segunda-feira, 10 de setembro de 2012

ITINERÁRIO A ASSIS - 11

























Hoje (6/9) saímos para conhecer o Convento Santuário de São Damião. Descemos pela trilha que nos conduz até este lugar fontal, admirando a natureza que nos circunda: ciprestes, olivais, vegetação exuberante, caminho revelador. A estreita e baixa porta do Convento já nos convida a entrar em extrema reverência, inclinados, prostrados. Em São Damião, entra-se como que de joelhos. Em nós, lágrimas nos olhos ardendo na luz do olhar. Emoção. Silenciosa emoção. Nó na garganta. Este lugar fala, a Cruz falou ali. Estar num lugar santo sacode a alma, o sentimento, o ser na sua inteireza. Não tem como o corpo tornar-se naturalmente um genuflexório. Rezamos.

Francisco chegou aqui em 1205. Desde 1200, São Damião sofria o abandono e, aos poucos, tornava-se ruína. É horrível um lugar decair depois de ser paradouro, enfermaria, oratório, “sosta della posta”, isto é, parada dos estafetas que levavam o correio, abrigo de caravanas de peregrinos, estábulo..., enfim, um paradouro da humanidade num cruzamento de vias.

Mas um dia, outro lugar se fez na rota dos passantes, e São Damião foi esquecido. Quando Francisco chegou neste lugar, ele também se sentia uma ruína: tinha vendido em Foligno tecidos da loja de seu genitor para arrumar moedas e dá-las aos pobres, estava cheio de enigmas, era considerado um louco por todos, desprezado por seu pai Pedro Bernardone, enfim uma chacota para a cidade de Assis que não compreendia seu novo jeito.

O que Francisco encontrou aqui? Os restos da capela do lugar, balido de ovelhas assustadas, leprosos escondendo suas peles pútridas. Dizem as Fontes que ele, em meio a isto tudo, começa a orar com maior fervor. Crise e prece criam sinais e revelações. Algo começa a falar. A Cruz fala! A Cruz sempre fala em meio a sofrimentos. A dor tem uma linguagem de convocação: é preciso colocar-se novamente em pé! Compenetrado na prece, Francisco escuta um imponente Crucifixo Bizantino, que lhe diz: “Francisco, vai e restaura a minha casa!”

Esta fala para ele é uma ordem. Inspiração tem que ser trabalhada, senão vira apenas um instante de espanto. Imediatamente, e com vontade, ele joga para dentro da janela empoeirada, abrigo de aranhas e suas teias, as moedas conseguidas em Foligno. Havia um sacerdote que, de vez em quando passava ali para alguma esmola e prece. Este devia pegar as moedas, ajudar os leprosos com ela e manter uma lâmpada acesa na Cruz.

Se é para reconstruir vamos recomeçar! Como a aranha que estica o fio e forma sua casa, Francisco começa, com as próprias mãos a colocar pedra sobre pedra para levantar novamente o lugar. Na sua cabeça, uma teia de relações: é preciso arrumar um lugar para o Crucifixo bizantino, a única coisa inteira que ele encontrou entre ruínas. É preciso fazer do lugar abrigo para a Inspiração; além do mais, e se aquela bela jovem, filha dos Offreducci Favarone resolver vir atrás!...

Ela andou segredando algumas coisas nos poucos olhares e palavras que andaram trocando. E entre calos, cantos, pedras e preces, as paredes foram levantando as celas e salas, desajeitada arquitetura da simplicidade. O que se faz com amor e dor fica pra sempre. Entramos e vimos, depois de oito séculos, tudo ali: um refeitório com mesas e bancos pobres, um dormitório onde a senhora Clara, a Senhora Dama Pobreza e suas Damas Pobres dormiam sobre esteira e sob o olhar do Esposo Crucificado.

Vimos tudo. A Irmã Maria de Lourdes, franciscana brasileira, que trabalha em São Damião, explicou tudo. Vimos as telas nas paredes, a cópia do Crucifixo que fala, paredes que falam, acontecimentos que ainda falam, madeira que fala, e uma mística tão forte ali que, dispensando palavras, silencia. Há extrema Pobreza e a onipresente Ternura de Clara entre as pedras. Quando se obedece a convocação da Cruz, as coisas ressuscitam! Quanta vida ali! Armários guardando relíquias, um belo claustro com um fascinante jardim, poço no meio, flores, janela onde Francisco espiou as Criaturas e compôs versos de um famoso Cântico.

Quando a alma está em graça, até as pedras florescem! São Damião é um jardim! Clara fez, com o Senhor, este milagre ali. Diz o salmo: “Se o Senhor guarda a casa, o inimigo não encontra porta para entrar”. Os sarracenos tinham mesmo que fugir dali. Como enfrentar uma mulher de fé carregando seu único tesouro: o Deus Amado em quem crê?

São Damião tem poesia e santidade. Mística e missionariedade. Aconchego e envio. Você chega, não quer mais sair, mas também sente vontade de sair pelos cantos da terra contando pra todo mundo.

Na parte da tarde passamos para a Basílica de Santa Clara; a continuidade de São Damião. Às 15 horas sentamos na praça frente à Basílica e preparamo-nos para entrar. Texto na mão, prece, Fontes e canções clarianas. Tarde linda de sol, a luz de Clara, a beleza de Clara paisageando nossa espera e ansiedade. A primeira parada diante do mítico Crucifixo de São Damião. Ele tinha mesmo que estar neste lugar; ninguém melhor do que Clara compreendeu que Ele falou e ninguém melhor do que ela compreendeu a fala da Inspiração. O Protomonastero di Santa Chiara é o guardião do Crucifixo e nós o reverenciamos ali, atônitos e piedosos. Rezamos a Oração diante do Crucifixo, a encantada evocação ao Deus Altíssimo. Ilumine as trevas de nosso coração. Nos dê uma fé na retidão, que nos coloque novamente em pé, que nos dê uma esperança focada nos mais altos sonhos e projetos de nossa vida. E que a nossa caridade seja perfeita, irrestrita, total. Que sua fala seja envio, mandato, missão.

Em seguida, fomos ver o corpo de Clara. Repousa na serena paz dos que saboreiam o eterno. A mais bela filha de Assis brilha na beleza de sua santidade. Não é um corpo que está mumificado, mas um ideal que se faz perene na presença de suas Filhas, as nossas Irmãs Clarissas que oram silenciosas e felizes, no escondimento do claustro e na forte energia do lugar. Passamos pelas relíquias: veste, cordão, cabelos, a Regra, o Privilégio da Pobreza, hábito, breviário, túnicas, cilício... para dizer: Eles estavam ali! Na capela de Santa Inês cantamos com Frei Sérgio a canção: “Pobre Tugúrio”, a grande homenagem à Ermida de São Damião. Rezamos por quase meia hora. Sentíamos a fusão de São Damião e Basílica. E depois, individualmente, saímos pelas ruas de Assis para assimilar tudo dentro em nós. Muitos voltaram a São Damião, outros ficaram na Basílica, mas a maioria fez como disse o Luiz de Pira: “É preciso fotografar com os olhos e revelar com o coração”.

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