terça-feira, 4 de novembro de 2008

Pluralidade cultural e religiosa - II


Ter uma espiritualidade sólida, cristã e franciscana dá consistência ao caminho. Hoje, muita gente agarra tudo e se faz um franco atirador... pega tudo o que vem e não leva nada com profundidade. O nosso modo de viver muda na medida em que vamos conquistando uma medida de valores. Ir à boate, barzinho, balada, etc não é ruim; a questão é o modo transparente de como se está ali. Hoje há uma queda na qualidade dos relacionamentos porque pouco se investe na qualidade do humano, e cria-se um vazio existencial, uma superficialidade muito grande. Você não deve deixar de estar num lugar onde pessoas do seu ciclo de relacionamentos estão. Mas você tem que ter um diferencial. Você não precisa ser melhor ou pior que ninguém, você tem que ser é especial, único, alguém que é uma fonte de valores que servem de parâmetros para que os outros melhorem o nível da própria vida. Na qualidade de nossas relações há uma revelação. Amar é perceber alguém. Se você dá o melhor, pessoas mudam. Vejo, sou... logo existo!

 Voltando à questão  do yoga... Não sou um especialista no assunto, mas a minha área de atuação como teólogo é a Teologia Espiritual, e, necessariamente, tenho que saber um pouco. O hinduísmo é uma escola de espiritualidade. O  Yoga não é uma religião; mas pode nos ajudar a dinamizar uma experiência religiosa. O yoga faz parte de métodos que ajudam a educação integral do humano. Assim como a Meditação Cristã (os Beneditinos divulgam muito esta Meditação...) também. Para o yoga, a saúde é um dever moral e para o cristianismo a saúde é um dever religioso. É o domínio das nossas resistências orgânicas e nervosas, o auto-controle emocional, a concentração mental, transformar as nossas forças psico-afetivas em forças mentais e espirituais. Não reprimir, mas sublimar. Levar à iluminação e à contemplação... São métodos milenares que estão também nas buscas dos Mestres do Espírito. Jesus também recolhia-se em momentos e lugares de quietude e concentração.

O yoga entrou no cristianismo com o Pe. Dechannet, um dominicano, que escreveu aos católicos para que fossem um iogue de Cristo, e que usassem estas práticas para viver mais intensamente as virtudes teologais: Fé, Esperança e Caridade. Tudo é uma questão de discernimento. No cristianismo precisamos também de disciplina para buscar a perfeição espiritual. O próprio cristianismo fala das Três Vias: Purgativa, Iluminativa e  Unitiva... que na Índia já pertenciam  aos exercícios dos  sádhanas. É um encontro cultural e espiritual entre Oriente e Ocidente. Santo Agostinho fala no seu clássico livro Confissões: “Percorri ruas e praças deste mundo, buscando-Te sempre... e não Te encontrava porque em vão procurava no exterior aquilo que estava dentro de mim”. O poeta-místico hindu Kabir diz: ”Se expulsas Deus fora de ti, o que adoras é a distância”. O yoga já ajudou muito neste encontro de convicções entre o oriente e ocidente. Por caminhos diferentes todos estão na mesma busca.

Quando não se conhece uma experiência diferente, uma religião protege-se contra o diferente refugiando-se em seus dogmas. Hoje, o mundo mudou muito e a Igreja tem que acompanhar também estas mudanças que mexem muito em conceitos teológicos e filosóficos. O grande objeto da mística e da ascese cristã é a perfeição do humano. Isto se dá no natural e no sobrenatural. O natural é cuidar bem e desenvolver os bens que recebeu de Deus: o corpo e suas potencialidades. O humano precisa para isto da medicina, da psicologia, da filosofia, da nutrição, da higiene, da arte. O sobrenatural é cuidar do espírito e acreditar na Graça de Deus, na ação encarnada de Jesus Cristo na história, a sede de transcendência... para isto o humano precisa da espiritualidade e das religiões. Não dá para separar as duas coisas... somos naturais e sobrenaturais ao mesmo tempo. Esta é a união da alma com Deus. A religião ajuda a cuidar do espírito, o yoga ajuda a cuidar da personalidade. O humano sozinho não consegue nada, mas com ajuda de Deus e de exercício concretos na sua existência chega à uma superação.

 Não basta apenas buscar uma vida de piedade se não há controle sobre a vida instintiva, mental e emocional. Hoje, nós temos muita gente que se arvora em estado de santidade, mas  tem problemas emocionais não equilibrados... é preciso encontrar um equilíbrio nisto tudo! Saúde e santidade não se separam. Muitos cristãos têm dificuldade em concentrar-se para meditações, orações mentais e silêncio interior. A nossa liturgia e a nossa oração são por demais barulhentas. A dificuldade vem da incapacidade de se concentrar. É preciso haver um encontro entre a piedade e a mente. É preciso encontrar uma prática eficiente da vida cristã. Não preciso abrir mão de minha fé, mas posso ter a liberdade de buscar outros métodos. O yoga não  dá a fé, mas dá o método para chegar lá... assim como uma Igreja Católica não lhe dá um  cristianismo, é Jesus quem dá....a Igreja é Mediadora de uma Grande Busca.

 

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