quarta-feira, 22 de outubro de 2014

São Luís de França e os Franciscanos - XVI


Frei Sandro Roberto da Costa, ofm
3.3 Um encontro de Luís com os frades
Frei Salimbene de Parma, cronista medieval, é o responsável pela descrição de um dos mais belos quadros de convivência do rei Luís com os franciscanos. Salimbene viajou a Sens, na França, para participar do Capítulo Geral. Além das autoridades da Ordem, como o Ministro Geral João de Parma, chega ao local o rei da França, dirigindo-se em peregrinação para a cruzada. Salimbene descreve a cena da chegada do rei. Povo e religiosos se aglomeram à espera da chegada do rei. Em meio à multidão, perdido, porque se atrasara e os outros frades já tinham ido ao encontro do rei, encontra-se o franciscano Eudes de Rigaud, arcebispo de Rouen, que, mitra na cabeça e cajado à mão, gritava: “Onde está o rei? Onde está o rei?”. Salimbene passa a descrever o rei: “O rei era esbelto e delicado, magro e alto, tendo um rosto angelical e face simpática. E vinha à igreja dos Frades menores não na pompa régia, mas no hábito de peregrino, tendo uma sacola e bordão de peregrinação ao pescoço que decoravam muito bem as espáduas do rei. E vinha não a cavalo, mas a pé; e os seus irmãos de sangue, que eram três condes, [...] seguiam-no em semelhante humildade e hábito. [...] Na verdade, parecia mais um monge, quanto à devoção do coração, do que um cavaleiro, quanto às armas de guerra. E assim, entrando na igreja dos irmãos, tendo feito a genuflexão mui devotamente diante do altar, rezou. [...] Em seguida, o rei disse, com voz bem clara que ninguém entrasse na sala do Capítulo, a não ser os cavaleiros, exceto os irmãos, aos quais ele queria falar. E quando estávamos reunidos no Capítulo, o rei começou a relatar seus atos, recomendando-se a si mesmo, aos irmãos e a rainha sua mãe, e toda sua comitiva; e, fazendo genuflexão com muita devoção, pediu as orações e os sufrágios dos irmãos”[53]

Frei João de Parma tomou a palavra e prometeu as orações da Ordem, devendo cada padre celebrar quatro missas pelo rei. Após o encontro, seguiu-se um lauto banquete, tudo às expensas do rei. Frei João de Parma, embora tendo lugar reservado ao lado do rei, preferiu sentar-se com os mais pobres[54].

No dia seguinte o rei retomou seu caminho em direção ao porto que o levaria para a Terra Santa. Mas ainda faria vários desvios, para visitar os eremitérios franciscanos pelo caminho, onde se punha em oração. De novo é frei Salimbene quem nos descreve uma destas visitas. Em Vézelay, no dia 21 de junho de 1248, o rei e seus três irmãos dirigiram-se ao convento dos frades, modesto e recém-construído. Entraram na igreja e, embora os frades lhes oferecessem bancos e cadeiras, o rei se senta no chão, na poeira, já que o piso da igreja ainda não estava pavimentado. Sentados todos no chão, em círculo em volta do rei, este lhes dirige a palavra e se recomenda às suas orações[55].  



[53] Fontes Franciscanas e Clarianas,  2004, Crônica de Frei Salimbene de Adam (de Parma), o.c., p. 1402.
[54] João de Parma também era fautor da ala reformista dos joaquimitas. São Boaventura foi seu sucessor, que o processou e condenou à prisão perpétua.  A proximidade dos soberanos franceses com os franciscanos espirituais vai continuar após a morte de Luís. Já citamos aqui São Luís de Toulose, sobrinho de Luís. Ele e seus irmãos tiveram como preceptor frei Pedro de João Olivi, um dos maiores expoentes da corrente dos Espirituais.
[55] Carolus-Barré, Louis. Le Procès de canonisation de Saint Louis (1272-1297). Essai de reconstitution. Rome: École Française de Rome, 1994, p. 295, (Publications de l'École française de Rome, 195). http://www.persee.fr/web/ouvrages/home/prescript/monographie/efr_0000-0000_1994_edc_195_1 . Descrição também em Le Goff, São Luís, 401-402.

Continua

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