quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA- 30

Já ao término do nosso percurso, vamos elencar mais algumas virtudes vividas sob o filtro da espiritualidade franciscana. Durante os nossos encontros repetimos como um refrão: cada virtude puxa um encadeamento de outras virtudes, cada uma está implícita em muitas. Muitos destes conteúdos já contemplamos nas virtudes anteriormente citadas. Este é apenas um resumo de tudo o que refletimos. Vejamos:


CORDIALIDADE: Para a linguagem da espiritualidade e da mística, o órgão do conhecimento não é o intelecto, mas sim o coração. Nós só retemos em nossa mente aquilo que é filtrado pelo coração. O que toma o nosso coração toma conta de nosso corpo inteiro, da nossa vida, da nossa história e de nossas práticas. Nós somos o que colocamos em nosso coração. Quem não tem nada no coração não é ninguém. A cordialidade é acolher a vida, como diz Guimarães Rosa, “coraçãomente”. É receber alguém com boa energia do sentimento, do afeto, da delicadeza que está no coração. A pessoa cordial sente a vida pulsar em todos os detalhes. E recebe o outro como na visita que Maria fez a Isabel: faz vibrar o coração quando alguém chega. Encontrar-se é fazer vibrar a interioridade. “ Quem dá coração, tem corações!”

GRATUIDADE ( GRATIDÃO): É a capacidade de maravilhar-se diante de tudo o que se recebe da vida. Agradecer é reconhecer. É a afirmação de ser criatura, tão frágil, mas tão privilegiada. É estar encantado por tantos dons e bens recebidos.

FRATERNIDADE: A pessoa se firma e se define pelas suas relações qualificadas. Na fraternidade podemos viver a qualidade de nossas relações. Nas qualidades de nossas relações há sempre uma revelação. A fraternidade ajuda a abrir mão de interesses puramente egoístas. Uma coisa é viver junto, ser um agrupamento de pessoas; outra coisa é estar num grupo que tem uma consangüinidade espiritual, possui uma tradição que vem de longa data, tem espírito comum e objetivo comum. Mesmo vivendo dentro de uma estrutura ou de um instituição, assume com liberdade a corresponsabilidade de assumir uma causa pessoal filtrada pela causa de todos. A fraternidade é o lugar do relacionamento com o projeto comum, universal, vital, na vitalidade de um carisma que nos desafia a viver com uma identidade comum sem interferir na identidade pessoal. Temos um sangue biológico e um sangue espiritual. Este sangue espiritual é a força, a essência e o fundamento da vida que escolhemos para viver juntos.

PRUDÊNCIA: é agir com muita moderação, com muita sensatez, sem precipitação. Agir de um modo cauteloso, comedido, com plena atenção que evita ocasiões de erro.

RESPEITO: Sensibilidade para captar a verdade presente no diferente de mim mesmo. Olhar para alguém e ver a sua qualidade, o seu ritmo, a sua diferença a sua identidade única, sua tradição, cultura, bagagem e costumes. Acolher a capacidade do outro(a) que é única e capaz de acrescentar algo em minha existência. É dizer: “A minha alma engrandece por ter encontrado você!” É ser sal da terra segundo o jeito do Evangelho: sentir o gosto especial daquilo que tempera a minha vida.

HUMILDADE: Vem de húmus, isto é, a fecundidade que está no subsolo da vitalidade. A força escondida que faz tudo desabrochar. A capacidade de assumir a grandeza do próprio tamanho sem aparentar ser maior ou menor, mas sim ser a arte de ser o que se é. É a silencioso e oculta consistência interna que dá tempo para que tudo ganhe vida, floresça, desabroche. O humilde se submete à condição de ser um inútil que deixa transparecer a utilidade sem barulho. Tem a coragem de não aparecer, mas revelar mansamente o mistério e o valor da pessoa e de todas as coisas.

SIMPLICIDADE: É a transparência do humilde. O simples revela a força do humilde. Visibiliza aquilo que o humilde esconde, mas de um modo discreto. É gritante, mas não gritado. É a emergência do húmus. A simplicidade se apóia numa experiência profunda de vida e não precisa de publicidade. O simples é natural e faz fluir a vida. Como gosta de lembrar o Mestre Frei José Carlos Pedroso, OFMCap : simplicidade vem do latim simpliciter, pliciter, plicas = dobras, pregas. Uma saia pliçada é esteticamente linda mas difícil de lavar e de passar. Quando se cria uma dobra temos um aplique, duas dobras duplicam, três dobras triplicam...é preciso tirar as dobras, tornar fácil o caminho, afastar os obstáculos. Simplicidade é facilitar o caminho da vida; é descomplicar.

JUSTIÇA: Está ligado ao que refletimos sobre a solidariedade. É a virtude que induz a cumprir o que é reto, o que é devido como exigência de ordem e harmonia mandato. É fazer conscientemente o dever, é cumprimento, mandato. É a disposição permanente e dinâmica do bem valor. É a retidão de vida em consonância com a verdade que se abraçou.

UNIÃO: é arte de unir pedaços e moldar um mosaico que revela uma força comum. Um ícone de unidade; uma mandala de verdades unidas pelo mesmo laço. A virtuosidade vivida na união é a reunião do munus ( cum+munus ), isto é, o papel de cada um numa tarefa forte com a força de todos. É unir diferenças para criar laços, para criar um todo. A diferença é condição para criar a união. Se não houver o diferente, como criar? Não somos linha de montagem que produz tudo igual. Somos a riqueza diversificada de cada identidade que cria a unicidade.

ITINERÂNCIA: A palavra tem raiz latina iter que significa caminho, via, percurso, senda, meta, dar um passo, fazer estrada. É mobilidade, busca, dinamismo. Para a mística e a espiritualidade, tudo começa por um passo. O caminho se faz ao andar. É a mística de Santiago. É seguimento, imitação, entrar no ritmo dos passos do Valor Maior. São Francisco dizia: "A regra e a vida é esta: seguir e ensinamento e as pegadas de Nosso Senhor Jesus Cristo” ( cfr. Rnb 1) . Sempre é bom lembrar o mítico poema de Antonio Machado, poeta de Sevilha ( 1875-1939), que escreveu estes versos que estão em seu grande poema “Provérbios y Cantares”:

Caminhante, o caminho são tuas pegadas


E nada mais que pegadas;


Caminhante, não há caminho:


Faz-se caminho ao caminhar.


Caminhando, se faz caminho


E quando olhas para trás,


Verás a trilha que nunca mais


Voltarás a trilhar.


Caminhante, não há caminho,


Sobram apenas sulcos no mar”

Continua

Um comentário:

Pierre Descaves disse...

Bom dia Frei! estou tentando falar com o senhor e nao tenho conseguido, pois o telefone do Convento esta sempre ocupado. Hoje é o nosso Concerto de Natal no Convento, como combinamos. Devemos chegar com as Harpas as 18hs, para iniciar o concerto as 19hs apos a santa missa.
Meu telefone é 92999650, ate mais tarde.
Pierre Descaves