terça-feira, 30 de dezembro de 2008

Trindade, Francisco e a Nova Criação - Final


5. Trindade, Francisco e a Nova Criação

A ecologia constitui um jogo complexo e completo de relações. Tudo inclui, nada negligencia, tudo valoriza, tudo concatena; essa é a compreensão da Nova Criação! Um modo de estar no mundo ético ou religioso, isto é, parte de que tudo o que existe e merece existir. Todos somos criaturas, temos um laço que nos une, a fraternidade cósmica. Esta visão é o avanço ecológico da compreensão da vida como Nova Criação.A criação visa o equilíbrio entre a vida e a morte. A criação se rege pelo princípio da exuberância da generosidade. Há sempre um equilíbrio entre a vida e a morte e a partir daí buscar o equilíbrio entre todas as coisas.A Nova Criação é uma ecologia mística.Dá uma visão de que todo o universo pertence ao Reino da Trindade. Essa visão de São Francisco, ele sente o mundo confraternizando com o Espírito. Nós temos clareza da encarnação do Espírito, no entanto temos dificuldade de perceber a habitação do Espírito no mundo em todas as coisas. O Espírito arma a sua tenda, então ele habita não só em Maria, mas no mundo, na natureza. “O Espírito dorme na pedra, sonha nas flores, sente nos animais e pensa no ser humano”. Ele é a grande força unificadora de toda a criação. Por isso, nós temos que intensificar esta concepção que nos leva a assumir o mundo não como objeto de nossa dominação, mas como irmão.
O universo constitui um desbordamento dessa diversidade e dessa união. O mundo é assim complexo, diverso, uno, entrelaçado e interconectado, porque é espelho da Trindade! Deus aponta em cada ser, acena em cada relação, irrompe em cada ecossistema, mas principalmente se sacramentaliza na vida de cada pessoa humana, pois nela encontramos a inteligência, a vontade e a sensibilidade como concretização distinta de nossa única e inteira humanidade. Somos uma só vida e comunhão realizadas distintamente, sendo unos e múltiplos em analogia com o mistério do Deus Tri-Uno.Viver a Nova Criação permite-nos o universo com sumo afeto, porque abraçamos o próprio Deus Trindade. Desta experiência nasce uma nova espiritualidade integradora, holística, capaz de unir o céu com a terra. Bem dizia Albert Einstein: “Sustento que o sentimento religioso cósmico é a motivação mais forte e mais nobre da pesquisa científica”. Não só da pesquisa, mas de uma existência aberta, sem medo do corpo e da matéria com seu peso e seu fulgor. O mundo não é apenas ponte para Deus. É o lugar da veneração e a casa do encontro com Deus. Porque isso é verdade, entende-se a afirmação do maior místico do Ocidente Mestre Eckhart: “Se a alma pudesse conhecer a Deus sem o mundo, o mundo jamais teria sido criado”. O mundo e nós dentro dele existimos para propiciar a Deus ter companheiros na sua superabundância e nós podemos ser divinos em nossa criaturabilidade.

