sábado, 3 de outubro de 2015

A VERDADEIRA E PERFEITA ALEGRIA DE SÃO FRANCISCO



Todas as quintas-feiras, às 19h30, num Curso Especial aqui no Instituto Teológico Franciscano, um grupo de 40 pessoas reúne-se para ler, conhecer, estudar, conhecer, compreender e meditar textos das Fontes Franciscanas. É um paciente trabalho de exercitar o gosto pela Leitura Espiritual e buscar a adequada aproximação de um forte documento espiritual. Há uma reverência na leitura, porque se percebe as etapas da formação de um espírito próprio. Ler o ontem e trazê-lo para o hoje da pertença. A leitura de textos fontes vai dando mais nitidez ao que queremos neste mundo. Não é fácil fazer isto sozinho, por isso buscamos a força do grupo.

Terminamos nesta quinta-feira, dia 1º de outubro a Leitura das duas versões do texto "Da verdadeira Alegria e da Perfeita Alegria", uma versão original pertencente aos Escritos de São Francisco e a outra a versão ampliada na legendária versão de "I Fioretti", cap. 8. Dois textos que surgiram na paixão de uma procura e que revelam que a verdadeira e perfeita alegria não é o fazer, não é o status de cargos de mando, nem a evidência de obras extraordinárias, mas estar atentos ao surpreendente do Caminho que vai surgindo em cada passo, no vencer-se a si mesmo, no suportar pacientemente toda a realidade da vida que nos surpreende. Como? Sem perturbação, sem murmúrio, num modo de ser que assume a realidade situacional que se nos apresenta tal qual ela é. Assumimos na positividade ou na tragédia da negatividade? Mergulhar no interior da realidade é enfrentar a vida com serenidade.

O texto tem uma transição na pergunta existencial: Mas o que é mesmo a verdadeira e perfeita alegria? Na proximidade da Festa de São Francisco foi muito bom encerrarmos a leitura deste texto. Foi nosso caminhar de volta à Santa Maria dos Anjos, a Porciúncula, que aliás, não é um simples lugar, mas o ponto de partida e chegada de um encontro onde surgiu e sempre refaz o processo de caminhar num mesmo ideal fraterno. Ser o  que se é na caminhada. Suportar pacientemente a vida não é algo estático, mas caminhar vigorosamente para o coração do que somos. Assumir na cordialidade até mesmo as portas fechadas e a agressividade das palavras não acolhedoras.

Para Francisco, a interioridade é abraçar a Cruz e a sua convocação. A partir daí nada mais nos importuna, tudo se suporta na paciência do viver ao ritmo do Evangelho. Mas o que é a verdadeira e perfeita alegria? Ainda não sabemos plenamente, mas o texto em narração breve ou mais ampla, compacta ou floreada nos revela algo de muito profundo. Ele abre um processo de busca para a compreensão, e para um processo de transformação de pessoas evoluídas. Para mostrar o que é revela o que não é a verdadeira e perfeita alegria.

Ela não é o poder da sabedoria, não é o poder eclesiástico, não é o poder político e civil, não é o poder da pregação, nem o êxito da missão, nem o poder de curar e operar milagres. Nisto não está e nem consiste a verdadeira e perfeita alegria. O caminho traz provas e provações. Prestígio pode trazer sucesso, mas não realização. A questão é estar no caminho e ter um irmão que não abre a porta, estar na neve, na noite, no frio, na lama, na espera longa para ser atendido, ser provado pela distância e pelo cansaço, ser agredido em palavras e por um bastão, ser considerado simples demais, ignorante demais, não mais necessário para a comunidade. Há ideais que ficam fora enquanto os demais, que são tantos e tais, ficam dentro.

Mas onde está a verdadeira e perfeita alegria? Na paciência da compreensão do diferente. Se tenho paciência não serei perturbado. É a saúde da alma, mais forte que o corpo sofrido. A perfeita e verdadeira alegria não está no orgulho de viver sobre a proteção de uma instituição, mas sim em abraçar a despojada liberdade do Evangelho. No princípio era a pregação, mas agora é a palavra encarnada que não se altera diante de situações contrárias. Ser alegre, feliz e realizado não está em elementos externos de status, mas na integração pessoal. Não há discurso, mas a fala serena da não alteração. É difícil! Mas aí está a verdadeira e perfeita alegria. É uma busca! Um dia chegaremos lá! Lemos os textos para conhecer; e ler para conhecer é interpretar, e começar a interpretar é empreender um caminho de mudanças!

BOAS FESTAS DE SÃO FRANCISCO!

Frei Vitório

           

2 comentários:

Rosana Padial disse...

Penso que efeito teria um discurso teológico como este diante de uma situação concreta como a dos refugiados... Será que bastaria? Será que São Francisco diria: "aguentem em nome de um amor maior"; ou agiria com compaixão, e os acolheria? Para mim esse discurso é para o grupo interno da igreja, padres, religiosos, pastores, que só pensam em gozar de boa situação e boas relações de idolatria. Mas para o mundo, e para vida real da maioria das pessoa tenho muitas duvidas se ele bastaria e se inspiraria...
O mundo está bem mais complexo que o conceito da perfeita alegria necessário que São Francisco partilha com Frei Leão (ambos optaram pela vida dedicada exclusivamente a Deus) isso deixa mais claro o destinatário da conversa. Porque no "mundo dos humanos mortais", inclusive tem gente que só reage e busca uma vida humanizada quando sofre agressões. Como entender???

Anônimo disse...

Paz e Bem e Feliz Festa de São Francisco de Assis, Frei Vitório! Saudades!
Continuamos com muito prazer a ler os textos das fontes e outras versões de "vidas" - Engelbert, Ecleston, Green, le Goff, etc. Como gostaria de participar também deste grupo de reflexão - bela iniciativa. Missa solene hoje no Seminário, muito bonita, igreja cheia e participante, Viva o Poverello e, mais uma vez, abraço fraterno e saudação franciscana de Paz e Bem! Alessandro e Família, Agudos/SP