segunda-feira, 10 de setembro de 2012

ITINERÁRIO A ASSIS - 12


























Hoje, às 9 horas, subimos para o Eremo delle Carceri. Manhã linda. Dia lindo em todos os sentidos: sol, temperatura, e o que nos aguardava a 791 metros acima, nas encostas do Monte Subásio. Fizemos uma primeira parada na entrada do Eremo e sentimos o clima de silêncio. Explicamos o nome que pode parecer estranho: “Carceri”. Não é no sentido estrito de prisão, penitenciária ou coisa do gênero; mas sim o recolher-se para colher. Aprisionar-se da distração de tudo para estar no escondimento do contato direto e ininterrupto com o Senhor. Lá vimos e adentramos nas grutas de São Francisco, de Masseo, de Rufino. As cavernas da solidão. Lá recolheram-se estes pilares do nosso movimento espiritual, não como alienação ou fuga, mas como o dom de estar só. Saber com quem e por que estar a sós.

Celebramos a Missa às 11 horas no altar de São Francisco em plena floresta. Na Missa lembramos o dia da Pátria e fizemos do nosso jeito bem brasileiro, com muita alegria, ritmadas canções e criatividade. Após a Missa, saímos para a experiência de estar a sós com o lugar. Espalhamo-nos.Vimos e colocamos o nosso corpo nos acontecimentos a partir de 1206, quando o jovem Francisco vem para cá para o discernimento. Recordamos que é preciso filtrar as nossas escolhas pelas preces. Decidir passando pelo Espírito é sempre qualificar a escolha. Francisco e seus companheiros aqui se recolheram numa antiga ermida e nas cavernas que a circundavam. Ele esteve uma Quaresma inteira aqui e nós não tivemos tanta força para ficarmos aqui cinco horas e meia de nosso dia de hoje. Tivemos dificuldades em andar pelas evocativas trilhas e pedras. Adentrar à mata e aos labirintos do pequeno Santuário. Queríamos sempre procurar alguém do grupo para sentirmo-nos seguros ou para um dedinho de conversa. Nós, descendentes dos “homens da caverna”, temos dificuldade de concentrarmos como nossos frades das cavernas. Nós somos do borburinho e da ação; aqui foi sempre lugar de absoluto silêncio e contemplação.

Daqui, Francisco consultou Clara se devia viver uma vida contemplativa ou ativa. Fez um equilíbrio com um jeito próprio e eremítico de ser: o eremo não é lugar para ficar, mas sim abastecer-se de forças, de energias divinas para continuar. Aqui tem o jeito da Ordem: pisar chão singular, pleno de beleza, ver a estética do simples e a beleza do humilde; morar de um modo primitivo, moldar pau e pedra para subir ao templo; caminhar por sendas místicas, viver com os irmãos da primeira hora, ser abrigo de loucos e rebeldes, abrigar Bernardino de Sena, os radicais Fraticelli, uma santa anônima viveu por aqui. Francisco queria que os irmãos, para viver bem a cidade aprendessem com o eremo. Quem aprende bem a estar só, aprende melhor a estar com o público. Aqui é o lugar do equilíbrio entre a solidão e a inserção. No Carceri foi redigida a Regra para os Eremitérios, onde aprendemos que orar e contemplar não é evitar o outro, mas ser mãe de presença e cuidado pelo outro. Foi um dia muito diferente como há muito não tínhamos: aprender a parar e ver. Andar e meditar. Sair da comensalidade grupal para ir fazer um “pranzo al sacco” sozinhos, sentados numa pedra, e mastigando muitas reminiscências e sustos; foi de ter fome de Deus e perder a fome da comida material. Este lugar nos prendeu e soltou.

Acompanhe a nossa viagem

3 comentários:

inconformada disse...

Senti até o silêncio...abençoadas palavras que nos trazem a emoção que voces estão sentindo!
Um grande abraço a todos, Maone

Rosana Padial disse...

Que texto lindo!!!
Hoje estava refletindo sobre a necessidade de espaços internos para que a vida entre! Para que a poesia encontre morada!
Este seu texto dá muitas dicas! Que delícia!
Minha viagem daqui está SENSACIONAL!

Anônimo disse...

"Convidam-nos aquelas montanhas: Para o alto! Diz-nos aquele céu: Sede puros! E céus e montes prometem-nos beleza infinitamente maior do que nos deixam ver, dando-nos dela desejo tão apaixonado que só o satisfaz o grito silencioso do coração: Meu Deus!" - Maria Sticco.
estar em Assisi é vivenciar a infinitude da divindade de nosso Deus e toda sua generosidade para conosco; como tudo é belo e,... gratuito; como nosso Deus é bom! "Meu Deus". Paz e Bem!!!
ALESSANDRO