sexta-feira, 30 de setembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 14

Para aquele que recebia a investidura era exigida a conversio morum (a mudança de costumes), a prática de virtudes (confira o Código da Cavalaria que trataremos mais adiante). O cavaleiro devia ser sempre um exemplo vivo da conversão dos costumes, prática de caridade, e usar as armas a serviço dos oprimidos e necessitados, ter muita disciplina, cuidar do corpo que está a serviço da milícia.


Tinha que ter a consciência que era um peregrino neste mundo, e que precisava organizar, cada lugar do mundo, segundo sua bondade, isto é, respeitando as forças estabelecidas, organizando, mesmo nas situações mais caóticas, um modelo de ordem celeste. A cavalaria quis ser um estado superior, um modo de viver, por isso soube gozar verdadeiramente, numa imensidade jamais perdida, as coisas, os fatos e a vida. Continua ainda a atrair, continua a evocar, no sonho e no mito, e nos vem dizer que ainda existe uma tarefa para se cumprir.

Vamos, então, ao Código da Cavalaria Medieval. Ela é um conjunto de virtudes buscadas e exercitadas para criar uma prática vigorosa e disciplinada. Vejamos:

FIDELIDADE: É colocar-se a serviço de um valor maior. Ser fiel é acreditar na grandeza da escolha que se fez. Quem se entrega a algo muito grande, não tem dificuldade em ser fiel. A fidelidade leva a não arriscar a vida por pouca coisa, mas entregá-la a algo que vale a pena.

LEALDADE: É a virtude daquele que nunca se afasta do que realmente vale a pena. É a presença que acredita numa causa comum, é companheirismo, a força dos que caminham juntos nos mesmos sonhos, nos mesmos projetos.

OBEDIÊNCIA: A palavra vem do latim medieval ob + audire. Ob significa abertura, acolhida ao espírito, acolhida a inspiração, abrir todos os sentidos para perceber o valor. Audire é escutar mais profundamente, é auscultar, ouvir o que vem de dentro. Escutar um valor maior. Quem escuta a plenitude dos sentidos, quem escuta o valor maior não tem dificuldade em obedecer. Obediência é, portanto, escutar uma grande convocação, uma grande inspiração. É a capacidade de ouvir, acolher e assumir o fio condutor que aos poucos vai surgindo e moldando a vida. É ouvido e olhos bem colados na realidade.

CONTROLE DAS PALAVRAS: É controlar os exageros e excessos de palavras, blasfêmias, calúnias, juízos, palavrões, gírias, expressões muito agressivas, fofocas. É a palavra bem dita. Diz a Legenda dos Três Companheiros, referindo-se a São Francisco: “No entanto, era como que naturalmente cortês nos costumes e nas palavras, não dizendo a ninguém, de acordo com o propósito de seu coração, palavra injuriosa ou obscena; pelo contrário, como era jovem e brincalhão e alegre, propôs jamais responder aos que lhe dissessem coisas vergonhosas. Por isso, sua fama se divulgou por quase toda a província, de modo que muitos que o conheciam diziam que ele seria algo de grande” ( LTC 1,3)

VASSALIDADE ( Ser SERVIÇAL ): É servir por Amor. Não é qualquer atividade feita simplesmente por fazer, mas é ter a consciência que se está contribuindo com o Criador e seus atos de cuidado pela vida. É uma ação bem produtiva e bem atenta às necessidades do outro. Não é um fazer visando lucros e honrarias, mas é o estar voltado, gratuitamente, para a pessoa e para a vida. Não fazer por dinheiro, mas por uma causa nobre. Para Francisco de Assis, este espírito de serviço o moveu a servir leprosos e a trabalhar com camponeses. O serviço f az parte de uma mudança radical de vida, uma conversão. É ir lá e fazer junto; o estar junto com determina o lugar social que se quer abraçar e morar. Toda a ação que se faz está na dependência exclusiva de servir. É ser servo e se fazer naturalmente servo. A sua liberdade e autonomia em servir está em ser servidor de um valor maior.

NOBREZA DE COSTUMES: Este é um termo e uma inspiração virtuosa medieval que quer mostrar algo mais do que uma simples herança, um título, uma tradição familiar do assim chamado “sangue azul”. Quando se fala de nobreza, neste contexto, quer se revelar uma identidade não jurídica, mas sim uma identidade existencial, um modo de ser daquele que tem uma postura nobre, daquele que é naturalmente nobre. Não é um humano qualquer, um humano que se contenta com o banal. É algo mais forte, mais vigoroso! Possui um projeto de vida e o persegue com todas as suas forças. Quem tem claro um projeto de vida sempre tem algo a transmitir, possui um carisma, uma atração muito especial, revela um humano nobre. Afirma R. Delort: “o nobre se distingue por um gênero de vida, por uma mentalidade toda particular, por saber morar, saber vestir, saber exprimir um sentimento, por acreditar em laços edificantes, por inspirar-se em heróis e ter um modelo de vida, por saber ocupar-se, e pelo espírito de combate” ( R. Delort, La vita quotidiana nel medioevo, Roma-Bari,1989,144). Ser nobre é dar um sentido a tudo o que se faz. É não gastar ou desgastar a vida por pouca coisa ( cfr. Fidelidade, Lealdade, Obediência), é ter uma medida de grandeza. “A grandeza de uma época depende da quantidade de pessoas capazes de sacrifícios, qualquer que seja o objeto destes sacrifícios. E neste sentido o mundo medieval não está atrás de nenhuma época. Dedicação é a sua palavra de ordem! (...) Com que coisa começa a grandeza? Com a empenhada entrega a uma causa. A grandeza é uma ligação entre um determinado espírito e uma determinada vontade” ( Jacob Burckhardt ). Ser nobre é ser transparente, sereno, não agressivo, ser cada vez mais nítido e seguro naquilo que se quer.

PRODIGALIDADE: É a virtude exercitada em contraposição à avareza e a ambição. É disponibilidade para dar. Uma pessoa é considerada potente e pródiga em base do que pode oferecer. Um rei, ou um imperador, por exemplo, quando chegava num castelo, dava um banquete para todos, nobres e plebeus; a sua potência era demonstrada nesta generosidade em oferecer, e todos exercitavam a prodigalidade acolhendo o gesto, recebendo com muita abertura. É o saber receber, o que não é tão fácil assim. É um impulso de enamoramento e entrega que se precipita para fora e se desprende em direção a algo ou alguém. Para levar a termo uma entrega é preciso exercitar a acolhida. É dizer: “Sê comigo!”

