ao fim, mostram a inteireza de sua existência. Ele é o Humano Novo dentro de um mundo envelhecido de ontem e de hoje. Ele libertou o mundo de então da depressão coletiva, de voltar-se para o egoísmo, ambição e avareza, de fixar-se em propriedades, de privilégios de sangue e castas sociais, e fazer com que a fraternidade não fosse apenas um modo de monges viverem juntos, mas o jeito de conviver nas estradas do mundo. Ele fez Cristo voltar a andar nos caminhos mais costumeiros da vida, e este Cristo que um dia andou pelas estradas da Palestina amou tanto que foi crucificado. Sofrimento e perfeita alegria. Transformação e laços consanguíneos com o Amado. O corpo de Francisco foi marcado pela centralidade da sua busca: ser igual a Ele! Ele tatuou em sua carne a Palavra Encarnada e Inovadora.

Quem um dia deixou-se marcar pela Cruz trouxe a salvação para a humanidade. O Amor não tem sofrimento inútil. O Amor é uma fusão de vontades amantes. Diz Tomás de Celano: ”O filho respondeu diligentemente ao pai, sabendo que pelo Senhor lhe era dada a palavra da resposta: “Dize-me, por favor, ó pai, com quanta diligência teu corpo obedeceu às tuas ordens, enquanto pôde?” Ele disse: “Filho, dou meu testemunho de que ele foi obediente em tudo, em nada poupou a si mesmo, mas quase se precipitava a todas as ordens. Não fugiu de trabalho algum, não escapou de incômodo algum, bastava-lhe poder cumprir as ordens” (2Cel 211).

O corpo de Francisco de Assis não é mais dele, mas do Amor! Não é apenas um fragmento de macrocosmo, uma simples modalidade de viver nesta terra, não é um sangue anônimo. Ele é um corpo transfigurado pela vontade do Amor! É um corpo livre do mundo, da eclesiologia, das doenças e dos demônios, e de tudo o que o ameaça.  Agora não é mais corpo em forma de carne humana, mas sim totalidade de uma vida, é Corpo de Cristo! É um Corpo ritual e sagrado. Ele agora pode mostrar a dramatização de uma Encarnação: de Greccio ao Alverne este corpo mostra o que o Amor moldou em si. Em Greccio, Francisco encenou o Presépio, no Alverne Francisco sangrou a identificação com a Palavra Encarnada! É agora, não um Natal para crianças, mas uma Natividade para adultos. Quer Amar? Então toque o Verbo na sua manifestação mais natural e mais amorosa. Não é apenas ouvir a Palavra, mas ter a Palavra no sangue. A Palavra se fez Carne porque a Carne se fez Amor. É a Palavra expressiva num corpo expressivo. Agora o corpo tem uma importância eterna porque tem as marcas do Amor!

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Francisco de Assis – o amor que deixa marcas - 1


“Homem novo, Francisco tornou-se famoso por novo e estupendo milagre: por singular privilégio, jamais concedido nos séculos anteriores, apareceu assinalado, ou ornado, com os sagrados estigmas, configurando o seu corpo mortal ao corpo do Crucificado. Tudo o que a humana língua possa dele falar sempre estará aquém do louvor de que é digno. Inútil procurar a razão, porque é maravilhoso, nem se trata de buscar um exemplo, pois é único. Todo o empenho do homem de Deus, quer em público, quer em particular, dirigia-se para a Cruz do Senhor. Desde o primeiro instante em que começara a servir sob o Crucificado, diversos mistérios da Cruz resplandeceram em torno dele” (3Cel 2,1).

Quem centra sua vida numa determinada busca, numa focada paixão, num visível enamoramento, percebe claramente que o objeto deste Amor vai aparecendo nas nuances da vida. O que amamos nos surpreende em evidentes sinais, como uma reveladora novidade.  Francisco de Assis foi estigmatizado, e os estigmas são como as marcas do Crucificado que São Paulo dizia trazer consigo. Um humano renovado se molda sobre um caminho de grandes desafios e, porque não, de sofrimento. O Amor deixa marcas e amar tem a sua glória e cruz, tem a sua flor e dor. Toda renovação vai à fonte inicial da vida que é parida em dor. E podemos perguntar: o que tem de humanidade nova nisto, o que tem de novidade?

