segunda-feira, 22 de dezembro de 2014

Reflexões Franciscanas - 15



35. Francisco de Assis é lembrado hoje, em tempos de Estado Islâmico, como alguém que esteve lá entre os muçulmanos. Vamos falar um pouco sobre isto nesta continuidade de reflexões. No seu tempo, Francisco viu a expansão muçulmana como uma grande desforra contra as conquistas do Império Romano tendo Alexandre Magno como grande protagonista. A cristandade medieval foi cercada pelo mundo do Islã e viu nela uma força política, militar e ameaçadora da fé. Ambos os lados usaram a força das armas para dizer que cada lado tinha o seu lado diabólico e infiel. Assegurar a paz e restituir terras virou guerra santa cujo único resultado foi um ódio secular. Nas pregações cristãs, os Cruzados não eram tratados como homicidas por matarem muçulmanos, mas sim 'malicidas', matavam o mal que era o “infiel”. Soldado morto em combate nas Cruzadas tinha a glória no céu. Do lado islâmico, a ideia era a mesma, pois os “cristãos hereges” queriam terras e destruição da religião do Profeta. A bem da verdade, nenhum dos lados conseguiu enfraquecer o outro. Os dois lados saíram  fortalecidos do  ódio e da guerra. Como isto aconteceu? Aproximação de línguas, cultura, ritos, unificação política, ortodoxia forte, Jerusalém, Damasco, Cairo passam a ser centros referenciais importantes. Tanto cristãos como muçulmanos se apegam à Cidade Santa, na Terra Santa. Conquistar lugares é purificá-los, cada um impondo ali a sua fé. Entre vitórias e derrotas, as Cruzadas e o Islã fazem propaganda de vitórias e castigos divinos; ira divina contra povo pecador. Sempre Deus e povo levam a culpa geradas por alguns senhores da guerra. Somente uma nova vida moral, muita penitência e armas na mão podem mudar destinos dos povos. Saladino, Balduíno, Gregório VIII, Clemente III, Celestino III, Inocêncio III, sultões e reis católicos querem conquistas e respostas precisas. Para reformar é preciso libertar. Há uma certa diplomacia de cartas, negociadores, atividade política misturando soberanos, Papas, cardeais, príncipes e soldados. Toda a questão é devolver a Terra Santa. Lugar de fé torna-se elemento diabólico de guerra. Se não existe diálogo no espírito aparece a força das armas. Como os cristãos poderão ser chamados cristãos se não reivindicarem seus direitos libertando a Terra Santa das mãos dos inimigos? O outro lado pensava o mesmo.

36. Em meio a este turbilhão aparece Francisco de Assis. Só tem as armas da fé para combater o bom combate. Não é tarefa de mero combatente, mas tarefa profética. Todo profeta surge quando não se vê mais saída, e tem a coragem de mostrar o reverso da história. Não pode haver violência conduzida pelo nome de Deus. Ele prefere ir na paz do Evangelho, dom de Deus, vitória de Cristo com o sangue da Paixão. Quem tem o Evangelho não precisa de espada, lança ou escudo. Cruzada armada não é nenhum remédio. As pessoas se curam, se convertem  e se encontram no bem. Não existe, para Francisco, inimigo que não possa ser amado. Isto está no Evangelho. “Amai vossos inimigos; fazei o bem aos que vos odeiam” (Lc 6,27). Sabedoria divina é missão salvífica. Mais do que pregar, ele vai amar. Não se vai ao campo contrário levando sofrimento e morte; o inimigo não tem como acreditar que possa existir uma saída. Não há nada a defender de material, mas sim conquistar uma força espiritual. Para ele, tudo e todos são Irmãos, os muçulmanos também são irmãos. Você pode ser irmão e irmã  quando dialoga, quando escuta e fala do conhecimento dos mistérios de Deus. Você pode ser irmão e irmã pelo exemplo e palavra, pelo Amor, pela caridade, pela doação, até pelo martírio se for preciso. Isso Francisco fez. Ele não quis espiritualizar as Cruzadas, porque sabia que não se espiritualiza uma violência; ele quis evangelizar, isto é: mostrar que é possível uma Boa Nova de justiça e paz. É por aí que temos que dialogar.

Frei Vitório

Imagem: "Francisco e o Sultão", de Giotto

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