quarta-feira, 12 de novembro de 2014

Reflexões Franciscanas - 6

14. De tudo isto brota uma bela Espiritualidade. Olhar leprosos com olhos sem a graça é nojento. Olhar com os olhos do Espírito é pura doçura. Penitência existe para adoçar o amargo da vida. Deixar-se conduzir pelo Senhor (cf. Testamento). Quando o Senhor conduz não se tem misericórdia por tabela, mas Ele envia para junto dos que precisam de compaixão. Vencer a repulsa e ver alegria na dor, inundar de Amor o vazio de tantas vidas. “Francisco, diz o Senhor, se queres conhecer-me, troca já as coisas carnais e amadas com vaidade, pelas espirituais e, tomando as amargas como doces, despreza-te a ti mesmo; pois, as coisas que te digo terão sabor na ordem inversa” (2Cel 9). Mais que gesto heroico, beijar e abraçar um leproso é para Francisco saltar para o outro lado, ultrapassar o limite dos sentidos, renunciar a tudo que o prendia. O Amor quando toma conta traz alegria, amplia o “eu” sozinho, faz um novo nascimento. “O ideal do amor divino, agindo e revelando-se na prática da pobreza e da humildade, nasce em sua alma” (LM 1 , § 6 ). Perceber que há um forte chamado dentro de si é perceber-se numa luta interna. É preciso muita coragem para despojar-se e tornar-se pobre como os pobres e com os pobres. Vai visitar sempre os leprosos para entender o que é a pobreza (2Cel 9).

15. Francisco afasta-se um pouco de seus companheiros que o ainda querem líder da juventude. A sua atração agora é outra. Não quer mais honras impostas, quer aquela dignidade que brota espontaneamente do Amor. Quando o coração está elevado em ideias mais profundas todo ser transparece uma paixão. Os companheiros perguntam se ele vai casar. Eis a sua resposta: “Não, e não partirei para as Apúlias, continuarei aqui e vou realizar grandes feitos e depois vou desposar a mais bela, a mais rica e a mais nobre das mulheres” (1Cel 7). Francisco larga os banquetes alcoviteiros, mas jamais abandona a festa. Faz a festa do encontro com os excluídos de seu tempo. Não dá apenas dinheiro, roupas ou tecidos; mas dá-se a si mesmo em cada gesto, em cada pedaço de coisas que reparte. É mendigo entre os mendigos (2Cel 9). Prodigalidade não é ideia, mas é ação de saber dar e  saber receber. A escola de Francisco é o aprendizado com os pobres.

16. Há certos passos que tem que ser dados, e quanto maior os desafios, mais eles fazem o difícil caminho do discernimento. Francisco quer estar no mundo sem ser do mundo, ou melhor, renunciar-se ou desapegar-se de algumas coisas do século. Passo mais difícil foi libertar-se do egoísmo, do orgulho, da vaidade, ainda alguns resquícios de seu tempo de ambição. Passo dado para dentro de uma igreja em ruínas, com uma bela Cruz  bizantina,  totalmente em pé em meio a escombros, só pode ser comunicação divina. Escuta a inspiração falando de modo audível: “Francisco, não vês que minha casa está em ruínas? Vai e restaura-a para mim!” Trêmulo e atônito respondeu: “De boa vontade o farei, Senhor!” (3Comp 5). A Cruz falou! A Cruz sempre fala em meio aos maiores desafios. Ele sente estas palavras de um modo tão vivo. Amar é renunciar, reconstruir, colocar tudo novamente em pé, calejar as mãos, não deixar apagar a lâmpada do Santíssimo e realizar uma transformação espiritual (1Cel 10-15; 2Cel 12).

Imagem de Frei Dito

Frei Vitório

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