segunda-feira, 5 de dezembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 29

A Espiritualidade tem que falar divinamente do humano; falar em nome do Divino que habita o humano e que não pode ser violado, injustiçado, subornado, por nada, por nenhuma ideologia, por nenhum arranjo político, por ninguém. Ao fazer isso, a Espiritualidade presta um serviço incontestável à toda humanidade, aos humilhados e ofendidos, para que a sua dignidade e sacralidade seja respeitada. A Espiritualidade tem que acordar a denúncia profética, para que os opressores sejam julgados já na história, pela voz da própria consciência que é a voz de Deus falando e julgando de dentro dos corações ofendidos. A Espiritualidade deve ajudar a pessoa a conquistar e reconquistar a sua humanidade.


A Espiritualidade não pode falar de um Deus qualquer; mas de um Deus de nossos pais, dos profetas, de Jesus Cristo, de um Deus que não compactua com a iniqüidade. Um Deus onipotente e forte, Senhor do Cântico das Criaturas e de muita ternura para com o seu povo; um Deus que não permite que a vida seja destruída.

A Espiritualidade ajuda a voltar o olhar para o céu e encontrar ali este Deus que ensina a ver a terra, e perceber a pessoa ao lado, sofrida e necessitada. Uma Espiritualidade tem que trazer Deus das nuvens ao chão; tem que ajudar a transformar a história, reconstruir a casa, viver o Evangelho não para uma pregação piedosa, mas para uma maior humanização. O que adianta uma Espiritualidade que não se comprometa com o processo histórico de um povo? Tem que estar por detrás um processo de mudanças e não apenas livros e cheiros de adocicados incensos. Tem que ter um compromisso pela justiça. É momento de iluminação e animação de práticas e não fuga de realidades conflitivas. Do que adianta ficarmos recitando salmos, orar em línguas e cantar mantras enquanto há exploração das grandes maiorias e acumulação escandalosa nas mãos de minorias? Uma Espiritualidade não pede só a transformação da pessoa, pede também a transformação das estruturas. Ou será que a realidade não ocupou um lugar privilegiado na pregação de Jesus e dos grandes Mestres?

A Espiritualidade muda não só a consciência, mas convida à uma ação: transformação interior e a mudança do mundo. Conhecer a realidade do mundo. Conhecer para transformar. O divino, o religioso, o espiritual, o social, são dimensões que atravessam tudo. Viver é fazer esta travessia. Diz o teólogo Congar: “Nós só podemos ter a teologia da nossa própria prática”. Ser espiritual é humanizar a vida. Abraçar uma Espiritualidade é ser levado à práticas de Amor; é nascer novamente de atos concretos de Amor.

A Espiritualidade é necessária para a luta na vida e pela vida, para o fundamento das convicções. É estar entre o povo com muito amor pelo povo. Não ter só um protagonismo individual, mas um protagonismo de homens e mulheres novos. É amar o povo como se ama a pessoa amada. Construir uma sociedade melhor é refazer o sonho de Jesus: instaurar o Reino de Deus.

A Espiritualidade tem que sonhar e realizar a prosperidade. Não perder a vontade de crescer, de evoluir, de ser criativo. Ser mais, amar mais, ter mais, saber mais, multiplicar mais; sem superioridade, mas de forma compartilhada. O necessário não pode faltar para ninguém, contudo não precisamos mais do que o necessário, se não vamos comprometer o futuro do planeta e das pessoas.

A Espiritualidade faz nascer em nós uma certa rebeldia: dizer um não à domesticação, à escravidão, à manipulação, à rotulação. Precisamos ter lucidez crítica, cobrar coerência e apontar injustiças sem medo.

Enfim, existe uma Espiritualidade que brota da Solidariedade. Não temos muito que dizer. É melhor ler um trecho de uma carta de um pai revolucionário aos seus filhos: “Se sentires a dor dos outros como a tua dor, se a injustiça no corpo do oprimido for a injustiça que fere a tua própria pele, se a lágrima que cair do rosto desesperado for a lágrima que você derrama, se o sonho dos deserdados desta sociedade cruel e sem piedade for o teu sonho de uma Terra Prometida, então, serás um revolucionário, terás vivido a solidariedade essencial”.

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