A novidade presente em sofrer por Amor é muito raro na literatura espiritual antiga. Vamos encontrar no antigo Império Romano a presença do termo novus ou novitas, no discurso de Cícero, orador romano, na sua peça de oratória chamada “Pro Murena”, onde ele defende que não devemos ignorar as marcas deixadas pelo sofrimento nos caminhos da consolação. Para Cícero, as marcas da dor são glórias da luta. Cícero escreve isto para Murena, senador romano, dizendo que “as virtudes de um senador são mais importantes que o seu nascimento”. As marcas deixadas pelo Amor não são sofrimento pelo sofrimento, mas reconhecimento.

Novo Homem, ou a novitas, pode ser entendido como o original. A sua Forma de Vida era viver o Evangelho segundo o Crucificado. Imprimiu na alma esta verdade, e da alma ficou impressa no corpo. Mas o que é o Humano Novo? São Paulo diz: “Em Cristo fomos fostes ensinados a remover o vosso modo de vida anterior – o homem velho que se corrompe ao sabor das coisas enganosas – e a renovar-vos pela transformação espiritual de vossa mente, e a revestir-vos do Homem Novo, criado segundo Deus, na justiça e santidade da verdade” (Ef 4,20-24). Ser uma nova criatura não é revestir-se de si mesmo, mas revestir-se de Cristo. Fazer a investidura do que se ama. Isto é um processo para toda vida. A estigmatização de Francisco aconteceu 20 anos após a conversão, mas foram 20 anos de seguimento e imitação apaixonada. Voltemos a São Paulo: “Vós vos desvestistes do homem velho com as suas práticas e vos revestistes do novo, que se renova para o conhecimento segunda a imagem do seu Criador. Aí não há mais grego ou judeu, circunciso ou incircunciso, bárbaro, cita, escravo ou livre, mas sim o Cristo que é tudo em todos” (Col 3,10-11). O Humano Novo não é apenas um indivíduo particular ou uma aventura psicológica de mudança efêmera, mas é um Humano Singular, Único, Original que assume uma nova postura de vida, como que uma nova aliança.

(Continua...)

FREI VITÓRIO MAZZUCO

segunda-feira, 12 de setembro de 2016

Francisco de Assis e este jeito de viver e pregar o Evangelho


São Francisco de Assis andou pelo mundo e enviou seus irmãos para o mundo para que vivessem, levassem e pregassem o Evangelho. A evangelização é simplesmente isto: ser, viver, levar a Boa Nova. Teve o seu modo próprio de evangelizar: a partir da fraternidade e da minoridade. A fraternidade é a família dos que estão na mesma consanguinidade espiritual, na mesma escolha, no mesmo projeto. Que projeto é este? Pegar a Palavra do Evangelho e colocar ali corpo, alma, mente, coração, sentimento, emoção, e mãos calejadas de obras. A minoridade é a renúncia do poder de quem tem saber, de quem tem poder, de quem tem muitas posses que ampliam o ter. É desapropriar-se de amarras para ser livre pelo caminho. Pregar o Evangelho não é para poderosos, mas para irmãos menores. Na fraternidade e na minoridade nada ter para tudo partilhar.

Para pregar o Evangelho é preciso sair pelo mundo, recolher-se em eremitérios, sair de novo, escrever cartas, ultrapassar fronteiras, contar apenas com a força da Palavra, sem precisar nem de bastão, nem  alforge. Levar a paz e comer do que é oferecido pelo caminho. Pregar o Evangelho não é fazer exigência, mas oferecer serviço. Pregar o Evangelho é estar em prece e no modelo vivo de tantos exemplos. É ser a Boa Nova de Jesus Cristo, anunciada com firmeza, segurança, abraçando o momento com seus desafios, sem se desconcertar em situações contrárias.

Para levar o Evangelho é preciso ter a postura de Jesus: anunciar uma mudança, aproximar o Reino das pessoas e as pessoas do Reino. É expulsar o que faz mal, integrar o que está excluído, curar o que está adoecido, preparar bem um pequeno grupo de multiplicadores de um poderoso anúncio com uma capacidade ilimitada de amar e mostrar que a Boa Nova é querer bem a todos sem distinção. Ter esta grande reverência pela pessoa humana, de modo especial os pequeninos, a quem a verdade é revelada de um modo tão evidente. Pregar o Evangelho é fazer a Palavra carne da própria carne, sangue do próprio sangue, pulsar do próprio coração.

