quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Pluralidade cultural e religiosa


Este texto foi escrito a propósito de uma carta questionando um texto sobre a prática do yoga no site "Ecologia &Espiritualidade".

Nós sempre crescemos quando somos questionados e fazemos um encontro com o diferente. É uma riqueza a unidade na diversidade! Nosso site é um portal franciscano e é de responsabilidade de nossa Província Franciscana da Imaculada Conceição do Brasil. O site "Ecologia e Espiritualidade" está unido ao nosso porque faz parte de um Curso de Pós-Graduação do Instituto Teológico Franciscano de Petrópolis - ITF; é o espaço aberto e democrático, para os que lutam pela ecologia interna e externa, manifestem a sua opinião; e, sobretudo, porque faz parte da Forma de Vida do Franciscanismo: lutar pelo meio-ambiente, cuidar e preservar a Vida em suas múltiplas manifestações. A missão do site dos ecólogos é integrar as diversas tradições, pensamentos e ações voltadas para o mesmo objetivo, ou seja Ecologia e Espiritualidade. 

Hoje, neste época pós-moderna em que vivemos, uma das características é a pluralidade cultural e religiosa, isto é dialogar com um leque de experiências que vêm dos movimentos religiosos e da cultura dos povos, não aceitar isto é afunilar-se para dentro e re-afirmar o que já decretou o fim da modernidade: o indivíduo como portador de sentido para si próprio sem abrir-se para o amplo da existência. 

O Documento da Família Franciscana do Brasil “Reviver o Sonho de Francisco e Clara de Assis no Chão da América Latina e do Caribe” (cf. VIII Centenário do Carisma Franciscano, Celebração Latino-Americana e Caribenha, Brasília 17 a 19 de Outubro de 2008) diz em sua página 34: “Francisco desempenha hoje um papel invejável nos encontros ecumênicos e inter-religiosos, pois recebe comum aceitação e respeito, não só de católicos mas de quantos acreditam nos valores humanos e na vida. É que ele não traz a marca da polêmica, mas da simpatia; não combate heresias, a não ser com o exemplo; valoriza a escuta mais do que a fala; e no dizer de Nikos Kazantzakis, escuta a música dos pássaros, mas também lhe interpreta a letra. Em sua vida, busca o diálogo até com o Sultão em tempo de plena Cruzada; intervém para mediar a reconciliação entre o prefeito e o bispo de Assis, e para restabelecer a paz em situações em que está rompida. Em nossos dias, por duas vezes a cidade de Assis, por ser a terra de Francisco e Clara, foi sede do encontro inter-religioso mundial de Oração pela Paz, dando origem ao chamado Espírito de Assis” (Doc. Cit. 5 - O ecumenismo e o diálogo em todas as direções). 

Não temos a intenção de, com esta resposta, contrariar uma opinião, que para nós é bem-vinda e nos dá um parâmetro para o que acreditamos... Queremos também dividir o nosso modo de pensar e uma das finalidades do site que é ser fiel ao Carisma Franciscano. Vou enumerar os assuntos elencados e dar a nossa opinião, apenas para um confronto de idéias. 

1. Sabemos que o Yoga é uma filosofia hinduísta e que hoje é praticado por budistas, zenbudistas, cristãos, não-cristãos, esotéricos e pessoas que têm um pensamento holocentrado. É um caminho para o sadio da existência e não uma doutrina e nem um dogma. O hinduísmo não é cristão, por isso não fala de Jesus Cristo e as verdades que estão em nosso Credo. O Yoga é um conjunto de exercícios que levam à concentração, meditação e  à quietude da alma e do corpo. 

Hoje existem práticas do Yoga  adequadas ao cristianismo e a outras formas de experiência espiritual. Frei Inácio Larrañagna, nas Oficinas de Oração, usa exercícios de respiração vindos do yoga para ajudar a orar melhor. Recentemente, em Bauru (SP), Pe. Enedir promoveu, no Santuário do Sagrado Coração de Jesus, uma palestra-debate com dois monges budistas que falaram aos católicos sobre a Kryo-Yoga e a importância da Meditação. Não havia nenhum proselitismo e nenhuma manipulação de verdades religiosas, mas sim um encontro entre verdades para iluminar as próprias experiências e práticas. Um dos paradigmas da pós-modernidade é este: há muito mais verdades no conjunto das religiões do que nos dogmas isolados de cada uma delas. É preciso acolher e compreender todas as experiências para apaixonar-se mais ainda pela própria religião. Não estive presente nesta palestra, mas sei por testemunho de quem esteve, que os dois monges budistas fizeram uma verdadeira declaração de reverência ao cristianismo. 

2 e 3. Realmente nas práticas de yoga aparecem mantras. Se fossem mantras franciscanas certamente usariam frases das Fontes Franciscanas e Clarianas ( cfr. O CD “Mantras Franciscanas”), se fossem cristãs usariam as mantras beneditinas e das comunidades ecumênicas de Taizé espalhadas pelo mundo. Mesmo no cristianimso católico cantamos frequentemente: “Ó Luz do Senhor, que vem sobre a terra, inunda meu Ser, permanece em nós”. Pe. Jonas tem toda razão quando afirma que mantras hindus evocam os antepassados; o Evangelho de Mateus também traz a nossa ancestralidade, a nossa herança transgeracional (cf. Mt  1, 1-17s) Somos filhos da terra e da Luz, assumimos a nossa herança de parentesco e da consaguinidade e ao mesmo tempo, pela fé, superamos as nossas raízes biológicas para nos irmanarmos no que cremos. “Quem é minha mãe, quem são meus irmãos?” Jesus não está relativizando a família biológica, mas fundamentando pela Palavra a família espiritual. Não é um simples culto “reecarnacionista” ou apenas a lembrança dos mortos, mas sim a certeza de que em nosso sangue habitam gerações. 

