terça-feira, 23 de dezembro de 2008

NATAL – Ritual dos olhos


Recebi esta mensagem do meu amigo Fábio Paes. Ela é inspirada num texto de Saramago, “Ensaio sobre a cegueira”. Fábio é sensível, visionário e provocador. Não posso guradar esta mensagem só para minha reflexão! Então divido com vocês!


[Dedicado aos diversos natais de miopia, cegueira e morte]

A história do Natal surge como um grito universal de reverência à vida e, diga-se de passagem, de toda e qualquer vida, do verme ao homem que foi a Lua. Na rotina de nossos dias passamos pelas coisas como se fossem meras aparências daquilo que nomeamos como “coisas úteis” e “inúteis”, “necessário” e “desnecessário”, “sagrado” e “profano”, “bom” e “ruim”. Malditas dicotomias necrófilas!

O que é a vida? Eis o grito e expressão de poetas, músicos, filósofos, pensadores e loucos. Sim, loucos, só pensa e se concentra nestas coisas da vida quem não tem nada o que fazer, pelo menos é isto o que dizem. E foi neste cenário de situação, que um homem, chamado de Francisco de Assis, no auge da Idade Média, percebendo a insensibilidade da humanidade frente ao grande valor da existência, criou o presépio. Pegou um burrinho, galinhas, feno, uma criança recém-nascida, convocou a comunidade, camponeses e camponesas, prostitutas e piegas, associações, líderes locais e encenou a assim chamada “noite de natal”.

Um menino pobre, risonho e simples era reverenciado em meio a todo um cenário nostálgico de sensibilidade, beleza e poesia. Causou estranhamento para todos. Por que aquilo? Porque mesmo sem palavras, as pessoas choravam e se deliciavam de admiração? A delicadeza e fragilidade daquela cena, deixava o peito acelerado, prestes a explodir. O óbvio se transforma em extraordinário quando o ser humano silencia, pára e contempla o que está diante de si. Este é o sentido de festa, armar a consciência de enfeites de admiração. O natal não tem segredos e nem necessita de muitas teorias e estratégias de compreensão e não tem nada de sobrenaturalidade, apenas um natural observado, percebido e constatado. O Natal é a máxima plasticidade da rotina, da existência e do óbvio que se equaciona no extraordinário.

Eis que este homem medieval apontava para esta cena e gritava: “Eis que absurdo fantástico e simples! Estão cegos?! Vejam a profundidade daquilo que excluímos na consciência de nossos sentidos”. Para ele, isto se chamava “Deus”, outros chamam isto de “vida”... enfim, o que importa é o feedback que acontece em meio à multidão de alienações do dia-a-dia. Para escândalo de todos, ele continuava de modo aclamativo e jogralesco: “Vejam o contorno do mistério inegável da vida!!!”, e junto com estas palavras derramava lágrimas de admiração. O que ele via? Por que este excesso de comoção e concentração?

Dias se passam, pessoas nascem e pessoas morrem. Alguns são esmagados pela injustiça e excessos de outros. Pisamos em gramas, pisamos em gentes, anulamos egos, matamos de fome, de cultura, de beleza, de reconhecimento e de comida milhares de meninos e meninas, àrvores e rios ... E qual o valor que damos a este ciclo?

Tudo é um mistério belo e precioso, digno de reverência. O jogo entre o banal e o excepcional se mistura e cria a receita de um ritual. Somos feitos de rituais para não deixarmos de ver, nada mais! Por isto, criamos o Natal e outros rituais. Somos seres de memória utilitarista, e esquecemos com facilidade a fatalidade e exuberância da existência. A vida se faz de maneira tão singela e silenciosa que necessita do microscópio da atenção, do bisturi do cuidado e do telescópio da contemplação. Ninguém ainda descobriu a fórmula da vida, e mesmo que descubram existe um início, meio e fim surpreendente e uma aparência para além do que imaginamos.

A vida nos escapa e nos surpreende a cada esquina dos dias. O Natal é o momento que temos de parir a eterna novidade da vida. Nossos olhos se tornam em úteros e nossas mãos em aconchegos do nascido, que muitas vezes abortamos pela insensibilidade. Assim escreve Saramago, em seu livro, “Ensaio sobre a Cegueira”:

“Se podes olhar vê, se podes ver repara!”

Natal é a festa dos olhos diante da realidade que está para além dos cenários dos shoppings, avenidas e dos enfeites de nossas portas, mas sim, a realidade esquecida e periférica de nossos dias. Nada mais e nem menos, nem tão longe e nem tão perto, depende de como se vê.

Fábio José Garcia Paes, míope, mas de óculos.

Um comentário:

Marinilce Araújo disse...

Maravilhoso esse texto.
Que bom seria que todos fizessem " a festa dos olhos diante da realidade..." todos os dias. Noutras palavras, que bom seria se o espírito de Natal fosse vivido todos os dias, através do exemplo que o Senhor Jesus nos deixou.
Paz e Bem.