sexta-feira, 12 de dezembro de 2014

Reflexões Franciscanas - 12


29. Numa das ilustrações de Giotto, na igreja inferior da Basílica de São Francisco, em Assis, na alegoria da Pobreza, o artista tem uma finíssima intuição. Francisco segura uma vela, um pouco abaixo da representação de Madonna Povertà, e nesta vela está escrito: Sancta Paupertas. É o modo como Giotto, artisticamente, exalta o ideal do Poverello. Desde os tempos de Francisco e até hoje o tema da Pobreza é de viva atualidade. Há muita doutrina, arte e poesia sobre “la gente poverella” das três Ordens fundadas pelo Pai Pobre; porém mais que isto há uma história e uma espiritualidade viva por detrás deste tema. Não é um novo modo de ver a economia, mas é a máxima identificação com o modo de ser pobre de Nosso Senhor Jesus Cristo. É aceitar a pobreza da Cruz sempre solidária com a real pobreza dos crucificados da realidade. Não é apenas um fervor espiritual, mas é um modo de viver em comunhão fraterna. Não tem como ser fraterno sem a mística da pobreza. Não tem como estar com os necessitados deste mundo sem um Evangelho vivido pra valer, sem trabalhar com as próprias mãos, em não deixar-se corromper pela sedução dos bens.

Pobreza tem a ver com a minoridade e a minoridade é evitar qualquer triunfalismo, e não querer que estruturas fortemente econômicas adentrem às fraternidades dos Menores. Pobreza é ter em comum, portanto a Fraternidade deve ser a única riqueza. Ser mendicante, para as Ordens Mendicantes, era refazer a experiência de Jesus pobre e peregrino, que “ não tinha onde repousar a cabeça”(Lc 9,3-5). O mendicante não era um parasita grudado na bondade dos outros, mas sim um “Alter Christus”, uma pobreza itinerante, um esforço ascético e um ideal de despojamento pessoal e coletivo, para pregar unicamente o Reino de Deus sem estar preso a nada.

30. Como é que as Ordens Mendicantes depois foram construir grandes conventos e casas? Quando o ideal torna-se decadente é preciso o reforço de estruturas. Hoje sobram as estruturas que mal podem ser administradas. O ideal seria entregá-las aos que cuidam dos pobres e para o cuidados dos pobres. Os  bens conquistados têm que estar a serviço de Deus. A Pobreza Evangélica deve ser um ministério e não apenas um conselho. De 1203 até a sua morte em 1226, Francisco é pobre por imitação e seguimento do Senhor Jesus, por intuição e atuação, por enamoramento e núpcias com a Senhora Dama Pobreza. Ele sempre teve diligente atenção aos mistérios da Pobreza que é o modo de ser do Senhor, e por causa dela regrou a sua vida e deixou que a Pobreza o conduzisse aos pobres, leprosos e infiéis. Não foi uma imitação branda, mas uma conformidade, isto é, tomar a mesma forma de Jesus Cristo, “que sendo rico se fez pobre”. Suas preces, escritos, Regras e Testamento exaltam e propõem o ideal da altíssima pobreza.

De 1226 até 1256 a Ordem cresce muito e isto traz algumas crises. Como ter uma atuação prática da pobreza quando há milhares de frades. A Bula “Quo elongati” de 28 de dezembro de 1230, concede aos cardeais protetores administrar as doações dos benfeitores. Os recursos  vem dos amigos espirituais, mas as necessidades se tornam acomodação. A construção da Basílica de São Francisco, o recolher de ofertas, a construção de grandes conventos, privilégios e posses de bens são causas de desentendimentos e contrariedades. Há mais garçons e operários nos conventos do que frades e leigos. É muito difícil ser fiel à Regra de Vida quando o patrimônio cresce.

De 1256 a 1279, período de São Boaventura e Nicolau III, há lutas internas e externas nas fraternidades. A mendicância torna-se apostolado, mas nem sempre evangelização. A pobreza torna-se tema de pregação apologética e a minoridade corre risco pois valores espirituais tonam-se espécies materiais. De 1279 até 1334 há uma luta entre a prática e a vivência da pobreza e a pobreza que é pura teoria. Muitos escritos sobre a pobreza, muitas opiniões diversificadas, e muita mudança de opinião. A pobreza é idealista, e o ideal ganha posicionamento moral e jurídico e por ele se luta e se morre.

Frei Vitório

Imagem: Alegoria da Pobreza, Giotto, Basílica de São Francisco de Assis, em Assis

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