Imagem do "Francesco", filme italiano com Mickey Rourke no papel de Francisco.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quarta-feira, 31 de agosto de 2016

Francisco de Assis e a pureza de coração


Diz o relato de 1Cel 47,6: “Enfim compreenderam e souberam que a alma do santo pai brilhava com tão grande fulgor que, pela graça de sua especial pureza e do piedoso cuidado para com os filhos, mereceu obter do Senhor a bênção de tão grande dom”, ou em 1Cel 54,3: “A consciência, testemunha de toda inocência, não permitia que ele descansasse, guardando-se com todo cuidado, enquanto não curasse com ternura a ferida espiritual causada por ele”. Temos muitos relatos mostrando o jeito inocente de Francisco, a pureza de seu coração, o secreto tesouro de todos os caminhos. Por ser puro, atraía em seu segredo.

Como dizer que Francisco de Assis era puro de coração? Pelo seu amor apaixonado por Deus, pelas pessoas e às coisas da terra. Isto o guiou à máxima doação de si mesmo. É o seu olhar sensível e penetrante que vê o fundo profundo de todos os desejos como pura graça e esplendor natural; este seu ver amoroso da maravilhosa manifestação de Deus na existência.

A pureza de coração de Francisco está no seu retorno à simplicidade originária; ao estar no êxtase de louvor à vida. O puro de coração satisfaz seus desejos na fluência da força da vida, na escuta do Mistério, no espalhar Amor em tudo o que faz. Não vive no medroso cativeiro da sua vontade, mas vê a vontade do Senhor em tudo. Ele imitou o Senhor o Casto por excelência; louvava Maria em sua fontal virgindade; admirava José, o simples, puro e silencioso. Com eles entrou no caminho da perfeita correspondência de doação à vida: a Encarnação.

Francisco parecia louco e ingênuo, mas seu coração cheio de algo profundo não se esvaziou nas normas que queriam impor a ele. Não reprimiu o Amor, mas o transformou num projeto de vida. Mostrou que amar não é privar-se, mas sim doar-se na força do Deus que é Amor. Ele foi um equilibrado por saber usar a medida exata de suas forças! Que o Pobre de Assis nos liberte do nosso medo de amar, e cantemos a provocante canção de Beto Guedes: “O medo de amar é o medo de ser livre!”, escolhendo sempre a liberdade de Amar! Isto é castidade!

Imagem: de Piero Casentini

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quinta-feira, 25 de agosto de 2016

Francisco de Assis e a nobre atitude de não decidir sozinho



Relata a Legenda dos Três Companheiros: “No tempo em que houve a guerra entre Perúgia e Assis, Francisco foi capturado com muitos concidadãos seus e encarcerado em Perúgia, mas, porque era nobre de costumes, foi colocado como prisioneiro com os cavaleiros. Num dia em que seus companheiros de prisão estavam tristes, ele, que naturalmente era sorridente e jovial, não parecia entristecer-se, mas de certo modo parecia alegrar-se.” ( LTC 4,1-2 )

Ser nobre de costumes é ter sentimentos e atitudes nobres. Poderia ter ficado quieto sofrendo no seu canto sem se importar com ninguém, mas preferiu estar alegre e sereno em meio às tensões de uma prisão. Estar com um grupo humano não significa apenas amontoar-se entre os sofridos da hora; mas fazer valer a nobreza de costumes ao levantar a moral dos que estão ali com ele em situação adversa. Quando convive com a desfiguração e a decadência do ser humano, Francisco reconstrói. No leproso, no cárcere, e entre os banidos do bem-estar, Francisco faz um encontro direto com a pessoa. Valorizar a pessoa que ali está faz com que ela volte a acreditar que existe solidariedade e fraternidade. A sua alegria vem desta presença. É como se ele dissesse com aquele leve sorriso dos realizados: “Olha, meu irmão, olha minha irmã, mesmo que não possa ajudar, eu estou junto com você, caminho com você, estou ao seu lado”.

