domingo, 1 de julho de 2007

A CONTEMPLAÇÃO DA NATUREZA - 4ª parte

A Contemplação da Beleza do Mundo

O ser humano, frente à beleza do mundo, não pode permanecer apenas movido por um simples sentimento romântico, mas tem que ser movido das considerações provenientes da fé. É sempre São Basílio que afirma:

“E o Senhor viu que era bom”. A Sagrada Escritura não entende nos dizer que o mar é visto por Deus no seu aspecto de beleza estética... porque o Senhor não se serve dos olhos para admirar a beleza das suas obras. Ele contempla os seres através da inefável sabedoria. Está certo que não se pode negar o agradável espetáculo que oferece o mar azul quando nele reina uma profunda calma... Mas não é esta a razão pela qual, segundo a Sagrada Escritura, o mar aparece belo e encantador aos olhos de Deus. A beleza deriva do fato que ela é a base da obra criador de Deus” [1].

A contemplação da natureza é um grande meio que nos ajuda a alimentar-nos da recordação de Deus. Esta é uma das expressões típicas da espiritualidade de São Basílio. Escreve Spidlik: “No pensamento cósmico de São Basílio, o mundo inteiro na sua multiplicidade, no seu ritmo e na sua maravilhosa ordem, não tem outra finalidade a não ser uma recordação de nossos contatos com Deus”. Para o Bispo de Cesaréia, o “próprio” do ser humano é conservar constantemente a memória do Senhor: “Quero deixar em ti uma profunda admiração da natureza, a fim de que em todo o lugar, contemplando as plantas e flores, sejas preso de uma viva recordação do Criador”. [2]

Se trata literalmente de apaixonar-se frente às maravilhas da natureza, porque o mundo representa um espetáculo frente ao qual tudo o mais empalidece. De fato, argumenta São Basílio, os apaixonados pelo teatro ou pela corrida de cavalos são tomados por esta paixão, quanto mais devemos nós permanecer admirados e relembrados “que o Senhor, o grande Autor e Artista das maravilhas do mundo, nos convida a assistir o espetáculo de sua Obras. Evitaremos nós , então, de contemplar, hesitaremos nós em escutar os ensinamentos do Espírito? Não devemos contemplar o grande laboratório da criação divina volvendo o nosso olhar sobre a harmonia do universo, sobre o céu, terra e ar?”[3]

A tradição espiritual do Oriente situa, numa ordem lógica, a contemplação da natureza depois da purificação do coração e antes da contemplação da Trindade. A contemplação da natureza é chamada “Theoria fysikè”. Trata-se da contemplação religiosa do mundo feita com sentidos espirituais elevados da graça para colher os “logos” divinos escondidos em cada ser, ou seja, a bondade de Deus Criador que forjou todas as coisas através do seu “Logos” [4].

Somente assim se supera a exterioridade das coisas e se pode captar e sentir a sua verdadeira linguagem. Trata-se da verdadeira ciência das coisas nas quais o humano purificado e tendo conquistado o coração puro, pode ver dentro das coisas um Plano divino e descobrir a Providência Divina feita toda ela de Amor e Sabedoria. Então a natureza se torna verdadeiramente um livro aberto para conhecer Deus e seu plano de Amor. Máximo, o Confessor, retomando alguns conceitos bíblicos, escreve:

“Não conhecemos Deus na sua essência, mas das suas grandes obras e da sua Providência nos seres. Através dos quais, como num espelho, nós compreendemos a sua infinita bondade, sabedoria e potência”. [5]

Para São Basílio, tudo é uma concretização da Palavra do Criador. Todo ser deve, portanto, falar, narrar a glória do Senhor. O Espírito a perfecciona; assim como o esplendor pertence ao sol, assim a glória do Senhor pertence ao Espírito[6] . A Beleza é sempre relativa, é enviada à Beleza Suprema, por isso é capaz de suscitar na alma o “exultar no Senhor”, porque esta nos lembra que somente o Senhor possui “uma tal Beleza, uma tal bondade e uma tal sabedoria”. A alma exulta porque o Senhor é grande e Belo. Toda a verdadeira Beleza, portanto, sendo um reflexo da Beleza Divina, não distrai o humano de Deus, não o perturba, porque lhe dá um aspecto feliz e doce que lhe torna sereno e jovial.[7] .

