segunda-feira, 24 de setembro de 2012

ITINERÁRIO A ASSIS - 27

























Sábado, dia 22/09, o sugestivo tema do Itinerário hoje é “Felizes os olhos que veem o que vós vedes”! E por isso mesmo, dia livre e o grupo não teve programação comum a não ser celebrar a Eucaristia, às 18 horas. Mapa na mão, mochila nas costas, roupa confortável espalhamo-nos por Roma. Hoje foi dia de ver, com muita calma, a arte viva dos modelos vivos que por aqui passaram: Paulo, Pedro, Francisco... e a Arte dos grandes gênios da pintura, arquitetura e escultura que moldaram Roma desde seus primórdios até a contemporaneidade.

Heróis e santos, soberanos e escravos, mártires e pagãos, devotos e hereges, espada e pincel, história e fé, totens e altares moldam Roma. Há um inusitado encontro entre a revanche, a desforra dos poderes, imperiais e papais, registrando em monumentos quem realmente manda no pedaço. A Arte é sempre o fiel da balança. Ela harmoniza e relaxa as tensões das épocas. Estamos numa cidade onde o tempo deixou marcas do primitivo até o ultramoderno. Forma e deformidade. Púlpito e passeatas. Preces e preços. Incensos e terços exalando um forte cheiro de rosas made in China. Roma é mesmo uma “insalatta”.
Do teto magnífico da Capela Sistina ao torso de Davi, das cúpulas e capitéis, quadros e estátuas, a Arte é onipresente. Roma é a poesia das formas! Sinto isso quando ando aqui! Mestres e discípulos, sacralidade e sensualidade, tudo elevando ao panteão da glória os aliados e mandando os inimigos ao inferno. Tudo o que aqui está não nasceu do nada. Nasceu de uma inspiração, de um delírio, de uma encomenda, de uma resposta, de um credo.

Roma é um museu de mundos! Em cada obra que se vê e se expõe há sangue e alma. Séculos amontoam-se entre ruínas, templos e monumentos. Milhares de inscrições guardam a história. Batalhas e exércitos marcaram uma reforma agrária de convicções. Andar em Roma é aprender a pensar além do nosso estreito mundo. A Arte é o que impera sobre Roma, e ela é o eterno grito espiritual, a dizer que, apesar de tudo, o mundo andou e as conquistas humanas foram muitas. Mesmo caminhando por Roma com meu velho hábito franciscano e uma confortável sandália, não dá para ficar indiferente ao que Francisco viu aqui. E o que ele viu? Um dia a dia de pessoas vindas de toda parte do mundo, um universo de línguas, poderio, riqueza , a glória dos vencedores e o sangue derramado dos vencidos.

Supremo paradoxo! O mais simples dos Simples teve que entrar no esplendor do pórtico curial para ver abençoada uma Regra de Vida que era a estética do Simples e a Arte de viver o Evangelho. É preciso olhar Roma com o olhar de Francisco e segurar ruínas nas costas e não deixar cair o mais puro da fé. É tão diferente entrar sem o olhar do Poverello, pois entrar sem o jeito de Francisco é apenas, com uma câmera digital na mão, fotografar o mistério, mas não mergulhar dentro dele. Roma está invadida e tomada por gente que fotografa o mistério, apenas.

Mas vamos nós pelos Arcos do Triunfo, glória à custa de mortes. Vamos olhar a fé cristã, das catacumbas às basílicas, das cátedras aos claustros, e sua força que clama por um Reino de paz, justiça, amor e corações em chamas. Nero incendiou a cidade, o cristianismo incendiou a terra e chegou onde as Legiões Romanas não conseguiram ir. Por favor, Pai Francisco, interceda por nós para que tudo isto não se acabe em silenciosos mausoléus de Michelangelo!

Obeliscos, ergam a loucura da Cruz! E a loucura da Cruz seja plantada, como um pedestal, no altar das almas. Pé no chão, olhamos cada detalhe; pé no chão, olhamos para as alturas. Não dá para andar por Roma sem olhar para o alto.  E não é que em San Giovanni de Laterano, na capela de São Francisco; aquele que beijou assustadores e mal cheirosos leprosos;  aquele que pediu esmolas nas ruas, aquele que de riquinho mimado e convencido se fez o menor dos menores, não é que sobre ele, esculpiram  ali, uma Legião de Anjos Sorridentes?

Em Roma, a Arte passa pelo paleolítico mundo e gera mundo novo. Une o grego e o romano e revela uma humanidade que foi muito forte, e nos convoca e provoca a sairmos da nossa mediocridade em que nos ancoramos hoje. Que estas pedras nos alimentem de sonhos para uma futura humanidade possível e renovada, se não, o que deixaremos para o amanhã?

A pintura italiana é a pintura de todos. Ninguém contesta um Boticelli, um Rafael, um da Vinci, um Michelangelo, um Caravaggio. Cor, textura, volume, luz, atmosfera, sutileza, elegância, plasticidade, forma, jeito celestial, ternura viril e vigor feminino, apocalipse, mistério, demiurgo, parusia, protesto, paraíso e inferno, sentimentos, símbolos, imagens, perfeição em carne e osso. Tudo, de um certo modo, aponta para o infinito. Esta Arte é a eterna mídia. Trouxe dos primórdios dos séculos tudo o que une pessoa e natureza, humanidade e divindade. Fez mais revolução que as invasões napoleônicas e a loucura dos césares. Escultura e pintura mostram com sinceridade a verdade da história, às vezes com exagero, mas sempre uma visão transparente do agora antecipando o futuro. Roma não é passado; a sua Arte é e será sempre o amanhã da criatividade. Os artistas mostram um mundo antigo para criar um outro muito melhor. Hoje custaremos dormir, pois os deuses todos, os Santos, os altares, as galerias de arte, a Beleza que inundou nosso olhar e coração, ficam comichando dentro da gente... é de perder o sono!

Acompanhe a nossa viagem  


Um comentário:

Denise Pires disse...

Toda essa arte maravilhosa de Roma, tudo isso impregnado da fé de milhões que passaram por aí por todos esses Séculos e, se inspiraram e nutriram. Sempre desejei ver o vitral do Espírito Santo, é lindo e a Pietá de Michelangelo, a pefeição. Certamente não é Frei, todos os anjos sorriram e aplaudiram muito quando São Francisco beijou o leproso, maior alegria não poderia haver nos coros angelicais. Continuo com vocês.

Abraços para todos.
Denise.