Das horas orantes e contemplativas do eremitério organizado e regrado em materna fraternidade; ao levar consigo um irmão  para as fronteiras da batalha em Damieta, no Egito, por ocasião de mais uma Cruzada, e dialogar com o Sultão; no momento de ir a Roma, com mais nove irmãos, falar com o Papa Inocêncio III; ao  consultar a clara Irmã Clara e Frei Silvestre em sérias decisões para a sua vida, Francisco não sabe ser e fazer sozinho. Há carismas pessoais que preferem fazer sozinhos. Há o Carisma de Francisco de Assis que está sempre em meio a todos, com a força fraterna que garante a nobreza do discernimento, a nobreza de costumes, a nobreza de atitudes que passa pela vontade de muitos.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Francisco de Assis, vivências e convivências


Francisco de Assis soube circundar-se de pessoas que tinham muita energia humana, dos amigos aos familiares era como se todos tivessem o mesmo sangue. Pedro Bernardone, seu pai, mercador assisense, amava muito a vida da cidade e as estradas que o levavam a França. Tinha a energia dos que sabem conquistar posses com muita justiça e direito. Não era apenas um duro e impenetrável negociante, frio e calculista, apenas centrado em seu patrimônio e lucros. Era um pai que sonhava ganhos para seu filho, títulos para o seu filho, queria que seu filho brilhasse e tivesse uma vida elevada conduzida por nobres ideias cavalheirescos. Jeanne de Bourlemont, sua mãe, era francesa conhecida em Assis como Dona Pica, porque nasceu na Picardia e viveu na região da Provença, era uma mulher extremamente bondosa, culta, delicada. Deu a Francisco uma educação fina, ensinou-lhe a língua francesa, canções de gestas, mas sobretudo compreendia como ninguém as aspirações do filho.

Francisco soube circundar-se de amigos, companheiros que viveram intensamente o seu tempo, sua juventude, seus anseios. Serenatas, momentos nas tabernas, a caça, os jogos, a alegria, a vivacidade, a violência presente da guerra chegando às portas da muralha. Seus amigos eram ricos e Francisco também era rico. Tinha influência dos mercadores que traziam prestígio, o uso de bens comerciais, a expansão da cultura, notícias, novas ideias, novos impulsos, vestes coloridas, aspirar a grandeza que vinha da nobreza de costumes. Francisco soube sonhar e seguir aspirações indomáveis do ethos cavaleiresco  que buscava a honra e conquistas; seguir Gualtiero di Brenne, combater e ter palácio, riqueza e armas, pertencer a Corte, a primeira expressão da cortesia, e depois as aproximações mais nobres.

Tudo isto vai moldar em Francisco de Assis uma personalidade única, um caráter determinado. Segurança e leveza, força e ternura. Trovador e penitente, que busca a única riqueza que pode fazer feliz o coração em meio a pobreza mais despojada, mais livre, mais solta, mais generosa. Quem viveu os mais belos relacionamentos pode perceber o pobre que chega e pede em nome de algo maior, em nome de Deus!

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quinta-feira, 18 de agosto de 2016

Francisco de Assis e a regra da Fraternidade primitiva


Não fazia parte do projeto de vida inicial de Francisco de Assis fundar uma Ordem ou um grupo religioso como tantos que havia em seu tempo. Ele queria apenas viver o Evangelho, viver o Amor, viver a liberdade dos que sabem amar. Sua vida atraiu seguidores e seguidoras. Vieram Pedro de Cattani, Bernardo de Quintavalle, Leão de Viterbo, Angelo Tancredi, Rufino, Clara, Inês, Beatriz... e logo eram centenas. Vida vivida no Amor, atrai vidas! O Senhor foi presenteando seus passos com irmandade seguidora. Depois da Regra de 1209 ditada pela inspiração, Frei Cesário de Spira, em 1221 o ajuda a escrever a famosa Regra não Bulada. É uma regra mais de testemunho do modo evangélico vivente do que uma norma jurídica. Não tem a aprovação do Papa. Em 1223 surge a Regra definitiva, a Regra Bulada, que tem o dedo do Cardeal Hugolino, mais tarde Gregório IX , que o ajudou muito. Esta sim, foi aprovada!

Havia muita coragem, despojamento, dedicação, fé e entrega nesta gente seguidora. Não sentiam a dureza da Regra porque queriam a segurança suave e forte do Evangelho. Muita gente ajudou para que o rumo fosse encontrado e se organizasse a potência de Amor daquele grupo nascente. Entre improvisos e preceitos, a Fraternidade se corporificou. Das ruínas de São Damião, da singeleza da Porciúncula, do estábulo de Rivotorto, a comunidade ganha força e se expande. São silenciosos, mas pregam. A vivência radical da Pobreza é tão impactante que torna-se gritante. Do chão duro e frio, dos leitos feitos entre pedras e paus, das choupanas de ramos e folhas, das esteiras e das esmolas nasce uma ordem nos jeitos desordenados de então. Não tem nada porque deixaram tudo. Sem bens e dinheiro abraçam um único desejo: ser como Jesus Cristo, que não tinha nada de material, apenas a riqueza de amar e servir. Eles aprenderam com Francisco: é com Ele e por Ele que temos que ir! Pegaram a Palavra e o cumprimento da Palavra e foram! Atrás foram deixando a certeza de que é possível viver o Evangelho de modo Encarnado e um caminho para milhares de seguidores. Pela frente foram criando um futuro para a Fraternidade que apenas sabia que existia um texto, mas que aprendeu a ser Boa Nova! “Preguem o Evangelho, se precisar usem palavras!”

