quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

O mal-estar na civilização

Freud, 1929; volume XXI, cap. IV

Freud, neste capítulo, faz uma suposição acerca da formação da família, dizendo que a necessidade de satisfação genital “não apareceu mais como um hóspede que surge repentinamente e do qual, após a partida, não mais se ouve falar por longo tempo, mas que, pelo contrário, se alojou como um inquilino permanente”. A partir daí, o macho quis conservar a fêmea junto de si, seu objeto sexual. A fêmea, por sua vez, não querendo separar-se de seus rebentos indefesos, viu-se obrigada a permanecer com o macho mais forte. Tem-se, então, o início da vida comunitária, a qual teve um fundamento duplo (dois pontos) a compulsão para o trabalho – momento em que o homem percebeu que a sorte na terra estava em suas mãos, cuidando-a e utilizando-a para seu sustento, paralelamente necessita de um companheiro para esse novo modo de vida – o trabalho,  e o poder do amor, que fez o homem relutar em privar-se de seu objeto sexual – a mulher (a mãe) – e a mulher, em privar-se daquela parte de si própria que dela fora separada – seu filho. Eros e Ananke (amor e necessidade) se tornaram os pais da civilização humana.

Esses dois grandes poderes cooperaram para que um número bastante grande de pessoas pudesse viver reunido numa comunidade. Supunha-se que o desenvolvimento ulterior da civilização progredisse sem percalços no sentido de um controle ainda melhor sobre o mundo externo - tanto da terra quanto do outro e no de uma ampliação do número de pessoas incluídas na comunidade. Observou-se, contudo, que essa civilização não agiu de forma a proporcionar a total felicidade, pois o amor tem em sua raiz um grande paradoxo (felicidade x infelicidade), o qual se dissolve em parte pela sublimação.

O amor sendo um dos fundamentos da civilização, deu-se com a descoberta feita pelo homem de que o amor sexual (genital) lhe proporcionava as mais intensas experiências de satisfação, fornecendo-lhe, na realidade, o protótipo de toda felicidade, sugerindo-lhe que continuasse a buscar a satisfação da felicidade em sua vida seguindo o caminho das relações sexuais e que tornasse o erotismo genital o ponto central dessa mesma vida.

Sendo assim, o homem tornou-se dependente, de uma forma muito perigosa, de uma parte do mundo externo, do qual lhe escapa o controle, isto é, de seu objeto amoroso escolhido, expondo-se a um sofrimento extremo, caso fosse rejeitado por esse objeto ou o perdesse através da infidelidade ou da morte.

Freud diz que nem todas as pessoas estão preparadas para o amor. Uma pequena minoria pode, devido à sua constituição, achar a felicidade pela via do amor, mas isso requer vastas alterações psíquicas na função amorosa. Tais pessoas se fazem independentes da concordância do objeto, ao deslocar o peso maior de ser amado para o ato de amar; elas se protegem da perda do objeto, e voltam então seu amor de forma igualitária para todos os indivíduos e não para objetos isolados, sem exigirem a exclusividade, como é o caso do amor genital. Desta forma evitam as oscilações e decepções do amor genital, que lhe consome um quantum de energia.

Com esta atitude, o homem se afasta da meta sexual do amor, transformando o instinto em um impulso ‘inibido em sua finalidade’. 

Este amor transformado produz em si mesmo um estado de sentimento uniforme, terno, estável, já não tendo muita semelhança exterior com a vida amorosa genital, tempestuosamente agitada. Nessa utilização do amor para o sentimento interior de felicidade quem mais avançou, diz Freud, foi talvez São Francisco de Assis. Este viveu de forma sublimatória, deslocando a energia sexual para fins sociais em prol da humanidade, deixando sua marca de desprendimento material, substituído pelo amor universal.


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