quarta-feira, 26 de novembro de 2014

Reflexões franciscanas - 9


21. Falemos sobre a Pobreza, o sem nada de próprio, a desapropriação e o desapego, a partir de algumas inspirações franciscanas. Em 1Cel, 76 podemos ler: “O pobre Francisco, pai dos pobres, queria viver em tudo como um pobre; sofria ao encontrar quem fosse mais pobre do que ele, não pelo desejo de uma glória vazia, mas por compaixão”, ou como 1Cel, 39 diz  sobre os primeiros frades: “Seguidores da santíssima pobreza porque não tinham nada, nada desejavam e por isso não tinham medo de perder coisa alguma”.  Francisco e os frades primitivos nos ensinaram que ser pobre é também, e sobretudo, colocar-se junto aos pobres, estar com eles e ver o mundo a partir dos olhos dos que nada possuem. Normalmente vemos ódio e revolta a partir das carências materiais, mas não assumimos os sonhos e anseios dos que querem sair de uma situação de miséria. Francisco e seus frades primitivos fizeram aquilo que a Igreja atual sempre clama em seus documentos: uma opção clara e preferencial pelos pobres, assumindo suas angústias e esperanças, suas opressões e aspirações, e que isto se torne o centro das práticas evangelizadoras. Viver o Evangelho é estar naturalmente ao lado dos que nada possuem.

22. Francisco e seus frades estavam ao lado dos pobres e foram lá trabalhar por aqueles que tinham carência de meios, que não possuíam acesso às necessidades mais básicas, seja de bens materiais ou como chance de serem percebidos e acolhidos e assim terem a chance de  participar da vida comum. Foram entre os pobres e os serviram; ao servir aprenderam a ascese, o não ter nada, o uso  necessário e moderado das coisas. Foram lá e lutaram para mostrar os mecanismos de expropriação dos que sempre usaram os pobres para se enriquecer. Aprenderam com eles que certas virtudes não são conselhos de auto-ajuda, mas que ser humilde e simples, desprendido, pródigo e generoso é ter um coração disponível para dar e receber sem restrições. Francisco e seus frades primitivos viveram a solidariedade, que é a transparente  expressão de um amor que vai lá onde o povo pobre está. Da Legenda Franciscana  ao Documento de Puebla o mesmo grito: pobreza produzida é injustiça, pobreza como solidariedade é modo real de evangelizar. Oxalá aprendêssemos com o modo franciscano primitivo que ser pobre é também comer como o povo pobre come, morar como ele mora. Diz 1Cel, 42: “De uma cabana vai-se mais depressa para o céu do que de um palácio”.

Frei Vitório

No alto, cena do filme "Irmão Sol Irmã Lua", de Franco Zeffirelli

Continua

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