FREI VITÓRIO MAZZUCO

segunda-feira, 15 de agosto de 2016

Francesco di Bernardone, o Francisco de Assis


Quando viajamos pela Itália encontramos a imponência de muitas cidades e suas tradições etruscas, medievais, barrocas, modernas e todas muito adequadas dos tempos de então aos tempos atuais. Quando chegamos a Assis entramos numa cidade pequena, simples, harmoniosa, familiar, parecendo aquelas casinhas de nossos brinquedos infantis. Mas na sua pequenez, a força brota de seus muros, massa de pedra bruta, lava vulcânica!

Assis é talhada pedra sobre pedra, uma conjugação de formas protegendo mistérios. Em meio a paredes e muralhas, certas verdades nunca mais quiseram sair dali, protegem-se entre becos e ruas. Assis é muito simples, mas tem uma natural presença que se impõe. Colada na colina ensina a subir e olhar para um horizonte mais amplo. Cada caminho sai para algum lugar e no início e fim de cada um resplende a mesma beleza, a mesma descoberta, a mesma abertura para uma grande admiração. Há um espírito que ali habita e silenciosamente fala. Um ar puro, uma luz onipresente. Nas praças a vitalidade de uma humanidade que necessariamente tem que passar por entre as casas, fontes e um chão talhado para revelar a pureza de cada forma.



Assis não conhece o caos do mundo, e renasce depois de cada terremoto. Faz com que o olhar de peregrinos, turistas, e buscadores da verdade se perca em tantos detalhes de tamanha profundidade. O mistério precisa de um lugar para ser celebrado, e, em Assis ele encontrou o preciso espaço para transformar-se em rito. Andando em Assis, quem vem de longe ou de perto, sente que já esteve lá em algum momento, e faz uma imersão na saudade que se tem do Paraíso. É andar pelo infinito sem se perder. Foi exatamente neste lugar que nasceu Francisco, que nasceu Clara, e tantos outros que tiraram Assis dos contrafortes do Monte Subásio e a levaram para o mundo como cidade da Paz ou Espírito de Assis.

Assis tem energia física, uma arquitetura espiritual, a estética do belo e do bom. É um encontro da elevação da montanha com a profundidade da planície. Tem o som dos sinos que se expande em ondas sonoras que tocam e vibram no coração das pessoas, nos olivais, nos girassóis, nas catedrais, no casario, nos palácios, nos mosteiros, nas ruelas, nas lojas, nas tavernas, enfim nos caminhos que se entrecruzam dizendo para a humanidade toda: é daqui para o mundo! Assis existia antes de Francisco. Não foi ele que marcou Assis, mas Assis que o moldou. Por viver bem o seu lugar, aprendeu o universo das coisas e saiu extra-muros. Fez do seu espaço tão familiar de sua infância e juventude um território sagrado. Uma fusão de terra e céu. Um Santo que recriou uma unicidade com o lugar, e por isso é chamado para sempre de Francisco de Assis. Pai, Francisco, ensina-nos a dar nome e transformar os nossos cantinhos!

FREI VITÓRIO MAZZUCO


sexta-feira, 12 de agosto de 2016

O Carisma Franciscano


Fala-se muito do Carisma Franciscano e é sempre bom voltar a compreensão do que isto significa. A palavra Carisma, do grego charis, tem uma multiplicidade de significados, mas podemos dizer que é escutar uma grande convocação, pois Carisma é uma grande inspiração originária que fundamenta um determinado modo de vida. Qual a escuta maior do Carisma Franciscano? A fala ressonante do Crucifixo de São Damião: “Francisco, vai! Restaura a minha casa! Não vês que ela está em ruínas?” (LTC 5). Há uma voz que fala e uma capacidade de escuta. Vox, vocare, vocação. Alguém chama e diz. A escuta obedece de coração e vontade boa. As mãos imediatamente põem-se a reconstruir. “De boa vontade o farei, Senhor” (LTC 5).

