sábado, 30 de junho de 2007

A CONTEMPLAÇÃO DA NATUREZA - 3ª parte


A Visão Sacramental do Mundo

Os Padres se voltam à Bíblia para sustentar a sua visão otimista sacramental do mundo, e precisamente a Gn 1,10: “E Deus viu que era bom”. Os exegetas da patrística interpretam este trecho lembrando que bom se refere à utilidade das coisas para o Humano, enquanto o belo exprime a alegria fecunda e emergente da própria criação. Os Padres citam freqüentemente esta expressão bíblica para afirmar a Bondade e a Beleza do universo. A bondade e a beleza do mundo derivam da Sabedoria de Deus, criador de tudo aquilo que é. Todo o criado é revestido desta realidade, afirma São Basílio, assim como a água impregna de sua vitalidade uma planta, dando-lhe a possibilidade de revestir-se de cores[1].

Os Padres tendem a ver o mundo como uma “Teofonia” de Deus, uma espécie de sacramento da sua Presença e da sua Beleza. Trata-se de uma verdadeira e própria “cosmologia sacramental”. Todo o mundo é sagrado, porque manifesta o início da encarnação do Logos Divino:

“O mundo é uma coisa boa e tudo nele está colocado em ordem com sabedoria e arte. Tudo, portanto, é obra do Verbo vivente e substancial, porque o Verbo é Deus. É dotado de livre vontade porque é vivente, tem o poder de fazer tudo o que escolhe para realizar, e escolhe somente o que é bom e sábio e tudo o que traz o sinal da perfeição”. [2]

O grande mestre do “sacramentalismo cosmológico” é Orígenes. Para ele o mundo é um mistério, isto é, um sacramento. Mistério é Deus mesmo e tudo o que saiu dele através do Logos. O mundo é feito de sinais significantes que precisam ser lidos para se chegar Àquele que significam. É preciso ter percepção do mistério. “Recordamos que tudo é pleno de mistério”, diz Orígenes, e escreve também: “Tudo o que se alcança, se alcança através do mistério”, pois somente pela graça do Espírito que nós podemos fazer esta leitura. [3]

Máximo, o Confessor, diz: “O fogo inefável e prodigioso escondido na essência das coisas como esteve na sarça ardente, é o fogo do Amor Divino e o esplendor fulgurante da sua Beleza dentro de todas as coisas”. Este fogo Divino é revelado somente através do Fogo do Espírito que leva o mundo a ser contemplado como o grande ícone da Beleza de Deus. [4]


[1] HEXAMERON 5.9PG 29, 113D; 29,76C.
[2] GREGORIO DE NISSA, La Grande Catechesi-VI: PG 45,25C.Trad. Italiana por M. Naldini, Roma, Città Nuova, 1982,60. Cf.a propósito EVDOVIMOV P.N., La teologia della Bellezza, Roma, 1982,126-130.
[3] HOMILIA Lev 3,8: PG 12,433B-434C; HOMILIA Gn 9,1: PG 12,211’12,210-212.
[4] MASSIMO, IL CONFESSORE, de Ambiguis: PG 91,1148C

Amanhã continua com "A Contemplação da Beleza do Mundo"

2 comentários:

Rodrigo Fernandes disse...

Fantástico Blog, Frei Vitório.

Não professo nenhuma religião específica mas de fato me interesso muito por Teologia, Cristologia e etc... Como jornalista já escrevi matérias sobre Fei Betto, Leonardo Boff e outros tantos pensadores da religião.

Agora estou começando a pesquisa para escrever meu segundo romance cujo personagem principal será um frade franciscano. Seu blog, belo e informativo, já está sendo de grande ajuda.

abraços fraternos
Rodrigo Fernandes

Anônimo disse...

Aprendi muito