quarta-feira, 5 de setembro de 2012

ITINERÁRIO A ASSIS – 9


Hoje, na parte da tarde, fizemos o roteiro que já descrevi em textos anteriores: Igreja Nova, São Francisco Pequenino e a Catedral de São Rufino. Tenho que destacar dois momentos fortes: Na Catedral de Assis, junto à Pia Batismal onde Clara e Francisco foram batizados, fizemos e refizemos o ritual de nosso batismo. Todo o Iniciado é aquele que se prepara para a vida no seu todo. Francisco e Clara nos ajudam a mergulhar profundamente no mistério de existir, abraçar a vida existindo em Deus. Conseguimos horário e espaço para que o grupo estivesse bem concentrado. A Irmã trouxe a abençoada água batismal que estava lá na sacristia. Nós levamos velas. Cantamos. Rodrigo no violão e Luiz na gaita. A música fluiu preenchendo o centenário templo. Refizemos em nós um itinerário da Luz de Deus em nossa vida. Outro momento maravilhoso ao chegar pelas 17h15, na Chiesa Nuova, fomos recebidos com muito carinho pelo Frei Marco, que reside e trabalha ali. O bom e simpático frade nos cedeu, mesmo não estando previsto, o espaço para que às 18 horas pudéssemos celebrar a Eucaristia, no espaço onde foi a casa de infância de Francisco, e naquela hora totalmente disponível para o grupo. Nós ficamos bobos de contentes! Frei Sérgio, na celebração destacou que o Ser Espiritual é o jeito de Deus. No silêncio da igreja uniu-se mistério, simplicidade e profundidade.

Quando fazemos algo com muito amor sempre aparecem forças contrárias. Diante de algo grandioso sempre vem o toque de uma negatividade. A vida é feita de polaridades. Vida e morte. Trevas e luz. Bem e mal. Eu mesmo estou conduzindo a parte da experiência, mas convivendo com uma faringite que comprometeu minha voz. Por felicidade, Frei Sérgio está junto e tem entrado no momento certo com grandiosas intervenções. Mas quem experimentou isto que comentei acima, de  um modo muito mais intenso, foi a Edite da Fraternidade Nossa Senhora dos Anjos de Bragança Paulista, SP. Enquanto partia para cá, no domingo, seu sobrinho Paulo, 25, sofria um grave acidente de moto; e quando chegávamos aqui veio a notícia de que ele faleceu. A força fraterna do grupo fez-se  importante nesta hora. A grandeza do momento tem que aprender a conviver com a dor de alguém. O sentimento solidário é um bálsamo.

Amanhã iremos à praça do Episcopado. Um pequeno logradouro conhecido como a Praça do Bispo, ali foi construída a igreja de Santa Maria Maior. Estamos no ano de 1207 e Pedro Bernardone sofre intensamente a assim chamada “desobediência” de seu filho Francisco, que não quer o ouro e o acúmulo de bens de seu pai, mas está preparando, dentro de sua forte convicção a maior revolução moral, espiritual e social que a Idade Média virá a conhecer. Como pode um filho tirar da loja de seus pais tecidos e moedas e oferecer aos pobres mendigos de Assis? Francisco sofre dura reprimenda de seu pai e apanha muito. É preso num calabouço doméstico. Hoje vimos e refletimos esta prisão. Márcia Martins, da OFS de São Lourenço, perguntava: “Até quando, nós, pais, podemos aprisionar os sonhos dos filhos?” Sua mãe solta-o da prisão. Uma mãe não gosta de ver o filho sofrer algo que não vem apenas de espancamento ou prisão, mas sim de uma alma que não se sente solta, ao ter que vender e comprar sem poder partilhar. Pedro Bernardone tem lá suas razões: um filho pode dispor dos bens da família ao seu bel-prazer? Pode tomar a herança e dar aos sem nada de Assis? A mãe tem suas intuições: E se meu filho tiver razões suficientes, morais e religiosas para fazer isto? Quem poderá impedi-lo? Que grade pode prender um sonho? E Francisco tem suas razões: tocado pela graça de Deus quer viver um total desapego. Como viver um amor, sem ter nada, se não passar pelo máximo despojamento? Como, na loucura de viver o Evangelho, não experimentar a cruz e correntes? Quando não se tem respostas... o povo fala: “ Pergunte ao Bispo!”. Foram perguntar.

Francisco é levado pelo seu pai diante do tribunal eclesiástico. O povo vai junto para ver um curioso confronto entre um pai comerciante e o filho considerado um vagabundo ingrato, um hippie medieval com olhos brilhantes de fé. E agora? O pai enfurecido e a mãe chorosa. Um pai encarando e discursando argumentos para a multidão e uma mãe com terno, piedoso e cúmplice olhar para o filho. O pai na lei da Comune e do Episcopado e o filho no Evangelho. Devolver o dinheiro doado aos pobres ou ir para a prisão oficial da Comune? E foi nesta praça que Francisco toma a decisão: meu pai na terra, Pedro Bernardone quer seus bens, e Deus, meu Pai do Céu me quer inteiro. Então, Francisco devolve ao pai suas roupas, símbolo da ostentação e estratificação social da época; e nu diante de todos, sai para abraçar o Único Bem. Ali começa a revolução de Francisco: pelado e sozinho com a sua decisão. Vai dizer de um modo testamentário: “Ninguém me ensinou o que eu devia fazer, mas foi Deus mesmo que me revelou!”. Não há julgamento que possa avaliar uma Revelação. Tinha quase 25 anos. Saiu para sempre dos bens terrenos de  seu pai e abraçou o tesouro que ninguém poderia roubar, controlar ou corroer. É livre, rico de Deus e forte consigo mesmo. É abril naquele ano de 1207. Anuncia-se a primavera. Há um renovar nos ares, nas sementes e no espírito. Francisco sabe que não adianta florir os campos de Assis se a primavera não acontecer dentro dele. O mundo percebeu isto e começou  a desabrochar com ele. A semente plantada na Praça do Bispo foi florir no coração de todos os que buscam Deus de um modo total e com desapego total. Quem diria! Um jovem larga tudo para mostrar que o Evangelho não brinca em seus apelos. E nós, aqui na praça, desviando do ácido bombardeio aéreo dos pombos...

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Um comentário:

inconformada disse...

Estou fazendo esse caminho...achava que estava sozinha mas me emociono em cada colocação...um forte abraço pra Edite, e nossas orações!