sexta-feira, 30 de setembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 14

Para aquele que recebia a investidura era exigida a conversio morum (a mudança de costumes), a prática de virtudes (confira o Código da Cavalaria que trataremos mais adiante). O cavaleiro devia ser sempre um exemplo vivo da conversão dos costumes, prática de caridade, e usar as armas a serviço dos oprimidos e necessitados, ter muita disciplina, cuidar do corpo que está a serviço da milícia.


Tinha que ter a consciência que era um peregrino neste mundo, e que precisava organizar, cada lugar do mundo, segundo sua bondade, isto é, respeitando as forças estabelecidas, organizando, mesmo nas situações mais caóticas, um modelo de ordem celeste. A cavalaria quis ser um estado superior, um modo de viver, por isso soube gozar verdadeiramente, numa imensidade jamais perdida, as coisas, os fatos e a vida. Continua ainda a atrair, continua a evocar, no sonho e no mito, e nos vem dizer que ainda existe uma tarefa para se cumprir.

Vamos, então, ao Código da Cavalaria Medieval. Ela é um conjunto de virtudes buscadas e exercitadas para criar uma prática vigorosa e disciplinada. Vejamos:

FIDELIDADE: É colocar-se a serviço de um valor maior. Ser fiel é acreditar na grandeza da escolha que se fez. Quem se entrega a algo muito grande, não tem dificuldade em ser fiel. A fidelidade leva a não arriscar a vida por pouca coisa, mas entregá-la a algo que vale a pena.

LEALDADE: É a virtude daquele que nunca se afasta do que realmente vale a pena. É a presença que acredita numa causa comum, é companheirismo, a força dos que caminham juntos nos mesmos sonhos, nos mesmos projetos.

OBEDIÊNCIA: A palavra vem do latim medieval ob + audire. Ob significa abertura, acolhida ao espírito, acolhida a inspiração, abrir todos os sentidos para perceber o valor. Audire é escutar mais profundamente, é auscultar, ouvir o que vem de dentro. Escutar um valor maior. Quem escuta a plenitude dos sentidos, quem escuta o valor maior não tem dificuldade em obedecer. Obediência é, portanto, escutar uma grande convocação, uma grande inspiração. É a capacidade de ouvir, acolher e assumir o fio condutor que aos poucos vai surgindo e moldando a vida. É ouvido e olhos bem colados na realidade.

CONTROLE DAS PALAVRAS: É controlar os exageros e excessos de palavras, blasfêmias, calúnias, juízos, palavrões, gírias, expressões muito agressivas, fofocas. É a palavra bem dita. Diz a Legenda dos Três Companheiros, referindo-se a São Francisco: “No entanto, era como que naturalmente cortês nos costumes e nas palavras, não dizendo a ninguém, de acordo com o propósito de seu coração, palavra injuriosa ou obscena; pelo contrário, como era jovem e brincalhão e alegre, propôs jamais responder aos que lhe dissessem coisas vergonhosas. Por isso, sua fama se divulgou por quase toda a província, de modo que muitos que o conheciam diziam que ele seria algo de grande” ( LTC 1,3)

VASSALIDADE ( Ser SERVIÇAL ): É servir por Amor. Não é qualquer atividade feita simplesmente por fazer, mas é ter a consciência que se está contribuindo com o Criador e seus atos de cuidado pela vida. É uma ação bem produtiva e bem atenta às necessidades do outro. Não é um fazer visando lucros e honrarias, mas é o estar voltado, gratuitamente, para a pessoa e para a vida. Não fazer por dinheiro, mas por uma causa nobre. Para Francisco de Assis, este espírito de serviço o moveu a servir leprosos e a trabalhar com camponeses. O serviço f az parte de uma mudança radical de vida, uma conversão. É ir lá e fazer junto; o estar junto com determina o lugar social que se quer abraçar e morar. Toda a ação que se faz está na dependência exclusiva de servir. É ser servo e se fazer naturalmente servo. A sua liberdade e autonomia em servir está em ser servidor de um valor maior.

NOBREZA DE COSTUMES: Este é um termo e uma inspiração virtuosa medieval que quer mostrar algo mais do que uma simples herança, um título, uma tradição familiar do assim chamado “sangue azul”. Quando se fala de nobreza, neste contexto, quer se revelar uma identidade não jurídica, mas sim uma identidade existencial, um modo de ser daquele que tem uma postura nobre, daquele que é naturalmente nobre. Não é um humano qualquer, um humano que se contenta com o banal. É algo mais forte, mais vigoroso! Possui um projeto de vida e o persegue com todas as suas forças. Quem tem claro um projeto de vida sempre tem algo a transmitir, possui um carisma, uma atração muito especial, revela um humano nobre. Afirma R. Delort: “o nobre se distingue por um gênero de vida, por uma mentalidade toda particular, por saber morar, saber vestir, saber exprimir um sentimento, por acreditar em laços edificantes, por inspirar-se em heróis e ter um modelo de vida, por saber ocupar-se, e pelo espírito de combate” ( R. Delort, La vita quotidiana nel medioevo, Roma-Bari,1989,144). Ser nobre é dar um sentido a tudo o que se faz. É não gastar ou desgastar a vida por pouca coisa ( cfr. Fidelidade, Lealdade, Obediência), é ter uma medida de grandeza. “A grandeza de uma época depende da quantidade de pessoas capazes de sacrifícios, qualquer que seja o objeto destes sacrifícios. E neste sentido o mundo medieval não está atrás de nenhuma época. Dedicação é a sua palavra de ordem! (...) Com que coisa começa a grandeza? Com a empenhada entrega a uma causa. A grandeza é uma ligação entre um determinado espírito e uma determinada vontade” ( Jacob Burckhardt ). Ser nobre é ser transparente, sereno, não agressivo, ser cada vez mais nítido e seguro naquilo que se quer.

