sexta-feira, 21 de outubro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 21

CUIDADO (o Saber Cuidar): É uma virtude que está sendo resgatada. Nunca se falou tanto de cuidado. A luta hoje é resgatar o cuidado. O cuidado é fundamental para que possamos elevar o nosso patamar civilizatório. A essência do humano não está na razão, na técnica, na inteligência ou na capacidade de criar condições materiais para a subsistência. A essência do humano está no cuidado. Se o ser humano não cuida da vida, a vida não subsiste; a falta de cuidado leva sempre a grandes crises. Se começamos a cuidar, tudo começa a dar certo. O cuidado traz as virtudes essenciais da caridade, da solidariedade, da hospitalidade, da cortesia, da generosidade, fraternidade, gentileza, reverência, respeito, sensibilidade e a vassalidade (o ser serviçal). A estrutura básica do humano não é a razão, mas o afeto, antes da razão vem o afeto e o afeto é fundamental para o cuidado.


A nossa contemporaneidade beatificou e santificou duas heroínas do cuidado: Madre Tereza de Calcutá e Irmã Dulce da Bahia, que cuidaram da vida moribunda da rua. Governos cuidam de bancos, empresas, grupos de interesses, mas não cuidam de pessoas. Querem a obra social, mas não querem o doente, o mutilado, o fétido, o sem-nada. Escolas cuidam de preparar para o mercado, mas não cuidam da solidariedade. Igrejas cuidam do status hierárquico, da precisão litúrgicas, das pompas cerimonialísticas... e a pessoa, a pessoa é prioridade para estas grandes instituições que existem com a única finalidade de cuidar do humano? Quem quer o detalhado espírito de fineza e sensibilidade? Temos que voltar a pensar, procurar e imitar as figuras exemplares da sociedade que nos testemunharam um total cuidado pela vida em todas as suas dimensões. Hoje, buscamos muitas terapias para curar, erradicar, sanar, mas temos que estar ciente que a única forma de cura é cuidar; esta é a grande clínica do humano, a clínica do coração e do afeto.

Francisco de Assis viveu há 800 anos e é sempre novo. Por quê? Porque foi o homem do enternecimento, da aproximação com o excluído, da ternura e vigor, da paz, da valorização de cada detalhe da natureza, de não perder nunca a sua humanidade e transformar em prece a sua alma: Meus Deus é meu Tudo! Fez de cada ação um projeto infinito, no simples, no modesto; no humilde fez aparecer o grande. Nós, modernos temos muito que aprender com ele. Nós, herdeiros de uma cultura que tudo materializa e tudo vende, entregamos o espiritual para as religiões. Ele entregou o espiritual para a louvação de todas as criaturas, colocou o espiritual presente em tudo, mostrou que o universo está empapado do Espírito do Senhor e, por isso, não pode ser maltratado. Mostrou para nós que religião, mais do que professar é sentir, como diz uma paradigmática canção franciscana: “Doce é sentir, em meu coração, humildemente vai nascendo o Amor... doce é saber, não estou sozinho, sou uma parte de uma imensa vida...”. Em tudo, Francisco de Assis redescobriu a grande fraternidade universal e o universalismo fraterno e recriou o mundo com o Criador. Ele nos inspira a cuidar da vida em seu todo, a cuidar da natureza. Isto não é apenas um gerenciamento racional e sustentável de recursos da natureza, mas é o modo de relacionar-se com a natureza, o modo de relacionar-se com a realidade total da existência: o físico, o mineral, o vegetal, o biológico, o animal, o consciente, o espiritual..., onde tudo nos irmana, tudo se integra, nada se separa. A vida é uma rede de relações; nada existe fora disto. Se não cuido desta integração posso esfacelar a vida. O cuidado pela vida carrega uma promessa, um futuro. Deus mesmo nos ensinou o universo das relações cuidadosas, e o amoroso cuidado por todos os seres. Ele mesmo é uma fonte originária (Pai e Mãe), que está acima de nós com a sua fontal presença. Ele está dentro de nós (numa comunhão de amor, o Espírito Santo que preenche toda a terra com seu sopro criador e renova todas as coisas); Ele está ao nosso lado na irmandade, consanguinidade e fraternidade filial (o Filho). Cuidar é não separar fé, natureza e universo, cosmo, planeta, terra e espécie humana.

Continua

Um comentário:

Rodrigo disse...

Lindo! Quando fala-se o que vive a profundidade espande-se pelos poros.

Deus é perfeito!

Abraços Frei.