CORTESIA: É a virtude mais característica do Amor Cortês Cavaleiresco. Quem viveu, conhece , lê ou assiste a realidade e a fantasia das legendas cavaleirescas conhece o reino da cortesia. É um tanto difícil dar uma exata definição de cortesia, pois é todo um vasto mundo de significados. Dante dizia “Uso di corte, quando ne le corti anticamente le virtudi e li belli costumi s’usavano” (Dante, Convívio,II,X,8). Este é um ponto de partida para a compreensão: os costumes e usos da corte para se trabalhar a virtuosidade. Isto compreende uma série de valores: lealdade, generosidade, prodigalidade, fineza no trato, atenção devota à pessoa do outro, gênio do gosto, comunidade dos que amam o belo. Cortesia não é etiqueta, nem regras de civilidade, nem manual de boa educação, mas é uma expressão insubornável de um sentimento interior; é o modo como o outro(a) deve ser amado(a) de um modo verdadeiro. É um relacionamento de respeito, retidão e sinceridade. É não se desconsertar diante de nenhuma situação ou pessoa. É acolher a pessoa na sua grandeza. É colocá-la num Acolhimento de bondade, num clima de bondade para que ela se sinta bem. É deixar transparecer uma serenidade existencial. Um tratamento seguro e amável que eleva a pessoa. É o cuidado com as palavras (cfr. acima o Controle das Palavras). Uma palavra dita de um modo sereno e humano motiva e recupera o humano. A cortesia reluz através de gestos de mansidão, fraternidade, gentileza, paciência, afabilidade e serenidade. Não esqueçam o que repetimos, como um refrão , em todo o nosso curso: uma virtude puxa outras virtudes.

PRUDÊNCIA: É agir com moderação, sem precipitação. É a pessoa cautelosa, comedida e atenta; aquela que evita ocasiões de erros. Sensatez.

CORAGEM: A palavra coragem tem raiz no latim, cor + agere, e significa agir com o coração, agir com a força que vem de dentro, buscar as forças interiores para realizar algo. A ação vem de um impulso da segurança interna. Tem o medo dominado e não precisa de subterfúgios (como armas, por exemplo) para fazer valer o seu poder e seu domínio. O corajoso é aquele que está no domínio do próprio poder.

GENTILEZA: Vem de gen, isto é, o que tem um bom gen, o bem nascido, bem educado, bem criado; tem boa verve. Faz com extrema educação.

HEROÍSMO: É a virtude do herói. Quem é o herói? O herói é aquela pessoa que, por seu conjunto de virtudes, é protagonista de atos que o transformam em melhor vencedor pelas forças das qualidades que o habitam. Passa por situações difíceis e enfrenta os limites, mas carrega isto com galhardia. É a mística da resistência. É firme, decidido, seguro. Para o herói não há indecisão, a indecisão é o espírito não amadurecido para dialogar com a vida.

SEGREDO: É o saber guardar-se. Num mundo onde somos invadidos e consumidos por todos os lados, precisamos acreditar naquilo que está oculto, naquilo que não deve ser contaminado, nem esvaziado. Não é apenas um simples esconder, mas sim deixar transparecer a força de um grande amor, de um grande projeto de vida. Quem foi tocado pelo Amor guarda segredo. Não é apenas o não contar para ninguém. É muito mais que isto! É estar sempre no apreço; é esperar alguém capaz de apreciar. Segredo é comunhão de duas almas e não o barulho da publicidade. É sintonia silenciosa e íntima. É ir à clareza de tudo o que vai se criando no silêncio e não no rumor de ser igual a todo mundo. O segredo é uma coisa preciosa, íntima, profunda. Tem que ser germinado no escondido. A terra não faz assim? Onde a semente nasce e cresce senão no escondido das profundezas do chão? É preciso ser germinado no oculto do espaço da profundidade. O segredo não é posse de si, mas é fenômeno que nasce de si; é o preparo fundamental para o social, para o público. Hoje muita gente que fracassa publicamente porque não tem o recolhimento da profundidade pessoal. Se a semente do que buscamos é grande, então é preciso nos recolhermos para a força da raiz. Quantas vezes não ouvimos esta pergunta que gerou livros, obras, filmes, teatros e ensaios: Qual o segredo de Francisco e Clara? O Amor de Francisco e Clara para com a Dama Pobreza e o Esposo Espelho é algo forte porque descreve o movimento de um crescimento secreto; quanto mais precioso, mais vai para o oculto da raiz, mais nasce, mais desabrocha. Para o mundo não deve interessar o que eles são no segredo dos dois seres sublimados e consagrados; para o mundo deve interessar o que são a partir da obra que realizaram e deixaram há 800 anos. O segredo verdadeiro é o movimento dinâmico da dimensão da profundidade humana. Ao crescer bem no particular torna-se força para o fraterno, para o comunitário.

quinta-feira, 29 de setembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 13

Ser cavaleiro era ter uma Pedagogia Iniciática; ser e viver em constante treinamento e aprendizado. Devia servir como um valete, um escudeiro, um noviço que preparava a ação de um grande senhor. Participar de torneios que reavivavam os sonhos de glória, desejos e esperança de um possível amor. Ter um ideal humano que atravessava a história a combater por algo que fosse bom e compensador. Ter a poesia como transfiguração da realidade sufocando a sua rudez. O tema central desta poesia era o Amor e a mulher, o assim chamado Amor Cortês, um sentimento novo, que não se baseia na atração física, nem na exaltação da sexualidade, mas que fazia da mulher uma imagem ideal. É um puro encantamento pela Dama; o feminino buscado como ideal distante, como uma afirmação de si mesmo. A Dama, a Princesa, bela e distante, é uma metáfora de busca para demonstrar audácia e valor. A mulher aparece como um valioso prêmio, representa uma união real e encarnada com os valores buscados.


Marco Bartoli nos diz: “a cultura cavaleiresca representa uma exaltação do amor e da mulher: na realidade, nas narrativas cavaleirescas, a mulher é sim, colocada como sobre um pedestal, mas quem a coloca é sempre o homem, a quem ela deve esta sua promoção (...) Se registrava uma correspondência precisa entre a vida vivida e a vida sonhada, entre a vivência cotidiana e o imaginário fantástico. As virtudes que eram exigidas da mulher eram: prudência, silêncio, discrição, humildade. Todas estas coisas que faziam uma mulher gentil, isto é, como devia ser a filha de um bom “gens”, de uma boa família aristocrática” (Bartoli Marco, “ Chiara d’Assisi, Roma, Istituto Storico dei Cappuccini, 1989, 36-39).

