São Luís de França e os Franciscanos - XV
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Boaventura também era admirado por Luís |
Frei Sandro Roberto da
Costa, ofm
3.2
Outros franciscanos influentes no “entourage” de Luís
O encontro e as palavras
proféticas de Hugo de Digne certamente impressionaram profundamente o espírito
de Luís, educado desde criança num ambiente de piedade, que favorecia uma
mística religiosa e devocional, de busca de realizar, na terra, o reino de
Deus. Mas já antes deste encontro o rei mantinha, em sua “entourage”, além dos
dominicanos, religiosos franciscanos empenhados com a seriedade da reforma dos
costumes. Um dos franciscanos mais próximos de Luís é o mestre da Universidade
de Paris, Eudes de Rigaud.
Eudes era mestre regente do
convento de Paris e mestre de teologia na universidade daquela cidade. Foi o
sucessor de Jean de la Rochelle e de Alexandre de Hales, e foi mestre de São
Boaventura. Eudes é um dos “Quatro Mestres”, que redigiram o comentário oficial
da Regra franciscana, em 1242[48]. Em 1248 foi nomeado arcebispo da diocese de Rouen,
a mais importante da França, mas continuou fazendo parte do círculo dos amigos
do rei, sendo um dos frades franciscanos mais íntimos de Luís: “Seu mais
próximo conselheiro e amigo”, nas palavras de Le Goff[49].
Em 1255 ele celebrou o casamento
da filha de Luís, Isabel. A partir de 1258 Eudes se encontra frequentemente na
corte. Em novembro de 1258 presidiu a missa no aniversário de morte de Luís
VIII, pai do rei. Os documentos testemunham vários encontros do rei com o
arcebispo franciscano, em 1259 e 1260, quando da morte de seu herdeiro, o
primogênito Luís. Em 1261 ele foi convidado a pregar na Saint-Chapelle. Sabe-se
que, quando o rei estava na abadia de Royalmont, pedia que Eudes presidisse a
celebração, como na festa de Pentecostes
de 1262. A presença de Eudes na corte se justifica também pelas missões
diplomáticas que o rei lhe confiara, como o tratado entre a França e a
Inglaterra, em 1259. Em 1264 Eudes tornou-se membro do Parlamento de Paris.
Destaque-se, no comportamento do
arcebispo franciscano, seu espírito reformador e de combate aos abusos no clero
regular e secular. Visitando incansavelmente todos os mosteiros, abadias e
conventos masculinos e femininos de sua arquidiocese, Eudes conseguiu dar uma
nova imagem à Igreja. Seus escritos somam mais de mil páginas, consistindo hoje
num documento de valor inestimável para conhecermos a realidade da Igreja em
uma região da França, no século XIII. Antes de morrer, Luís o designou um de
seus executores testamentários. Eudes também tornou-se membro do Conselho de
Regência encarregado de governar a França, sendo o primeiro membro nomeado pelo rei Felipe III, sucessor de Luís,
quando ainda se encontrava em Cartago, em outubro de 1270.
Ainda no campo intelectual, outro
mestre franciscano de Paris muito próximo do rei é Gilberto de Tournai. Das
poucas informações que nos chegaram sobre ele, sabemos que era mestre de
teologia em Paris, amigo de São Boaventura e de Luís, e pregador de cruzadas. Escreveu
várias obras de cunho pedagógico. Algumas dessas obras nasceram da amizade com
o rei, como a Eruditio Regum et Principum (Educação dos reis e dos príncipes), uma coleção de
três cartas escritas em 1259, endereçadas a Luís, versando sobre os princípios
necessários ao bom governo dos príncipes[50]. Depois de 1261, Gilberto abandonou a cátedra para
viver uma vida de oração e contemplação. A pedido de Boaventura, participou do
2º. Concílio de Lião, em 1274, onde teria apresentado sua obra De Scandalis
Ecclesiae[51].
Boaventura de Bagnoregio era um
dos maiores pregadores da época, mestre da universidade de Paris até 1257,
quando foi eleito Ministro Geral dos Franciscanos, também era admirado por
Luís, que o convidava para pregar em sua presença. Boaventura pregou pelo menos
dezenove vezes diante do rei.
A proximidade e intimidade entre Luís
e os franciscanos mostra-se numa querela séria, que estourou na Universidade de
Paris. Entre 1254 e 1257, alguns mestres seculares colocaram em questão o
estilo de vida dos mendicantes, uma novidade que, segundo eles, ia contra o
Direito Canônico, especificamente por causa do princípio mendicante e do ensino
universitário e da pregação. O chefe dos seculares era Guilherme de
Saint-Amour. Depois de uma acirrada polêmica, com a intervenção dos maiores
mestres da época, Boaventura e Tomás de Aquino, entre outros, a Santa Sé
reconheceu, por duas vezes, o direito dos frades. O rei Luís executou
imediatamente as ordens em favor dos frades. Obrigou Saint-Amour a entregar
seus cargos e benefícios, proibiu-o de pregar e ensinar, e o exilou da França[52].
[48] A pedido do Ministro Geral frei
Haimon de Faversham, alguns mestres das escolas de Oxford e Paris se dispuseram
a “interpretar” a Regra, para responder às dúvidas surgidas na Ordem. O
resultado da consulta foi a “Expositio
quatuor magistrorum super Regulam Fratrum Minorum”, dos mestres de Paris
Alexandre de Hales, João de La Rochele, Roberto de Base e Eudes de Rigaud.
[49] Le
Goff, Jacques, São Luís, o.c., p. 269.
[50] Veja-se: Retrato do rei ideal, in Le
Goff, Um Longa..., oc., p. 217-238. Miatello, A. L. Pereira,
Os frades mendicantes e a
educação política no século XIII (Vicente de Beauvais e Gilberto de Tournai),
XVIII Encontro Regional da ANPUH, 24-27 de julho de 2012.
[51] Cardini,
F., Gilberto de Tournai: un francescano predicatore della crociata, Studi Francescani 72, 1975, 31-48.
[52] A questão vai ter seus
desdobramentos, a favor e contra os mendicantes. Veja-se a propósito: Glorieus, Paul, Prélats français contre religieux mendiants. Autour de la bulle: “Ad
fructus úberes” (1281-1290). In Revue d'histoire de l'Église de France.
Tome 11. N°52, 1925. pp. 309-331. Doi : 10.3406/rhef.1925.2360. http://www.persee.fr/web/revues/home/prescript/article/rhef_0300-9505_1925_num_11_52_
2360.
Continua
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