quarta-feira, 11 de outubro de 2017

A PORCIÚNCULA DE SOROCABA


Meus confrades de Sorocaba, SP, levaram a sério a inspiração original de nosso Pai São Francisco: é preciso reconstruir a casa! E recriaram no pátio do Convento local uma réplica da Porciúncula. Bom Jesus dos Aflitos agora tem também a consolação de Nossa Senhora dos Anjos. A Porciúncula, onde estiver é manancial, este lugar fontal   da mística franciscana, um ícone do berço da Fraternidade. De Assis a Sorocaba é preciso lembrar a vida comum, o amor mútuo, o espaço da prece, da reflexão, do silêncio. É eremo, isto é, espaço para encher-se de graça e bênçãos e reiniciar novamente o caminho.

Se Assis é a capital do espírito, a Porciúncula é lugar necessário, uma luz sobre o caminho. Se você não vai à Assis, o fascínio da Porciúncula vem até você em Sorocaba. A mensagem pulsante do Evangelho, alegria, serenidade, simplicidade, fidelidade, pobreza...tem lugar. A Porciúncula original foi edificada no século X, no ano de 1045. Pertencia aos monges beneditinos do Mosteiro do Monte Subásio, que ali criaram uma pequena porção de santuário, para ajudar o povo que não podia ir nas peregrinações nos santuários mais distantes, podiam fazer a sua desobriga no lugar mais próximo. Santuário é o lugar sagrado onde a presença de Deus se manifesta, o mistério presente da divindade determinando o lugar do culto. No século XIII, os beneditinos doaram a Porciúncula a Francisco de Assis que a reconstruiu e fez um grande encontro entre passado e presente. Na Porciúncula viveu Francisco, os frades primitivos, ali passou Clara, ali morreu o Poverello, ali aconteceram os Capítulos das Esteiras.

A Porciúncula de Sorocaba nos diz que Clara e Francisco continuam mais vivos que nunca e que a sua escolha de Amor atravessa o tempo e marca definitivamente um lugar no mundo. Na Porciúncula a Fraternidade se faz encontro, cresce, contagia e se comunica. Como diz Tomás de Celano: “Em qualquer lugar, no entanto, conheceu por experiência que o lugar de Santa Maria da Porciúncula era repleto de mais copiosa graça e frequentado pela visitação dos espíritos celestes. Por isso, dizia muitas vezes aos irmãos: "Cuidai, filhos, para nunca deixardes este lugar. Se fordes expulsos por uma parte, entrai de novo por outra; pois este lugar é verdadeiramente santo e habitação de Deus. Aqui quando éramos poucos, o Altíssimo nos aumentou; aqui, com a luz de sua sabedoria, ele iluminou os corações de seus pobres; aqui, com o fogo de seu amor, inflamou as nossa vontades. Quem rezar aqui com coração devoto obterá o que pedir” (1Cel 106,2-6).


Em 1210, Francisco pede ao Bispo de Assis e depois aos Cônegos de São Rufino alguma igrejinha para cuidar. Não obteve resposta. Vai então ao Abade do Mosteiro Beneditino, Dom Teobaldo, e este, com o consenso da comunidade monacal, entrega a Porciúncula para uso e moradia dos frades, e pedem apenas uma condição: se o grupo de Francisco crescer, que a Porciúncula seja a Casa Mãe. Dom recebido, dom compartilhado. A igrejinha reconstruída sob o sólido alicerce da Pobreza ganha um sinal: por graça e gartidão com um vaso cheio de óleo ao bem feito pelos beneditinos, há o gesto da retribuição, cada ano, os frades mandavam aos monges um cesto cheio de peixes e os monges agradeciam com um vaso cheio de óleo ( 3Comp 56 e LP 8 ).

E assim a Porciúncula vai se tornando um ícone eterno da experiência primitiva do amor fraterno, do trabalho com as próprias mãos, da proximidade com bosques e leprosários, da pequena cela como moradia, dos primeiro encontro com o Evangelho, da presença dos primeiros companheiros, lugar de preparar-se e partir para a missão. No dia 19 de março de 1212 chega ali a nobre jovem Clara de Favarone. Em Julho de 1216, Francisco consegue do Papa Honório II a Indulgência da Porciúncula ou a Indulgência do Perdão da Porciúncula. Ali Clara e Francisco comum juntos num luminoso banquete espiritual (Fior 15). A amiga especial de Francisco Jacoba de Settesoli, traz o doce conforto na hora de sua morte (3Cel 37-39). A Irmã Morte vem buscar Francisco.

No século XIII, ali estavam os irmãos Bernardo de Quintavalle, Pedro Cattani e Egídio, prontos para sair em missão. No século XXI, aos 08 de setembro de 2017, oito séculos depois, os irmãos Gilberto Piscitelli, Benedito Gonçalves e André Becker, em Sorocaba, nos ensinam que todos temos que ser criativos em fazer renascer a simplicidade primitiva. E refizeram o ideal da Porciúncula: chegar, partir, enviar, sair, regressar, fortalecer, orar, num momento privilegiado de encontro. Em louvor de Cristo, Amém!

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FREI VITÓRIO MAZZUCO

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