terça-feira, 9 de dezembro de 2014

Reflexões Franciscanas - 11



26. A pobreza franciscana é um modo de ser que, ao se desfazer de tudo, encontra a riqueza maior: "Compartilha-se a pobreza de Cristo, que sendo rico, por causa de nós se fez pobre para que da sua pobreza tornássemos ricos" (2Cor 8,9; Mt 8,20), ( Perfectae Caritatis, 13). Desapropriação não é privação, mas libertação de apegos, sobretudo de apegos internos. Libertar-se de amarras internas é libertar-se também da prisão escravizante da materialidade. Isto dá a liberdade para a maior disponibilidade. Livre para amar, doar, servir e fazer acontecer o Reino. A liberdade para amar é que fez de Francisco a transparência da humildade. Nele, ser menor e súdito de tudo e de todos era um jeito de ser e estar. Nos seus Escritos e Fontes sempre aparece: “Servir ao Senhor em pobreza e humildade”. Ser pobre não é apropriar-se de cargos de mando. É não atribuir nada a si mesmo. “Eis o meio de reconhecer se o servo de Deus tem o Espírito do Senhor. Se Deus por meio dele operar alguma boa obra, e ele não o atribuir a si, pois o seu próprio eu é sempre inimigo de todo bem, mas antes considerar como ele próprio é insignificante e se julgar menor que todos os outros homens” (Adm 12). “Bem-aventurado o servo que, sendo louvado e exaltado pelos homens, não se considera melhor do que quando é tido por insignificante, simplório e desprezível. Porque o homem vale o que é diante de Deus e nada mais” ( Adm 20 ).

27. Abraçar a pobreza evangélica é mais do que abraçar o não ter nada. É preciso ter Deus como a riqueza essencial para viver desapropriado. São Francisco de Assis entregou seus pertences ao seu pai, diante do Bispo, em público, numa praça de Assis porque podia realmente afirmar: “Agora direi livremente: Pai nosso que estais nos céus, não pai Pedro Bernardone, a quem devolvo - eis aqui - não somente o dinheiro, mas entrego também todas as vestes. Portanto, dirigir-me-ei nu para o Senhor. Ó espírito nobre deste homem a quem somente o Cristo basta!” (2Cel 12). Pobreza não é uma questão de materialidade ou não materialidade, mas é identidade sagrada. Como diz o próprio Francisco à Santa Clara e para as  Clarissas: “Eu, Frei Francisco pequenino, quero seguir a vida e a pobreza de nosso altíssimo Senhor Jesus Cristo e de sua Mãe Santíssima e perseverar nela até o fim; e rogo-vos, senhoras minhas, e dou-vos o conselho para que vivais sempre nesta santíssima vida e pobreza. E estai muito atentas para, de maneira alguma, nunca vos afastardes dela por doutrina ou conselho de alguém” (Última vontade escrita para Santa Clara ).

28. Ser pobre de coisas é o caminho mais rápido para herdar a riqueza do Reino. Ser pobre de coisas é exercitar o não apego, sincero e afetivo, a moradia, comida, vestes, dinheiro e seu uso, viagens e carro. Ser pobre é sentir mais alegria e satisfação, unida à humildade, em não ter nada, e estar mais junto de gente simples e desprezível, pobres e fracos, doentes e leprosos e os mendigos dos caminhos (Rb III e Rb VI). Ser pobre é transformar a pobreza em virtude: “Ave, rainha Sabedoria, o Senhor te salve com tua irmã, a santa e pura simplicidade. Senhora santa pobreza, o Senhor te salve com tua irmã, a santa humildade. Senhora santa caridade, o Senhor te salve com tua irmã, a santa obediência. Santíssimas virtudes todas, salve-vos o Senhor de quem vindes e procedeis” (Saudação às Virtudes, 1-4) “ A  pura e santa simplicidade confunde toda sabedoria deste mundo(...) A santa pobreza confunde a ganância e a avareza e os cuidados deste mundo” (Saudação às Virtudes, 10 e 11).

Frei Vitório

|Imagem do filme "Brother Sun Sister Moon", by Zeffirelli

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