quinta-feira, 22 de setembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 12

O Amor Cortês foi a chama que acendeu sentimentos, ideias e virtudes e deu uma forte motivação para um determinado tipo de vida. O trato ascético e o animado espírito de sacrifício estão estreitamente ligados ao Amor, que, para o cavaleiro, era a transferência ética de um desejo, de um sonho, de um projeto de vida.

A necessidade de dar ao Amor um sentido e uma forma nobre encontra um vasto campo para se manifestar nas conversas corteses, nos jogos e torneios e na poesia das canções de gesta. Em tudo isto, o Amor se sublima e se faz romântico. A concepção cavaleiresca do Amor Cortês não nasce da literatura, mas da vida e do exercício de virtudes que elencaremos mais à frente. O motivo do cavaleiro e da sua dama amada estava presente nas relações da vida real. O cavaleiro é um herói por Amor e este era o elã impulsionante, primitivo e invariável, que deve sempre aparecer e retornar. Mais do que uma paixão sensual é uma abnegação ética, uma necessidade de mostrar a coragem, exibir força, expor-se aos perigos, sofrer, sangrar, passar por desafios e por grandes dificuldades. É a ação heróica cumprida por Amor. O sonho da ação heróica enche de ânimo, incha o coração de orgulho pessoal e dá vida ao amor.

O tema do herói é importante para a cavalaria. É um tema que não envelhece em toda a história da humanidade. As Legendas dos Heróis continuam atuais, os feitos inconfundíveis do herói montado em seu cavalo, armado, invencível, unindo força física e força virtuosa, o justiceiro que alia raça e bondade, doçura e ação. Quem de nós não leu ou assistiu filmes sobre o Rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda, a Busca do Santo Graal, a Canção de Rolando, El Cid – O Campeador, Don Quixote, Robin Wood, Lancelot – O primeiro cavaleiro, Os cavaleiros Nibelungos; enfim, um mundo de obras que soam como inspiração? Para as Legendas, a história da humanidade tem que ser uma história de inspiração, superação e de edificação. O herói se coloca a serviço de um ideal e nos dá meios para realizar uma tarefa evolutiva. Ele nos recorda que qualquer um pode empreender a jornada interior e assumir a tarefa de se tornar completo.

O tema da Cavalaria pode ser um tema muito questionado; mas é uma instituição feudal que permaneceu no imaginário popular e surge de vários elementos: o econômico (benefícios e privilégios), o social (vassalo, nobre, freqüentador da corte), político (o cavaleiro possuía imunidade jurídica), religioso ( a cristianização do ideal) e militar (uma nova concepção de milícia). Tudo isto gerou o miles, o cavaleiro combatente e o seu conjunto de qualidades e obrigações.

A Europa medieval é um continente que sofre por todos os lados as invasões, o assédio, as incursões dos povos bárbaros. Estes povos são dotados de grande mobilidade guerreira e de ardorosos combatentes. Isto sacudiu e desafiou a capacidade dos defensores da sociedade cristã, que perceberam que não bastava apenas a estratégia de intervir rapidamente, mas ser por demais eficientes e disciplinados. Não podemos deixar de destacar o momento onde a cavalaria iluminou-se de ideais cristãos, e os combatentes mais exaltados religiosamente correram para as Cruzadas, para a defesa da Terra Santa, para proteger peregrinos pelas terras da Síria e Palestina. Num primeiro momento temos a cavalaria como instituição guerreira contra as invasões, com forte influência cristã para transformar a força bruta em força organizada em honra e fé para manter ideais na Igreja e na sociedade. Num segundo momento temos a cavalaria aventurosa, romântica, galante e lírica; que encontra expressão de sentimento na defesa dos fracos e o culto à mulher amada, a Dama Encantadora, misteriosa e sempre distante. O terceiro momento é a decadência, uma imitação fictícia, um heroísmo cômico, uma força quase inútil.

Mas então, o que sobrou da Cavalaria? Um verdadeiro Código de Comportamento, uma ação segundo a verdade, justiça e fortaleza; sob o fundamento da reta consciência e da prática da fé. Uma inspiração para uma via espiritual, e é via espiritual porque conduz ao aperfeiçoamento, a uma qualificação interior. Deve-se arriscar a vida e absorver uma tarefa, ser uma pessoa justa, límpida, correta; o cavaleiro precisa aproximar-se da realidade, graças aos seus dons naturais ou adquiridos, ao tipo ideal codificado no mito. Não pode ser um cavaleiro verdadeiro sem ser ao mesmo tempo um asceta. Trouxe um modo de comportar-se que tornou viável a convivência entre o sacro e o profano, uma tarefa complementar. Se o sacerdote era chamado à administração dos sacramentos como reparação aos danos sofridos na via espiritual, o cavaleiro era convocado a sanar as conseqüências dos erros sob a ordem social, devia instaurar e proteger a ordem civil. O sacerdote era o guia no que diz respeito ao relacionamento com Deus; o cavaleiro procurava manter o bom relacionamento terreno.

Continua

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