A ligação alegre do humano com o Cosmos aparece freqüentemente em vários autores. Máximo, o Confessor sintetiza: “Tudo o que foi criado por Deus nas diversas naturezas, concorre junto com o Humano como numa cozedura, para formar nele uma perfeição única, como uma harmonia formada de diversos sons” [8]. Nemésio, bispo de Emesa, cerca de 400 anos d.C.escrevia que o humano condivide a própria natureza com todas as categorias dos seres e que constitui a coligação ideal com cada um destes seres. O humano é uma comunhão com todas as coisas e participa vitalmente de tudo[9].

Clemente de Alexandria explicava que o Verbo fez do Humano um instrumento composto da harmonia de todo o universo para fazer um hino harmonioso a Deus. Assim o Humano não é um tirano frente à natureza, mas é integrado harmoniosamente nela, nascendo assim uma simpatia que liga o Humano ao Cosmos no Amor e na Amizade. São Basílio Magno exprime este pensamento de forma geral:

“O estar junto ao Cosmos, do qual o Humano faz parte integrante, mesmo que seja composto de partes desiguais, pelo Criador foi estreitamente unido como uma indissolúvel amizade e uma comunhão harmoniosa que os seres, os mais distantes uns dos outros, são entre eles unidos na mesma simpatia”[10]

Por este motivo que Máximo, o Confessor, tem uma concepção cósmica do amor. Para ele graças ao amor se cumpre uma síntese total da Humanidade e do Mundo numa idêntica Unidade. Não são dois amores, um pelo mundo e outro para Deus, mas dois aspectos do único e Indivisível Amor com que se ama o mundo e através dele: Deus! Por este motivo o Humano feito voz das criaturas, cria um Sacerdócio Cósmico, para louvar o Senhor por todas as criaturas. Diz o Confessor: “O universo é uma Igreja Cósmica, da qual a nave é o mundo sensível enquanto o coro é o mundo espiritual” [11]O Humano é convidado a entrar nesta catedral do universo para descobrir sob a direção do Logos, a verdadeira razão dos seres:

“A alma se refugia na contemplação espiritual da natureza como no salão de uma igreja, num asilo de paz... Ela entra junto com o Logos e é conduzida por ele, vosso verdadeiro pontífice. Ali, como por uma leitura divina aprende a conhecer os conteúdos significantes dos seres”[12]
Aqui o Humano se torna o verdadeiro sacerdote do mundo, que oferece a natureza a Deus, com o seu próprio coração como sobre o altar, e faz do íntimo do seu espírito o “Santo dos Santos”, e penetra até o Grande Silêncio de Deus[13].

O humano, mesmo sendo um microcosmo, não está em meio ao universo com um sentimento titânico de superioridade no confronto com a natureza; consciente de seu ser efêmero se põe a serviço do cosmos.

Inspirado e lírico, diz Máximo, o Confessor: “E nós mesmos, por força do imperioso decurso da nossa natureza presente, agora gerados e dados à luz como todos os outros animais terrestres, depois tornados crianças e enfim invadidos pela juventude até chegarmos às rugas da velhice, como uma flor que dura um breve momento para depois morrer e passar para a outra vida, na verdade merecemos chamar-nos um jogo de Deus”[14].

É o sentimento cósmico, a existência considerada como um ato litúrgico, como uma adoração, um culto celebrativo, uma dança sacra e estética.

[1] HEXAMERON, 4,6: PG 29,92 BC.
[2] Idem, 29,97C.
[3] Ibidem, 29,80AB.
[4] RAHNER, K..., Teologia dell’esperienza dello Spirito, Roma, Nuovi Saggi, 1978, 133-163: ROUSSEAU. O. Introduzione a Origene: SC 37 (1957) 21-25
[5] MASSIMO, IL CONFESSORE, Centurie sulla Carità – I, 96
[6] SPIDLIK. T. La sophiologie de S.Basile, Roma. OCA 162, 1961,12
[7] Idem
[8] LOSSKY, V., La teologia mística della Chiesa d’Oriente, Bologna, 1985.98,nota 33
[9] NEMESIO DE EMESA, de Natura Hominis I: PG 40, 505B- 507’535.
[10] HEXAMERON 2,2: PG 29. 33A
[11] MYST: PG 91, 669AB
[12] Idem
[13] H. Von BALTHASAR, Liturgia Cósmica, 337 - 338.
[14] AMBIG: PG 91,1416C

Amanhã continua com o subtítulo "Mais Algumas Idéias Sobre a Contemplação da Natureza nos Místicos Orientais"

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