É preciso acolher com atração benevolente, isto é, com apaixonada vontade bem trabalhada, e fazer com alegria, entrega, encanto e generosidade. Um Carisma traz realização, nobreza ao modo de ser, brilho, vitalidade suave e forte ao mesmo tempo. Um Carisma Inspiracional dá sentido ao carisma pessoal e isto fascina. Não é um modo de ser e fazer qualquer, mas é ser e fazer a partir do pedido do Crucificado. Há autoridade em quem não sabe o que é morte, e por isto pode pedir a cada instante que se instaure vida em meio a ruínas. O Carisma Franciscano nasceu colocando pedra sobre pedra e construiu Fraternidade onde não havia mais convivência. O Espírito fala e uma vida faz. Para a Palavra de Deus é a certeza de que “a cada um é dada a manifestação do Espírito Comum em vista do Bem Comum” (1Cor 12,5). Para a teologia é graça como dom natural e virtude conquistada. É trabalhar para transformar. Para a vida vivida de maneira religiosa é encarnar o Evangelho não como texto, mas como encontro pessoal com Jesus Cristo, transformando esta verdade em Fraternidade e Missão, em proveito do Reino e do Povo de Deus. Lembro os três pontos dados pelo inesquecível Frei Prudente Neri, OFMCap, ao falar que Carisma é:

1. Deus e sua Gratuidade: Ele é a Fonte de todos os Carismas e os distribui a quem e quando e como lhe aprouver.

2. O Ser Humano e sua Sensibilidade: em poder aceitar, recusar, fugir ou aderir para fazer valer esta graça.

3. O Tempo e suas Vicissitudes: O Carisma rompe em diferentes épocas e lugares, obedecendo a desígnios que desconhecemos. Assume os desafios do tempo e transforma invernos em inesperadas primaveras.

O Carisma Franciscano tem este modo de compreensão. É Franciscano porque vem do Poverello que escutou e decifrou uma voz. Dia após dia, com alegria, pedra sobre pedra, construiu um modo de ser e fazer. Do século XIII aos tempos atuais trouxe este Carisma original e originante.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

terça-feira, 9 de agosto de 2016

A cruz na espiritualidade franciscana


Francisco e a Vocação



Não faltam preces, campanhas, fôlderes, testemunhos, tríduos, ocasiões celebrativas e modelos vivos quando o assunto é vocação. O que falta é vocação. Será que faltam vocações para os estados de vida ou as vocações se reinventam? Não podemos falar de crise vocacional quando aumenta a vocação laical. Há pouca procura para a vida religiosa e sacerdotal, mas muita procura para novas formas de vida e de aliança. Perguntei de modo fictício a São Francisco sobre Vocações, e ele respondeu assim de um modo não tanto fantasioso, mas real:

“Vocação, meu confrade, é a cada momento escutar e procurar entender o poder do Amor de Deus em minha vida e escutar a sua convocação. Ele fala pedindo que eu construa uma casa para guardar a inspiração; e daí sair para o mundo levando a inspiração. Vocação é construir e reconstruir em mim e no mundo um lugar sagrado, e então transformar a minha vida, as pessoas e o mundo. Vocação é escutar que o Senhor me quer vivendo contemplativamente, e agindo profeticamente. “Francisco, vai! Restaura a minha casa!” Escutei isso, abracei o Amor em forma de Cruz e calejei as mãos. Vocação é entender o desejo de Deus sobre mim. “Senhor, que queres que eu faça!” Entrar no mistério e na verdade da voz que me chama é uma intimidade muito especial. Vocação é entrar no coração de Deus e sair daí com a mente e as mãos  cheias de motivações e práticas. É encontrar o jeito de Deus agir através de mim, isto é Carisma.

Vocês não estão apaixonados pelo Carisma. Ordens, Congregações e Institutos não precisam de vocações, mas seus Carismas sim! E como precisam! Recuperem o Amor ao Carisma e à Vida Fraterna que as vocações vão surgir. Perguntem se a Vida Fraterna que vocês estão vivendo merece vocações. Eu penso que não. Vocês não tem crise de vocações, mas crise fraterna.  Eu amei a inspiração e os primeiros que vieram, Bernardo, Pedro, Silvestre, Clara. Nós amamos o Evangelho e nasceu o Carisma. Apaixonamos pelo Carisma e criamos uma bela convivência! E por causa desta paixão, depois vieram Tomás, Antônio, Inês, Beatriz, Luquésio, Buonadona...Tantos com tanto Amor!”

