terça-feira, 3 de dezembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 21


                     A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA – O Cântico das Criaturas

                                   11. SOL      VENTO      Fogo
                                            luz        Água           Terra

a) A celebração do Sol: “Louvado sejas, meu Senhor, com todas as tuas criaturas, especialmente o senhor irmão sol, pois ele é dia e nos ilumina por si. E traz de ti, Altíssimo, o sinal”.
Cantar o sol é um topos comum da poesia e de todo hinário religioso cristão e pagão. Nesse sentido, Francisco se insere numa experiência comum que o transcende. O Speculum Perfectionis nos diz: “Francisco considerava o sol o mais belo de todas as criaturas e de forma melhor recordava Nosso Senhor Jesus Cristo e Deus, chamado pela Escritura de Sol da Justiça”. No Sol, Francisco vê o sinal de Deus. Para Francisco, o Sol é um convite permanente para a memória do divino. “De manhã, ao nascer o sol, cada homem deve louvar a Deus que criou o sol para nossa utilidade, pois é por ele que nossos olhos possuem a luz” (Sp.167). Ele mesmo cego, de uma cegueira de que foi tomado depois de uma viagem pelo oriente, não deixa de cantar ao irmão sol. Guardou, mesmo cego, sua luz interior e sua força evocadora.

O senhor irmão sol não é uma imagem material, guardada no interior, mas ela emerge das profundezas da alma, e aponta para algo mais sublime. Para descobrir algo de mais sublime precisamos penetrar um pouco mais na intimidade do elemento. Primeiramente, o sol é saudado como fonte de luz: dele vem o dia, é belo, radiante, cheio de esplendor. Ele é chamado de senhor. Participa da nobreza do mundo. Ele é senhor. Senhor era uma expressão que Francisco reservava para Deus e Jesus Cristo. Começa com o elemento masculino e encerra com o elemento feminino. Esse casal é uma imagem mística antiquíssima. Nos cultos solares das religiões arcaicas, o sol é considerado como elemento masculino, como o grande Senhor, esposo da terra. Da união de ambos é que nasce a vida, e todas as coisas.

São Francisco chama o sol não apenas de Senhor, mas também de irmão. Aqui há um elemento novo. O Sol é criatura também, embora o seu conteúdo simbólico seja profundo. Por isso, além de Senhor e irmão e com isso estabelece uma consanguinidade e fraternidade com ele. Assim como o sol é divino e sinal do divino, o é também o humano, seu irmão. O sol é, pois, o arquétipo da profundidade da alma. As grandes experiências do inconsciente, a irrupção do divino se faz sempre entre luz e fogo. Por isso, São Francisco, na noite em que soube entre dores quase mortais que seria participante do Reino dos Céus, entoou um hino ao irmão sol.

O sol é símbolo do Altíssimo e ao mesmo tempo fraterno. Um sol ao mesmo tempo sacro e íntimo. O sol é a expressão de uma plenitude interior. O sol irmana todas as coisas, penetra tudo, ilumina tudo, desde as montanhas até o último cisco da estrada, desde o homem até o verme, é por excelência o símbolo da grandeza de Deus. Sem se macular ele reluz no esterco, sem se orgulhar se espelha nas águas. Conserva sua identidade suprema.

Continua

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