Os cavaleiros pertenciam a uma Ordem Cavaleiresca. O que significa a Ordem neste caso? Um cavaleiro solitário nem sempre pode manter uma mística completa. Ele precisa de um empenho de vida interior ajudado pelo coletivo. É um encontro entre o aperfeiçoamento pessoal e a força do grupo. Ordem é estar unido à uma entidade com legames sagrados, uma força comum, um espírito comum que vai tomando forma de grupo para manter, de modo comunitário, o sonho de coragem, fé e fidelidade. É viver em confrarias. Sua entrada nestas confrarias não era um sacramento, mas uma série de atos e símbolos com caráter religioso. Havia a Investidura. Pela investidura abençoava-se o cavaleiro, incutindo-lhe favores divinos, a perfeição cristã, as graças necessárias para seu estado, a missão de serviço à Deus e à cristandade.

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quinta-feira, 22 de setembro de 2011

Feliz Primavera!

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 12

O Amor Cortês foi a chama que acendeu sentimentos, ideias e virtudes e deu uma forte motivação para um determinado tipo de vida. O trato ascético e o animado espírito de sacrifício estão estreitamente ligados ao Amor, que, para o cavaleiro, era a transferência ética de um desejo, de um sonho, de um projeto de vida.

A necessidade de dar ao Amor um sentido e uma forma nobre encontra um vasto campo para se manifestar nas conversas corteses, nos jogos e torneios e na poesia das canções de gesta. Em tudo isto, o Amor se sublima e se faz romântico. A concepção cavaleiresca do Amor Cortês não nasce da literatura, mas da vida e do exercício de virtudes que elencaremos mais à frente. O motivo do cavaleiro e da sua dama amada estava presente nas relações da vida real. O cavaleiro é um herói por Amor e este era o elã impulsionante, primitivo e invariável, que deve sempre aparecer e retornar. Mais do que uma paixão sensual é uma abnegação ética, uma necessidade de mostrar a coragem, exibir força, expor-se aos perigos, sofrer, sangrar, passar por desafios e por grandes dificuldades. É a ação heróica cumprida por Amor. O sonho da ação heróica enche de ânimo, incha o coração de orgulho pessoal e dá vida ao amor.

O tema do herói é importante para a cavalaria. É um tema que não envelhece em toda a história da humanidade. As Legendas dos Heróis continuam atuais, os feitos inconfundíveis do herói montado em seu cavalo, armado, invencível, unindo força física e força virtuosa, o justiceiro que alia raça e bondade, doçura e ação. Quem de nós não leu ou assistiu filmes sobre o Rei Artur e os Cavaleiros da Távola Redonda, a Busca do Santo Graal, a Canção de Rolando, El Cid – O Campeador, Don Quixote, Robin Wood, Lancelot – O primeiro cavaleiro, Os cavaleiros Nibelungos; enfim, um mundo de obras que soam como inspiração? Para as Legendas, a história da humanidade tem que ser uma história de inspiração, superação e de edificação. O herói se coloca a serviço de um ideal e nos dá meios para realizar uma tarefa evolutiva. Ele nos recorda que qualquer um pode empreender a jornada interior e assumir a tarefa de se tornar completo.

O tema da Cavalaria pode ser um tema muito questionado; mas é uma instituição feudal que permaneceu no imaginário popular e surge de vários elementos: o econômico (benefícios e privilégios), o social (vassalo, nobre, freqüentador da corte), político (o cavaleiro possuía imunidade jurídica), religioso ( a cristianização do ideal) e militar (uma nova concepção de milícia). Tudo isto gerou o miles, o cavaleiro combatente e o seu conjunto de qualidades e obrigações.

A Europa medieval é um continente que sofre por todos os lados as invasões, o assédio, as incursões dos povos bárbaros. Estes povos são dotados de grande mobilidade guerreira e de ardorosos combatentes. Isto sacudiu e desafiou a capacidade dos defensores da sociedade cristã, que perceberam que não bastava apenas a estratégia de intervir rapidamente, mas ser por demais eficientes e disciplinados. Não podemos deixar de destacar o momento onde a cavalaria iluminou-se de ideais cristãos, e os combatentes mais exaltados religiosamente correram para as Cruzadas, para a defesa da Terra Santa, para proteger peregrinos pelas terras da Síria e Palestina. Num primeiro momento temos a cavalaria como instituição guerreira contra as invasões, com forte influência cristã para transformar a força bruta em força organizada em honra e fé para manter ideais na Igreja e na sociedade. Num segundo momento temos a cavalaria aventurosa, romântica, galante e lírica; que encontra expressão de sentimento na defesa dos fracos e o culto à mulher amada, a Dama Encantadora, misteriosa e sempre distante. O terceiro momento é a decadência, uma imitação fictícia, um heroísmo cômico, uma força quase inútil.

Mas então, o que sobrou da Cavalaria? Um verdadeiro Código de Comportamento, uma ação segundo a verdade, justiça e fortaleza; sob o fundamento da reta consciência e da prática da fé. Uma inspiração para uma via espiritual, e é via espiritual porque conduz ao aperfeiçoamento, a uma qualificação interior. Deve-se arriscar a vida e absorver uma tarefa, ser uma pessoa justa, límpida, correta; o cavaleiro precisa aproximar-se da realidade, graças aos seus dons naturais ou adquiridos, ao tipo ideal codificado no mito. Não pode ser um cavaleiro verdadeiro sem ser ao mesmo tempo um asceta. Trouxe um modo de comportar-se que tornou viável a convivência entre o sacro e o profano, uma tarefa complementar. Se o sacerdote era chamado à administração dos sacramentos como reparação aos danos sofridos na via espiritual, o cavaleiro era convocado a sanar as conseqüências dos erros sob a ordem social, devia instaurar e proteger a ordem civil. O sacerdote era o guia no que diz respeito ao relacionamento com Deus; o cavaleiro procurava manter o bom relacionamento terreno.

