quinta-feira, 13 de setembro de 2012

ITINERÁRIO A ASSIS - 17














Chegamos ao Santuário de La Foresta às 8h30 para iniciarmos a visita com a celebração eucarística. Todos entramos, desde o despertar, no clima do eremo para chegarmos ali bem concentrados. A capela (Santa Maria) restaurada em 1500 foi onde celebramos. Francisco esteve neste lugar em 1225; os frades da primeira hora viveram aqui em 1231; frades eremitas  entre os séculos XIII e XIV; os seguidores do espiritual Ângelo Clareno em 1346; o fato é que o lugar é habitado pela divindade. Aqui São Francisco  realizou o milagre da vinha (cfr. a bela narrativa em Legenda Perusina, 25). O Santuário guarda a gruta onde Francisco refugiou-se e teve a tentação dos ratos e a certeza, revelada pelo Senhor, que já estaria no Paraíso. A inefável alegria sentida em seu coração inspirou, neste espaço, o Cântico das Criaturas. Uma alegria que explode para o universo. Como pode um homem frágil e quase cego, vivendo um momento de dores e dúvidas, escrever um Cântico de Luz? Somente quem chega e pisa o chão de La Foresta pode compreender com mais nitidez.

Entramos por um caminho marcado por uma expressiva Via Sacra em cerâmica napolitana (de 1735). Uma Madonna, no nicho perto da entrada do santuário, oferece a Francisco um cacho de uva. Tem sempre uma mãe mitigando a dor de um filho. A primitiva igrejinha de São Fabiano está à direita da igreja maior dedicada a Santa Maria.  Após a Missa fomos ver e tocar as madeiras do coro do século XV. Entramos no claustro e fomos direto à casa onde Francisco esteve com seus companheiros (século XIII), as paredes guardam as marcas do Irmão Fogo e da fumaça e o lugar do Milagre das Uvas (cfr. I Fioretti, 19). Paramos na Gruta de São Francisco, uma brecha na rocha, onde ele adentrava e permanecia em profunda adoração e escondia seus olhos sofridos com o glaucoma da luz do Irmão Sol, enquanto a sua alma ia compondo o Cântico para o seu Senhor e Confrade Sol.

A acolhida e a visita guiada foram feitas por Marco, um jovem que, com mais outros seis, mora neste eremo. Eles pertencem ao Mondo X, um movimento fundado na Itália por Frei Elígio, frade de Milão (que foi capelão do Milan, conhecido time italiano). O Mondo X acolhe jovens drogados, portadores de HIV, dependentes químicos e dependentes de toda sorte de sofrimento físico e psicológico. Marco deu um testemunho transparente da importância da espiritualidade e da terapia ocupacional como o grande caminho da recuperação e da cura. Suas palavras grudaram em nós. Depois, Marco nos levou a conhecer a horta e o pomar de onde tiram sustento para a manutenção da comunidade. É uma Comunidade de Vida. Prece e Trabalho. Partilha e apoio mútuo. Fraternidade e Solidariedade. No meio da visita fomos surpreendidos por dois jovens da Comunidade, Lucca e Helmut, que vieram com mousse de chocolate para nos oferecer em sinal de alegria e acolhimento. Este gesto calou fundo em nós. Se um dia o Senhor, pela intercessão de Francisco não deixou faltar uva neste lugar, jamais deixará de dar graças abundantes aos que moram ali e aos que chegam. O mousse de chocolate tinha o sabor do amor que preenche todos os espaços de La Foresta.

Na parte da tarde fomos a Poggio Bustone, cidade onde Francisco chegou em 1209. Ele e Frei Egídio andavam pela região em missão e pregação. Vanni, o nosso motorista, com sua simpatia e seu jeito típico de um italiano lírico e romântico nos disse: “Preparem o coração... Hoje conduzirei vocês a um lugar como um palco elevado de um imenso teatro. Ao abrir a cortina, vocês verão um espetáculo de paisagem!” Dito e feito! Poggio Bustone, mais que uma cidade é um quadro pendurado na encosta da montanha.  Francisco entrou aí saudando o povo: “Buon giorno, buona gente!” Camponeses de ontem e de hoje, morando num lugar assim só podem ser gente boa! A cidade é um eterno bom dia! Chegamos à igreja de São Thiago Maior com seus antigos afrescos já desgastados e um surpreendente mural, como um afresco moderno de 1963, obra do brasileiro Bandeira de Mello, único pintor a ilustrar uma igreja em toda Itália.

Visitamos o claustro com sua gritante simplicidade e suas ilustrações sobre fatos da vida de São Francisco. Descemos ao eremo inferior e lá mais uma gruta, espaço orante de Francisco e seus sete primeiros companheiros que ali ficaram no inverno de 1209. Mais acima, à esquerda, na esplanada da entrada, fica o Templete da Paz com a imagem de um sorridente Francisco e a inscrição: “Templete da Paz. São Francisco, a partir deste monte, no inverno de 1209, chamou seus sete primeiros companheiros e lhes disse: Ide, caríssimos, dois a dois pelas diferentes partes da terra, anunciando aos homens a Paz!”  Pelas 16 horas, iniciamos nossa árdua caminhada espiritual rumo ao eremo superior ou a chamada Gruta da Revelação. É o conhecido caminho de São Francisco.  Uma subida de 1.019 metros na montanha, por uma trilha de pedra entre a vegetação local. Mágico caminho! Paramos para uma belíssima celebração da Paz. Queimamos nossos limites e pecados, cantamos pela paz, rezamos a grande Invocação que pedia a fluência na Mente de Deus trazendo luz às mentes humanas. Pedimos a fluência do Amor em todos os corações; que o propósito dos Mestres guie os nossos propósitos.

Fizemos a investidura de uma fitinha da Paz e soltamos centenas de bolinhas de sabão no ar, simbolizando a nossa vontade de tocar o céu. Trilhamos o íngreme caminho, não sem dificuldades, mas sentimos a alegria da realização. Descobrir o alto, a gruta, o sino, o eremo, os sinais e símbolos e a paisagem divina... ah! Isto não tem preço! Nos sentimos os seres mais predestinados da face da terra.  Neste lugar, Francisco pediu perdão por, durante 25 anos de sua juventude não ter conhecido e experimentado Deus. Segundo as Legendas, um Anjo aparece e garante que seus pecados estão perdoados. Nós descemos experimentando, um pouquinho a imensidão da graça divina.

Acompanhe a nossa viagem

2 comentários:

Anônimo disse...

Tudo maravilha, Frei Vitório, continuo vendo pelos olhos do senhor e sentindo pelo sentimento de todos. A comunidade dos jovens, com sua mousse de chocolate, o local do milagre do querido santo (não lembro desse, lerei sobre), o local de onde ele enviou os Frades, dois a dois; as grutas, tudo isso é pura maravilha.
Agradecida por partilhar conosco.

Abraços para todos.
Denise.

Anônimo disse...

Tudo isto é espiritualidade ou fantasia? Será que a espiritualidade está somente em Assis?