4. Se alguém entrega-se a outras filosofias e vê a sua fé em Jesus Cristo enfraquecer, ou ser deturpada, significa que nunca teve fé em Jesus Cristo. Jesus vai à casa de todos, recoloca o humano no seu eixo e aproxima as pessoas do Divino. Não vem abolir mas realizar. Explica as escrituras e se insere numa tradição religiosa particular. Respeita as tradições mas não se fecha nelas. Traz sempre uma Palavra que convida ao Discernimento. Jesus não é uma Filosofia, embora seja o Mestre. Ele é o arquétipo da grande Síntese: une céu e terra, humano e Divino, faz a união de todas as qualidades que nos habitam. Ensina que somos participantes da Natureza Divina. Mostra a Unio Mística: “Eu e o Pai somos Um!”. Desperta a Imagem e Semelhança de Deus que está em nós. 

5. A função da Legenda é a edificação do Espírito, é um método pedagógico que usa o exagero. É preciso exagerar para dizer  algo que é grande demais. A Legenda Maior ou qualquer outra Legenda ao descrever as mortificações inserem-se no conceito Medieval de Penitência: penitência não é castigo, mas o exercício que se faz para eliminar excessos: excesso de vaidade, de ostentação, egoísmo, avareza e também da gula. Ser Penitente é chegar à medida do necessário, mas não ser um suicida. O caminho da Penitência é o caminho do equilíbrio. A maior penitência é vencer-se para não ser fechado e fundamentalista a tal ponto de não ver a maravilhosa Presença de Deus nos detalhes da Vida. Francisco não destruiu seu corpo, apenas dominou a sua finitude e sublimou os seus limites transformando-os. 

Não se perde a alma quando se está de um modo equilibrado com os pés no chão. O sadio e o santo não estão nas abstrações ou nas piruetas metafísicas, os nos preconceitos fundamentalistas de movimentos religiosos. O humano ganha a sua alma quando é profundamente humano habitado por uma inspiração Divina; quando integra em si a plenitude da totalidade: o Humano e o Divino; quando assume uma Espiritualidade Transreligiosa, isto é, não separa aquilo que Deus uniu: corpo e alma, Espírito e matéria, céu e terra, espiritualidade e afetividade. 

Como iniciante num grupo de espiritualidade franciscana, coloque um ponto final no passado, vire a página, o que passou fazem parte de uma experiência que deve ser integrada nas avaliações da sua existência. Como Francisco de Assis você agora é peregrino pascal, isto é, faz a Passagem para o melhor e escolhe um Valor Maior; isto traz a verdadeira liberdade de acolher e integrar o negativo da vida. Acolher e transformar o negativo da vida em Perfeita Alegria. Quem escolhe a Vida não tem o que se preocupar com os mecanismos da morte. 

Quanto a sua última pergunta... se um cristão entende yoga como religião não deve praticá-la pois não se pode servir a dois senhores; mas se entender como terapia...  é  a busca do sadio. Salvação vem de salus que quer dizer sadio. Sanar é a mesma coisa que curar, sanar, cuidar.... Será que faz mal cuidar-se? Por caminhos diferentes uma pessoa pode chegar ao sadio da existência. O que foi  ruim para uma pessoa não significa que é ruim para milhares. O importante é realizar-se nas escolhas que se faz. O critério de um Caminho Transcendente é a felicidade, a realização, o sentir-se bem. O Humano Religioso constrói-se com pedaços arrancados da  Felicidade! 

A fé vive mais nas perguntas e nos questionamentos. Como Franciscanos escolhemos o Caminho da Vida, o Caminho do Evangelho que é sempre o caminho do diálogo e da construção do Espírito. Ao percorrer pacientemente este Caminho...as respostas vão chegando! 

Frei Vitório Mazzuco OFM

2 comentários:

azoby disse...

A perfeição divina jamais nos permitiria termos todos um só pensamento, uma só idéia ou ainda um só sentimento. O que dá colorido, e por conseguinte, sentido à vida é essa maravilhosa diversidade que existe entre as pessoas, povos e nações.
A missão deve ser na busca da unidade dentro dessa pluralidade. Esqueçamos as diferenças e partamos para juntar semelhanças - certamente assim encontraremos mais facilmente o rosto de Deus.
Ao invés de fuçar sobre o que me incomoda em outras crenças, procuro antes perceber o mesmo na minha fé cristã católica. Não para fazer meras críticas, mas antes para tentar melhorar e me aperfeiçoar como discípula e missionária naquilo que acredito.
Um abraço,
Ariane Zoby

pereira.amado disse...

Frei Vitório, paz e alegria ! Sempre que posso, dou uma "passadinha" no blog do sr. Este post falou alto ao meu coração, pois amo do fundo da alma a Francisco e a tudo que ele se relaciona, ao mundo novo que ele soube construir a partir de Assis, e que dia-a-dia me inspira a viver melhor, a, como o sr.disse, acolher a diferença dos meus irmãos, e saber fazer dela fonte de renovação intima... Não sou católico, frei Vitório, mas respeito com todo carinho a Igreja, onde formei minha fé... Por isso, comentários como o do sr., me dão alegria cristã, de acreditar num mundo feliz, de respeito e fraternidade, num dia que certamente, pela misericórdia de Nosso Senhor Jesus, certamente chegará. Deus lhe pague !!! um grande abraço