quarta-feira, 14 de setembro de 2016

Francisco de Assis – o amor que deixa marcas - 1


“Homem novo, Francisco tornou-se famoso por novo e estupendo milagre: por singular privilégio, jamais concedido nos séculos anteriores, apareceu assinalado, ou ornado, com os sagrados estigmas, configurando o seu corpo mortal ao corpo do Crucificado. Tudo o que a humana língua possa dele falar sempre estará aquém do louvor de que é digno. Inútil procurar a razão, porque é maravilhoso, nem se trata de buscar um exemplo, pois é único. Todo o empenho do homem de Deus, quer em público, quer em particular, dirigia-se para a Cruz do Senhor. Desde o primeiro instante em que começara a servir sob o Crucificado, diversos mistérios da Cruz resplandeceram em torno dele” (3Cel 2,1).

Quem centra sua vida numa determinada busca, numa focada paixão, num visível enamoramento, percebe claramente que o objeto deste Amor vai aparecendo nas nuances da vida. O que amamos nos surpreende em evidentes sinais, como uma reveladora novidade.  Francisco de Assis foi estigmatizado, e os estigmas são como as marcas do Crucificado que São Paulo dizia trazer consigo. Um humano renovado se molda sobre um caminho de grandes desafios e, porque não, de sofrimento. O Amor deixa marcas e amar tem a sua glória e cruz, tem a sua flor e dor. Toda renovação vai à fonte inicial da vida que é parida em dor. E podemos perguntar: o que tem de humanidade nova nisto, o que tem de novidade?

A novidade presente em sofrer por Amor é muito raro na literatura espiritual antiga. Vamos encontrar no antigo Império Romano a presença do termo novus ou novitas, no discurso de Cícero, orador romano, na sua peça de oratória chamada “Pro Murena”, onde ele defende que não devemos ignorar as marcas deixadas pelo sofrimento nos caminhos da consolação. Para Cícero, as marcas da dor são glórias da luta. Cícero escreve isto para Murena, senador romano, dizendo que “as virtudes de um senador são mais importantes que o seu nascimento”. As marcas deixadas pelo Amor não são sofrimento pelo sofrimento, mas reconhecimento.

Novo Homem, ou a novitas, pode ser entendido como o original. A sua Forma de Vida era viver o Evangelho segundo o Crucificado. Imprimiu na alma esta verdade, e da alma ficou impressa no corpo. Mas o que é o Humano Novo? São Paulo diz: “Em Cristo fomos fostes ensinados a remover o vosso modo de vida anterior – o homem velho que se corrompe ao sabor das coisas enganosas – e a renovar-vos pela transformação espiritual de vossa mente, e a revestir-vos do Homem Novo, criado segundo Deus, na justiça e santidade da verdade” (Ef 4,20-24). Ser uma nova criatura não é revestir-se de si mesmo, mas revestir-se de Cristo. Fazer a investidura do que se ama. Isto é um processo para toda vida. A estigmatização de Francisco aconteceu 20 anos após a conversão, mas foram 20 anos de seguimento e imitação apaixonada. Voltemos a São Paulo: “Vós vos desvestistes do homem velho com as suas práticas e vos revestistes do novo, que se renova para o conhecimento segunda a imagem do seu Criador. Aí não há mais grego ou judeu, circunciso ou incircunciso, bárbaro, cita, escravo ou livre, mas sim o Cristo que é tudo em todos” (Col 3,10-11). O Humano Novo não é apenas um indivíduo particular ou uma aventura psicológica de mudança efêmera, mas é um Humano Singular, Único, Original que assume uma nova postura de vida, como que uma nova aliança.

(Continua...)

FREI VITÓRIO MAZZUCO

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