quinta-feira, 14 de novembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 17


A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA – O Cântico das Criaturas

8. Quanto à estrutura do Cântico convém ainda notar: nele se cruzam as duas linhas, a horizontal e a vertical. Começa com a vertical: “Altíssimo e bom Senhor!” Altíssimo é a expressão do Voo do Espírito para o Alto. Aqui se resume a grande experiência de Francisco. “E ninguém é digno de mencionar teu nome”. Esta expressão exprime a pobreza total de nossas palavras frente ao Altíssimo. Nenhum louvor, nada pode exprimir o mistério de Deus. São Francisco o sabe, não por um saber teológico, mas por uma experiência total, vital, afetiva.

Não podendo cantar o Altíssimo, volta-se às criaturas: “Louvado sejas, meu Senhor, por todas as tuas criaturas!” Renuncia à Transcendência, mas canta o mundo a partir da Transcendência. O universo visível será o caminho para o Sacro, para  o Totalmente Outro porque “de ti, Altíssimo, porta o Teu sinal”. Portanto, o movimento inicial era totalmente vertical: cantar Deus. Agora, ele se reduplica e se volta às criaturas, abre-se para a fraternidade universal conquistada pela experiência do Verticalismo, da mesma filiação divina. Indigno de sequer nomear o nome de Deus,  se sente na mesma filiação, na mesma  pobreza criacional de todas as coisas.

Ele começa do Alto, Deus, desce para os elementos mais preciosos, o sol, depois desce aos mais humildes, como o vento, a água, e acaba na mãe terra. E termina com a frase expressiva, no coração do mundo: “Louvai e bendizei ao meu Senhor e rendei-lhe graças e servi-o com grande humildade!” Ele canta as criaturas porque elas são para Francisco carregadas de valor simbólico do Altíssimo. O Cântico é primeiro uma vivência interior de Deus que se extravasa no exterior, sobre o cosmos. Estando largamente disponível aos apelos do Altíssimo, ao mais Alto dos céus, aceita a comunhão fraterna com a nossa terra, que nos sustenta e governa. Este caminho de grande humildade e de comunhão fraterna se transforma num caminho de profunda reconciliação com tudo, até com a morte. Com isto alcança a máxima libertação, integrando tudo dentro da vida, inclusive a morte.

Imagem de Frei Geraldo Roderfeld no Seminário Frei Galvão de Guaratinguetá (SP)

Continua

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