sexta-feira, 5 de dezembro de 2014

Reflexões Franciscanas - 10



23. Continuando a franciscana reflexão sobre a pobreza: “Ser franciscano, ser franciscana dentro do mundo e da Igreja que faz tais opções pelos pobres, comporta uma verdadeira conversão de nossas práticas tradicionais. E para esta conversão contamos com o melhor exemplo de São Francisco de Assis. Ao mudar de vida, não permaneceu na casa de seu pai, rico comerciante, e aí trabalhou para os pobres. Abandonou tudo e se misturou com os pobres e foi ser um deles. Viveu como eles viveram, sofreu a força de marginalização que a sociedade impõe aos pobres e aí dentro descobriu uma dimensão da riqueza de Jesus Cristo em sua Encarnação e Paixão. Começou a ver o mundo com os olhos dos pobres. Por isso que foi um revolucionário religioso com repercussões no social”. (Leonardo Boff, O que significa ser franciscano hoje no Brasil, in O Franciscanismo no mundo de hoje, Vozes, Petrópolis, 1981, p. 35).

24. “Em que não consiste fundamentalmente a pobreza de São Francisco de Assis? Não é simplesmente não ter; isso é consequência! É deixar as coisas serem, respeitar as coisas, não colocá-las sob o domínio do humano, não possuir, não deixar que elas entrem no interesse, com todos os seus lobos. O que São Francisco quer é dar-se, estar junto do outro e da outra; e se dá conta que entre o eu e os outros estão as coisas que nos separam. Então, ele tira as coisas não porque não as ama, mas porque elas separam um de outro. Na medida que tira, ele se associa, se faz junto do outro e da outra, se coloca junto. Não sobre o outro e a outra, sobre a natureza, sobre os poderes, isso seria dominação” (Leonardo Boff, O que significa ser franciscano hoje no Brasil, in Franciscanismo no mundo de hoje, Vozes, Petrópolis, 1981, p.25). “O projeto  da Igreja, de unir seu destino ao destino dos pobres, tem um claro conteúdo evangélico, o que não se pode dizer do velho projeto do poder. Essa adesão à Igreja significa nada mais nada menos que uma volta aos mais originário da identidade franciscana. A Igreja de hoje, na América Latina, criou condições espirituais e pastorais mais favoráveis que em outras épocas para que o espírito franciscano possa viver seu carisma de pobreza como solidariedade e identificação com os pobres. Esse é o melhor serviço que podemos prestar à Igreja e ao mundo” (Idem, obra acima citada, p. 76)


25. No que se refere a sua vida simples e pobre, Francisco de Assis enfrentou alguns desafios: Viveu em tempo conturbado de guerras frequentes entre Assis e Perugia, entre cristãos e muçulmanos e muitas batalhas de conquistas de terra, patrimônio e poder. Em meio a isto tudo pregou a paz em oposição à guerra, proibiu que seus frades e seguidores usassem armas, deu de presente a sua armadura, administrou rivalidades urbanas, e uma rixa entre o prefeito e o bispo de Assis. Foi trabalhar com os camponeses e vestiu-se como um deles. Experimentou os abusos cotidianos que eles sofriam, as dominações variadas sobre os pobres: trabalho excessivo, esgotamento físico, e uma injusta exclusão. Abençoou prostitutas, esteve ao lado de mulheres e crianças, gritou contra as crianças abandonadas na Sardenha por armadores genoveses, no famoso episódio da Cruzada das Crianças, em 1212. Venceu as tentações para dominar a sensualidade. Venceu o domínio do saber, para que isto não levasse ao orgulho, promoção e privilégios, embora jamais tenha condenado o saber, pediu que os frades letrados não perdessem o espírito de devoção.  Esteve no mundo com tudo o que ele comporta, mas mostrou o que é viver religiosamente no mundo. Quanto ao modo de viver a pobreza no tempo de Francisco de Assis, cf. Michel Mollat, A pobreza de Francisco: opção cristã e social, in Concilium/169, 1981/9, p. 37-38).

Frei Vitório

Imagem: Francisco e seus primeiros confrades com o Papa Inocêncio, cena do filme "Irmão Sol Irmã Lua", de Zeffirelli 

Nenhum comentário: