sexta-feira, 16 de setembro de 2011

ESPIRITUALIDADE PARA UMA VIDA VIRTUOSA – 11

O cavaleiro não é somente um célebre arquétipo de um imaginário sempre fascinante, mas foi o meio com o qual o ocidente cristão encarnou, organizou, e defendeu o próprio ideal de humanidade e de sociedade. Um símbolo vindo de longe, porém com uma orientação profunda, que ergueu uma ética e uma espiritualidade diferente daquela dos círculos eclesiásticos; pode-se dizer que criou uma moral leiga. O cavaleiro surge também como uma figura de edificação moral do combatente autônomo e do exército que servia os senhores feudais, uma afirmação concreta da cristandade entre os leigos, uma divulgação apaixonada do humano e do sagrado. Aí é que reside o seu ponto de atração ainda hoje vital; e o chamado que continua a fazer e exercitar constitui, o lado mais profundo do interesse de hoje sobre a função da civilização medieval, num tempo atual onde vivemos uma profunda e geral crise de valores e falência do caráter.

O mundo medieval tem como grande característica no campo das idéias gerais: as concepções religiosas que a tudo invadem e explicam; e, no mundo das ideais do seleto grupo da nobreza, a inspiração cavaleiresca, para reduzir tudo a um belo quadro, onde brilhava a honra e a virtude; um elegante jogo de formas nobres para criar ao menos a ilusão de uma certa ordem. Mas o que é mesmo este ideal cavaleiresco? Enquanto ideal de uma vida bela e justa, a concepção cavaleiresca tem uma característica singular: é um ideal estético na sua essência, composto de uma fantasia muito variada, plena de emoção heróica. Quer ser um ideal ético, quer valorizar um ideal de vida, colocando-se em relação com a piedade religiosa e com as virtudes vividas na nobreza, especificamente na corte. É a misteriosa mistura de consciência moral e ambição que sobrevive na pessoa humana quando já perdeu tudo: fé, amor, esperança. É aquele sentido de honra que sobrou na pessoa, e que, bem trabalhado, torna-se fonte de novas forças. Uma positiva ambição pessoal que é desejo de glória; uma vontade apaixonada de ser lembrado pela posteridade. Uma inspiração que não anda separada do culto do herói, porque a vida cavaleiresca é uma constante imitação, uma luta constante.

Piedade, coragem, austeridade, sobriedade e fidelidade era a imagem de um cavaleiro ideal. Isto não se adquiria sem certa exigência, sem um certo ascetismo. Este mundo de sentimentos ascéticos é a base sob a qual cresceu o ideal até chegar a idéia de perfeição ( per+facere ): uma intensa aspiração a uma vida bela, uma energia animadora. O cavaleiro é o representante de uma liberdade absoluta que se entrega a uma causa. Tem a coragem de arriscar a sua vida por algo muito grande na medida que a causa exige. (Esta reflexão é a síntese de um texto maior e mais aprofundado; cfr. Mazzuco Vitório , “Francisco de Assis e o Modelo de Amor Cortês Cavaleiresco”, Vozes, Petrópolis, 1994,5º edição).

Continua

2 comentários:

Anônimo disse...

Frei Vitório, o "cavaleiro foi um meio". A ética e a doutrina da nossa religião Católica apregoam muito justamente que: "os fins não justificam os meios". Não é Frei? É preciso que os meios utilizados para alcançar um objetivo sejam bons, limpos e corretos, caso contrário, mesmo que o fim almejado seja por si mesmo justo e bom, estará comprometido pelos meios incorretos utilizados.

Sua Bênção.
Denise.

Anônimo disse...

Parabéns! Frei Vitório pelos artigos Espiritualidade para uma vida virtuosa, acompanhei todos pelo blog são fantásticos, apredi muito, sobretudo quando se fala dos frutos do Espirito Santo amei!