FREI VITÓRIO MAZZUCO

quinta-feira, 21 de julho de 2016

Francisco de Assis e o estudo



Diz a Legenda Maior: "De vez em quando, lia os livros sagrados e imprimia tenazmente na memória o que uma vez por todas havia colocado na mente, porque ruminava com o afeto de contínua devoção o que havia captado, não em vão, pela audição atenta da mente. Aos irmãos que uma vez perguntaram se lhe agradava que os irmãos letrados recebidos à Ordem se dedicassem ao estudo da Sagrada Escritura respondeu: “Claro que me agrada, contanto que a exemplo de Cristo, sobre quem se lê que mais rezou do que leu, não omitam o empenho da oração e não estudem somente para saber como devam falar, mas para que pratiquem as coisas ouvidas e, quando as tiverem praticado, as proponham aos outros para serem praticadas por eles” (LM XI,1).

Muitos afirmam que Francisco de Assis era contra o estudo; é um erro fazer esta afirmação, pois muito incentivou os estudos na Ordem. Ele mesmo tinha estudos, embora não fosse um acadêmico. Frequentou a escola episcopal junto à Igreja de São Jorge em Assis, onde aprendeu rudimentos de latim, com sua mãe aprendeu um pouco de francês, decorava antífonas e hinos litúrgicos, sabia muitos versículos de salmos que trazia na memória, cantava canções de gesta cavaleiresca, escrevia cartas, preces, fez um belíssimo comentário ao Pai Nosso, e ditou Regras.

Motivou os frades aos estudos e recebeu intelectuais na Ordem, entre eles Santo Antônio e Tomás de Celano, e mais tarde São Boaventura entre tantos. Pede numa Carta a Santo Antônio: “Apraz-me que ensines a Sagrada Teologia aos irmãos, contanto que, nesse estudo não extingas o espírito de oração e devoção”. O que ele quer é que a ostentação e a vaidade da ciência não tomem conta de seus irmãos. O saber não tem força em si se não vier da Sabedoria que vem do Alto.

Ensinar é puro serviço. O conhecimento tem evidências necessárias para a vida, mas não pode ser usado para explorar, acumular bens, ou diminuir os que sabem menos. Porém, todo estudo deve levar a uma grande prática feita por Amor. Todos devem ensinar como quem reza. Francisco de Assis não quis ser um doutor em teologia ou espiritualidade; renunciou qualquer título por viver a minoridade, contudo sobre ele escrevem muitas teses, ensaios, artigos, pesquisas, livros, bibliotecas inteiras! É o Santo mais estudado do mundo, como evocação, memória, e profunda compreensão da existência.

FREI VITÓRIO MAZZUCO

Espiritualidade a partir da experiência pessoal


terça-feira, 19 de julho de 2016

Diversos modos de viver a espiritualidade


Francisco de Assis, o amigo


DIA 20 DE JULHO, DIA INTERNACIONAL DA AMIZADE

Francisco de Assis, amigo de Clara, amigo de Leão, de Rufino, de Ângelo, de Jacoba de Settesoli, dos animais, do sol, da lua, da água e do vento. Francisco amigo de tudo o que podia dividir com ele uma nova vida. Sua amizade é vitalidade de fraternidade, sair e chegar para perto de tudo que se constitui um novo modo de relacionar-se. Seu jeito peregrino encontra no caminho valores que aproximam pessoas e todo ser criado. Amizade como comunhão de mesma busca, reúne amigos que dividem sonhos.

Amigo tem essa energia que vem da liberdade da escolha feita pelo coração e não pela ancestralidade, embora certos amigos já estão destinados à nossa vida desde os inícios dos tempos. Clara de Assis, por exemplo, parecia uma conhecida desde as origens das intuições. Amigos fazem parte dos sonhos que Deus sonhou para nós. Aproximam confidências de fé e amor, trazem a benéfica energia de coragem, de potência das coisas que brotam do coração, capaz de criar e transformar. Quem cantou serenatas nas tabernas e praças de Assis é capaz de cantar abraçando a natureza e os animais, e poder ser amigo de pássaros e de lobos, de camponeses, de mendigos, do sultão, do bispo de Assis e do Papa.

