quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

A MÍSTICA DE SÃO FRANCISCO DE ASSIS - 22


A MÍSTICA DA UNIÃO CÓSMICA – O Cântico das Criaturas

b) A nossa irmã terra... a nossa irmã e mãe terra: “Louvado sejas, meu Senhor, por nossa irmã e mãe terra, que nos alimenta e governa e produz variados frutos e coloridas flores e ervas”.

O humano tem a experiência da terra como mãe, com capacidade maternal inexaurível de todos os frutos. Ela nos “sustenta e governa” como a mãe sustenta e governa a criança: produz variados frutos, diz o verso. Francisco nomeia ervas e flores. Ela não se contenta em nutrir os filhos, mas como mãe bondosa ela nos enche de beleza: os verdes e as flores são a festa da terra mãe; são a alegria dos olhos e da alma, formam o reino da beleza e da graça; constituem o sorriso da terra na extensão do cosmos. São Francisco dava tanta importância ao verde e às flores (cf. 2 Celano,346). Isso é um símbolo de sua fineza de alma e sensibilidade poética e estética.

Ele chama a terra de mãe e de irmã. Com isso confere à terra uma nova dimensão. Ela é mãe, sim, porque nos sustenta. Mas não é fonte absoluta da vida. Por si só é uma criatura e por isso é como as demais realidades cósmicas. E por isso irmã. Depende, como cada um de nós, do mesmo Altíssimo Pai. A terra em Francisco ocupou o lugar privilegiado como expressão simbólica. Basta ver os lugares onde se situam os conventos no vale de Rieti, do La Verna, em Assis: sempre os mais soberbos, onde as paisagens eram mais luxuriantes e evocadoras. Sua experiência mística foi desenvolvida em contato com a terra. Primeiro nas cavernas. Depois de sua conversão em Assis, se retirava com frequência para uma caverna próxima, onde, dizia, respondendo aos amigos, encontrou um rico tesouro. Depois em Poggio Bustone, no vale de Rieti (como na foto acima), e no La Verna. O mundo e o universo da caverna são o universo interior, profundo, cheio de sombras e ressonâncias. A caverna é símbolo materno. Entrar na caverna para se encontrar é entrar no ventre materno. Habitar na caverna é participar na vida da terra, no seio da mesma mãe terra. Na caverna o humano está na sua profundidade e na sua unidade radical.

Sua relação profunda com a terra se exprimiu de forma exemplar quando Francisco estava moribundo. Queria morrer nu sobre a terra. Celano conta que quando Francisco estava para morrer “Chamava todas as criaturas para o louvor de Deus, exortando-as ao divino amor com os versos que havia composto. E aos Irmãos dizia: quando virem que começo a expirar, coloquem-me nu sobre a terra e depois da morte, deixem-me aí, sobre a terra por espaço de tempo que se emprega para percorrer uma milha” (403-404). Que sentido possui este ato de deitar-se nu sobre a terra? Isso pode exprimir o seu grau de pobreza, de nudez diante de Deus, como Cristo na Cruz, nu distendido no madeiro. O gesto possui, certamente, um significado mais profundo: significa a união e a adesão à nossa mãe e irmã terra.

Continua

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