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sexta-feira, 16 de setembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 11

O cavaleiro não é somente um célebre arquétipo de um imaginário sempre fascinante, mas foi o meio com o qual o ocidente cristão encarnou, organizou, e defendeu o próprio ideal de humanidade e de sociedade. Um símbolo vindo de longe, porém com uma orientação profunda, que ergueu uma ética e uma espiritualidade diferente daquela dos círculos eclesiásticos; pode-se dizer que criou uma moral leiga. O cavaleiro surge também como uma figura de edificação moral do combatente autônomo e do exército que servia os senhores feudais, uma afirmação concreta da cristandade entre os leigos, uma divulgação apaixonada do humano e do sagrado. Aí é que reside o seu ponto de atração ainda hoje vital; e o chamado que continua a fazer e exercitar constitui, o lado mais profundo do interesse de hoje sobre a função da civilização medieval, num tempo atual onde vivemos uma profunda e geral crise de valores e falência do caráter.

O mundo medieval tem como grande característica no campo das idéias gerais: as concepções religiosas que a tudo invadem e explicam; e, no mundo das ideais do seleto grupo da nobreza, a inspiração cavaleiresca, para reduzir tudo a um belo quadro, onde brilhava a honra e a virtude; um elegante jogo de formas nobres para criar ao menos a ilusão de uma certa ordem. Mas o que é mesmo este ideal cavaleiresco? Enquanto ideal de uma vida bela e justa, a concepção cavaleiresca tem uma característica singular: é um ideal estético na sua essência, composto de uma fantasia muito variada, plena de emoção heróica. Quer ser um ideal ético, quer valorizar um ideal de vida, colocando-se em relação com a piedade religiosa e com as virtudes vividas na nobreza, especificamente na corte. É a misteriosa mistura de consciência moral e ambição que sobrevive na pessoa humana quando já perdeu tudo: fé, amor, esperança. É aquele sentido de honra que sobrou na pessoa, e que, bem trabalhado, torna-se fonte de novas forças. Uma positiva ambição pessoal que é desejo de glória; uma vontade apaixonada de ser lembrado pela posteridade. Uma inspiração que não anda separada do culto do herói, porque a vida cavaleiresca é uma constante imitação, uma luta constante.

Piedade, coragem, austeridade, sobriedade e fidelidade era a imagem de um cavaleiro ideal. Isto não se adquiria sem certa exigência, sem um certo ascetismo. Este mundo de sentimentos ascéticos é a base sob a qual cresceu o ideal até chegar a idéia de perfeição ( per+facere ): uma intensa aspiração a uma vida bela, uma energia animadora. O cavaleiro é o representante de uma liberdade absoluta que se entrega a uma causa. Tem a coragem de arriscar a sua vida por algo muito grande na medida que a causa exige. (Esta reflexão é a síntese de um texto maior e mais aprofundado; cfr. Mazzuco Vitório , “Francisco de Assis e o Modelo de Amor Cortês Cavaleiresco”, Vozes, Petrópolis, 1994,5º edição).

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sexta-feira, 9 de setembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 10

Façamos uma reflexão sobre um dos pontos deste nosso per+curso de Espiritualidade que aborda o Código da Cavalaria Medieval como uma Fonte inspiracional das Virtudes sob a ótica franciscana. Francisco e Clara de Assis viveram na época medieval, tempo este que nos revela uma nítida cultura de amor. Hoje, nós, pós- modernos, temos um velado preconceito sobre a Idade Média, que vaza para nós no redutivo conceito do obscurantismo, da idade das trevas, da inquisição ou do conservadorismo; mas vamos deixar qualquer leitura ideologicamente assim definida, e, façamos uma pergunta: tem a nossa atualidade histórica hoje uma cultura de Amor? Pois a Idade Média tinha e de um modo muito nítido. É neste período que nasce, cresce e é abraçado como um projeto de vida o Ideal do Amor Cortês Cavaleiresco. O que é e o que inspira o Amor Cortês Cavaleiresco? No meio de uma civilização rude, que conhece as batalhas, ambição, o fastígio da glória e das conquistas, o choque entre permanecer no ciclo fechado de feudalismo dominando ou abrir-se para uma nova civilização baseada nas comunas (a organização da civitas, o nascimento das cidades), entre as tensões do poder dos imperadores (que querem unir reinos) e do papado (não podemos esquecer que neste período a eclesiologia tem força de estado e pensa como os impérios ); em meio a toda esta ebulição vai surgindo uma nova linguagem, um novo costume, um sentimento novo, um novo código de comportamento.


O que a sociedade pós- moderna de hoje tem a ver com a medievalidade ainda tão atraente? Por que ela continua a revelar uma originalidade, uma civilização que traz evidente modelo de vivência que pode iluminar e elevar o nível da civilização atual tão carente de modelos de grandeza? A Idade Média, esta época da história tão rica de expressões vitais, nos legou um modelo humano em suas dimensões mais variadas: o monge, o camponês, o intelectual, o artesão, o clero, o mercador, a mulher, a família, o santo, o guerreiro, o nobre, o leproso, o excluído. Mas, sobretudo, o mundo medieval nos passou três tipos que marcaram por demais a sociedade cristã: oratores, bellatores, laboratores, os que oram, os que combatem, os que trabalham. Estes elementos construíram a paisagem social não só deste período, mas encontraram correspondência nos tempos que se sucederam. De todos escolhemos um modelo deste complexo humano medieval que remetia a um princípio, a uma busca, a um projeto de vida. Escolhemos uma grande figura que é um símbolo de toda uma civilização: o Cavaleiro Medieval e seu Código da Cavalaria.

Continua

Imagem ilustrativa de Bergellini

quinta-feira, 8 de setembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA - 9

Pela inspiração da Carta aos Gálatas, a tradição cristã fala dos Doze Frutos do Espírito Santo. Quais seriam e o que são estes Doze Frutos do Espírito Santo? Vamos elencar e tecer um breve comentário:


CARIDADE: É o Amor transformado em prática, em obras, é o Ágape. Caridade é o conceito cristão paulino para a prática do Amor. É o Amor feito gestos concretos de atuação. É o primeiro e grande fruto do Espírito Santo, porque é de fato a fonte e a quintessência de todos os dons e de todas as virtudes. A caridade contem a alma da vida cristã. Como diz o apóstolo Thiago: a fé sem obras é morta. Segundo o Gálatas 5, 14, a Caridade vivida realiza toda a lei e toda a vontade de Deus a nosso respeito. Este é o dom por excelência que o Espírito dá àquele que crê ( Rm 5,5). É o Amor com que Deus ama e o qual é cheio do Espírito Santo, com a sua presença ativa em nós. Faz jorrar em nós o amor como resposta ao amor com que Deus nos ama. A caridade nos faz respirar, inspirar e expirar Deus! ( Rm 8,15 e Gl 4,6). A caridade nos remete para fora, nos leva ao encontro do humano ( 1Cor 12,31 e 13,13).