Os amigos de Francisco entenderam que nele a Palavra era uma convocação que acendia no coração uma vontade de deixar tudo, porque aquela amizade era discipulado bebendo nas fontes do Evangelho, lugar dos amigos do Esposo. Conviviam com naturalidade nas frestas rudes das pedras e com a pura e indizível beleza de Clara, pois todos tinham a vontade de estar onde o Espírito do Senhor habitava. Dividiam um afeto tão rico, capaz de viver a pobreza mais perfeita. Amigo não precisa de coisas, mas de corações. Permeavam os encontros de humanidade e santidade. Amigo não tem referência de sangue biológico ou parental, mas recebe nas veias uma transfusão de ideais parecidos, de laços, direitos conquistados na partilha, distância vivida na intensa proximidade. Fizeram obras de imenso cuidado!

Francisco amigo nos ensinou a levar a individualidade e a totalidade para fazer a festa de estar juntos. Com seus amigos fez encontros decisivos e eles escreveram uma Legenda toda de sua vida. Amizade é olhar no espelho e ver tantas faces sorrindo na mesma transparência e dizendo que a cruz e mais leve quando não é carregada sozinha. Por isso, é testamentário dizer que o Senhor nos deu amigos-irmãos, construtores da Paz e facilitadores do Bem!

Francisco de Assis, modelo de amizade, manda um salve aí para a moçada toda que andou com a gente tocando nas praças, remedando jeans, sonhando liberdade, levando chá e cobertor para os que dormiam nos vãos da cidade, nunca esquecendo aniversário, dividindo humor e lágrimas, e tendo uma saudade enorme que atravessa séculos! Feliz dia para quem todo dia se faz Amigo!

FREI VITÓRIO MAZZUCO

sexta-feira, 15 de julho de 2016

Não sufocar o espírito


Foi Francisco de Assis político?


Se olharmos o que vemos e sofremos como consequência política hoje podemos dizer: não! Se olharmos a corrupção, o tráfico de influência, essa imoralidade toda, este circo político do nosso país, com certeza: não! Se buscarmos o verdadeiro conceito grego de politikein, politikós, que significa: arranjo existencial para o bem comum, podemos dizer: sim! Ele não dançou em frente do palco político deste mundo que encena falas vazias, mentirosas, intrigantes, cheias de declarações abaixo de qualquer crítica. Ele não abraçou a força dos poderosos, nem se corrompeu pela ambição, nem se vendeu por questões econômicas que são muito mais importantes que a grande questão humana: saúde, habitação, educação e emprego. Francisco de Assis andou pelas terras sem ser dono delas. Sem conhecer a posse.

Mostrou que a Pobreza é acima de tudo a partilha, que as coisas têm valor em si, que a política do Reino é dar a César o que é de César, e a Deus o que é de Deus. Ele não tinha discurso de ódio, mas deu à humanidade um princípio de paz: o humano na sua inteireza! Ele tinha um código de ética perfeito: o Santo Evangelho. Quis ser verdadeiro e se espelhou na verdade de Jesus Cristo. Pediu tijolos e bênçãos não para construir para si, mas para reconstruir a casa do coração, a casa dos valores e a casa do mundo. Seu único lobby foi a Fraternidade.

Não quis que sua Fraternidade ajuntasse dinheiro nos distantes limites de ilhas e países, mas ensinou a comunhão de bens. Não se armou com a valentia dos prepotentes, mas quis que seus seguidores não portassem armas. Se não possuem armas, não se instaura a conflitividade ou qualquer tipo de guerra. Quis apenas que jurassem sobre a transparência da própria vida e dos Conselhos Evangélicos. Propõe obediência, fidelidade e lealdade. Faz uma opção clara pelo bem comum. Domestica a violência do lobo como um significado real para a não-violência. Tinha no Bolso Nada, apenas uma linguagem segura e leve do Amor!

Concilia a briga do prefeito com bispo de Assis. Dialoga com o sultão sem precisar de espada, lança, escudo ou palavras rancorosas de acusação. Ah! Meu Francisco de Assis! Ajuda nesta hora em que, politicamente, perdido estou! Moro num país que tem 516 anos de processo colonizatório, mas que politicamente ainda não foi descoberto. Manda umas caravelas para cá, de outro jeito, para redescobrir este lugar! Envia uns confrades seus guiando-se por estrelas, vento e lua, dançando com os nativos, sonhando mundo novo, benzendo o perigo, e recomeçando tudo outra vez!

FREI VITÓRIO MAZZUCO