sexta-feira, 16 de dezembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 31

No último item acima explicitado falamos do iter, o caminho. Vamos encerrar esta série de reflexão sobre a Espiritualidade com três elementos essenciais deste caminho. Precisamos vibrar mais com a nossa força espiritual e com a espiritualidade. Todas as espiritualidades são maravilhosas porque falam de verdades maravilhosas. Vamos, então, lembrar três elementos do caminho espiritual:

1. O INICIADO - Muitas religiões falam da Iniciação, o cristianismo católico fala dos sacramentos da iniciação; porém muitos entendem (e talvez esta seja a prática) a iniciação como preparar para o dia do batismo, para o dia da primeira comunhão, para o dia do crisma... e depois que passar este dia? Será que este tempo termina com a festa entre pais, padrinhos, amigos, parentes regada com cerveja e refrigerante, macarronada, frango e maionese? Não é esta a proposta de uma Pedagogia Iniciática. A Iniciação é tarefa para toda a vida, é a tarefa essencial de tornar-se plenamente humano, tornar-se cada vez mais espiritual no decorrer do dia a dia. É uma via interior. É um trabalho constante que tem um início, mas que está na contínua tarefa de aprender a aprender. É ser eternamente discípulo. O aprendizado é evolução; e está em todo momento religando a razão ao coração e vice versa. Liga a ciência à consciência, a efetividade à afetividade, a existência à essência. O Iniciado está no caminho do aprendizado e este caminho o leva a: ser, conhecer, fazer, conviver. Aprender é evoluir. Abre o olhar para si mesmo, para o Sagrado, para o Universo, para o outro e para o Grande Outro, o Mestre. Não só abre o olhar como leva à uma fantástica mudança. Muda o olhar para mudar o mundo. A iniciação educa para ser. Educa para que nunca esqueçamos que devemos ser seres de ligação entre Deus e o Ser Humano, entre Céu e Terra, entre Matéria e Espírito.

O Iniciado faz um real caminho da busca pela verdade. No “Eu sou” do Mestre vai burilando o seu “Eu sou”, a subjetividade profunda, a filosofia de identidade que o prepara para grandes tarefas comuns, que o prepara para o mundo e para o social. O Iniciado fortalece o espiritual. Vai a fundo nas opções e não se contenta com o discurso pseudo religioso da satisfação imediata. Ele é paciente e cuidadoso em chegar a verdade de si mesmo, de Deus e de todos os seres. Ao fazer bem o discurso do profundamente humano, a humanidade vê nele o divino. Existe sempre algo misterioso a ser descoberto. Espiritualidade é um passo a mais. Dar um passo a mais a partir de onde estamos. O Iniciado é o ser do caminho. Identifica tendências, segue indicações profundas. Procurar ser tudo o que puder ser de melhor. Não descansa nunca. O Iniciado sabe que a verdadeira transformação é quando torna-se fervorosamente o que se é.

2. O DESPERTO - É aquele que acorda o sagrado que dorme dentro de si. Traz para o visível carnal o invisível espiritual. Aproxima-se do mistério e escuta a fala audível do mistério. Não deixa de estar atento ao fio que liga céu e terra. Olha a vida a partir do espaço da sua profundidade, é o olho do anjo no olho humano. Vive num estado de alma e acorda a sua inteligência contemplativa. Desperta uma consciência pura. Faz de sua alma um espelho límpido que reflete a dimensão espiritual, que reflete algo que está para além da existência. Vive num estado de vigília para não perder esta sua essência. Como diz Teilhard de Chardin, é a antropologia da vastidão; um fenômeno humano espiritual. Não é suficiente ser eu, dentro de mim há algo maior que eu mesmo. É acordar este desejo mais íntimo que é o desejo da vida eterna, da vontade de Deus. É acordar o santo que está dentro de si. É dizer todos os dias: eu desejo a santidade! Comemorar o dia de todos os santos como o seu dia também. Quem vive a plenitude de um modo permanente é santo. O santo está em nós, é preciso despertá-lo. Não se forma um santo, mas se acorda a imagem e semelhança divina que está em nós.

Alguém viu a Alma? Existe algo em nós que não é corpo, que não é matéria. O ser humano é uma essência, uma alma existencializada. É uma maneira única de encarnar o amor de Deus no mundo. Cuidar da alma, cuidar do espírito é quando a gente se ultrapassa em direção ao outro. Isto é ser nobre e sagrado. É cada dia acordar perguntas em nós: quem sou eu? Qual a imagem do absoluto que me habita? Quem acorda para esta verdade sabe bem o que é a vida.

3. O CONTEMPLATIVO - Faz do tempo um templo. O caminho iniciático é passar do espaço tempo para o espaço templo. Recolhe. Silencia. Medita. Vê. Escuta profundamente. O falar e o pensar correto têm muito a ver com o contemplar. Deus é um grande intervalo (Fernando Pessoa) . É aquela pausa para refazer-se. Respirar. Expirar. Transpirar. Quando esvaziamos a mente, o cálice transborda. O contemplativo consolida uma plena atenção. É atento e presente. Nutre-se pelo aqui e pelo agora. É sempre um ser de encontros. Faz ressurgir a função de templo em cada momento. Ao conquistar Deus reúne todo o universo. O contemplativo faz uma prece com todos os elementos do mundo. Percebe o algo mais e o maravilhoso. Percebe Deus nas nuances da vida. Conhece o Ser que o faz ser.

O contemplativo tem o silêncio antes das palavras; o silêncio antes da comunicação; o silêncio antes da ação. Traz a fala da palavra interior. Tem a calma e silêncio de comunhão. Mais do que uma fala é o templo da presença. O contemplativo é filho do tempo e da eternidade; sempre está acordado para o que não morre.

CONTINUA

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