PRAZEROSIDADE (ALEGRIA, JOVIALIDADE):  é fazer valer o desejo, a orientação mais íntima do coração, da vontade bem trabalhada, o prazer de querer, a paixão da vontade. É escutar mais os desejos; se escuto mais os desejos, atravesso os medos e atinjo uma identidade pessoal mais tranqüila. É desatar os nós para que as energias da vida possam circular. É focar o coração nas práticas, deixar que tudo atravesse o coração; o que passa pelo coração se transforma em Amor. A prazerosidade, a alegria e jovialidade são produzidas e têm a participação do Espírito ( Rm 14,17; 1Ts 1,6). Não é simplesmente uma reação psicológica à consistente e inata disposição de uma alma feliz, mas é a expressão conquistada com a plenitude do Espírito, como diz H. Schlier: “É a explosão da esperança e o eco vital da situação escatológica do cristão”.

PAZ: É a busca da inteireza. Vem das tradições pré-cristãs e está contida nas saudações namaskar, namastê, shalom, pax. A inteireza do ser é trabalhar em si e passar para fora o melhor do divino e o melhor do humano que habita a casa da interioridade. Para o cristianismo é a saudação do Ressuscitado: a paz esteja convosco!  Dizer a paz esteja convosco é a mesma coisa que dizer: “Sê inteiro!”, “Sê inteira!”; é deixar-se moldar pelo sagrado e transformar-se em protagonista desta força divina que age dentro. A prece atribuída a Francisco de Assis, tem em seu refrão o pedido: “Senhor, fazei-me um instrumento de tua paz!”. A paz está intimamente ligada à alegria, à serenidade, à leveza como um dom do Espírito (Rm 14,17; 15,13). No sentido Bíblico e mesmo em seu sentido mais primordial, a paz não é dizer e viver a ausência de inimizade, conflito e guerra, mas é a invocação da integridade, da plenitude da vida em contraposição a uma situação em que a existência e as convivências estão ameaçadas, ou reduzidas a mecanismos de morte. A paz, como dom e fruto do Espírito diz da situação de cuidado amoroso e salvífico para aquele que crê e que é colocado sob tranqüilidade que vem das forças interiores (Rm 8,6; Fil 4, 7).

PACIÊNCIA: É encontrar o ritmo próprio do respeito. É estar no domínio próprio da própria ansiedade. É descobrir uma sabedoria implícita na hora, no instante e curtir bem o momento sem precipitações, sem ansiedade. Ser tolerante e ter a capacidade de suportar conflitos sem sair dos lugares dos desafios. Não é submissão, mas a coragem de dialogar com situações adversas. A palavra paciência vem do latim: patio, pati. Patior = padeço; passus sum = padeci . É padecer, deixar acontecer. Não é sofrimento, mas é atuar com o vigor de estar ali, com um ânimo, com uma força que até então desconhecemos.

BENIGNIDADE: Vem do latim medieval, bene + igneo = estar bem no fogo. Estar bem no fogo da experiência. Incendiar, acender, iluminar. É a chave de ignição que produz a faísca fazendo funcionar o motor. É a força do entusiasmo. Ser benigno é ter a conduta de quem carrega dentro de si uma grande força, uma grande convicção; tem a conduta do Espírito. Floresce a partir da sua interioridade e se entrega com generosidade ( Rm 15,14).

BONDADE: A grandiosidade da vida, a grandiosidade do mundo e das pessoas só é dada para quem tem os olhos voltados para a Beleza e a Bondade de tudo. É o brilho das pessoas e das coisas. O transparente e o transcendente. O que faz a pessoa bonita é a bondade. A virtuosidade é a beleza maior e a mola propulsora de todos os gestos de amor. O que faz o mundo bonito é a bondade e a generosidade esparramada de todas as coisas. A beleza e a bondade dizem respeito ao verdadeiro. A beleza pertence à verdade, à autenticidade. A bondade é como um quadro de mãe amamentando o filho. Quem age a partir do princípio do bel e do bom é eticamente bom. A bondade nos leva à um relacionamento muito positivo com o próximo e com a vida. A bondade gera as virtudes da cortesia, fineza e cordialidade.

LONGANIMIDADE (A GRANDEZA DE ALMA): É a mesma coisa que magnanimidade. É a virtude daquele que tem uma grande alma. Abertura e força para vencer os limites. É benevolência. Aceita situações mais pesadas e difíceis sem se desconcertar. “Tudo vale a pena se a alma não é pequena” (Fernando Pessoa). A alma é a força que comanda as emoções do corpo. De seu forte amor subjetivo passa à objetividade de acolher a todos com a força de sua capacidade de amar. Tem uma disposição psicológica e espiritual natural, flui, esparrama uma índole boa e acolhedora. (1Cor 13,4; Col 3,12).

BRANDURA: Diz o biógrafo São Boaventura, na sua Legenda Maior sobre a Vida de São Francisco de Assis: “Mansidão, gentileza, paciência, afabilidade mais que humana, liberalidade que ultrapassa seus recursos, eram sinais de sua natureza privilegiada que enunciavam já uma efusão mais abundante da graça divina nele” (LM 1,1). Brandura é maleabilidade, suavidade, mansidão, doçura, flexibilidade, maciez, afabilidade. A vida se aninha mais no brando, no flexível. Brandura é evitar a rigidez. No relaxamento, na serenidade, no distensionamento, na soltura é que habita o sadio. O muito rígido, o indevassável tem a patologia, a tensão e a contensão; tem uma vida cheia de nãos. Quando você se levanta pela manhã na virtude da brandura, acorda para a vida com muito mais disposição, todas as coisas estão mais ensolaradas, mais claras, estão mais leves. É preciso estar dentro deste sentimento de leveza; a leveza é o dom do ser.