PRODIGALIDADE: É a virtude exercitada em contraposição à avareza e a ambição. É disponibilidade para dar. Uma pessoa é considerada potente e pródiga em base do que pode oferecer. Um rei, ou um imperador, por exemplo, quando chegava num castelo, dava um banquete para todos, nobres e plebeus; a sua potência era demonstrada nesta generosidade em oferecer, e todos exercitavam a prodigalidade acolhendo o gesto, recebendo com muita abertura. É o saber receber, o que não é tão fácil assim. É um impulso de enamoramento e entrega que se precipita para fora e se desprende em direção a algo ou alguém. Para levar a termo uma entrega é preciso exercitar a acolhida. É dizer: “Sê comigo!”

CORTESIA: É a virtude mais característica do Amor Cortês Cavaleiresco. Quem viveu, conhece , lê ou assiste a realidade e a fantasia das legendas cavaleirescas conhece o reino da cortesia. É um tanto difícil dar uma exata definição de cortesia, pois é todo um vasto mundo de significados. Dante dizia “Uso di corte, quando ne le corti anticamente le virtudi e li belli costumi s’usavano” (Dante, Convívio,II,X,8). Este é um ponto de partida para a compreensão: os costumes e usos da corte para se trabalhar a virtuosidade. Isto compreende uma série de valores: lealdade, generosidade, prodigalidade, fineza no trato, atenção devota à pessoa do outro, gênio do gosto, comunidade dos que amam o belo. Cortesia não é etiqueta, nem regras de civilidade, nem manual de boa educação, mas é uma expressão insubornável de um sentimento interior; é o modo como o outro(a) deve ser amado(a) de um modo verdadeiro. É um relacionamento de respeito, retidão e sinceridade. É não se desconsertar diante de nenhuma situação ou pessoa. É acolher a pessoa na sua grandeza. É colocá-la num Acolhimento de bondade, num clima de bondade para que ela se sinta bem. É deixar transparecer uma serenidade existencial. Um tratamento seguro e amável que eleva a pessoa. É o cuidado com as palavras (cfr. acima o Controle das Palavras). Uma palavra dita de um modo sereno e humano motiva e recupera o humano. A cortesia reluz através de gestos de mansidão, fraternidade, gentileza, paciência, afabilidade e serenidade. Não esqueçam o que repetimos, como um refrão , em todo o nosso curso: uma virtude puxa outras virtudes.

PRUDÊNCIA: É agir com moderação, sem precipitação. É a pessoa cautelosa, comedida e atenta; aquela que evita ocasiões de erros. Sensatez.

CORAGEM: A palavra coragem tem raiz no latim, cor + agere, e significa agir com o coração, agir com a força que vem de dentro, buscar as forças interiores para realizar algo. A ação vem de um impulso da segurança interna. Tem o medo dominado e não precisa de subterfúgios (como armas, por exemplo) para fazer valer o seu poder e seu domínio. O corajoso é aquele que está no domínio do próprio poder.

GENTILEZA: Vem de gen, isto é, o que tem um bom gen, o bem nascido, bem educado, bem criado; tem boa verve. Faz com extrema educação.

HEROÍSMO: É a virtude do herói. Quem é o herói? O herói é aquela pessoa que, por seu conjunto de virtudes, é protagonista de atos que o transformam em melhor vencedor pelas forças das qualidades que o habitam. Passa por situações difíceis e enfrenta os limites, mas carrega isto com galhardia. É a mística da resistência. É firme, decidido, seguro. Para o herói não há indecisão, a indecisão é o espírito não amadurecido para dialogar com a vida.

SEGREDO: É o saber guardar-se. Num mundo onde somos invadidos e consumidos por todos os lados, precisamos acreditar naquilo que está oculto, naquilo que não deve ser contaminado, nem esvaziado. Não é apenas um simples esconder, mas sim deixar transparecer a força de um grande amor, de um grande projeto de vida. Quem foi tocado pelo Amor guarda segredo. Não é apenas o não contar para ninguém. É muito mais que isto! É estar sempre no apreço; é esperar alguém capaz de apreciar. Segredo é comunhão de duas almas e não o barulho da publicidade. É sintonia silenciosa e íntima. É ir à clareza de tudo o que vai se criando no silêncio e não no rumor de ser igual a todo mundo. O segredo é uma coisa preciosa, íntima, profunda. Tem que ser germinado no escondido. A terra não faz assim? Onde a semente nasce e cresce senão no escondido das profundezas do chão? É preciso ser germinado no oculto do espaço da profundidade. O segredo não é posse de si, mas é fenômeno que nasce de si; é o preparo fundamental para o social, para o público. Hoje muita gente que fracassa publicamente porque não tem o recolhimento da profundidade pessoal. Se a semente do que buscamos é grande, então é preciso nos recolhermos para a força da raiz. Quantas vezes não ouvimos esta pergunta que gerou livros, obras, filmes, teatros e ensaios: Qual o segredo de Francisco e Clara? O Amor de Francisco e Clara para com a Dama Pobreza e o Esposo Espelho é algo forte porque descreve o movimento de um crescimento secreto; quanto mais precioso, mais vai para o oculto da raiz, mais nasce, mais desabrocha. Para o mundo não deve interessar o que eles são no segredo dos dois seres sublimados e consagrados; para o mundo deve interessar o que são a partir da obra que realizaram e deixaram há 800 anos. O segredo verdadeiro é o movimento dinâmico da dimensão da profundidade humana. Ao crescer bem no particular torna-se força para o fraterno, para o comunitário.

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