Francisco de Assis elaborou toda uma ecologia interior, uma ecologia mística, uma ecologia da mente. Nos seus escritos, orações e hinos percebem-se o entusiasmo e o brilho que o universo produzia na sua experiência do mundo e de Deus. No final da vida, compôs o hino ao Irmão Sol, peça do mais alto êxtase cósmico. Compôs o seu hino, o Cântico ao Irmão Sol, quando já estava cego e extremamente doente. Canta o sol e a lua, o vento e a água, elementos que já não podia ver em sua quase cegueira. Mas estavam no seu interior como símbolos e arquétipos de absoluta integração. O hino celebra o matrimônio cósmico do céu e da terra, do ser humano que está junto com todas as coisas, com o Deus Solar que irradia no fundo de seu coração. Bem escreveu o filósofo Paul Ricoeur: “Eu me auto-expresso ao expressar o mundo e exploro minha própria sacralidade, quando procuro decifrar o mundo”. São Francisco é testemunho desta verdade ecológica.
Nunca se viu no Ocidente tanta suavidade e tanta ternura como Forma de Vida e maneira de integração como em Francisco de Assis. Por isso, ele continua como referencia cultural para todos aqueles que buscam uma Nova Criação. Dante Alighieri o chamou “Sol de Assis” que continua a irradiar até os dias atuais, despertando em nós aquelas potencialidades adormecidas que nos fazem mais sensíveis, solidários e compassivos com todos os seres do cosmo.
Precisamos resgatar a convicção de que o paraíso não se perdeu totalmente e a ele podemos retornar para cumprir a vocação divina testemunhada no gênesis: nosso lugar é a Terra, mãe e amiga, feita jardim do Éden para cultivá-la com carinho e guardá-la com o coração na mão. Essa é a verdadeira ecologia franciscana e trinitária.
A compreensão trinitária de Deus ganha uma surpreendente ilustração a partir da ecologia. O discurso ecológico se estrutura ao redor da relação e da interdependência de todos com todos. Tudo tem a ver com tudo em todos os pontos e em todos os momentos. Nada no universo existe fora da relação. A nova física deixou claro que não podemos falar de partículas elementares, como átomos, núcleos, hadrions, quarks; estes são momentos de densificação de energia. Na nova visão, o universo é concebido como uma teia de eventos sempre inter-retro-relacionados. Todos os fenômenos naturais e culturais estão interligados, de sorte que nenhum pode ser explicado por si sem os outros. Niels Bohr, um dos formuladores da física quântica, dizia: se arranco uma folha de grama no chão faço estremecer a galáxia mais distante, pois ela está também relacionada com a folha de grama.
Agora temos condições de entender o por quê desta conexão universal. É porque todas as coisas são sacramentos da Trindade e da divina pericórese. Reportemo-nos ainda a Santo Agostinho, o grande pensador da Trindade: “cada uma das pessoas divinas está em cada uma das outras e todas em cada uma e cada uma em todas e todas em todas e todas são somente um”. Seguramente nenhum ecólogo moderno diria com mais pertinência a realidade relacional divina e humana do que Agostinho. A Trindade emerge, pois, como a representação mais adequada do mistério íntimo do universo, de sua estrutura e de sua dinâmica. Nesse sentido, a fé na Trindade ganha uma contemporaneidade insuspeitada. Não representa um enigma matemático ou um resquício do paleocristianismo. Ela é a forma mais moderna de se falar de Deus, como comunhão de pessoas, como jogo eterno de relações de vida e de amor, como Trindade de Pai, Filho e Espírito Santo. O campo da ecologia é o campo privilegiado para entendermos Deus-Trindade. Nesse campo, temos a experiência de base necessária para entendermos a completa e absoluta relacionalidade em Deus como Trindade de pessoas divinas.
Se tudo é relação em Deus e no universo, então tudo deve ser inclusivo e relacional nas sociedades, nas igrejas e nos contactos humanos. Tudo deve conservar-se como sistema aberto, capaz de receber e de dar, enriquecendo os outros. Tudo tem conta e tem valor, porque está inserido dentro do jogo infinito das relações de inclusão. Com razão, dizia S. Francisco que ninguém deveria aspirar a nada, mas continuar in plano subsistere, quer dizer, permanecer no chão comum, onde todos se sentem irmãos e irmãs, porque filhos e filhas do Pai e Mãe de infinita bondade.Essa visão trinitária reforça aquilo de que mais precisamos atualmente na nova fase da humanidade, a fase planetária e que era tão essencial para S. Francisco, a solidariedade entre os povos com suas diversidades culturais e religiosas, a comunhão amorosa com a mãe Terra e a irmanação com todos os elementos vivos e inertes da natureza.
Texto de Frei Vitório Mazzuco, OFM, e Leonardo Boff

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