FÉ: É o princípio esperança, o devir, o já é do ainda não; a dinâmica de acreditar no Divino, na vida e nas pessoas. Fé é ter uma saudade infinita de Deus, uma aproximação rara com o divino. Como diz Erik Erisson, a fé é “a confiança originária”. Fé é crer e deixar ser. Para Anselmo de Cantuária “a fé capacita a razão a chegar a um conhecimento mais profundo” ( fides quaerens intellectum ). É abandono e confiança. Diz Anselm Grun: “Fé é crer em alguém em vez de um simples acreditar em alguma coisa. Ter fé significa que eu confio em Deus. Quem confia em Deus tem um chão seguro sob seus pés” (Grun Anselm,” Virtudes que nos unem a Deus”, Vozes, Petrópolis, 2007, pg 9).

MODÉSTIA: É a ausência de qualquer tipo de vaidade, de narcisismo, de exaltação da pessoalidade e culto à personalidade. É desambição, despretensão... enfim uma simplicidade pura. É uma presença de doçura não forçada em contraposição à presunção. É um estado de abandono à única força: a força do Espírito. A raiz do modesto está em Deus.

CONTINÊNCIA: É ser uma pessoa contida, isto é, aquela que vive a justa medida de todas as coisas. Nem mais nem menos, mas o pronto, o bem acabado. É a virtude que traz a virtude da Temperança, que é a grande virtude que auxilia na arte de controlar e moderar apetites e paixões desenfreadas. É a sobriedade. Domínio de si, ou auto domínio como a virtude que vence as contrariedades. É a vitória sobre os vícios , alguns enumerados em Gl 5, 20-21.

PUREZA DE CORAÇÃO (CASTIDADE): O modo de pensar franciscano chama a Castidade de Pureza de Coração. Puritas é a Fonte, a transparência cristalina do ser. É o que jorra naturalmente do coração; o que está no esplendor do natural, a essência da naturalidade (virgindade). São as fontes da energia do amor, do afeto, da corporeidade (corpo, mente, alma e coração ). Castidade é não jogar estas energias fora, mas espalhar em tudo o que se faz.

Assim podemos terminar aqui a reflexão sobre os Doze Frutos do Espírito Santo. São forças para os nossos passos na marcha impregnada de Espírito, que dá consistência e brilho ao nosso comportamento. Viver em harmonia com o Espírito é opor-se às tensões que a vida oferece. Os Dozes Frutos do Espírito Santo não são um elenco automático de virtudes que recebemos por imposição. Mas fruto é a aceitação da seiva da vida. É meta, é ponto de partida, é abrir-se à força do Espírito para uma maturação (fruto) . Paulo ( Gl 5, 16-25) nos convoca para um estado de maturidade, uma vida dinâmica de busca de valores e virtudes para uma evolução rumo a eternidade.

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terça-feira, 6 de setembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA - 8

Falemos dos Frutos do Espírito Santo. Frutos são a visibilidade da semente. As virtudes nos levam primeiro a amadurecer e florescer por dentro, esta fecundidade salta para fora e tem seus frutos. É a colheita de um paciente cultivo; o que cada um tem feito e semeado com tudo o que a vida tem feito e ofertado na caminhada. Frutos são a transformação do natural; frutos são o cultivo do melhor. É melhor passar fome do que comer qualquer coisa. Vida verdadeira, profissão verdadeira, religião verdadeira é quando se faz uma viagem de cultivo e transformação. Temos que trabalhar com a semente interna que somos; assim ela pode crescer a tais alturas que o mundo do vazio e do sem-sentido deixa de existir.

Na tradição cristã, a inspiração dos Frutos do Espírito Santo vem da Carta de São Paulo aos Gálatas, capítulo 5, versículos 13 a 26. Anselm Grun diz: “O apóstolo Paulo nos mostra a fonte do Espírito Santo que fertiliza a nossa vida a partir dos frutos do espírito divino que ele apresenta na carta aos Gálatas. Paulo compreende o Espírito Santo como uma fonte da qual nascem vários frutos. Trata-se, em última instância, de virtudes que ele assume segundo a ética da filosofia grega (...). Podemos compreender estas virtudes como fontes das quais podemos nos abastecer porque nos ajudam a enfrentar a nossa vida. Quando tomamos consciência de tais valores, estes conferem valor a nossa vida. Em latim se fala das virtutes , ou seja, forças ou fontes de força das quais nos abastecemos para vivermos bem. Essas virtudes nos conectam com o potencial da nossa alma, potencial este que está à nossa disposição para realizarmos a nossa vida. O objetivo de Paulo é que nossa vida tenha êxito. E ao mesmo tempo considera importante o Espírito Santo causar efeitos visíveis em nós. Podemos conhecê-los através de seus frutos. Mas o fruto do Espírito Santo é amor, alegria, paz, paciência, bondade, benevolência, fé, mansidão, domínio de si (Gl 5,22-23). Paulo fala do fruto do Espírito no singular, pois pensa em uma única fonte. O Espírito Santo é a fonte, através da qual o fruto do espírito se torna visível no ser humano” (Grun Anselm, Fontes da Força Interior, Vozes, Petrópolis, 2008, pg 90-105).

Na carta aos Gálatas, em tom exortativo e doutrinal, Paulo empenha-se em apresentar o verdadeiro rosto da liberdade cristã e sua retidão: ela vem das qualidades libertadoras de Cristo: libertar-se do egoísmo, do carnal, da idolatria, das forças negativas. Os frutos do Espírito Santo nos levam a aderir às forças fundamentais da vida, a abrir-se a Deus e à humanidade, orientando a existência segundo os critérios do amor (Gl 5, 13-15). A carta aos Gálatas especifica e concretiza a condição fundamental para que isto se realize: caminhar segundo o Espírito (v.16), deixar-se guiar pelo Espírito (v.18), possibilitar uma intervenção do Espírito, que com seus frutos nos dá os princípios ativos e determinantes da liberdade cristã.

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segunda-feira, 5 de setembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA - 7

Quais são os Sete Dons do Espírito Santo? Eles aparecem nesta forma virtuosa:


Sabedoria, Inteligência, Conselho, Fortaleza, Ciência, Piedade, Temor de Deus (ou Reverência). Vamos elencar os Sete Dons para que nos dê um caminho de virtuosidade:

SABEDORIA: Não vem de saber, mas de sabor. O sábio é aquele que sente o gosto de todas as coisas, que saboreia as experiências. Vai com sede e fome na busca intensa do quer ser e conhecer. É a arte de saborear a experiência da vida. O sábio oferece um conhecimento mais saboroso da verdade, pois a apresenta com mais afinidade, com mais tempero. A via é o paladar, no plano sutil. É ver, sentir, criar gosto com sob os olhos do Bem Amado. Como diz Mestre Eckart: “Deus degusta-se nos meus sentidos”.
O conhecimento passa pelos sentidos e forma o Mestre.

