terça-feira, 11 de setembro de 2012

ITINERÁRIO A ASSIS - 13




Maravilha o dia de hoje (8/9)! Encontro com nosso Pai Francisco. Chegamos cedo a sua casa, celebramos às 8 horas junto aos seus restos mortais. Festa mariana della Madonna Bambina, Natividade de Nossa Senhora. Após a Missa, uma visita à parte interna do Sacro Convento. Minha amizade com Frei Alércio, o expressivo e simpático frade conventual, deu-nos a possibilidade de ir até onde grupos de peregrinos não podem entrar. Falemos, então, do que vivenciamos:

Recolhemo-nos para celebrar diante da Tumba de São Francisco, onde ele repousa rodeado de seus primeiros companheiros e Jacoba de Settesoli, sua amiga pessoal. Quando morreu, Francisco foi levado até a igreja de San Giorgio e ali aguardou até terminarem de construir parte do grandioso templo onde pudesse ser venerado pelos seus fiéis. Ele havia dito que gostaria de ser enterrado na parte mais triste da cidade, um lugar onde os condenados à morte eram executados e onde também era jogado o lixo da cidade. Sobre este terreno nasce, então, um dos mais imponentes templos medievais, a Basílica de São Francisco. Este é o jeito de Francisco, sempre levando vida onde existem mecanismos de morte.

A Basílica é de julho de 1228, construída a pedido do Papa Gregório IX. Francisco era austero, como então uma construção deste porte? É a homenagem dos assisienses à sua grandeza; eles queriam materializar e deixar para os séculos sucessivos a essência do carisma franciscano. Quando adentramos neste lugar encontramos uma explosão de detalhes; como se relêssemos a Bula de Gregório IX pedindo que se construísse uma igreja para conservar o corpo de Francisco. Ali está Frei Elias e seu jeito empreendedor; as múltiplas doações dos cidadãos de Assis e fiéis de toda Itália; os muitos artistas vindos de Firenze, Veneza, Siena e de Roma; os arquitetos; o projeto de duas Basílicas numa só, a Superior e a Inferior; enfim, uma Mostra de arte italiana medieval. Para perpetuar São Francisco, “o mais santo dos italianos e o mais italiano de todos os santos”, houve uma movimentação coletiva. Tanta história; uma invasão napoleônica por mais de dez anos, terremotos, e algumas discussões de arquitetos, ou tentativa barroca sobre a arte medieval, tudo ali respira bem este jeito franciscano, bem custodiado pelos nossos confrades conventuais.

E sob a beleza original e popular das Basílicas, repousa humilde entre pedras o corpo do Santo, tendo ao redor os companheiros da hora primeira como Leão, Rufino, Masseo, Ângelo... como a glorificação do Simples. A íntima proximidade com os restos mortais do Santo convoca a oração, silêncio e meditação. Muita luz, muito recolhimento. Um espaço real para ver o testemunho dos afrescos que mostram com maestria a lógica de uma vida e um caminho de iluminação. Fidelidade, votos, compromisso, santidade.
Na parte da tarde fomos fazer a nossa primeira etapa à Santa Maria dos Anjos, onde está a Porciúncula; digo primeira etapa porque hoje dedicamos ao encontro pessoal com o lugar e, na segunda-feira, a celebração e visita guiada, a descoberta em comum. Chegamos à Praça da Paz para contemplar primeiro ao longe e ir, aos poucos, aproximando deste lugar que evoca um mistério e uma serenidade impressionante. Este lugar já tinha uma capela antes de 1054. Bulas papais comprovam um primitivo movimento de presença beneditina. Suas paredes trazem marcas do século X. Francisco chega ali no século XIII, em 1207, e encontra escombros e abandono. Ganha o cuidado do lugar dos irmãos beneditinos que estavam no monte Subásio. Depois chegam seus primeiros companheiros. Nasce a Fraternitas!

Caminhando estupefatos, adentramos à grande Basílica papal que acoberta a Porciúncula; mais uma vez, a pequenez revelando a grandiosidade do mistério. Chegamos com os olhos marejados na capela e sua inscrição: “Esta é a porta da vida eterna”. Por um instante sentimos que tínhamos realmente chegado à eternidade. Nas pedras, a força do grupo primitivo entra em nós e nos fundimos com o despojamento do lugar. Na parede, o túmulo de Pedro Cattani, o primeiro Ministro Geral da Ordem. Aqui, a simplicidade tem mística, estética e rito. Atrás, o local onde morre Francisco. O Rosetto, um jardim de rosas sem espinhos, pombas guardiãs e a capela das rosas. Hoje, passamos e permanecemos em prece individual. Chegamos já no meio a tarde e ficamos até a tradicional, suntuosa e devota Procissão Luminosa, às 21h15. Uma multidão com lanternas iluminadas por velas fez uma correnteza de luz, hinos, ladainha e preces na bela noite de Santa Maria dos Anjos. Voltaremos aqui na segunda-feira e aí contarei o efeito que causou em nós esta visita.

Acompanhe a nossa viagem

4 comentários:

inconformada disse...

A caminhada é doce e terna...cada dia tenho estado realmente com vocês, nas palavras de Frei Vitório! Graças por isso!
Maone

Márcio Omena disse...

Frei,

Qual foi o efeito causado nesta visita à porciúncula? Estou curioso para saber o desfecho, já que comentaste que faria em um post posterior.

Paz e bem,

Márcio

Obs: Vou a Assis em novembro, e seus posts estão me deixando cada vez mais ansioso para conhecer.

Anônimo disse...

Santa Maria dos Anjos, a Porciúncula . . . Nunca tenho palavras para os comentários, mas agradeço muito estar vivenciando tudo isso através dos seus sentidos, Frei Vitório, de alguma maneira estou aí com o grupo.

Abraços para todos.

Denise.

Rosana Padial disse...

Encontrar-se com Francisco e seus amigos na Basílica é uma confirmação, que nos fazemos inteiros para sermos inteiros para o mundo e para os outros!! Que a AMIZADE é uma virtude que vai além do que nos une materialmente, mas no entanto nos materializa uns nos outros!!
A prova desta materialidade é a partilha desta viagem!
"BELEZA É TUDO AQUILO QUE NÃO AGÜENTAMOS VER SOZINHOS". E geralmente partilhamos com os AMIGOS!
Eles tem o melhor do coração!
Grande abraço para todos!!