quarta-feira, 14 de abril de 2010

A Perfeita Alegria

Reparto aqui a reflexão em grupo durante estudos das Fontes Franciscanas:

Reflexão a partir do texto sobre a Perfeita Alegria, I Fioretti - Do ensinamento de Fr. Francisco a Fr. Leão que a Alegria Perfeita se encontra na Cruz.

1. 0 texto nos fala de uma experiência, que surgiu na paixão de uma procura na qual Francis foi afeiçoado. Podemos dividi-lo em três partes:

a) A primeira parte diz que a Perfeita Alegria não consiste no fazer do homem.
b) A segunda parte nos apresenta a Perfeita Alegria, como o caminhar que se manifesta em cada passo da caminhada como concreção de si mesmo.
c) A Terceira parte nos mostra a conclusão do texto: a Perfeita Alegria é a Cruz que se manifesta no vencer-se a si mesmo.

2. Francisco, na primeira parte do texto, nomeia para Frei Leão uma série de obras extraordinárias e diz que mesmo que o frade menor consiga realizá-las em sua vida, nisto não está a Perfeita Alegria. Com isso, ele quer dizer que a Perfeita Alegria não vem do homem com tal, não consiste no seu fazer, por mais extraordinário que ele seja. Frei Leão não entende esse modo de falar e, admirado pergunta: “...onde está a Perfeita Alegria?" Aqui começa a segunda parte do texto.

3. Francisco aproveita a viagem de Perusa à Santa Maria dos Anjos, e aí, nesta realidade situacional bem concreta, exemplifica onde está a Perfeita Alegria: "... então se suportarmos tal injúria e tal crueldade, tantos maus tratos, prazenteiramente, sem nos perturbarmos e sem murmurarmos (...) escreve que nisto está a Perfeita Alegria." (I Fioretti, 23). Em seguida retoma por mais duas vezes o mesmo exemplo insistindo sempre na mesma tecla: A Perfeita Alegria consiste em suportar o que está aí. No exemplo dado ele indica o que suportar e como suportar.

Confrontando as duas primeiras partes do texto, num primeiro relance parece que elas não são muito claras no que afirmam. Primeiro, diz que a Perfeita Alegria não consiste no fazer do homem, mas na relação das obras que ele nomeia, normalmente consideramos como obra de Deus e não do homem. É possível que Francisco nos queira dizer outra coisa; talvez que a Perfeita Alegria não consiste no fazer do homem, simplesmente por ele ter sido agraciado pelo fazer de Deus.

Não é o fazer milagres, o conhecer todas as ciências e o converter os homens à fé cristã o princípio da Perfeita Alegria, ela está numa outra dimensão. Mas acontece que ao afirmar na segunda parte onde ela se encontra, Francisco nos deixa na mesma dúvida, pois dizendo que é preciso suportar injúrias, crueldades, maus tratos sem se perturbar, sem murmurar etc, ela está indicando o que é preciso fazer para estar na Perfeita Alegria. Nesta compreensão do texto, podemos contestá-lo, porque pelo que aparentemente aparece, a Perfeita Alegria está na dependência desse modo de ser, que em última análise, requer o trabalho que o homem faz sobre si mesmo para chegar a este comportamento. Mas será que não é o outro o sentido do fazer neste modo de ser da Perfeita Alegria? Se é, então, a Perfeita Alegria não depende do modo de ser, mas ela é este modo de ser apontado no texto.Vamos tentar ver como se dá o modo de ser da Perfeita Alegria.

4. O texto nos diz que ela consiste em suportarmos toda a realidade da vida que nos surpreende, prazenteiramente, sem nos perturbarmos e sem murmurarmos, etc. Portanto, a porta pela qual Francisco nos introduz à compreensão do que ele expõe está na palavra suportar repetida em cada uma das situações do exemplo dado.

O que significa suportar? - Suportar é o modo de ser que assume toda a realidade situacional que se nos apresenta. Esta realidade é o que somos. Não existe fora de nós. Está inserida no acontecer de cada indivíduo. Suportar o que nas advém é assumir o que somos. A Perfeita Alegria está na positividade deste assumir. A positividade consiste em sermos todo a situação, em penetrarmos e movimentar-nos nela, num envolvimento total em que situados nos tornemos o interior da realidade situacional.

Tornar-se o interior da realidade é ir ao âmago da mesma, é ser todo n'aquilo que a institui. Francisco diz que, quem está nesta interioridade, suporta a vida com paciência, com alegria, prazenteiramente, sem se perturbar. Neste modo de ser, não existe abertura de possibilidades, mas somos a própria possibilidade que caminha em busca de si mesmo. Isto significa que interioridade deste modo de ser é a própria possibilidade daquilo que se é. Interioridade é o que leva o indivíduo a assumir a sua realidade na tentativa de se descobrir nela. É o que torna possível este processo de caminhada. Parece ser esta a estrutura da realidade situacional, indicada por Francisco no diálogo
com Frei Leão.

5. Ambos voltam à Santa Maria dos Anjos. Santa Maria não é um simples lugar, mas o ponto de partida de um encontro onde surgiu o processo da caminhada e, caminhando, explica ao Frei Leão em que consiste o caminho que ele chama de Perfeita Alegria. Ela consiste em assumir toda e qualquer realidade, com todo o peso que a mesma suporta (comporta), insistindo e persistindo nela a fim de penetrá-la para descobrir o sentido que nos constitui nesta realidade que somos nós mesmos.

‘‘Se suportarmos todas estas coisas pacientemente e com alegria, pensando nos sofrimentos de Cristo os quais devemos suportar por seu amor (...) aí e nisto está a Perfeita Alegria” (24).

Já vimos que suportar significa assumir o que somos, aguentar o próprio peso de nós mesmos. Mas não basta isto, é necessário assumirmos pacientemente, com alegria, pensando nos sofrimentos de Cristo.

Assumir pacientemente é ser assumido pelo que nós fazemos, deixando-nos fazer por aquilo que está aí resguardado no acontecer do dia-a-dia.

Assumir na paciência é caminhar vigorosamente para o coração d'aquilo que nos faz ser o que somos, na realidade em que nos situamos.

Caminhar para o coração é assumir tudo na cordialidade, é se entranhar no que se apresenta na tentativa de ir sempre à sua raiz.
No rigor desta tentativa somos tomados por um vigor que nos lança ao interior de nós mesmos, de modo que, em tudo haja esta penetração envolvente que não se fixa nas aparências da realidade, mas nos completa nela, levando-nos a unicidade de todas as coisas, a partir da cordialidade da vida que aflora em todo o nosso existir.

A Perfeita Alegria é a caminhada que se dá na cordialidade. É o modo de ser daquele que coloca todo seu existir na busca desta interioridade.

A interioridade desta busca é Cruz. Cruz é estar tão dentro de si mesmo que nada mais nos importuna, mas tudo se suporta na solidão da paciência. Nisto está a Paixão de Cristo que devemos pensar, a Cruz na qual podemos nos gloriar.

Um comentário:

Leila disse...

Querido Fr. Vitório,
Quão sábias são as palavras de Francisco e como são bálsamo a forma como são expostas aqui, numa leveza, simplicidade e sabedoria que só podem ter sido obra da Inspiração Divina.
Pensar em ALEGRIA PERFEITA sob essa perspectiva é fazer uma releitura de nós mesmos, nossa missão, a cruz sob nossos ombros e ACEITÁ-LOS com ALEGRIA. Leila Dutra