INTELIGÊNCIA: O caminho é o intelecto, o plano mental e intelectual. Intelectual vem do latim: “intelligere”, que quer dizer: estar na força da inteligência. Inter+legere: ler entre as coisas, ler na evidência exterior de tudo o seu interior. Legere significa colher, ajuntar, acolher. É o conhecer, o estudar, o pesquisar. É o aprendizado e ensinamento. O discipulado. A conquista do saber que vem do pensamento lógico e racional. Usar a mente para o conhecimento e o esclarecimento. Instaurar uma consciência que leve a escolher o melhor e mergulhe numa profunda compreensão da existência. O conhecimento passa pela grande bagagem de informação e assimilação e forma o Professor.

CONSELHO: É a palavra precisa na hora oportuna. O direcionamento espiritual, moral, ético e virtuoso. Mostra o caminho. É a troca de experiências como testemunho de vida e apoio. Faz parte da prudência e ajuda a tomar decisões oportunas sem insegurança. Sugere o que fazer nas dificuldades da vida, ensina como falar, a quem falar e quando falar.

FORTALEZA: É não alinhar-se ao lado da fraqueza. É o ideal da força presente nas virtudes. É a força do ânimo diante das adversidades da vida. A vida não é uma luta só contra as contrariedades externas, mas é a luta diária para vencer-se. É não fugir das dificuldades. O forte abraça a grandeza da vida. Para o filósofo Platão, as virtudes baseiam nestas que considera as virtudes cardeais: fortaleza, temperança, prudência e justiça. Para o mundo Bíblico é a força de Deus com quem o humano pode sempre contar ( Dt 4,32-39). A força salvífica que Israel experimenta provém da força de um Deus que ama seu povo. Para os povos bíblicos, a fortaleza vem da fé e da esperança. No NT, a fortaleza é ser como Jesus Cristo, "sem mim nada podeis fazer” ( Jo 15,5). Firmeza, estabilidade e fortaleza devem caracterizar um caminho de fé e de amor ((Jo 15, 4-9). São Tomás de Aquino fala da fortaleza como o “bonum arduum”, que remete à contínua superação das contrariedades; é a obrigação de ser forte. É a superação da vulnerabilidade. O anjo não precisa ser forte, pois não é vulnerável, porém o humano tem que ser porque possui limitações. A fortaleza é superar a fragilidade. Para Paul Tillich, a fortaleza é a superação das angústias existenciais na vida moral. O humano deve superar seus grandes medos: angústia diante da morte (a ameaça de perder o ser); a angústia da culpabilidade (a psicose de que tudo é pecado); e não senso, a falta de noção (o desafio ao ser espiritual). A tarefa da fortaleza é sustentar o ser humano na defesa da sua dignidade, em tudo o que pode ameaçá-lo. É o passo necessário para a via da per + feição; o ser humano como um contínuo fazer-se (ens contingens), é o caminho da realização. Fortaleza é combater o mal com a mesma força de realizar o bem. Fortaleza é resistência: dizer não ao medo, não retroceder, agarrar-se ao Sumo Bem. Fortaleza é empenho em empregar todas as suas energias na construção do humano e de um mundo melhor.

CIÊNCIA: é o conhecer ( con + naitre = nascer junto com a experiência ); é o estar ciente do ser e dos seres. É buscar compreender. Sondar o universo e seus fenômenos (con - siderar). Entrar na realidade de tudo sob a luz de Deus. A verdadeira ciência vê cada criatura como reflexo da sabedoria e bondade do Criador. É dar o devido valor a todas as coisas, às pessoas, aos fatos e às realidades da vida e do mundo.

PIEDADE: Não queremos ligar esta virtude à questão devocional. O devoto que reza com piedade, mas sim a piedade como o modo de ser sensível na arte de relacionar-se. Apiedar-se. Procurar um relacionamento reto e justo que tenha soluções para as dores do outro. Não ter dó, mas orientar o outro para a sua força. É o interesse fraterno que visa o melhor. A piedade nos capacita a enxergar e não camuflar a essência das pessoas.

TEMOR DE DEUS (REVERÊNCIA): Esta virtude é totalmente diferente do medo, do pavor, da paúra, ou como quisermos chamar; também não é “respeito humano”, ou bajulação subserviente e nem uma mera admiração ou respeito de fã. A Sagrada Escritura chama de Temor de Deus, o que é a base da sabedoria: uma profunda reverência. Na concepção franciscana, reverência é a abertura límpída, disposição para perceber a grandeza de Deus e do Mestre. É uma humilde resposta cheia de gratidão, docilidade, cordialidade, benquerança, doação livre, amor e respeito pela imensidão, grandeza, nobreza, humildade e bondade do Criador e todas as suas obras (cfr. Dn 3,57-88.56 ). É um louvor que se abre com admiração, simpatia e respeito à suave força originária. É reconhecer a nossa pequenez diante da Grandeza do Criador. É evitar a presunção e o orgulho reconhecendo a grandeza e a bondade de Deus. Esta virtude torna a alma delicada, fiel, respeitosa (Eclo13). É admiração, maravilhamento, encantamento, caminho de reconhecimento e conquista da verdade do ser e de todos os seres.

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sexta-feira, 2 de setembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA - 6

Dons e frutos são elementos necessários para construir e reconstruir a casa forte e ideal. Quem disse que não existe pessoa ideal ? Pessoa ideal tem um ideal de busca virtuosa. Está sempre buscando o aperfeiçoamento espiritual, emocional, físico. Busca e cultiva um desenvolvimento. Em quantas pessoas, homens e mulheres, não encontramos a confiança, força, liderança, proteção, sustento, objetividade, flexibilidade, sensibilidade, carinho, sinceridade, sabedoria, suavidade, afetividade, sexualidade... Pessoas que têm objetivos claros. Quanto mais alto o objetivo, mais alto chega ao patamar de sua vida vivida com inspiração. Quantas pessoas que encontramos que têm o prazer em viver, têm prazer em cada inspiração, sorriso leve e fácil, e que não despreza nada e ninguém.

