sexta-feira, 8 de novembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 14


A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA – O Cântico das Criaturas

Para Francisco, os elementos falam através destes adjetivos. “Toda paisagem é um estado de alma” (G. Bachlard). A alma tem uma experiência. Assim, Francisco sentiria dentro de si a grandiosidade da união com Deus. Limpara depois de anos de penitência os olhos para Deus e para as profundezas das coisas. Agora podia ver Deus em todas as coisas. Isso foi uma conquista longa e dificultosa. Daí o mundo se transfigurar e se tornar, para ele, um grande sacramento. Tudo falava de Deus: desde o vermezinho da estrada até o sol. Quando  Francisco chama as coisas de preciosas, para ele essa palavra preciosa não constitui uma grandeza mensurável, um valor como um tesouro. Mas exprime a riqueza misteriosa, que não mais pertence ao domínio do ter, mas da realidade do Ser. É a expressão de sua experiência religiosa e sacra que lhe permite ver a sacralidade e a transparência divina do cosmos.

O canto de São Francisco não é um canto romântico. Não canta numinosidade das coisas enquanto coisas. A numinosidade lhe vem da alma ligada a Deus e a Cristo. Por isso, o canto significa o termo de um longo itinerário espiritual. Quando lhe caíram as escamas dos olhos, então podia ver Cristo e Deus e entoar o hino da casa paterna, onde todos são irmãos e irmãs, a terra e o sol, o fogo e a morte. As coisas ficam coisas. Mas isso não esgota a sua realidade. Elas são símbolos que também expressam a alma. O Universo interior se exprime no universo exterior. Então tudo começa a falar, a fala do mistério e de Deus.

4. O surpreendente do cântico é o modo familiar com que Francisco fala das diferentes realidades cósmicas. Ele as chama de irmãos e irmãs. Esse fato de poder chamar a realidade sub-humana de irmão e irmã nos coloca diante de uma maneira diferente de ver o mundo do que aquela, por exemplo, científica. Para a ciência as coisas são coisas, destituídas de qualquer grandeza humana e numinosidade. São objetos de nossa conquista e de exercício de nossa vontade de poder. Falta o respeito e a grandiosidade do sentir-se junto, dentro de uma mesma casa paterna. Em Francisco, elas se revestem de grande simpatia. Como as biografias nos contam, ele chamava tudo de irmão e irmã. Não havia poesia nisso. Mas queria dizer a verdadeira realidade das coisas. Que realidade?

Continua

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