Falemos dos Dons do Espírito um tema não muito trabalhado. Hoje, quando se fala de Espírito Santo se restringe à força dos movimentos. Invoca-se o Espírito Santo, mas se reflete pouco sobre os Sete Dons, que já estiveram mais presentes na piedade e devoção. A reflexão teológica do ocidente concentra-se mais em Jesus Cristo; é na reflexão teológica do oriente que o Espírito Santo está mais presente. Quando se fala da Santíssima Trindade e do envolvimento amoroso das Três Pessoas Divinas, o Espírito Santo é o mais desconhecido. Será que não sabemos bem o que fazer com esta força?

No oriente, o Espírito Santo é sempre buscado e percebido como uma força interior, uma interioridade pessoal que se manifesta no comum; tem a sua invocação priorizada na liturgia e faz do cristianismo um cristianismo de contemplação. No ocidente, o Espírito Santo é invocado para fazer funcionar atividades, reuniões, decisões, assembleias, sínodos, hierarquia; e torna-se a prece necessária para um cristianismo de ação. O Espírito Santo não é uma oposição ao corpo e à matéria, mas sim um deixar-se animar pelo Espírito que movimenta a realidade em seu todo. Ele é a luz e o ar que a casa respira, está no espaço infinito que preenche o finito das paredes da casa; é a casa e seu interior.

Quando olhamos a Bíblia, vemos que o Antigo Testamento coloca o Espírito como o absoluto, o sopro, o vento, a brisa, um sentido cósmico ( cfr. Am 4,13; Sl 51,13; Is 63,10; Sab 1,5; 9,17). É o espírito de Deus, o Elohim. No AT, o Espírito do Senhor aparece como YHWH. No NT é sempre um valor teológico e tem uma aproximação cristológica: Espírito do Filho (Gl 4,6) , Espírito de Cristo ( Fl 1,19; At 16,7; 1Pd 1,11). Mas tanto no AT como no NT é o Espírito que traz a sabedoria (Dt 34,9), a verdade (Jo 14,17), a vida (Rm 8,2), a adoção (Rm 8,15). Tem suas ações e seus efeitos. No At sopra, cai sobre, toma conta, espalha, empurra, conduz preenche, desce, vem, entra, fala, guia, vivifica, testemunha ( cfr Nm 24,2; Ez 11,5; 1Sm 16,14; Is 32,15; Gd 13,25; Ez 8,3; Dt 34,99; Mt 3,16; Jo 15,26; At 2,4; Ap 11,11, Mt 10,20; Gal 4,6 ; Jo 6,63; At 5,32). A Bíblia coloca o Espírito Santo em movimento, numa atmosfera de espaço vital entre o humano e o mistério, impalpável e invisível, que põe sempre o humano numa dependência de seu sopro.

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quinta-feira, 1 de setembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA - 5


Temos sempre saudades daquele momento bom que criou em nós a permanência na casa. A casa foi e é o fundamento da nossa cultura, da nossa fé, da nossa educação, das nossas vivências e convivências, lugar de onde partimos para a vida e para onde sempre retornamos. O que aprendemos ali colocou em ação a beleza da vida. Casa é dom. A palavra dom pode ser associada a domus. Os dons são valores naturais da nossa casa; nascemos e fomos naturalmente formados nestes valores. Dominus é o Senhor da casa. Donna, Domina, a Senhora da casa.... Duomo de Milão.... a imponente e gótica casa de Deus (foto ao lado).

Toda atividade que fazemos é a nossa concreta resposta ao Dom da Vida. O mundo da vida provoca e cria em nós os conceitos. Por isso chegou o momento de refletirmos sobre o Dom da Vida, os Dons e Frutos do Espírito. O que significa esta reflexão? Ela nos recorda que é preciso a valorização da experiência das profundezas e da plenitude da existência. A nossa existência é factual, isto é, uma real soma de acontecimentos, mas não se esgota nos fatos. Ela é, necessariamente, a experiência de alguém buscando os sentidos de existir. O dom da vida e os dons do Espírito são os arranjos mais belos da nossa casa. Vale lembrar aqui um texto budista que diz:

“Não crie sofrimento.
Pratique virtude!
Seja senhor de sua mente e de seu lugar.
Eis o ensinamento:
Que todos de sua casa
Possam se beneficiar!”

Dons e Frutos do Espírito precisam ser buscados e cultivados. Há sempre uma verdade ainda não realizada, uma virtude ainda não vivida em nós. Dons e Frutos propõem um elenco de virtudes que são como uma escada que precisamos para entrar e sair da casa. A nossa casa nos coloca no mundo, mas com qualidade. Quem pode formular os mais belos juízos, ter as mais pelas aproximações e os mais maduros relacionamentos? Quem esteve na escuta cuidadosa das virtudes, no observar a vida das pessoas virtuosas e na prática pessoal da virtuosidade. A nossa casa (o Dom) permite as virtudes. A nossa casa faz a festa do humano e nos leva para a festa da convivência humana com qualidade. Dons e Frutos nos preparam para sermos apóstolos do humano. O que caracteriza o estar em casa, o que dá sentido a cada momento da casa, é a virtude. Se não cultivar a virtude a casa não fica arrumada, a vivência se atrofia.

Temos sempre a tendência de rotular as pessoas como boas ou más. Isto não é correto. Pelo fato de pertencer a espécie humana e estar sob o domínio do Dominus (o Senhor da Casa), ela é sempre um valor. Em vez de julgarmos se alguém é bom ou mau, devemos cultivar um contato verdadeiro e ajudar a pessoa a buscar o Dominus (o Senhor da Casa e seus Dons), ajudar a pessoa a ter um Mestre. Ajudar alguém a cultivar a realização, a felicidade. Tirá-la do medo e do investimento no pouco e no limitado. O que muitos chamam de felicidade é apenas 5% do que é realmente a felicidade. Temos que perguntar: Você tem plena certeza de que o sentimento que coloca você perto de alguém é o caminho virtuoso de Amor, ou é o medo de ficar só? Você tem certeza de que a felicidade é só qualquer relação, ou apenas sexo, ou apenas bem-estar? Não podemos duvidar que as pessoas queiram amar, busquem o amor e saibam amar; porém, muitos amam com medo. Medo da solidão. Medo de não dar uma satisfação para a sociedade ou para grupos humanos, inclusive grupos religiosos; um medo que cria uma dependência: tenho que estar ali e justificar como e com quem estou. Medo de parceiros, amigos, familiares. Um medo que não cria naturalidade, mas transforma a pessoa numa sanguessuga, uma esponja de carências.

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